"A
VELHA GUARDA" (na Netflix, você encontrará como "THE OLD GUARD"), 2020, Estados Unidos,
2h5m, direção de Gina Prince-Bythewood. A história é baseada na HQ com o mesmo
título escrita por Greg Rucka e ilustrada por Leandro Fernández. O autor do
roteiro do filme é o próprio Rucka. A história é bem maluca. Reúne quatro
soldados imortais que percorrem o mundo fazendo o bem. Isso desde a época das
Cruzadas, passando por guerras, calamidades e outros fatos históricos importantes
da humanidade. Andy (Charlize Theron), a mais antiga, é a chefe do grupo que está junto há
séculos, do qual fazem parte ainda Sebastian Brooke (Matthias Schoenaerts), Joe
(Marwan Kenzari) e Nicky (Luca Marinelli). O filme começa nos dias atuais, quando
os quatro guerreiros, agora mercenários, recebem a missão de resgatar
crianças sequestradas no Sudão. Eles descobrem que é uma armadilha, planejada
justamente por aquele que os contratou, o ex-agente da CIA James Copley
(Chiwetel Ejiofor). Logo depois, uma grande surpresa chega ao conhecimento do
grupo. Eles descobrem que Nile Freeman (Kiki Layne), uma soldada do exército
norte-americano em missão no Afeganistão também é uma imortal. Andy vai até lá
para recrutá-la. E assim, agora com cinco integrantes, o grupo tentará
descobrir o que está por trás das intenções de Copley e chegam ao cientista Steven
Merrick (Harry Melling), proprietário de um famoso laboratório farmacêutico.
Quem não se importar com história tão fantasiosa pode curtir “The Old Guard”,
pelo menos com suas boas sequências de ação, sem contar com a presença de Charlise
Theron, a diva maior do cinema atual. Uma constatação interessante diz respeito
ao elenco, uma verdadeira ONU: Charlize é sul-africana; Luca Marinelli é
italiano; Schoenaertes é belga: Kenzari holandês; Kiki Layne é norte-americana;
Harry Melling inglês, assim como Ejiofor; e ainda Ngô Thanh Vân, vietnamita e
AnaMaria Marinca uma atriz romena. Voltando ao filme, trata-se, enfim, de uma
grande bobagem, mas dá para curtir sem compromisso com os neurônios, não ofende
nossa inteligência e combina perfeitamente com uma vasilha de pipoca.
sexta-feira, 21 de maio de 2021
quinta-feira, 20 de maio de 2021
FÉ DE
ETARRAS (FE DE ETARRAS), 2017, Espanha, 1h29m, produção original Netflix, direção
de Borja Cobeaga, que também assina o roteiro com a colaboração de Diego San
José. Trata-se de uma sátira com humor mordaz - e inteligente - envolvendo
militantes do ETA (Euskadi Ta Askatasuna, em basco; em português, Patria Basca
e Liberdade), principal organização do Movimento de Libertação Nacional Basco.
Depois de uma tentativa frustrada de um atentado terrorista anos antes, Martín
(Javier Cámara) agora é encarregado de treinar uma equipe e aguardar a ordem de
seus superiores para concretizar uma ação. Estamos em 2010, e toda a história transcorre
durante os jogos da Copa do Mundo de Futebol na África do Sul. Em um
apartamento alugado, Martín aguarda a chegada dos outros três militantes:
Pernando (Julián López), Álex (Gorka Otxoa) e Ainara (Miren Ibarguren). Enquanto
esperam a ordem, os quatro terão a oportunidade de discutir vários assuntos,
quase todos relacionados à luta do ETA, a situação política mundial e,
acreditem, receitas da culinária espanhola, isso tudo acompanhando pela TV os
jogos da copa do mundo, torcendo contra a Espanha – que no final seria a campeã.
Tentando viver discretamente no “esconderijo”, os quatro etarras (como são
chamados os militantes do ETA) abrirão a guarda para uma vizinha que lhes
oferece comida, um outro vizinho que quer fazer amizade e ainda um casal de
árabes. As situações vividas pelos quatro militantes trapalhões dão margem a sequências
hilariantes, além dos diálogos afiados. “Fé de Etarras” é aquele tipo de filme
que andava escondido na Netflix e que a gente tem o enorme prazer de descobrir.
Diversão garantida.
terça-feira, 18 de maio de 2021
A MULHER
NA JANELA (THE WOMAN IN THE WINDOW), 2020, Estados Unidos, 1h40m, direção de Joe
Wright, que também assina o roteiro com a colaboração de Tracy Letts. Recentemente integrado à plataforma Netflix, trata-se
de um suspense psicológico inspirado no livro “The Woman in the Window”, de A.
J. Finn – pseudônimo do romancista Dan Mallory. A história é toda centrada na
psicóloga infantil Anna Fox (Amy Adams), que depois de uma tragédia familiar se
enclausura dentro de casa, sofrendo de depressão e agorafobia (medo de lugares
públicos). Até as sessões com seu terapeuta, dr. Landy (Tracy Latts), acontecem
em sua casa. À base de remédios, Anna passa os dias e as noites na janela,
observando atentamente o que se passa na rua e na vizinhança – impossível não
comparar com “Janela Indiscreta” (1954), clássico de Alfred Hitchcock. Aí
acontece uma grande novidade: um casal, com um filho adolescente, muda para a
casa bem em frente. Gente nova para Anna observar. Certo dia ela recebe a
visita de uma mulher que se diz chamar Jane (Julianne Moore), a nova vizinha da
casa da frente. De uma forma ou de outra, ela acaba interagindo com o restante
da família, primeiro com Ethan (Fred Hechinger) e depois com o pai dele, Alistair
Russell (Gary Oldman). Mas o pior estava por vir. Com o zoom de sua maquina fotográfica,
Anna testemunha o assassinato de Jane dentro da casa, sendo que o assassino
está fora do enquadramento, sendo impossível identificá-lo. Anna chama a
polícia e aí começa a investigação sobre o crime. A conclusão inicial é de que
Anna estava tendo alucinações por causa dos remédios, mas uma reviravolta acontece
perto do final explicando tudo o que aconteceu. Claro que pelo excelente
elenco, que inclui ainda uma irreconhecível Jennifer Jason Leigh, a gente
poderia esperar um filme muito melhor, ainda mais que o diretor Joe Wright
apresenta no currículo bons filmes como “Anna Karenina”, “Desejo e Reparação”,
“Hanna” e o “Destino de Uma Nação”, entre outros. A crítica especializada
detonou “A Mulher na Janela”, principalmente o seu roteiro, o qual consideraram
fraco e confuso, mesma opinião da pesquisa realizada pelo exigente site Rotten
Tomatoes, cuja aprovação ao filme só chegou aos 24%. Não achei tão ruim assim.
