sábado, 22 de junho de 2019


“CHOQUE E PAVOR – A VERDADE IMPORTA” (“SCHOCK AND AWE”), 2017, Estados Unidos, 1h32m, direção de Rob Reiner, com roteiro de Joey Hartstone. Baseada em fatos reais, a história aborda os bastidores da cobertura da imprensa norte-americana após os atentados de 11 de setembro de 2001. Primeiro, as tentativas fracassadas de capturar Osama Bin Laden no Afganistão. Logo depois, o alvo do governo norte-americano seria o Iraque de Saddam Hussein. Para justificar a invasão do país árabe, o governo Bush garantia que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Será que isso era verdade? O governo norte-americano afirmava que sim, mas não apresentava provas concretas. É aí que entram em ação os principais órgãos de comunicação do Tio Sam. O filme apresenta os fatos a partir da cobertura de dois jornalistas da editoria política da empresa Knight Ridder, especializada na publicação de jornais e internet. Designados pelo editor-chefe John Walcott (papel do diretor Rob Reiner), Warren Strobel (James Marsden) e Jonathan Landay (Woody Harrelson) saíram a campo para verificar se realmente o Iraque tinha o tal arsenal de armas de destruição em massa. Uma parte da imprensa norte-americana defendia a invasão, confiando nas versões oficiais do governo, principalmente os conservadores The Washington Post e o The New York Times. A disputa pelas informações corretas levou a imprensa norte-americana a uma verdade guerra. O editor John Walcott até chegou a contratar o jornalista Joe Galloway (Tommy Lee Jones), veterano na cobertura da Guerra do Vietnam, para auxiliar os trabalhos investigativos. O filme, elaborado num ritmo ágil, quase alucinante, destaca muitas informações importantes sobre aquele período histórico e revela as sequelas da guerra sobre os jovens soldados que morreram ou voltaram mutilados. A pergunta que ficou no ar: valeu a pena sacrificar tanta gente, incluindo as perdas humanas da população civil do Iraque? O filme é excelente, justificando a fama de Rob Reiner como um dos cineastas mais importantes da atualidade – é só lembrar que ele é responsável por filmes como o clássico “Conta Comigo”, “O Lobo de Wall Street”, “Um Amor de Vizinha” e tantos outros. “Choque e Pavor” também tem mulheres bonitas: Jessica Biel e Mila Jovovich. Filme indicado para estudantes e profissionais de jornalismo, mas o público em geral deve assistir também, pois contempla um fato histórico da maior importância.     

quinta-feira, 20 de junho de 2019


“O PACIENTE”, 2018, Brasil – Globo Filmes – 1h40, direção de Sérgio Rezende, com roteiro de Gustavo Liptzein. O filme revela, com detalhes, tudo o que se passou durante os dias em que Tancredo Neves ficou internado. Os bastidores desse período, ilustrados com imagens da época, estão no filme de Sérgio Rezende, cineasta que se notabilizou por realizar obras enfocando personagens e eventos históricos nacionais, entre as quais “Guerra de Canudos”, “Mauá – O Imperador e Rei”, “Lamarca” e “Zuzu Angel – assisti a todos, ótimos. No caso de “O Paciente”, o roteiro foi adaptado do livro “O Paciente – O Caso Tancredo Neves”, escrito pelo historiador Luís Mir e lançado em 2010. Para escrever o livro, Mir fez uma extensa pesquisa e realizou várias entrevistas com os envolvidos, além de ler os prontuários médicos e documentos, até então confidenciais, do Hospital de Base de Brasília e do Instituto do Coração, em São Paulo. O drama começa três dias antes antes da posse, quando Tancredo (Othon Bastos) começa a sentir fortes dores abdominais. Ao contrário dos conselhos médicos, que recomendaram uma operação urgente, já que se tratava de uma apendicite, Tancredo se recusou a ser operado, pois queria de qualquer jeito tomar posse e evitar uma possível crise institucional. Ele temia, por exemplo, que se caso José Sarney assumisse em seu lugar, o então presidente João Figueiredo não aceitaria entregar a faixa, o que de fato aconteceu. Tancredo piorou e aí ele foi submetido a uma primeira cirurgia, que revelou não ser o caso de apendicite e sim de diverticulite. O filme segue revelando detalhes dos bastidores, o sofrimento de Tancredo com as várias cirurgias e procedimentos, a angústia da família – e de todo o País -, as desavenças entre os médicos – quase teve pancadaria -, o despreparo não só dos médicos como do Hospital de Base de Brasília, e a transferência do ilustre paciente para o Instituto do Coração, em São Paulo, onde acabaria falecendo no dia 21 de abril de 1985, deixando o posto vazio para o glorioso José Sarney – e deu no que deu. Além de Othon Bastos, em atuação comovente, estão no elenco Leonardo Franco, Paulo Betti, Leonardo Medeiros, Esther Góes, Otávio Müller, Eucir de Souza, Luciana Braga, Emílio Dantas e Lucas Drummond. Achei o filme excelente, tenso, revelador, angustiante, reservando para o seu desfecho Milton Nascimento cantando “Coração de Estudante” – de marejar os olhos. Imperdível!     

