sábado, 23 de maio de 2020


“LOST GIRLS – OS CRIMES DE LONG ISLAND” (“LOST GIRLS”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix, 1h35m, primeiro longa-metragem dirigido por Liz Garbus, conhecida e premiada documentarista. O roteiro foi escrito por Michael Werwie, que adaptou as informações fornecidas pelo livro “Lost Girls: An Unsolved American Mistery”, escrito pelo jornalista Robert Kolker. A história é baseada num caso real ocorrido em 2011 que chocou os Estados Unidos. Cerca de 16 mulheres foram encontradas mortas na região de Long Island (ilha ao sudeste de Nova Iorque). A maioria garotas de programa. As características dos homicídios faziam supor de que se tratava de um serial killer. Desde o início, a polícia não deu muita importância ao caso, ficando evidente que as vítimas, por serem prostitutas, não mereciam um esforço maior. Resumindo, o assassino não foi preso até hoje. O foco principal de “Lost Girls” está todo direcionado para Mari Gilbert (a excelente Amy Ryan), a primeira mãe a exigir da polícia um empenho maior para encontrar sua filha mais velha desaparecida, Shannan (Sarah Wisser). Quando a polícia resolveu se mexer, quatro corpos de mulheres foram encontrados – mais tarde, outros tantos. Sob a pressão da imprensa e da opinião pública, as investigações foram finalmente reforçadas. Sempre ao lado das filhas menores Sherre (Thomasin McKenzie) e Sarra (Oona Lawrence), Mari Gilbert não deu sossego ao detetive Richard Dormer (papel do ator irlandês Gabriel Byrne), além de denunciar o descaso policial para a mídia. Maria chegou até a participar de um grupo de mães e familiares de jovens desaparecidas, o que virou pauta nos principais meios de comunicação dos EUA, transformando o caso numa grande comoção nacional. O filme é muito bom, repleto de suspense e muita tensão. Para reforçar o enfoque realista do caso, a diretora Liz Garbus acrescentou inúmeras cenas dos noticiários dos telejornais da época. Antes dos créditos finais, a verdadeira Mari Gilbert aparece dando uma entrevista – em 2016, ela seria assassinada pela própria filha Sarra. Como dizia minha vó, “desgraça pouca é bobagem”. Resumo da ópera, aliás da tragédia grega: vale a pena assistir “Lost Girls”. Está lá à disposição na plataforma Netflix.      


Passei a admirar o trabalho do cineasta dinamarquês Bille August quando assisti “Pelle, O Conquistador” (1991), filme que conquistou, entre outros prêmios importantes, a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma obra-prima. Depois vieram “A Casa dos Espíritos” (1993), “Mandela” (2007), “Marie Kroyer” (2012), “Trem Noturno para Lisboa” (2013) e “55 Passos (2017), entre tantos outros. Aos 71 anos, August continua em plena forma, como demonstra em seu filme mais recente, “UM HOMEM DE SORTE” (“LYKKE-PER”), 2018, produção Netflix, 2h47m. A história é baseada no livro autobiográfico do escritor dinamarquês Henrik Pontoppidan (Prêmio Nobel de Literatura em 1917), que leva o mesmo nome original do filme, o qual August transformou num verdadeiro épico. Vamos acompanhar a trajetória do jovem Peter Andreas Sidenius (Esben Smed), que um dia resolve sair de casa, em Jutland, para tentar a sorte na capital Copenhague. Além de uma pequena mala de roupas, Sidenius também carregou o trauma de uma infância pobre e uma educação religiosa cristã rígida à base de tabefes. Peter sempre foi considerado um jovem sem futuro, principalmente por não obedecer a religião da família. Peter chega a Copenhague e inicia seus estudos de engenharia. Na cabeça, um projeto revolucionário na área de produção de energia, o que o levaria a conhecer Ivan Salomon (Benjamin Kister), o herdeiro de uma família judia muito rica. Peter é introduzido na família Salomon e, a partir daí, inicia sua ascensão como figura proeminente na sociedade de Copenhague. Casará com a filha mais velha da família Solomon, Jakobe (Katrine Greis-Rosenthal), fará um período de estudos na Áustria com um renomado professor de engenharia e voltará para Copenhague disposto a implementar o seu projeto. Sua arrogância e um orgulho exagerado, porém, serão obstáculos para os seus objetivos e determinarão sua posterior decadência. Enfim, uma história muito interessante que August desenvolveu com maestria, principalmente com relação à primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e os figurinos. Enfim, mais um belíssimo trabalho do cineasta dinamarquês. IMPERDÍVEL!       

quinta-feira, 21 de maio de 2020


“OUÇA O SILÊNCIO” (“HÖRE DIE STILLE”) – a tradução do título em português é minha, já que o filme não chegou por aqui (nos países de língua inglesa, ficou “Hear the Silence”), 2016, Alemanha, 1h34m, direção de Ed Ehrenberg, seguindo roteiro de Axel Melzener. É um drama ambientado em outubro de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, contando a história trágica de um episódio que, aparentemente, foi inspirado em um caso real, já que o filme começa e termina com um áudio em off do que parece ser um interrogatório dentro de uma corte marcial. Vamos à história: um grupo de soldados alemães fica perdido de seu batalhão após uma escaramuça com o exército russo e vai parar numa pequena vila no interior da Croácia, onde só há idosos, mulheres e crianças. Todos os moradores têm descendência alemã e recebem os soldados alemães como seus libertadores, já que temem a chegada dos russos e suas consequências. O fato de falarem a mesma língua facilita o entrosamento entre soldados e moradores. Com a convivência diária, o relacionamento melhora bastante, eliminando aquela desconfiança mútua do início. Surgem até alguns romances. O mar de rosas, porém, acaba quando o tenente Markus Wenzel (Lars Doppler) assassina uma moça e depois é morto num ato de vingança. A partir daí, o clima fica péssimo e, claro, acaba em tragédia. Quando fui verificar se o filme foi ou não baseado em fatos reais, descobri apenas que foi planejado para ser um filme de graduação de estudantes da Academia de Cinema de Munique, mais tarde roteirizado por Axel Melzener, transformando-se, por fim, em “Höre Die Stille”. O contexto é trágico demais, triste e violento, mas não há dúvida que é mais um excelente filme da fonte interminável de episódios da Segunda Guerra Mundial, tanto é que foi premiado em vários festivais mundo afora. Mas passa longe de ser um entretenimento agradável de assistir.      