E até recomendo, pois garante um bom entretenimento.
segunda-feira, 17 de maio de 2021
OTHER
PEOPLE
(título original como está na Netflix), 2016, Estados Unidos, 1h37m, roteiro e
direção de Chris Kelly. Ao estrear no Festival de Cinema de Sundance (EUA), em
2016, o filme arrancou elogios entusiasmados da crítica especializada, sendo
indicado ao Grande Prêmio do Júri. Trata-se de um exemplo clássico do gênero
comédia dramática, caracterizado por motivar risos e lágrimas. É justamente o
que este filme independente oferece com grande competência. É o primeiro longa-metragem
escrito e dirigido por Chris Kelly, mais conhecido como roteirista do programa
humorístico “Saturday Night Live”. Vamos à história de “Other People”, criada a
partir da própria experiência de vida do diretor Kelly. O jovem escritor gay
David Mulcahey (Jesse Plemons) resolve sair de Nova Iorque para voltar a morar
com a família em Sacramento (Califórnia). Por uma razão muito especial: sua mãe Joanne
(Molly Shannon) está sofrendo de um câncer terminal e tem poucos meses de vida.
Outro fator que contribuiu para a mudança foi o término do namoro com Paul (Zach
Woods), com quem morava na Big Apple. Junto com o pai conservador, que jamais
aceitou a sua opção sexual, e suas irmãs mais novas, David acompanhará o
sofrimento da mãe, fazendo com que seus últimos dias sejam recheados de alegria
e carinho. Como escrevi no início, o filme é muito triste, mas tem seus
momentos de humor. Humor sutil e inteligente, aliás. Os diálogos são muito bem
elaborados, constituindo-se em um dos trunfos desse ótimo drama. Em um deles, o
personagem de David diz a um amigo uma frase que motivou o título do filme: “A
gente vê isso tudo acontecer com outras pessoas”. É preciso destacar também a
atuação maravilhosa da veterana atriz Molly Shannon, que domina todas as cenas
em que aparece, além da interpretação primorosa do ator Jesse Plemons. Ainda
integram o elenco Maude Aptow, Bradley Whitford e Madisen Beaty. Um filme de
muita qualidade que deve ser conferido.
sábado, 15 de maio de 2021
O
MISTERIOSO CASO DE JUDITH WINSTED (THE ATTICUS INSTITUTE), 2015, Estados Unidos,
1h32m, disponível na plataforma Netflix, roteiro e direção de Chris Sparling.
Terror bastante assustador, não indicado para estômagos fracos, repleto de
sustos e eventos sobrenaturais. Melhor ainda, baseado em fatos reais e filmado
como se fosse um documentário, o que tornou o filme ainda mais realista e
aterrorizante. O ano é 1976. Estamos no Atticus Institute, um laboratório psicológico criado para estudar fenômenos paranormais, tipo telepatia, telecinesia (dom de
movimentar objetos) etc. O instituto realmente existiu. O diretor é o dr. Henry West (William Mapother). Começa o filme com a chegada ao Atticus de
Judith Winstead (Rya Kihistedt), uma mulher que, segundo a própria irmã que a levou, estava
apresentando um comportamento muito estranho, parecendo estar possuída por
alguma entidade maligna. Prato cheio para os pesquisadores. Os testes começaram
e logo irão comprovar que Judith tem mesmo poderes sobrenaturais que assustarão
toda a equipe do Dr. West. O caso chega ao conhecimento do governo norte-americano,
que chega à conclusão de que os poderes da moça ameaçam a segurança nacional.
Isto porque ela demonstrou a capacidade de invadir a mente de outras pessoas. Dessa
forma, através do FBI, o governo assume a administração do instituto e o
comando dos testes com Judith. O filme é recheado de depoimentos dos supostos
participantes dos testes e familiares de Judith, todos atores, mas incrivelmente
verossímeis. Segundo o material de divulgação do filme, este foi o único caso de possessão reconhecido pelo governo
norte-americano. Dentro do gênero terror sobrenatural, trata-se de um filme que
se destaca justamente por sua estética documental e por utilizar atores de verdade. Mas, repito, não
recomendável para espectadores mais sensíveis.
sexta-feira, 14 de maio de 2021
BAD
DAY FOR THE CUT,
2017, Irlanda do Norte, 1h39m, direção de Chris Baugh, que também assina o
roteiro com a colaboração de Brendan Mullin. Reproduzo o título original como
está na plataforma Netflix. Tentei traduzir e cheguei a algo parecido com “Dia Ruim para o Corte”.
