sábado, 6 de junho de 2020


“ASSASSINOS MÚLTIPLOS” (“ACTS OF VENGEANCE”), 2017, Estados Unidos, disponível na plataforma Netflix, 1h27m, direção de Isaac Florentine (“Assalto à Casa Branca”), seguindo roteiro escrito por Matt Venne. A história repete um dos clichês mais utilizados em dezenas de filmes. Esposa e filha são assassinadas, a polícia não se esforça e o pai parte para a vingança, fazendo justiça com as próprias mãos. Ao chegar atrasado para a apresentação teatral da filha na escola, o advogado criminalista Frank Varela (Antonio Banderas) se desencontra da esposa Sue (Cristina Serafini) e da filha Olivia (Lilian Blankenship). Ele vai para casa e fica esperando as duas, mas quem chega é a polícia para avisar que elas foram assassinadas. Daí para a frente o roteiro viaja na maionese. Cheio de culpa, Frank ingressa nas lutas de MMA, apanha pra valer e vê esse sacrifício como forma de punição. Numa briga de rua, ele recebe uma facada na perna e tenta estancar o sangue com um livro que estava no lixo. Trata-se de “Meditações”, escritos pessoais e reflexões do imperador romano Marco Aurélio (121 d.C./180 d.C.), que ele adota como livro de cabeceira enquanto se recupera. Ao mesmo tempo, lê também “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu. As duas leituras o convencem a partir para a vingança, incentivando-o a se preparar física e mentalmente. Ele ingressa numa academia de artes marciais e resolve também fazer um voto de silêncio para apurar os outros sentidos.  Enquanto isso, Frank continua a investigar por conta própria até chegar aos criminosos. Exageros à parte, “Assassinos Múltiplos” funciona bem como filme de ação. Tem pancadaria, suspense e muito sangue jorrando. Também estão no elenco a atriz espanhola Paz Veja, grande amiga de Banderas na vida pessoal, Karl Urban, Lilian Blankenship, Robert Forster e Cristina Serafini. O que me surpreendeu favoravelmente foi a excelente forma física de Banderas aos 56 anos, idade que tinha quando atuou no filme. Segundo o material de divulgação, o ator espanhol treinou artes marciais durante meses para o papel. Antes de encerrar o comentário, faço meu protesto quando ao título em português, que não condiz muito com a história. Melhor seria a tradução literal: “Atos de Vingança”. Resumo da ópera: o filme prende a atenção e não economiza nas cenas de ação, garantindo um ótimo entretenimento.

quinta-feira, 4 de junho de 2020


“MY HAPPY FAMILY” (“Chemi Bednieri Ojakhi”), 2017, Geórgia (antiga república soviética), 120 minutos, produção Netflix, direção e roteiro de Nana Ekvtimishvili e Simon Gross. Trata-se de um drama familiar centrado em Manana (a ótima Ia Shugliashvili), uma professora de 52 anos que está em crise existencial por conta da rotina diária com a família conservadora. Ela, o marido, os dois filhos e os pais dela moram todos juntos num apartamento simples e apertado. Logo no café da manhã começam as discussões, que continuam durante o almoço e o jantar. Ou seja, não existe um momento de sossego, que é o que Manana sempre desejou. O marido é ausente, não tem opinião sobre nada, o filho mais velho não trabalha, só fica no computador, e tem ainda o crônico mau humor da matriarca, dona Lamara (Bertha Khapava) que reclama de tudo e pega no pé de todo mundo, inclusive de Manana. No dia de seu aniversário, Manana logo avisa: “não quero festa, não quero bolo, não quero nenhum convidado”, como quem diz “Quero sossego!”. Para o seu desespero, acontece justamente o contrário. A casa enche de parentes, tem bolo, velinhas e cantorias – o povo georgiano deve gostar de música, pois a cada reunião, seja familiar ou com amigos, logo aparece alguém tocando violão e todo mundo canta junto. Manana fica alheia à comemoração, deixando os convidados aos cuidados do seu marido. Como era de se esperar, logo depois Manana avisa que vai sair de casa, alugar um apartamento e morar sozinha. A notícia se espalha pela família e logo em seguida aparecem seu irmão Rezo (Dimitri Oraguelidze) e outros parentes, todos tentando fazer Manana mudar de ideia. A pergunta que todos fazem é por que ela que ir embora, abandonar a família. Ela nunca responde a verdadeira razão, mas quem entende um pouco de psicologia vai saber o por quê, principalmente as mulheres que estão na mesma situação com suas famílias. O filme parece um episódio do seriado da TV Globo “A Grande Família”, mas foge bastante do seu humor. “My Happy Family”, título que representa uma grande ironia, é muito interessante não apenas pela história em si, mas por destacar os costumes, os valores e o comportamento do povo georgiano. É um belo filme, com uma atriz excepcional (Ia Shugliashvili) e um ótimo elenco, embora seja formado, em sua maioria, por atores amadores. O filme estreou na Seção Fórum do 67º Festival Internacional de Cinema de Berlim e depois foi exibido em vários outros festivais mundo afora, conquistando nada menos do que 12 prêmios e outras tantas indicações. O filme é realmente muito bom.      

