quinta-feira, 26 de março de 2020


“OS AERONAUTAS” (“THE AERONAUTS”), 2019, Inglaterra, produção Amazon Prime, 1h41m, direção de Tom Harper, que também assina o roteiro juntamente com Jack Thorne. A história, baseada em fatos reais, foi inspirada no livro “Falling Up Wards: How We Took to the Air”, de Richard Holmes, que relembra a sensacional aventura de um cientista e uma balonista (personagem fictício, que explico no final deste comentário). O filme é ambientado no ano de 1862 em Londres. O cientista James Glaisher associou-se à famosa balonista Amelia Wren (Felicity Jones) para um voo muito especial: pesquisar formas de se prever a meteorologia. Enfrentando chuva torrencial, temporais, raios, frio de congelar e muita ventania, a dupla conseguiu, além da pesquisa em si, bater o recorde de altura da época: 8.700 quilômetros. No filme, a personagem Amelia Wren foi criada à vontade do roteirista e do diretor. Na verdade, o verdadeiro companheiro de Glaisher na missão foi o também cientista Henry Coxell. Amelia Wren surgiu inspirada em uma balonista muito famosa na época, Sophie Blanchard. Com relação a  James Glaisher, o cientista foi uma figura muito importante no mundo científico, sendo pesquisador do departamento de Meteorologia do Observatório Real de Grenwich e fundador da Sociedade Real de Meteorologia e da Sociedade Aeronáutica da Grã-Bretanha. O filme é espetacular, com cenas de perigo de tirar o fôlego. A gente acompanha tudo de muito perto, como se estivesse no balão. Méritos para o diretor Tom Harper, que soube manter um ritmo frenético deste o início até o desfecho, valorizando aquela que foi uma das aventuras mais espetaculares que o cinema já produziu. Também estão no elenco Vincent Perez, Tom Courtnay, Himesh Patel, Rebecca Front e Anne Reid. Relembro que Eddie Redmayne e Felicity Jones trabalharam juntos em “A Teoria de Tudo” (2014), filme que resultou no Oscar de Melhor Ator para Redmayne, que viveu o físico inglês Stephen Hawking. No caso de “Os Aeronautas”, porém, o destaque maior fica para a dentucinha Felicity Jones, que arrasa principalmente nas cenas de ação. IMPERDÍVEL!          

quarta-feira, 25 de março de 2020


“MINHA OBRA-PRIMA” (“MI OBRA MAESTRA”), 2018, Argentina, 1h45m, roteiro e direção de Gaston Duprat. Mais um filme argentino para dar inveja a nosotros. Trata-se de uma divertida e inteligente comédia reunindo dois dos mais consagrados atores do país de Maradona: Guillermo Francella e Luis Brandoni. Guillermo é Arturo Silva, um conhecido marchand e galerista de Buenos Aires. Brandoni é Renzo Nervi, um pintor que fez grande sucesso na década de 80, mas agora não consegue vender mais nada. E, pior, virou um artista carrancudo, mal-humorado, insuportável e difícil de se lidar. E, além do mais, falido. Mesmo com a decadência do pintor, Arturo jamais abandonou o amigo de muitos anos, que o ajudou a ganhar muito dinheiro. Agora, porém, Arturo está tendo enorme dificuldade de ajudar Nervi, principalmente devido ao seu comportamento antissocial. Quando um acidente ocorre com o pintor, obrigando-o a ser internado, Arturo vê uma ótima possibilidade de reverter o quadro de penúria do amigo e também ganhar dinheiro com isso. Eles bolam um plano macabro para valorizar os quadros de Nervi, que assinou um documento doando-os ao marchand. Tudo caminha bem até que um ex-aluno de Nervi, Alex (Raul Arévalo), meio que sem querer, descobre um segredo que abalará o mercado das artes na Argentina. Graças ao roteiro elaborado por Duprat, o filme diverte muito com seu humor corrosivo, que no fundo é uma sátira ao mundo das artes. Mas seu maior trunfo é, sem dúvida, o trabalho magistral dos atores Francella e Brandoni, que conseguem transformar seus personagens em figuras simpáticas e cativantes. Eu já conhecia Francella dos filmes “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”, “Um Namorado para Minha Esposa” e do espetacular “O Segredo dos seus Olhos”. Aos 79 anos, Brandoni é um dos mais conhecidos atores argentinos, mas confesso que não lembro de tê-lo visto em algum filme. Com relação ao roteirista e diretor Gastón Duprat, lembro de dois de seus filmes, “O Homem ao Lado” e “O Cidadão Ilustre", ambos muito bons. “Minha Obra-Prima” é mais um filmaço argentino. Imperdível!          

segunda-feira, 23 de março de 2020


“SALYUT–7: MISSÃO ESPACIAL” (“SALYUT–7”), 2017, Rússia, 120 minutos, roteiro e direção de Klim Shipenko. A história é centrada na missão Salyut-7, que em 1985 enviou dois cosmonautas para o espaço na nave Soyuz com o objetivo de recuperar uma estação orbital morta. O resultado final foi um gol de placa dos russos, que pela primeira vez na história das missões espaciais - incluindo os norte-americanos - conseguiram acoplar e trazer a estação de volta ao serviço. Um ato heroico que exigiu muita coragem por parte da dupla de astronautas. Vicktor (Pavel Derevyanko) e Vladimir (Vladimir Vdovichenkov) eram os astronautas mais experientes e bem e preparados para a difícil missão. Da Terra, na sede da Roscosmos (agência espacial russa equivalente à Nasa), o diretor Valery Ryumin (Aleksander Samoylenko) e sua equipe monitoravam os trabalhos. O filme tem momentos de muita tensão, incluindo a agonia das esposas dos cosmonautas, uma delas grávida, um dos clichês mais utilizados em filmes do gênero, embora “Salyut-7” seja baseado em fatos reais. A gente acompanha na maior tensão a rotina perigosa dos astronautas, a cada dia encontrando pela frente situações de alto risco, e o drama vivido pela equipe de Valery, obrigada a tomar decisões em minutos nos momentos mais cruciais. Como não poderia deixar de ser, o êxito da missão é exaltado no filme de forma bem patriótica, coisa que o pessoal de Hollywood cansa de fazer. “Salyut-7” é um dos melhores filmes que assisti sobre eventos espaciais. Recomendo sem pestanejar.     


