quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019


Grande vencedor do Prêmio de Melhor Filme da Mostra “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes 2017, “UM HOMEM ÍNTEGRO” (“Lerd” – o título nos países de língua inglesa ficou “A Man of Integrity”), 120 minutos, Irã, roteiro e direção de Mohammad Rasoulof, é uma crítica contundente ao governo iraniano, autoridades públicas e policiais, denunciando a corrupção que impera no país (não sei como passou pela rigorosa censura dos aiatolás). Bom lembrar que o filme foi realizado clandestinamente em locações no norte do Irã. Quando voltou dos Estados Unidos, onde participou de um festival que exibiu seu filme, Mohammad Rasoulof teve confiscado seu passaporte para que não pudesse sair mais do país - ele já tinha sido preso em 2010 juntamente com seu colega Jafar Panahi. Para piorar ainda mais a situação de Rasoulof, “Um Homem Íntegro” também foi premiado no Festival de Cinema de Jerusalém, o que aumentou ainda mais o rosnar das autoridades iranianas. Bem, vamos à história: depois de ser demitido como professor de uma escola de Teerã, Reza (Reza Akhlaghirad) resolve se mudar com a esposa Hadis (Sondabeh Beizaee) e o filho para uma zona rural ao norte do Irã, onde compra um terreno e monta um pequeno sítio para criar peixes dourados. O negócio ia bem até que seu vizinho, um tal de Abbas, um rico empresário, resolve um dia cortar o fornecimento de água. Ao reclamar, Reza acaba brigando com Abbas, que o processa pelo fato de ter quebrado seu braço. Daí para a frente, Reza viverá um verdadeiro inferno, terá que lidar com funcionários judiciários e policiais que exigem propina – para desespero da sua esposa, Reza não aceita o jogo dos corruptos e acaba sofrendo por isso. Ele e sua família. O filme é excelente e um de seus maiores trunfos é, sem dúvida, além do primoroso roteiro, a grande atuação da dupla de atores principais: Reza Akhlagfhirad e a belíssima Sondabeh Beizaee. Resumo da ópera: cinema da mais alta qualidade. Imperdível!  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019


“UM AUTÊNTICO VERMEER” (“EEN ECHTE VERMEER”), 2016, Holanda, 1h55m, roteiro e direção de Rudolf Van Den Berg. Trata-se de uma história baseada em fatos reais, ou seja, a trajetória do pintor holandês Han Van Meegeren (Jeroen Spitzenberger), que ficou famoso na Amsterdã dos anos 20 do século passado por apresentar, em suas telas, um estilo semelhante aos grandes pintores clássicos holandeses do Século 17, Rembrandt e Johannes Vermeer. Seu sucesso, porém, teria vida curta, principalmente depois que conheceu e se apaixonou pela atriz de teatro Jolanka Lakatos (Lize Feryn), casada com Abraham Bredius (Porgy Franssen), o mais importante marchand e crítico de arte da Holanda. Enciumado pelo assédio de Meegeren sobre sua esposa, Bredius destruiu a carreira de Meegeren, que resolveu se vingar não apenas tornando-se amante de Jolanka, como também pintando telas falsas de Vermeer para o oponente comercializar como sendo verdadeiras. O filme acompanha a trajetória de Meegeren até depois da Segunda Guerra Mundial, quando ele é julgado como suspeito de colaborar com o exército nazista que ocupou a Holanda durante o conflito - ele presenteou os oficiais alemães e até Hitler com algumas de suas obras. O diretor holandês Van Den Berg (“Süskind” e “Tirza”) acertou ao escolher uma história tão interessante e pouco conhecida. Acertou também na escolha do elenco, na fotografia e, principalmente, na reconstituição de época – figurinos e cenários. Por aqui, o filme foi exibido durante a programação oficial da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vale a pena assistir!  

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019


“ROMA”, 2018México, 2h15m, produção e distribuição da Netflix, roteiro e direção de Alfonso Cuarón. Totalmente filmado em preto e branco, esse maravilhoso drama recebeu nada menos do que 10 indicações para disputar no Oscar 2019. Banido do Festival de Cannes 2018 por ser da Netflix, “Roma” conquistou o Leão de Ouro como Melhor Filme no Festival de Veneza e foi eleito o melhor longa-metragem de 1918 por críticos de Nova Iorque, São Francisco, Los Angeles e Chicago. Ao assistir “Roma”, fiquei propenso a acreditar que o diretor mexicano estava fazendo uma homenagem a “Roma, Cidade Aberta” (1947), um clássico do neorrealismo italiano dirigido por Roberto Rosselini. Ledo engano. Cuarón escreveu o roteiro inspirado na sua infância, quando morava com sua família em Colônia Roma, um bairro de classe média na Cidade do México. A personagem principal da história, Cleo (Yalitza Aparício), por exemplo, foi baseada na sua antiga babá Libo. Tudo gira em torno de Cleo, a babá e empregada da família, na verdade o braço direito de Sofia (Marina de Tavira), a patroa da casa. O filme é ambientado nos primeiros anos da década de 70, quando o México vivia um momento de grave instabilidade política, com manifestações de trabalhadores e estudantes. Numa dessas manifestações, um grupo de paramilitares assassinou 120 manifestantes, a maioria estudantes. Cuarón toca nessa ferida e em outras mais. Porém, o foco central do filme é realmente o relacionamento entre os familiares e Cleo, a cumplicidade que os une, sem distinção de classe, puro amor fraternal. Nesse contexto, o filme reserva momentos de grande sensibilidade capazes de emocionar até mesmo o espectador menos sensível. Enfim, uma beleza de filme, cinema da mais alta qualidade. Imperdível! (só para lembrar: Cuarón já conquistou três prêmios Oscar com “Gravidade”, de 2014: Direção, Filme e Montagem).

