Quem acompanha o noticiário esportivo sabe que o ciclista
norte-americano Lance Armstrong foi um grande fenômeno. Basta lembrar que,
entre 1999 e 2005, venceu sete edições do Tour
de France, a mais importante prova
ciclística do mundo. Desde os anos 90, Armstrong dominava o cenário esportivo
mundial, chegando ao nível de herói nacional, principalmente depois que venceu
um câncer e voltou a competir em alto nível. Em 2012, porém, a revelação
bombástica: durante todos aqueles anos, Armstrong utilizou substâncias químicas
proibidas, anabolizantes e o EPO (Eritropoietina). Caiu em desgraça no mundo
esportivo, perdeu seus títulos e acabou execrado por todos aqueles que o
consideravam um verdadeiro “Capitão América”. Toda essa história está contada
no drama “O PROGRAMA” (“The Program”),
2016, Inglaterra/França, dirigido pelo veterano diretor inglês Stephen Frears. Para
esse projeto, Frears adaptou o livro “Sete Pecados Capitais”, escrito pelo
jornalista irlandês David Walsh (Chris O’Dowd), que durante anos investigou a
possibilidade do ciclista norte-americano ter utilizado substâncias químicas
ilegais para vencer as competições. O filme também destaca a ligação de
Armstrong (Ben Foster) com o médico italiano Michelle Ferrari (Guillaume
Canet), que há anos dopava vários atletas de ponta. Frears foca todo o seu
filme na questão do doping, não abrindo espaço para mostrar como foram algumas
de suas vitórias e nem mesmo a vida particular do atleta. Não é o melhor
trabalho de Stephen Frears, diretor de filmes memoráveis como “Ligações
Perigosas”, “Alta Fidelidade”, “A Rainha”, “Philomena” e “Florence - Quem é
Essa Mulher?”, mas obrigatório para quem curte o mundo esportivo.
“NOSSAS NOITES” (“Our
Souls at Night”), 2017,
produção Netflix, direção do indiano Ritesh Batra (“The Lunchbox”), com roteiro
de Scott Neustadter e Michael H. Heber, que adaptaram a história do romance
escrito por Kent Haruf, cujo título é o mesmo do original do filme. Louis Waters (Robert Redford) e Addie Moore (Jane
Fonda) são vizinhos de muitos anos e suas famílias chegaram a se relacionar.
Quando ficaram viúvos, porém, deixaram de se falar por um bom tempo. Um dia,
porém, Addie resolve tomar a iniciativa e procura Louis, se queixando de que
não aguentava mais a solidão da noite, principalmente na hora de dormir. Ela
faz, então, uma inusitada e surpreendente proposta: dormirem juntos, deixando claro
que “sem sexo”. A partir daí começa uma grande amizade e a promessa de um caso
de amor, que nem as inconvenientes visitas de Gene (o ator belga Mathias
Schoenaerts), filho dela, e de Holly (Judy Greer), filha dele, conseguem
estragar. Como é bom ver dois artistas tão veteranos (Redford tem 81 e Fonda 79
anos) em plena forma, esbanjando charme e ainda atuando com grande competência. Aliás, esta é a quarta
vez que eles contracenam juntos, depois de “Caçada Humana” (1966), “Descalços
no Parque” (1967) e “O Cavaleiro Elétrico” (1979). O filme foi dirigido com
muita sensibilidade pelo jovem diretor indiano, transformando-se num entretenimento
dos mais agradáveis. Redford também assina a produção. Resumo da ópera: Redford e Fonda juntos tornam esse filme imperdível!
Pouco antes de morrer, em outubro de 2016, o consagrado diretor
polonês Andrzej Wajda encerrou sua carreira com chave de ouro, realizando o
ótimo “AFTERIMAGE” (“POWIDOKI”), com roteiro de Andrzej Mularczyk. O
filme conta a história dos últimos anos de vida de Wladyslaw Strzeminski (Boguslan
Linda), considerado o mais
importante artista plástico de vanguarda da Polônia no Século XX. Como pano de
fundo para a história está o domínio soviético sobre a Polônia a partir de
1948, contra o qual o artista se insurgiu e depois sofreu as consequências – o aspecto
político da história da Polônia sempre esteve presente nos filmes de Wajda. Strzeminski
não tinha uma perna e um braço, o que não o impedia de exercer sua criatividade
e dar aulas na Escola de Belas Artes de Lodz. Os estudantes o idolatravam. Suas
palestras eram com plateia lotada, repleta de jovens que queriam ouvir sua
opinião sobre tudo, inclusive política. Strzeminski não abria mão de sua liberdade
artística e de expressão, recusando-se a obedecer as “orientações” artísticas
das autoridade soviéticas. Mais um grande filme de Wajda, selecionado para representar a Polônia na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. Imperdível!