“UM ROMANCE NAS ENTRELINHAS” (“VITA & VIRGINIA”), 2018, Irlanda, 1h50m, segundo longa-metragem dirigido pela jovem cineasta inglesa Chanya Button, de 33 anos. O roteiro foi escrito pela atriz, romancista e dramaturga Eileen Atkins, autora do livro “Vita & Virginia” e da peça teatral do mesmo nome. A história é inspirada num acontecimento ocorrido no início dos anos 20 do século passado, ou seja, o escandaloso romance entre a já consagrada escritora inglesa Virginia Woolf (Elizabeth Debicki) e a aristocrata Vita Sackville (Gemma Arterton), também escritora e grande admiradora de Virginia. Ambas eram casadas, Virginia com Leonard Woolf, editor e dono de uma gráfica. Vita era casada com sir Harold Nicolson (Rupert Penay-Jones), um dos diplomatas mais importantes do governo inglês. Na verdade, Vita tinha um casamento de fachada, já que Nicolson era homossexual. O romance entre as duas mulheres começa com o assédio de Vita. Virginia, de início, acha que Vita é apenas uma fã ardorosa, mas logo percebe que se trata de uma paixão de verdade. O roteiro do filme destaca a troca de cartas e poemas entre as amantes, lidas pelas próprias protagonistas em frente da câmera. São momentos de tédio para o espectador. Além disso, os diálogos são de um inglês empolado, extremamente pomposo, que chega a incomodar. Não que prejudiquem o filme, mas que são entediantes, são sim. Vale lembrar que Vita serviu de inspiração para Virginia criar o personagem principal do livro “Orlando: Uma Biografia”, considerado o maior clássico da literatura feminista do Século XX. Devo destacar como trunfos do filme a primorosa ambientação de época, principalmente com relação aos figurinos e cenários, e a fotografia, além da competente atuação de Gemma Arterton e Elizabeth Debicki, duas ótimas atrizes. Outro destaque do elenco é a participação de Isabella Rossellini como a baronesa Sackville, mãe de Vita. Enfim, não é um filme para o público em geral, só para aqueles que curtem literatura e são fãs de Virginia Woolf.      

sábado, 21 de março de 2020


“O LIMITE DA TRAIÇÃO” (“A FALL FROM GRACE”), 2019, produção Netflix – estreou na plataforma dia 17 de janeiro de 2020 -, 1h55m, roteiro e direção de Tyler Perry. A cinquentona Grace Waters (Bresha Webb), uma divorciada e solitária funcionária de um banco que tem como melhor e única amiga Sarah (Phylicia Rashad). Ao visitar a exposição de um fotógrafo especialista em fotos no continente africano, Sarah conhece um rapaz bem mais novo que tenta flertar com ela. É o próprio fotógrafo, Shannon (Mehcad Brooks), que aos poucos vai ganhando a confiança de Grace, culminando num casamento. Ao longo de poucos meses, porém, ela descobre que o cara é um pilantra de marca maior. Humilhada, Grace assassina o marido a golpes de taco de beisebol. Ela acaba presa por homicídio, confessa o crime e passa a ser grande candidata à prisão perpétua. Aí é que entra em cena a inexperiente advogada Jasmine Bryan (Bresha Webb), cujo trabalho em seu escritório está restrito a costurar acordos com a Promotoria Pública, sem jamais ter participado de um julgamento. Após várias reuniões com a ré, Jasmine decide reverter a situação, desistindo do acordo e disposta a defender Grace num julgamento com júri e tudo. E por aí segue a trama. O filme seguia fraco, lento e entediante, mas eu continuava acreditando que quando o julgamento chegasse tudo melhoraria. Que nada. Continuou chocho. Pelo menos há, no desfecho, uma surpreendente reviravolta, que também não consegue salvar o filme. Pior mesmo é a atuação de Bresha Webb como a jovem e persistente advogada. Está sempre com cara de choro e sua única expressão visível são os olhos esbugalhados. Péssima atriz. Aliás, o filme todo não funciona, a não ser como um ótimo sonífero.        


“TROCO EM DOBRO” (“SPENSER CONFIDENTIAL”), 2019, EUA, produção e distribuição Netflix, 1h50m, direção de Peter Berg. O roteiro é assinado por Sean O’Keefe e Brian Helgeland, que se inspiraram no romance policial “Robert B. Parker’s Wonderland”, escrito por Ace Atkins em 2013. Vamos à história. Depois de agredir violentamente seu oficial superior, o detetive Spenser (Mark Wahlberg), da polícia de Boston, é condenado a 5 anos de prisão. Quando sai, sua ideia é arrumar emprego como motorista de caminhão e viajar por aí. Só que seu plano é adiado depois que, na mesma semana, dois ex-colegas da polícia são encontrados mortos. Um deles, porém, é dado como suicídio, o que deixa Spenser desconfiado de que tudo não passa de uma trama orquestrada por policiais corruptos ou pelo crime organizado. Mesmo sem ter sido reintegrado à polícia, Spenser resolve investigar os crimes por conta própria. Para isso, conta com o auxílio do grandalhão Hawk “Falcão” (Winston Duke), que é lutador de MMA. A dupla, com a ajuda intelectual de Henry Cimoli (Alan Arkin), um veterano técnico de boxe e MMA, elabora um plano para elucidar os casos. No meio disso, entra em cena a escandalosa maluquete Cissy (Iliza Shlesinger), ex-namorada de Spenser. Mark Wahlberg comprova mais uma vez que é um ótimo ator de filmes de ação. Como referência, lembro de “22 Milhas”, “Horizonte Profundo: Desastre no Golfo”, “O Dia do Atentado” e “O Grande Herói”, este último um filmaço de guerra. Todos esses filmes foram dirigidos também pelo ator e diretor Peter Berg. “Troco em Dobro” é um ótimo filme policial, com muita ação, pancadarias, tiros e humor na dose certa. É tão bom que, ao estrear na Netflix no dia 6 de março de 2020, já é um grande sucesso entre os assinantes, garantindo o Top 10 da plataforma. Entretenimento garantido!        

