segunda-feira, 8 de abril de 2019


“A PAIXÃO DE AUGUSTINE” (“LA PASSION d’AUGUSTINE”), 2016, Canadá, 1h43m. roteiro e direção de Léa Pool, falado em francês. Não descobri, mas acredito que a diretora tenha elaborado a história inspirada em fatos reais. A personagem do título é Simone Beaulieu, mais conhecida como Madre Augustine, que nos anos 60 era diretora de uma escola/convento na zona rural de Québec. Quando assumiu a direção, Augustine (Céline Bonnier) instituiu na escola, além da religião e aulas de literatura e francês já constantes do currículo, o ensino da música. Pianista clássica na juventude, Augustine revelou em seu colégio vários talentos, responsáveis por conquistar vários prêmios em concursos musicais da região. Um desses talentos era sua própria sobrinha, a rebelde Alice (Lysandre Ménard), uma verdadeira virtuose no piano. Além das aulas de música, o filme dá destaque à influência do polêmico Concílio Vaticano II, que discutiu e regulamentou vários temas, incluindo ações para a modernidade da Igreja Católica. Outra questão enfocada foi a iniciativa do governo canadense de só permitir o ensino público em colégios do Estado, o que praticamente determinou o fechamento do convento de Augustine. O filme é muito bom, a história comovente e sensível, além de uma saborosa trilha sonora: Bach Liszt, Chopin, Mozart etc. A nata da música clássica, tocada em solos maravilhosos pelas alunas de Augustine. Sem falar no ótimo elenco, encabeçado por essa atriz maravilhosa Céline Bonnier, a Madre Augustine. Mais um bom trabalho realizado pela roteirista diretora suíço/canadense Léa Pool, que em 2014 já havia conquistado o Prêmio Especial do Júri Ecumênico no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Já que estamos falando de música, resumo da ópera: um filme imperdível!  

domingo, 7 de abril de 2019


“OPERAÇÃO FRONTEIRA” (“TRIPLE FRONTIER”), 2019, produção Netflix (estreou dia 13 de março de 2019), 1h55m, roteiro e direção de J.C. Chandor. A história é centrada em cinco amigos ex-membros das Forças Especiais dos EUA. Um deles é o agente Santiago Garcia (Oscar Isaac), que ainda está na ativa como agente do comando antidrogas. Durante uma missão, Santiago recebe a informação de que o principal fornecedor das drogas mora numa mansão de segurança máxima localizada na tríplice fronteira Brasil/Peru/Colômbia, onde esconde todo o dinheiro que ganhou em vários anos como traficante. Ou seja, a mansão é um verdadeiro cofre. Cansado de prender traficantes e engordar os cofres do Tio Sam, Santiago resolve convocar quatro amigos ex-agentes especiais: Tom Davis (Ben Affleck), Francisco Morales (Pedro Pascal), William Miller (Charlie Hunnam) e Ben Miller (Garrett Hedlund). A missão deve ser clandestina, sendo que o objetivo é roubar o dinheiro do traficante e dividi-lo entre os cinco. Ao montar a estratégia de invasão, o grupo conta com o apoio da informante Yovanna (a morenaça Adria Arjona), que, em contrapartida, recebe como promessa a libertação do seu irmão da cadeia. Como filme de ação, “Operação Fronteira” tem lá seus bons momentos, mas o resultado final é decepcionante, principalmente pela presença de astros como Ben Afleck (sua atuação é constrangedora) e Oscar Isaac. Este talvez seja o filme mais fraco de Chandor, que tem em seu currículo os excelentes “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, “O Ano mais Violento” e “Até o Fim”, este último com o astro Robert Redford.       




quinta-feira, 4 de abril de 2019


“O FOTÓGRAFO DE MAUTHAUSEN” (“EL FOTÓGRAFO DE MAUTHAUSEN”), 2018, Espanha, 1h50m, produção Netflix (estreou dia 22 de fevereiro de 2019), terceiro longa-metragem dirigido pela cineasta espanhola Mar Targarona, com roteiro de Roger Danès e Alfred Pérez Vargas. Baseada em fatos reais, a história resgata mais um episódio dramático da Segunda Guerra Mundial, ou seja, as atrocidades praticadas pelos nazistas no campo de concentração de Mauthausen, na Áustria. A figura central é o ex-combatente Francisco Boix (1920-1951), que lutou pelos republicanos na Guerra Civil Espanhola (era militante do Partido Comunista), foi preso e enviado, no início da Segunda Guerra, para Malthausen, com outros 1.500 espanhóis e mais de 100 mil prisioneiros de várias nacionalidades, incluindo judeus, claro. No campo de concentração, Francisco Boix (Mario Casas) conseguiu uma vaga de assistente no laboratório fotográfico do oficial alemão Paul Ricken (Richard van Weyden), encarregado de fotografar tudo o que acontecia em Mauthausen, incluindo, principalmente, as atrocidades, enforcamentos, fuzilamentos, experiências médicas etc. Para denunciar essa situação ao mundo, Boix passou a roubar os negativos de Ricken, contrabandeando-os para fora do campo de concentração. Quando a guerra terminou, essas imagens serviram de prova para condenar vários nazistas como criminosos de guerra. Mario Casas, normalmente escalado para fazer o papel de galã em vários filmes espanhóis, nunca foi um bom ator, mas desempenhou bem como o  fotógrafo Francisco Boix. O filme é bastante interessante como documento histórico, embora possa chocar em algumas cenas das atrocidades. Enfim, mais um relato trágico da crueldade dos nazistas.   



