quarta-feira, 1 de abril de 2020


Não é sempre que a gente descobre uma joia como o criativo e original “UMA MULHER EM GUERRA” (“KUNA FER I STRÍD”; nos países de língua inglesa, “Woman at War”), 2018, Islândia, 1h41m, segundo longa-metragem do ator e cineasta islandês Benedikt Erlingsson. A história é centrada na cinquentona Halla (Halldora Geirhardsdottir), uma ativista ambiental que resolve sabotar as linhas de energia nas montanhas de sua região como forma de protesto contra uma fundição de alumínio, que estaria poluindo os rios e o meio ambiente de seu país. Sua guerra particular acaba tomando proporções enormes, mobilizando a imprensa do país e suas autoridades, que iniciam uma verdadeira caçada contra “os terroristas” que querem destruir a economia da Islândia. Halla tem uma vida dupla, alternando suas atividades de ativista com a de professora de música. Ela é a respeitável cidadã responsável pelo coral da terceira idade de sua vila, um disfarce que não admite erros. Sua perspectiva tende a mudar quando ela recebe uma carta de uma Ong responsável pela adoção de crianças órfãs originárias de países em conflito. Era a resposta que ela aguardava há quatro anos: a Ong tinha descoberto uma menina na Croácia que estava à sua disposição para adoção. Juntamente com essa novidade, surge em cena Ása (papel da própria Halldora), irmã gêmea de Halla. As duas devem resolver a questão estratégica da adoção, pois é exigido que Halla vá à Croácia buscar a criança. Antes disso, porém, Halla quer fazer mais uma sabotagem, desta vez mais contundente. Em algumas cenas, aqui beirando o surreal, músicos e cantoras folclóricas acompanham as ações de Halla, um recurso que lembra os coros de teatro grego. Além de muito movimentado, o filme reúne gêneros como drama, comédia, política e consciência ambiental. O filme estreou no Festival de Cannes 2018, sendo indicado para o grande prêmio “Critics’ Week”. Além disso, foi vencedor do 12º Prêmio Lux de Cinema, premiação promovida pelo Parlamento Europeu. “Uma Mulher em Guerra” também representou a Islândia no Oscar 2019 como Melhor Filme Internacional. Por aqui, chegou a ser exibido durante a programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2018. A atriz e diretora norte-americana Jodie Foster gostou tanto do filme islandês que já está filmando um remake nos Estados Unidos. Enfim, “Uma Mulher em Guerra” é um filme genial, uma verdadeira pérola do cinema mundial. IMPERDÍVEL com letras maiúsculas!   


“A TRINCHEIRA INFINITA” (“La Trinchera Infinita”), 2019, Espanha, 2h27m, produção e distribuição Netflix, direção de Jon Garaño e Aitor Arregi, seguindo roteiro assinado por Luiso Berdejo e Jose Maria Goenaga. A história, baseada em fatos reais, tem como pano de fundo a situação política da Espanha desde o início da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), passando pela Segunda Guerra Mundial e o período posterior em que o Generalíssimo Franco governou o país com mãos de ferro. Na verdade, o enredo vai até 1969. É uma história incrível, toda ambientada num vilarejo do interior da Espanha. No início da Guerra Civil, houve uma grande caçada aos comunistas. Um deles era Higinio Blanco (Antonio de la Torre), que passou a ser procurado como inimigo número 1 pela polícia local. Com o cerco ao vilarejo, impedindo qualquer fuga, Higinio resolve se esconder num porão da casa, ajudado pela esposa Rosa (Belén Cuesta). Esse confinamento só terminaria em 1969, acredite se quiser. Nesse longo período de 33 anos, Higinio também ficaria escondido na casa de seu pai, num quarto construído especialmente para se transformar em esconderijo. Enquanto Rosa costurava e consertava roupas para o pessoal da vila, Higinio só tinha contato com o mundo exterior apenas através de um buraco na parede, devidamente disfarçado atrás de um espelho. Mesmo em 1963, quando Franco decretou a anista ao pessoal envolvido em questões políticas, Higinio decidiu não sair da toca. Para destacar ainda mais a sensação de claustrofobia dos dois personagens, a fotografia foi realizada em tons escuros até quase o desfecho. Eu já conhecia Antonio de la Torre e Belén Cuesta de outros carnavais, ou melhor, de outros bons filmes. Dele, eu já tinha assistido, entre outros filmes, o espetacular “O Candidato” (“El Reino”) e “Que Dios nos Perdone”. Dela, lembro da recente comédia “O Outro Pai” e “Kiki: Os Segredos do Desejo”. Juntos agora em “A Trincheira Infinita”, os dois esbanjam competência. O filme foi lançado na plataforma Netflix no dia 28 de fevereiro de 2020, mas antes foi exibido no Festival Internacional de San Sebastian 2019, onde ganhou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Disputou também o Goya (o Oscar espanhol), conquistando os prêmios de Melhor Atriz (Cuesta) e de Melhor Som. Excelente!  