quarta-feira, 19 de junho de 2019


“O PAI DE ITALIA” (“IL PADRE D’ITALIA”), 2017, Itália, 1h22m, direção de Fabio Mollori, que também assina o roteiro com a colaboração de Josella Porto. A história começa mostrando a tristeza do jovem homossexual Paolo (Luca Marinelli), devastado com o fim do relacionamento de oito anos com o namorado Mario (Mario Sgueglia). Ainda em depressão e com a intenção de esquecer o antigo amante, Paolo vai a uma discoteca gay tentando conhecer um novo parceiro, mas quem ele acaba conhecendo é a jovem Mia (Isabella Ragonese, ótima), que faz bico como cantora em "inferninhos", mas nunca se destacou. Ela também está em fase depressiva, depois de ser abandonada grávida pelo namorado. Ou seja, juntou a fome com a vontade de comer. Paolo se propõe a ajudar a moça a encontrar o pai da criança. Para isso, pega “emprestado” o carro de serviço da loja de móveis onde trabalha. Paolo e Mia saem de Turim e iniciam um verdadeiro périplo turístico, passando por Asti, Roma e chegando até Nápoles, onde mora a família conservadora de Mia. O filme se transforma num road movie. Afinal, quem assumirá a filha que Mia está esperando? Claro, “O Pai de Italia”. Mas quem será? Assista e desvende o mistério. Não é que o filme seja ruim, mas achei exagero o fato de que tenha sido premiado em vários festivais – na verdade, nenhum que seja importante. Enfim, vale pela excelente atuação da dupla principal de protagonistas e pelos cenários deslumbrantes, valorizados pela ótima fotografia assinada por Daria D'Antonio, além de alguns momentos sensíveis e comoventes.     

segunda-feira, 17 de junho de 2019


“GLORIA BELL”, 2018, EUA, 1h41. Trata-se do remake do filme chileno “Glória”, de 2013, que disputou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O roteirista e diretor Sebastián Lelio é o mesmo do original chileno. Gloria Bell (Julianne Moore) é uma cinquentona divorciada há quatro anos que, para espantar a solidão, costuma ir às discotecas de Los Angeles frequentadas por pessoas de meia-idade. Abro aqui um parêntese especial para destacar a deliciosa trilha sonora, com hits da disco anos 70, como “Ring My Bell”, “Gloria” etc., além de Paul McCartney. Bem, voltemos à história. Entre um e outro romance/sexo casual, Gloria acaba conhecendo Arnold (John Torturro), um sujeito também solitário e divorciado, que vive em função dos problemas das filhas. O romance entre os dois transcorre aos trancos e barrancos, principalmente devido à insegurança de Arnold, situação que segue até o desfecho, quando Gloria Bell resolve agir com força e determinação, características de sua personalidade. Resumo da ópera: o filme é bom, mas inferior ao original chileno. Seu único trunfo é contar com a maravilhosa Julianne Moore, cuja atuação também é espetacular, como a da chilena Paulina Garcia – só que Julianne Moore não teve coragem de encarar o nu frontal de Paulina, apesar de aparecer nua em várias cenas. Nunca fui fã do ator John Torturro e continuo não sendo. Acho ele um chato. Todos os remakes que assisti foram mais fracos que os originais. Posso até citar alguns: “Olhos da Justiça”, com Julia Roberts, adaptação do espetacular argentino “O Segredo dos Seus Olhos”; o sueco “Millennium: Os Homens que não Amavam as Mulheres”, que Hollywood transformou em remake; o francês “Os Intocáveis”, que ganhou versões do cinema argentino e do norte-americano; “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”, original argentino, copiado pelo cinema francês como “Um Amor à Altura”.   

domingo, 16 de junho de 2019


Será possível fazer um bom drama romanceado dentro do depósito de mercadorias de um supermercado? E ainda incluir cenas poéticas com uma empilhadeira? O drama alemão “NOS CORREDORES” (“IN DEN GÄNEM”), 2018, prova que sim, graças à criatividade e à sensibilidade do roteirista e diretor Thomas Stuber, que conseguiu um resultado final recheado de cenas tocantes, sem deixar de lado o humor. A história é centrada no jovem Christian (Franz Rogowski), um sujeito solitário, tímido, triste e misterioso - aparentemente com um passado obscuro. Ele é contratado por um supermercado para trabalhar como ajudante do setor de bebidas. Seu chefe é Bruno (Peter Kurth), um cinquentão boa gente que ensina tudo o que sabe a Christian, inclusive dirigir empilhadeiras para recolher ou estocar mercadorias. Independente do cargo acima, Bruno faz amizade com Christian. Este, por sua vez, trabalha sério e ganha a confiança não só de Bruno como dos demais colegas de trabalho. Christian também faz amizade com Marion (Sandra Hüller), uma mulher que vive um casamento infeliz. Christian logo se apaixona por ela, mas por causa de sua timidez e pelo fato da moça ser casada, resolve não tomar a iniciativa. Mas tá na cara que ela também se afeiçoa por Christian. Praticamente toda a ação do filme transcorre num único cenário, justamente os corredores do setor de abastecimento. Eu já conhecia o ótimo ator Franz Rogowski do filme “Em Trânsito”. Ele é aquele ator que um dia eu comparei ao norte-americano Joaquim Phoenix, inclusive pelo lábio leporino. "Nos Corredores" recebeu vários prêmios em festivais pelo mundo afora, inclusive no 68º Festival de Berlim, em fevereiro de 2018, onde teve sua primeira exibição. Drama alemão da melhor qualidade.    