Sempre gostei de filmes que abordam a questão Palestina, a difícil convivência com Israel, a cultura de cada povo, os imbróglios políticos que
envolvem aquela região. “OS ÁRABES
TAMBÉM DANÇAM” (“Aravim Rokdim”),
2014, Israel, direção de Eran Riklis, trata de todos esses assuntos. A história,
ambientada a partir de 1982, quando Israel invade o Líbano, é baseada no livro
autobiográfico “Dancing Arabs”, escrito por Sayed Kashua, que também assina o
roteiro. A trama é centrada no jovem Eyad (Tawfeek Barhom), que reside com a
família árabe no vilarejo de Tira. Esperto e inteligente, Eyad consegue uma
bolsa para estudar na prestigiada Israel Arts and Science Academy, em
Jerusalém. Sua origem árabe fará com que Eyad enfrente muitos desafios, como o
da língua, da cultura e muito preconceito. Até o romance com uma judia, Naomi
(Danielle Kitsis), será tumultuado por causa das diferenças culturais. No
filme, há muitos momentos sensíveis, como a amizade de Eyad com Yonatan
(Michael Moshonov), um jovem israelense que sofre de uma grave doença
degenerativa, e com a mãe dele, Edna (Yaël Abecassis). Nos créditos iniciais
aparece a informação de que 20% dos cidadãos israelenses são árabes, o que dá
um total de 1.617.000 pessoas. Fica evidente na narrativa e nas situações que a
mensagem que o diretor quis transmitir é a seguinte: não deveria haver tanta
inimizade, pois somos praticamente irmãos. Sem dúvida, um filme bastante
esclarecedor e realizado com grande sensibilidade. Do mesmo diretor recomendo “A
Noiva Síria”, “Lemon Three” e “A Missão do Gerente de Recursos Humanos”.
“NEVE NEGRA” (“NIEVE
NEGRA”), 2017, Argentina,
segundo longa-metragem escrito e dirigido por Martín Hodara. Suspense dos
melhores, cuja história é centrada no reencontro dos irmãos Marcos (Leonardo
Sbaraglia) e Salvador (Ricardo Darín), que não se viam nem se falavam há trinta
anos. A visita não era para matar as saudades do irmão Salvador e sim tentar
convencê-lo a aceitar uma proposta de venda da velha cabana e das terras que
pertenciam à família no interior da Patagônia. Salvador vive isolado ali há
muitos anos. Casado com Laura (a atriz espanhola Laia Costa) e prestes a ser
pai, Marcos precisa de dinheiro para bancar as despesas com o nascimento do bebê,
médico, hospital etc. Salvador se recusa a discutir o assunto e manda Marcos ir
embora com a mulher. A rivalidade entre os irmãos tem a ver com uma tragédia
familiar ocorrida no passado, envolvendo a morte do irmão mais novo, Juan. A
verdade do que aconteceu virá à tona no desfecho, com uma surpreendente
revelação. O diretor Martín Hodara já havia trabalhado com Darín em 2007 no
policial noir “O Sinal”, sua estreia na direção. Mesmo que Darín não seja o protagonista
principal, sua presença carismática valoriza o drama. Outro destaque é a qualidade do roteiro, um primor, que consegue manter o suspense do começo ao fim e ainda explicar toda a história sem recorrer a malabarismos intelectuais, além das presenças, também marcantes, de Dolores Fonzi e Federico Luppi. Mais um filme argentino
que merece ser visto.
Durante a Guerra Fria entre a União Soviética e os Estados
Unidos, a corrida espacial era uma das “armas” ideológicas mais importantes. Era
questão de honra sair na frente do outro. Em 1965, a União Soviética colocou em
prática a Missão Voskhod 2, que teve como principal objetivo fazer com que um
astronauta soviétivo fosse o primeiro homem a caminhar no espaço. Toda essa
história é contada no filme “PRIMEIRA
VEZ” (“VREMYA PERVYKH”), 2017, Rússia, direção de Dmitriy Kiselev (“Trovão
Negro”). A missão ficou a cargo dos astronautas Alexey Leonov (Evgeniy Mironov)
e Pavel Belyayev (Konstantin Khabenskiy). O filme, de um esmero técnico comparável
aos melhores do gênero feitos por Hollywood, não esconde o fato de que naquela época
participar de uma missão no espaço era quase um suicídio, haja vista a
precariedade dos equipamentos – o filme não esconde esse detalhe. Para quem não
conhece a história da Missão Voskhod ou não se lembra do seu desfecho, o filme
é uma ótima oportunidade para resgatar um feito heroico dos mais
representativos na corrida espacial.