terça-feira, 31 de março de 2020


“JUSTIÇA EM CHAMAS” (“TRIAL BY FIRE”), 2019, Estados Unidos, 2h7m, direção de Edward Zwicz, com roteiro de Geoffrey Fletcher, adaptado do livro “Trial by Fire”, escrito por David Grann. O filme relembra um caso de grande repercussão nos Estados Unidos, que tem como pano de fundo os prós e contras envolvendo a pena de morte. No caso, os contras. A história, baseada em fatos reais, é toda centrada em Cameron Todd Willingham (Jack O’Connell), que, em 1991, foi preso acusado de provocar o incêndio que resultou na morte de suas três filhas, duas das quais gêmeas. Ele foi julgado e condenado à morte por injeção letal (o fato aconteceu no Texas). Alguns anos antes da execução, Elizabeth Gilbert (Laura Dern), uma dona de casa viúva, passou a enviar cartas a Cameron e até agendou uma visita ao presidiário. Depois de inúmeras cartas trocadas e outras tantas visitas, Elizabeth ficou obcecada pelo fato de que o inquérito tinha várias falhas e resolveu contratar um advogado para entrar com recurso para rever os detalhes do julgamento. Não conseguiu reverter a situação de Cameron, que foi executado em 2004. Poucos anos depois, uma matéria investigativa publicada pela tradicional revista “The New Yorker” revelava estudos científicos que provaram ser Cameron inocente da acusação. O filme revela em detalhes os bastidores de toda a história, com um roteiro bem engendrado por Geoffrey Fletcher, que já havia conquistado um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por “Preciosa – Uma História de Esperança” (2010). O currículo invejável do diretor Edward Zwicz também é um bom aval de qualidade: “Jack Reacher: Sem Retorno”, “O Dono do Jogo”, “Amor e Outras Drogas”, “Um Ato de Liberdade”, “Diamante de Sangue” e “O Último Samurai”. Resumo da ópera: “Justiça em Chamas” é um bom entretenimento, valorizado pelas atuações da sempre ótima Laura Dern e do ator inglês Jack O’Connell.      

segunda-feira, 30 de março de 2020


“O INFORMANTE” (“THE INFORMER”), 2019, EUA, 1h53m. Todo mundo que trabalhou no filme é de um país diferente, transformando a produção numa verdadeira ONU. O diretor Andrea Di Stefano é italiano; os roteiristas Anders Roslund e Borge Hellstrom são suecos; o ator principal, Joel Kinnaman, é sueco radicado nos Estados Unidos; Rosamund Pike e Clive Owen são ingleses; e Ana de Armas é uma atriz cubana radicada nos EUA. Claro que essa diversidade não prejudicou o filme, pois é todo mundo muito competente. Toda a história é centrada em Pete Koslow (Kinnaman), ex-soldado da equipe de Operações Especiais do exército norte-americano, um briguento que cumpre pena depois de espancar e matar um sujeito em defesa de Sofia (Ana de Armas), sua esposa. Em troca da redução da pena, ele é cooptado pelos agentes do FBI Wilsox (Pike) e Montgomery (Owen) para se infiltrar numa gangue da máfia polonesa chefiada por um tal de “General”, que estava dominando o tráfico de drogas em Nova Iorque. A missão de Koslow não é nada fácil: ser enviado para uma prisão de segurança máxima onde o pessoal do “General” mandava e desmandava. Para isso, teria proteção total do FBI e do próprio diretor da prisão. Para encurtar a história e não revelar detalhes, destaco apenas que Koslow vai comer o pão que o diabo amassou, pois será perseguido não só pelo pessoal da gangue polonesa, mas também pela polícia novaiorquina e pelo próprio FBI, que havia lhe prometido proteção. Como filme de ação, funciona perfeitamente, garantindo momentos de muita tensão, suspense e pancadarias.      

sábado, 28 de março de 2020


“LUCE”, 2019, EUA, 1h49m, roteiro e direção de Julius Onah, cineasta nigeriano radicado nos Estados Unidos. É o terceiro longa-metragem de sua carreira. Para escrever o roteiro, Julius teve como inspiração a peça teatral escrita por J.C. Lee, que também colaborou no filme. Trata-se de um suspense psicológico centrado no jovem Luce Edgar (Kelvin Harrison Jr.), um ídolo em sua escola, admirado por alunos e professores, além de orador oficial da turma nos principais eventos do colégio. Ele havia sido adotado quando tinha 7 anos, trazido da Eritreia – país da África Oriental - pelo casal Peter (Tim Roth) e Amy Edgar (Naomi Watts). Acontece que Luce, por suas reações contraditórias, tinha a desconfiança da professora Harriet Wilson (Octavia Spencer). Como se não bastasse, ela acabaria encontrando no armário do rapaz um artigo político incitando à violência como forma de resolver conflitos. Além disso, havia um pacote com fogos de artifício. As situações levam a crer que Luce não era um jovem perfeito, aquele anjo que parecia ser, mas que tinha um lado obscuro, aspecto que sua mãe protetora jamais acreditaria. A situação cria um mal estar entre Luce e a professora, envolvendo os pais do rapaz e a direção da escola. Nesse sentido, o trabalho dos atores valoriza o clima tenso que vai do começo ao fim do filme. Destaque especial para a interpretação magistral do jovem ator Kelvin Harrison Jr., de apenas 25 anos, e também da sempre espetacular Octavia Spencer, que tem um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Histórias Cruzadas” (2012). Naomi Watts também está ótima como a mãe superprotetora que não vê defeitos no filho. E, finalmente, Tim Roth, com uma atuação mais contida, mas mesmo assim excelente. A estreia mundial de “Luce” aconteceu no Festival de Cinema Independente de Sundance, onde foi o filme mais comentado, recebendo elogios entusiasmados. Também ganhou 94% de aprovação no site “Rotten Tomates”, uma porcentagem difícil de alcançar. Enfim, “Luce” é uma verdadeira aula de cinema, ou como fazer com que o espectador não desgrude os olhos da tela. Sensacional!   