sábado, 15 de junho de 2019


“TRAGO COMIGO”, 2016, Brasil, 1h24m, direção de Tata Amaral. Em 2009, Tata Amaral dirigiu uma minissérie produzida pela TV Cultura, em que tratava das memórias dos anos de chumbo da Ditadura Militar. O mesmo tema proporcionou a ideia de se criar um filme, com o mesmo nome e a mesma diretora, mas com uma concepção diferente, um filme/peça teatral dentro de um filme. Ótima ideia, desenvolvida com muita competência pelos roteiristas Thiago Dotori e Willem Dias. Vamos à história: Telmo Marinicov (Carlos Alberto Riccelli, em ótima atuação) é um ex-ator de teatro que militou na luta armada, lá pelo final da década de 60, assaltando bancos e cometendo sequestros e atentados. Depois de preso e exilado, Telmo volta ao Brasil e se consolida como um dos mais importantes diretores de teatro. Numa entrevista que concede a um documentário falando sobre aquela época, Telmo tem um lapso de memória ao ser questionado sobre sua namorada e militante Lia. Ele não consegue lembrar o que aconteceu com ela. Telmo resolve então montar uma peça teatral em que revive os momentos mais marcantes de sua militância. O enredo do filme destaca desde a seleção de atores, jovens e amadores, os ensaios num velho teatro reformado e a dificuldade de Telmo em transmitir o comportamento e a ideologia dos jovens militantes na época dos anos de chumbo. Apesar do contexto dramático, ainda há espaço para boas tiradas de humor. Durante a projeção, o espectador terá a oportunidade de ouvir vários depoimentos emocionados de militantes que foram vítimas da repressão, acabaram presos e submetidos a interrogatórios na base da tortura. O filme se desenrola praticamente num cenário, ou seja, no palco onde a peça é ensaiada. Mesmo assim, não há um minuto de conforto ou monotonia, pois a vitalidade das situações e dos diálogos prende a atenção até o desfecho revelador. Além de Riccelli, estão no elenco, entre outros, Georgina Castro, Selma Egrei, Felipe Rocha, Emílio Di Biasi e Maria Helena Chira. "Trago Comigo" é ótimo, capaz de comprovar que ainda existe vida inteligente no cinema nacional. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019


“O ÚLTIMO GOLPE DE MARTELO” (“Le Dernier Coup de Marteau” – a tradução em português é minha, já que o filme não chegou por aqui – nos países de língua inglesa, ganhou o título de “The Last Hammer Blow”), 2014, França, 1h22m, segundo longa-metragem escrito e dirigido pela cineasta francesa Alix Delaporte. A história toda é centrada no adolescente Victor (Romaín Paul), de 13 anos, que vive com a mãe doente Nadia (Clotilde Hesme) num velho e maltratado trailer à beira-mar na periferia pobre da cidade de Montpellier. Victor está dividido entre cuidar da mãe, que tem um câncer terminal, e participar dos treinos de uma equipe de futebol amadora, da qual é um dos atletas de maior destaque. Quando sua mãe desiste de reformar o trailer por não ter dinheiro e comunica a Victor que pretende se mudar para a casa dos pais, em outra cidade, o garoto sai em busca de ajuda do seu pai biológico, o maestro Samuel Rovinski (Grégory Gadebois), regente da Orquestra Sinfônica de Montpellier. Rovinski não sabia da existência do filho e o encontro dos dois reserva ao espectador alguns momentos comoventes e sensíveis do filme, cuja primeira exibição aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Veneza, durante o qual Roman Paul recebeu o Prêmio “Marcello Mastroianni” de Melhor Ator Jovem. Para aumentar ainda mais o tom dramático da história, a diretora Delaporte utilizou na trilha sonora trechos da Sinfonia nº 6 em Lá Menor de Gustav Mahler, também conhecida como a "Trágica". Resumo da ópera: o filme é excelente, um drama francês da melhor qualidade. Especial para espectadores que curtem o bom cinema europeu.         

terça-feira, 11 de junho de 2019


“MUSEU” (“MUSEO”), 2018, México, 2h06m, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Alonso Ruizpalacios. A história é baseada num fato real ocorrido em dezembro de 1985 na Cidade do México, ou seja, o roubo de 140 peças pré-hispânicas de alto valor histórico do Museu Nacional de Antropologia. O filme acompanha a façanha dos dois ladrões, os estudantes de Veterinária Juan Núñez (Gael García Bernal) e Benjamin Wilson (Leonardo Ortizgris), desde o início do planejamento do roubo, sua execução e depois as tentativas frustradas de vender as peças. No início do filme, a frase “Esta é uma réplica da história original” dá o tom de sátira ao que assistiremos. Embora baseado em fatos reais, o diretor Ruizpalacios trata tudo o que aconteceu com bastante humor, aliviando a carga dramática que poderia se esperar de um acontecimento sério que despertou a revolta de toda a população mexicana. Só para se ter uma ideia do tipo de humor utilizado por Ruizpalacios, numa cena em que Juan e Benjamin são parados na estrada, um dos policiais olha para Juan/Gael García Bernal e pergunta se ele é o famoso ator e pede um autógrafo. Aliás, por falar em Gael García Bernal, o ator está bastante à vontade no papel. Embora não goste muito dele, tenho de concordar que ele está ótimo. “Museu” estreou no 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018, conquistando o Prêmio de Melhor Roteiro. Por aqui, fez parte da programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Museu” é mais uma prova da excelente fase do cinema mexicano, que na disputa dos últimos cinco Oscars de Melhor Diretor, venceu quatro, dois para Alejandro G. Iñarritu, um para Guillermo Del Toro e mais um para Alfonso Cuáron, sem falar no Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro conquistado por “Roma”.     