quinta-feira, 19 de março de 2020


“AS FILHAS DO SOL” (“LES FILLES DU SOLEIL”), 2018, França, 2 horas, roteiro e direção de Eva Husson. A história é baseada em fatos reais ocorridos em 2014. Um grupo de guerrilheiras curdas lutam contra as forças opressoras do Iraque e do Irã. O filme é centrado numa missão em que o pequeno batalhão de mulheres é escalado para tomar a cidade de Gordyene, na fronteira entre Síria, Iraque e Turquia. Enquanto os guerrilheiros curdos, homens, ficavam nas trincheiras aguardando possíveis reforços e praticamente se escondendo, as mulheres foram à luta. O batalhão feminino, comandado por Bahar (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani), foi acompanhado em sua missão pela jornalista francesa Mathilde (Emmanuelle Bercot), que registrou os acontecimentos para depois divulgá-los ao mundo. Nos momentos em que é possível descansar, Bahar conta sua história para Mathilde, seu sequestro e de seu filho pelos violentos iranianos, o assassinato do marido e os terríveis momentos em que viveu no cativeiro juntamente com outras mulheres - os iranianos chegaram a sequestrar mais de 7 mil mulheres curdas para depois vendê-las. A roteirista e diretora Eva Husson conta todo esse sofrimento em flashbacks, justificando plenamente a adesão de Bahar aos grupos guerrilheiros, buscando vingança e também encontrar seu filho. Na maioria dos filmes em que o tema é algum conflito, é mais comum mostrar heróis masculinos e as mulheres apenas como espectadoras ou vítimas. Em “As Filhas do Sol”, as mulheres é que assumem o espetáculo, provando que também têm coragem para lutar sem medo de morrer. O filme estreou e disputou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, em maio de 2018, sendo exibido por aqui durante a programação oficial do Festival Varilux de Cinema Francês em 2019. Recomendo!        

quarta-feira, 18 de março de 2020


“SIMONAL”, 2019, produção da Globo Filmes, 1h45m, filme de estreia na direção do carioca Leonardo Domingues, com roteiro de Victor Atherino. O elenco: Fabrício Boliveira (Wilson Simonal), Ísis Valverde (Tereza, a esposa), Leandro Hussum (Carlos Imperial), Mariana Lima (a socialite Laura Figueiredo), Caco Ciocler (delegado Santana), João Velho (Miéle), Rafael Sieg (Ronaldo Bôscoli), Lilian Menezes (Elis Regina) e Bruce Gomlevsky (contador Taviani). O filme aborda o período de quinze anos na vida do cantor Wilson Simonal, de 1960 a 1975, sua ascenção ao estrelato e sua queda após o problema que levou seu contador a ser torturado no DOPS. Simonal começou na vida artística participando de um grupo vocal que cantava rock. O produtor musical Carlos Imperial incentivou Simonal a seguir carreira solo. Arrebentou, principalmente depois de levado para algumas apresentações no Beco das Garrafas por Miele e Ronaldo Bôscoli. Logo estava na TV com programa próprio, arrasando no seu estilo swingado e malandro-chique. O filme acompanha sua carreira nos palcos e discos, o casamento com sua grande musa Tereza, o grande sucesso na TV e sua decadência após o episódio com o contador. Sem dúvida, Simonal era um grande artista, um cantor fenomenal e um showman capaz de entreter suas plateias por horas, além de uma voz poderosa. Como aconteceu uma vez no Maracanãzinho, quando Simonal fez 30 mil pessoas cantarem juntos seus maiores sucessos. E que trilha sonora: “Lobo Bobo”, Balanço Zona Sul”, “Meu Limão, meu Limoeiro”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Sá Marina”, “País Tropical” e “Nem Vem que não Tem”. Só quem viveu aquela época sabe o que Simonal, com seu estilo marcante, significou para a música brasileira. O filme tem o mérito de acompanhar a carreira do grande cantor e apresentá-lo às novas gerações. Fabrício Boliveira e Ísis Valverde, o casal principal de protagonistas, estão muito bem em seus papeis – os dois já atuaram juntos em “Faroeste Caboclo”, de 2013. Resumo da ópera: um filme obrigatório para quem quer conhecer ou relembrar a história de vida daquele que foi um de nossos melhores cantores. Nessa linha de biografias de artistas nacionais consagrados, recomendo também os filmes sobre Cazuza, Tim Maia, Maysa, Chacrinha, Elis, Erasmo Carlos e Hebe. Quem será o próximo?       
  