terça-feira, 2 de abril de 2019


“O PROTETOR 2” (“The Equalizer 2”), 2018, EUA, 120 minutos, escrito por Richard Wenk e dirigido por Antoine Fuqua. Trata-se da sequência do filme de 2014 que criou o personagem Robert McCall, um ex-agente da CIA perito em artes marciais e agora aposentado. No primeiro filme, também escrito por Richard Wenk e dirigido por Antoine Fuqua, McCall (Denzel Washington) enfrenta a máfia russa para resgatar e proteger uma jovem. Neste segundo, McCall trabalha como motorista de Uber em Boston e, nas horas vagas, dá uma de herói, socando bandidos, drogados e gente da pior espécie. De vez em quando ele é convocado para alguma missão especial, como no início do filme, quando vai para a Turquia resgatar uma menina sequestrada pelo próprio pai turco. Quando sua amiga e ex-colega de CIA Susan Plummer (Melissa Leo) é assassinada quando investigava um crime em Bruxelas (Bélgica), McCall promete pegar quem a matou. Ele vai atrás dos criminosos e acaba descobrindo uma conspiração que pode envolver gente da própria CIA. O filme tem um desfecho interessante, quando McCall enfrenta, sozinho, os assassinos em meio a um furacão. É bom lembrar que a dupla Richard Wenk e Antoine Fuqua é especialista em filmes de ação, como já provaram em “Jack Reacher: Sem Retorno” e “Sete Homens e um Destino”. Lembro ainda que "O Protetor" foi inspirado numa série de TV dos anos 80 chamada "The Equalizer". Enfim, um bom programa para curtir com um pote de pipoca. Tem Denzel Washington ainda em plena forma, muita ação e pancadaria.    

segunda-feira, 1 de abril de 2019


“MÃE ROSA” (“MA’ROSA”), 2016, Filipinas, 110 minutos, roteiro e direção de Brillante Ma Mendoza (do ótimo “Lola”, de 2009). Excelente drama do pouco conhecido cinema filipino, premiado em Cannes (Melhor Atriz para Jaclyn Jose, a “Mãe Rosa”) e em outros festivais mundo afora. Realmente, o filme é muito bom. A história é centrada em Rosa e sua família – marido e quatro filhos. Eles residem num bairro pobre da periferia de Manila, capital das Filipinas, e sobrevivem com as vendas de sua pequena mercearia. Na verdade, o estabelecimento é fachada para que ela e o marido trafiquem drogas. Denunciados, eles são presos e levados à delegacia. Primeiro, eles são obrigados a entregar o traficante. Segundo, terão que arranjar uma quantia em dinheiro para pagar a “fiança”, ou seja, uma gorda propina para os policiais. Os quatro filhos saem atrás do dinheiro, um deles até se transforma em garoto de programa. Brillante reserva um grande espaço para mostrar o empenho dos jovens em conseguir a soma pedida pelos policiais. A câmera sempre nervosa de Brillante, acompanhando de perto os personagens, aumenta a tensão e o suspense nas cenas mais decisivas. A mensagem comovente no desfecho é a cereja do bolo, mostrando a grande atriz que é Jaclyn Jose.     

domingo, 31 de março de 2019


“SEM DATA, SEM ASSINATURA” (“BEDOUNE TARIKH, BEDOUNE EMZA”), 2017, Irã, 1h44m, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Vahid Jalilvand. Depois de assistir a este excelente drama iraniano, confesso que acabei não entendendo o título em português. Mais adequado à história foi o título escolhido para exibição na França, “Cas de Conscience” (Caso de Consciência). Poucos cineastas abordaram a questão da culpa com tanta competência quanto Vahid Jalilvand. O filme começa à noite numa estrada onde acontece um acidente: o carro dirigido pelo dr. Kaveh Inariman (Amir Aghafi), médico patologista forense, derruba uma motocicleta onde estão Moosa (Navid Mohammadzadeh) e sua esposa Sayeh (Hediyeh Tehrani), além dos dois filhos do casal. O garoto de 8 anos se queixa de dor de cabeça e o médico quer levá-lo ao hospital, conselho não seguido por Mossa. No dia seguinte, o menino é levado morto para autópsia, realizada pela médica Leila (Zakieh Behbahani), colega de Kaveh. A causa da morte seria o botulismo, contraído pelo consumo de carne de frango estragada. O pai se sente culpado por ter comprado o alimento, vendido bem barato. O dr. Kaveh fica sabendo da morte do garoto e não se conforma com o resultado da autópsia. Ele acha que o menino morreu por causa de uma fratura na coluna cervical, provocada pelo acidente. A assim caminha a história, cada um enfrentando sua culpa, seu caso de consciência. O filme estreou durante o 74ª Festival de Veneza, ganhando elogios da crítica especializada e os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator (Navid Mohammadzadeh). Ambos merecidíssimos. Por aqui, foi exibido na programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Imperdível!  