domingo, 17 de fevereiro de 2019


“POLAR”, produção da Netflix, é um filme de ação baseado na Graphic Novel “Polar: Came From the Cold”, da Editora Dark House. Sua estreia mundial aconteceu no dia 25 de janeiro de 2019. A história é centrada em Duncan Vizla, o “Kaiser Negro” (o ator dinamarquês Mads Mikkelsen), um assassino profissional chegando aos 50 anos e prestes a se aposentar. Ele trabalha para Blut (Matt Lucas), um sanguinário chefe de uma quadrilha que se nega a pagar o valor exigido pelo “Kaiser Negro” como prêmio aos serviços prestados. Blut então convoca sua equipe de assassinos para eliminar Vizla. É ação o tempo inteiro, muita violência explícita (o sangue jorra na tela) e cenas de sexo bastante fortes. Portanto, ao assistir, tire as crianças da sala. A direção ficou por conta do diretor sueco Jonas Akerlund, que há muitos anos está radicado nos Estados Unidos, onde é mais conhecido como realizador de filmes de curta-metragem e videoclipes. Embora massacrado pela crítica especializada, eu achei “Polar” um ótimo entretenimento como filme de ação, sem contar que o elenco é ótimo: além de Mikkelsen - que arrasa em qualquer papel - e Matt Lucas, atuam Vanessa Hudgens, a loiraça Katheryn Winnick e  veteraníssimo Richard Dreyfuss, que demorei a reconhecer. Diversão garantida!

sábado, 16 de fevereiro de 2019


“O PRIMEIRO HOMEM” (“THE FIRST MAN”), EUA, 2h22m, 2018, direção de Damien Chazelle. O roteiro foi escrito por Josh Singer, baseado no livro “The First Man: The Life of Neil A. Armstrong”, de Jame R. Hansen. Trata-se da história do astronauta Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, em julho de 1969. O filme é ambientado no período de 1961 a 1969 e acompanha os testes realizados pela NASA para enfim enviar uma tripulação, comandada por Armstrong, para a Lua. A trajetória de Armstrong confunde-se com a evolução do programa espacial norte-americano, durante o qual morreram vários astronautas. Além do trabalho como engenheiro, piloto e astronauta, Armstrong é apresentado em sua vida particular, a relação com a esposa Janet e com os filhos. A história desses astronautas é incrível. O filme explora o interior dos módulos espaciais, mostrando as condições nada confiáveis dos antigos instrumentos de bordo, com peças rangendo e faíscas para tudo quanto é lado. Enfim, ser astronauta naquela época era para sujeitos muito corajosos. Armstrong era um deles. O elenco conta nos papeis principais com Ryan Gosling, Claire Foy e Jason Clarke. “O Primeiro Homem” foi indicado para disputar quatro categorias no Oscar 2019 (Direção de Arte, Mixagem de Som, Edição de Som e Efeitos Visuais). Acho que merecia muito mais, pois o filme é ótimo. Mais um gol de placa do jovem diretor Damien Chazelle, de apenas 33 anos, que já mostrou sua enorme competência em filmes como “La La Land: Cantando Estações” e o espetacular “Whiplash: Em Busca da Perfeição”.       

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

“FÚRIA EM ALTO MAR” (“HUNTER KILLER”), EUA, 2017, 2h02min, direção do sul-africano Donovan Marsh. O roteiro foi escrito por Jamie Moss e Arne Schidt, que adaptaram a história do romance “Firing Pint”, de Don Keith e George Wallace, de 2012. Trata-se de um filme de ação envolvendo os Estados Unidos e a Rússia, retomando o tema da Guerra Fria, como nos bons tempos de James Bond. Durante missão para monitorar as atividades militares da Rússia nas águas do Mar de Barents, situado ao norte da Rússia e da Noruega, um submarino norte-americano é abatido por um míssil. Ao mesmo tempo, um submarino russo sofre uma explosão provavelmente provocada por uma sabotagem. Para investigar o que realmente aconteceu, o almirante Charles Donagan (Gary Oldman) recruta o experiente comandante Joe Grass (o ator escocês Gerard Butler) para comandar a tripulação do submarino “SS Arkansas”. Para dar suporte à missão de Grass, o governo norte-americano convoca um pequeno grupo de fuzileiros navais para ingressar em território russo por terra. O clima é da maior tensão, pois as autoridades governamentais e militares tanto dos EUA como da Rússia acreditam que estavam sendo atacados pelo outro país. Guerra Fria levada ao extremo. Enfim, como logo descobririam os serviços de inteligência dos EUA, o que estava acontecendo na Rússia era um golpe de Estado comandado pelo próprio ministro da defesa Almirante Dimitriy Durov (Michael Gor), que sequestrou e prendeu o moderado presidente Zacarin (Alexander Diachenko). Será que os norte-americanos conseguirão libertar o presidente russo e evitar o golpe? Daqui por diante deixo a resposta para quem assistir. Só digo que na cena final só faltou tocar o hino norte-americano. Em todo caso e com todos os seus defeitos, “Fúria em Alto Mar” é um filme de ação que prende a atenção do começo ao fim. Como relatado nos créditos finais, o filme é dedicado ao ator sueco Michael Nyqvist, que faleceu logo depois do final das filmagens.          