sexta-feira, 27 de março de 2020


“A NATUREZA DO TEMPO” (“EN ATTENDANT LES HIROLDELLES”), 2018, coprodução França/Argélia, 1h55m, primeiro longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta argelino Karim Moussaoui. São três histórias dentro do filme. Na primeira, Mourad (Mohamed Djouhri), um investidor do ramo imobiliário, enfrenta problemas com o filho, que pretende abandonar a faculdade de medicina perto da formatura. Na segunda, o jovem Djalil (Mehdi Ramdani) é contratado como motorista para levar Aicha (Hania Amar) e seus pais à cidade do noivo para os preparativos do casamento. Na terceira e última história, um médico neurologista (Hassan Kachach) é procurado por uma mulher que o acusa de tê-la estuprado. No meio de cada história, o roteiro inventa várias situações envolvendo os personagens, o que de certa forma consegue tornar o filme um pouco mais dinâmico. Uma boa sacada do roteiro é promover o encontro casual de personagens de uma história e das outras perto do desfecho. Ao fim da terceira história, a do médico acusado de estupro, aparece um homem misterioso cuja identidade não é revelada. Sua aparição cai no vazio , deixando o espectador com cara de Ué? No geral, o filme é lento demais, entediante, mas interessante sob o ponto de vista do cotidiano da sociedade argelina. Os cenários são áridos, o vento levantando areia para todos os lados, e as ruas são mostradas com ruínas que parecem resultado de alguma guerra. Cenários de total desolação. “A Natureza do Tempo” concorreu a melhor filme na Mostra “Um Certain Regard” do Festival de Cannes. Indicado somente para cinéfilos ou espectadores interessados em conhecer os bastidores da vida na Argélia.    

quinta-feira, 26 de março de 2020


“OS AERONAUTAS” (“THE AERONAUTS”), 2019, Inglaterra, produção Amazon Prime, 1h41m, direção de Tom Harper, que também assina o roteiro juntamente com Jack Thorne. A história, baseada em fatos reais, foi inspirada no livro “Falling Up Wards: How We Took to the Air”, de Richard Holmes, que relembra a sensacional aventura de um cientista e uma balonista (personagem fictício, que explico no final deste comentário). O filme é ambientado no ano de 1862 em Londres. O cientista James Glaisher associou-se à famosa balonista Amelia Wren (Felicity Jones) para um voo muito especial: pesquisar formas de se prever a meteorologia. Enfrentando chuva torrencial, temporais, raios, frio de congelar e muita ventania, a dupla conseguiu, além da pesquisa em si, bater o recorde de altura da época: 8.700 quilômetros. No filme, a personagem Amelia Wren foi criada à vontade do roteirista e do diretor. Na verdade, o verdadeiro companheiro de Glaisher na missão foi o também cientista Henry Coxell. Amelia Wren surgiu inspirada em uma balonista muito famosa na época, Sophie Blanchard. Com relação a  James Glaisher, o cientista foi uma figura muito importante no mundo científico, sendo pesquisador do departamento de Meteorologia do Observatório Real de Grenwich e fundador da Sociedade Real de Meteorologia e da Sociedade Aeronáutica da Grã-Bretanha. O filme é espetacular, com cenas de perigo de tirar o fôlego. A gente acompanha tudo de muito perto, como se estivesse no balão. Méritos para o diretor Tom Harper, que soube manter um ritmo frenético deste o início até o desfecho, valorizando aquela que foi uma das aventuras mais espetaculares que o cinema já produziu. Também estão no elenco Vincent Perez, Tom Courtnay, Himesh Patel, Rebecca Front e Anne Reid. Relembro que Eddie Redmayne e Felicity Jones trabalharam juntos em “A Teoria de Tudo” (2014), filme que resultou no Oscar de Melhor Ator para Redmayne, que viveu o físico inglês Stephen Hawking. No caso de “Os Aeronautas”, porém, o destaque maior fica para a dentucinha Felicity Jones, que arrasa principalmente nas cenas de ação. IMPERDÍVEL!          

quarta-feira, 25 de março de 2020


“MINHA OBRA-PRIMA” (“MI OBRA MAESTRA”), 2018, Argentina, 1h45m, roteiro e direção de Gaston Duprat. Mais um filme argentino para dar inveja a nosotros. Trata-se de uma divertida e inteligente comédia reunindo dois dos mais consagrados atores do país de Maradona: Guillermo Francella e Luis Brandoni. Guillermo é Arturo Silva, um conhecido marchand e galerista de Buenos Aires. Brandoni é Renzo Nervi, um pintor que fez grande sucesso na década de 80, mas agora não consegue vender mais nada. E, pior, virou um artista carrancudo, mal-humorado, insuportável e difícil de se lidar. E, além do mais, falido. Mesmo com a decadência do pintor, Arturo jamais abandonou o amigo de muitos anos, que o ajudou a ganhar muito dinheiro. Agora, porém, Arturo está tendo enorme dificuldade de ajudar Nervi, principalmente devido ao seu comportamento antissocial. Quando um acidente ocorre com o pintor, obrigando-o a ser internado, Arturo vê uma ótima possibilidade de reverter o quadro de penúria do amigo e também ganhar dinheiro com isso. Eles bolam um plano macabro para valorizar os quadros de Nervi, que assinou um documento doando-os ao marchand. Tudo caminha bem até que um ex-aluno de Nervi, Alex (Raul Arévalo), meio que sem querer, descobre um segredo que abalará o mercado das artes na Argentina. Graças ao roteiro elaborado por Duprat, o filme diverte muito com seu humor corrosivo, que no fundo é uma sátira ao mundo das artes. Mas seu maior trunfo é, sem dúvida, o trabalho magistral dos atores Francella e Brandoni, que conseguem transformar seus personagens em figuras simpáticas e cativantes. Eu já conhecia Francella dos filmes “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”, “Um Namorado para Minha Esposa” e do espetacular “O Segredo dos seus Olhos”. Aos 79 anos, Brandoni é um dos mais conhecidos atores argentinos, mas confesso que não lembro de tê-lo visto em algum filme. Com relação ao roteirista e diretor Gastón Duprat, lembro de dois de seus filmes, “O Homem ao Lado” e “O Cidadão Ilustre", ambos muito bons. “Minha Obra-Prima” é mais um filmaço argentino. Imperdível!          