quarta-feira, 20 de maio de 2020


“O SILÊNCIO DO PÂNTANO” (“EL SILENCIO DEL PANTANO”), 2020, Espanha, produção Netflix (estreou dia 22 de abril), 1h32m, direção de Marc Vigil, seguindo roteiro assinado por Carlos de Pando e Sara Antuña. Trata-se de um suspense psicológico centrado numa figura meio sinistra e misteriosa, tão indecifrável que é conhecido apenas como “Q” (Pedro Alonso, de “La Casa de Papel”), um ex-jornalista que se tornou um escritor de sucesso, especializado em livros policiais. Quando reunia subsídios para o seu próximo romance, que abordará casos de corrupção, “Q” começa a desenvolver um lado psicótico, o mesmo que caracteriza seu personagem principal no livro. Uma de suas primeiras vítimas (do autor ou do personagem?) é um importante ex-ministro espanhol da área econômica, o hoje professor universitário Ferrán Carretero (José Angel Egito). Depois de descobrir que Carretero está envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro em sociedade com uma quadrilha de traficantes, “Q” o sequestra e o mantém preso numa casa isolada à beira do pântano. O sumiço do ex-ministro faz acender o alerta vermelho para a gangue de traficantes comandada pela repugnante Puri (Carmina Barrios), que coloca em campo o seu braço direito, o sanguinário Falconetti (Nacho Fresneda), para tentar descobrir o que aconteceu com Carretero. O filme também retrata a corrupção reinante na polícia de Valência, na figura da delegada Isabel (Maite Sandoval). O resultado final, assim como o filme inteiro, não convence, talvez pela falta de experiência tanto dos roteiristas como do diretor, todos estreantes em longa-metragem, que não souberam explorar uma história que poderia se transformar numa produção interessante. O bom elenco se esforçou e ainda tentou dar alguma dignidade ao filme, mas mesmo assim não foi suficiente. Enfim, não me convenceu.

segunda-feira, 18 de maio de 2020


“MORTE ÀS SEIS DA TARDE” (“PLAGI BRESLAU”), 2018, Polônia, 1h50m, roteiro e direção de Patryka Vegi, que se inspirou em romance do escritor Marek Krajewski. Filme policial centrado na investigação de crimes cometidos por um serial killer em Breslávia (Wroclaw, em polaco), cidade polonesa na região da Baixa Silésia. Os corpos são encontrados com requintes de crueldade, decapitados e queimados, com sinais evidentes de torturas sádicas e violentas - os crimes aconteciam sempre às 18 horas. Aviso: as cenas são chocantes, talvez realistas demais, mas muito bem realizadas. A primeira vítima, por exemplo, é encontrada dentro da carcaça de um boi. A segunda, arrastada aos pedaços por dois cavalos de corrida, e daí por diante. A depressiva e mal-humorada detetive Helena Rus (Malgorzata Kozuchowska) é encarregada de investigar os assassinatos. Para auxiliá-la na missão, Varsóvia envia uma policial especializada em homicídios, Iwona (Daria Widawska), um tipo machão que não leva desaforo para casa. É justamente Iwona que encontrará uma pista mais concreta sobre os assassinatos. Ela descobriu que os crimes podem estar ligados a fatos ocorridos na cidade no Século 18, quando criminosos eram mortos numa tal “Semana das Pragas”. A cada dia, eram executados os condenados por roubo, corrupção, degeneração, calúnia, mentira e opressão. Tudo bem que a história é um tanto mirabolante, mas, de qualquer forma, trata-se de um filme que caminha num bom ritmo, com muita ação e algumas reviravoltas interessantes e surpreendentes. Se há alguns bons motivos para assisti-lo, um deles é a arquitetura em estilo gótico da cidade de Breslávia, garantindo um visual bastante agradável. Uma cidade muito bonita. Para quem gosta de filmes policiais, este é um tiro certo.    

domingo, 17 de maio de 2020


“O DESPERTAR DE MOTTI” (“WOLKENBRUCH”), 2019, Suíça, 1h33m, direção de Michael Steiner, com roteiro de Thomas Mey, representou a Suíça na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. Trata-se de uma comédia cuja história é baseada num livro do próprio roteirista Meyer, ou seja, “A Maravilhosa Jornada Wonkenbruch nos Braços de um Shiksa”. O personagem principal é o jovem Mordechai “Motti” Wolkenbruch (Joel Basman), que vive com os pais judeus ortodoxos na comunidade judaica de Zurique. Com vinte e poucos anos, Motti ainda é completamente dominado pela mãe Judith (Inge Maux Murer), que insiste em incentivá-lo a seguir a tradição judaica, ou seja, casar com uma jovem judia. Ela chega a promover nada menos do que 10 “shidduchs” (encontros forçados entre jovens judeus para gerar casamentos) num único dia, para Motti finalmente encontrar uma esposa, o que resulta em cenas hilariantes. A intenção de Judith vai por água abaixo quando Motti conhece Laura (Noémie Schmidt) na faculdade e se apaixona perdidamente. Só que Laura é uma jovem “shiksa” (não judia) e, ainda mais, alemã. As crises histéricas de Judith ao ver o filho se desvincular das tradições judaicas geram situações bastante engraçadas. Quando Motti resolve raspar a barba e troca a armação dos óculos, ele chega a ser comparado ao diretor Woody Allen, que costuma satirizar os judeus ortodoxos em seus filmes, principalmente nas suas falas em off – Motti faz a mesma coisa, mas dialogando com o espectador. Falado em iídiche, alemão e hebraico, “O Despertar de Motti” é uma comédia muito divertida. Imperdível!     