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019


O drama “TRAMA FANTASMA” (“Phantom Thread”), 2017, EUA, 2h11m, roteiro e direção de Paul Thomas Anderson, marca a despedida das telas do ator britânico Daniel Day-Lewis, que ao final das filmagens anunciou sua aposentadoria. Aos 61 anos, vencedor de três Oscars (“Lincoln”, “Sangue Negro” e “Meu Pé Esquerdo”), Day-Lewis resolveu se aposentar num filme onde mais uma vez tem uma atuação à altura da sua competência. Em “Trama Fantasma”, cuja história é ambientada nos anos 50, ele interpreta Reynolds Woodcock, um renomado estilista da alta costura em Londres, requisitado pelas mulheres da elite londrina e até da realeza inglesa, assim como de outros países da Europa. Enfim, uma celebridade do mundo da moda. Ao mesmo tempo, é um sujeito egocêntrico e grosseiro. A única pessoa que ele ainda se dá bem é sua irmã Ciryl (Lesley Manville), sócia no negócio e seu braço direito. Em uma de suas viagens ao interior para descansar, Reynolds conhece a jovem Alma (Vicky Krieps), garçonete de um restaurante. Ele se encanta com o corpo e a postura da moça e a convida para trabalhar vestindo seus novos modelos. Em pouco tempo os dois se apaixonam, mas Alma logo descobrirá que Reynolds é, na verdade, um sujeito bastante grosseiro, a quilômetros de distância do homem gentil que ela conheceu. Ele é tão chato que implica com o barulho que Alma faz ao passar manteiga em uma torrada. Mesmo assim, eles acabam se casando e pouco tempo depois a relação se transforma num inferno, amor e ódio levados ao extremo. O filme é excelente, como comprovam as cinco indicações que recebeu na disputa do Oscar 2018 – venceu como Melhor Figurino. Mais um trabalho de alto nível criado pelo diretor norte-americano Paul Thomas Anderson em seu primeiro filme realizado fora dos Estados Unidos – as filmagens aconteceram na Inglaterra e na Escócia. Do currículo de Anderson constam filmes muito bons, como “Sangue Negro”, “Magnolia”, “Vício Inerente” e “Boggie Nights: Prazer sem Limites”. E, agora, “Trama Fantasma”. Cinema da mais alta qualidade. Não perca!      

domingo, 10 de fevereiro de 2019


Eleito o melhor filme do ano pelo American Film Institute e com 10 indicações ao Oscar 2019, “A FAVORITA” (“THE FAVOURITE”), 2h00, coprodução Reino Unido/EUA, direção do grego Yorgos Lanthimos, com roteiro escrito por Deborah Davis e Tony McNamara, é um dos mais deslumbrantes filmes de época que já assisti. Não sou muito fã do gênero, mas este em especial me impressionou positivamente. Tudo funciona muito bem: roteiro, fotografia, figurinos, ambientações, enfim, um esplendor visual que define com propriedade a opulência da corte inglesa no Século XIII. O grande trunfo do filme, porém, é o trio de protagonistas principais, Olivia Colman como a rainha Anne, Raquel Weisz como Sara Churchill – Duquesa de Marlborough (antepassada de Winston Churchill) e Emma Stone como Abigail Hill. Vamos à história, baseada em fatos reais: a Duquesa de Marlborough é a figura mais importante da corte. Além de ser a tesoureira da Casa Real, ela é quem influencia a rainha na tomada de decisões. Além disso, é amante da rainha. Seu poder só será ameaçado com a chegada de sua prima distante Abigail Hill, que começa como simples faxineira até cair nas graças da rainha, inclusive frequentando a cama real. O embate entre ela e a Duquesa de Marborough para ver quem é mais poderosa na corte faz o filme ficar ainda mais interessante. Ao contrário do que se vê nos filmes de época, onde a câmera é mais contemplativa, o diretor grego Lanthimos impõe um ritmo bastante ágil na tomada de cenas. Para dar amplitude e suntuosidade aos ambientes, ele utiliza lente-angular, produzindo um efeito dos mais interessantes. “A Favorita” estreou na programação oficial do 75º Festival Internacional de Cinema de Veneza, em agosto de 2018, e já conquistou dois prêmios: Melhor Atriz para Olivia Colman e Prêmio Especial do Júri. Eu já conhecia o trabalho do diretor Yorgos Lanthimos por filmes difíceis e sem nenhum apelo comercial, como “O Lagosta”, “O Sacrifício do Cervo Dourado” e “Dente Canino”. Ao dirigir “A Favorita”, ele tornou o filme mais acessível ao grande público, realizando um maravilhoso trabalho. Imperdível!