De vez em quando a gente descobre uma preciosidade. Estou
falando de “A CONSTITUIÇÃO” (“Ustav Republike Hrvatske”), 2016,
Croácia, escrito e dirigido por Rajko Grlic (“O Posto da Fronteira”). Eu não tinha
qualquer referência sobre este filme, a não ser o fato de ter sido exibido
durante a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016. Uma
surpresa das melhores, um filme inteligente, bem-humorado e sensível, mesmo que
o pano de fundo seja a rivalidade entre sérvios e croatas. A história é toda
centrada em quatro personagens que moram no mesmo edifício: o professor
homossexual Vjeko Kralij (Neojsa Glogovac, numa atuação espectacular) e seu pai
grudado numa cama com as duas pernas amputadas; a enfermeira Maja (Ksenija
Marinkovic) e seu marido, o policial Ante Samardzic (Dejan Acimovic). Em troca
de Maja ir de vez em quando dar banho e cuidar do seu pai, Vjeko se propõe a
dar aulas sobre a Constituição da Croácia a Ante, preparando-o para uma prova
que poderá lhe significar um aumento de patente. Os dois vão se estranhar o
tempo todo, já que Ante é sérvio e Vjeko é croata, o que resulta em momentos
bastante divertidos. Tudo muito contido, claro, sem apelações humorísticas. O
filme foi vencedor do Grand Prix Des Amériques no Festival de MontreaL 2016 e
eleito o melhor filme do Festival de Santa Bárbara 2017. Além disso, foi
premiado no Festival da Eslovênia e fez parte da seleção oficial do Festival de
Munique 2017. Fazia muito tempo que eu não me entusiasmava tanto por um filme. IMPERDÍVEL!
“TONI ERDMANN”, 2016, escrito e dirigido por Maren
Ade, era o grande favorito para conquistar o Oscar 2017 de Melhor Filme
Estrangeiro para a Alemanha. Ficou entre os cinco finalistas, mas acabou
perdendo para o iraniano “O Apartamento”. O filme alemão é muito bom, tem
humor, momentos sensíveis e um grande personagem. Na verdade, Toni Erdmann é o
nome inventado pelo sessentão Winfried Conradi (Peter Simonischek) quando
assume a personalidade de um cara gozador, que faz brincadeiras inusitadas
disfarçando-se com uma dentadura postiça e uma peruca comprida, inventando histórias mirabolantes e se apresentando cada vez com uma profissão diferente. Depois
da morte de seu cão de estimação e companheiro de todas as horas, Winfried resolve dar mais atenção à sua filha
Ines (Sandra Hüller), uma executiva workhlic
que trabalha no escritório de uma empresa alemã em Bucareste (capital da
Romênia). Ele vai visitá-la e tentar, com suas brincadeiras e disfarces, romper a armadura de
seriedade que envolve a filha, que não tem o mínimo sendo de humor e só pensa
em trabalhar. Que atriz maravilhosa é Sandra Hüller. Só ela vale o filme. “Toni
Erdmann” foi exibido pela primeira vez no 69º Festival de Cannes, em maio de
2016, e encantou críticos e público. Foi
eleito o melhor filme estrangeiro de 2016 pelos críticos de Nova Iorque, pela
Revista Sight & Sound e pela conceituada revista francesa Cahiers Du Cinéma. Realmente, um
filmaço!
“MANUSCRITOS NÃO
QUEIMAM” (“DAST-NEVESHTEHAA NEMISOOSAND”), 2013, Irã, 2h14m. Polêmico thriller político escrito
e dirigido por Nohammad Rasoulop, que teve a coragem de desafiar, novamente, o
governo iraniano. Desde 1910, quando foi preso por fazer filmes denunciando a
censura e a repressão existentes no país, Rasoulop estava proibido de
trabalhar. Além disso, seu passaporte foi confiscado pelas autoridades
iranianas, que impediram sua viagem à Alemanha para participar do Festival
Internacional de Direitos Humanos de Nuremberg. As filmagens de “Manuscritos
não Queimam” foram realizadas clandestinamente e, por questão de segurança, os
nomes dos atores e da equipe técnica não aparecem nos créditos. Claro que o
filme foi proibido no Irã, mas foi aclamado no Festival de Cannes 2013, onde
conquistou o prêmio FIPRESCI da Mostra “Um Certo Olhar”. Sua exibição terminou
com o público aplaudindo de pé. Por aqui, somente foi exibido no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em 2013. O filme denuncia um caso verídico ocorrido anos
antes envolvendo uma tentativa do governo iraniano de assassinar 21 escritores
num atentado que não deu certo. A história toda está contada nos manuscritos
guardados na casa de um poeta. Os assassinos de aluguel Morteza e Khosrow
ficaram encarregados de encontrá-los e assassinar o seu autor. Confesso que até
bem depois da metade do filme fique especulando, sem entender, o que estava
acontecendo. Mas logo depois, além de entender, deu para sentir a força
impactante dessa produção clandestina iraniana. Não digo que seja um filmaço,
mas muito poderoso pela denúncia. Só para espectadores que curtem filmes
políticos.