Trata-se de um suspense policial centrado em Donal (Nigel O’Neill), um pacato
fazendeiro de meia idade. Solteiro, ele vive uma rotina solitária com a mãe Florence
(Stella McCusker), que o mima como se ele fosse adolescente. Uma noite, sem ter
o que fazer, Donal vai para o celeiro trabalhar na recuperação de um veículo
que acabara de adquirir. De repente, ele escuta um grito vindo da casa e vê um
homem de terno entrando em um carro e fugindo em seguida. Quando Donal entra na
casa, sua mãe está morta, assassinada com sinais de tortura. Não foram ladrões,
já que nada foi roubado. Então, por que teriam matado sua mãe? Logo depois, ele
também seria alvo de dois assassinos. Donal mata um e interroga o outro,
conseguindo pistas sobre o que está acontecendo. Ele segue para a capital
Belfast, onde descobrirá, por exemplo, um evento obscuro do passado de sua mãe,
o que teria desencadeado uma vingança. Na busca pelos assassinos de sua mãe,
Donal acabará se envolvendo com uma quadrilha que sequestra jovens do leste
europeu e as obriga a trabalhar como prostitutas. Muita violência vai rolar até
o desfecho, quando o fazendeiro estará frente a frente com a responsável por
tudo, Frankie Pierce (Susan Lynch), uma psicopata que chefia a gangue. O filme
estreou no Festival do Cinema Independente de Sundance (EUA) de 2018 e foi muito
elogiado pela crítica especializada. Realmente, um bom filme que merece ser
conferido.
quarta-feira, 12 de maio de 2021
MONSTRO
(MONSTER), 2018,
EUA, 1h38m, primeiro filme escrito e dirigido por Anthony Mandler, mais
conhecido como diretor de videoclipes e curtas. Trata-se de um drama jurídico
baseado no livro “Monster”, de 1999, de Walter Dean Mears. A história é
centrada no jovem Steve Horman (Kelvin Harrison Jr.), de 17 anos, que mora com a
família no Harlem (Nova Iorque). Ele é um bom filho, ótimo aluno e tem o sonho
de ser cineasta no futuro. Suas amizades, porém, não são nada boas, pois
incluem alguns delinquentes juvenis e membros de gangues. E o pior aconteceu.
Ele foi acusado de participar de um assalto a um mercado que terminou com o
assassinato do proprietário. Ele e dois “amigos” foram presos e terão que ser
submetidos a júri popular, podendo ser condenados a muitos anos de prisão. Katherine
O’Brien (Jennifer Ehle) é sua defensora e terá a difícil missão de inocentá-lo,
embora haja fortes evidências de que ele seja cúmplice no crime. A expectativa está
criada. Qual será o resultado final do julgamento? Ainda estão no elenco
Jeffrey Wright, Jennifer Hudson, John David Washington e Rakim Mayers. Do
início até o fim, o próprio personagem do jovem participa da narrativa em off,
tentando explicar os fatos que motivaram suas atitudes. O estreante diretor
Anthony Mandler adotou uma estética muito interessante para contar a história. Ao
invés de apresentar uma narrativa linear, Mandler optou por cenas fragmentadas
e sobrepostas, um vai e vem incessante de imagens, além de alguns flashbacks.
Isso tudo sem jamais prejudicar o entendimento por parte do espectador. Este
talvez seja o maior trunfo desse ótimo filme independente norte-americano.
Recomendo.
terça-feira, 11 de maio de 2021
“VOZES E VULTOS” (“THINGS HEARD AND SEEN”), 2012, Estados Unidos, 2h01m, roteiro e direção do casal de cineastas Shari Springer Berman e Robert Pulcini, que adaptaram a história do romance “All Things Cease to Appear”, escrito por Elizabeth Brundage. O filme já começa com um clichê dos mais conhecidos no gênero terror: família chega com a mudança para uma casa mal-assombrada. Ao longo da história, objetos adquirem vida, eletroeletrônicos e brinquedos começam a funcionar sozinhos etc. Até uma sessão espírita acontece, durante a qual se manifestarão os fantasmas dos antigos moradores da casa. As pessoas que participam da experiência são admiradores da obra e pensamento do filósofo e espiritualista sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772), muito admirado pela turma que gosta de estudar o “outro lado”. George Claire (James Norton), sua esposa Catherine (Amanda Seyfried) e a filha saem de Nova Iorque para morar numa cidadezinha no Vale do Hudson. Ele foi contratado para dar aulas de história da arte em uma universidade. A esposa, que trabalhava com restauração de obras de arte, fica em casa sozinha e começa a se incomodar com a situação. Enquanto isso, o marido joga seu charme para as alunas e começa a pular a cerca. Mas Catherine ganhará uma aliada para enfrentar sua solidão e encarar as traições de George: o fantasma de uma ex-moradora da casa. Mais do que um filme de terror, “Vozes e Vultos” também é um drama familiar, dando destaque à crise conjugal do casal, mostrando as brigas que logo se transformarão em agressões físicas. George mostrará então uma segunda personalidade, muito diferente do professor simpático e de pai dedicado. O elenco conta ainda com Natalia Dyer, Alex Neustaedter, F. Murray Abraham, Karen Allen (a mocinha dos filmes de Indiana Jones), Michael O’Keefe, James Urbaniak, Emily Dorsch e Rhea Seehorn. Acompanhei com grande interesse o transcorrer da história com a expectativa de um desfecho consagrador, o que não aconteceu. Em todo caso, é um filme que pode agradar aos fãs do gênero terror/suspense psicológico e do sobrenatural. Uma boa opção para quem gosta de roer as unhas.