sexta-feira, 15 de maio de 2020


“NADA SANTO” (“LO SPIETATO”), 2019, produção italiana da Netflix, 1h51m, direção de Renato De Maria, que também assina o roteiro ao lado de Valentina Strada e Federico Gnesini. Baseado em fatos reais, descritos no livro “Manager Calibro 9”, de Pietro Colaprico e Lucia Fazzo, o filme acompanha a trajetória de Santo Russo (o excelente Riccardo Scamarcio), um jovem pobre que se muda com a família da Calábria (sul da Itália) para Milão no início dos anos 80. Logo ele se envolve em confusão e acaba preso. Algum tempo mais tarde, ao lado de seu antigo colega de cela Slim (Alessio Praticò) e o malandro Mario Barbiere (Alessandro Tedeschi), Russo começa a prestar serviços para a Máfia, roubando, matando, sequestrando, traficando. Aos poucos, ele mesmo vai subindo na hierarquia mafiosa, angariando o respeito das outras famiglias. Além de mostrar a ascensão de Russo no mundo da criminalidade, o filme também acompanha a sua vida particular, especialmente seu casamento com Mariangela (Sara Serraiocco), que entra em crise após ele se envolver com Annabelle (a francesa Marie-Ange Casta, irmã mais nova da também atriz Laetitia Casta e tão bonita quanto). O roteiro reserva para o final uma surpreendente reviravolta, que não se enquadra exatamente nos tradicionais desfechos da maioria dos filmes de Máfia. “Nada Santo” agrada não só por sua história, mas também pelo desempenho excepcional de Riccardo Scamarcio, um de meus atores preferidos do cinema italiano, e ainda pela bela fotografia noturna de Gian Filippo Corticelli. Enfim, mais uma ótima produção da Netflix.               

quinta-feira, 14 de maio de 2020


“A ÚLTIMA COISA QUE ELE QUERIA” (“The Last Thing He Wanted”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix, 120 minutos, direção da cineasta Dee Rees, que também assina o roteiro com a colaboração de Marco Villalobos. Trata-se, na verdade, de uma adaptação do livro escrito em 1996 pela jornalista, ensaísta e romancista norte-americana Joan Didion (o título do livro é mesmo do filme em inglês). A história é centrada na jornalista investigativa Elena McMahon (Anne Hathway), do jornal Atlantic Post. Em 1982, ela é enviada como correspondente a El Salvador, ao lado da fotógrafa Alma Guerrero (Rosie Perez), para cobrir o conflito armado entre o exército do governo ditatorial de direita, apoiado pelo Tio Sam, e a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional. Depois de quase serem mortas durante a cobertura, Elena e Alma voltam com material jornalístico que denuncia a participação dos EUA fornecimento de armas para o governo de El Salvador. Quando estava disposta a ir mais a fundo nas suas investigações, Elena recebe a ordem de esquecer El Salvador para cobrir a campanha do republicano Ronald Reagan à reeleição, em 1984. Até aí, o filme segue um roteiro crível. Mas eis que de repente, não mais do que repente, surge na trama o pai de Elena, o trambiqueiro Richard McMahon (Willem Dafoe), que há muito tempo havia abandonado a esposa e a filha. Ele chega contando uma história mirabolante, dizendo que está em meio a um negócio de milhões de dólares e pede à filha para ajudá-lo. Sem saber exatamente do que se tratava, Elena embarca numa aventura maluca que a leva até a Costa Rica, onde descobrirá que o pai estava contrabandeando armas e recebendo como pagamento carregamentos de drogas. Olha só que confusão! Tudo isso para dar a entender que o pai de Elena fornecia armas também para El Salvador (Que coincidência, hein?). Para tornar o roteiro ainda mais confuso, aparecem mais dois personagens misteriosos, Treat Morrison (o canastrão  e péssimo ator Ben Afflek), um agente do governo norte-americano ligado à CIA, e o mais que esquisito Paul Schuster (Toby Jones), que surge na história como um homossexual afetado que mora num casarão à beira do mar do caribenho. Enfim, um filme que se perde a partir da segunda metade, confundindo a cabeça do espectador mais atento com um roteiro dos mais mirabolantes e fantasiosos. De qualquer forma, em meio a um resultado final para lá de decepcionante, dá para destacar a boa atuação de Anne Hathaway, uma boa atriz que ultimamente não tem tido muita sorte na escolha de seus roteiros. Acompanho a trajetória de Hathaway desde o seu filme de estreia, “O Diário da Princesa”, em 2001, passando, entre outros, por “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), “O Diabo Veste Prada” (2006) até “Os Miseráveis”, que lhe valeu o Oscar 2013 de Melhor Atriz Coadjuvante. Depois atuou em bobagens como “As Trapaceiras” e o horrível “Calmaria”, sem dúvida um dos piores deste século, onde contracenou com Matthew McConaughey. Após sua exibição de estreia no Festival de Cinema de Sundance (EUA), “A Última Coisa que Ele Queria” foi recebido com risadas, apesar do desfecho dramático. O filme ainda recebeu severas e contundentes críticas por parte dos comentaristas especializados. Tudo isso para confirmar minha opinião negativa sobre o filme. Eu até trocaria o título em português para “A Última Coisa que Você Merecia Ver”.              

quarta-feira, 13 de maio de 2020


“RAINHA DE COPAS” (“DRONNINGEN”), 2019, coprodução Dinamarca/Suécia, 2h08m, roteiro e direção de Mayel-Toukhy, cineasta dinamarquesa de origem egípcia. A história é centrada na advogada Anne (Trine Dyrholm), especialista no direito das crianças e dos adolescentes, além de trabalhar com mulheres vítimas de estupro ou agressão física. Sua reputação profissional é das melhores em Copenhague. Ela é casada com Peter (Magnus Krepper), médico também conceituado, seu segundo marido. Os dois vivem um casamento tranquilo, dedicando-se em grande parte do tempo às duas filhas gêmeas. Tudo vai às mil maravilhas até a chegada de Gustav (Gustav Lindh), filho do primeiro casamento de Peter, um adolescente rebelde que acaba de ser expulso de um internato em Estocolmo (Suécia). Acostumada a lidar com jovens problemáticos, Anne aceita receber Gustav em casa, mesmo com uma certa relutância por causa das gêmeas. Mas Gustav interagiu bem com a madastra, com o pai e as novas irmãs. Até o dia em que mostrou seu lado de menino malvado, roubando vários pertences da casa. Anne descobriu, mas não denunciou o enteado, fortalecendo a amizade entre ambos. Aos poucos, porém, desiludida com o casamento um tanto morno, Anne faz a besteira de se entregar de corpo e alma – principalmente de corpo – para o jovem. Aí a coisa desanda, pois a relação é descoberta e, a partir daí, o filme se transforma num suspense envolvente, de grande tensão psicológica, até o triste mas não surpreendente desfecho. O principal trunfo de “Rainha de Copas” é realmente o desempenho magistral da fabulosa atriz dinamarquesa Trine Dyrholm, cuja trajetória acompanho desde que atuou no polêmico “Festa de Família” (1998), de Thomas Vinterberg, passando por “Em Um Mundo Melhor”, “O Amante da Rainha” e “A Comunidade”, entre tantos outros. “Rainha de Copas” foi o grande vencedor do Prêmio do Público no Festival de Sundance (EUA). Resumo da ópera:  cinema da melhor qualidade. IMPERDÍVEL!

