quarta-feira, 17 de outubro de 2018


“O PROFESSOR DO CAMPO” (“VENKOVSKÝ UCITEL”) – A tradução do título em português é minha, baseada no título original vertido para o inglês “The Country Teacher”. Tive a sorte de desencavar esse excelente drama de 2008 produzido na República Checa, escrito e dirigido por Bohdan Sláma. A história é centrada no jovem Petr Dolezal (Pavel Liska), um professor de Ciências Naturais que sai da Praga para lecionar numa escola pública da zona rural. Seu jeito não engana: ele é homossexual. Mas segura a barra, ou seja, fica dentro do armário para não prejudicar sua reputação. Só que ele acaba conhecendo a viúva Marie (Zuzana Bydzovská), com quem faz uma forte amizade. A porta do armário começa a se abrir quando Petr se apaixona pelo filho de Marie, o adolescente Chlapec (Ladslav Sedivy). O pano de fundo homossexual é tratado com muita sensibilidade pelo diretor Sláma, que soube dosar o drama vivido pelo professor com momentos bastante comoventes. O ator Pavel Liska e a atriz Zuzana Bydzovská – principalmente ele – dão um show de interpretação. Enfim, o filme é ótimo, cinema da melhor qualidade.  

terça-feira, 16 de outubro de 2018


“A FUGA” (“THE ESCAPE”), 2017, Inglaterra, roteiro e direção de Dominic Savage (mais conhecido como roteirista e diretor de séries da TV inglesa). A história: Tara (Gemma Arterton) é uma mulher que entrou na casa dos trinta e começa a rever os seus valores. Ela é casada com Mark (Dominic Cooper), tem dois filhos pequenos e mora numa bela casa num bairro de classe média alta. Ou seja, leva uma vida confortável. Mas sua rotina como dona de casa não é fácil: acordar e vestir as crianças, preparar o café da manhã, levar os filhos para o colégio e ainda escolher e fazer o nó na gravata do marido. É dose, sem contar o fato de que Mark acorda sempre disposto a fazer sexo, mesmo que ela não esteja a fim. Essa árdua rotina acaba provocando um surto depressivo em Tara, que expõe sua insegurança, infelicidade e total incapacidade de ser um exemplo de dona de casa. Ela não aguenta mais e um dia resolve “explodir”. Ou seja, pega um trem para Paris, passagem só de ida, e fica perambulando pela capital parisiense para meditar. O que fazer com sua vida dali em diante? Quando retorna a Londres, faz uma visita à sua mãe Anna (Marthe Keller) em busca de um conselho. Tara quer liberdade. Sua mãe define bem a situação: “Casamento e liberdade não combinam”. Simples assim. Será que Tará voltará para a sua família? Assista ao filme para saber a resposta. É um drama pesado, bem ao gosto do talento dramático da atriz inglesa Gemma Arterton, que está ótima no papel. Seu coadjuvante, Dominic Cooper, é um excelente ator, como já comprovou principalmente no excelente e pouco divulgado “O Dublê do Diabo”, de 2011, quando faz o papel de sósia do sádico Uday Hussein, filho de Saddam. O talento desses dois atores vale o ingresso. O filme estreou no Toronto International Film 2017, recebendo rasgados elogios. Prefiro indicá-lo como uma opção alternativa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018


“ESTADOS UNIDOS PELO AMOR” (“ZJEDNOCZONE STANY MILOSCI”), 2016, Polônia, roteiro e direção do jovem diretor Tomasz Wasilewski – o filme ganhou o Urso de Prata como “Melhor Roteiro” no 66º Festival Internacional de Cinema de Berlim. A história é ambientada no início dos anos 90 em Varsóvia, quando as mudanças políticas – queda do Muro de Berlim e o fim do Comunismo – apontavam para a recuperação da liberdade e da economia do país. Os poloneses, porém, tinham suas dúvidas quanto ao futuro e viviam, digamos assim, uma crise de valores. O filme acompanha a trajetória de quatro mulheres frustradas, infelizes e neuróticas. Uma jovem mãe com o casamento em crise que se envolve com um homem casado; uma diretora de escola apaixonada pelo pai de um de seus alunos, que recentemente ficou viúvo; uma velha professora obcecada por sua jovem vizinha; e uma mulher que vive uma crise no casamento e tem fixação por um padre. A carência de cada uma delas também envolve a falta de sexo – todas elas, em algum momento, aparecem nuas, assim como alguns de seus parceiros. Os nús, principalmente, masculinos, beiram o grotesco. O quarteto de mulheres é formado por excelentes atrizes: Julia Kijowska (Agata), Dorota Kolac (Renata), Marta Nieradkiewicz (Marzena) e Magdalena Cielecka (Iza). A câmera do diretor está sempre em movimento, o que dá uma dinâmica especial a cada cena. A câmera também capta a intimidade dos personagens, parecendo transformar o espectador numa espécie de voyeur. Resumo da ópera: é um filme bastante interessante, com grande força dramática, retratando uma sociedade à beira de mudanças radicais. O pano de fundo é justamente a situação vivida pela Polônia naquela época. Quem quiser conferir in loco, o filme fará parte da programação especial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, prevista para ao final de outubro/2018.  