quarta-feira, 27 de março de 2019

“CHACRINHA – O VELHO GUERREIRO” – 2018, direção de Andrucha Waddington, com roteiro de Cláudio Paiva. Trata-se da biografia de José Abelardo Barbosa (1917-1988), o popular Chacrinha, considerado até hoje o mais importante e criativo apresentador da TV brasileira. O filme começa com uma cena da Discoteca do Chacrinha, programa de auditório na TV Globo. No palco, Chacrinha chama como próxima atração uma famosa mãe de santo e transforma o palco numa verdadeira sessão de candomblé, com direito a batuque e cachaça. José Oliveira Sobrinho, o Boni, então diretor da TV Globo chega furioso à sala de produção e tira o programa do ar. O filme retrocede ao início dos anos 40, quando Abelardo Barbosa chega ao Rio de Janeiro depois de abandonar a faculdade de Medicina em Pernambuco. Ele chega com uma mão na frente e outra atrás. Para conseguir um troco pelo menos para comer, ele arruma um bico como locutor de megafone na porta de uma loja de roupas. Já nessa época, seu sonho era ser animador de auditório de alguma emissora de rádio – até então, não havia televisão. Para conseguir seu objetivo, ele conseguiu apresentar um programa musical numa rádio quase falida. A partir de então, o filme apresenta a trajetória de sucesso de Chacrinha até sua morte, relembrando vários de seus programas, inclusive alguns calouros de luxo como o iniciante Roberto Carlos e Clara Nunes. Stepan Nercessian dá um verdadeiro show como Chacrinha – quando moço, interpretado por Eduardo Sterblitch. A vida pessoal, os bastidores dos programas e até revelações bombásticas, como seu caso com a cantora Clara Nunes, o filme explora os fatos mais importantes da vida do apresentador. Estão lá os famosos bordões “O programa que acaba quando termina”, “Quem não se comunica se trumbica”, “Vocês querem bacalhau?” e “Terezinha, uh, uh”, além de jingles como “Maria Sapatão, de dia é Maria, à noite é João”. E as Chacretes, é claro. Tem ainda a espalhafatosa Elke Maravilha (Gianne Albertoni), seu grande inimigo Flávio Cavalcanti (Marcelo Serrado), Wanderléia (que seria mais tarde sua nora) e Boni (Thelmo Fernandes). O filme é delícia pura, um show de design de produção, recriação de época e figurinos. Uma divertida e emocionante volta ao passado recente. Não perca! 

terça-feira, 26 de março de 2019


“O VELHO E A ARMA” (“The Old Man and the Gun”), 2018, EUA, 93 minutos, roteiro e direção de David Lowery (“Sombras da Vida”, “Meu Amigo Dragão”). A história é baseada em fatos reais, ou seja, nos últimos anos de vida do delinquente Forrest Tucker (1920-2004), que ficou famoso nos Estados Unidos por ter fugido 18 vezes das prisões onde estava encarcerado, inclusive algumas de segurança máxima, como San Quentin. Sua vida de crimes começou aos 15 anos de idade e continuou até a velhice, fase em que toda a história do filme se desenrola. Aos 78 anos, Tucker (Robert Redford) continuava roubando bancos em companhia de dois comparsas, Waller (Tom Waits) e Teddy (Danny Glover). Tucker chefiava os assaltos e, para anunciá-los aos gerentes e funcionários do banco, o fazia com toda a educação, mostrando-se um verdadeiro gentleman. Nunca exibia uma arma, embora dissesse que portava uma. E seu único disfarce era apenas um bigode. Sua prisão, e a dos seus parceiros, virou ponto de honra para a polícia, que destacou para a missão o detetive John Hurt (Casey Affleck, irmão do Ben). Em meio a esta perseguição, Tucker conheceria a viúva Jewel (Sissy Spacek), proprietária de um rancho. Redford e Sissy Spacek são os responsáveis pelos momentos românticos e mais sensíveis do filme, quando o veterano ator usa todo o seu charme - ainda intacto aos 82 anos, apesar das rugas. Os diálogos entre os dois são ótimos. Por falar em Redford, ele anunciou que este seria seu último filme como ator. Pena, mas deixa um legado formidável, incluindo filmes como “Butch Cassidy”, “Golpe de Mestre”, “Todos os Homens do Presidente” e “O Grande Gatsby”, entre tantos outros. Resumo da ópera: “O Velho e a Arma” é um filmaço!    