segunda-feira, 23 de março de 2020


“SALYUT–7: MISSÃO ESPACIAL” (“SALYUT–7”), 2017, Rússia, 120 minutos, roteiro e direção de Klim Shipenko. A história é centrada na missão Salyut-7, que em 1985 enviou dois cosmonautas para o espaço na nave Soyuz com o objetivo de recuperar uma estação orbital morta. O resultado final foi um gol de placa dos russos, que pela primeira vez na história das missões espaciais - incluindo os norte-americanos - conseguiram acoplar e trazer a estação de volta ao serviço. Um ato heroico que exigiu muita coragem por parte da dupla de astronautas. Vicktor (Pavel Derevyanko) e Vladimir (Vladimir Vdovichenkov) eram os astronautas mais experientes e bem e preparados para a difícil missão. Da Terra, na sede da Roscosmos (agência espacial russa equivalente à Nasa), o diretor Valery Ryumin (Aleksander Samoylenko) e sua equipe monitoravam os trabalhos. O filme tem momentos de muita tensão, incluindo a agonia das esposas dos cosmonautas, uma delas grávida, um dos clichês mais utilizados em filmes do gênero, embora “Salyut-7” seja baseado em fatos reais. A gente acompanha na maior tensão a rotina perigosa dos astronautas, a cada dia encontrando pela frente situações de alto risco, e o drama vivido pela equipe de Valery, obrigada a tomar decisões em minutos nos momentos mais cruciais. Como não poderia deixar de ser, o êxito da missão é exaltado no filme de forma bem patriótica, coisa que o pessoal de Hollywood cansa de fazer. “Salyut-7” é um dos melhores filmes que assisti sobre eventos espaciais. Recomendo sem pestanejar.     


“UM ROMANCE NAS ENTRELINHAS” (“VITA & VIRGINIA”), 2018, Irlanda, 1h50m, segundo longa-metragem dirigido pela jovem cineasta inglesa Chanya Button, de 33 anos. O roteiro foi escrito pela atriz, romancista e dramaturga Eileen Atkins, autora do livro “Vita & Virginia” e da peça teatral do mesmo nome. A história é inspirada num acontecimento ocorrido no início dos anos 20 do século passado, ou seja, o escandaloso romance entre a já consagrada escritora inglesa Virginia Woolf (Elizabeth Debicki) e a aristocrata Vita Sackville (Gemma Arterton), também escritora e grande admiradora de Virginia. Ambas eram casadas, Virginia com Leonard Woolf, editor e dono de uma gráfica. Vita era casada com sir Harold Nicolson (Rupert Penay-Jones), um dos diplomatas mais importantes do governo inglês. Na verdade, Vita tinha um casamento de fachada, já que Nicolson era homossexual. O romance entre as duas mulheres começa com o assédio de Vita. Virginia, de início, acha que Vita é apenas uma fã ardorosa, mas logo percebe que se trata de uma paixão de verdade. O roteiro do filme destaca a troca de cartas e poemas entre as amantes, lidas pelas próprias protagonistas em frente da câmera. São momentos de tédio para o espectador. Além disso, os diálogos são de um inglês empolado, extremamente pomposo, que chega a incomodar. Não que prejudiquem o filme, mas que são entediantes, são sim. Vale lembrar que Vita serviu de inspiração para Virginia criar o personagem principal do livro “Orlando: Uma Biografia”, considerado o maior clássico da literatura feminista do Século XX. Devo destacar como trunfos do filme a primorosa ambientação de época, principalmente com relação aos figurinos e cenários, e a fotografia, além da competente atuação de Gemma Arterton e Elizabeth Debicki, duas ótimas atrizes. Outro destaque do elenco é a participação de Isabella Rossellini como a baronesa Sackville, mãe de Vita. Enfim, não é um filme para o público em geral, só para aqueles que curtem literatura e são fãs de Virginia Woolf.      

sábado, 21 de março de 2020


“O LIMITE DA TRAIÇÃO” (“A FALL FROM GRACE”), 2019, produção Netflix – estreou na plataforma dia 17 de janeiro de 2020 -, 1h55m, roteiro e direção de Tyler Perry. A cinquentona Grace Waters (Bresha Webb), uma divorciada e solitária funcionária de um banco que tem como melhor e única amiga Sarah (Phylicia Rashad). Ao visitar a exposição de um fotógrafo especialista em fotos no continente africano, Sarah conhece um rapaz bem mais novo que tenta flertar com ela. É o próprio fotógrafo, Shannon (Mehcad Brooks), que aos poucos vai ganhando a confiança de Grace, culminando num casamento. Ao longo de poucos meses, porém, ela descobre que o cara é um pilantra de marca maior. Humilhada, Grace assassina o marido a golpes de taco de beisebol. Ela acaba presa por homicídio, confessa o crime e passa a ser grande candidata à prisão perpétua. Aí é que entra em cena a inexperiente advogada Jasmine Bryan (Bresha Webb), cujo trabalho em seu escritório está restrito a costurar acordos com a Promotoria Pública, sem jamais ter participado de um julgamento. Após várias reuniões com a ré, Jasmine decide reverter a situação, desistindo do acordo e disposta a defender Grace num julgamento com júri e tudo. E por aí segue a trama. O filme seguia fraco, lento e entediante, mas eu continuava acreditando que quando o julgamento chegasse tudo melhoraria. Que nada. Continuou chocho. Pelo menos há, no desfecho, uma surpreendente reviravolta, que também não consegue salvar o filme. Pior mesmo é a atuação de Bresha Webb como a jovem e persistente advogada. Está sempre com cara de choro e sua única expressão visível são os olhos esbugalhados. Péssima atriz. Aliás, o filme todo não funciona, a não ser como um ótimo sonífero.        