terça-feira, 17 de março de 2020


Nem sempre um bom elenco é capaz de salvar um filme. É o caso do suspense “ARANHA NA TEIA” (“SPIDER IN THE WEB”), 2019, coprodução Israel/Inglaterra, 1h53m, direção de Eran Riklis, cineasta israelense dos excelentes “Lemon Tree" (2008) e “A Noiva da Síria” (2004). O roteiro é assinado por Gidon Maron e Emmanuel Naccache. Só para citar dois nomes do elenco de “Aranha na Teia”: o ator inglês Bem Kingsley e a atriz italiana Monica Bellucci, minha musa desde sempre e de milhões de outros cinéfilos. Pois bem, nem eles foram capazes de salvar esse abacaxi. Vamos à história – vou tentar explicar o que eu entendi. Aí eu pergunto: por que quase todo filme de espionagem é difícil de entender? O Mossad, serviço secreto de Israel, quer saber quem está fornecendo armas químicas para a Síria. Para essa missão, é escalado Adereth (Kingsley), um famoso espião em final de carreira. Como o Mossad deixou de confiar nele há tempos, o agente Daniel (Itay Tiran) ficou encarregado de vigiá-lo de perto. Aí entra em cena a personagem Angela (Monica Bellucci), que indica uma empresa localizada na Bélgica como fornecedora das tais armas químicas. Agentes do serviço secreto da Bélgica entram em ação, complicando ainda mais a situação. Para piorar, o roteiro ainda abre espaço para um romance forçado entre Abereth e Angela. Os dois não combinam nem um pouco, mesmo que tudo não passe de um jogo de interesses. Se fosse na vida real, Bellucci mataria Kingsley do coração na primeira noite... Você acompanha todo o enredo sem entender muito bem o que está acontecendo. E termina de assistir sem continuar entendendo. Fraquinho, fraquinho...       


O drama “JUDY – MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS” (“Judy”), 2019, Inglaterra, 1h58m, direção de Rupert Goold, enfoca os dois últimos anos da atriz e cantora Judy Garland (1922-1969), uma grande estrela de Hollywood desde que atuou, ainda adolescente, no clássico “O Mágico de Oz”, um dos filmes de maior sucesso do cinema mundial. O roteiro de “Judy” foi escrito por Tom Edge, que se baseou no drama musical “O Fim do Arco-Íris” (“End of the Rainbow”), do dramaturgo Peter Quilter, encenada com grande sucesso na Broadway. No filme, Judy é interpretada de forma primorosa pela atriz Renée Zellweger, que conquistou, merecidamente, os prêmios de “Melhor Atriz” no Globo de Ouro e no Oscar 2020. Poucas vezes houve uma unanimidade tão grande nas premiações de Melhor Atriz - "Judy" também teve uma indicação para disputar o Oscar na categoria "Maquiagem e Penteados". O ano é 1968, Judy Garland está em fase decadente, sem dinheiro, afundada em dívidas e sem ter um lugar para morar com os dois filhos menores. Devido à sua situação financeira caótica, Judy aceita realizar uma série de shows na boate “Talk of the Town”, em Londres, onde ainda era adorada pelo público. Para isso, ela deixa seus dois filhos com Sidney Luft (Angus Sewell), pai das crianças e seu quarto marido.  O filme trata com maior destaque o tempo em que Judy passou em Londres, cantando para plateias seletas – a própria Renée Zellweger interpreta, com muita competência, as canções, o que deve ter sido um motivo a mais para tantas premiações. Longe dos filhos, porém, ela entra em depressão e se apega cada vez mais aos remédios e ao álcool, vícios aos quais se submetia há muitos anos e que a matariam pouco depois, com apenas 47 anos de idade. Nem o quinto casamento com o músico Mickey Deans (Finn Wittrock) foi capaz de tirar Judy da depressão. Ainda estão no elenco Jessie Buckley (a assistente de Judy em Londres), Darci Shaw (Judy jovem), Gemma-Leah Devereux (Liza Minelli), Richard Cordery (Louis B Mayer) e Gus Barry (Mickey Rooney). A opinião da maioria dos críticos não foi muito favorável ao filme, mas foram unânimes em destacar a atuação de Zellweger. Por ela, realmente vale a pena assistir. De qualquer forma, eu gostei muito do filme e não tenho dúvidas em recomendá-lo.       

domingo, 15 de março de 2020


“QUEEN MARIE OF ROMANIA” (“MARIA, REGINA ROMÂNIEI”), 2019, Romênia, 1h50m, primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta italiano Alexis Cahill, que também assina o roteiro juntamente com Gabi Antal, Brigitte Prodtloff, Maria-Denise Teodoru e Iona Manea. O filme é centrado na futura Rainha da Romênia (a bela e excelente atriz Roxana Lupu). Nascida Maria de Saxe-Coburgo-Gota, na Inglaterra, neta da Rainha Vitória e do czar Alexandre II, da Rússia, ela casou em 1893 com o príncipe herdeiro da monarquia romena, Fernando I (Daniel Plier). O filme enfoca os fatos históricos ocorridos após a Primeira Guerra Mundial, quando a Romênia, depois da invasão do exército alemão, estava totalmente destruída. A economia entrou em colapso e o povo passava fome. Lideranças políticas do país, chefiadas pelo primeiro-ministro Ion C. Bratianu (Adrian Titieni) tentavam, em Paris, durante as reuniões da famosa Conferência de Versalhes, a aprovação da unificação do país, retomando os territórios perdidos durante o conflito (Transilvânia, Bucovina e Bessarábia) e reivindicando a criação de um reino independente e soberano. Os políticos romenos não conseguiram avanços nas negociações e, como último recurso, apelaram para a dupla dos futuros monarcas. Fernando I era muito frouxo, incapaz de lidar com a classe política e com os próprios filhos e súditos. Depois de muita contestação dos políticos, a então princesa Maria conseguiu viajar para Paris e depois Londres, negociando com as mais altas autoridades dos aliados (França, Inglaterra e Estados Unidos). Com sua simpatia, personalidade e poder de persuasão, Maria conseguiu o apoio daqueles países para a causa romena e virou uma heroína para o povo romeno. Em 1922, Fernando e Maria seriam consagrados rei e rainha da Romênia, reinando até 1927, quando a monarquia foi extinta naquela país. Falado em romeno, inglês, francês e alemão, “Queen Marie of Romania” foi filmado em locações em Paris, Bucareste e Londres, apresentando cenários deslumbrantes e uma primorosa reconstituição de época.  Sem falar na maravilhosa atriz Roxana Lupu. Um filmaço histórico imperdível! 