segunda-feira, 25 de março de 2019


“O QUE NOS LIGA” (“CE QUI NOUS LIE”), 2017, França, 1h54m, direção de Cedric Klapisch, que também assina o roteiro com a colaboração do cineasta argentino Santiago Amigorena. Enólogos, sommeliers e amantes do vinho em geral vão se deliciar com essa pequena joia do cinema francês. Eu, que sou leigo no assunto, me deliciei e aprendia muito sobre a produção do vinho. A história é toda ambientada na região dos vinhedos da Borgonha (sul-sudeste da França). Um dos maiores vinhedos pertence aos irmãos Jean (Pio Marmai), Juliette (Ana Girardot, filha do ator Hippolyte Girardot) e Jéremie (François Civil). Eles o herdaram do pai (Eric Caravaca), que lhes ensinou tudo sobre a produção de vinho. Desde crianças, os irmãos foram acostumados a fazer degustação – sempre de olhos vendados - e adivinhar que tipo estavam tomando, além de apontar os defeitos e as qualidades. O pai ficou gravemente doente e os filhos assumiram o negócio. Desde a época certa para a plantação e colheita – a uva é experimentada no cacho para definir a data certa – até o armazenamento e fermentação, todas essas etapas são minuciosamente explicadas durante o filme. Os irmãos são bastante unidos e apaixonados pelo vinhedo, embora recebam boas ofertas para vendê-los. Um dos que querem comprar alguns lotes é justamente o sogro de Jéremie, proprietário de outro vinhedo concorrente. O filme reserva cenas bastante interessantes, como a festa realizada ao final da colheita, onde todos aqueles que colheram as uvas participam, com muita alegria e cantoria. E muito vinho, claro. Embora explore aspectos pessoais de cada um dos irmãos e algumas desavenças familiares, é o vinho o personagem principal desse excelente filme francês, sensível e divertido.    

sexta-feira, 22 de março de 2019

“VOCÊ DESAPARECEU” (“Du Forsvinder”), 2017, Dinamarca, 1h58m, direção de Peter Schønau Fog (seu segundo longa-metragem). O roteiro foi escrito por Christian Jungersen, autor do romance “I Biografen Nu", no qual o filme foi baseado, best-seller nos países da Escandinávia. Vamos à história: Frederick Halling (Nicolas Lie Kaas) desviou dinheiro da escola onde é diretor, em Oslo, e depositou em sua conta. O desfalque foi descoberto, ele acabou denunciado e vai para julgamento, podendo pegar um bom período na cadeia. O crime está devidamente comprovado, mas sempre há uma atenuante. No caso, um tumor no cérebro de Frederick, que, segundo os médicos, poderia provocar um desvio comportamental no paciente, o que explicaria sua conduta ilícita. Este talvez seja o único trunfo do advogado Bernard Berman (Michael Nyqvist), encarregado de defender Frederick. Para isso, porém, ele terá que entrevistar especialistas em neurociência, médicos neurologistas e até psiquiatras – no livro, Jungersen apresenta um verdadeiro estudo científico sobre a neurociência. Somente esse contexto já torna o filme muito interessante. Mas tem mais: a maravilhosa atuação da grande atriz dinamarquesa Trine Dyrholm (“Festa em Família”, “A Comunidade”), que interpreta Mia Halling, a esposa de Frederick. Outro destaque fica por conta da participação do ator Michael Nyqvist, que morreu meses depois do fim das filmagens. Enfim, um filme inteligente, polêmico, que dá margem a muitas discussões e reflexões acerca dos fatores que levam o ser humano a ter determinado comportamento. Imperdível!

quarta-feira, 20 de março de 2019


O que um pai é capaz de fazer para se vingar dos agressores do seu filho? É este o pano de fundo do drama “SEU FILHO” (“Su Hijo”), 2018, Espanha, Netflix (lançamento ocorreu dia 1º de março de 2019), roteiro e direção de Miguel Ángel Vivas. A vida do médico cirurgião Jaime Jiménez (José Coronado) vira um inferno após seu filho Marcos (Paul Monen) ser brutalmente espancado na porta de uma discoteca. Ele cobra da polícia uma investigação rápida para identificar os agressores. Mesmo com as cenas gravadas por um celular, a polícia não faz nada (a delegada diz que não pode assistir à gravação sem a ordem de um juiz – ou seja, má vontade), talvez por influência do poderoso dono da discoteca. Jiménez então resolve fazer justiça com as próprias mãos (clichê dos clichês) e parte para cima dos agressores. Uma peça fundamental do que ocorreu é a adolescente Andrea (Ester Expósito), ex-namorada de Marcos. Em todo o desenrolar do filme, a ação fica restrita às cenas da agressão (muito violentas, por sinal) a Marcos e da vingança do seu pai. Na maior parte, a câmera do diretor Vivas acompanha o sofrimento e a angústia de Jiménez em decidir ou não se vingar na base do “Olho por olho, dente por dente”. O filme ainda guarda, para perto do desfecho, uma surpreendente revelação. Nem a presença do veterano e excelente ator José Coronado nem uma surpreendente revelação perto do desfecho são suficientes para recomendar este drama espanhol. 