domingo, 14 de outubro de 2018


“O DIA TROUXE A ESCURIDÃO” (“El Día Trajo la Oscuridad”), 2013, Argentina, direção de Martín De Salvo, com roteiro de Josefina Trotta. Trata-se de um terror psicológico ambientado numa região rural da Argentina, que de repente é atingida por uma doença misteriosa, um tipo de vírus da raiva. Virgínia (Mora Recalde) mora com seu pai, que é médico e atende às famílias da comunidade. Virgínia vive solitária na casa de fazenda, pois o pai sai toda hora para consultas. Um certo dia ela recebe uma inesperada visita, de sua prima Anabel (Romina Paula, de “Medianeras”), uma jovem misteriosa que parece não estar nada bem de saúde. Anabel sai noite afora e volta de manhã toda suja. Claro que tem coisa ruim por aí. O filme tenta segurar a tensão até o desfecho, quando a terrível verdade é revelada. Mas o ritmo é lento demais, não acontece nada durante um tempão e a única novidade é o lance lésbico entre as primas. Segundo o diretor De Salvo, a história foi inspirada no conto “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu, escritor irlandês de histórias de terror do Século 19, além de receber forte influência dos contos de terror de Edgar Allan Poe, principalmente no que ser refere aos nomes das personagens. O material de divulgação afirma que o filme foi aclamado nos festivais de Berlim e Roterdã. Sei não!  

sábado, 13 de outubro de 2018


“VIDAS À DERIVA” (“Adrift”), 2018, EUA, direção de Baltasar Kormákur, com roteiro de Aaron Kandell, Jordan Kandell e David Branson Smith. A história é baseada em fatos reais ocorridos em 1983 e centrada na paixão fulminante de dois jovens aventureiros: Tami Oldhan (Shailene Woodley, da Série “Divergente”) e Richard Sharp (o ator britânico Sam Caiflin, de “Como Eu Era Antes de Você” e “Jogos Vorazes”). Tami e Richard se conheceram no Taiti, ilha da Polinésia Francesa, se apaixonaram e um dia resolveram navegar pelo mundo afora a bordo do barco “Hazanã”. Como não eram velejadores muito experientes, contavam com mares calmos. Ledo engano, pois logo se viram diante de um furacão, um tal de “Raymond”, cuja força virou o barco e deixou os dois largados à própria sorte, sofrendo da falta de água, alimentos, medicamentos, sol escaldante, sem comunicação etc. Enfim, fortes candidatos a morrer no mar. O filme inteiro, portanto, acompanha os 41 dias em que os jovens passaram à deriva tentando sobreviver de qualquer jeito. O roteiro, porém, amenizou a tragédia iminente privilegiando também a história de amor entre Tami e Richard, com muito vaivém entre o passado e o presente, visando provocar lágrimas na plateia, ou seja, apostar no romantismo para não deixar o filme tão pesado. Méritos para os roteiristas e para o diretor islandês Kormákur, que tem em seu currículo um excelente filme de sobrevivência no mar: “Sobrevivente”, de 2012.  Kormákur já havia trabalhado em Hollywood, onde dirigiu dois filmes de ação com o ator Mark Wahlberg, “Dose Dupla” e “Contrabando”, abrindo caminho para "Vidas à Deriva".      