sábado, 9 de fevereiro de 2019


“ANOS DOURADOS” (“Nos Années Folles”), 2017, França, 1h43m, direção do veterano André Téchiné. Baseado em fatos reais, o filme é uma adaptação do livro “La Garçonne et L’Assassin: Histoire de Louise et Paul”, escrito pelos historiadores Fabrice Virgili e Danièle Voldman, que também colaboraram com o roteiro, juntamente com Téchiné e Cédric Anger. Ambientado entre os anos de 1914 e 1925, o filme conta a história incrível de Paul Grappe (Pierre Deladochamps), que desertou do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial. Antes do início do conflito, Paul casou com Louise (Céline Sallette), que trabalhava como costureira numa confecção. Paul foi convocado para lutar no front, mas depois de sofrer alguns ferimentos, resolveu desertar e se esconder, pois se fosse preso seria fuzilado. Ele então se escondeu no porão da casa da avó de Louise. Não suportando viver daquele jeito, ele resolve, com a ajuda da própria mulher, se vestir de mulher e sair noite afora. Nas madrugadas, ele começa a frequentar o bosque Bois, local onde mulheres e homens se encontravam para praticar as mais variadas formas de sexo, inclusive homem com homem. Até 1925, quando foi anistiado, Paul Grappe transou com homens e mulheres, com o consentimento de Louise. O relacionamento do casal entrou em crise quando Louise engravidou e teve um filho, culminando com uma grande tragédia. A história teve grande repercussão quando foi revelada através de uma peça de teatro, causando comoção em toda a França. Entre os vários motivos para assistir a esse excelente drama francês, destaco as primorosas performances do ator Pierre Deladochamps e da atriz Céline Sallette. Também vale pela incrível história, desconhecida totalmente por aqui - pelo menos por mim. O filme concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017 e fez parte da programação oficial do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em outubro de 2017.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019


“PERDOAI AS NOSSAS DÍVIDAS” (“RIMETRI A NOI I NOSTRI DEBITI”), Itália, 1h44m, produção da Netflix (lançamento aconteceu no dia 4 de maio de 2018), roteiro e direção de Antonio Morabito. Surpreendente drama cujo pano de fundo é a crise social-econômica que afeta a Itália. A figura central é o fracassado Guido (Claudio Santamaria), que à beira dos cinquenta anos é demitido da empresa de informática e também do armazém onde fazia uns bicos. Encalacrado em dívidas e pressionado pelos credores, ele propõe trabalhar de graça como cobrador para a empresa e assim pagar o que deve. Franco (Marco Giallini), um cobrador de dívidas profissional, fica encarregado de treinar Guido para a função. Com seu jeito truculento e sem escrúpulos, Franco utiliza métodos pouco católicos, como pressionar o devedor em lugares públicos ou diante da família. Guido é obrigado a seguir a cartilha do mentor, embora com a coração partido. Essa dualidade entre Guido e Franco é explorada o filme inteiro com muita competência, principalmente graças às ótimas atuações da dupla de atores. Embora o contexto seja bastante dramático, o filme reserva alguns bons momentos de humor e aqui quem arrasa é o ator Marco Giallini. Este foi o segundo longa-metragem escrito e dirigido por Morabito (o primeiro foi "Il Venditore di Medicine", de 2013). O filme é excelente e conta ainda com uma trilha sonora de primeira, incluindo desde obras do Século 18 do compositor Giovanni Báttista Pergolesi até Françoise Hardi. Cinema da melhor qualidade. Não perca!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019


“BOHEMIAN RHAPSODY”, 2018, EUA/Inglaterra, 2h13m, direção inicial de Bryan Singer (dirigiu dois terços do filme e acabou sendo demitido pouco antes do fim das filmagens), substituído por Dexter Fletcher. Indicado para disputar o Oscar 2019 em cinco categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator, “Bohemian Rhapsody” é uma cinebiografia de Freddie Mercury, vocalista e líder da banda de rock inglesa “Queen”. A história começa em 1970, quando Mercury ingressa na banda “Smile”. O novo vocalista sugere a mudança de nome para “Queen” e daí para a frente a banda vira um sucesso mundial. O filme conta a trajetória de Mercury e da “Queen” até 1985, quando a banda se apresenta no Estádio de Wembley, em Londres, durante o concerto mundial intitulado “Live Aid” em prol da África – segundo os críticos musicais, esta foi a melhor apresentação ao vivo da banda em muitos anos. O filme revela detalhes desconhecidos pelo público em geral – os fãs devem conhecer -, como, por exemplo, o fato de Mercury ser filho de paquistaneses e de que seu nome verdadeiro era Farrokh Bulsara. Antes de ingressar na banda, ele trabalhava como carregador de malas no aeroporto de Heathrow, em Londres. O filme também acompanha a vida particular de Mercury, seu romance e casamento com Mary Austin (Lucvy Boynton), além dos bastidores da banda, incluindo algumas desavenças entre os integrantes do grupo. Mas o melhor mesmo fica por conta de como algumas músicas de sucesso foram feitas, principalmente “Bohemian Rhapsody”. Além de fornecerem detalhes sobre a trajetória da banda, os músicos originais Brian May (guitarrista) e Roger Taylor (baterista) também participaram como produtores – Robert De Niro também foi um deles. Sucesso de bilheteria no mundo inteiro, o filme é um dos grandes favoritos a ganhar o Oscar. Eu votaria nele, com certeza, além de escolher Rami Malek, o intérprete de Freddie Mercury, como Melhor Ator. A cereja do bolo, porém, é a trilha sonora. Imperdível!  