segunda-feira, 10 de maio de 2021
“TUDO POR ELA” (“RIDE OR DIE”), 2020, Japão, 2h22m, disponível na Netflix desde 15 de abril de 2021, roteiro e direção de Ryuichi Hiroki. Na criação do roteiro, Hiroki se inspirou na série de mangá “Gunjo”, escrita e ilustrada por Ching Nakamura. Trata-se de um drama centrado em duas amigas lésbicas, Rei Nagasawa (Kiko Mizuhara) e Nanae Shinoda (Honami Satô). Elas se conhecem na adolescência, numa aula de artes, e se apaixonam – essa fase é apresentada em flashbacks durante a narrativa. Mas logo depois as duas se afastam e voltam a se reencontrar apenas dez anos depois. Rei agora mora com uma nova namorada e Nanae está casada com um homem rico, mas violento, acostumado a espancá-la com violência. Em nome da velha amizade e do amor que as unia, Rei mata o marido da amiga e as duas fogem sem destino – fica evidente a menção ao clássico “Thelma & Louise”, de Ridley Scott, grande sucesso de 1991 (com a diferença de que as personagens de Genna Davis e Susan Sarandon não eram lésbicas). Daqui para a frente, o filme japonês ingressa na fase do road movie e também do tédio. O filme se arrasta, num ritmo lento e angustiante, com muita conversa jogada fora, diálogos na base da psicologia barata, sem qualquer resquício de inteligência. As duas moças choram e gargalham o tempo inteiro, demonstrando uma demência histérica. Haja paciência para chegar até o final das mais de duas horas de projeção. Nudez frontal e sexo quase explícito também fazem parte da receita apelativa de “Tudo por Ela”. Há, porém, dois fatos que merecem destaque. Primeiro, a beleza da atriz Rei Nagasawa, que também é modelo de sucesso. Segundo, as imagens de Tóquio, primorosamente fotografadas, principalmente nas cenas noturnas. Trocando em miúdos, o resultado final não favorece uma recomendação entusiasmada.
sábado, 8 de maio de 2021
“ASSASSINATO ÀS CEGAS” (“ANDHADHUN”), 2018, Índia, 2h30m, disponível na Netflix, roteiro e direção de Sriram Raghavan. Um dos mais interessantes e criativos filmes realizados por Bollywood nos últimos anos. Trata-se de um misto de comédia/suspense/drama, com pitadas de musical – não aquelas cantorias irritantes, mas músicas cujas letras fazem referência à história. Por falar em história, vamos a ela. O personagem principal é o pianista deficiente visual Akash (Ayushmann Khurrana). Quando ele conhece por acaso a jovem Sophie (Radhika Apte), sua vida mudará completamente. A começar pelo convite do tio da moça para tocar em seu restaurante, um dos mais chiques da cidade de Pune. O tio é Promod Sinha (Anil Dhawan), um antigo astro de Bollywood, casado com uma mulher bem mais jovem, a bela e sensual Simi (a atriz Tabu, nome artístico de Tabassum Fatima Hashmi). Para homenagear a esposa no dia do aniversário de casamento, Promod contrata o pianista cego para uma apresentação surpresa no apartamento do casal. Só que a surpresa será ainda maior quando há um corpo estendido no chão da sala, vítima de assassinato recentemente cometido, e um homem pelado no banheiro. Olha a confusão. Como já dá para presumir, o filme é cheio de surpresas, reviravoltas e situações que fogem ao controle dos personagens, num ritmo frenético do começo ao fim. Isso tudo acontece graças ao primoroso e criativo roteiro, bem construído e desenvolvido, repleto de humor e sequências hilariantes. Achei melhor não me estender no comentário para não estragar as inúmeras surpresas e reviravoltas. Além do ótimo elenco, o grande trunfo do filme é justamente o roteiro, adaptado do curta-metragem francês “L’Accordeur, de 2010. Não deve ter sido fácil transformar uma história de 10 minutos em um roteiro de 2 horas e meia. O filme é tão bom que arrastou milhões de espectadores para os cinemas não só da Índia como da China, transformando-se no grande sucesso de bilheteria nos dois países em 2018. Tenho acompanhado o cinema de Bollywood há muitos anos e este talvez seja o filme mais ocidental já produzido na Índia. “Assassinato às Cegas” é diversão garantida. Simplesmente imperdível!
quinta-feira, 6 de maio de 2021
Representante
oficial de Taiwan na disputa do Oscar 2021 de Melhor Filme Internacional (eu
preferia quando era “Estrangeiro”), “A SUN” (“YANGGUANG PUZHAO”) é uma
pequena joia meio escondida na plataforma Netflix. Com 2h36m, dirigido por
Chung Mong-Hong, que também assina o roteiro com a colaboração de Yansheng
Chang, o filme tem encantado a crítica especializada mundo afora, sendo considerado por alguns até mesmo melhor do que o sul-coreano “Parasita” (grande vencedor do Oscar
2020) e do que o japonês “Assunto de Família”. Como estes dois últimos, “A Sun”
também é um drama familiar. Vamos à história. O instrutor de autoescola A-Wen
(Chen Yi-Wen) e a cabeleireira Chin (Samantha Shu-Chin Ko) criaram seus dois
filhos homens com muito sacrifício. O mais velho, A-Hao (Xu Guang-Whan), sempre
foi o queridinho, aluno exemplar e muito educado, agora estudando para o
vestibular de medicina. A-Ho (Wu Chien-Ho), o mais novo, sempre foi um
adolescente problemático. Envolvido com uma turma de delinquentes, ele acaba
preso depois de participar de um roubo e de uma agressão violenta. Durante o
julgamento, o próprio pai pede ao juiz que lhe aplique uma pena dura. Dessa
forma, A-Ho terá de cumprir um ano e meio de prisão em um reformatório juvenil.