terça-feira, 2 de junho de 2020


“A SOMBRA DA LEI” (“LA SOMBRA DE LA LEY”), 2018, Espanha, produção da Netflix, 2h06m, roteiro de Patxi Amexcua e direção de Dani de La Torre. A história é ambientada em 1921 numa Barcelona agitada por conflitos entre a polícia e integrantes do movimento anarco-sindicalista, responsáveis por greves e tumultos nas portas das fábricas. Em meio a esse ambiente de alta combustão acontece um assalto a um trem carregado com armamento militar destinado à polícia de Barcelona e ao exército. Claro que as suspeitas recaíram sobre os anarquistas. Para ajudar a polícia local nas investigações, o Ministério da Justiça Federal desloca de Madrid o detetive Aníbal Uriarte (Luis Tosar). Ele é integrado à equipe chefiada pelo inspetor Rediú (Vicente Romero) e logo cai na graça dos novos companheiros por ser bom de briga. Uriarte logo percebe que os policiais de Rediú, assim como o próprio, são bastante desonestos e envolvidos com corrupção, assim como protegem o poderoso chefão mafioso El Barón (Manolo Solo), dono de uma casa de espetáculos de luxo e de outros negócios ilícitos. A captura dos assaltantes do trem transformou-se em ponto de honra para a polícia de Barcelona, que vai atrás dos primeiros suspeitos, justamente os anarquistas/sindicalistas, que, segundo o serviço de inteligência da polícia, estariam se preparando para uma luta armada. O filme conta toda a história dessa investigação, que ocorrerá na base de muita violência, torturas e intimidação psicológica. Merecem destaque como foram reproduzidos os cenários da cidade de Barcelona daquela época, naturalmente à base de computação gráfica, mas você assiste e não percebe, de tão perfeita. Apenas fica deslumbrado pela qualidade da cenografia. Além da história em si, outro fator que torna “A Sombra da Lei” um grande filme é a presença sempre marcante de Luis Tosar, ator que passei a admirar depois de suas memoráveis atuações em filmes como “Cela 211”, “Quem com Ferro Fere”, “Enquanto Você Dorme”, “El Descoñecido” e “Segunda-Feira ao Sol”, entre tantos outros. Completam o elenco Michelle Jenner, Paco Tous, Adriana Torrebejano e o ator argentino Ernesto Alterio. Resumindo: “A Sombra da Lei” é um filmaço!   

segunda-feira, 1 de junho de 2020


“CONTOS DE GUERRA” (“ÁPRÓ MESÉK”) – “Tall Tales” nos países de língua inglesa –, 2019, Hungria, 1h52m, direção de Attila Szász e roteiro de Norbert Köbli. Um filme bastante interessante, um misto de drama de guerra e suspense noir, lembrando os policiais de Hollywood dos anos 40/50. Mas a grande influência parece ter vindo mesmo dos filmes do diretor inglês Alfred Hitchcock, principalmente a utilização da trilha sonora para acentuar as cenas de maior tensão. A história de “Contos de Guerra” é ambientada na Hungria logo após o final de Segunda Guerra Mundial. O ex-combatente Hankó (Tamás Szabó Kimmel), aparentemente um desertor, retorna a Budapeste e, ao ler um jornal local, vê vários classificados de famílias pedindo informações sobre o paradeiro de seus entes queridos que foram para o front. Hankó decide visitar essas pessoas dizendo que foi companheiro de trincheira do tal soldado. Confesso que não entendi muito bem qual era a sua verdadeira intenção: consolar as famílias dizendo que o ente querido foi um herói ou se aproveitar da situação para conseguir alguma vantagem. Quando descobrem sua maracutaia, Hankó foge e se esconde na zona rural, onde conhece Judit (Vica Kerekes) e seu filho Virgil (Bercel Tóth). Bérces, marido de Judit, não voltou da guerra e é dado como desaparecido. Enquanto isso, Hankó e Judit se apaixonam e tudo vai às mil maravilhas até Bérces (Levente Molnár) surgir inesperadamente. A partir daí é que o suspense entra em jogo pra valer, pois Bérces, um sujeito violento, não vai deixar em paz a esposa e o amante, garantindo muita tensão até o desfecho do filme. “Contos de Guerra”, repito, é um filme bastante interessante e que merece ser visto.   

sábado, 30 de maio de 2020


“RIPHAGEN”, 2016, Holanda, disponível na plataforma Netflix, 2h11m, direção de Pieter Kuijpers, com roteiro de Paul Jan Nelissen e Thomas van der Ree. O filme é baseado em fatos reais ocorridos na Holanda durante a 2ª Guerra Mundial. Bernardus Andries Riphagen (Jeroen van Konings Brugge) foi um grande colaborador dos nazistas invasores, denunciando pelo menos 200 judeus , principalmente em Amsterdam. Antes, porém,  chantageava as vítimas, sequestrando os seus pertences – dinheiro, joias, objetos de arte e até imóveis. Ele prometia às famílias judias que assim que a guerra terminasse devolveria tudo aos proprietários. Em seguida, porém, dava os endereços de suas vítimas aos nazistas, que as enviavam para os campos de concentração na Polônia. Quando a guerra acabou, Riphagen foi considerado traidor e maior criminoso de guerra da Holanda. Para não ser preso, conseguiu fugir para a Espanha e depois para a Argentina, onde fez amizade com Juan e Evita Peron, que conseguiram evitar sua extradição para a Holanda. O filme conta toda a essa história e ainda revela os bastidores da vida de Riphagen, como seu casamento com Greetje (Lisa Zeerman), sua ligação com os alemães e como chantageava suas vítimas. Enfim, Riphagen foi um verdadeiro monstro. O filme é excelente e o elenco é ótimo (atuam também Kay Greidanus, Anna Raadsveld e Sigrid Ten Napel), além de uma primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e figurinos. Filmaço!   