sábado, 14 de março de 2020


“A HORA DO LOBO” (“THE WOLF HOUR”), 2019, Estados Unidos, 1h39m, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Alistyair Banks Griffin. Trata-se de um suspense psicológico ambientado no verão de 1977 em Nova Iorque. A personagem central é a escritora June Engle (Naomi Watts), expoente da contracultura, que vive enclausurada num apartamento no Sul do Bronx, em meio a livros, papelada espalhada pelo chão e lixo de todo tipo. Sujeira generalizada. June é uma mulher atormentada, vivendo um período de depressão e pânico, não conseguindo colocar o pé para fora do apê. Nessa época, a cidade vive um período de extrema violência, com saques, atos de vandalismo e assassinatos – naquele ano, ficou famoso um serial killer denominado “O Filho de Sam”. Como se não bastasse, faz um calor infernal e a cidade vive sofrendo apagões diários. Seus únicos contatos com o mundo exterior acontecem quando olha pela janela as pessoas se digladiando ou quando recebe o entregador do mercado, um garoto de programa e um policial atendendo a uma queixa de June a respeito de gente que está tocando seu interfone sem parar. A única visita especial que recebeu por mais tempo foi Margot (Jennifer Ehle), não sei se irmã, parente ou amiga – o roteiro não esclarece, que tenta tirar June daquela situação. Enfim, “A Hora do Lobo” é um filme bastante angustiante, claustrofóbico, pesado, mas tem o trunfo de contar com a primorosa atuação de Naomi Watts. Não há muito mais motivos para justificar uma recomendação entusiasmada.    

sexta-feira, 13 de março de 2020


“O GÂNGSTER, O POLICIAL E O DIABO” (“AKINJEON” no original, e “The Gangster, The Cop and The Devil” nos países de língua inglesa), 2019, Coreia do Sul, 1h50m, roteiro e direção de Won-Tae Lee (é o seu segundo longa-metragem). Quem tinha dúvidas sobre a qualidade do cinema sul-coreano deve tê-las descartado após o grande sucesso de “Parasita, maior vencedor do Oscar 2020. Eu já conhecia – e elogiava - o cinema daquele país há muito tempo, tendo visto ótimos filmes dos mais diferentes gêneros. Só para citar alguns: “OldBoy”, “A Criada”, “Mother – Em Busca pela Verdade”, “Pânico na Torre” e aquele que considero um dos melhores filmes de ação já realizados pelo cinema, “Onda de Choque”, de 2017, entre tantos outros. Agora, com este “O Gângster, o Policial e o Diabo”, o cinema sul-coreano reafirma sua qualidade também em filmes policiais. Trata-se de uma história baseada em fatos reais ocorridos em 2005 na capital Seul. Um misterioso serial-killer está matando pessoas com requintes de crueldade, sempre a facadas. Até que um dia ele bate na traseira de um veículo e sai para matar o seu motorista. Só que ele é um poderoso chefão da máfia local, especialista em artes marciais, e consegue escapar do criminoso. Mas jura vingança. A polícia de Seul também está atrás do serial killer. Numa inusitada e inimaginável combinação, a gangue chefiada pelo mafioso une-se à polícia para encontrar o psicopata. Essa união tem as suas contradições. Por exemplo, o chefão da máfia quer pegar o assassino para a seguir matá-lo, como manda a tradição, e a polícia, por seu lado, quer apenas prendê-lo e levá-lo a julgamento. Isso tudo em meio a muita ação e violência, pancadarias sanguinolentas, perseguições de carros e muito sangue jorrando. O ótimo ator Ma Dong-Seok está espetacular como o bandidão mafioso Jang Dong-Soo; o policial Jung Tae-Seok é interpretado por Kim Moo-Yeol; e, por fim, também com uma atuação destacada, o ator Kim Sung-Kyu, como o sanguinário psicopata Kang Kyungho, também conhecido como “K”. Resumo da ópera: um filme policial de muita qualidade.

quarta-feira, 11 de março de 2020


“JOIAS BRUTAS” (“UNCUT GEMS”), 2019, EUA, produção e distribuição Netflix, 2h15m, roteiro e direção dos irmãos cineastas Josh e Benny Safdie (“Bom Comportamento”). A história é toda centrada no comerciante judeu Howard Ratner (Adam Sandler), dono de uma joalheria em Nova Iorque. Casado e com filhos, Howard mantém um apartamento para a sua amante Julia (Julia Fox), é viciado em apostas de jogos da NBA, faz trambiques falsificando joias e relógios de luxo, além de dever muito dinheiro a agiotas da pior espécie. Sua rotina é de um homem prestes a ter um ataque cardíaco ou um AVC. Numa tentativa de se salvar financeiramente, ele tenta encontrar uma saída ao importar, da Etiópia, uma pedra não lapidada repleta de minerais preciosos. Segundo Howard, trata-se de uma raridade ligada aos judeus etíopes. Verdade ou não, ele encontra um cliente muito interessado na pedra, o jogador de basquete, astro da NBA, Kevin Garnett (o filme é ambientado em 2012, quando Kevin ainda era uma estrela nas quadras; ao interpretar ele mesmo no filme, Garnett já estava aposentado). Ao invés de pagar suas dívidas, Howard aposta todo o dinheiro que consegue nos negócios, enquanto os agiotas o pressionam para pagar ou então sofrer as consequências. O filme segue num ritmo frenético e alucinante, num espiral crescente de tensão, com a câmera sempre em movimento, irrequieta e nervosa. O elenco conta ainda com Idina Menzel, Lakeith Stanfield, Mike Francesa, Judd Hirsch e Eric Bogosian. "Joias Brutas” recebeu muitos elogios da crítica especializada, que também consideraram um show a atuação de Adam Sandler. Para falar a verdade, o filme não me convenceu muito, mas admito que Sandler está ótimo. De qualquer forma, "Joias Brutas" vale a pena pelo modo com que os irmãos Safdie o realizaram. Sem dúvida, um filme inovador. .        