quinta-feira, 11 de outubro de 2018


Se você acha que já viu tudo no cinema, prepare-se para ter uma surpresa: um faroeste sul-africano. Estou falando de “CINCO DEDOS POR MARSELHA” (“Five Fingers for Marseilles”), 2018, escrito e dirigido por Michael Matthews. O filme é todo falado em sesoto (língua oficial da África do Sul e do Lesoto) e ambientado numa comunidade pobre chamada “Trilho", na periferia da cidade de Marselha, nos cafundós da África do Sul. Conta a história de um grupo de amigos que na adolescência resolveu intitular-se “Cinco Dedos”, tipo aquela velha história “Um por todos, todos por um”. Quando ainda eram bem jovens, enfrentam a opressão policial matando um agente da lei. O responsável foi Tau, que fugiu da cidade para não ser preso. Os outros quatro amigos ficaram e cresceram com a cidade. Vinte anos depois, Tau (Vuyo Dabula) retorna e percebe que nada mudou. Pior, além da polícia corrupta, a população ainda tem de sofrer nas mãos de malfeitores sanguinários. Tau e uns poucos corajosos, incluindo um gringo e um chinês, resolvem “limpar” Marselha, salvando a população dos bandidos. A história é muito parecida com filmes que já vimos no cinema, como os faroestes “spaghettis” de Sérgio Leone, nas décadas de 60 e 70, quando o mocinho chega à cidade e vira herói depois de eliminar as gangues de criminosos. Tem até a silhueta de um cavalo no fim da tarde, assinatura visual de dezenas de faroestes. Apesar da boa intenção, este western peca pelo amadorismo da produção. As cenas de ação, tiros etc., por exemplo, são de uma infantilidade atroz, muito malfeitas. Além disso, já viram um faroeste onde só aparece um cavalo em cena? Dá para sentir muita saudade dos filmes do Clint Eastwood, John Wayne, Giuliano Gemma...    
 


“AQUI EM CASA TUDO BEM” (“A CASA TUTTI BENE”), 2018, Itália, escrito e dirigido por Gabriele Muccino. Uma grande família chega de balsa à ilha de Ísquia, no golfo de Nápoles, para as comemorações das Bodas de Ouro dos patriarcas Pietro (Ivano Marescotti) e Alba (Stefania Sandrelli). Estão lá seus filhos, seus genros e noras, primos, crianças, uma ex-nora, tem aquele primo que não toma jeito na vida e vive pedindo dinheiro emprestado, primos que revivem um amor do passado etc. No começo, tudo é alegria, abraços, beijos e muita cantoria para relembrar os velhos tempos. No fim do dia, na hora de voltarem para o continente, uma tempestade impede que a balsa chegue à ilha. Ou seja, ficam todos literalmente “ilhados”. Não é só o tempo que muda. O clima fica ruim nos relacionamentos e aí chega a hora de lavar a roupa suja. E nenhum cinema consegue explorar com tanta graça os “barracos” familiares como o italiano. O elenco é ótimo: além da antiga diva Stefania Sandrelli e Marescotti, atuam Sandra Milo, Stefano Accorsi, Pierfrancesco Favino, Carolina Crescentini, Claudia Gerini e Elena Cucci. O diretor Gabrielle Muccino já transitou por Hollywood, onde filmou “Sete Vidas” e “À Procura da Felicidade”, ambos com Will Smith. “Aqui em Casa Tudo Bem” é, até agora, o maior sucesso de bilheteria na Itália em 2018. Além do elenco e dos diálogos ácidos e bem-humorados, o filme tem uma fotografia maravilhosa, principalmente ao retratar a Natureza que cerca a ilha paradisíaca de Ísquia. Sem dúvida, uma ótima comédia, ao estilo dos mestres Dino Risi e Mario Monicelli.  
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018


“A SOMBRA DA VERDADE” (“BACKSTABBING FOR BEGINNERS”), 2017, EUA/Dinamarca/Canadá, roteiro e direção do dinamarquês Per Fly Plejdrup. Trata-se de um ótimo thriller político que relembra um dos fatos mais escabrosos da diplomacia mundial, envolvendo num esquema de corrupção gente importante das Nações Unidos e dirigentes de países do Oriente Médio. Tudo baseado em fatos reais, relatados no livro “Backstabbing for Beginners: My Crash Course in International Diplomacy”, escrito pelo jornalista dinamarquês Michael Soussan. A história começa em 2002 e é centrada no jovem diplomata Michael Sullivan (Theo James, da série “Divergente”), que cai nas graças de um chefão da ONU, Pasha (Ben Kingsley). Numa missão muito complicada para sua inexperiência, Michael é colocado na coordenação do Programa “Petróleo por Comida” (“Oil for Food”), um projeto da ONU para alimentar as populações mais carentes do Oriente Médio. Para iniciar sua tarefa, Michael é enviado em missão para o Iraque e lá conhece a tradutora Nashim (Belçim Bilgin), que esconde sua condição de cidadã curda. Enfim, Michael vai conhecer bem de perto a podridão do jogo diplomático e, com a coragem de um jovem idealista, tentará denunciá-la. O filme é muito bom, tem suspense e tensão do começo ao fim, mas o que vale mesmo é a história que ele conta.
 