segunda-feira, 18 de março de 2019


“LEAL – SÓ HÁ UMA FORMA DE VIVER” (“LEAL – SOLO HAY UMA FORMA DE VIVIR”), 2018, Paraguai, Netflix, 1h47m, direção de Pietro Scappini e Rodrigo Salomón, com roteiro do argentino Andrés Gelós. Trata-se do primeiro filme paraguaio exibido pela Netflix – sua estreia mundial aconteceu no dia 2 de agosto de 2018. Mesmo sendo paraguaio, o filme não é falso. A história é baseada em fatos reais e envolve a atuação de um grupo paramilitar formado pela SENAD – Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai – com o objetivo de combater o tráfico de drogas nas fronteiras paraguaias. Para comandar o pelotão, o governo trouxe de volta à ativa o ex-coronel Ramón Fernández (Sílvio Rodas), que recrutou vários oficiais e soldados de sua confiança. O serviço de inteligência funcionou graças a uma estagiária do SENAD (Andrea Quatrocchi), que decifrou os códigos utilizados pelos traficantes para designar a chegada, por via aérea, de novos carregamentos. A parte divertida: o código dos aeroportos clandestinos era constituído por nomes de jogadores brasileiros. Estão lá Cafu, Djalma Santos, Alemão etc. Haja criatividade! No gênero ação, até que o filme funciona, tem ritmo, violência e muitos tiros, mas os atores são uma tragédia. Um pior que o outro. Ou foram mal dirigidos ou são ruins mesmo. Tem até um brasileiro no elenco, um tal de Bruno Sosa, que interpreta Dante, o braço direito do maior traficante da região. É isso aí, vale como curiosidade para conhecer um filme de ação do Paraguai. Garanto que já vi piores.   

domingo, 17 de março de 2019


“A ARTE DE AMAR – A HISTÓRIA DE MICHALINA WISLOCKA” (“SZTUKA KOCHANIA”), 2017, Polônia, 120 minutos, direção de Maria Sadowska – é o seu segundo longa-metragem -, com roteiro de Violetta Ozminkowski. Conta a história da médica ginecologista Michalina Wislocka, que em 1976 lançou o livro “A Arte de Amar” (“Sztuka Kochania”), um pioneiro e polêmico ensaio sobre a importância da prática do sexo na vida das pessoas. O livro foi um grande best-seller na época. Não foi fácil publicá-lo, já que a Polônia vivia sob o comando do rígido regime da União Soviética, além de ser um dos países mais católicos do mundo. Ou seja, Michalina teve de enfrentar a oposição da Igreja e dos governantes. O livro foi considerado o primeiro guia sexual gerado num país comunista e Michalina a primeira sexóloga da Polônia, sendo comparada ao seu colega norte-americano Alfred Charles Kinsey, que nos anos 40 fundou o Instituto de Pesquisa do Sexo na Universidade de Indiana. O filme apresenta Michalina (Magdalena Boczarska) como uma mulher liberal, desinibida e muito avançada para o seu tempo, a ponto de permitir que seu marido Stach Wislocki (Piotr Adamczyk) vivesse com outra mulher, Wanda (Justina Wasilewska) no mesmo teto que ela, consumando o famoso ménage à trois. Alguns anos mais tarde, separada de Stach, Michalina conhece Jurek (Eryk Lubos), que seria seu grande amor pelo resto da vida. Enfim, uma história e tanto a desta médica polonesa, contada de uma forma bem-humorada e fiel aos fatos, com excelente elenco, fotografia e uma esmerada reconstituição de época.    


“VIDA SELVAGEM” (“Wildlife”), 2019, EUA, 1h45m, filme independente que marca a estreia do ator Paul Dano como roteirista e diretor. Trata-se da adaptação do romance escrito por Richard Ford em 1990. A história é ambientada no final dos anos 50 do século passado e acompanha o drama da família Brinson, Jerry (Jake Gylhenhaal), Jeanette (Carey Mulligan) e Joe (Ed Oxenbould), o filho de 14 anos do casal. Eles vivem na cidade de Great Falls (Montana), onde Jerry trabalha como empregado de um clube de golfe. Ao perder o emprego, o relacionamento familiar fica insustentável. As brigas entre o casal acontecem quase sempre sob os olhares de Joe. Como não consegue outro emprego melhor, Jerry aceita fazer parte de um grupo encarregado de combater incêndios na floresta. Por vários meses, ele passa longe da família. Enquanto isso, Jeanette e o filho vão à luta. Ela consegue um emprego numa concessionária de veículos e o garoto num estúdio de fotografia. Com o casamento em ruínas e com o sumiço do marido, Jeanette acaba se envolvendo com um rico empresário e, quando Jerry volta para casa, a situação do casal se complica de vez. O filho Joe acompanha de perto toda essa situação de turbulência e é através do seu olhar que o diretor Paul Dano procura intensificar a dramaticidade. Assim como os críticos especializados presentes à exibição do filme nos festivais de Sundance e de Cannes, gostei muito do filme. Vale também pela ótima atuação da atriz inglesa Carey Mulligan.