segunda-feira, 9 de março de 2020


“MIDWAY – BATALHA EM ALTO-MAR” (“MIDWAY”), 2019, Estados Unidos, 2h19m, direção do cineasta alemão Roland Emmerich, seguindo roteiro de Wes Tooke. Quem conhece um pouco da história da Segunda Guerra Mundial sabe que foi nas Ilhas Midway, no Pacífico, no dia 4 de julho de 1942, que as forças norte-americanas enfrentaram a Marinha Imperial Japonesa, revidando com sucesso o ataque a Pearl Harbor, seis meses antes. O filme destaca o trabalho de bastidores da inteligência norte-americana, que conseguiu codificar mensagens que forneceram a localização da frota japonesa. As cenas de batalhas aéreas e navais são de tirar de fôlego, num ritmo frenético que vai do início ao fim. Ao contrário de “Midway – A Batalha do Pacífico”, de 1976, o atual “Midway – Batalha em Alto-Mar” utiliza efeitos especiais espetaculares e, em algumas cenas, parece que você está ali no meio da batalha. O elenco é de primeira: Ed Skrein, Woody Harrelson, Patrick Wilson, Luke Evans, Dennis Quaid, Aaron Eckhart, Mandy Moore, Nick Jonas, Alexander Ludwig e Tadanobu Asano. O diretor alemão Roland Emmerich justificou plenamente a sua fama de dirigir bons filmes de ação, como “Godzila”, “Independence Day”, “O Dia Depois de Amanhã” e “O Patriota”. Embora os críticos tenham malhado o seu “Midway”, elogiando apenas as cenas de batalha, achei o filme muito bem feito, repleto de ação, um ótimo programa para uma sessão da tarde com pipoca.       

domingo, 8 de março de 2020


“UMA VIDA OCULTA” (“A HIDDEN LIFE”), 2019, coprodução Alemanha/EUA, roteiro e direção de Terrence Malick, 3 horas de duração. Finalmente o polêmico e excêntrico cineasta norte-americano oferece talvez sua obra mais acessível. Da mesma forma que realizou filmes como “A Árvore da Vida”, “De Canção em Canção”, “Cavaleiro de Copas” e “Amor Pleno”, obras de cunho existencialista com fundo religioso, em “Uma Vida Oculta” Malick mantém seu estilo inconfundível de filmar paisagens da natureza como céu com nuvens, correntezas de rios, florestas e planícies verdejantes, usando e abusando de lente grande angular para ampliar os cenários. Sem falar na trilha sonora clássica e nas locuções em off, com reflexões filosóficas e religiosas, em sua maioria entediantes e com a profundidade de um pires. A história de “Uma Vida Oculta”, inspirada em fatos reais, é ambientada na Áustria bem no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, logo após a invasão do país pelo exército nazista. Franz Jägerstätter (August Diehl), um fazendeiro da região de Santa Radegunda, interior austríaco, assim como milhares de cidadãos do seu país, é convocado para lutar pelo exército alemão. Sua recusa, por não acreditar nos ideais de Hitler, vira um caso de traição. Ele é preso e condenado à morte. Até o final ele mantém sua posição, para desespero de seus amigos. Franziska (Valerie Pachner), sua esposa, mesmo aflita com o desenrolar dos acontecimentos, aceita a posição do marido e enfrenta a situação com altivez. O cenário onde fica a fazenda de Franz lembra muito aquele em que Julie Andrews canta e dança com os filhos do Capitão Von Trapp em “A Noviça Rebelde” (1965). Em algumas ocasiões achei que a própria Julie Andrews de repente surgiria em cena. Embora o elenco seja em sua maioria constituído por atores alemães e austríacos, o filme é quase todo falado em inglês e um pouco de alemão. O elenco é ótimo: além de Diehl e Pachner, os mais conhecidos são Matthias Schoenaerts, Alexander Fehling, Michael Nyqvist, Bruno Ganz, Johannes Krisch, Karl Markovics, Tobias Moretti, Ulrich Matthes e Maria Simon. Uma curiosidade que a maioria dos críticos deixou passar: “Uma Vida Oculta” foi o último filme de dois grandes atores, o suíço Bruno Ganz e o sueco Michael Nyqvist, falecidos logo depois do fim das filmagens. O filme estreou no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019, e também foi exibido por aqui durante a programação do Festival Internacional de Cinema do Rio, em dezembro de 2019.     