terça-feira, 9 de outubro de 2018


Nunca fui muito fã de filmes sobre discos voadores, alienígenas e outras ficções, mas “UFO”, 2018, EUA, me prendeu desde o início. Sabe aquele filme que você começa a ver e fica curioso sobre o que vai acontecer? Começa assim: dezenas de pessoas que estavam esperando seus vôos no aeroporto de Cincinnati (Ohio) são surpreendidas pela aparição de um UFO (um OVNI para nós, ou seja, Objeto Voador Não Identificado). O porta-voz do aeroporto dá uma entrevista coletiva afirmando que tudo não passou de um engano, que a nave misteriosa não passava de um jato Gulfstream, desmentindo os depoimentos de várias testemunhas. Para dar maior veracidade à sua versão, o diretor do aeroporto ainda cita vários números, como coordenadas, tempo de vôo etc. Derek (Alex Sharp), um jovem e brilhante universitário, um pequeno gênio da matemática e da física, investiga os números oficiais transmitidos pela direção do aeroporto e chega à conclusão de que o que realmente ocorreu foi a aparição de um UFO. Com a ajuda da sua professora de matemática avançada Dra. Hendricks (Gillian Anderson, de “Arquivo X”), o rapaz contesta publicamente a versão oficial e, com isso, chama a atenção do FBI, que também investiga o caso com uma equipe comandada pelo agente especial Franklin Ahls (David Strathairn). Muitos diálogos são incompreensíveis para nós, os leigos, com números de coordenadas espaciais, fluxos de ondas magnéticas, dados científicos etc. Em algumas cenas, parece que você está assistindo a um filme grego sem legendas. Não dá para entender bulhufas! Mesmo assim, o filme prende a atenção até o seu final. “UFO” foi o quarta longa-metragem escrito e dirigido por Ryan Eslinger. Um bom trabalho, sem dúvida.          
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018


Da fonte inesgotável de histórias ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial surge “O BANQUEIRO DA RESISTÊNCIA” (“Bankier Van het Verzet”), Holanda, 2018, produção Netflix, com direção de Joram Lürsen e roteiro de Marieke Van der Pol, Mattijs Bocketing e Thomas Van der Ree. Trata-se de mais uma história de coragem e heroísmo. Com a invasão da Holanda pelos nazistas, a partir de 1940, dois irmãos banqueiros de Amsterdam, Walraven e Gijjs Van Hall resolveram ajudar financeiramente a resistência holandesa. Para isso, elaboraram um complexo esquema que incluiu a criação de um bando clandestino, a emissão de promissórias falsas e títulos do governo. Tudo muito arriscado. De 1940 a 1945, praticamente durante toda a ocupação alemã, os irmãos van Hall conseguiram movimentar – em números de hoje - uma quantia equivalente a meio bilhão de euros. O filme é repleto de suspense, com momentos de alta tensão e um desfecho a quilômetros de distância de um happy end. Destaco também a sensacional recriação de época, principalmente os figurinos, valorizando uma superprodução histórica. Aliás, como a produção é da Netflix, o filme certamente não será exibido nos circuitos comerciais. O negócio é acompanhar a programação televisiva da produtora. De qualquer forma, é um filmaço, simplesmente imperdível!
 
 

domingo, 7 de outubro de 2018



“O TERCEIRO ASSASSINATO” (“SANDOME NO SATISUJIN”), 2017, Japão, roteiro e direção de Kirokazu Kore-eda. Trata-se de um drama jurídico centrado no julgamento de Misumi (Koji Yakusho), que matou seu chefe a golpes de chave inglesa num terreno abandonado à beira de um rio, queimou o corpo e fugiu, mas logo foi capturado. Acreditando estar agindo para se livrar da pena de morte, ele confessa o crime e vai para a cadeia aguardar o julgamento. O conceituado advogado Tomoaki Shigemori (Masaharu Fukuyama) aceita a missão de defendê-lo e mobiliza toda a sua equipe para descobrir tudo sobre a vida pregressa do réu. Shigemori fica sabendo, por exemplo, que seu próprio pai, juiz na época, foi quem condenou Misumi a cumprir uma longa pena depois de considerado culpado por outro crime. Ao realizar as entrevistas com familiares do réu e da vítima, amigos e prováveis testemunhas, Shigemori percebe que está no meio de verdades desconexas e declarações contraditórias. Misumi, inclusive, toda hora muda a versão do crime. Afinal, o que está acontecendo? O grande trunfo desse ótimo filme de tribunal são os diálogos entre advogado e seus entrevistados, verdadeiros embates psicológicos que fortalecem ainda mais uma trama bem urdida por um roteiro de muita qualidade. Sem dúvida, mais uma obra instigante, provocadora e fascinante deste Kore-eda, que é considerado o melhor roteirista e diretor japonês em atividade, responsável por filmes como “Depois da Vida”, “Ninguém pode Saber”, “Seguindo em Frente e “Pais e Filhos", este último vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes 2013. Assisti a quase todos e passei a admirar o grande diretor japonês. “O Terceiro Assassinato” é mais um excelente trabalho de Kore-Eda. Imperdível!