Todas as esperanças da família, então, voltam-se para A-Hao. Mas um trágico
acontecimento envolvendo o rapaz desestruturará de vez a família. Mas o drama
familiar não ficará só por aí. Uma menina de 15 anos aparece dizendo estar grávida
do jovem preso. A-Wen e a esposa Chin terão de administrar tudo isso e muito
mais, pois depois que A-Ho sai da cadeia, volta a se envolver em problemas. As
tragédias da família parecem não ter fim, e não terão mesmo, pois ainda haverá
uma reviravolta ainda mais infeliz no desfecho. O trabalho do elenco é
sensacional, difícil destacar uma atuação específica. O roteiro e a fotografia
também merecem um destaque especial. O filme estreou no Festival Internacional
de Cinema de Toronto, depois foi exibido no Festival Internacional de Cinema de
Tóquio e ainda foi o grande vencedor do Golden Horse Film Awards (o Oscar taiwanês),
ao final do qual conquistou cinco estatuetas, inclusive a de Melhor Filme. Se o
cinema de Taiwan já era respeitado no mundo inteiro pela produção de filmes
como os consagrados “Comer Beber Viver”, “O Banquete de Casamento” e “O Tigre e
o Dragão”, entre outros, “A Sun” chega para colocar a cereja por cima do bolo.
Simplesmente um filme arrebatador, poderoso e, ao mesmo tempo, cativante. Sem
dúvida, um dos melhores deste século. Cinema da melhor qualidade. IMPERDÍVEL
com letras maiúsculas.
terça-feira, 4 de maio de 2021
“CLINICAL”, 2017, Estados Unidos,
1h44, disponível na plataforma Netflix, direção de Alistair Legrand, que também
assina o roteiro com a colaboração de Aaron Stanford. Trata-se de um suspense
envolvendo a psiquiatra Jane Mathis (Vinessa Shaw). Assombrada por um trauma do
passado, quando viveu uma tragédia com sua jovem paciente Nora Green (India
Eisley), Jane participa de sessões com um terapeuta, o qual recomendou que ela não
atendesse mais pessoas com transtorno do estresse pós-traumático. Mesmo com a
terapia e remédios, a psiquiatra não consegue se livrar desse antigo trauma. É
comum ela ter visões sobre o que aconteceu e ainda sonhar com a jovem. Apesar
do conselho dado pelo seu terapeuta, ela concorda em tratar de Alex (Kevin Rahm),
um homem que teve o rosto desfigurado num acidente de automóvel, o que
acarretaria graves consequências em pouco tempo. As alucinações de Jane foram piorando
dia após dia e será assim até o desfecho, quando haverá uma reviravolta na
história. Ainda estão no elenco Aaron Stanford (o roteirista), William Atherton, Nestor Serrano, Wilmer Calderon e Sidney Tamiia Poitier (filha do grande Sidney Poitier). Trocando em miúdos, “Clinical” é o tipo de filme que, de tão ruim, ou você odeia ou
você detesta. Fica fácil perceber que várias sequências foram introduzidas no
roteiro para enrolar a história - bem fraca por sinal - e estender a duração do filme. Talvez por ser
apenas o segundo longa-metragem dirigido por Legrand, faltou conteúdo e um
pouco mais de ação e suspense para sustentar a história até o desfecho. Nem
mesmo a atuação da bela Vinessa Shaw consegue atenuar esse desastre. Um filme
para esquecer.
segunda-feira, 3 de maio de 2021
“UM INVERNO EM NOVA YORK” (“THE KINDNESS OF STRANGERS”), 2019, coprodução Estados Unidos/Dinamarca/Canadá/França/Suécia/Alemanha/Inglaterra, 1h55m, roteiro e direção de Lone Scherfig. Tem explicação tantos países envolvidos. A diretora e o ator Esben Smed são dinamarqueses, a atriz Andrea Riseborough e Bill Nighy são ingleses, Tahar Rahim é francês, Zoe Kazan norte-americana, além de outros integrantes do elenco e da equipe técnica. Trata-se de um drama muito triste, centrado em uma jovem mãe que, com dois filhos, sai do subúrbio fugindo do marido violento, que por sinal é policial. Com exceção do carro, não têm dinheiro para se alimentar nem lugar para dormir. Passam as noites em albergues para moradores de rua. Finalmente são acolhidos por um gerente de restaurante russo. Em outro segmento da história, uma enfermeira solitária é voluntária em abrigos para pessoas carentes e ainda coordena um grupo de apoio intitulado “Núcleo do Perdão”, cujo objetivo é promover o perdão e praticar a bondade. A história transcorre em vários subtramas e os personagens, de uma forma ou de outra, se encontrarão durante a narrativa para compartilhar seus dramas e ajudarem uns aos outros. O contexto dramático dá margem a que a história destaque também as pessoas que se sacrificam para praticar a bondade, a solidariedade e a empatia. “Um Inverno em Nova York” estreou na noite de abertura do 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim e não entusiasmou a crítica nem o público, mas é um filme que passa uma mensagem necessária aos tempos atuais de tanto sofrimento.
domingo, 2 de maio de 2021
“MUCIZE”,
2015, Turquia, 2h16m, roteiro e direção de Mahsun Kirmizigül, que também atua
no filme. Ao lado dos recentes “Milagre na Cela 7” e “Filhos de Istambul”, este
drama é mais um daqueles que faz a plateia se derramar em lágrimas. Os três,
disponíveis na plataforma Netflix, foram grande sucesso de bilheteria,
confirmando o gosto do público por histórias sensíveis. E, melhor ainda, foram
considerados bons filmes pela crítica especializada. No caso específico de “Mucize”
(quer dizer “milagre” em português), a história é baseada em fatos reais ocorridos
na década de 60. O professor Muallim Mahir (Talat Bolut) é transferido para
uma escola de um vilarejo situado nas montanhas. Sua esposa se recusa a acompanhá-lo
e Mahir vai sozinho. O lugar é tão remoto que ele é obrigado a descer do ônibus
e caminhar durante horas até chegar ao seu destino. Na chegada, uma grande
surpresa. O vilarejo não tem uma escola. Mas Mahir não desiste e decide, com
dinheiro próprio, construir uma. Para isso, conta com a mão de obra dos
próprios aldeões e de bandidos das montanhas, que se unem em um mutirão para
concretizar a obra. Com seu jeito bonachão e de uma bondade imensa, Mahir conquistou o coração dos habitantes, principalmente
depois que resolveu adotar como aluno o deficiente físico Azis (Mert Turak). O
filme é repleto de momentos comoventes e de outros muito engraçados. Além
disso, apresenta alguns rituais muito interessantes da cultura e tradição
daquele povo, como, por exemplo, a escolha da noiva para os homens da aldeia,
inclusive uma para Azis. Apesar do ambiente de pobreza, o filme passa uma
mensagem de esperança e otimismo. Enfim, “Mucize” é um filme que diverte e emociona.