sexta-feira, 15 de março de 2019


“TODOS JÁ SABEM” (“Todos Lo Saben”), 2019, Espanha, 2h13m, roteiro e direção de Asghar Farhadi. Com um elenco de primeira linha, este suspense foi exibido pela primeira vez no 71º Festival de Cinema de Cannes, em maio de 2018, não empolgando nem público nem críticos. A história começa com a chegada de Laura (Penélope Cruz) e seus dois filhos a uma pequena aldeia da Espanha, onde vivem seus pais e irmãs, para a festa de casamento da irmã mais nova. O marido de Laura, Alejandro (Ricardo Darín), tinha compromissos na Argentina e não pôde ir.   Durante a comemoração, um apagão acontece e, quando a luz volta, Irene (Carla Campra), filha mais velha de Laura, desaparece misteriosamente. Será que a garota fugiu ou foi sequestrada? A dúvida pairou no início, mas logo depois ficou confirmado que era um caso de sequestro. Por dinheiro, é claro. O diretor iraniano Farhadi nos conduz a uma espécie de jogo de adivinhação, fazendo com que o espectador desconfie deste ou daquele personagem. E são muitos. Não escapam nem o próprio pai da moça, Alejandro, que está falido, nem mesmo Paco (Javier Bardem, marido de Penélope Cruz na vida real), um antigo namorado de Laura. Depois de uma revelação bombástica (tudo a ver com o título “Todos já Sabem”), finalmente é revelado quem está por trás do sequestro. O diretor iraniano já tinha feito um suspense semelhante – e melhor -, “A Procura de Elly”, em 2009. Anos depois, Asghar Farhadi se consagraria com dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro, “A Separação”, de 2011, e “O Apartamento”, de 2016. O elenco de “Todos já Sabem” ainda conta com Inma Cuesta, Bárbara Lennie, Eduardo Fernández e Sara Sálamo.

segunda-feira, 11 de março de 2019


“PODERIA ME PERDOAR?” (“CAN YOU EVER FORGIVE ME?”), 2018, EUA, direção de Marielle Heller (“O Diário de uma Adolescente”), com roteiro adaptado por Nicole Holofcener e Jeff Whitty. Mais um ótimo filme da safra 2018 de Hollywood, considerado pela National Board of Review como um dos 10 melhores filmes de 2018. Trata-se da adaptação cinematográfica do livro de memórias da jornalista e escritora Lee Israel, que, nos anos 90, endividada e sem emprego, resolveu falsificar cartas atribuídas a celebridades, entre as quais Dorothy Parker, Tallulah Bankhead e Katharine Hepburn. Em meio a essa trajetória criminosa, Lee, interpretada magistralmente pela atriz Melissa McCarthy, faria amizade com o folclórico Jack Hock (o ator inglês Richard E. Grant), um trambiqueiro gay que se tornaria seu cúmplice nas picaretagens. Os dois seriam presos mais tarde pelo FBI. Por suas atuações nesse filme, Melissa concorreu a Melhor Atriz e Richard Grant a Melhor Ator Coadjuvante. A dupla realmente dá um show, mas é Richard quem rouba as cenas. O papel de Lee Israel estava acertado para ser de Julianne Moore, demitida logo após o início das filmagens. A razão não foi divulgada. Enfim, um ótimo filme, recheado de humor e, de certa forma, bastante sensível. Entretenimento dos melhores.


domingo, 10 de março de 2019


“LIZZIE”, 2018, EUA, 1h48m, segundo longa-metragem dirigido por Craig William MacNeill, com roteiro adaptado por Bryce Kass. O filme relembra o caso que chocou a cidade de Fall River, Massachusetts, e repercutiu por todo o país norte-americano. O fato gerou inúmeras reportagens, livros e, mais tarde, vários filmes. Em 1892, Andrew Borden (Jamey Sheridan) e sua esposa Abby Borden (Fiona Shaw), figuras importantes e respeitáveis da sociedade local, foram encontrados mortos, assassinados a machadadas. As suspeitas da polícia recaíram sobre Lizzie Borden (Chloë Sevigny), a filha mais nova, e a empregada Bridget Sullivan (Kristen Stewart). Ao final das investigações e interrogatórios, chegou-se à conclusão de que Lizzie seria a assassina. Ela foi presa e julgada, sendo absolvida da acusação. O filme detalha os acontecimentos ocorridos nos seis meses anteriores ao crime, começando pela chegada de Bridget, a empregada, que sofreria abuso sexual do patrão e teria um caso lésbico com Lizzie. O diretor Macneill explora a história adicionando muito suspense, cenas violentas e cenas de sexo, além da nudez das duas atrizes principais. Choë Sevigny, além de bonita, é uma grande atriz. Pena que não é tão requisitada pelos grandes estúdios, mais pelo cinema independente - "Lizzie", por sinal, estreou no Festival de Cinema de Sundance, em 2018. A bela Kristen Stewart está apática demais, sem nenhuma expressão, mas é boa atriz e tem crédito de sobra. O filme vale a pena ser visto não só pela história em si, mas pelo excelente desempenho da Sevigny. A mesma história foi tema de outros filmes, um deles "Lizzie Borden Pegou o Machado", produção para a TV com Christina Ricci (também comentado neste blog). 