segunda-feira, 11 de maio de 2020


“ROSIE – UMA FAMÍLIA SEM TETO” (“ROSIE”), 2018, Irlanda, 1h26m, direção de Paddy Breathnach (de “Viva”, filme rodado em Cuba), com roteiro de Moe Dunford (ator no filme) e Roddy Doyle. Ao estrear na Seção Contemporary World Cinema do Toronto International Film Festival, em 2018, esta produção irlandesa foi alvo de rasgados elogios da crítica especializada e do público. Trata-se de um drama muito triste, que acompanha, durante dois dias e duas noites, uma família em Dublin sem um teto para dormir, em pleno inverno irlandês. Rosie Davis (Sarah Greene), mãe solteira de quatro crianças, mais o namorado John Paul (Moe Dunford, o roteirista), são despejados da casa onde moravam e ficam sem ter para onde ir. Passam o tempo todo dentro do carro para se proteger do frio, Rosie a trocar as fraldas do mais novo, fazer a lição com outra e ainda levar a mais velha ao colégio. Ao mesmo tempo, Rosie fica no celular tentando encontrar um quarto de hotel, o que é impossível, pois todos de Dublin já estão ocupados por causa de um show de Lady Gaga. Enquanto isso, John Paul trabalha como ajudante de cozinha num restaurante, e o que ganha mal dá para comprar comida para a família. Mesmo com a situação de mal a pior, o casal mantém a esperança de dias melhores, incentivando as crianças a acreditarem nisso, embora a realidade mostre um quadro bem desolador. O filme foi realizado tendo como pano de fundo a crise habitacional da Irlanda, país com a maior taxa de famílias sem-abrigo da Europa por causa da especulação imobiliária. Não é nada fácil assistir ao sofrimento do casal e das crianças confinadas num carro, mal tendo o que comer ou vestir. Muito triste. De qualquer forma, o filme é muito bem feito, uma fotografia primorosa e uma atriz sensacional, Sarah Greene, que carrega o filme – e os filhos e o namorado – literalmente nas costas. Recomendo separar, no mínimo, uma caixa de lenços de papel. Chororô garantido!      

“MENTIRAS PERIGOSAS” (“DANGEROUS LIES”), 2020, Estados Unidos, produção Netflix (estreou dia 30 de abril de 2020), 1h36m, direção de Michael Scott, com roteiro de David Golden. Trata-se de um suspense policial daqueles em que todos os personagens são suspeitos e só no final é revelado o verdadeiro assassino. “Mentiras Perigosas” começa com um casal em dificuldades financeiras. Katie (Camila Mendes) trabalha como atendente em um bar e seu marido Adam (Jessie T. Usher) estuda para ingressar na faculdade de medicina. Ou seja, só o trabalho de Katie não sustenta os gastos do casal. Para reforçar o orçamento, Katie arruma um emprego como cuidadora de Leonard (Elliot Gould), um velho solitário e cheio da grana. Adam também vai trabalhar na casa como jardineiro. A morte misteriosa do velho muda totalmente o destino do jovem casal, pois Leonard deixou um testamento doando toda a sua fortuna para Katie. Aí tem coisa, logo pensou a detetive Chesler (Sasha Alexander), encarregada de investigar o caso. Além do jovem casal, o roteiro coloca como suspeitos um corretor imobiliário (Cam Gigandet), um dono de agência de empregos (Michael P. Northey) e a própria advogada de Leonard (Jamie Chung). Enquanto o suspense segue em frente fornecendo pistas contra todos os personagens, a policial não larga do pé do jovem casal, que já está morando na bela casa do falecido e usufruindo a grana herdada. Recheado de clichês típicos do gênero, “Mentiras Perigosas” chega ao desfecho sem uma conclusão satisfatória, o que acabou prejudicando o resultado final, além de um elenco não muito convincente. De bom mesmo, destaco a presença do veterano Elliot Gould, que eu não via na telinha faz algum tempo, e da atriz Camila Mendes, a “Veronica Lodge” da série Riverdale, que, embora nascida nos EUA, é filha de brasileiros.    

domingo, 10 de maio de 2020


“ENQUANTO A GUERRA DURAR” (“MIENTRAS DURE LA GUERRA”), 2019, Espanha, 1h47m, roteiro e direção do premiado cineasta chileno Alejandro Amenábar, radicado na Espanha desde 1973. Trata-se de um drama histórico baseado em fatos reais, ambientado em 1936 na cidade de Salamanca. Aqui, vivia o famoso escritor e filósofo humanista Miguel de Unamuno (Karra Elejalde), intelectual respeitado por várias correntes de pensamento em toda a Espanha e Europa. Por seu apoio ao governo republicano, Unamuno havia sido nomeado para o importante cargo de reitor da Universidade de Salamanca. A trama do filme gira em torno desse riquíssimo personagem e como ele vê toda a questão histórica que se desenrola na Espanha. Em 1936, descontente com os rumos tomados pelo governo republicano, Unamuno vê com bons olhos o golpe militar iniciado pelos militares comandados pelos generais Emilio Mola (Luis Callejo) e Francisco Franco (Santi Prego) e passa a apoiá-los, o que lhe custa o cargo de reitor da universidade. Porém, quando os militares começam com suas atrocidades, prendendo, torturando e matando intelectuais, professores e artistas, muitos deles seus amigos de longa data, Unamono passa a criticar Franco e os militares, culminando com um violento discurso durante a solenidade na aula magna da Universidade de Salamanca, da qual só saiu vivo por interferência de Carmen Polo (Mireia Rey), justamente a esposa do generalíssimo Franco e sua grande admiradora. O filme é pródigo em diálogos bastante elucidativos sobre a situação política na Espanha naquela época, além de revelar os bastidores de alguns dos momentos mais importantes da Guerra Civil, como, por exemplo, a reunião da junta militar que elegeu Franco como o comandante supremo do golpe. “Enquanto a Guerra Durar” é mais um excelente filme de Amenábar, que já havia nos presenteado com pequenas obras-primas como “De Olhos Abertos”, “Os Outros” e “Mar Adentro”, este último premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005.  