 
 

sábado, 6 de outubro de 2018



“A CÂMERA DE CLAIRE” (“Keul-Le-Eo-Ui-Ka-Me-La”), Coreia do Sul, 2017, do roteirista e diretor queridinho dos críticos profissionais, Hong Sang-Soo. Mais um exemplar típico do gênero cinema de arte. Dentro de seu estilo intimista, de poucos personagens e muitos diálogos, sua marca inconfundível em 12 anos de carreira, Sang-Soo ambienta a história em Cannes durante os dias do festival de cinema, embora não apareça nenhuma imagem do tapete vermelho nem a paparicação em torno dos grandes astros. A professora Claire (Isabelle Huppert, em seu segundo filme com o diretor sul-coreano; o primeiro foi “A Visitante Francesa”, de 2012), caminha por Cannes tirando fotos de pessoas e de paisagens com sua câmera Polaroid. Numa dessas andanças ela conhece Jeon Manhee (Kim Minhee), uma sul-coreana que veio com uma equipe de cinema participar do festival. Em poucas horas de conversa – em inglês -, as duas mulheres fazem confidências, contam suas histórias e acabam fazendo amizade. Claire segue seu caminho e faz contato com outro sul-coreano, o diretor So Wansoo (Jin-Yeong Jeong), coincidentemente da mesma equipe de Manhee. A presença de um quarto personagem, Nam Yaghye (Jang Mi Hee), esposa de Wansoo, será fundamental para esclarecer alguns fatos narrados pela jovem Manhee.  Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes 2017, “A Câmera de Claire” ganhou rasgados elogios, confirmando a fama de Hong Sang-Soo.   

quarta-feira, 3 de outubro de 2018


O terror “HEREDITÁRIO” (“HEREDITARY”), EUA, 2018, é o filme de estreia do roteirista e diretor Ari Oster. A história começa com a morte da matriarca da família Graham, uma velha dedicada ao culto a Paimon, um dos reis do inferno. Como todas as integrantes da família, Anne Graham (Toni Collette), filha da velha, sofre de distúrbio psicológico. Ela é casada com Steve (Gabriel Byrne) e tem dois filhos, Charlie (Milly Shapiro), e o adolescente Perer (Alex Wolff). A maldição da velha vai atingir toda a família de Anne. Como a história é meio sem pé nem cabeça – aliás, muita gente perde a cabeça durante o filme -, e você espera uma explicação plausível para o desfecho, o que não acontece. A cena final é bastante constrangedora. Calma, não deixe de assistir por minha causa, pois a crítica especializada adorou. Teve até um crítico que afirmou: “Este é o filme mais aterrorizante de 2018”. Diante de tudo isso, não custa experimentar.                                                                                                   
 
 

terça-feira, 2 de outubro de 2018


“DESOBEDIÊNCIA” (“DISOBEDIENCE”), EUA, 2017, roteiro e direção do chileno Sebastián Lelio. Trata-se de um drama centrado na amizade de duas mulheres que voltam a se encontrar e acabam revivendo o romance que tiveram na juventude. A fotógrafa Ronit Krushka (Rachel Weisz) está radicada há muitos anos em Nova Iorque, onde é uma profissional respeitada. É uma mulher liberada, solitária. Um dia ela recebe a notícia de que seu pai, um rabino importante, acaba de morrer em Londres. Ao chegar à capital inglesa para o funeral, ela é recebida com muita frieza pelos judeus ortodoxos que vivem na comunidade judaica no bairro de Hendon. Tratada como ovelha negra da família, Ronit só é bem recebida pelo seu primo David Kuperman (Alessandro Nivola) e ainda mais pela esposa dele, Esti (Rachel McAdams).  Logo fica claro que as duas tiveram um caso na juventude e mesmo depois de tantos anos decidem retomar o romance. As cenas de sexo entre as duas são bastante tórridas, mas dirigidas com sensibilidade por Lelio. Tanto David, eleito o novo rabino, como a comunidade de judeus ficam sabendo do caso, mas as mulheres aguentam firme. Este é o primeiro filme em língua inglesa dirigido por Sebastián Lelio, que tem em seu currículo ótimos filmes como “Gloria”, de 2013, e “Uma Mulher Fantástica”, que ganhou o Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. Para realizar “Desobediêcia”, o diretor chileno adaptou o livro "Disobedience”, escrito pela romancista inglesa Naomi Alderman. Enfim, um filmaço imperdível, com destaque para o desempenho dessas duas grandes atrizes, com jeito de Oscar 2019, principalmente para Rachel McAdams.  Alessandro Nivola também está muito bem e talvez mereça uma indicação.                                                                                                     
 