sexta-feira, 8 de março de 2019

“SE A RUA BEALE FALASSE” (“IF BEALE STREET COULD TALK”), 2018, EUA, 120 minutos, dirigido por Barry Jenkins, que também escreveu o roteiro baseado no romance de James Baldwin lançado em 1974. As famílias de Tish (Kiki Laine) e de Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James) são vizinhas no Harlem. Tish e Fonny cresceram juntos e ainda adolescentes engatam um namoro. A história é ambientada no início dos anos 70, quando Tish está com 19 anos e Fonny com 22. Continuam apaixonados e ela acaba engravidando. Só que um dia Fonny é preso, acusado de estuprar uma jovem porto-riquenha. Ele nega o crime, mas o fato de ser negro já supõe culpa no país racista do Tio Sam, ainda mais naquela época. Tish acredita na inocência do namorado e segue sonhando em ter um lar no futuro com filhos etc. Mas nem sempre os sonhos tornam-se realidade, principalmente para uma minoria segregada. Barry Jenkins fez uma boa adaptação de um dos mais conhecidos romances de James Baldwin, autor também negro que explora, na maioria dos seus livros, a questão racial nos Estados Unidos. Lembro que Jenkins também foi o diretor do poderoso “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, Melhor Filme do Oscar 2017. Por falar em Oscar, “Se a Rua Beale Falasse” foi indicado para três categorias na versão 2019: Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora. Só levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, Regina King, que faz a mãe de Tish. Achei que houve injustiça com Kiki Laine, que deveria ter sido indicada para Melhor Atriz e não foi. Ela está ótima. Enfim, “Se a Rua Beale Falasse” é mais um excelente filme da safra 2018, que já nos deu “Green Book”, “A Favorita” e “Bohemian Rhapsody”, entre outros.   

quarta-feira, 6 de março de 2019


“DEDE”, 2017, Georgia, 97 minutos, primeiro longa-metragem dirigido pela diretora Mariam Khatchvani, com roteiro de Vova Kacharava e Irakli Solomonashvili. Esse drama pesado, não fosse georgiano, seria um legítimo drama mexicano. Tem muita tragédia, brigas de famílias que geralmente terminam em morte, casamentos arranjados, mulheres e homens infelizes, pobreza... e por aí afora, sem contar com os cenários de muita neve e um frio de congelar os ossos. A história é toda ambientada em 1992 – logo após a guerra da independência - num vilarejo remoto na zona rural e montanhosa do interior da Geórgia, ex-república soviética. Num arranjo entre as respectivas famílias, a jovem Dina (Nadia Vibliani) está prometida em casamento para um homem que ela não ama. O preferido dela é o jovem Gegi (George Babluani), que por uma infelicidade é amigo do noivo. Dina desmarca o casamento, gerando uma guerra entre as famílias. É nesse contexto dramático que a trama segue até o seu desfecho. O mais interessante desse ótimo drama georgiano é o destaque dado às tradições locais, a principal delas o papel sempre subserviente e humilhante destinado às mulheres. Com exceção de três ou quatro atores profissionais, o restante do elenco é todo constituído por pessoas do próprio vilarejo, o que dá ao filme uma autenticidade e um realismo especiais. Só para lembrar, a Geórgia é um país da Europa Oriental que faz fronteira com Azerbaijão, Armênia e Turquia. A língua oficial é a suana, falada também no filme. Resumo da ópera: “Dede” é excelente. Assisti-lo é uma ótima oportunidade para conhecer um pouco do pouco conhecido cinema georgiano. Para concluir: o filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Karlovy  Vary, na República Tcheca, com muitos elogios da crítica e do público.   

terça-feira, 5 de março de 2019


“COLETTE”, 2018, coprodução EUA/Inglaterra, 1h52m, roteiro de Richard Glatzer e Rebecca Lenkiewicz, com direção de Wash Westmoreland. Trata-se de um filme biográfico que acompanha a trajetória fascinante da romancista francesa Sidonie-Gabrielle Colette, mais conhecida apenas como Colette, que no início do século XX foi um grande sucesso de vendas com suas histórias apimentadas, recheadas de sexo com a personagem Claudine. A sociedade conservadora ficou escandalizada com os temas abordados por Colette. Jovem simples nascida no interior da França, ela foi pedida em casamento pelo então famoso escritor Willy (Dominic West), cujos livros, na verdade, eram escritos por jovens escritores em início de carreira (escritores-fantasmas). Willy só assinava como autor. Colette começou a escrever alguns romances que também seriam assinados por Willy. Anos mais tarde, se cansaria dessa situação, assumindo a autoria, com seu próprio nome, de outros romances, todos sucessos de vendas na época. Em sua vida pessoal, Colette se envolveria sexualmente também com outras mulheres, entre as quais a aristocrata norte-americana George Raoul-Duval (Eleonor Tomlinson) e a atriz de teatro Missy (Denise Gough), romances que seriam descritos em seus livros. Ou seja, para usar um clichê dos mais antigos, Colette era uma mulher à frente do seu tempo. Além de bonita, Keira Knightley é ótima atriz e vários diretores adoram colocá-la em filmes de época, como aconteceu em “Orgulho e Preconceito” e “Desejo e Reparação”, entre tantos outros. Exibido por aqui na programação oficial do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em novembro de 2018, “Colette” é um filme de muita qualidade, com um elenco dos melhores, uma excelente fotografia e uma primorosa reconstituição de época.   