sexta-feira, 8 de maio de 2020


“O ANJO DO MOSSAD” (“THE ANGEL”), 2018, Estados Unidos, à disposição na plataforma Netflix, 1h43m, direção do diretor israelense Ariel Vromen, que também assina o roteiro com a colaboração de David Arata e Luke Garret. A história é verídica e lembra o episódio envolvendo um dos personagens mais marcantes da espionagem internacional. Estou me referindo a Ashraf Marwan (o ator holandês de origem árabe Marwan Kensari), um oficial egípcio de alto escalão que no início dos anos 70 se ofereceu para ser espião de Israel via Mossad (o serviço secreto israelense). A adesão de Ashraf foi voluntária, revoltado por ter sido humilhado publicamente pelo seu sogro, nada menos do que o presidente do Egito Gamal Abdel Nasser. Genro e sogro nunca se entenderam e Nasser sempre foi contra o casamento. Como mulher acostumada a obedecer ao pai, a esposa Mona (Maisa Abd Elhad) nunca saiu em defesa do marido. Quando aderiu ao Mossad, Ashraf forneceu importantes informações para Israel, a mais vital delas em 1973, durante o feriado judeu do Yom Kippur, dando conta da movimentação bélica dos países árabes, liderados pelo Egito – agora comandado por Anwar Sadat (Sasson Gabai) –, com o objetivo de recuperar territórios tomados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Por causa dessas informações, Israel conseguiu mobilizar seu efetivo militar e derrotar seus inimigos. Dessa forma, Ashraf seria considerado um herói por parte de Israel e, mais tarde, pelo próprio Egito, que concluiu que o seu papel fora fundamental para a realização do acordo de paz entre as duas nações, três anos depois. O mais interessante de “O Anjo do Mossad” é a revelação dos bastidores do trabalho de Ashraf, suas reuniões com o pessoal da alta cúpula militar do Egito, seus encontros secretos com o pessoal do Mossad em Londres e seu dia a dia cada vez mais perigoso, alimentando o clima de tensão cada vez mais crescente durante a projeção. Em vários momentos, Ashraf correu risco de morte, negociou frente à frente com Muammar Gadaffi (Isahi Halevi), ditador da Líbia, e teve muitos problemas com sua família, pois sempre escondeu suas atividades secretas da esposa Mona. Para complicar ainda mais a situação conjugal, Mona descobriria o caso do marido com uma amante londrina, a espetacular Diana Ellis (Hannah Ware) –, mais um fator de estresse para o coitado do espião. Todos esses detalhes só seriam revelados em 2016 no livro “O Anjo: O Espião Egípcio que Salvou Israel”, do escritor e cientista político israelense Uri Bar-Joseph, que serviu de inspiração e base para o roteiro do filme. Eu já conhecia o diretor israelense Ariel Vromen, radicado nos Estados Unidos, de bons filmes como “Mente Criminosa” e “O Homem de Gelo”. Vromen fez mais um excelente trabalho com “O Anjo do Mossad”, um filme obrigatório para quem gosta de conhecer um pouco mais da história mundial recente. IMPERDÍVEL!


quinta-feira, 7 de maio de 2020


“ALTOS NEGÓCIOS” (“BETONRAUSCH”), 2020, Alemanha, já disponível na plataforma Netflix, 1h34m, roteiro e direção de Cüneyt Kaya – é o seu terceiro longa-metragem. Baseado num caso real ocorrido na Alemanha, Kaya conta a história de um rapaz pobre, Viktor Stein (David Kross), que um dia resolve ir para a cidade grande (Berlim) com o objetivo de trabalhar e ganhar dinheiro. No início, arrumou emprego como operário na construção civil, dormiu em bancos de praça, passou frio e mal tinha o que comer. Até que tem a ideia de ingressar no mercado imobiliário, juntando-se a Gerry Falkland (Frederick Lau), um fracassado malandro oficial, e a uma experiente bancária, a bela Nicole Kleber (Janina Uhse). Viktor tem como principal trunfo o seu jeito malandro sedutor e um sorriso cativante, abrindo as portas para vários negócios. Ele e os novos parceiros começam a engendrar esquemas fraudulentos no ramo imobiliário com a retaguarda de empréstimos e financiamentos ilegais junto a bancos e instituições de crédito. Os três ganham bilhões em pouco tempo, mas gastam quase tudo em mansões, carrões, prostíbulos luxuosos e festas regadas a muito álcool e cocaína, o que nos remete ao estilo de vida dos principais personagens do filme “O Lobo de Wall Street”. Trata-se, portanto, de uma história de cobiça e ambição, realizada com muita competência pelo diretor alemão Cüneyt Kaya, que conseguiu impor um ritmo frenético do começo ao fim. Um surpreendente filme alemão que merece ser visto. Imperdível!

