“MANUSCRITOS NÃO
QUEIMAM” (“DAST-NEVESHTEHAA NEMISOOSAND”), 2013, Irã, 2h14m. Polêmico thriller político escrito
e dirigido por Nohammad Rasoulop, que teve a coragem de desafiar, novamente, o
governo iraniano. Desde 1910, quando foi preso por fazer filmes denunciando a
censura e a repressão existentes no país, Rasoulop estava proibido de
trabalhar. Além disso, seu passaporte foi confiscado pelas autoridades
iranianas, que impediram sua viagem à Alemanha para participar do Festival
Internacional de Direitos Humanos de Nuremberg. As filmagens de “Manuscritos
não Queimam” foram realizadas clandestinamente e, por questão de segurança, os
nomes dos atores e da equipe técnica não aparecem nos créditos. Claro que o
filme foi proibido no Irã, mas foi aclamado no Festival de Cannes 2013, onde
conquistou o prêmio FIPRESCI da Mostra “Um Certo Olhar”. Sua exibição terminou
com o público aplaudindo de pé. Por aqui, somente foi exibido no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em 2013. O filme denuncia um caso verídico ocorrido anos
antes envolvendo uma tentativa do governo iraniano de assassinar 21 escritores
num atentado que não deu certo. A história toda está contada nos manuscritos
guardados na casa de um poeta. Os assassinos de aluguel Morteza e Khosrow
ficaram encarregados de encontrá-los e assassinar o seu autor. Confesso que até
bem depois da metade do filme fique especulando, sem entender, o que estava
acontecendo. Mas logo depois, além de entender, deu para sentir a força
impactante dessa produção clandestina iraniana. Não digo que seja um filmaço,
mas muito poderoso pela denúncia. Só para espectadores que curtem filmes
políticos.
“O EFEITO AQUÁTICO” (“L’Effet
Aquatique”), 88
minutos, França/Islândia, 2015, escrito e dirigido pela diretora islandesa
Sólveig Anspach. Logo após o término das filmagens, Anspach faleceu e a
montagem ficou a cargo do francês Jean-Luc Gaget, seu assistente direto.
Trata-se de uma comédia romântica que conta a história de Samir (Samir Guesmi),
um operador de guindaste em Montreuil, arredores de Paris, que se apaixona pela
instrutora de natação Agathe (Forence Loiret Caille). A paixão foi tão forte
que Samir inscreve-se nas aulas de Agathe numa piscina pública de Paris. O
romance começa bem, mas logo termina a partir do momento em que Agathe descobre
que Samir nada muito bem. A partir daí, o filme passa para uma segunda etapa,
na Islândia, para onde Agathe viaja para participar de um congresso internacional
de instrutores de piscina. Samir descobre e também vai para a Islândia tentar a
reconciliação. O filme foi premiado como Melhor Roteiro na mostra “Quinzena dos
Realizadores” do Festival de Cannes 2016 e também no tradicional César, o Oscar
francês. Por aqui, foi exibido no Festival Internacional de Cinema do Rio de
Janeiro 2016, mas não ganhou projeção no circuito comercial. Achei o filme
muito fraco, oferece pouco humor para uma comédia romântica e é tão sem graça quanto
o ator Samir Guesmi, uma espécie de Mr. Bean francês. Se algo vale a pena são
as paisagens islandesas exploradas com competência pela fotografia de Isabelle
Razavet. Da mesma diretora, recomendo o drama "Lulu Nua e Crua", este sim um belo filme.
“A ÚLTIMA PRINCESA” (“DEOKHYEONGJU”), 2016, Coreia do Sul. Belíssimo
trabalho de reconstituição histórica do roteirista e diretor Jin-Ho Hur,
enfocando a turbulenta trajetória de vida da Princesa Deokhye (1912-1989), última
remanescente da Dinastia Joseon (1392-1897). A história, baseada no livro "Princesa Deokhye", de Kwon Bi-Young, começa quando a princesa,
ainda menina, vê o seu pai (Rei Gojong) morrer envenenado. Na época, a Coreia
era dominada pelo Japão. Quando perceberam que a princesa poderia causar
problemas, os japoneses a exilaram no Japão, onde foi obrigada a casar com o
Conde So Takeyukim, membro importante da monarquia imperial japonesa. De tão
infeliz, principalmente por não poder voltar ao seu país, Deokhye acaba
sofrendo um colapso e é internada num hospital psiquiátrico. Muitos anos
depois, graças ao empenho de um antigo amigo, Jang-Han (Park Hae II), a
princesa consegue finalmente voltar à Coreia. Deokhye é interpretada na juventude
por So-Hyun Kim e, na fase adulta, por Son Ye Jin. O filme é irresistível, não
apenas pelo fundo histórico e político – uma aula de história coreana –, mas também pela caracterização de
época, cenários deslumbrantes e uma fotografia da mais alta qualidade. Recomendo
também outro filme cujo pano de fundo é a resistência coreana ao domínio
japonês: “A Era da Escuridão”.