sexta-feira, 29 de maio de 2020


“NA PRÓPRIA PELE: O CASO STEFANO CUCCHI” (“SULLA MIA PELLE”), 2018, Itália, disponível na plataforma Netflix, 1h40m, direção de Alessio Cremonini, que também assina o roteiro com a colaboração de Lisa Nur Sultan. O filme é baseado num fato verídico ocorrido na Itália em 2009 e que chocou a opinião pública do país e de toda a Europa. Por aqui, foi pouco divulgado. Desde jovem, Stefano Cucchi (Alessandro Borghi), sempre esteve envolvido em problemas, principalmente por causa do consumo e tráfico de drogas. Ele morava em Roma com uma família bem estruturada, o pai Giovanni (Giovanni Gucci), engenheiro e construtor, a mãe Rita (Milvia Marigliano) e a irmã Ilaria (Jasmine Trinca), com a qual sempre foi ligado. Enquanto estagiava numa das obras do pai, Stefano saiu à noite com um amigo e foi detido pela polícia, que descobriu em sua posse 20 gramas de haxixe e duas gramas de cocaína. Estava começando um de seus priores pesadelos. Ele passou a madrugada sendo espancado por dois violentos policiais que queriam obrigá-lo a confessar o nome do traficante que lhe vende as drogas. Gravemente ferido, foi colocado numa cela gelada e depois medicado, sempre dizendo que havia caído da escada, com medo de uma retaliação dos policiais. Sua condição médica piorava cada vez mais e, enquanto a família buscava informações, Stefano acabaria morrendo no sétimo dia de detenção. Ninguém investigou o que aconteceu, revoltando ainda mais a família de Stefano. Nos meses seguintes, sua irmã Ilaria exigiria uma resposta da justiça italiana. Só assim o processo teve andamento até a identificação e prisão dos policiais envolvidos. Por focalizar o tempo inteiro o sofrimento físico do rapaz com bastante realismo, o filme incomoda e chega a ser bastante desconfortável. Mas é muito bom como denúncia de um crime que abalou o sistema judicial e carcerário da Itália. Destaque especial para o desempenho do ator Alessandro Borghi na pele de Stefano Cucchi. Um show! “Na Própria Pele” estreou simultaneamente na plataforma Netflix e no Festival de Cinema de Veneza 2018, arrancando elogios tanto dos críticos quanto do público. Tal qual a história, trata-se de um filme bastante impactante. Vale a pena assistir!   

quinta-feira, 28 de maio de 2020



“A MULHER MAIS ODIADA DOS ESTADOS UNIDOS” (“THE MOST HATED WOMAN IN AMERICA”), 2017, Estados Unidos, 1h31m – está no catálogo da Netflix. O roteiro e a direção são assinados por Tommy O’Haver. Trata-se do filme biográfico de Madalyn Murray O’Hair, uma dona de casa que nos anos 60 do século passado conseguiu que a Suprema Corte dos EUA derrubasse a obrigatoriedade da leitura da Bíblia nas escolas públicas. Madalyn defendia sua causa afirmando que “A religião é uma questão privada e só deveria ser celebrada dentro de casa ou das igrejas”. Madalyn também questionou a realização de cerimônias religiosas semanais na Casa Branca e contestou a inclusão da frase “In God We Trust” (“Em Deus Nós Confiamos”) nas moedas e notas de dólar. Não bastasse tudo isso, ainda conseguiu que a Constituição do Estado do Texas eliminasse a exigência de acreditar em Deus para os candidatos a cargos públicos. Além disso, ainda participava de debates com padres e pastores, transmitidos pela TV, durante os quais falava um monte de palavrões, ofendia Deus, o Papa e os santos, como também rasgava as Bíblias que estivessem ao seu alcance. Imaginem a repercussão negativa que isso causou num país onde 70% da população segue a religião cristã. Tanto é que, em 1964, ganhou capa na famosa revista Life com o título “The Most Hated Woman in America” ao lado de sua foto. Ao mesmo tempo, fundou a associação “Ateístas da América”, que durante muitos anos arrecadou tantas doações que Madalyn ficou milionária, o que seria motivo para o seu fim trágico, em 1995, quando foi sequestrada, juntamente com seu filho e neta. O filme conta isso e mais um pouco, como as maracutaias de Madalyn (Melissa Leo) para ganhar dinheiro e enganar o fisco. Ela chegou até mesmo a encenar uma farsa com um pastor da igreja cristã – papel vivido por Peter Fonda num de seus últimos filmes antes de morrer, em 2019 – para lucrar ainda mais. Além de Melissa Leo e Peter Fonda, estão no elenco Juno Temple, Adam Scott, Josh Lucas e Machel Chernus. Mas quem carrega o filme nas costas é mesmo Melissa Leo, atriz norte-americana de 59 anos que já tem um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “The Fighter” (2011). “A Mulher mais Odiada dos Estados Unidos” é muito bom, tem um roteiro bem elaborado e atuações bastante competentes.

quarta-feira, 27 de maio de 2020



“CONSPIRAÇÃO TERRORISTA” (“UNLOCKED”), 2017, Inglaterra, produção Netflix, 1h43m, direção de Michael Apted (“Tudo por um Sonho”), seguindo roteiro assinado por Peter O’Brien. O elenco é de primeira: Noomi Rapace, John Malkovich, Michael Douglas, Toni Collette e Orlando Bloom. Mas o filme nem tanto. Não que seja ruim. Como filme de ação até que funciona. Trata-se de um thriller de espionagem centrado na ex-agente da CIA Alice Racine (Rapace), especialista em interrogar suspeitos de terrorismo, mas que agora trabalha numa Ong dedicada a atender refugiados que chegam à Europa. Quando ela recebe o convite de seu antigo chefe na CIA, requisitando-a para ajudá-lo a interrogar um árabe suspeito de planejar um futuro atentado com armas químicas em Londres, Alice acabará se envolvendo num emaranhado de situações de perigo, envolvendo agentes de organizações governamentais como a CIA, M15 e M16, estes dois últimos pertencentes ao serviço secreto da Inglaterra. E dá-lhe tiros, pancadarias, perseguições e muita ação. A atriz sueca Noomi Rapace, revelada nos filmes da Série Millennium (o primeiro foi “Os Homens que não Gostavam de Mulheres"), dá conta do recado com muita competência. Ela é boa de briga e não usa dublê para as cenas mais perigosas, tanto que quebrou o nariz durante as filmagens. Rapace também é boa de língua: fala nada menos do que seis, contando o sueco nativo - islandês, norueguês, dinamarquês, inglês e francês. Além de boa atriz, Rapace também é bonita e muito simpática, conforme pude constatar numa de suas entrevistas à televisão inglesa. Resumo da ópera: apesar de alguns defeitos de roteiro e situações inverossímeis, “Conspiração Terrorista” é um ótimo entretenimento.   