terça-feira, 5 de maio de 2020


“EM GUERRA POR AMOR” (“IN GUERRA PER AMORE”), 2016, Itália, 1h39m, roteiro e direção de Pierfrancesco Diliberto (também conhecido como Pif). Trata-se de uma saborosa comédia cujo pano de fundo é uma declarada homenagem aos grandes diretores italianos, como Mario Monicelli, Fellini, Dino Risi e Ettore Scola, entre outros. Como registram os créditos iniciais, o filme é dedicado ao mestre Scola (1931/2016), falecido pouco antes do fim das filmagens. Ambientado em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, “Em Guerra por Amor” conta a história de um amor impossível que começa em Nova Iorque, envolvendo o fracassado Arturo Giammaresi (papel do próprio diretor) e a bela  Flora (Miriam Leone), de uma importante família ligada à máfia. Eles pretendem se casar, mas só que a “famiglia” de Flora escolheu outro pretendente, filho de um chefe mafioso de Nova Iorque ligado ao poderoso Lucky Luciano. Para evitar esse casamento, Arturo precisa viajar à Sicília para pedir a mão de Flora para o seu pai, Don Caló (Maurizio Marchetti), um chefão da máfia local. Mas como viajar para a Sicília em meio à guerra, e, principalmente, sem dinheiro? A resposta chegou num golpe de sorte. No balcão de um bar, Arturo conhece um oficial norte-americano que está à procura justamente de alguém que fale italiano e conheça bem a Sicília, já que há planos dos aliados de utilizarem a região como ponto estratégico no combate ao exército nazista – essa ajuda seria recompensada posteriormente pelos norte-americanos, que colocaram os mafiosos, alguns cumprindo pena, em postos-chave dos governos municipais da Sicília. Aliás, por sua ajuda ao exército norte-americano, o chefão da máfia em Nova Iorque, Lucky Luciano, também recebeu algumas regalias da justiça do Tio Sam. O filme faz uma forte crítica à conexão entre o pessoal da OSS (serviço secreto norte-americano da época) e a máfia italiana, o que favoreceu o crescimento e o fortalecimento da organização criminosa tanto nos EUA como em território italiano. Enfim, o filme acompanha, com muito humor, a aventura de Arturo para chegar até o pai de Flora, sua amizade com o oficial norte-americano Philip Chiamparino (Andrea Di Stefano) e até sua presença na Casa Branca, em Washington, para entregar um importante documento secreto ao presidente dos EUA. Durante o filme, percebi várias homenagens a Fellini, como os tipos esquisitos e caricaturais, o cego (“Amarcord”) e a cena do helicóptero (“A Doce Vida”). Com relação ao fato de que “Em Guerra por Amor” foi dedicado à memória do grande Ettore Scola, gostaria de mencionar aqueles que considero seus melhores filmes, alguns deles verdadeiras obras-primas, como “O Baile", “Nós que nos Amávamos Tanto”, “Um Dia Muito Especial”, “O Jantar”, “Feios, Sujos e Malvados” e “Splendor”, este último uma bela homenagem ao cinema. “Em Guerra por Amor” é um filme que remete às melhores comédias italianas dos anos 40/50/60/70 do século passado. Nostálgico, engraçado e sensível, além de uma primorosa reconstituição de época, “Em Guerra por Amor” é um filme obrigatório para quem gosta do bom cinema.  

segunda-feira, 4 de maio de 2020


“VIVER DUAS VEZES” (“VIVIR DOS VECES”), 2019, Espanha, produção Netflix, 1h41m, direção de María Ripoll, com roteiro assinado por María Mínguez. Mesmo tratando de temas não muito agradáveis, como o Mal de Alzheimer e a deficiência física infantil, essa produção espanhola, para amenizar o contexto, tira partido de muito humor e de momentos de alta sensibilidade. Ou seja, “Viver Duas Vezes” diverte e emociona na dose certa, transformando-se num filme bastante agradável de assistir. A história é centrada no professor universitário aposentado Emílio (Oscar Martínez), um gênio da matemática reconhecido no mundo inteiro. Chega o dia em que ele começa a ter alguns apagões, como esquecimentos e desorientações, confirmando-se, depois de alguns exames médicos, que ele sofre do Mal de Alzheimer. Ele começa a ter atitudes esquisitas, como sair à noite pelas ruas de pijama e jogar para o alto a comida. Nesses casos, claro, o doente precisa ser vigiado o dia inteiro, tarefa que acaba recaindo sobre a família, no caso, a filha Julia (Inma Cuesta), o genro Felipe (Nacho López) e a neta Blanca (Mafalda Carbonell), uma garota esperta que enfrenta, desde que nasceu, uma grave deficiência nas pernas. Independente desse problema, Blanca é uma garota muito esperta que adora colocar palavrões em suas frases, para desespero dos pais. No dia em que Julia recebe o pai para almoçar e expõe não saber o que fazer, Blanca dá o recado na lata: “Mãe, leva ele para o asilo. É o que todo mundo faz”. A garotinha é terrível mesmo, mas é ela que será a cúmplice do seu avô numa grande aventura. Emílio resolve tentar encontrar um antigo amor de infância, uma tal Margarita. Blanca tentar ajudar o avô navegando pelas redes sociais e descobre uma possibilidade na cidade de Navarra. Emílio e a neta partem para a estrada, mas não contavam com um problema mecânico no velho automóvel. Avô e neta ficam retidos num posto de gasolina à espera de Júlia e do marido. O road movie continua, pois Júlia decide, tal qual Blanca, ajudar Emílio em seu sonho quase impossível. Além da história marcante, é sem dúvida no elenco que está o maior trunfo de “Viver Duas Vezes”. A começar pelo grande ator argentino Oscar Martínez (“Ninho Vazio”, “Cidadão Ilustre”, “Relatos Selvagens” e “Inseparáveis”, este último refilmagem da comédia francesa “Intocáveis”). E a sensacional espanhola Inma Cuesta, que além de bonita é excelente atriz. Lembro dela em filmes como "Branca de Neve", "Todos já Sabem", "La Novia" e "La Voz Dormida". Mas a grande surpresa positiva é a presença de Mafalta Carbonell, cuja ótima atuação (de estreia no cinema) garante os momentos mais divertidos. A diretora Maria Ripoll, ao dirigir "Ahora o Nunca" ("Agora ou Nunca"), em 2015, alcançou a posição invejável de diretora com a maior bilheteria da história do cinema espanhol. Enfim, “Viver Duas Vezes” é um filme bastante sensível, diverte e emociona. Mais uma joia preciosa lapidada pelo cinema espanhol. IMPERDÍVEL!