segunda-feira, 10 de junho de 2019


 “HISTÓRIAS DE UMA VIDA” (“LE COLLIER ROUGE”), 2018, França, 1h23m, direção do veterano Jean Becker, que também escreveu o roteiro inspirado no romance homônimo de Jean-Christophe Rufin, lançado em 2014. A história, ambientada no verão de 1919, é centrada no soldado Morlac (Nicolas Duvauchelle), herói francês da Primeira Guerra Mundial e agora prisioneiro numa penitenciária da pequena aldeia de Montabron. Ele foi preso por ter cometido um crime contra a pátria, recusando-se a pedir desculpas mesmo correndo o risco de ser fuzilado. O comandante Lantier Du Grezz (François Cluzet), juiz militar, é designado para cuidar do caso, em especial convencer Morlac de pedir perdão, livrando-o da execução.  Quando chega pela primeira vez à prisão, o comandante Lantier vê que há um cão latindo sem parar bem na porta. O pessoal da aldeia esclarece que o cachorro pertence a Morlac, foi com ele para a guerra, participou de algumas batalhas e agora sofre com seu dono preso. Enquanto isso, Lantier segue conversando com Morlac, que conta tudo como aconteceu, inclusive sua paixão por Valentine (Sophie Verbeeck), proprietária de um pequeno sítio onde cria cabras. Em flashbacks, o diretor Jean Becker relembra o início desse romance, a amizade de Morlac com o cão e algumas batalhas durante a guerra. Em resumo, o cachorro terá um papel fundamental na decisão do comandante, assim como Valentine. O filme é bastante simpático, tem o trunfo de ter no elenco três bons atores como François Cluzet, Nicolas Duvauchelle e a bela Sophie Verbeeck. O filme marca o retorno de Jean Becker na direção, lembrando que ele tem no currículo bons filmes como “Um Crime no Paraíso”, “Dois Dias para Esquecer” e o ótimo “Conversas com meu Jardineiro”.    
          

domingo, 9 de junho de 2019


“O AMANTE DUPLO” (“L’AMANT DOUBLE”), 2018, França/Bélgica, 1h47m, roteiro e direção de François Ozon. Trata-se de um suspense inspirado no romance “Lives of the Twins”, da consagrada escritora norte-americana Joyce Carol Oates. A história é centrada em Chloé (Marine Vacth), funcionária de um museu que sofre com dores no estômago. Ela é submetida a uma série de exames clínicos que não detectam qualquer tipo de problema físico. Os médicos, então, a aconselham a procurar um psicólogo. Ela então marca consulta com Paul (o ator belga Jérémie Renier), iniciando uma série de sessões de terapia, durante as quais surge uma atração sexual entre ambos. Quando o romance fica mais sério, Chloé é recomendada a outro psicólogo, Louis (também Renier), irmão gêmeo de Paul. Logo surge também uma atração sexual e Chloé fica dividida entre um e outro, até descobrir segredos sombrios sobre o passado dos irmãos. Paul, por exemplo, foi casado com uma moça chamada Sandra, filha da sra. Schenker (Jacqueline Bisset). Aí o enredo fica ainda mais complexo, depois que Chloé descobre um terrível segredo sobre o seu próprio passado. Enfim, mais um bom suspense de Ozon, cujo estilo lembra muito Hitchcock e Brian De Palma. “O Amante Duplo” é recheado de erotismo e muitas cenas de sexo e nudez, as quais, segundo o crítico de cinema Paulo Villaça, fazem “50 Tons de Cinza” parecer Frozen. Realmente, o erotismo de Ozon beira o explícito. Marine Vacth é linda e ótima atriz. Jérémie Renier, fazendo os dois irmãos, também merece destaque, provando mais uma vez que é um excelente ator. O filme estreou no Festival de Cannes 2018 e causou grande polêmica pelo modo como foi feito, dividindo os críticos. Por aqui, foi uma das atrações da programação oficial do Festival Variux de Cinema Francês, em junho de 2018. O filme é muito bom e ratifica François Ozon como um dos mais importantes cineastas da atualidade (é um dos meus preferidos). Com a assinatura de Ozon, recomendo filmes como “Dentro de Casa” (2013), “Frantz” (2017), “Uma Nova Amiga” (2015), Swimming Pool (2003) e “Jovem e Bela” (2013), este último também com Marine Vacth. É Ozon, portanto, imperdível!
   
          