“TROCO EM DOBRO” (“SPENSER CONFIDENTIAL”), 2019, EUA, produção e distribuição Netflix, 1h50m, direção de Peter Berg. O roteiro é assinado por Sean O’Keefe e Brian Helgeland, que se inspiraram no romance policial “Robert B. Parker’s Wonderland”, escrito por Ace Atkins em 2013. Vamos à história. Depois de agredir violentamente seu oficial superior, o detetive Spenser (Mark Wahlberg), da polícia de Boston, é condenado a 5 anos de prisão. Quando sai, sua ideia é arrumar emprego como motorista de caminhão e viajar por aí. Só que seu plano é adiado depois que, na mesma semana, dois ex-colegas da polícia são encontrados mortos. Um deles, porém, é dado como suicídio, o que deixa Spenser desconfiado de que tudo não passa de uma trama orquestrada por policiais corruptos ou pelo crime organizado. Mesmo sem ter sido reintegrado à polícia, Spenser resolve investigar os crimes por conta própria. Para isso, conta com o auxílio do grandalhão Hawk “Falcão” (Winston Duke), que é lutador de MMA. A dupla, com a ajuda intelectual de Henry Cimoli (Alan Arkin), um veterano técnico de boxe e MMA, elabora um plano para elucidar os casos. No meio disso, entra em cena a escandalosa maluquete Cissy (Iliza Shlesinger), ex-namorada de Spenser. Mark Wahlberg comprova mais uma vez que é um ótimo ator de filmes de ação. Como referência, lembro de “22 Milhas”, “Horizonte Profundo: Desastre no Golfo”, “O Dia do Atentado” e “O Grande Herói”, este último um filmaço de guerra. Todos esses filmes foram dirigidos também pelo ator e diretor Peter Berg. “Troco em Dobro” é um ótimo filme policial, com muita ação, pancadarias, tiros e humor na dose certa. É tão bom que, ao estrear na Netflix no dia 6 de março de 2020, já é um grande sucesso entre os assinantes, garantindo o Top 10 da plataforma. Entretenimento garantido!        

quinta-feira, 19 de março de 2020


“AS FILHAS DO SOL” (“LES FILLES DU SOLEIL”), 2018, França, 2 horas, roteiro e direção de Eva Husson. A história é baseada em fatos reais ocorridos em 2014. Um grupo de guerrilheiras curdas lutam contra as forças opressoras do Iraque e do Irã. O filme é centrado numa missão em que o pequeno batalhão de mulheres é escalado para tomar a cidade de Gordyene, na fronteira entre Síria, Iraque e Turquia. Enquanto os guerrilheiros curdos, homens, ficavam nas trincheiras aguardando possíveis reforços e praticamente se escondendo, as mulheres foram à luta. O batalhão feminino, comandado por Bahar (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani), foi acompanhado em sua missão pela jornalista francesa Mathilde (Emmanuelle Bercot), que registrou os acontecimentos para depois divulgá-los ao mundo. Nos momentos em que é possível descansar, Bahar conta sua história para Mathilde, seu sequestro e de seu filho pelos violentos iranianos, o assassinato do marido e os terríveis momentos em que viveu no cativeiro juntamente com outras mulheres - os iranianos chegaram a sequestrar mais de 7 mil mulheres curdas para depois vendê-las. A roteirista e diretora Eva Husson conta todo esse sofrimento em flashbacks, justificando plenamente a adesão de Bahar aos grupos guerrilheiros, buscando vingança e também encontrar seu filho. Na maioria dos filmes em que o tema é algum conflito, é mais comum mostrar heróis masculinos e as mulheres apenas como espectadoras ou vítimas. Em “As Filhas do Sol”, as mulheres é que assumem o espetáculo, provando que também têm coragem para lutar sem medo de morrer. O filme estreou e disputou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, em maio de 2018, sendo exibido por aqui durante a programação oficial do Festival Varilux de Cinema Francês em 2019. Recomendo!        

quarta-feira, 18 de março de 2020


“SIMONAL”, 2019, produção da Globo Filmes, 1h45m, filme de estreia na direção do carioca Leonardo Domingues, com roteiro de Victor Atherino. O elenco: Fabrício Boliveira (Wilson Simonal), Ísis Valverde (Tereza, a esposa), Leandro Hussum (Carlos Imperial), Mariana Lima (a socialite Laura Figueiredo), Caco Ciocler (delegado Santana), João Velho (Miéle), Rafael Sieg (Ronaldo Bôscoli), Lilian Menezes (Elis Regina) e Bruce Gomlevsky (contador Taviani). O filme aborda o período de quinze anos na vida do cantor Wilson Simonal, de 1960 a 1975, sua ascenção ao estrelato e sua queda após o problema que levou seu contador a ser torturado no DOPS. Simonal começou na vida artística participando de um grupo vocal que cantava rock. O produtor musical Carlos Imperial incentivou Simonal a seguir carreira solo. Arrebentou, principalmente depois de levado para algumas apresentações no Beco das Garrafas por Miele e Ronaldo Bôscoli. Logo estava na TV com programa próprio, arrasando no seu estilo swingado e malandro-chique. O filme acompanha sua carreira nos palcos e discos, o casamento com sua grande musa Tereza, o grande sucesso na TV e sua decadência após o episódio com o contador. Sem dúvida, Simonal era um grande artista, um cantor fenomenal e um showman capaz de entreter suas plateias por horas, além de uma voz poderosa. Como aconteceu uma vez no Maracanãzinho, quando Simonal fez 30 mil pessoas cantarem juntos seus maiores sucessos. E que trilha sonora: “Lobo Bobo”, Balanço Zona Sul”, “Meu Limão, meu Limoeiro”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Sá Marina”, “País Tropical” e “Nem Vem que não Tem”. Só quem viveu aquela época sabe o que Simonal, com seu estilo marcante, significou para a música brasileira. O filme tem o mérito de acompanhar a carreira do grande cantor e apresentá-lo às novas gerações. Fabrício Boliveira e Ísis Valverde, o casal principal de protagonistas, estão muito bem em seus papeis – os dois já atuaram juntos em “Faroeste Caboclo”, de 2013. Resumo da ópera: um filme obrigatório para quem quer conhecer ou relembrar a história de vida daquele que foi um de nossos melhores cantores. Nessa linha de biografias de artistas nacionais consagrados, recomendo também os filmes sobre Cazuza, Tim Maia, Maysa, Chacrinha, Elis, Erasmo Carlos e Hebe. Quem será o próximo?       
  