terça-feira, 26 de maio de 2020


Atenção, colegas e amigos cinéfilos, críticos e estudantes de cinema e amantes da Sétima Arte em geral. Não dá para perder “FILMANDO CASABLANCA” (“CURTIZ”), 2018, Hungria, 1h38m, produção Netflix (estreou dia 20 de março de 2020), direção de Tamás Yvan Topolánszky, que também assina o roteiro juntamente com Zsuzsanna Bak e Ward Parry. O filme é todo centrado no consagrado diretor húngaro Michael Curtiz (1886-1962), responsável por “Casablanca”, talvez o filme mais elogiado e badalado do século 20. Falado em inglês e húngaro e ambientado nos primeiros meses de 1942, “Filmando Casablanca” acompanha os bastidores das filmagens do clássico norte-americano, mas o foco central é sempre Curtiz, apresentado como um homem arrogante, autoritário (humilhava aos berros o pessoal da sua equipe, atores e figurantes) e mulherengo ao extremo, mas um gênio da Sétima Arte. Todo em preto e branco, com uma fotografia exuberante de Zoltán Dévényi, o set das filmagens de “Filmando Casablanca” foi construído como uma verdadeira réplica do cenário original, criado nos estúdios da Warner Bros. O filme mostra o alto nível de estresse que tomou conta das filmagens, a começar pelas reuniões entre Jack L. Warner (Andrew Hefler), o produtor Hal B. Wallis (Scott Alexander Young)o chefão do estúdio, e Michael Curtiz, que contavam ainda com a presença do representante (censor) do governo norte-americano, Johnson (Declan Hannigan), que insistia toda hora em interferir no roteiro – as filmagens começaram logo após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, o que resultou na entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Johnson insistia para que o filme servisse como propaganda patriótica em tempos de guerra. Não bastasse isso, Curtiz teria de lidar com a visita inesperada de sua filha Kitty (Evelin Dobos), que não via há muitos anos. Outro fator que atormentava Curtiz eram os pedidos desesperados de sua irmã que tentava fugir da Hungria para não ser mandada para algum campo de concentração (a família de Curtiz era judia). Para aumentar ainda mais a alegria dos cinéfilos, o filme mostra ainda como as gravações foram feitas, as inesperadas mudanças no roteiro e o surpreendente detalhe sobre o avião ao fundo na cena final, construído de papelão sobre uma armação de madeira. Os atores que representam Humphrey Bogard e Ingrid Bergman aparecem sempre de relance, desfocados, uma maneira que o jovem diretor Topolánszky, de apenas 33 anos, encontrou para enfatizar que o astro do seu filme é o diretor Michael Curtiz. Enfim, um filme delicioso que os amantes de cinema terão - como eu tive - o privilégio de saborear. IMPERDÍVEL com letra maiúscula!       


domingo, 24 de maio de 2020


“A PRIMEIRA LINHA” (“PROMAKHOS”, título original em grego, ou “The First Line” nos países de língua inglesa – a tradução para o português é minha, baseado no título em inglês), 2014, coprodução Estados Unidos/Grécia/Inglaterra, 1h43m, disponível na plataforma Netflix. Roteiro e direção são assinados pelos irmãos John e Coertes Voorhees. Para entrar no comentário do filme propriamente dito, vamos aos fatos históricos que serviram de base ao roteiro. No início do século XIX, Lord Elgin, embaixador inglês junto ao império otomano (na época, a Grécia era dominada pelo império otomano), surrupiou do Parthenon, em Atenas, várias esculturas de mármore e levou tudo para a Inglaterra (ficariam conhecidas como “Os Mármores do Parthenon"). Alguns anos depois, Lord Elgin ficou sem dinheiro e vendeu as peças para o British Museum, em Londres. Muitos anos depois, em 2009, a direção do recém-inaugurado Museu da Acrópole de Atenas resolveu contratar dois advogados atenienses para entrar com um processo contra o Britsh Museum com o objetivo de resgatar as peças e devolvê-las à Grécia. Vamos agora ao filme. Os advogados Andreas (Pantelis Kodogiannis) e Eleni (Kassandra Voyagis), representando o Museu de Acrópole, preparam a acusação baseados, principalmente, no valor inestimável que as peças representam para a própria história do povo grego. Já em Londres, numa das primeiras reuniões entre os representantes do British Museum e os advogados do Museu de Acrópole, há uma cena espetacular durante a qual o gerente da Acrópole utiliza hologramas para explicar o dano irreparável que o roubo das peças significou, inclusive colocando em risco a própria estrutura do monumento grego. Os efeitos visuais são incríveis, uma verdadeira aula para historiadores, arqueólogos e arquitetos. As discussões preliminares entre as partes e durante o julgamento são de altíssimo nível, envolvendo questões históricas, filosóficas e jurídicas, tornando-se o grande trunfo deste ótimo filme. Também há que se destacar os cenários da Acrópole, onde as estão o Parthenon e outros monumentos históricos da Grécia. A crise econômica da Grécia, iniciada em 2008, também ganhou espaço no filme, principalmente os protestos violentos ocorridos em Atenas no início da segunda década deste século. As caminhadas dos advogados pelas ruas da capital grega durante as manifestações também merecem destaque. Como última nota, gostaria de salientar a presença, no elenco, dos veteranos atores Giancarlo Giannini, Paul Freeman e Michael Byrne. Enfim, “Promakhos” é cinema da melhor qualidade. Não percam!         