sábado, 8 de junho de 2019


Imagine uma bomba atômica de alto teor destrutivo, ou então um abacaxi tão azedo que é capaz de causar morte por acidez. Escrevo esse introito para definir o que achei do suspense “CALMARIA” (“SERENITY”), 2018, EUA, 1h46, roteiro e direção de Steven Knight. Vamos à história: Baker Dill (Matthew McConaughey), um ex-soldado do exército norte-americano, vive na ilha caribenha de Plymouth, onde ganha a vida levando turistas para pescar em seu barco. Um dia aparece sua ex-namorada Karen (Anne Hathaway) oferecendo uma grana preta para que ele mate o seu marido milionário, Frank Zariakas (Jason Clarke). Ela chegou com o plano pronto: Frank queria pescar em alto-mar e para isso alugaria o barco de Baker. Quando Frank estivesse bêbado, Baker o jogaria aos tubarões. Para tentar convencê-lo a seguir com o plano, Karen diz que Frank, além de espancá-la, ainda maltrata o garoto Patrick (Rafael Sayegh), filho que teve com Baker antes dele se alistar e partir para uma missão no Iraque. Depois de muito relutar, Baker finalmente aceita assassinar o sujeito. Até aí, mais ou menos a metade do filme, o suspense caminha numa sequência lógica e o espectador fica na expectativa de como tudo acontecerá. Porém, numa reviravolta estapafúrdia, o enredo nos leva a crer que tudo não passa de uma ilusão. E, pior, que tudo o que estamos vendo foi arquitetado pelo filho de Baker, que criou um jogo pelo computador e, através dele, domina as ações dos personagens. Risível demais, ridículo demais, uma afronta à nossa inteligência, uma afronta ao cinema. Não dá para acreditar que McConaughey e Anne Hathaway, além de Jason Clarke, Diane Lane e Djimon Hounsou, tenham topado participar de uma bobagem tão grande. E olha que Steven Knight é considerado um ótimo roteirista em Hollywood. O filme é tão ruim que, diante das críticas negativas após o seu lançamento nos Estados Unidos, a Aviron Pictores, que o produziu, desistiu de utilizar a verba destinada para sua divulgação, e o filme, como se esperava, foi um grande fracasso de bilheteria. Conselho: FUJA A GALOPE!

quinta-feira, 6 de junho de 2019


“DARLING”, 2017, Dinamarca, 1h43m, direção de Birgitte Staermose, que também assina o roteiro com a colaboração de Kim Furz Aakeson. A história é centrada em Diana (Danica Curcic), cujo nome artístico é Darling, uma bailarina dinamarquesa de fama mundial e que há muitos anos está radicada em Nova Iorque com o marido Frans (Gustaf Skarsgard), um renomado coreógrafo. A dupla recebe um convite especial de um antigo amigo, Kristian (Ulrich Thomsen), diretor de um famoso teatro de Copenhague, para ambos encenarem o balé clássico “Giselle”. De volta à Dinamarca, o casal inicia os ensaios para a peça, mas a poucos dias da apresentação, Diana se machuca e não poderá mais ser a “Giselle”. Polly (Astrid Grarup Elbo), uma jovem e bela bailarina, é selecionada para o papel principal, iniciando um duro treinamento sob a supervisão da própria Diana, que submete a jovem bailarina a uma enorme pressão psicológica, talvez motivada pelo ciúme de outra assumir o papel que lhe era destinado. Diana também aparentava sentir ciúme do seu marido pela atenção dedicada a Polly durante os ensaios. Pouco antes da estreia, o estresse chega ao seu ponto máximo, a ponto de ameaçar a qualidade do espetáculo. O filme é muito bom, não só pela história bem contada, mas pelo excelente desempenho do elenco, destacando-se a atriz sérvia Danica Curcic radicada na Dinamarca e a jovem e bela atriz Astrid Grarup Elbo, que na vida real também é bailarina da companhia do famoso The Royal Danish Ballet. Um ótimo programa para quem gosta de balé e de cinema de qualidade.        


“A ÚLTIMA RESISTÊNCIA” (“Kiborhy: Heroyi Nikoly Ned Vmyrayut”), 2017, Ucrânia, 1h30m, roteiro e direção de Akhten Seitablaev. O filme é baseado em fatos reais e reproduz um dos episódios mais importantes e sangrentos da Guerra Civil da Ucrânia, ou seja, a disputa pelo Aeroporto Internacional de Donetsk. Aconteceu em 2014. De um lado as forças separatistas pró-Rússia e, do outro, soldados do exército ucraniano. O aeroporto de Donetski, o mais importante da Ucrânia e ocupando uma posição estratégica, já estava praticamente destruído pelo conflito. Em meio à confusão generalizada, havia a suspeita de que o exército da Rússia entraria em ação para resolver de vez a questão. O filme contém diálogos interessantes entre os soldados de cada uma das partes envolvidas, cada um defendendo suas motivações. Entretanto, fica difícil para o espectador entender quem é quem, pois todos acreditam defender a Ucrânia. Embora em alguns momentos o filme possa entediar, existe outros em que a ação toma conta, principalmente nas cenas – muito bem elaboradas - das violentas batalhas que ocorreram para o domínio do aeroporto. Para nós, os atores do elenco – só homens – são ilustres desconhecidos e, por isso mesmo, não há necessidade de citá-los. Vale a pena assistir para conhecer um dos episódios mais marcantes daquela guerra civil que parece não ter fim.   

segunda-feira, 3 de junho de 2019


“ASSUNTO DE FAMÍLIA” (“MANBIKI KAZOKU”), 2018, Japão, 2h1m, roteiro e direção de Hirokazu Koreeda. O filme estreou no 71º Festival de Cinema de Cannes, em maio de 2018, e já conquistou a Palma de Ouro. Foi inscrito para disputar o Oscar 2019 na categoria Melhor Filme Estrangeiro e ficou entre os 9 finalistas. Além disso, em todos os festivais em que foi exibido pelo mundo afora, “Assunto de Família” conquistou a crítica especializada e o público, ratificando o diretor Hirokazu Koreeda como um dos mais destacados cineastas japoneses da atualidade. Em quase todos os seus filmes, ele explora histórias de família, como aconteceu em “Pais e Filhos”, que também ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 2013. Em “Assunto de Família”, o foco é na família Shibata: Osamu (Lily Franky), o pai, Nobuyo (Sakura Andô), a mãe, Hatsue (Kiki Kirin), a avó, e mais três adolescentes. São bastante pobres e vivem amontoados numa pequena casa, mas são muito unidos e alegres, fazem suas refeições juntos e conversam bastante sobre o dia-a-dia de cada um. Mesmo diante da situação de penúria em que vivem, eles ainda acolhem a pequena Yuri, uma menina que costuma ser maltratada pelos pais. Apesar de toda essa bondade, a família Shibata guarda segredos muito sombrios, que serão revelados no desfecho. Enfim, mais um belo drama de Koreeda, que, apesar de não ter um happy end, é repleto de momentos comoventes e sensíveis. E que atriz maravilhosa é essa Sakura Andô. Imperdível para quem curte cinema de qualidade.   