terça-feira, 17 de março de 2020


Nem sempre um bom elenco é capaz de salvar um filme. É o caso do suspense “ARANHA NA TEIA” (“SPIDER IN THE WEB”), 2019, coprodução Israel/Inglaterra, 1h53m, direção de Eran Riklis, cineasta israelense dos excelentes “Lemon Tree" (2008) e “A Noiva da Síria” (2004). O roteiro é assinado por Gidon Maron e Emmanuel Naccache. Só para citar dois nomes do elenco de “Aranha na Teia”: o ator inglês Bem Kingsley e a atriz italiana Monica Bellucci, minha musa desde sempre e de milhões de outros cinéfilos. Pois bem, nem eles foram capazes de salvar esse abacaxi. Vamos à história – vou tentar explicar o que eu entendi. Aí eu pergunto: por que quase todo filme de espionagem é difícil de entender? O Mossad, serviço secreto de Israel, quer saber quem está fornecendo armas químicas para a Síria. Para essa missão, é escalado Adereth (Kingsley), um famoso espião em final de carreira. Como o Mossad deixou de confiar nele há tempos, o agente Daniel (Itay Tiran) ficou encarregado de vigiá-lo de perto. Aí entra em cena a personagem Angela (Monica Bellucci), que indica uma empresa localizada na Bélgica como fornecedora das tais armas químicas. Agentes do serviço secreto da Bélgica entram em ação, complicando ainda mais a situação. Para piorar, o roteiro ainda abre espaço para um romance forçado entre Abereth e Angela. Os dois não combinam nem um pouco, mesmo que tudo não passe de um jogo de interesses. Se fosse na vida real, Bellucci mataria Kingsley do coração na primeira noite... Você acompanha todo o enredo sem entender muito bem o que está acontecendo. E termina de assistir sem continuar entendendo. Fraquinho, fraquinho...       


O drama “JUDY – MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS” (“Judy”), 2019, Inglaterra, 1h58m, direção de Rupert Goold, enfoca os dois últimos anos da atriz e cantora Judy Garland (1922-1969), uma grande estrela de Hollywood desde que atuou, ainda adolescente, no clássico “O Mágico de Oz”, um dos filmes de maior sucesso do cinema mundial. O roteiro de “Judy” foi escrito por Tom Edge, que se baseou no drama musical “O Fim do Arco-Íris” (“End of the Rainbow”), do dramaturgo Peter Quilter, encenada com grande sucesso na Broadway. No filme, Judy é interpretada de forma primorosa pela atriz Renée Zellweger, que conquistou, merecidamente, os prêmios de “Melhor Atriz” no Globo de Ouro e no Oscar 2020. Poucas vezes houve uma unanimidade tão grande nas premiações de Melhor Atriz - "Judy" também teve uma indicação para disputar o Oscar na categoria "Maquiagem e Penteados". O ano é 1968, Judy Garland está em fase decadente, sem dinheiro, afundada em dívidas e sem ter um lugar para morar com os dois filhos menores. Devido à sua situação financeira caótica, Judy aceita realizar uma série de shows na boate “Talk of the Town”, em Londres, onde ainda era adorada pelo público. Para isso, ela deixa seus dois filhos com Sidney Luft (Angus Sewell), pai das crianças e seu quarto marido.  O filme trata com maior destaque o tempo em que Judy passou em Londres, cantando para plateias seletas – a própria Renée Zellweger interpreta, com muita competência, as canções, o que deve ter sido um motivo a mais para tantas premiações. Longe dos filhos, porém, ela entra em depressão e se apega cada vez mais aos remédios e ao álcool, vícios aos quais se submetia há muitos anos e que a matariam pouco depois, com apenas 47 anos de idade. Nem o quinto casamento com o músico Mickey Deans (Finn Wittrock) foi capaz de tirar Judy da depressão. Ainda estão no elenco Jessie Buckley (a assistente de Judy em Londres), Darci Shaw (Judy jovem), Gemma-Leah Devereux (Liza Minelli), Richard Cordery (Louis B Mayer) e Gus Barry (Mickey Rooney). A opinião da maioria dos críticos não foi muito favorável ao filme, mas foram unânimes em destacar a atuação de Zellweger. Por ela, realmente vale a pena assistir. De qualquer forma, eu gostei muito do filme e não tenho dúvidas em recomendá-lo.       