“O EFEITO AQUÁTICO” (“L’Effet
Aquatique”), 88
minutos, França/Islândia, 2015, escrito e dirigido pela diretora islandesa
Sólveig Anspach. Logo após o término das filmagens, Anspach faleceu e a
montagem ficou a cargo do francês Jean-Luc Gaget, seu assistente direto.
Trata-se de uma comédia romântica que conta a história de Samir (Samir Guesmi),
um operador de guindaste em Montreuil, arredores de Paris, que se apaixona pela
instrutora de natação Agathe (Forence Loiret Caille). A paixão foi tão forte
que Samir inscreve-se nas aulas de Agathe numa piscina pública de Paris. O
romance começa bem, mas logo termina a partir do momento em que Agathe descobre
que Samir nada muito bem. A partir daí, o filme passa para uma segunda etapa,
na Islândia, para onde Agathe viaja para participar de um congresso internacional
de instrutores de piscina. Samir descobre e também vai para a Islândia tentar a
reconciliação. O filme foi premiado como Melhor Roteiro na mostra “Quinzena dos
Realizadores” do Festival de Cannes 2016 e também no tradicional César, o Oscar
francês. Por aqui, foi exibido no Festival Internacional de Cinema do Rio de
Janeiro 2016, mas não ganhou projeção no circuito comercial. Achei o filme
muito fraco, oferece pouco humor para uma comédia romântica e é tão sem graça quanto
o ator Samir Guesmi, uma espécie de Mr. Bean francês. Se algo vale a pena são
as paisagens islandesas exploradas com competência pela fotografia de Isabelle
Razavet. Da mesma diretora, recomendo o drama "Lulu Nua e Crua", este sim um belo filme.
“A ÚLTIMA PRINCESA” (“DEOKHYEONGJU”), 2016, Coreia do Sul. Belíssimo
trabalho de reconstituição histórica do roteirista e diretor Jin-Ho Hur,
enfocando a turbulenta trajetória de vida da Princesa Deokhye (1912-1989), última
remanescente da Dinastia Joseon (1392-1897). A história, baseada no livro "Princesa Deokhye", de Kwon Bi-Young, começa quando a princesa,
ainda menina, vê o seu pai (Rei Gojong) morrer envenenado. Na época, a Coreia
era dominada pelo Japão. Quando perceberam que a princesa poderia causar
problemas, os japoneses a exilaram no Japão, onde foi obrigada a casar com o
Conde So Takeyukim, membro importante da monarquia imperial japonesa. De tão
infeliz, principalmente por não poder voltar ao seu país, Deokhye acaba
sofrendo um colapso e é internada num hospital psiquiátrico. Muitos anos
depois, graças ao empenho de um antigo amigo, Jang-Han (Park Hae II), a
princesa consegue finalmente voltar à Coreia. Deokhye é interpretada na juventude
por So-Hyun Kim e, na fase adulta, por Son Ye Jin. O filme é irresistível, não
apenas pelo fundo histórico e político – uma aula de história coreana –, mas também pela caracterização de
época, cenários deslumbrantes e uma fotografia da mais alta qualidade. Recomendo
também outro filme cujo pano de fundo é a resistência coreana ao domínio
japonês: “A Era da Escuridão”.
“O BAR” (“EL BAR”), 2016, Espanha, roteiro e direção de
Álex de La Iglesia (“Balada do Amor”). Um misto de suspense, comédia de humor
negro e ficção científica. Num bar no centro de Madri, as pessoas vão chegando
para o café da manhã. De repente, ecoa um tiro e o pessoal que está no bar vê
que um pedestre foi atingido na calçada. Um dos clientes sai para socorrer o
que foi baleado e também recebe um tiro. Claro que ninguém mais quer sair do
tal bar. São três mulheres e cinco homens que observam o mundo lá fora ficar
muito estranho: ruas vazias, os cadáveres dos homens desaparecem, começa um
grande incêndio, homens com máscaras antigás desinfetando tudo pela frente etc.