domingo, 2 de junho de 2019


“DOGMAN” – 2018, Itália, 1h39m, roteiro e direção de Matteo Garrone. Representante da Itália na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “Dogman” estreou no 71º Festival de Cannes, em maio de 2018, sendo elogiado pelos críticos e pelo público, além de ver premiado o ator Marcello Fonte com a Palma de Melhor Ator. Uma conquista incrível, já que Fonte nunca foi ator. Na vida real, é jardineiro num centro social em Roma. Sua atuação é impressionante, o maior trunfo do filme. Ele interpreta Marcello, proprietário de um pequeno petshop (“Dogman”) na periferia pobre da cidade de Castel Volturno, em Campânia, sul da Itália. Muito querido pelos moradores do bairro, Marcello tem um carinho todo especial pelos cães que recebe principalmente para dar banho e tosar. Com seu jeito bonachão, ingênuo e simplório, ele costuma se submeter aos maus-tratos de Simone (Edoardo Pesce), um ex-boxeador que vive aterrorizando o pessoal do bairro. Todo mundo morre de medo do sujeito. Além de violento, Simone é viciado em cocaína e quem fornece a droga a ele é justamente Marcello, que nunca recebeu um tostão por isso. Quando cobrou, quase levou uma surra. O relacionamento de Marcello com Simone é o mote da história. Como se fosse uma luta de boxe: Marcello apanha muito durante 12 rounds, mas no 13º vira o jogo também de forma violenta. A caça vira o caçador. Mais um ótimo filme do cineasta italiano Matteo Garrone, que já havia nos brindado com os excelentes “Reality – A Grande Ilusão”, “O Conto dos Contos” e, especialmente, “Gomorra”, ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2008. Para escrever “Dogman”, Garrone se inspirou num crime ocorrido nos anos 80 que chocou a Itália. Imperdível!   

sábado, 1 de junho de 2019


“15 MINUTOS DE GUERRA” (L’ INTERVENTION”), 2018, França, 1h38m, roteiro e direção de Fred Grivois. A história, baseada em fatos reais, é ambientada em fevereiro de 1976 na então colônia francesa de Djibut, na África Oriental. Terroristas somalianos – a Somália faz fronteira com Djibut – sequestram, na capital Djibut (mesmo nome do país), 21 crianças francesas que ocupavam um ônibus que as levaria para a escola. Sua intenção era atravessar a fronteira, ingressar na Somália e depois exigir da França a soltura de somalianos presos por atos terroristas. Ao chegar perto da fronteira, porém, o ônibus encalha num banco de areia. As forças armadas francesas cercam o local, mas não conseguem impedir que Jane Anderson (a bela atriz ucraniana Olga Kurylenko), professora das crianças, entre no ônibus para tentar salvá-las. Acaba também como refém. Diante da situação caótica, o governo francês envia para Djibut uma força especial do Groupe D’ Intervention de La Gendarmerie Nationale (GIGN) comandada pelo capitão André Gerval (Alban Renoir). São homens treinados para atuar em missões anti-terroristas e a reagir em situações com reféns, tanto na França como em qualquer outro lugar do mundo. André e seus homens querem acabar logo com os terroristas, mas o governo da França impede que eles entrem em ação antes de tentar um acordo diplomático com a governo da Somália. Só que a tensão aumenta quando chega a informação de que um ônibus estaria vindo da Somália para levar as crianças para o outro lado da fronteira. Aí não dá mais para esperar. André Gerval resolve planejar e executar a missão de resgate das crianças, tomando cuidado para que elas não sejam alvejadas. A tensão domina o filme inteiro e o desfecho conta com ótimas cenas de ação, muito bem executadas pelo diretor Grivois. O filme revela-se mais interessante ainda por recordar uma história que estava esquecida no tempo. Recomendo!   

sexta-feira, 31 de maio de 2019


“NO PORTAL DA ETERNIDADE” (“AT ETERNITY’S GATE” – embora seja uma produção francesa, o título original ficou em inglês), 2018, direção e roteiro do cineasta norte-americano Julian Schnabel. A história, baseada em fatos reais, acompanha os dois últimos anos de vida do pintor holandês Vincent Van Gogh (Willem Dafoe), ou seja, a partir de 1888 até sua morte em 1890. Com seu trabalho rejeitado por grande parte das galerias de arte de Paris, Van Gogh, a conselho de seu amigo e mentor Paul Gauguin (Oscar Isaac), segue para o sul da França, mais especificamente para as aldeias de Arles e Auvers-Sur-Oise – suas despesas eram bancadas por seu irmão Theo Van Gogh (Rupert Friend). Em contato direto com a Natureza, o pintor holandês viverá o seu período mais prolífico, quando criou inúmeras obras importantes. Ao mesmo tempo, porém, começará a apresentar sintomas de demência e depressão, fatores que o levaram a cortar a própria orelha. A arte de Van Gogh só seria reconhecida muitos anos após sua morte – o pintor morreu na pobreza. O diretor Julian Schnabel, que além de cineasta é um renomado pintor, reconhecido como um dos mais importantes nomes do neo-expressionismo atual, fez questão de explicar a arte e o pensamento de Van Gogh através de longos e esclarecedores diálogos principalmente com seu amigo Paul Gauguin, com o dr. Paul Gachet (Mathieu Amalric), seu médico no sanatório, e ainda com o padre (Mads Mikkelsen) responsável por sua avaliação psicológica. Como podem perceber, um elenco de luxo, que conta ainda com Niels Arestrup, Lolita Chammah, Vincent Perez, Emmanuelle Seigner e Anne Consigny. Lembro ainda que Schnabel também dirigiu filmes importantes como “O Escafandro e a Borboleta”, “Antes do Anoitecer”, “Miral” e Basquiat – Traços de Uma Vida”. No caso de “No Portal da Eternidade”, Schnabel talvez tenha realizado o melhor e mais interessante filme sobre o famoso e polêmico pintor holandês. Imperdível!                   