domingo, 30 de setembro de 2018


“O QUE DE VERDADE IMPORTA” (“The Healer”), 2017, EUA, um misto de drama, fantasia, comédia romântica e religião. Trata-se do primeiro filme cuja arrecadação de bilheteria pelo mundo inteiro está sendo destinada a entidades que cuidam de crianças com câncer. O diretor mexicano Paco Arango preside uma delas, a Aladina. Ele esteve aqui no Brasil, no dia 27 de setembro, para divulgar o filme. Vamos à história: Alec Bailey (o candidato a galã Oliver Jackson-Cohen) mora em Londres, ganha uns cobres consertando eletrodomésticos e vive encalacrado em dívidas de jogo. Deve uma grana preta até para uns mafiosos russos. Quando se vê quase sem saída para a situação, surge um tio distante, Raymond Heacock (Jonathan Pryce), com uma proposta irrecusável, ou seja, pagará todas as suas dívidas, mas em troca Alec terá de se mudar para a Nova Escócia (Canadá) e lá morar durante um ano. Claro que Alec acaba topando a empreitada e, ao chegar por lá, descobre que tem o dom da cura. Ele conhece uma moça que se diz lésbica, Cecilia (Camilla Luddington), e vai fazer amizade com uma jovem que tem câncer terminal, a bonitinha Abigail (Kaitlyn Bernard). Entre cenas bem-humoradas e outras até comoventes, o filme é ideal para reunir a família numa sessão da tarde sem compromisso. Dá pra ver numa boa.                                                                                                    

sexta-feira, 28 de setembro de 2018


“A GUERRA DOS SEXOS” (“Battle of the Sexes”), 2017, EUA, baseado em fatos reais, relembra um acontecimento esportivo que repercutiu em todo o mundo. Em 1973, a tenista Billie Jean King, então ocupando a primeira colocação no ranking mundial, reclamou publicamente que as tenistas profissionais ganhavam muito menos do que os seus correspondentes masculinos. Billie referia-se, principalmente, aos prêmios destinados aos tenistas vencedores de torneios oficiais.  Com um grupo de outras tenistas de primeira linha, ela rompe com a Associação de Tenistas dos Estados Unidos e decide organizar um torneio próprio. Aproveitando a situação, o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell), mesmo aos 55 anos, decide desafiar qualquer tenista profissional mulher, gabando-se de que os homens são muito mais poderosos. O desafio transforma-se num grande evento chamado “A Batalha dos Sexos”. Riggs enfrenta primeiro a tenista Margaret Court, na época uma das melhores do mundo, e a vence com grande facilidade. Depois da vitória, Riggs, com seu jeito fanfarrão e exibicionista, dá declarações humilhando as tenistas, vangloriando-se de ser um tenista aposentado e com 55 anos. E que nenhuma mulher poderia vencê-lo. Billie Jean King resolve encarar esse desafio e enfrentar Riggs. O filme é dedicado aos bastidores de todos esses eventos, principalmente o que rolou antes da partida entre Riggs e Billie. Há também espaço para revelar o romance ardente entre Billie e sua cabeleleira Marilyn Barnett, sendo que a tenista era casada com Larry King, seu treinador. Aliás, as cenas de sexo entre Billie (Emma Stone, de “La La Land”) e Marilyn (a inglesa Andrea Riseborough) são bastante ardentes. Ainda estão no elenco Austin Stowell, Bill Pullman, Elizabeth Shue, Sarah Silverman e Alan Cumming. O roteiro foi escrito por Simon Beaufoy e o filme dirigido por Jonathan Dalton e Valerie Faris, os mesmos do ótimo “Pequena Miss Sunshine”, de 2006. O filme tem uma levada de comédia e é bem agradável de assistir.                                                                                                  
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018