De dentro do bar, a impressão que dá é que o mundo está acabando. A partir daí,
toda a ação se resume ao interior do bar e depois pelo esgoto da cidade. Entre
os oito “reféns” da situação estão um mendigo que não para de citar a Bíblia,
uma dondoca à espera do namorado, um policial aposentado, a dona e um
funcionário do bar, além de outras figuras estranhas. O desespero da situação
conturba o ambiente e começam os desentendimentos. Eles só irão se entender a
partir do momento em que precisam encontrar uma saída para fugir do bar. Ou
seja, recuperar a sanidade e tentar sair dali vivos. Se o filme é fraco por si
só, o desfecho então beira o ridículo. Aliás, ridículo mesmo é figurino que arranjaram para o galã canastrão Mario Casas, com barba e suspensório ao estilo Amish. O filme estreou no 67º Festival de
Berlim, em fevereiro de 2017, e tem no elenco atores e atrizes espanhóis bastante
conhecidos: além de Casas, Blanca Suárez, Carmen Machi, Jaime Ordóñez, Alejandro Awada e Terele
Pávez. Descartável!
“ASSIM QUE ABRO MEUS
OLHOS” (“À PEINE J’OUVRE LES YEUX”), Tunísia/França, 2015, marca a estreia da tunisiana Leyla
Bouzid na direção – ela também assina o roteiro. Mesmo que o centro da história seja
ficcional, o filme resgata os acontecimentos que deram origem ao movimento que viria
a se chamar “Primavera Árabe”, a partir de dezembro de 2010, responsável pela
derrubada dos presidentes da Tunísia, do Egito e da Líbia, além de gerar violentos
protestos em outros países do Oriente Médio e do Norte da África. O filme é
todo ambientado em Túnis e centrado na jovem Farah (Baya Medhaffar), de 18
anos, vocalista de uma banda de pop-rock cujas letras protestam contra o
governo tunisiano comandado pelo ditador Zine el-Abidine Ben Ali, que seria
deposto meses depois. Canções de protesto, contendo letras com frases como “Ricos
têm dentes de ouro, enquanto os pobres estão desdentados” ou “Assim que abro
meus olhos eu vejo aqueles privados de trabalho e de comida”. A banda se
apresenta em bares lotados de Túnis e os jovens aderem às músicas, gritando
seus refrões. Claro que não demora muito
para as autoridades começarem a repressão, o que desencadeia todo um movimento
revolucionário. Além do aspecto político, o filme destaca o relacionamento
conflituoso entre Farah e a mãe, Hayet (a maravilhosa atriz Ghalia Benali). O
filme representou a Tunísia na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme
Estrangeiro, foi premiado em diversos festivais, inclusive o de Veneza, e foi
considerado pelo site IndieWire “O melhor filme de ficção sobre a Primavera
Árabe até agora”. Realmente, um filmaço!
O cinema atual da Romênia já nos presenteou com grandes
filmes, como “Instinto Materno”, de 2013, e “Casamento Silencioso”, de 2008,
que considero uma pequena obra-prima cinematográfica, entre tantos outros. “GRADUAÇÃO” (“BACALAUREAT”), 2016, chega para consagrar em
definitivo o diretor Cristian Mungiu, também autor do roteiro. Mungiu caiu nas
graças dos críticos profissionais depois de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de
2007, que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Em 2012, Mungiu assinou
o roteiro e a direção de outro grande filme, “Além das Montanhas”. Em “Graduação”, Mungiu trata de moral e
ética ao contar a história de Romeo Aldea (Adrian Titieni), um médico bastante
respeitado na pequena cidade de Cluj, na Transilvânia, que fará tudo para
conseguir que a filha Eliza (Maria Victoria Dragus) obtenha uma nota alta nos
exames finais que lhe darão uma bolsa para estudar Psicologia na Inglaterra. Só
que, um dia antes, Eliza é atacada por um tarado e fica abalada
psicologicamente, o que a impedirá de realizar uma boa prova. O pano de fundo
político entra na história ao lembrar que tanto Romeo quanto sua esposa Magda
(Lia Bugnar), na juventude, tiveram a liberdade cerceada pela ditadura de
Ceauseascu. Além de uma manobra bastante antiética para favorecer a filha,
Romeo ainda enfrenta o colapso do seu casamento e a pressão da amante Sandra
(Malina Manovici), diretora da escola de Eliza. O filme garantiu a Mungiu o
Prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes 2016. Adrian Titieni ganhou o Prêmio
de Melhor Ator no Festival de Chicago. Imperdível!