sábado, 23 de maio de 2020


“LOST GIRLS – OS CRIMES DE LONG ISLAND” (“LOST GIRLS”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix, 1h35m, primeiro longa-metragem dirigido por Liz Garbus, conhecida e premiada documentarista. O roteiro foi escrito por Michael Werwie, que adaptou as informações fornecidas pelo livro “Lost Girls: An Unsolved American Mistery”, escrito pelo jornalista Robert Kolker. A história é baseada num caso real ocorrido em 2011 que chocou os Estados Unidos. Cerca de 16 mulheres foram encontradas mortas na região de Long Island (ilha ao sudeste de Nova Iorque). A maioria garotas de programa. As características dos homicídios faziam supor de que se tratava de um serial killer. Desde o início, a polícia não deu muita importância ao caso, ficando evidente que as vítimas, por serem prostitutas, não mereciam um esforço maior. Resumindo, o assassino não foi preso até hoje. O foco principal de “Lost Girls” está todo direcionado para Mari Gilbert (a excelente Amy Ryan), a primeira mãe a exigir da polícia um empenho maior para encontrar sua filha mais velha desaparecida, Shannan (Sarah Wisser). Quando a polícia resolveu se mexer, quatro corpos de mulheres foram encontrados – mais tarde, outros tantos. Sob a pressão da imprensa e da opinião pública, as investigações foram finalmente reforçadas. Sempre ao lado das filhas menores Sherre (Thomasin McKenzie) e Sarra (Oona Lawrence), Mari Gilbert não deu sossego ao detetive Richard Dormer (papel do ator irlandês Gabriel Byrne), além de denunciar o descaso policial para a mídia. Maria chegou até a participar de um grupo de mães e familiares de jovens desaparecidas, o que virou pauta nos principais meios de comunicação dos EUA, transformando o caso numa grande comoção nacional. O filme é muito bom, repleto de suspense e muita tensão. Para reforçar o enfoque realista do caso, a diretora Liz Garbus acrescentou inúmeras cenas dos noticiários dos telejornais da época. Antes dos créditos finais, a verdadeira Mari Gilbert aparece dando uma entrevista – em 2016, ela seria assassinada pela própria filha Sarra. Como dizia minha vó, “desgraça pouca é bobagem”. Resumo da ópera, aliás da tragédia grega: vale a pena assistir “Lost Girls”. Está lá à disposição na plataforma Netflix.      


Passei a admirar o trabalho do cineasta dinamarquês Bille August quando assisti “Pelle, O Conquistador” (1991), filme que conquistou, entre outros prêmios importantes, a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma obra-prima. Depois vieram “A Casa dos Espíritos” (1993), “Mandela” (2007), “Marie Kroyer” (2012), “Trem Noturno para Lisboa” (2013) e “55 Passos (2017), entre tantos outros. Aos 71 anos, August continua em plena forma, como demonstra em seu filme mais recente, “UM HOMEM DE SORTE” (“LYKKE-PER”), 2018, produção Netflix, 2h47m. A história é baseada no livro autobiográfico do escritor dinamarquês Henrik Pontoppidan (Prêmio Nobel de Literatura em 1917), que leva o mesmo nome original do filme, o qual August transformou num verdadeiro épico. Vamos acompanhar a trajetória do jovem Peter Andreas Sidenius (Esben Smed), que um dia resolve sair de casa, em Jutland, para tentar a sorte na capital Copenhague. Além de uma pequena mala de roupas, Sidenius também carregou o trauma de uma infância pobre e uma educação religiosa cristã rígida à base de tabefes. Peter sempre foi considerado um jovem sem futuro, principalmente por não obedecer a religião da família. Peter chega a Copenhague e inicia seus estudos de engenharia. Na cabeça, um projeto revolucionário na área de produção de energia, o que o levaria a conhecer Ivan Salomon (Benjamin Kister), o herdeiro de uma família judia muito rica. Peter é introduzido na família Salomon e, a partir daí, inicia sua ascensão como figura proeminente na sociedade de Copenhague. Casará com a filha mais velha da família Solomon, Jakobe (Katrine Greis-Rosenthal), fará um período de estudos na Áustria com um renomado professor de engenharia e voltará para Copenhague disposto a implementar o seu projeto. Sua arrogância e um orgulho exagerado, porém, serão obstáculos para os seus objetivos e determinarão sua posterior decadência. Enfim, uma história muito interessante que August desenvolveu com maestria, principalmente com relação à primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e os figurinos. Enfim, mais um belíssimo trabalho do cineasta dinamarquês. IMPERDÍVEL!       

quinta-feira, 21 de maio de 2020


“OUÇA O SILÊNCIO” (“HÖRE DIE STILLE”) – a tradução do título em português é minha, já que o filme não chegou por aqui (nos países de língua inglesa, ficou “Hear the Silence”), 2016, Alemanha, 1h34m, direção de Ed Ehrenberg, seguindo roteiro de Axel Melzener. É um drama ambientado em outubro de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, contando a história trágica de um episódio que, aparentemente, foi inspirado em um caso real, já que o filme começa e termina com um áudio em off do que parece ser um interrogatório dentro de uma corte marcial. Vamos à história: um grupo de soldados alemães fica perdido de seu batalhão após uma escaramuça com o exército russo e vai parar numa pequena vila no interior da Croácia, onde só há idosos, mulheres e crianças. Todos os moradores têm descendência alemã e recebem os soldados alemães como seus libertadores, já que temem a chegada dos russos e suas consequências. O fato de falarem a mesma língua facilita o entrosamento entre soldados e moradores. Com a convivência diária, o relacionamento melhora bastante, eliminando aquela desconfiança mútua do início. Surgem até alguns romances. O mar de rosas, porém, acaba quando o tenente Markus Wenzel (Lars Doppler) assassina uma moça e depois é morto num ato de vingança. A partir daí, o clima fica péssimo e, claro, acaba em tragédia. Quando fui verificar se o filme foi ou não baseado em fatos reais, descobri apenas que foi planejado para ser um filme de graduação de estudantes da Academia de Cinema de Munique, mais tarde roteirizado por Axel Melzener, transformando-se, por fim, em “Höre Die Stille”. O contexto é trágico demais, triste e violento, mas não há dúvida que é mais um excelente filme da fonte interminável de episódios da Segunda Guerra Mundial, tanto é que foi premiado em vários festivais mundo afora. Mas passa longe de ser um entretenimento agradável de assistir.      