domingo, 3 de fevereiro de 2019


Muitas vezes a gente desiste de ver um filme por causa da sua sinopse. Foi o que aconteceu comigo antes de assistir “LUA DE JÚPITER” (“JUPITER HOLDJA”), 2017, Hungria, 2h3m, roteiro e direção de Kornél Mundruczó ("Deus Branco"). Um resumo da sinopse que quase me fez desistir: um jovem imigrante sírio é assassinado com três tiros ao tentar cruzar a fronteira da Hungria, depois ressuscita e descobre que adquiriu o poder de levitar. Fala sério, você assistiria a um filme com essa apresentação? E ainda por cima feito na Hungria? Pois eu arrisquei e me dei muito bem, pois o filme é surpreendentemente ótimo. Quando ressuscita, Aryan Dahni (Zsombor Jéger) acorda num campo de refugiados e é medicado pelo dr. Gabor Stern (Marab Ninodze), que é surpreendido com uma levitação do jovem. Dr. Stern vê nisso uma oportunidade de ganhar dinheiro, pois precisa juntar um valor alto para pagar um processo de indenização por causa de um antigo erro médico. Ao perseguir o imigrante desaparecido, o policial Lászlo (György Cserhalmi), chefe da divisão de fronteiras, também acaba conhecendo o dom de levitar do garoto, cujo pai é acusado de praticar um atentato à bomba em Budapeste. Aryan acaba envolvido também como suspeito e vai depender do dr. Stern para escapar da polícia. Para escrever a história, o diretor Kornél Mundruczó se inspirou numa fábula que leu durante a infância. Nela, um homem tinha o poder de levitar. O filme é bastante interessante, muito bem feito e tem ótimas cenas de ação, uma delas uma empolgante perseguição de carros pelas ruas de Budapeste. O filme estreou e disputou a Palma de Ouro no 70º Festival de Cannes, em maio de 2017. Uma informação adicional sobre o título. Europa é uma das 67 luas de Júpiter, o que serviu de ideia ao diretor para fazer uma associação com a questão dos refugiados que ingressam naquele continente. Enfim, não digo que o filme é imperdível, mas, sem dúvida, muito interessante e criativo, tornando-o irresistível. 
      

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019


Representante da Turquia na disputa do Oscar/2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS” (“AHLAT AGACI”) leva a assinatura do cultuado – não por mim - roteirista e diretor Nuri Bilge Ceylan. A história: o jovem Sinan (Dogu Demirkol) termina a faculdade e retorna à sua vila natal, no interior da Turquia. Ao reencontrar sua família, vê que as coisas não andam bem. Idris (Murat Cencir), seu pai, um professor à beira da aposentadoria, é viciado em apostas de corridas de cavalo e está endividado, a ponto de não poder pagar nem a conta de energia da casa. Asuman (Bennu Yildirimlar), a mãe, trabalha como babá, não reage, sofre calada e vive apenas se lamentando, mas não admite que Sinan fale mal do pai. Em meio a esse clima melancólico e de rusgas familiares, Sinan, que sonha em ser escritor, enfrenta dificuldades em levantar um financiamento para editar seu primeiro livro, cujo título é o mesmo do filme. E assim vão passando as longas e entediantes 3h9m de filme, com longas cenas recheadas de diálogos onde se discute filosofia, literatura e religião – algumas dessas cenas demoram mais de 20 minutos. Eu já conhecia o estilo do diretor Nuri Bilge Ceylan, depois de assistir a dois de seus filmes mais conhecidos, “Era uma Vez na Anatolia” e “Sono de Inverno”. Ceylan teima em tornar seus filmes monótonos, verborrágicos demais. Quando foi exibido no Festival de Cannes em maio de 2018, onde concorreu à Palma de Ouro, parte da plateia de críticos deixou a sessão, provavelmente para não pegar no sono. Eu consegui assistir até o final, apesar de alguns cochilos. Resumo da ópera: o novo filme de Ceylan, assim como os anteriores, exige uma paciência hercúlea. Não é para espectadores iniciantes. Apesar dos pesares, o filme foi exibido por aqui durante a programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Duvido que chegue ao circuito comercial.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019