quinta-feira, 5 de março de 2020


“UMA MULHER ALTA” (“DYLDA”), 2019, Rússia, 2h19m, terceiro longa-metragem escrito e dirigido pelo jovem cineasta Kantemir Balagov, de apenas 28 anos. Inspirada no livro “A Guerra não tem Rosto de Mulher” (1983), escrito por Svetlana Aleksiévitch (Prêmio Nobel de Literatura em 2015), “Uma Mulher Alta” retrata os acontecimentos pós-Segunda Guerra Mundial em Leningrado, que se transformou num cenário de miséria, fome e destruição, onde os moradores sobreviventes andam como zumbis em meio aos destroços. Nesse contexto de colapso social, a trama é concentrada em duas amigas ex-combatentes: Íya (Viktoria Miroshnichenko) e Masha (Vasilisa Perelygina). Também chamada de “Varapau” pela sua altura, Íya voltou antes do front e assumiu a responsabilidade de cuidar do filho de Masha. Ambas voltariam a se encontrar trabalhando como enfermeiras num hospital militar repleto de soldados feridos. Juntas, Íya e Masha tentarão sobreviver aos traumas de guerra, à fome e à falta de perspectivas, além de um fato trágico envolvendo o filho de Masha. Uma se agarrará à outra para enfrentar as dificuldades. Interessante que as duas protagonistas principais são atrizes estreantes, mas nem por isso deixam de ter uma atuação magistral. O diretor Balagov utiliza tons saturados de vermelho e verde, o que lembra, em menor proporção, os filmes do diretor espanhol Pedro Almodovar. Selecionado para representar a Rússia na disputa do Oscar 2020 na categoria “Filme Internacional” (eu preferia como era, “Filme Estrangeiro”), “Uma Mulher Alta” não ficou entre os cinco finalistas, o que achei uma grande injustiça. Antes, o filme recebeu o prêmio de crítica internacional e de direção na mostra “Um Certo Olhar”, no Festival de Cannes. Por aqui, foi exibido durante a programação oficial do 21º Festival do Rio, em dezembro de 2019. Sem dúvida, um grande filme. Imperdível!

terça-feira, 3 de março de 2020


Desde que a vi em “A Insustentável Leveza do Ser”, em 1988, e depois, nos anos 90, na famosa trilogia do diretor polonês Krzysztof Kieslowski (“A Liberdade é Azul”, A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”, jamais deixei de assistir a um filme com a  francesa Juliette Binoche. E foram muitos, incluindo “O Paciente Inglês” etc. Um de seus filmes mais recentes é “QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU” (“CELLE QUE VOUS CROYEZ”), 2019, França, 1h41m, roteiro e direção de Safy Nebbou. Binoche é Claire Millaud, uma professora universitária divorciada, com dois filhos, que procura fugir da solidão com namorados mais jovens. O último deles é Ludo (Guillaume Gouix), que de repente resolve terminar a relação humilhando Claire. Ela resolve se vingar entrando num site de relacionamentos com o nome de Clara, utilizando as fotos de uma sobrinha linda de 24 anos de idade. A isca foi lançada e Claire pesca justamente quem queria: Alex (François Civil), o melhor amigo de Ludo. A história vai se desenrolando paralelamente às sessões de Claire com a psicanalista Catherine Bormans (Nicole Garcia). O diretor Safy Nebbou insiste em manipular o enredo com algumas dúvidas para o espectador. Por exemplo, se o que está acontecendo é na vida real ou virtual. A complexidade da trama também está no fato de que Claire está escrevendo um livro cujo conteúdo sugere muitas semelhanças com o que está acontecendo no filme. Enfim, um “filme cabeça” não indicado para quem curte “Capitão América” e assemelhados. E com uma vantagem especial: a presença de Juliette Binochet em mais uma atuação impecável. “Quem Você Pensa que Sou” estreou no 69º Festival Internacional de Berlim em fevereiro de 2019 e foi exibido por aqui, antes de entrar no circuito comercial, durante a programação do Festival Varilux de Cinema Francês, em junho de 2019.

segunda-feira, 2 de março de 2020

JOJO RABBIT”, 2019, Estados Unidos, 1h48m, roteiro e direção do neozelandês Taika Waititi (que também atua no filme). Indicado para disputar o Oscar 2020 em seis categorias, inclusive de Melhor Filme, “Jojo Rabbit” ganhou apenas uma estatueta como Melhor Roteiro Adaptado – do romance “Caging Skies”, da escritora neozelandesa Christina Leunens, lançado em 2004. Realmente, o roteiro é primoroso, criativo, que soube criar situações de bom humor num contexto trágico – a Segunda Guerra Mundial. A história é toda centrada num garoto de 10 anos, Jojo Betzler (o estreante Roman Griffin Davis), admirador do nazismo e de Adolph Hitler. Seu sonho é ingressar na Juventude Hitlerista. A situação começa a mudar quando ele descobre que a mãe Rosie Betzler (Scarlett Johansson) esconde uma garota judia (Thomasin McKenzie) no armário, uma evidente referência a Anne Frank. Jojo fica sabendo ainda que a mãe é uma antinazista convicta e que, por isso, sofrerá uma trágica consequência. A simpatia de Jojo pelo nazismo é incentivada por seu amigo imaginário, o próprio Adolph Hitler (papel do diretor), em aparições hilariantes. O filme já começa de modo surpreendente, associando o histerismo dos alemães diante dos discursos de Hitler com o histerismo das fãs que iam aos concertos dos The Beatles. Uma sacada genial. Tudo funciona muito bem, mas o grande trunfo do filme é realmente a atuação do estreante ator britânico Roman Griffin Davis como Jojo. Ele domina o filme de cabo a rabo. Outro protagonista que dá um show é o gordinho York (Archie Yates), responsável pelas cenas mais engraçadas. O elenco conta ainda com Sam Rockweel, Rebel Wilson e Stephen Merchant. O filme estreou durante o 44º Festival de Cinema de Toronto, arrancando elogios entusiasmados dos críticos e do público. Eu também gostei, achei o filme genial, interessante e muito criativo. Imperdível!    