quinta-feira, 30 de maio de 2019


“BIGGER – THE JOE WEIDER STORY” (o filme não chegou até aqui e, portanto, ainda não há uma tradução para o título), 2018, EUA, 108 minutos, direção de George Gallo, com roteiro do próprio com a colaboração de Ellen Brown Furman, Brad Furman e Andy Weiss. Afinal, quem é esse tal de Joe Weider? Pois foi ele, ao lado do irmão Ben Weider, quem criou o movimento de fisiculturismo e a prática do fitness. Foi ainda um dos pioneiros na montagem de academias de ginástica, além de fundador da Federação Internacional de Fisicultura e Fitness (IFBB). Joe Weider ficaria ainda mais conhecido por ter descoberto e levado para os Estados Unidos, no início dos anos 70, o austríaco Arnold Schwarzeneger para competir no “Mr. Olympia”, famosa competição internacional de fisiculturismo. Schwarzeneger ganhou e poucos anos depois estava em Hollywood. “Bigger” acompanha a trajetória dos irmãos Weider desde os anos 40, quando moravam com a família de poucos recursos em Montreal (Canadá). Ainda jovens, foram para Nova Iorque atrás de novas oportunidades de trabalho. Joe resolveu editar uma revista sobre fisiculturismo e logo se transformou num grande empresário, uma verdadeira celebridade no mundo dos negócios e dos esportes.  “Bigger” conta toda essa incrível história de pioneirismo e empreendedorismo. O elenco conta com Tyler Hoechlin (Joe Weider), Aneurin Barnard (Ben Weider), a estonteante Julianne Hough (Betty Weider), Kevin Durand (Bill Hauk) e Calum Von Moger (Schwarzeneger), australiano eleito Mr. Universo em 2014. Embora com alguma maquiagem, a semelhança com o jovem Schwarzeneger é impressionante. Enfim, o filme é ótimo, tem uma primorosa recriação de época e, repito, uma história bastante interessante que vale a pena ser conhecida.                    

terça-feira, 28 de maio de 2019


“O PESO DO PASSADO” (“Destroyer”), 2018, Estados Unidos, 2h3m, roteiro de Phil Hay e Matt Manfredi, direção de Karyn Kusama (diretora de origem japonesa nascida no Tio Sam, conhecida por ter assinado filmes como “Aeon Flux”, “Boa de Briga” e “Garota Infernal” – fracos, aliás). “O Peso do Passado” conta a história de Erin Bell (Nicole Kidman), uma policial veterana que não consegue se livrar de um trauma do passado. Vive bêbada e sua aparência é tão horrível que lembra mais um zumbi (uma Nicole Kidman transfigurada como nunca se viu). Quando ainda era uma novata na polícia, ela conseguiu se infiltrar numa gangue de assaltantes de banco juntamente com seu parceiro Chris (Sebastian Stan). Num dos assaltos em que eles também participariam, a coisa foge do controle e acaba em tragédia, culminando com a descoberta, pelos bandidos, das suas verdadeiras identidades. Dezoito anos depois, ainda traumatizada por aquele episódio trágico, Erin recebe a informação de que Silas (Toby Kebbell), o antigo chefe da gangue, voltou a agir. Pronto, ela fica obcecada por se vingar e vai atrás dele e de seus comparsas. Em meio à investigação, Erin ainda enfrenta problemas com sua filha adolescente, Shelby (Jade Pettyjohn), de 16 anos, que insiste em namorar um tipo marginal. Li que o filme foi feito para Nicole ganhar seu segundo Oscar (o primeiro foi por “As Horas”, em 2002). Vamos aguardar... De qualquer forma, é realmente Nicole quem carrega o filme nas costas.                        