segunda-feira, 4 de março de 2019


“O QUE AS PESSOAS VÃO DIZER” (“HVA VIL FOLK SI”, título original em norueguês, e “What Will People Say” nos países de língua inglesa), 2018, Noruega, 1h46m, roteiro e direção da norueguesa Iram Haq (seu segundo longa-metragem). O filme foi selecionado para representar a Noruega na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme, mas não emplacou, embora seja ótimo. Trata-se de um drama cujo pano de fundo é o radicalismo paterno, comum entre as famílias muçulmanas. A história é centrada na jovem Nisha (Maria Mozhdah), nascida e criada em Oslo, capital da Noruega. Aos 16 anos, ela vai a baladas, namora, fuma um baseado de vez em quando, enfim, tudo o que uma garota ocidental está acostumada a fazer. Nisha faz tudo isso bem escondida dos pais imigrantes paquistaneses, Mirza (Adil Hussain) e Najma (Ekavali Khanna), radicais à beira do fundamentalismo quanto às tradições culturais e religiosas de seu país de origem. Quando Nisha é surpreendida com o namorado nas preliminares, seu Mirza acaba espancando o rapaz. O caso termina na delegacia. Najma, a mãe, se desespera: “O que os outros vão dizer?”. Essa preocupação diz respeito, claro, à reputação não só de Nisha, mas de toda a sua família. Depois disso, o pai, num acesso de ódio, decide levar a filha à força para Islamabad (capital do Paquistão), para a casa de sua irmã. Nisha tenta se adaptar aos costumes da família, mas acaba se envolvendo com um primo. Aí a coisa piora de vez. Nisha é obrigada a voltar para Oslo, onde curtirá mais alguns momentos de infelicidade. A gota d’água acontece quando a família arranja um marido paquistanês residente no Canadá para casar com Nisha. O filme, falado em norueguês e urdu, é muito bom e impactante, apresentando uma realidade presente há séculos nas famílias muçulmanas, onde a mulher é desconsiderada como cidadã. Filmaço!  

domingo, 3 de março de 2019


“GREEN BOOK: O GUIA” (“Green Book”), 2018, EUA, 2h10m, roteiro e direção de Peter Farrelly. Antes de assistir a esta pérola, vi “Bohemian Raphsody” e “A Favorita”, outros dois fortes concorrentes ao Oscar 2019 de Melhor Filme. Achei que um desses dois ganharia o prêmio. Se tivesse visto “Green Book” antes da noite da premiação, apostaria nele todas as minhas fichas. Sem dúvida, um filme maravilhoso, sensível, divertido, enfim, cinema da melhor qualidade. O trunfo maior, porém, além da interessante história baseada em fatos reais, é a dupla de atores Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Eles interpretam, respectivamente, o grosseirão Frank “Toni Lip” Vallelonga e o refinado pianista Don Shirley. O filme é ambientado em 1962 – a reconstituição da época é sensacional. Toni Lip trabalhava como segurança na discoteca Copacabana, em Nova Iorque. Quando o estabelecimento fechou para reformas, que durariam mais ou menos três meses, Toni arrumou um “bico” de motorista, assistente e segurança do pianista Don Shirley, um dos mais conceituados músicos de jazz que fazia enorme sucesso com seu “Trio Don Shirley”. Shirley e seu grupo foram contratados para uma turnê em várias cidades do sul, a região mais racista do país. O gozado da situação é que Toni Lip era um racista convicto e que seria obrigado a ter um chefe negro. É desse contexto que Farrelly conseguiu criar as mais hilariantes situações, principalmente no que se refere aos diálogos entre o motorista e seu chefe. Desta vez, Peter não trabalhou com seu irmão Bob, conhecidos como os irmãos Farrelly, responsáveis por ótimas comédias como “Debi & Lóide – Dois Idiotas em Apuros”, “Eu, Eu Mesmo & Irene” e “Quem vai Ficar com Mary?”. Além de dirigir “Green Book”, Peter escreveu o roteiro juntamente com Nick Vallelonga (filho de Toni na vida real) e Brian Hayes Currie. Por seu trabalho em “Green Book”, Mahershala Ali conquistou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Merecido. Viggo Mortensen concorreu a Melhor Ator, perdendo para Rami Malek, o Fred Mercury de “Bohemian Raphsody”. Mortensen era o grande favorito, pois antes do Oscar já havia sido premiado pela AACTA Internacional Award, pelo Critic’s Choise Award, pelo Bafta, Sindicato dos Atores e pelo Globo de Ouro. Sua atuação é mesmo fantástica. Ele chegou a engordar 20 quilos para interpretar Toni. Como informação adicional, lembro que o Green Book era um livro/guia de hotéis e restaurantes do sul dos EUA que aceitavam afrodescendentes. Quem ainda não assistiu está perdendo a oportunidade de conhecer um dos melhores filmes dos últimos anos. Imperdível!