Imperdível!
sábado, 1 de maio de 2021
“INCERTA
GLÓRIA” (“INCERTA GLÒRIA”), 2017, Espanha, 1h56m, disponível na Netflix, roteiro e
direção de Agustí Villaronga. A história desse drama espanhol é ambientada em
1937 e tem como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola (1936/1939). Em um pequeno vilarejo situado
na Catalunha, o jovem tenente Lluis (Marcel Borrás) assume o comando de um batalhão
dos republicanos, apoiados por regimes de esquerda, que lutam contra os
nacionalistas de Franco. Lluis saiu de Madrid, onde deixou a esposa Trini (Bruna
Cusi) e o filho pequeno. No vilarejo, enclausurada num casarão, vive Carlana
(Nuria Prims), viúva do sujeito mais rico da região, assassinado pelos rebeldes
republicanos. Todo mundo sabia que Carlana era empregada e teve dois filhos
bastardos com o patrão. Agora, com a morte dele, assumiu as rédeas da casa,
tornando-se a mulher mais rica do pedaço. Lluis se apaixona pela viúva e o caso
vira fofoca entre os habitantes do vilarejo, em sua maioria conservadores
católicos. Quando Trini (Bruna Cusi), esposa de Lluis, chega para se encontrar
com o marido, fica sabendo do caso dele com a viúva e vira uma fera. No meio
desse conflito conjugal, o filho dos dois fica gravemente doente. Para tumultuar
ainda mais o ambiente, Soleràs (Oriel Pla), melhor amigo de Lluis e soldado dos
franquistas, se declara apaixonado por Trini e será capaz de qualquer sacrifício
para ajudar a moça. Enfim, um drama meio novelesco, mas tem seus méritos, principalmente
no que diz respeito à atuação do seu elenco, a fotografia e à recriação de época. Falado em
castelhano e em catalão, “Incerta Glória” tem tudo para agradar quem curte um drama
com pano de fundo histórico.
sexta-feira, 30 de abril de 2021
“O DÉCIMO
HOMEM” (“EL REY DEL ONCE”). Quando foi lançado por aqui no circuito comercial, em
2016, não lembro a razão de não ter assistido a esta comédia dramática
argentina, escrita e dirigida pelo cineasta Daniel Burman, que já havia nos
presenteado com os excelentes “O Abraço Partido” e “Dois Irmãos”. Enfim, ele é
um dos diretores argentinos mais conceituados atualmente. “O Décimo Homem”, com
1h22m, é centrado no personagem Ariel (Alan Sabbagh), um economista
bem-sucedido em Nova Iorque que volta a Buenos Aires para visitar a família.
Seu pai, Usher (Usher Barilka), é o líder da comunidade judaica do bairro Once –
o título original é referência a ele. Aqui, a família de Usher administra uma loja
e uma instituição de caridade. Ariel não visitava Buenos Aires há alguns anos e
logo quando chega ao aeroporto recebe uma ligação do pai mandando ele comprar
um sapato com velcro para um jovem que está internado em um hospital. Ariel
percorre várias ruas comerciais para tentar comprar o tal sapato. Nessa
peregrinação, ele reencontra alguns locais que frequentava na infância e juventude.
Ariel chega finalmente à instituição de caridade e se vê diante de muito
trabalho, passando a ajudar na sua rotina. Ele logo se encanta com uma judia
ortodoxa que trabalha como voluntária, Eva (Julieta Zylberberg), que resolveu
adotar o silêncio em obediência a um ritual religioso. No tempo em que ficará na
capital argentina, Ariel, mesmo a contragosto, será obrigado a rever e
participar dos rituais judaicos - as partes mais engraçadas da história. Em um deles, ele completa o grupo de dez
pessoas que carregará o caixão de um comerciante judeu – daí o título nacional “O
Décimo Homem”. Ainda durante sua estada em Buenos Aires, Ariel terá a
oportunidade de relembrar um de seus sabores prediletos da infância: bolachas feitas por sua tia recheadas
com doce de leite. Gordinho, simpático e bonachão, o personagem de Ariel é o
grande trunfo desse ótimo filme argentino, um agradável entretenimento.