Nesses tenebrosos tempos de tantas notícias ruins, trágicas e estressantes, nada melhor do que se divertir assistindo a uma boa comédia. É o caso de “JOHNNY ENGLISH 3.0” (“JOHNNY ENGLISH STRIKES AGAIN”), 2018, Inglaterra, 1h29m, roteiro de William Davies e direção de Peter Howitt. Este é o terceiro filme da série que mostra as confusões do desastrado agente secreto britânico Johnny English, interpretado pelo ator Rowan Atkinson (o “Mr. Bean”). O primeiro foi “Johnny English”, de 2002, e o segundo “O Retorno de Johnny English, de 2011. Trata-se de uma sátira aos filmes de espiões famosos como James Bond, utilizando agentes atrapalhados e sem qualquer inteligência, como víamos na famosa série “A Pantera Cor de Rosa”, com Peter Sellers no papel do inspetor Jacques Clouseau. Em “Johnny English 3.0”, a missão do agente é descobrir o hacker que invadiu o bando de dados do governo inglês, revelando a identidade de todos os agentes secretos ingleses – só sobrou Johnny English, que estava aposentado. Além disso, o hacker prometia cometer atos terroristas não só na Inglaterra, como no mundo todo. English e seu inseparável assistente trapalhão Angus Bough (Ben Miller) serão responsáveis por grandes confusões durante a missão, como, por exemplo, incendiar um famoso restaurante de luxo e outras trapalhadas hilariantes. A comédia conta ainda com a participação da bela atriz russa Olga Kurylenko como uma espiã contratada pelo vilão e a inglesa Emma Thompson como a primeira-ministra. Claro que o filme é uma grande bobagem, mas diverte muito.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019


“UM PEQUENO FAVOR” (“A SIMPLE FAVOR”), EUA, 2018, direção de Paul Feig. Assina o roteiro Jessica Sharzer, que o escreveu inspirada no livro “A Simple Favor”, o primeiro romance escrito pela norte-americana Darcey Bell e que se transformou num grande best-seller, agora adaptado para o cinema. A história reúne duas mulheres com personalidades totalmente opostas. Stephanie (Anna Kendrick) é mãe solteira, dona de casa, vive solitária, um tanto carente e insegura, é baixinha e atrapalhada, sem nenhum atrativo físico capaz de atrair um olhar masculino. Por sua vez, Emily (Blake Lively) é segura de si, bonita, alta, muito charmosa e sensual, tem classe e um corpaço. Além disso, é relações-públicas numa grande empresa e ganha um dinheirão, como comprova a bela casa onde mora, as roupas e o carro. As duas se conhecem na porta da escola onde estudam os seus filhos e daí nasce uma forte amizade, a ponto de um dia Emily pedir “Um Pequeno Favor” a Stephanie. Buscar seu filho no colégio. Só que Emily sumiu misteriosamente, dando margem a muitas especulações. Será que ela foi assassinada ou fugiu com algum amante? O marido de Emily, Sean Townsend (Henry Goldine), torna-se o primeiro suspeito, ainda mais depois de arrastar as asas para cima de Stephanie, além de uma polpudo seguro de vida no meio. Até o desfecho, muitas reviravoltas acontecerão, esclarecendo todo o mistério do desaparecimento de Emily. Resumindo: trata-se de um misto de comédia e suspense, ou, como definiu um crítico, um “suspense tragicômico”. Paul Feig é, sem dúvida, perito em comédias, como já demonstrou em “Missão Madrinha de Casamento”, “As Bem-Armadas” e “A Espiã que Sabia de Menos”. Faço questão de destacar, em “Um Pequeno Favor”, a presença da loiraça Blake Lively, que, além de ótima atriz, é linda e muito sensual. Aos 31 anos, ela já pode ser considerada, na minha modesta opinião, como a nova diva de Hollywood. Se quiserem comprovar o que digo, assistam “Café Society”, “A Incrível História de Adaline”, “Águas Rasas” e “Por Trás dos Seus Olhos”. Ela arrasa em todos.  

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019


No transcorrer de “A FESTA” (“THE PARTY”), 2017, Inglaterra, 1h11m, fiquei com a certeza de que se tratava de uma adaptação de uma peça teatral. Afinal, a trama tem apenas sete personagens e o palco, aliás, o cenário, é um só, o interior de uma casa, além de muitos diálogos. A casa é de Janet (Kristen Scott Thomas) e de seu marido, Bill (Timothy Spall). A festa é em comemoração à escolha de Janet para o cargo de ministra da Saúde da Inglaterra. Um jantar para poucos amigos: Tom (Cillian Murphy), April (Patricia Clarkson), Gottfried (Bruno Ganz), Jinny (Emily Mortimer) e Martha (Cherry Jones). Enquanto rola a festa, algumas revelações bombásticas e surpreendentes são feitas, estragando o caráter comemorativo do evento e aniquilando de vez algumas amizades. Há muito humor negro, com diálogos corrosivos e muito inteligentes, envolvendo política, cultura, religião, sexo e até assuntos esotéricos. O filme foi escrito e dirigido por Sally Potter (“Ginger&Rosa”, “Por que Choram os Homens” e “Orlando, a Mulher Imortal”). Ao assistí-lo, pelo estilo, lembrei de dois filmes de Luis Buñuel, “O Anjo Exterminador” e “O Discreto Charme da Burguesia”. Não sei se foram eles que inspiraram a diretora Potter. Resumo da ópera: “A Festa” é ótimo, melhor ainda pelo sensacional elenco.  