“1945”, Hungria, 2017, direção de Ferenc Törok, que também escreveu o roteiro juntamente com Gábor T. Szántó. A história é inspirada no conto “Hazatérés”, escrito pelo próprio Szántó. Em agosto de 1945, enquanto os moradores de um vilarejo no interior da Hungria preparam-se para o casamento do filho do prefeito (na verdade, 1º secretário, já que foi nomeado pelos comunistas russos), dois judeus ortodoxos – pai e filho – chegam à estação de trem com dois grandes baús. A notícia da chegada daqueles visitantes misteriosos logo chega ao ao pessoal do vilarejo e vai tumultuar de vez os preparativos do casamento. Todo mundo fica desesperado, pois acreditam que os judeus retornaram para recuperar seus imóveis e pertences - no início da Segunda Guerra Mundial, em alguns países da Europa, muitos judeus foram denunciados e levados pelos nazistas para os campos de concentração, e seus bens acabaram sendo tomados pelos cidadãos locais. No vilarejo, o clima de tensão aumenta cada vez mais, culminando com vários eventos trágicos. O desfecho reserva para o espectador uma grande surpresa, na verdade muito comovente. Embora com elogios, os críticos especializados reagiram com uma certa frieza à primeira exibição do filme no 67º Festival de Berlim, mas eu não. Adorei, achei sensacional, uma pequena obra-prima. Irresistível e simplesmente imperdível!                                                                                              
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018


“GAUGUIN – VIAGEM AO TAITI” (“Gauguin – Voyage de Tahiti”), 2017, França, roteiro e direção de Edouard Deluc (seu segundo longa-metragem). Trata-se de um drama biográfico centrado na vida do pintor francês Paul Gauguin, que ficou famoso com seu estilo pós-impressionista, mas só depois de morrer como indigente, em 1903. O filme de Deluc é ambientado em 1891, quando Gauguin sai de Paris para morar no Taiti, uma das mais importantes ilhas da então Polinésia Francesa. Na capital francesa, o pintor vivia um momento de falta de inspiração, não ligava para a família e passava as noites bebendo nos cabarés. Num desses momentos de boemia, Gauguin fala para um amigo: “Estou sufocando. Não há paisagem nem rosto que mereça ser pintado aqui”. Ao tomar a decisão de viajar para o Taiti, Gauguin tenta convencer a esposa e os filhos a irem com ele, sem sucesso. Ele então parte sozinho. No Taiti, ele conhece a jovem nativa Tehura, que será sua esposa e tema de suas telas mais importantes. Na realidade, Tehura tinha 13 anos quando casou com o pintor, mas no filme ela aparece adulta. Para sobreviver, Gauguin trabalha como estivador, o que irá piorar ainda mais sua frágil saúde. Gauguin, como todo artista, tinha um gênio difícil, era violento, egocêntrico e, ao mesmo tempo, amargurado. O ritmo lento da narrativa não prejudica a história, principalmente pelo excelente desempenho do ator francês Vincent Cassel e da atriz Tuheï Adams, além de uma fotografia exuberante explorando as cores e a natureza selvagem do Taiti, onde as filmagens aconteceram. Enfim, um filme que deve agradar não apenas os fãs de Gauguin, mas os amantes da pintura em geral. Por aqui, antes de chegar ao circuito comercial, o filme foi exibido como uma das principais atrações do Festival Varilux de Cinema Francês 2018.                                                                                    
 

domingo, 23 de setembro de 2018


O drama holandês “LAYLA M.”, 2016, escrito e dirigido pela diretora holandesa Mijke de Jong, é um dos filmes mais esclarecedores sobre o pensamento, o comportamento e os ideais que norteiam os jovens a se engajar numa organização terrorista. A jovem Layla nasceu e vive em Amsterdam com a família de imigrantes marroquinos. Ela é uma garota radical invocada, gosta de bater boca e desafiar qualquer ordem, inclusive na sua família. Ela é radical no que diz respeito à religião muçulmana, seguindo os preceitos do Alcorão à risca. Ao participar de uma campanha pela Internet incentivando as mulheres muçulmanas a continuar usando a burca - proibida na Holanda -, ela desperta a atenção de grupos extremistas, incluindo o jovem jihadista Abdel (Ilias Addab), com o qual se casará. Para acompanhar o marido numa missão na Jordânia, Layla abandona a família e resolve também ingressar numa célula islâmica terrorista. Na Jordânia, porém, ela sofrerá na pele o tratamento machista que é dedicado a toda mulher casada com um muçulmano. Em todo caso, ela resolve encarar a situação e passa a ajudar uma equipe humanitária num campo de refugiados da Síria. O filme é muito bom, tanto que foi selecionado pela Holanda como seu representante oficial na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. Além disso, participou da seleção oficial de festivais como o de Toronto, Chicago e Londres, sendo vencedor do Prêmio Especial do Júri no Filadélfia Film Festival.                                                                               