“A PROMESSA” (“The Promise”), 2016, EUA, 2h15m, roteiro e direção
do irlandês Terry George (“Hotel Ruanda” e “O Negociador”). Pela primeira vez,
Hollywood trata da questão do genocídio praticado pelos turcos contra os
armênios entre 1914 e 1917 – os turcos negam até hoje. Pelo menos um milhão e
meio de armênios foram perseguidos e assassinados pelo exército do então
Império Otomano (atual Turquia). Infelizmente, o diretor Terry George preferiu
dar mais ênfase ao triângulo amoroso envolvendo a bela Ana (a atriz canadense
Charlotte Le Bon), Michael (o ator guatemalteco Oscar Isaac) e Michael (Christian
Bale). As informações históricas
sobre o genocídio ficaram de lado, fazendo com que o assunto fosse colocado apenas como pano
de fundo para uma trama de amor à beira do novelesco. Resumo da história: o
armênio Michael sonha em ser médico, mas a família não pode pagar a faculdade.
Dessa forma, ele aceita casar com a jovem Maral (Angela Sarafyan) em troca de
um dote substancioso. Longe de Maral, Michael conhece a também armênia Ana,
namorada do fotógrafo norte-americano Chris. Até o final do filme, os dois disputarão
o amor da moça. Claro que no meio do romance tem muita cena de ação e
violência, uma das poucas referências ao genocídio. O filme somente foi
realizado graças ao milionário Kirk Kerkorian, filho de imigrantes armênios que
se tornou um grande empresário em Hollywood e dono de cassinos. Antes de
morrer, aos 98 anos, em 2015, ele investiu do próprio bolso US$ 100 milhões na
produção do filme, que talvez não tenha conseguido ver depois de pronto. “A Promessa”
estreou no Festival de Toronto/2016 sem conseguir arrancar aplausos da plateia
e nem críticas elogiosas, mas é um bom programa.
“MEL” (“MIELE”), 2013, Itália. Em seu primeiro filme
como diretora e roteirista, a atriz Valeria Golino dá mostras de que entende do
riscado. O pano de fundo é a eutanásia. A história toda é centrada em Irene (Jasmine
Trinca), também chamada de “Honey”, o que justifica o título. Com a orientação
de um amigo médico, de quem é sócia na empreitada, Irene ajuda pacientes em
estado terminal a morrer de maneira digna e sem dor. Para isso, utiliza um
remédio utilizado para sacrificar animais doentes e que, pelo que entendi, não
deixa vestígios nos seres humanos. Para obter a substância, Irene faz
constantes viagens ao México, onde a venda do remédio é liberada. Irene começa a repensar sua
atividade quando recebe a incumbência de ajudar o engenheiro Carlo Grimaldi (o
ótimo Carlo Cecchi) a passar para o outro mundo. No meio do processo, ela
descobre que Carlo não tem nenhuma doença grave, o que não justificaria o
procedimento. A italiana Jasmine Trinca brilha como a personagem principal, o
que não é surpresa, pois vem demonstrando muita competência desde que estreou
no cinema, em 2001, no filme “O Quarto do Filho”, de Nanni Moretti. Depois
participou de filmes como “Maravilhoso Boccacio” e “O Franco Atirador”,
contracenando com o astro Sean Penn. Jasmine Trinca consolida-se cada vez mais como uma
das atrizes italianas mais bonitas e competentes da atualidade. “Mel” foi
selecionado para a mostra “Um Certain Regard” do Festival de Cannes 2013,
recebendo uma menção especial do Júri Ecuménico.
“SOPHIE E O SOL
NASCENTE” (“Sophie
and the Rising Sun”, título original e também do livro de Augusta Trobaugh), EUA, 2016, escrito e
dirigido por Maggie Greenwald. Ambientada em 1941 no pequeno vilarejo de Salty
Creek, Carolina do Sul, a história é centrada no romance de Sophie Willis
(Julianne Nicholson) e Grover Ohta (Takashi Yamaguchi), um asiático que, meses
antes, havia sido encontrado desacordado e bastante ferido numa rua do
vilarejo. Ele é levado para a casa de Anne Morrison (Margot Martindale), que
cuida de seus ferimentos e lhe dá guarida. Apelidado pela vizinhança de “chinês”
– na verdade, ele é descendente de japoneses –, Ohta acaba conhecendo a solitária
Sophie, que vive da pesca e venda de caranguejos. Os dois começam a se encontrar
escondidos, já que os moradores do vilarejo são bastante conservadores e, muitos deles, racistas. Até que os japoneses atacam a base norte-americana de Pearl Harbor.