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020


“PARTIDA FRIA” (“THE COLDEST GAME”), 2019, Polônia, produção da Netflix (estreou dia 8 de fevereiro de 2020), 1h40m, roteiro e direção de Lukasz Kosmicki – é o seu primeiro longa-metragem; eu seu país, Kosmicki é mais conhecido como diretor de séries televisivas. O pano de fundo da história é a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, no auge da guerra fria que colocou em cada lado do ringue mundial os EUA e a União Soviética. Nesse contexto, o professor norte-americano de matemática Joshua Mansky (Bill Pullman), um gênio no xadrez, é cooptado – “obrigado” seria a palavra mais correta – pela CIA para disputar uma série de partidas com o campeão russo Gavrylow em Varsóvia. O objetivo da inteligência norte-americana é utilizar Mansky para tentar identificar um espião russo de codinome Gift, capaz de confirmar se os russos têm ogivas nucleares em Cuba. Só que a turma da KGB, chefiada pelo General Krutov (Aleksey Serebryakov), descobre a intenção dos norte-americanos e parte para o ataque, implementando ações que podem colocar em perigo a vida de Mansky. Como quase todo filme de espionagem, o roteiro demora a engrenar, ou seja, esclarecer o que está acontecendo, dificultando o entendimento por parte do espectador. O filme é todo falado em inglês, com alguns diálogos em polonês e russo. Também estão no elenco a atriz holandesa Lotte Verbeek e os atores James Bloor e Robert Wieckicewicz, este último do polonês “Clero”. Como informação adicional, este foi o último filme produzido por Piotr Wozniak-Starak, que morreu antes da exibição de estreia. Resumo da ópera: indicado apenas para aqueles que curtem filmes de espionagem.    


“ELISA E MARCELA”, 2019, roteiro e direção de Isabel Coixet, 1h58m, roteiro e direção de Isabel Coixet. Produção espanhola da Netflix, cuja primeira exibição ocorreu em fevereiro de 2019 no Festival de Cinema de Berlim e lançada em maio no circuito comercial da Espanha. A história é verídica, baseada em acontecimentos ocorridos entre o fim do século 19 e começo do 20. Para escrever o roteiro, Coixet se baseou no livro biográfico “Elisa e Marcela – Más Allá de Los Hombres” (“Elisa e Marcela – Além dos Homens”, escrito por Narciso de Gabriel. Elisa Sanchez Loriga (Natalia de Molina) e Marcela Gracia Ibeas (Greta Fernández) se conhecem ainda jovens quando cursavam a Escola de Formação de Professores e o amor foi à primeira vista. Daí para a cama foi um passo. Em 1901, elas resolveram se casar e, para isso, Elisa se travestiu de homem, intitulando-se Mario e utilizando os documentos de um tio falecido. Casaram-se na Igreja de San Jorge, na região de Coruña, na Galícia. Embora o padre tenha sido enganado, o casamento foi legalmente oficial, tendo sido considerado mais tarde a primeira união homossexual da Europa. Não demora muito para que a verdadeira identidade de Mario seja revelada, culminando com a prisão das duas amantes, que depois são obrigadas a fugir para Portugal e depois para a Argentina. Rodado em preto e branco, o filme contém cenas ardentes de sexo entre as protagonistas, mas sem chocar, tudo filmado com bom gosto erótico e nada explícito. Como aval de qualidade, lembro que a roteirista e diretora espanhola Isabel Coixet tem no currículo alguns bons filmes, como “Minha Vida Sem Mim”, “Confissões de um Apaixonado” e “A Vida Secreta das Palavras”. A bela e excelente atriz Natalia de Molina eu já conhecia de outros filmes. Recomendo!    

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020


“CLERO” (“KLER”), 2018, Polônia, 2h13m, roteiro e direção de Wojciech Smarzowski (“Wolyn”). Inacreditável que um filme tão bom não tenha sido exibido por aqui. Trata-se de um drama com uma contundente, corrosiva e impiedosa crítica à Igreja Católica, em especial aos padres poloneses. A história é centrada em três padres pilantras ao extremo. Um é pedófilo, abusa sexualmente de um menino órfão cego. O outro é alcoólatra e tem amante e filho; o terceiro faz negociatas com licitações de obras das igrejas, trabalhando em favor de um mafioso. Além dos pecados citados, os três têm em comum também rotineiras bebedeiras homéricas, nas quais a vodka é ingerida como água - não a santa. As maracutaias também envolvem o arcebispo da Cracóvia, cidade ao sul da Polônia. Enfim, mais uma cutucada – eu diria um violento chute - nas feridas da Igreja Católica, com ênfase na pedofilia – no filme, o diretor Smarzowski coloca várias pessoas que foram abusadas por padres poloneses dando os seus dramáticos depoimentos, numa sequência de cenas bastante chocantes.  Quando estreou na Polônia, um país onde 85% da população é católica, o filme causou grande impacto e repercussão, levando às salas de cinema mais de um milhão de espectadores nas primeiras semanas de exibição, batendo recordes de bilheteria, assim como aconteceu na Islândia, Noruega e Irlanda. Infelizmente, não foi exibido por aqui. Alguém sabe por quê? Pela sua abordagem denunciando os podres da Igreja e dos padres poloneses, o filme chocou políticos conservadores daquele país e levou o vice-ministro da Cultura a afirmar que “Kler” utilizou “estereótipos negativos” e tratou a Igreja Católica injustamente. Do ótimo elenco, conhecia apenas dois atores: Arkadiusz Jakubik (“Noite Silenciosa”, I’m a Killer” e “A Arte de Amar”) e a bela Joanna Kulig (“Guerra Fria” e “Agnus Dei”). IMPERDÍVEL com maiúscula!