sábado, 2 de maio de 2020


“UMA CRIATURA GENTIL” (“KROTKAYA”), 2017, uma inusitada coprodução França/Ucrânia/Alemanha/Lituânia/ Rússia/Holanda, 2h40m, roteiro e direção de Sergey Loznitsa (cineasta ucraniano mais conhecido como realizador de documentários). Inspirado num conto do escritor russo Fiódor Dostoiévski, datado de 1876, Loznitsa construiu uma história triste e melancólica adaptada aos tempos atuais, envolvendo uma mulher simples (a atriz russa Vasilina Makovtseva), cujo marido está preso acusado de assassinato. Um dia ela vai à agência do correio de seu vilarejo e recebe um pacote com o selo “retorno ao remetente”. Trata-se da última encomenda que ela enviou ao marido na prisão. Preocupada com a situação, a mulher (seu personagem não tem nome) deixa sua casinha e começa um verdadeiro road movie pelo interior da Rússia, de trem e de ônibus, percorrendo diversas aldeias e vilarejos onde a pobreza está bem à vista, até chegar ao presídio. Durante esse périplo, ela conviverá com prostitutas e bêbados, ou seja, gente da pior qualidade. Também encontrará pessoas que ainda idolatram Stalin e conhecerá a fundo a terrível burocracia das instituições públicas russas. Quando pede ajuda, é repelida como se fosse uma prostituta, ainda mais por ser mulher de um presidiário. Do começo ao fim dessa angustiante jornada, a atriz russa Vasilina Makovtseva conserva a mesma expressão de tristeza e infelicidade, limitando-se a falar o menos possível e sempre com um semblante fixo que exala dor e sofrimento. Belo trabalho dramático da atriz. O filme estreou durante o 70º Festival de Cinema de Cannes (2017), onde concorreu à Palma de Ouro, foi muito elogiado e rotulado como uma crítica contundente ao presidente Putin. Aqui no Brasil, foi visto na programação oficial do Festival Internacional de Cinema do Rio, em dezembro de 2019. “Uma Criatura Gentil” passa longe de ser um entretenimento agradável de se ver, mas não deixa de ser um filme de grande impacto político e social.  

sexta-feira, 1 de maio de 2020


“CLOSE”, 2019, Inglaterra, 1h34, produção Netflix (estreou dia 18 de janeiro de 2019), roteiro e direção da cineasta inglesa Vicky Jewson. Trata-se de um filme de ação centrado na agente especial Sam Carlson (Noomi Rapace), especialista em segurança e contra-terrorismo, que trabalha para uma agência internacional particular. Na história, Carlson é contratada para trabalhar como guarda-costas da jovem Zoe Tanner (Sophie Nélisse), herdeira de uma das maiores mineradoras do mundo localizada no Marrocos. Quando seu pai e dono da empresa morre, deixa no testamento todas as ações da mineradora para Zoe, o que deixa furiosa a sua madrasta Rima Hassine (Indira Varma). Para tratar de negócios da agora sua empresa, Zoe é obrigada a ir para o Marrocos acompanhada de Carlson. Mas a viagem não começa bem, pois tem muita gente planejando sequestrar a nova milionária em troca de um resgate. Aí é que entra em ação a experiência da sua guarda-costas, que é boa de briga, sabe atirar, bater e se defender. Só para ilustrar, a cineasta Vicky Jewson disse que, para escrever o roteiro, foi inspirada em Jacquie Davis, uma experiente guarda-costas inglesa, conhecida por ter trabalhado para celebridades como Diana Ross, Cate Blanchett, Nicole Kidman e J.K. Rowling, além de prestar segurança a membros da família real britânica. A atriz sueca Noomi Rapace, a Lisbeth Salander da série Millenium (“Os Homens que não Gostavam de Mulheres” etc.) é o grande destaque do elenco - é boa de briga e atua com desenvoltura nas cenas de ação. “A Menina que Roubava Livros” – a atriz canadense Sophie Nélisse – cresceu e virou um mulherão. Resumo da ópera: “Close” tem boas cenas de ação e prende a atenção até o final, garantindo um bom entretenimento.  

terça-feira, 28 de abril de 2020



“BORDER” (“GRÄNS”), 2018, Suécia, 1h50m, direção de Ali Abbasi, cineasta radicado em Estocolmo desde 2002. Ali também assina o roteiro, com a colaboração de John Ajvide Lindquist e Isabella Eklöf. O filme é bastante perturbador, provocador, difícil de digerir, um terror psicológico que utiliza dois personagens bastante grotescos. O filme é “Uma fábula nórdica contemporânea sobre o ser humano”, como bem definiu a crítica Vanessa Parenari em seu comentário. A história é centrada em Tina (Eva Melander), uma mulher de 30 anos que trabalha como policial da alfândega de um aeroporto e às vezes no porto. Ela tem o rosto completamente deformado, uma criatura que inspira medo e, ao mesmo tempo, pena. Mas como profissional da área é muito respeitada pelos colegas e superiores. Depois de ser atingida por um raio na infância, Tina desenvolveu uma espécie de sexto sentido para identificar indivíduos suspeitos, utilizando sempre o seu olfato aguçado para detectar bagagens e objetos de origem ilícita. Sua vida começa a mudar quando ela intercepta Vore (o ator finlandês Eero Milonoff), um sujeito tão grotesco quanto ela. Tina desconfia de Vore, mas não sabe identificar o que há de errado. Os dois acabam se cruzando novamente e iniciam uma forte amizade. Vore é realmente muito estranho: come minhocas, larvas e insetos vivos. Além disso, costuma uivar à noite. Vore diz a Tina que ambos são trolls, ou seja, criaturas não humanas criadas pelo folclore escandinavo. “Border” concorreu ao Oscar 2019 na categoria Melhor Maquiagem. Não ganhou, mas realmente foi um trabalho espetacular. Mais ainda depois que a gente conhece os atores que viveram os personagens, ambos normais – a sensacional atriz sueca Eva Melander até que é bonita. O filme estreou no Festival de Cinema de Cannes 2018, onde foi o vencedor da Mostra “Um Certain Regard” (“Um Certo Olhar”). Ao mesmo tempo, ganhou do público e da crítica o título de filme mais bizarro e esquisito do ano. Recomendo somente para um público muito especial, ávido de novidades cinematográficas.    