quarta-feira, 20 de maio de 2020


“O SILÊNCIO DO PÂNTANO” (“EL SILENCIO DEL PANTANO”), 2020, Espanha, produção Netflix (estreou dia 22 de abril), 1h32m, direção de Marc Vigil, seguindo roteiro assinado por Carlos de Pando e Sara Antuña. Trata-se de um suspense psicológico centrado numa figura meio sinistra e misteriosa, tão indecifrável que é conhecido apenas como “Q” (Pedro Alonso, de “La Casa de Papel”), um ex-jornalista que se tornou um escritor de sucesso, especializado em livros policiais. Quando reunia subsídios para o seu próximo romance, que abordará casos de corrupção, “Q” começa a desenvolver um lado psicótico, o mesmo que caracteriza seu personagem principal no livro. Uma de suas primeiras vítimas (do autor ou do personagem?) é um importante ex-ministro espanhol da área econômica, o hoje professor universitário Ferrán Carretero (José Angel Egito). Depois de descobrir que Carretero está envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro em sociedade com uma quadrilha de traficantes, “Q” o sequestra e o mantém preso numa casa isolada à beira do pântano. O sumiço do ex-ministro faz acender o alerta vermelho para a gangue de traficantes comandada pela repugnante Puri (Carmina Barrios), que coloca em campo o seu braço direito, o sanguinário Falconetti (Nacho Fresneda), para tentar descobrir o que aconteceu com Carretero. O filme também retrata a corrupção reinante na polícia de Valência, na figura da delegada Isabel (Maite Sandoval). O resultado final, assim como o filme inteiro, não convence, talvez pela falta de experiência tanto dos roteiristas como do diretor, todos estreantes em longa-metragem, que não souberam explorar uma história que poderia se transformar numa produção interessante. O bom elenco se esforçou e ainda tentou dar alguma dignidade ao filme, mas mesmo assim não foi suficiente. Enfim, não me convenceu.

segunda-feira, 18 de maio de 2020


“MORTE ÀS SEIS DA TARDE” (“PLAGI BRESLAU”), 2018, Polônia, 1h50m, roteiro e direção de Patryka Vegi, que se inspirou em romance do escritor Marek Krajewski. Filme policial centrado na investigação de crimes cometidos por um serial killer em Breslávia (Wroclaw, em polaco), cidade polonesa na região da Baixa Silésia. Os corpos são encontrados com requintes de crueldade, decapitados e queimados, com sinais evidentes de torturas sádicas e violentas - os crimes aconteciam sempre às 18 horas. Aviso: as cenas são chocantes, talvez realistas demais, mas muito bem realizadas. A primeira vítima, por exemplo, é encontrada dentro da carcaça de um boi. A segunda, arrastada aos pedaços por dois cavalos de corrida, e daí por diante. A depressiva e mal-humorada detetive Helena Rus (Malgorzata Kozuchowska) é encarregada de investigar os assassinatos. Para auxiliá-la na missão, Varsóvia envia uma policial especializada em homicídios, Iwona (Daria Widawska), um tipo machão que não leva desaforo para casa. É justamente Iwona que encontrará uma pista mais concreta sobre os assassinatos. Ela descobriu que os crimes podem estar ligados a fatos ocorridos na cidade no Século 18, quando criminosos eram mortos numa tal “Semana das Pragas”. A cada dia, eram executados os condenados por roubo, corrupção, degeneração, calúnia, mentira e opressão. Tudo bem que a história é um tanto mirabolante, mas, de qualquer forma, trata-se de um filme que caminha num bom ritmo, com muita ação e algumas reviravoltas interessantes e surpreendentes. Se há alguns bons motivos para assisti-lo, um deles é a arquitetura em estilo gótico da cidade de Breslávia, garantindo um visual bastante agradável. Uma cidade muito bonita. Para quem gosta de filmes policiais, este é um tiro certo.    

domingo, 17 de maio de 2020


“O DESPERTAR DE MOTTI” (“WOLKENBRUCH”), 2019, Suíça, 1h33m, direção de Michael Steiner, com roteiro de Thomas Mey, representou a Suíça na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. Trata-se de uma comédia cuja história é baseada num livro do próprio roteirista Meyer, ou seja, “A Maravilhosa Jornada Wonkenbruch nos Braços de um Shiksa”. O personagem principal é o jovem Mordechai “Motti” Wolkenbruch (Joel Basman), que vive com os pais judeus ortodoxos na comunidade judaica de Zurique. Com vinte e poucos anos, Motti ainda é completamente dominado pela mãe Judith (Inge Maux Murer), que insiste em incentivá-lo a seguir a tradição judaica, ou seja, casar com uma jovem judia. Ela chega a promover nada menos do que 10 “shidduchs” (encontros forçados entre jovens judeus para gerar casamentos) num único dia, para Motti finalmente encontrar uma esposa, o que resulta em cenas hilariantes. A intenção de Judith vai por água abaixo quando Motti conhece Laura (Noémie Schmidt) na faculdade e se apaixona perdidamente. Só que Laura é uma jovem “shiksa” (não judia) e, ainda mais, alemã. As crises histéricas de Judith ao ver o filho se desvincular das tradições judaicas geram situações bastante engraçadas. Quando Motti resolve raspar a barba e troca a armação dos óculos, ele chega a ser comparado ao diretor Woody Allen, que costuma satirizar os judeus ortodoxos em seus filmes, principalmente nas suas falas em off – Motti faz a mesma coisa, mas dialogando com o espectador. Falado em iídiche, alemão e hebraico, “O Despertar de Motti” é uma comédia muito divertida. Imperdível!     

sexta-feira, 15 de maio de 2020


“NADA SANTO” (“LO SPIETATO”), 2019, produção italiana da Netflix, 1h51m, direção de Renato De Maria, que também assina o roteiro ao lado de Valentina Strada e Federico Gnesini. Baseado em fatos reais, descritos no livro “Manager Calibro 9”, de Pietro Colaprico e Lucia Fazzo, o filme acompanha a trajetória de Santo Russo (o excelente Riccardo Scamarcio), um jovem pobre que se muda com a família da Calábria (sul da Itália) para Milão no início dos anos 80. Logo ele se envolve em confusão e acaba preso. Algum tempo mais tarde, ao lado de seu antigo colega de cela Slim (Alessio Praticò) e o malandro Mario Barbiere (Alessandro Tedeschi), Russo começa a prestar serviços para a Máfia, roubando, matando, sequestrando, traficando. Aos poucos, ele mesmo vai subindo na hierarquia mafiosa, angariando o respeito das outras famiglias. Além de mostrar a ascensão de Russo no mundo da criminalidade, o filme também acompanha a sua vida particular, especialmente seu casamento com Mariangela (Sara Serraiocco), que entra em crise após ele se envolver com Annabelle (a francesa Marie-Ange Casta, irmã mais nova da também atriz Laetitia Casta e tão bonita quanto). O roteiro reserva para o final uma surpreendente reviravolta, que não se enquadra exatamente nos tradicionais desfechos da maioria dos filmes de Máfia. “Nada Santo” agrada não só por sua história, mas também pelo desempenho excepcional de Riccardo Scamarcio, um de meus atores preferidos do cinema italiano, e ainda pela bela fotografia noturna de Gian Filippo Corticelli. Enfim, mais uma ótima produção da Netflix.               