quarta-feira, 19 de setembro de 2018


Ou Keanu Reeves estava precisando de grana ou então é amigo dos produtores ou do diretor do filme. Não dá para entender como o astro norte-americano concordou em participar – ainda mais como personagem principal – de um filme tão ruim como “SIBERIA”, de 2018, roteiro e direção de um tal de Matthew Ross. O filme é horrível do começo ao fim, o roteiro é confuso demais e a história é ridícula, não dá para entender bulhufas. E, para culminar, a produção é toda de filme B, ou seja, pobre, de segunda classe. Reeves interpreta Lucas Hill, um comerciante de diamantes azuis valiosos que marca um encontro com o sócio Piotr (Boris Gulyarin) na Rússia para negociar a venda de 12 peças ao mafioso Boris Volkov (Pasha D. Lychnikoff). O sócio Piotr acaba sumindo e, seguindo uma pista, Hill vai tentar encontrá-lo em Mirny, na região leste da Sibéria. Aqui ele conhece Katya (a atriz romena feiosa e dentuça Ana Ularu) e, numa grande forçada de barra do roteiro, os dois acabam se apaixonando. Hill, inclusive, acaba tomando uma surra dos irmãos da moça. Nada a ver com a história dos diamantes. Tudo é muito ridículo e indecifrável, culminando com um desfecho dos mais deploráveis. Grande favorito ao Troféu Framboesa, prêmio aos piores filmes do ano. Uma bomba atômica. Fuja a galope!                                                                                

terça-feira, 18 de setembro de 2018


“PIRATAS DA SOMÁLIA” (“THE PIRATES OF SOMÁLIA”), 2017, EUA, conta uma história incrível baseada em fatos reais. Em 2008, o jovem norte-americano Jay Bahadur (Evan Peters) resolveu que seria um jornalista famoso, mesmo sem nenhuma experiência nem faculdade. Quando ele encontra por acaso o jornalista aposentado Seymour Tobin (Al Pacino), conhecido pelas coberturas internacionais nas zonas de conflito em países em guerra, Bahadur chega à conclusão de que para ele não bastaria ser um simples repórter do jornal da cidade. Ele queria muito mais, talvez viajar para um país onde nenhum outro jornalista teria coragem de ir. Naquele ano, 2008, o assunto que estava em evidência eram os ataques de piratas da Somália contra navios cargueiros. E não é que Bahadur vai para a Somália na tentativa de fazer uma reportagem justamente com os piratas? Uma aventura e tanto, como você poderá comprovar assistindo a este ótimo filme de ação e suspense. A direção é de Bryan Buckley, também autor do roteiro, adaptado do livro “The Pirates of Somalia”, escrito pelo próprio Jay Bahadur. Este foi o segundo longa-metragem escrito e dirigido por Buckley. O primeiro foi "Medalha de Bronze", de 2015. Uma curiosidade é a participação do ator somaliano Barkhad Abdi como Abdi, encarregado de traduzir as entrevistas de Bahadur. Ele havia participado do ótimo “Capitão Phillips”, de 2013, com Tom Hanks, cuja história também envolve piratas somalianos. Nesse filme, Barkhad Abid – que é a cara do Ronaldinho Gaúcho, inclusive a dentuça - fazia papel de um pirata bastante violento. O filme tem também a participação especial e efêmera da atriz Melanie Griffith, meio sumida ultimamente. “Piratas da Somália” é um ótimo entretenimento, valorizado pelo fato de contar uma história verídica.                                                                                         
 

domingo, 16 de setembro de 2018


“TIRE-ME UMA DÚVIDA” (“OTEZ-MOI D’UN DOUTE”), coprodução França/Bélgica de 2017, com roteiro e direção de Carine Tardieu. O título em português foi traduzido por mim. Se o filme chegar até nós – se chegar -, não sei que tradução darão. Trata-se de uma comédia romântica centrada no cinquentão Erwan Goumelon (o ator belga François Damiens, do ótimo “Os Cowboys”), cuja profissão é das mais interessantes e arriscadas. Contratado por uma empresa de construção da Bretanha, ele é especialista em desmontar e detonar minas terrestres, mísseis, granadas, torpedos e outras bombas remanescentes da Segunda Guerra Mundial. Depois que sua filha Juliette (Alice de Lencquesaing) engravida e não quer entregar quem é o pai, Erwan vai com ela para fazer exame de DNA. Durante o procedimento, ele descobre que Bastien Goumelon (Guy Marchand) não é seu pai biológico. Ele contrata um detetive para tentar descobrir quem é seu pai verdadeiro e acaba encontrando, num vilarejo a 20 quilômetros de onde mora, o simpático Joseph Levkine (André Wilms), que tem uma bela filha, a veterinária Anna (Cécile de France, de “O Garoto de Bicicleta), pela qual Erwan se apaixona. Só que ela pode ser sua meia-irmã. E aí, o que fazer? A confusão está formada, com muitos momentos de bom humor, tornando este filme um entretenimento dos melhores.