terça-feira, 22 de janeiro de 2019


“TRÊS SEGUNDOS” (“Divizhenie Vverkh” no original, “Three Seconds” nos países de língua inglesa – eu mesmo traduzi o título para o português), 2017, Rússia, 2h13m, roteiro da dupla Nikolay Kulikov e Andrey Kureychik, e direção de Anton Megerdichev. O filme conta a história de uma das façanhas mais incríveis, espetaculares e surpreendentes do esporte mundial: a vitória do time masculino de basquete da Rússia sobre os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Munique (Alemanha), em 1972, numa parte das mais polêmicas. Ninguém ganhava dos norte-americanos desde as Olimpíadas de 1936. “Três Segundos” conta toda a história dessa grande conquista, começando em 1970, quando Vladimir Garanzhin (Vladimir Mashkov) assume como técnico da equipe, trocando quase todos os jogadores e introduzindo novos métodos de treinamento. Em sua apresentação, numa concorrida coletiva de imprensa, Garanzhin, que dirigia a equipe do Spartak, afirma que seu objetivo é vencer os norte-americanos nas Olimpíadas de Munique, dois anos depois. Sua declaração deixou as autoridades esportivas da Rússia revoltadas, pois ninguém acreditava que algum time ganharia dos EUA. O filme mostra os bastidores dessa trajetória, incluindo uma excursão aos Estados Unidos para jogos contra equipes universitárias. Garanzhin queria que seus atletas jogassem como os norte-americanos, o que seria, para ele, a única forma de vencê-los. O filme todo é emocionante, tem bom humor, cenas comoventes e um espetacular desfecho, com a reprodução da grande final. Inacreditável que um filme tão bom não tenha sido exibido por aqui no circuito comercial. Simplesmente imperdível!   

sábado, 19 de janeiro de 2019


Não é só Hollywood que sabe fazer disaster movies. Os noruegueses aprenderam a fazer bons filmes no gênero. Coitada de Oslo. Em 2015, no filme “A Onda”, a capital da Noruega quase foi destruída pelo violento tsunami de Geiranger. Três anos depois, Oslo seria atingida por um terremoto que novamente quase a destruiu. É a história de “O TERREMOTO” (“SKJELVET” no original e “The Quake” nos países de língua inglesa). Como no primeiro filme, o geólogo Kristian Eikjord (Kristoffer Joner) alerta as autoridades noruegueses sobre o provável desastre. E também como na primeira versão, Kristian viverá momentos de alta tensão para salvar sua esposa e sua filha. O ritmo é alucinante, graças ao ótimo roteiro elaborado por Harald Rosenløw Eeg e John Kare Raake, os mesmos de “A Onda” - só mudou o diretor, agora John Andreas Andersen. As cenas de perigo são espetaculares, principalmente aquelas em que os protagonistas ficam presos no alto de um edifício prestes a desmoronar. Os cenários são tão bem produzidos que a gente quase nem percebe que tudo foi feito com computação gráfica. Como informação histórica, o filme lembra o violento terremoto – este verdadeiro - que aconteceu em Oslo em 1904 e alerta sobre a possibilidade de outros a qualquer momento. Ou seja, visite Oslo antes que acabe. Exibido durante a programação oficial do Festival de Cannes, “O Terremoto” recebeu críticas bastante elogiosas, o que não é muito comum em se tratando desse gênero de filmes. Resumo da ópera: “O Terremoto” é um entretenimento da melhor qualidade.   

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


Selecionado para representar o Paraguai na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “AS HERDEIRAS” (“LAS HEREDERAS”) ganhou o aval dos críticos profissionais que o premiaram nos Festivais de Berlim, onde estreou, e em Gramado. Trata-se de um drama, cuja história é centrada em Chela (Ana Brun), mulher de meia-idade lésbica que vive com a companheira Chiquita (Margarita Irún) há muitos anos – no começo, pensei que eram irmãs (aliás, o filme não especifica claramente a relação, podendo gerar especulações). Ambas, como o filme dá a entender, pertenciam a famílias abastadas, mas agora são obrigadas a vender seus pertences para sobreviver. A casa onde vivem recebe muitas visitas de mulheres que se interessam em comprar jogos de copos de cristal, estátuas, mesas, toalhas, prataria etc. Chela é uma mulher de falar pouco, sempre com uma atitude passiva. Tanto que, quando chegam as pessoas para comprar suas coisas, quem negocia é a empregada Pati (Nilda González). Chela fica num canto da casa só observando. Chela só fica brava quando Pati não coloca de maneira correta copos, xícaras e remédios em sua bandeja do café da manhã. Depois que Chiquita é presa por sonegação fiscal, Chela se vê ainda mais sozinha e é justamente em Pati que ela vai buscar aconchego. Até que um dia, ao dar uma carona para uma vizinha rica, Pituca (María Martins, ótima), Chela aceita, meio constrangida, “uma caixinha”. Ela então passa a trabalhar como uma taxista amadora, levando pra lá e pra cá as amigas de Pituca. Nessas andanças ela conhece a fogosa Angy (Ana Ivanova), bem mais nova, e daí surge uma amizade bem próxima de uma paixão. Chela muda seu comportamento depois de conhecer Angy e culmina com um ato desesperado depois que sua companheira, depois que saiu da prisão, vende o carro sem o consentimento da parceira. O roteirista e diretor Marcelo Martinessi, em seu primeiro longa-metragem, conseguiu um belo registro intimista de um mundo exclusivo das mulheres de meia-idade, suas fragilidades, carências e frustrações. Sem dúvida, um filme bastante sensível, cinema de alta qualidade. E que atriz é Ana Brun!      