Como os milhares de japoneses residentes nos EUA, Ohta passa a ser perseguido,
sofre agressões e é obrigado a se esconder. Mas nem mesmo essa situação impede
o romance com Sophie. No elenco, destaque para os desempenhos de Diane Ladd como a vilã ultraconservadora e fofoqueira e de Lorraine Toussaint como a governanta de Anne. O filme fez parte da seleção oficial do Sundance Film
Festival e foi exibido pela primeira vez no Brasil durante a 40ª Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.
Selecionado para representar Israel na disputa do Oscar/2016
de Melhor Filme Estrangeiro, “BABA JOON”
tem como seu principal trunfo a simplicidade. A história, as locações, o elenco,
tudo muito simples e realizado com bastante sensibilidade pelo diretor Yuval
Delshad, também autor do roteiro, marcando sua estreia em longas. A história é
centrada na relação do autoritário Yitzhak (Navid Negahban) e seu filho Moti
(Asher Avrahami), de 12 anos. Com muito trabalho e sacrifício físico, Yitzahak
administra uma fazenda de criação de perus no interior de Israel, empreendimento
criado pelo pai “Baba” Joon (Rafael Eliasi), que muitos anos antes saiu do Irã
e se estabeleceu em Israel, convertendo-se ao judaísmo. Yitzhak insiste, muitas
vezes utilizando a violência, em convencer Moti a aprender a cuidar da granja,
mas o garoto só quer saber de mecânica, montar, desmontar e consertar motores.
Ou seja, essa história de um negócio de pai para filho não faz parte das
intenções de Moti. Para piorar a situação, chega para uma visita Dariush (David
Diaan), irmão de Yitzhak, que também se livrou da fazenda para viver e trabalhar
nos EUA. Dariush dá a maior força a Moti, o que contraria Yitzhak, gerando um
grave conflito familiar. O filme é falado em persa, língua oficial do Irã, assim
como do Afeganistão e Tajiquistão. “Baba Joon” foi premiado em vários festivais
de cinema pelo mundo afora e por aqui foi exibido durante o Festival do Cinema
Judaico de São Paulo, em 2016. Também foi eleito o Melhor Filme de 2015 pela Israeli Film Academy.
“AS CONFISSÕES” (“Le Confissioni”), Itália, 2015, direção de Roberto
Andó, que também escreveu o roteiro em parceria com Angelo Pasquini. Trata-se
de um drama de fundo político e religioso, com algumas pitadas de suspense, além de muita erudição. Num
luxuoso hotel na costa do Báltico estão reunidos, para discutir a economia
global e europeia, os ministros das Finanças do G-8 (os oito países mais
desenvolvidos). O encontro tem a coordenação de Daniel Roché (Daniel Auteuil),
presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Como convidados especiais
para amenizar o ambiente, estão hospedados um monge misterioso (Toni Servillo),
uma consagrada escritora de livros infantis (Connie Nielsen) e um músico
roqueiro quarentão (Johan Heldenbergh). Uma determinada noite, Roché pede que o
monge vá ao seu quarto, pois pretende se confessar. Na mesma noite, o
presidente do FMI é encontrado morto. A partir desse fato, todos passam a
pressionar o monge a revelar a confissão feita pelo falecido. Os ministros desconfiam
que Roché, na confissão, possa ter contado algum segredo que não poderia ser
revelado. Num clima repleto de intrigas, a polícia tenta desvendar o mistério
da morte do executivo do FMI. O filme faz duras críticas ao sistema capitalista,
principalmente o alinhamento dos países ricos contra os mais pobres e a
soberania dos banqueiros. Os diálogos são do mais alto nível e talvez sejam a
cereja do bolo desta ótima produção italiana. Mais uma atuação magistral do
ator italiano Toni Servillo, de “A Grande Beleza”. O elenco conta ainda com
Pierfrancesco Favino, Moritz Bleibtreu, Lambert Wilson e Marie-Josée Croze.
Filmaço!