domingo, 15 de março de 2020


“QUEEN MARIE OF ROMANIA” (“MARIA, REGINA ROMÂNIEI”), 2019, Romênia, 1h50m, primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta italiano Alexis Cahill, que também assina o roteiro juntamente com Gabi Antal, Brigitte Prodtloff, Maria-Denise Teodoru e Iona Manea. O filme é centrado na futura Rainha da Romênia (a bela e excelente atriz Roxana Lupu). Nascida Maria de Saxe-Coburgo-Gota, na Inglaterra, neta da Rainha Vitória e do czar Alexandre II, da Rússia, ela casou em 1893 com o príncipe herdeiro da monarquia romena, Fernando I (Daniel Plier). O filme enfoca os fatos históricos ocorridos após a Primeira Guerra Mundial, quando a Romênia, depois da invasão do exército alemão, estava totalmente destruída. A economia entrou em colapso e o povo passava fome. Lideranças políticas do país, chefiadas pelo primeiro-ministro Ion C. Bratianu (Adrian Titieni) tentavam, em Paris, durante as reuniões da famosa Conferência de Versalhes, a aprovação da unificação do país, retomando os territórios perdidos durante o conflito (Transilvânia, Bucovina e Bessarábia) e reivindicando a criação de um reino independente e soberano. Os políticos romenos não conseguiram avanços nas negociações e, como último recurso, apelaram para a dupla dos futuros monarcas. Fernando I era muito frouxo, incapaz de lidar com a classe política e com os próprios filhos e súditos. Depois de muita contestação dos políticos, a então princesa Maria conseguiu viajar para Paris e depois Londres, negociando com as mais altas autoridades dos aliados (França, Inglaterra e Estados Unidos). Com sua simpatia, personalidade e poder de persuasão, Maria conseguiu o apoio daqueles países para a causa romena e virou uma heroína para o povo romeno. Em 1922, Fernando e Maria seriam consagrados rei e rainha da Romênia, reinando até 1927, quando a monarquia foi extinta naquela país. Falado em romeno, inglês, francês e alemão, “Queen Marie of Romania” foi filmado em locações em Paris, Bucareste e Londres, apresentando cenários deslumbrantes e uma primorosa reconstituição de época.  Sem falar na maravilhosa atriz Roxana Lupu. Um filmaço histórico imperdível! 

sábado, 14 de março de 2020


“A HORA DO LOBO” (“THE WOLF HOUR”), 2019, Estados Unidos, 1h39m, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Alistyair Banks Griffin. Trata-se de um suspense psicológico ambientado no verão de 1977 em Nova Iorque. A personagem central é a escritora June Engle (Naomi Watts), expoente da contracultura, que vive enclausurada num apartamento no Sul do Bronx, em meio a livros, papelada espalhada pelo chão e lixo de todo tipo. Sujeira generalizada. June é uma mulher atormentada, vivendo um período de depressão e pânico, não conseguindo colocar o pé para fora do apê. Nessa época, a cidade vive um período de extrema violência, com saques, atos de vandalismo e assassinatos – naquele ano, ficou famoso um serial killer denominado “O Filho de Sam”. Como se não bastasse, faz um calor infernal e a cidade vive sofrendo apagões diários. Seus únicos contatos com o mundo exterior acontecem quando olha pela janela as pessoas se digladiando ou quando recebe o entregador do mercado, um garoto de programa e um policial atendendo a uma queixa de June a respeito de gente que está tocando seu interfone sem parar. A única visita especial que recebeu por mais tempo foi Margot (Jennifer Ehle), não sei se irmã, parente ou amiga – o roteiro não esclarece, que tenta tirar June daquela situação. Enfim, “A Hora do Lobo” é um filme bastante angustiante, claustrofóbico, pesado, mas tem o trunfo de contar com a primorosa atuação de Naomi Watts. Não há muito mais motivos para justificar uma recomendação entusiasmada.    

sexta-feira, 13 de março de 2020


“O GÂNGSTER, O POLICIAL E O DIABO” (“AKINJEON” no original, e “The Gangster, The Cop and The Devil” nos países de língua inglesa), 2019, Coreia do Sul, 1h50m, roteiro e direção de Won-Tae Lee (é o seu segundo longa-metragem). Quem tinha dúvidas sobre a qualidade do cinema sul-coreano deve tê-las descartado após o grande sucesso de “Parasita, maior vencedor do Oscar 2020. Eu já conhecia – e elogiava - o cinema daquele país há muito tempo, tendo visto ótimos filmes dos mais diferentes gêneros. Só para citar alguns: “OldBoy”, “A Criada”, “Mother – Em Busca pela Verdade”, “Pânico na Torre” e aquele que considero um dos melhores filmes de ação já realizados pelo cinema, “Onda de Choque”, de 2017, entre tantos outros. Agora, com este “O Gângster, o Policial e o Diabo”, o cinema sul-coreano reafirma sua qualidade também em filmes policiais. Trata-se de uma história baseada em fatos reais ocorridos em 2005 na capital Seul. Um misterioso serial-killer está matando pessoas com requintes de crueldade, sempre a facadas. Até que um dia ele bate na traseira de um veículo e sai para matar o seu motorista. Só que ele é um poderoso chefão da máfia local, especialista em artes marciais, e consegue escapar do criminoso. Mas jura vingança. A polícia de Seul também está atrás do serial killer. Numa inusitada e inimaginável combinação, a gangue chefiada pelo mafioso une-se à polícia para encontrar o psicopata. Essa união tem as suas contradições. Por exemplo, o chefão da máfia quer pegar o assassino para a seguir matá-lo, como manda a tradição, e a polícia, por seu lado, quer apenas prendê-lo e levá-lo a julgamento. Isso tudo em meio a muita ação e violência, pancadarias sanguinolentas, perseguições de carros e muito sangue jorrando. O ótimo ator Ma Dong-Seok está espetacular como o bandidão mafioso Jang Dong-Soo; o policial Jung Tae-Seok é interpretado por Kim Moo-Yeol; e, por fim, também com uma atuação destacada, o ator Kim Sung-Kyu, como o sanguinário psicopata Kang Kyungho, também conhecido como “K”. Resumo da ópera: um filme policial de muita qualidade.