domingo, 26 de maio de 2019


“CAFARNAUM” (“CAPHARNAÜM”), 2018, Líbano, duração de duas horas, terceiro longa-metragem escrito e dirigido por Nadine Labaki. Impactante drama centrado no garoto Zain (Zain Al Rafeea), de 12 anos, que mora com a numerosa família num subúrbio de Beirute, onde o cenário é de grande pobreza, com desempregados, crianças famintas, bebês abandonados e refugiados numa situação de miséria. A diretora Labaki não economizou no drama e no realismo, mas conseguiu realizar um filme muito sensível e comovente. Logo que sua irmã preferida Sahar (Haia Izzan), de apenas 11 anos, é prometida e entregue para casar com um homem muito mais velho, Zain se revolta e resolve sair de casa. Passa a morar nas ruas. É quando conhece Rahil (Yordanos Shiferaw), uma refugiada etíope que mora com o filho num casebre caindo aos pedaços num bairro onde vivem centenas de imigrantes ilegais. Para Rahil trabalhar como faxineira num parque de diversões, Zain se oferece para cuidar do bebê e ajudar no sustento de mãe e filho. Um dia, porém, ao realizar uma visita à família que abandonou, Zain recebe uma trágica notícia que o fará tomar uma atitude extrema, sendo preso, julgado e condenado por cinco anos – lá no Líbano, a lei é dura para menores infratores. Lançado durante a programação oficial do 71º Festival de Cannes, “Cafarnaum” disputou a Palma de Ouro e conquistou o Prêmio do Júri. Ganhou ainda o Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no “César” (o Oscar francês), o Prêmio de Público da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, além de ter sido indicado ao Oscar 2019 como Melhor Filme Estrangeiro, ficando entre os cinco finalistas. Mais um belo filme da cineasta e atriz libanesa Nadine Labaki (além de competente, é linda – ela aparece no filme como a advogada de Zain), que já havia nos brindado com pequenas obras-primas como “Caramelo” (2007) e “E Agora, Onde Vamos?” (2011). Informação adicional: Cafarnaum era uma cidade bíblica que ficava na margem norte do Mar da Galileia. “Cafarnaum” é mais um filme para se escrever IMPERDÍVEL com letras maiúsculas. E exclamar: “Viva o Cinema!”.                     

sábado, 25 de maio de 2019


“MINHA FAMA DE MAU”, 2018, roteiro e direção de Lui Farias, 116 minutos. Trata-se da cinebiografia do cantor e compositor Erasmo Carlos. Lui Farias escreveu o roteiro baseado no livro com o mesmo título escrito pelo próprio Erasmo e lançado em 2008 – li e adorei. O filme conta a trajetória de Erasmo desde o tempo (fim dos anos 50) em que era um jovem rebelde e delinquente, sua amizade com Tião Maia (mais tarde, Tim), e sua adoração pelos astros do rock da época, como Elvis Presley, Chuck Berry e, principalmente, Bill Halley & The Comets. O filme também destaca a ascensão artística de Erasmo com a ajuda de Carlos Imperial, o início da amizade e da parceria com o então pouco conhecido Roberto Carlos e com a “ternurinha” Wanderléa. Com imagens de vídeos da época, Lui Farias também relembra o Programa Jovem Guarda, nas tardes de domingo na TV Record, comandado por Roberto, Erasmo e Wanderléa. Para quem curtiu a Jovem Guarda - como eu – o filme é um verdadeiro deleite, traz momentos deliciosos, como a recriação de época e, principalmente, a trilha sonora. Revela ainda como Roberto e Erasmo fizeram algumas de suas canções. "Parei na Contramão", grande sucesso na época, foi composta pela dupla dentro de um ônibus (sim, eles um dia andaram de ônibus). O elenco é outro destaque: o ator capixaba Chay Suede como Erasmo, Gabriel Leone como Roberto Carlos, e Malu Rodrigues como Wanderléa, além de Isabela Garcia (mãe de Erasmo), Bianca Comparato (Nara), Bruno de Luca (Carlos Imperial) e Vinícius Alexandre (Tião Maia). Ainda tem a cantora Paula Toller – mulher do diretor na vida real – fazendo uma ponta como a fofoqueira Candinha. Como aconteceu quando assisti às ótimas cinebiografias de Elis Regina, Tim Maia e Chacrinha, adorei “Minha Fama de Mau”, me diverti muito e, confesso, me emocionei com tantas lembranças boas. Assim como no caso da cinebiografia de Elis, a de Erasmo deverá também se transformar em minissérie. IMPERDÍVEL (com letra maiúscula)!               

quarta-feira, 22 de maio de 2019


“A BUSCA DE CHARLOTTE” (“The Stoler”), 2017, Inglaterra, 98 minutos, direção de Niall Johnson, que também assina o roteiro com Emily Corcoran (atriz que também atua no filme). Se você pensa que o faroeste hostil só existiu nos Estados Unidos, reveja seus conceitos. A distante Nova Zelândia, principalmente na segunda metade do século 19, também teve seus bandidos mascarados, índios (os maoris), aventureiros em busca de ouro, traficantes e saloons, socos e tiros. E até mineiros chineses, veja só. E ainda mocinho e bandido. No caso, mocinha e bandido. Esta produção inglesa, ambientada em 1860, conta a jornada corajosa e heroica de Charlotte Lockton (a bela e competente atriz Alice Eve), de uma família da alta aristocracia inglesa que foi para a Nova Zelândia casar com um rico fazendeiro. Num certo dia, bandidos mascarados assaltam a fazenda, matam o marido de Charlotte e sequestram seu filho ainda bebê. Meses depois, ela recebe uma carta do sequestrador pedindo uma vultosa soma como resgate. Charlotte, sem ajuda de ninguém, segue uma pista que a leva a uma longínqua e inóspita região, frequentada por gente da pior espécie. Nesse lugar, ela descobre quem matou seu marido e sequestrou seu filho. O problema é enfrentá-lo e aos seus capangas. Não lembro de ter assistido algum faroeste ambientado na Nova Zelândia. Por esse ineditismo e como filme de ação, “A Busca de Charlotte” até que vale uma sessão da tarde com pipoca. Tem lá seus momentos de suspense e, repito, a bela Alice Eve.