“SERGIO”, 2019, Estados Unidos, produção Netflix, 1h58, direção de Greg Baker. Esta é a biografia romanceada do carioca Sérgio Vieira de Mello, que se destacou como alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, realizando missões em vários países em conflito. Seu trabalho ganhou maior evidência nos anos 90 e no início dos anos 2000. Sua missão mais importante e bem sucedida foi quando esteve no Timor Leste, país sob o domínio da Indonésia. Ele negociou tanto com o líder dos rebeldes Xamana Gusmão como com Abdurrahman Washid, presidente da Indonésia. Sérgio convenceu Washid a não só permitir a independência do Timor Leste como também pedir desculpas ao povo timorense pela truculência do regime que resultou em milhares de mortos. Pouco depois, Sérgio seria enviado para Bagdá, no Iraque, para assumir a sede da ONU no Hotel Canal. Aqui, ele cometeria um erro fatal: dispensou a segurança das tropas do exército dos EUA, o que lhe custaria a vida e a de outras dezenas de pessoas num violento atentado à bomba em 2003. Para contar toda essa história, o diretor Greg Baker contou com o roteiro escrito por Graig Borten, que se inspirou na biografia de Sérgio Vieira de Mello intitulada “O Homem que Queria Salvar o Mundo”, da historiadora Samantha Power. Lembro ainda que o diretor Greg Baker já havia realizado, em 2009, o documentário “Sergio”, sobre o mesmo personagem. O elenco do filme tem Wagner Moura no papel principal, a atriz cubana Anna de Armas como Carolina Larriera, a segunda mulher de Sérgio, além de Bradley Whitford, Brian F. O’Byrne e Clarisse Abujamra. Trata-se de um filme obrigatório para quem conhecer um pouco da vida desse brasileiro ilustre, humanista ao extremo, que dedicou sua vida profissional a construir a paz pelo mundo afora.  

segunda-feira, 27 de abril de 2020



“DRY MARTINA”, 2019, coprodução Chile/Argentina à disposição na plataforma Netflix, 1h35m, roteiro e direção do cineasta chileno Che Sandoval. Trata-se de um misto de romance, comédia e drama, com muito erotismo e sexo. A história é centrada em Martina (Antonella Costa), uma cantora romântica com repertório brega que teve o seu auge da fama na Argentina nos anos 90. Depois disso, em franca decadência, continuou cantando em botecos à noite, na maioria das vezes não sendo reconhecida pelo público.  Ao seu declínio artístico junta-se a carência afetiva e, principalmente, a falta de sexo. Nunca mais foi a mesma depois do último namorado, atravessando um período literal de seca, com falta de sexo e sem o prazer de antes. Daí o título “Dry Martina”. Mas a situação mudaria quando ela conhece a espevitada Francisca (Geraldine Neary), que chegou do Chile dizendo-se sua maior fã e, pior, sua irmã de sangue. Ao mesmo tempo em que se surpreende com a grande novidade, Martina fica conhecendo o namorado bonito de Francisca, o jovem César (Pedro Campos). É aí que ela volta a pegar fogo, leva o rapaz para a cama e, finalmente, volta a sentir prazer. Paixão carnal à primeira noitada. Quando César e Francisca voltam a Santiago, Martina fica desesperada e parte para a capital chilena com a desculpa de rever a irmã e quem sabe conhecer seu pai biológico, Nacho (Patricio Contreras), mas na verdade ela queria se jogar na cama com César. E dá-lhe sexo – cenas de forte erotismo, mas nada explícito. Como verdadeira “ninfómana”, como se diz em espanhol, a fogosa Martina parte para o ataque em várias frentes. A atriz Antonella Costa, italiana de nascimento e radicada desde os 4 anos de idade na Argentina, cumpre muito à vontade esse papel de “sedienta de amor”. Ela não é muito bonita, mas bastante sensual. Não há muito o que se destacar em “Dry Martina”, com exceção de um excelente trabalho de fotografia – repare na cena inicial, quando Martina canta de vestido prateado. Enfim, um filme fácil de digerir, sem muitos atrativos, mas alerto: tire as crianças da sala.  

domingo, 26 de abril de 2020


“RESGATE” (“EXTRACTION”), EUA, produção da Netflix que estreou mundialmente no dia 24 de abril de 2020, 1h57m, primeiro longa-metragem de Sam Hargrave, mais conhecido como ator, diretor de curtas e roteirista. O roteiro leva a assinatura de Joe Russo, que se inspirou na graphic novel “Ciudad”, também de sua autoria. O ex-soldado das forças especiais Tyler Rake (Chris Hemsworth, ator australiano de “Thor”) trabalha para uma organização de mercenários que viajam por vários países para missões que incluem resgate de reféns, assassinatos e outras atividades secretas, ganhando muito dinheiro para isso. No caso de “Resgate”, Rake recebe a perigosa missão de resgatar o garoto indiano Ovi Mahajan (Rudhraksh Jaiswal), filho de um grande traficante de drogas de Mumbai (antiga Bombaim), que cumpre pena num presídio de segurança máxima. Seus sequestradores pertencem a uma outra organização criminosa comandada pelo violento e sádico Amir Asif (Priyanchu Painyuli), com sede em Dhaka, capital do Bangladesh, para onde o garoto é levado. A missão de Tyler Rake não será nada fácil, visto que Asif praticamente manda na cidade de Dhaka, inclusive na própria polícia local. Daí para a frente, dá-lhe tiros, pancadarias, perseguições e muito sangue jorrando. Prepare-se, pois é ação do começo ao fim, transformando “Resgate” num ótimo entretenimento. Destaco no elenco a presença da bela e competente atriz iraniana Golshifteh Farahani no papel da chefe dos mercenários. Logo que estreou, o filme já ganhou uma polêmica, ou seja, a reclamação do escritor brasileiro Paulo Coelho por não ter ganho o crédito como autor de uma frase tirada de um de seus livros, “Diário de um Mago”, e citada durante um dos diálogos. A frase é a seguinte: “Você não se afoga caindo em um rio, mas ficando submerso nele”. Resumo da ópera: “Resgate” é um tiro certo para quem gosta de filmes de ação. Sai da frente que vem chumbo grosso!