quarta-feira, 28 de abril de 2021
“À ESPREITA DO MAL” (“I SEE YOU”), 2018, Estados Unidos, 1h38m, direção de Adam Randall, com roteiro de Devon Graye. Recentemente integrado à plataforma Netflix, este é um suspense que vale a pena assistir por causa do roteiro interessante e muito criativo, repleto de reviravoltas e subtramas. A história começa com um menino de 12 anos sendo sequestrado, em uma cena que parece obra do sobrenatural. A polícia, sob o comando do detetive Grego Harper (Jon Tenney), começa a investigar o fato. Enquanto isso, na casa do próprio policial, sua esposa Jackie (Helen Hunt) e o filho adolescente Connor (Judah Lewis) passam por maus bocados. Coisas estranhas começam a acontecer, e mais uma vez você acha que tem alguma entidade maligna atuando para apavorar a família. Na metade do filme, porém, o roteiro dá uma guinada muito interessante, começando a explicar o que de fato está acontecendo. Uma jogada de mestre do jovem Devon Graye em sua estreia como roteirista – ele é mais conhecido como ator. Além de dar um novo rumo à história, Graye acrescenta mais algumas reviravoltas, que valorizam ainda mais esse bom suspense. Um fato que também me chamou a atenção foi a atual forma física de Helen Hunt, uma atriz muito competente – tem um Oscar por “Melhor Impossível”, de 1998 – e que até há pouco tempo era bonita e charmosa. De repente, envelheceu muito mais do que os seus atuais 57 anos de idade. Não sei se foi alguma plástica malfeita ou ela está sofrendo de anorexia ou então virou uma vegana radical. Sua boca murchou, parecendo a de uma mulher banguela. Voltando ao filme, “À Espreita do Mal” pode não ser “uma Brastemp”, mas sem dúvida é um bom suspense. Recomendo!
terça-feira, 27 de abril de 2021
“CODA” (“A ÚLTIMA NOTA” no Brasil), 2020, Canadá, 1h37m, disponível na plataforma Netflix, estreia na direção de Claude Lalonde, seguindo roteiro de Lovis Goldout. O drama é centrado no consagrado pianista clássico Henry Cole (Patrick Stewart). Depois que sua esposa faleceu, ele entrou numa fase depressiva, recusando-se a participar de concertos, gravações, entrevistas e outras aparições públicas, para desespero de seu empresário e amigo de longa data Paul (Giancarlo Esposito). Quando finalmente retorna para uma apresentação, teve ataque de ansiedade e pânico no palco, esquecendo as notas finais do concerto – a tal “Coda” do título original. Enquanto descansa no camarim, lamentando o insucesso da sua apresentação, Henry recebe a visita da jornalista Helen Morrison (Katie Holmes). Fã do pianista e da música erudita, ela inicialmente pede uma entrevista, recusada na hora por Henry. Tempos depois eles se reencontram e daí para a frente surge uma forte amizade. Além de amiga e admiradora, Helen torna-se uma espécie de psicóloga do pianista, incentivando-o a seguir adiante com a carreira. O filme é muito sensível, repleto de diálogos inteligentes e de muita erudição, principalmente quando as conversas giram em torno dos grandes compositores de música clássica. Tudo isso ocorre naturalmente, sem afetação, tornando-se um deleite para os apreciadores do gênero. Nesse contexto, deve-se destacar a primorosa trilha sonora: Schumann, Schubert, Beethoven, Rachmaninoff e Alexandre Scriaban. Mais um grande trunfo é a química perfeita entre os protagonistas principais, Patrick Stewart e Katie Holmes. Outro destaque é o maravilhoso cenário dos Alpes Suíços, onde o grande pianista se isola após um triste acontecimento. “A Última Nota” é um belíssimo drama, sensível, intimista e reflexivo, realizado com muita qualidade e inspiração. Imperdível!
domingo, 25 de abril de 2021
“HANDIA”, 2017, Espanha, 1h56m,
disponível na Netflix, roteiro e direção da dupla de cineastas Jon Garaño e Aitor
Arregie. A história é baseada num personagem que realmente existiu na Espanha
do século XIX. Trata-se de Miguel Joaquín Eleizegui Arteaga, que ficou
conhecido como o “Gigante de Altzo” – só para esclarecer, um dos significados da
palavra “handia” na língua basca é “gigante”. O filme é falado em basco, já que
a família do “gigante” morava no município de Altzo, localizada na província de
Guipúscua, comunidade autônoma do país basco. Nascido numa família de pequenos
agricultores, Miguel Joaquín (Eneko Sagardoy) era um jovem normal até os 20
anos de idade, quando passou a sofrer de gigantismo, que o levou, rapidamente,
a crescer muito acima dos 2 metros de altura. Três anos antes, Martin (Joseba
Usabiaga), seu irmão mais velho, foi recrutado para servir o exército carlista
durante a guerra civil contra os liberais espanhóis. Ao final do conflito,
Martin volta com o braço direito inutilizado por causa de um ferimento, sem
poder, portanto, ajudar na rotina de trabalho na fazenda da família, que vive
graves problemas financeiros. Quando vê o irmão como um verdadeiro gigante,
Martin resolve ganhar dinheiro exibindo-o como atração em circos e teatros. O
sucesso foi tão grande que resolveram promover um show itinerante pelas
principais cidades da Espanha, além de apresentações em Paris, Lisboa e Londres,
onde Joaquín chegou a ser visto na corte da Rainha Vitoria. O filme retrata
toda essa verdadeira epopeia, focando, principalmente, na relação entre os
irmãos. Impossível não se emocionar com o sofrimento físico e mental de Miguel
Joaquín. O ator que o interpreta tem na vida real "apenas" 1m87 de altura,
aumentados com um efeito especial imperceptível e por enquadramentos
que o transformaram em gigante nas filmagens. Méritos para a dupla de
cineastas, que ainda contaram com a primorosa fotografia de Javi Agirre. Enfim,
uma história tocante e muito comovente. “Handia” foi o grande destaque na
premiação do Goya (o Oscar espanhol), recebendo nada menos do que 13 indicações,
sendo premiado em dez delas, um recorde. Merecido, aliás, pois o filme é muito
bom.