terça-feira, 15 de janeiro de 2019


“A ÚLTIMA FAMÍLIA” (“OSTATNIA RODZINA”), 2016, Polônia, 124 minutos, direção de Jan P. Matuszynsk – mais conhecido como diretor de curtas; este é o seu primeiro longa-metragem – e roteiro de Robert Bolesto. A história é baseada em fatos reais da vida do famoso pintor surrealista polonês Zdzislaw Beksinski e sua família, compreendendo o período de 1977 até 2005. Como quase todo artista, Beksinski tinha um parafuso a menos, imaginava criar um supercomputador para transformar a atriz norte-americana Alicia Silverstone numa mulher com poderes especiais. Além disso, passava os dias pintando, filmando tudo o que acontecia em seu apartamento e fotografando cenas de Varsóvia. Beksinski (Andrzej Seweryn) vivia com a mulher Zofia (Aleksandra Konieczna) e duas idosas, uma mãe dele e a outra mãe dela. O filho Tomasz (Dawed Ogrodnik), totalmente paranoico, desequilibrado e com tendências neuróticas, morava sozinho num edifício vizinho e trabalhava fazendo bicos como DJ e dublador de filmes. Uma das avós ficava na janela gritando que a Gestapo estava chegando. Enfim, uma família totalmente disfuncional, beirando a maluquice. Tudo parece caminhar para um final trágico, o que realmente acaba acontecendo – como na vida real da família Beksinski. O filme foi exibido na programação do Festival Internacional de Cinema de São Paulo de 2016 e ganhou o “Leão de Ouro” no Gdynia Film Festival (o Oscar polonês). Por sua atuação, Andrzej Seweryn ganhou o prêmio de “Melhor Ator” no Festival de Cinema de Locarno (Suíça). Resumo da ópera: o filme é muito bom e merece ser conferido.     

domingo, 13 de janeiro de 2019


“MEMÓRIAS DA DOR” (“LA DOULEUR”), 2017, França, 2h06m, escrito e dirigido por Emmanuel Finkiel. Selecionado para representar a França no Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, trata-se de um drama biográfico baseado nas memórias da escritora Marguerite Duras descritas no romance “La Douleur”. Marguerite Duras, vivida pela excelente atriz Mélanie Thierry, revive o episódio ocorrido em plena Segunda Guerra Mundial, quando seu marido, o também escritor Robert Antelme (Emmanuel Bourdieu) é preso pelos nazistas e enviado a um campo de concentração – tanto ele quanto Marguerite pertenciam à Resistência. Para descobrir o paradeiro do marido e saber se ainda está vivo ou morto, Marguerite forja uma amizade com o oficial da Gestapo Pierre Rabier (Benoît Magimel), admirador da então jovem escritora. A angustiante espera por notícias do marido, preso desde o início de 1944, quando a França ainda era ocupada pelos alemães, até 1945, depois do fim do conflito, é relatada por Marguerite num contexto de sofrimento e desesperança. O filme é excelente, graças à história em si, à primorosa ambientação de época e, principalmente, à magistral atuação de Mélanie Thierry, uma das melhores atrizes francesas da nova geração. Um detalhe interessante é a semelhança cada mais evidente entre o também excelente ator Benoît Magimel e o veterano Gerard Depardieu, incluindo a volumosa pança. Exibido por aqui na programação oficial do 20º Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em novembro de 2018, “Memórias da Dor” é um filmaço, cinema da melhor qualidade.


“OH LUCY!”, 2017, Japão/EUA, 1h35m, primeiro longa-metragem escrito e dirigido pela cineasta japonesa Atsuko Hirayanagi, mais conhecida como diretora de curtas. “Oh Lucy”, aliás, é uma adaptação de um curta dirigido pela própria Atsuko em 2014. Trata-se de um misto de comédia e drama. A primeira parte é uma ótima comédia, com alguns momentos até tocantes. A segunda parte da história parte para uma situação dramática, com um suspense que lembra o clássico “Atração Fatal”. Setsuko Kawashima (Shimobu Terajima) é uma mulher solitária que trabalha num escritório cuja rotina é das mais maçantes. Anônima na multidão – como dá a entender a cena inicial, com os japoneses vestindo máscaras contra a poluição de Tóquio -, Setsuko é o retrato da solidão e da infelicidade. Até que um dia resolve ingressar numa aula de inglês. O professor é John (o galã norte-americano Josh Hartnett), que adota métodos não muito convencionais para ensinar inglês. Uma das estratégias para aproximar professor e alunos é dar um longo abraço. Algum tempo depois, John sai de Tóquio e volta para Los Angeles, só que acompanhado da namorada Mika (Shioli Kutsuna), justamente a sobrinha de Setsuko, filha de sua irmã Ayako (Kaho Minami). Com o objetivo de saber como Mika está vivendo em outro país, Setsuko convence a irmã a viajar para Los Angeles. Aqui, Setsuko deixará claro quais são as suas verdadeiras intenções. O filme é todo da ótima atriz Shinobu Terajima, que arrasa no papel da mulher carente e tímida que se transforma numa espécie de ninfomaníaca apaixonada. “Oh Lucy!” estreou na programação oficial da Semaine de La Critique do Festival de Cannes 2017, recebendo entusiasmados elogios. Recomendo!