“ESTA É A SUA MORTE – O
SHOW” (“THE Show”), 2017,
EUA, roteiro assinado por Noha Pink e Kenny Yakkel, com direção do ator Giancarlo
Esposito, que também está no elenco e tem um dos papeis principais. Trata-se de
uma das mais contundentes críticas ao sensacionalismo adotado pelos programas
de TV, principalmente os reality shows. Na sequência inicial, o apresentador
Adam Rogers (Josh Duhamel) comanda a parte final de um programa ao vivo onde um
milionário escolhe para esposa uma das candidatas. A que não foi escolhida pega
um revólver e mata o “noivo” e aponta a arma para a moça escolhida. Rogers
salta à frente e protege aquela que seria a segunda vítima. Claro que a
audiência vai às alturas. Depois do que aconteceu, Ilana Katz (Famke Janssen),
principal diretora da emissora, dá sinal verde a Rogers para implementar um
programa que aumente ainda mais a audiência. Ou seja, para conquistar uma
audiência maior, vale tudo, até mesmo mostrar suicídios ao vivo. Trata-se do
segundo filme dirigido por Esposito, mais conhecido por sua participação como
ator em séries como “Breaking Bad”, “Revolução” e “The Get Down”. Também estão
no elenco Caitlin Fitzgerald e Sarah Wayne Callies, além de uma ponta de luxo
pelo ator James Franco. É um filme bastante interessante - apesar de algumas cenas realmente chocantes - e, mesmo sendo uma ficção,
não fica muito longe da realidade em que vivemos atualmente.
“Z: A CIDADE PERDIDA” (“The Lost City of Z”),
EUA, 2016. Quem ler o
título vai pensar que se trata de mais um filme de aventuras ao estilo Indiana
Jones. Tudo bem, toda a ação até que lembra, mas este, ao contrário das
histórias do herói vivido por Harrison Ford, não é um filme de ficção. Trata-se
da trajetória verídica do explorador e arqueólogo inglês Percy Fawcett
(1867/1925), que nas primeiras décadas do Século XX viajou várias vezes para a
Amazônia em busca de uma cidade perdida – a do título. Tudo começa em 1906,
quando Fawcett (Charlie Hunnam), também oficial do exército inglês, recebe a
missão de cartografar os limites inexplorados da Amazônia, mais especificamente
na fronteira do Brasil com a Bolívia. Nesta sua primeira viagem, Fawcett
descobre evidências de uma civilização que considerou avançada. Ao apresentar
sua descoberta aos membros da Sociedade Geográfica Real (Royal Geographic
Society), Fawcett foi ridicularizado, mas mesmo assim recebeu apoio financeiro
para outras expedições. Quando começa a I Grande Guerra, ele é escalado para
lutar nos campos da França contra os alemães. Depois do conflito, Fawcett ainda
voltaria mais algumas vezes para a Amazônia, onde desapareceria juntamente com
seu filho Jack (Tom Holand, o atual “Homem-Aranha”). A história é baseada no
livro “The Lost City of Z”, escrito por David Grann e agora adaptado para o
cinema pelo diretor James Gray (“Os Donos da Noite” e “Era uma Vez em Nova
Iorque”), também autor do roteiro. O elenco conta ainda com Robert Pattinson e
Sienna Miller. O filme estreou, com elogios da crítica e do público, no 67º
Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017. Um ótimo programa para uma
sessão da tarde com pipoca.
Romance, aventura e História, ingredientes que fazem de “AMOR EM TEMPOS DE GUERRA” (“The Ottoman Lieutenant”), EUA, 2016,
um programa bastante interessante. Pouco antes do início da Primeira Guerra
Mundial, a enfermeira norte-americana Lillie (a atriz islandesa Hera Hilmar)
vai a uma palestra onde conhece o Dr. Jade (Josh Hartnett), médico que trabalha
numa missão voluntária na Anatólia, território da Turquia – na época, Império
Otomano. Lillie se encanta com o desafio de participar desse trabalho e, mesmo
contrariando os pais, embarca na aventura. Ao chegar à Turquia, ela ganha a
escolta do oficial do exército Ismail (o ator holandês Michiel Huisman). Quando
chega ao hospital, Lillie é apresentada ao dr. Woodruff (Ben Kingsley),
fundador da missão (hoje seria uma Ong). Com o início da I Guerra Mundial e a
possível invasão russa, além dos conflitos internos entre armênios e otomanos,
Lillie e seus companheiros enfrentarão grandes desafios em meio à violência
reinante. Mesmo nesse cenário conturbado, haverá espaço para o romance entre
Lillie e o oficial turco, para desespero e ciúme do Dr. Jade. O filme teve a direção de Joseph Ruben ("Dormindo com o Inimigo", "Os Esquecidos"), com roteiro de Jeff Stockwell. Mesmo previsível
e recheado de clichês típicos de um melodrama açucarado, o filme garante um
ótimo entretenimento. As incríveis locações na Turquia, valorizadas por uma excelente
fotografia, proporcionam um visual deslumbrante.