sábado, 24 de abril de 2021
“INVASÃO”
(“BREAKING IN”),
2018, Estados Unidos, disponível na Netflix, 1h28m, direção do australiano
James McTeigue, seguindo roteiro assinado por Jaime Primak Sullivan. Começa o
filme e você já toma um susto diante de uma cena de atropelamento muito bem
realizada. Um corredor de meia idade é surpreendido por um carro ao atravessar
a rua. Morreu na hora. Um corte rápido e aparece Shaun Russell (Gabrielle
Union) dirigindo seu carro por uma estrada com os dois filhos pré-adolescentes
como passageiros, Jasmine (Aijona Alexus) e Glover (Seth Carr). O destino de
Shaun é uma casa isolada no meio do mato, toda incrementada na base da
tecnologia, aquela do tipo que você usa um controle e abre janelas, portas, toca
um som e acende a luz. A tal casa pertencia ao pai de Shaum, o cara que morreu
atropelado. No fim da tarde, depois de conhecerem todos os cômodos, mãe e
filhos são surpreendidos por quatro assaltantes. Shaun fica fora da casa,
enquanto seus filhos ficam presos com os bandidos, cujo objetivo da invasão é
roubar o dinheiro que está em um cofre. Daí para a frente, até o desfecho, você
vai acompanhar, com um frio na barriga a cada cena, uma mãe desesperada e ao
mesmo tempo raivosa tentando entrar na casa e salvar as crianças. A atriz
Gabrielle Union esbanja vitalidade física para encarar os desafios das cenas de
ação, que são muitas durante o filme. O roteiro soube segurar o clima de
suspense do começo ao fim, mesmo que o cenário seja apenas uma casa perdida no mato
e poucos protagonistas. Também estão no elenco Billy Burke, Richard Cabral,
Levi Meaden e Mark Furze. “Invasão” é um bom suspense que merece ser conferido.
quinta-feira, 22 de abril de 2021
“MADAM
CHIEF MINISTER”, 2020, Índia, 2h4m, disponível na Netflix, roteiro e direção de Subhash Kapoor.
Trata-se de um drama político aparentemente ficcional, mas que revela muito sobre o que
acontece nos bastidores da política indiana. Se você acha que a política
brasileira é podre, assista a esta produção de Bollywood e você acabará achando
nossos políticos uns santos. A história é ambientada em 1982 e conta a trajetória
de uma menina pobre da casta Dalit, cujos integrantes são considerados na sociedade indiana como párias,
intocáveis e impuros. Tara Roopram (Richa Chadda) cresceu na base do sofrimento
em meio à pobreza e à discriminação até chegar ao cargo de primeira-ministra de
Uttar Pradesh, o estado mais populoso da Índia (200 milhões de habitantes
segundo censo de 2010). Ainda jovem, Tara conheceu Indramani Tripathi (Akshay
Oberoi), com quem teve um caso. De uma casta superior e pretendente a um cargo
político, Tripathi terminou o romance quando ela anunciou a gravidez,
humilhando-a por pertencer à casta tão inferior. Mas não ficou só nisso. Ele
mandou seus capangas espancarem a moça com chutes na barriga para provocar
o aborto. Tara prometeu se vingar, mas não na base da violência. Ela ingressou
na política para acabar com Tripathi. Sem contar seu desejo de vingança, Tara foi
acolhida por seu tio, o mestre Surajbhan Masterji (Saurabh Shukla), líder de um
partido político até então de pouca expressão em Uttar Pradesh. Com o apoio e
os conselhos de Masterji, Tara disputou várias eleições até chegar ao cargo
máximo na hierarquia política daquele estado indiano. Em sua trajetória, porém, ela
sofrerá muitos dissabores, muitos deles colocando sua vida em constante perigo.
Corajosa, ela enfrentou os desafios sem jamais ceder nos seus ideais. Além de bonita
e talentosa, a atriz Richa Chadda carrega o filme nas costas, com uma atuação
primorosa. Vale a pena assistir “Madam Chief Minister”, nem que seja para ficar
por dentro da podridão da política indiana. O diretor Subhash Kapoor tem muito
autoridade sobre o assunto, já que por muitos anos trabalhou como jornalista
político.
quarta-feira, 21 de abril de 2021
“INVISÍVEL” (“INVISIBLE”), 2017, Argentina, 1h27m, roteiro e direção de Pablo Giorgelli (do aclamado “Las Acacias”). O filme acompanha a rotina diária da jovem Ely (Mora Arenillas), de 17 anos. Ela mora com a mãe Susana (Mara Bestilli) em um conjunto habitacional do Bairro Boca, em Buenos Aires, cursa o último ano do ensino médio e é funcionária de um pet shop. Além de cuidar da mãe, que se encontra em depressão e não sai de casa, Ely tem como única diversão transar de vez em quando com Raúl (Diego Cremonesi), o filho do dono do pet shop, no banco traseiro do carro dele. Um dia, porém, ela descobre que está grávida e fica sem saber o que fazer. O certo é que não quer ter o filho. Porém, fica indecisa entre tomar algum remédio ou fazer um aborto. Uma colega do colégio aconselha o remédio, enquanto Raúl, o pai, insiste em que ela faça um aborto e até conseguiu uma clínica. A indecisão de Ely alimenta a história até o desfecho. Aviso desde já: “Invisível” não é um filme fácil de digerir. É depressivo e baixo astral ao extremo, tem um ritmo por demais vagaroso e até cansativo em alguns momentos. Há poucos diálogos, o silêncio tomando conta da maioria das sequências. É flagrante também o seu baixo orçamento, evidenciado pela produção simples, quase amadora, além de um elenco bastante reduzido. “Invisível” é apenas o quarto filme da jovem atriz Mora Arenillas (o mais recente é “La Chica Nueva”), que mostra muito talento em sua interpretação da jovem desiludida com a vida, triste e amargurada. O filme foi visto por aqui durante o 19º Festival Internacional de Cinema do Rio. Quem pretende assistir a um entretenimento leve e agradável deve passar longe deste drama argentino, disponível na plataforma Netflix.