quinta-feira, 14 de maio de 2020


“A ÚLTIMA COISA QUE ELE QUERIA” (“The Last Thing He Wanted”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix, 120 minutos, direção da cineasta Dee Rees, que também assina o roteiro com a colaboração de Marco Villalobos. Trata-se, na verdade, de uma adaptação do livro escrito em 1996 pela jornalista, ensaísta e romancista norte-americana Joan Didion (o título do livro é mesmo do filme em inglês). A história é centrada na jornalista investigativa Elena McMahon (Anne Hathway), do jornal Atlantic Post. Em 1982, ela é enviada como correspondente a El Salvador, ao lado da fotógrafa Alma Guerrero (Rosie Perez), para cobrir o conflito armado entre o exército do governo ditatorial de direita, apoiado pelo Tio Sam, e a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional. Depois de quase serem mortas durante a cobertura, Elena e Alma voltam com material jornalístico que denuncia a participação dos EUA fornecimento de armas para o governo de El Salvador. Quando estava disposta a ir mais a fundo nas suas investigações, Elena recebe a ordem de esquecer El Salvador para cobrir a campanha do republicano Ronald Reagan à reeleição, em 1984. Até aí, o filme segue um roteiro crível. Mas eis que de repente, não mais do que repente, surge na trama o pai de Elena, o trambiqueiro Richard McMahon (Willem Dafoe), que há muito tempo havia abandonado a esposa e a filha. Ele chega contando uma história mirabolante, dizendo que está em meio a um negócio de milhões de dólares e pede à filha para ajudá-lo. Sem saber exatamente do que se tratava, Elena embarca numa aventura maluca que a leva até a Costa Rica, onde descobrirá que o pai estava contrabandeando armas e recebendo como pagamento carregamentos de drogas. Olha só que confusão! Tudo isso para dar a entender que o pai de Elena fornecia armas também para El Salvador (Que coincidência, hein?). Para tornar o roteiro ainda mais confuso, aparecem mais dois personagens misteriosos, Treat Morrison (o canastrão  e péssimo ator Ben Afflek), um agente do governo norte-americano ligado à CIA, e o mais que esquisito Paul Schuster (Toby Jones), que surge na história como um homossexual afetado que mora num casarão à beira do mar do caribenho. Enfim, um filme que se perde a partir da segunda metade, confundindo a cabeça do espectador mais atento com um roteiro dos mais mirabolantes e fantasiosos. De qualquer forma, em meio a um resultado final para lá de decepcionante, dá para destacar a boa atuação de Anne Hathaway, uma boa atriz que ultimamente não tem tido muita sorte na escolha de seus roteiros. Acompanho a trajetória de Hathaway desde o seu filme de estreia, “O Diário da Princesa”, em 2001, passando, entre outros, por “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), “O Diabo Veste Prada” (2006) até “Os Miseráveis”, que lhe valeu o Oscar 2013 de Melhor Atriz Coadjuvante. Depois atuou em bobagens como “As Trapaceiras” e o horrível “Calmaria”, sem dúvida um dos piores deste século, onde contracenou com Matthew McConaughey. Após sua exibição de estreia no Festival de Cinema de Sundance (EUA), “A Última Coisa que Ele Queria” foi recebido com risadas, apesar do desfecho dramático. O filme ainda recebeu severas e contundentes críticas por parte dos comentaristas especializados. Tudo isso para confirmar minha opinião negativa sobre o filme. Eu até trocaria o título em português para “A Última Coisa que Você Merecia Ver”.              

quarta-feira, 13 de maio de 2020


“RAINHA DE COPAS” (“DRONNINGEN”), 2019, coprodução Dinamarca/Suécia, 2h08m, roteiro e direção de Mayel-Toukhy, cineasta dinamarquesa de origem egípcia. A história é centrada na advogada Anne (Trine Dyrholm), especialista no direito das crianças e dos adolescentes, além de trabalhar com mulheres vítimas de estupro ou agressão física. Sua reputação profissional é das melhores em Copenhague. Ela é casada com Peter (Magnus Krepper), médico também conceituado, seu segundo marido. Os dois vivem um casamento tranquilo, dedicando-se em grande parte do tempo às duas filhas gêmeas. Tudo vai às mil maravilhas até a chegada de Gustav (Gustav Lindh), filho do primeiro casamento de Peter, um adolescente rebelde que acaba de ser expulso de um internato em Estocolmo (Suécia). Acostumada a lidar com jovens problemáticos, Anne aceita receber Gustav em casa, mesmo com uma certa relutância por causa das gêmeas. Mas Gustav interagiu bem com a madastra, com o pai e as novas irmãs. Até o dia em que mostrou seu lado de menino malvado, roubando vários pertences da casa. Anne descobriu, mas não denunciou o enteado, fortalecendo a amizade entre ambos. Aos poucos, porém, desiludida com o casamento um tanto morno, Anne faz a besteira de se entregar de corpo e alma – principalmente de corpo – para o jovem. Aí a coisa desanda, pois a relação é descoberta e, a partir daí, o filme se transforma num suspense envolvente, de grande tensão psicológica, até o triste mas não surpreendente desfecho. O principal trunfo de “Rainha de Copas” é realmente o desempenho magistral da fabulosa atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, cuja trajetória acompanho desde que atuou no polêmico “Festa de Família” (1998), de Thomas Vinterberg, passando por “Em Um Mundo Melhor”, “O Amante da Rainha” e “A Comunidade”, entre tantos outros. “Rainha de Copas” foi o grande vencedor do Prêmio do Público no Festival de Sundance (EUA). Resumo da ópera:  cinema da melhor qualidade. IMPERDÍVEL!