quarta-feira, 11 de março de 2020


“JOIAS BRUTAS” (“UNCUT GEMS”), 2019, EUA, produção e distribuição Netflix, 2h15m, roteiro e direção dos irmãos cineastas Josh e Benny Safdie (“Bom Comportamento”). A história é toda centrada no comerciante judeu Howard Ratner (Adam Sandler), dono de uma joalheria em Nova Iorque. Casado e com filhos, Howard mantém um apartamento para a sua amante Julia (Julia Fox), é viciado em apostas de jogos da NBA, faz trambiques falsificando joias e relógios de luxo, além de dever muito dinheiro a agiotas da pior espécie. Sua rotina é de um homem prestes a ter um ataque cardíaco ou um AVC. Numa tentativa de se salvar financeiramente, ele tenta encontrar uma saída ao importar, da Etiópia, uma pedra não lapidada repleta de minerais preciosos. Segundo Howard, trata-se de uma raridade ligada aos judeus etíopes. Verdade ou não, ele encontra um cliente muito interessado na pedra, o jogador de basquete, astro da NBA, Kevin Garnett (o filme é ambientado em 2012, quando Kevin ainda era uma estrela nas quadras; ao interpretar ele mesmo no filme, Garnett já estava aposentado). Ao invés de pagar suas dívidas, Howard aposta todo o dinheiro que consegue nos negócios, enquanto os agiotas o pressionam para pagar ou então sofrer as consequências. O filme segue num ritmo frenético e alucinante, num espiral crescente de tensão, com a câmera sempre em movimento, irrequieta e nervosa. O elenco conta ainda com Idina Menzel, Lakeith Stanfield, Mike Francesa, Judd Hirsch e Eric Bogosian. "Joias Brutas” recebeu muitos elogios da crítica especializada, que também consideraram um show a atuação de Adam Sandler. Para falar a verdade, o filme não me convenceu muito, mas admito que Sandler está ótimo. De qualquer forma, "Joias Brutas" vale a pena pelo modo com que os irmãos Safdie o realizaram. Sem dúvida, um filme inovador. .        

segunda-feira, 9 de março de 2020


“MIDWAY – BATALHA EM ALTO-MAR” (“MIDWAY”), 2019, Estados Unidos, 2h19m, direção do cineasta alemão Roland Emmerich, seguindo roteiro de Wes Tooke. Quem conhece um pouco da história da Segunda Guerra Mundial sabe que foi nas Ilhas Midway, no Pacífico, no dia 4 de julho de 1942, que as forças norte-americanas enfrentaram a Marinha Imperial Japonesa, revidando com sucesso o ataque a Pearl Harbor, seis meses antes. O filme destaca o trabalho de bastidores da inteligência norte-americana, que conseguiu codificar mensagens que forneceram a localização da frota japonesa. As cenas de batalhas aéreas e navais são de tirar de fôlego, num ritmo frenético que vai do início ao fim. Ao contrário de “Midway – A Batalha do Pacífico”, de 1976, o atual “Midway – Batalha em Alto-Mar” utiliza efeitos especiais espetaculares e, em algumas cenas, parece que você está ali no meio da batalha. O elenco é de primeira: Ed Skrein, Woody Harrelson, Patrick Wilson, Luke Evans, Dennis Quaid, Aaron Eckhart, Mandy Moore, Nick Jonas, Alexander Ludwig e Tadanobu Asano. O diretor alemão Roland Emmerich justificou plenamente a sua fama de dirigir bons filmes de ação, como “Godzila”, “Independence Day”, “O Dia Depois de Amanhã” e “O Patriota”. Embora os críticos tenham malhado o seu “Midway”, elogiando apenas as cenas de batalha, achei o filme muito bem feito, repleto de ação, um ótimo programa para uma sessão da tarde com pipoca.       

domingo, 8 de março de 2020


“UMA VIDA OCULTA” (“A HIDDEN LIFE”), 2019, coprodução Alemanha/EUA, roteiro e direção de Terrence Malick, 3 horas de duração. Finalmente o polêmico e excêntrico cineasta norte-americano oferece talvez sua obra mais acessível. Da mesma forma que realizou filmes como “A Árvore da Vida”, “De Canção em Canção”, “Cavaleiro de Copas” e “Amor Pleno”, obras de cunho existencialista com fundo religioso, em “Uma Vida Oculta” Malick mantém seu estilo inconfundível de filmar paisagens da natureza como céu com nuvens, correntezas de rios, florestas e planícies verdejantes, usando e abusando de lente grande angular para ampliar os cenários. Sem falar na trilha sonora clássica e nas locuções em off, com reflexões filosóficas e religiosas, em sua maioria entediantes e com a profundidade de um pires. A história de “Uma Vida Oculta”, inspirada em fatos reais, é ambientada na Áustria bem no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, logo após a invasão do país pelo exército nazista. Franz Jägerstätter (August Diehl), um fazendeiro da região de Santa Radegunda, interior austríaco, assim como milhares de cidadãos do seu país, é convocado para lutar pelo exército alemão. Sua recusa, por não acreditar nos ideais de Hitler, vira um caso de traição. Ele é preso e condenado à morte. Até o final ele mantém sua posição, para desespero de seus amigos. Franziska (Valerie Pachner), sua esposa, mesmo aflita com o desenrolar dos acontecimentos, aceita a posição do marido e enfrenta a situação com altivez. O cenário onde fica a fazenda de Franz lembra muito aquele em que Julie Andrews canta e dança com os filhos do Capitão Von Trapp em “A Noviça Rebelde” (1965). Em algumas ocasiões achei que a própria Julie Andrews de repente surgiria em cena. Embora o elenco seja em sua maioria constituído por atores alemães e austríacos, o filme é quase todo falado em inglês e um pouco de alemão. O elenco é ótimo: além de Diehl e Pachner, os mais conhecidos são Matthias Schoenaerts, Alexander Fehling, Michael Nyqvist, Bruno Ganz, Johannes Krisch, Karl Markovics, Tobias Moretti, Ulrich Matthes e Maria Simon. Uma curiosidade que a maioria dos críticos deixou passar: “Uma Vida Oculta” foi o último filme de dois grandes atores, o suíço Bruno Ganz e o sueco Michael Nyqvist, falecidos logo depois do fim das filmagens. O filme estreou no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019, e também foi exibido por aqui durante a programação do Festival Internacional de Cinema do Rio, em dezembro de 2019.