segunda-feira, 11 de maio de 2020


“ROSIE – UMA FAMÍLIA SEM TETO” (“ROSIE”), 2018, Irlanda, 1h26m, direção de Paddy Breathnach (de “Viva”, filme rodado em Cuba), com roteiro de Moe Dunford (ator no filme) e Roddy Doyle. Ao estrear na Seção Contemporary World Cinema do Toronto International Film Festival, em 2018, esta produção irlandesa foi alvo de rasgados elogios da crítica especializada e do público. Trata-se de um drama muito triste, que acompanha, durante dois dias e duas noites, uma família em Dublin sem um teto para dormir, em pleno inverno irlandês. Rosie Davis (Sarah Greene), mãe solteira de quatro crianças, mais o namorado John Paul (Moe Dunford, o roteirista), são despejados da casa onde moravam e ficam sem ter para onde ir. Passam o tempo todo dentro do carro para se proteger do frio, Rosie a trocar as fraldas do mais novo, fazer a lição com outra e ainda levar a mais velha ao colégio. Ao mesmo tempo, Rosie fica no celular tentando encontrar um quarto de hotel, o que é impossível, pois todos de Dublin já estão ocupados por causa de um show de Lady Gaga. Enquanto isso, John Paul trabalha como ajudante de cozinha num restaurante, e o que ganha mal dá para comprar comida para a família. Mesmo com a situação de mal a pior, o casal mantém a esperança de dias melhores, incentivando as crianças a acreditarem nisso, embora a realidade mostre um quadro bem desolador. O filme foi realizado tendo como pano de fundo a crise habitacional da Irlanda, país com a maior taxa de famílias sem-abrigo da Europa por causa da especulação imobiliária. Não é nada fácil assistir ao sofrimento do casal e das crianças confinadas num carro, mal tendo o que comer ou vestir. Muito triste. De qualquer forma, o filme é muito bem feito, uma fotografia primorosa e uma atriz sensacional, Sarah Greene, que carrega o filme – e os filhos e o namorado – literalmente nas costas. Recomendo separar, no mínimo, uma caixa de lenços de papel. Chororô garantido!      

“MENTIRAS PERIGOSAS” (“DANGEROUS LIES”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix (estreou dia 30 de abril de 2020), 1h36m, direção de Michael Scott, com roteiro de David Golden. Trata-se de um suspense policial daqueles em que todos os personagens são suspeitos e só no final é revelado o verdadeiro assassino. “Mentiras Perigosas” começa com um casal em dificuldades financeiras. Katie (Camila Mendes) trabalha como atendente em um bar e seu marido Adam (Jessie T. Usher) estuda para ingressar na faculdade de medicina. Ou seja, só o trabalho de Katie não sustenta os gastos do casal. Para reforçar o orçamento, Katie arruma um emprego como cuidadora de Leonard (Elliot Gould), um velho solitário e cheio da grana. Adam também vai trabalhar na casa como jardineiro. A morte misteriosa do velho muda totalmente o destino do jovem casal, pois Leonard deixou um testamento doando toda a sua fortuna para Katie. Aí tem coisa, logo pensou a detetive Chesler (Sasha Alexander), encarregada de investigar o caso. Além do jovem casal, o roteiro coloca como suspeitos um corretor imobiliário (Cam Gigandet), um dono de agência de empregos (Michael P. Northey) e a própria advogada de Leonard (Jamie Chung). Enquanto o suspense segue em frente fornecendo pistas contra todos os personagens, a policial não larga do pé do jovem casal, que já está morando na bela casa do falecido e usufruindo a grana herdada. Recheado de clichês típicos do gênero, “Mentiras Perigosas” chega ao desfecho sem uma conclusão satisfatória, o que acabou prejudicando o resultado final, além de um elenco não muito convincente. De bom mesmo, destaco a presença do veterano Elliot Gould, que eu não via na telinha faz algum tempo, e da atriz Camila Mendes, a “Veronica Lodge” da série Riverdale, que, embora nascida nos EUA, é filha de brasileiros.    

domingo, 10 de maio de 2020


“ENQUANTO A GUERRA DURAR” (“MIENTRAS DURE LA GUERRA”), 2019, Espanha, 1h47m, roteiro e direção do premiado cineasta chileno Alejandro Amenábar, radicado na Espanha desde 1973. Trata-se de um drama histórico baseado em fatos reais, ambientado em 1936 na cidade de Salamanca. Aqui, vivia o famoso escritor e filósofo humanista Miguel de Unamuno (Karra Elejalde), intelectual respeitado por várias correntes de pensamento em toda a Espanha e Europa. Por seu apoio ao governo republicano, Unamuno havia sido nomeado para o importante cargo de reitor da Universidade de Salamanca. A trama do filme gira em torno desse riquíssimo personagem e como ele vê toda a questão histórica que se desenrola na Espanha. Em 1936, descontente com os rumos tomados pelo governo republicano, Unamuno vê com bons olhos o golpe militar iniciado pelos militares comandados pelos generais Emilio Mola (Luis Callejo) e Francisco Franco (Santi Prego) e passa a apoiá-los, o que lhe custa o cargo de reitor da universidade. Porém, quando os militares começam com suas atrocidades, prendendo, torturando e matando intelectuais, professores e artistas, muitos deles seus amigos de longa data, Unamono passa a criticar Franco e os militares, culminando com um violento discurso durante a solenidade na aula magna da Universidade de Salamanca, da qual só saiu vivo por interferência de Carmen Polo (Mireia Rey), justamente a esposa do generalíssimo Franco e sua grande admiradora. O filme é pródigo em diálogos bastante elucidativos sobre a situação política na Espanha naquela época, além de revelar os bastidores de alguns dos momentos mais importantes da Guerra Civil, como, por exemplo, a reunião da junta militar que elegeu Franco como o comandante supremo do golpe. “Enquanto a Guerra Durar” é mais um excelente filme de Amenábar, que já havia nos presenteado com pequenas obras-primas como “De Olhos Abertos”, “Os Outros” e “Mar Adentro”, este último premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005.