“O BAR” (“EL BAR”), 2016, Espanha, roteiro e direção de
Álex de La Iglesia (“Balada do Amor”). Um misto de suspense, comédia de humor
negro e ficção científica. Num bar no centro de Madri, as pessoas vão chegando
para o café da manhã. De repente, ecoa um tiro e o pessoal que está no bar vê
que um pedestre foi atingido na calçada. Um dos clientes sai para socorrer o
que foi baleado e também recebe um tiro. Claro que ninguém mais quer sair do
tal bar. São três mulheres e cinco homens que observam o mundo lá fora ficar
muito estranho: ruas vazias, os cadáveres dos homens desaparecem, começa um
grande incêndio, homens com máscaras antigás desinfetando tudo pela frente etc.
De dentro do bar, a impressão que dá é que o mundo está acabando. A partir daí,
toda a ação se resume ao interior do bar e depois pelo esgoto da cidade. Entre
os oito “reféns” da situação estão um mendigo que não para de citar a Bíblia,
uma dondoca à espera do namorado, um policial aposentado, a dona e um
funcionário do bar, além de outras figuras estranhas. O desespero da situação
conturba o ambiente e começam os desentendimentos. Eles só irão se entender a
partir do momento em que precisam encontrar uma saída para fugir do bar. Ou
seja, recuperar a sanidade e tentar sair dali vivos. Se o filme é fraco por si
só, o desfecho então beira o ridículo. Aliás, ridículo mesmo é figurino que arranjaram para o galã canastrão Mario Casas, com barba e suspensório ao estilo Amish. O filme estreou no 67º Festival de
Berlim, em fevereiro de 2017, e tem no elenco atores e atrizes espanhóis bastante
conhecidos: além de Casas, Blanca Suárez, Carmen Machi, Jaime Ordóñez, Alejandro Awada e Terele
Pávez. Descartável!
“ASSIM QUE ABRO MEUS
OLHOS” (“À PEINE J’OUVRE LES YEUX”), Tunísia/França, 2015, marca a estreia da tunisiana Leyla
Bouzid na direção – ela também assina o roteiro. Mesmo que o centro da história seja
ficcional, o filme resgata os acontecimentos que deram origem ao movimento que viria
a se chamar “Primavera Árabe”, a partir de dezembro de 2010, responsável pela
derrubada dos presidentes da Tunísia, do Egito e da Líbia, além de gerar violentos
protestos em outros países do Oriente Médio e do Norte da África. O filme é
todo ambientado em Túnis e centrado na jovem Farah (Baya Medhaffar), de 18
anos, vocalista de uma banda de pop-rock cujas letras protestam contra o
governo tunisiano comandado pelo ditador Zine el-Abidine Ben Ali, que seria
deposto meses depois. Canções de protesto, contendo letras com frases como “Ricos
têm dentes de ouro, enquanto os pobres estão desdentados” ou “Assim que abro
meus olhos eu vejo aqueles privados de trabalho e de comida”. A banda se
apresenta em bares lotados de Túnis e os jovens aderem às músicas, gritando
seus refrões. Claro que não demora muito
para as autoridades começarem a repressão, o que desencadeia todo um movimento
revolucionário. Além do aspecto político, o filme destaca o relacionamento
conflituoso entre Farah e a mãe, Hayet (a maravilhosa atriz Ghalia Benali). O
filme representou a Tunísia na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme
Estrangeiro, foi premiado em diversos festivais, inclusive o de Veneza, e foi
considerado pelo site IndieWire “O melhor filme de ficção sobre a Primavera
Árabe até agora”. Realmente, um filmaço!
O cinema atual da Romênia já nos presenteou com grandes
filmes, como “Instinto Materno”, de 2013, e “Casamento Silencioso”, de 2008,
que considero uma pequena obra-prima cinematográfica, entre tantos outros. “GRADUAÇÃO” (“BACALAUREAT”), 2016, chega para consagrar em
definitivo o diretor Cristian Mungiu, também autor do roteiro. Mungiu caiu nas
graças dos críticos profissionais depois de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de
2007, que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Em 2012, Mungiu assinou
o roteiro e a direção de outro grande filme, “Além das Montanhas”. Em “Graduação”, Mungiu trata de moral e
ética ao contar a história de Romeo Aldea (Adrian Titieni), um médico bastante
respeitado na pequena cidade de Cluj, na Transilvânia, que fará tudo para
conseguir que a filha Eliza (Maria Victoria Dragus) obtenha uma nota alta nos
exames finais que lhe darão uma bolsa para estudar Psicologia na Inglaterra. Só
que, um dia antes, Eliza é atacada por um tarado e fica abalada
psicologicamente, o que a impedirá de realizar uma boa prova. O pano de fundo
político entra na história ao lembrar que tanto Romeo quanto sua esposa Magda
(Lia Bugnar), na juventude, tiveram a liberdade cerceada pela ditadura de
Ceauseascu. Além de uma manobra bastante antiética para favorecer a filha,
Romeo ainda enfrenta o colapso do seu casamento e a pressão da amante Sandra
(Malina Manovici), diretora da escola de Eliza. O filme garantiu a Mungiu o
Prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes 2016. Adrian Titieni ganhou o Prêmio
de Melhor Ator no Festival de Chicago. Imperdível!
“A PROMESSA” (“The Promise”), 2016, EUA, 2h15m, roteiro e direção
do irlandês Terry George (“Hotel Ruanda” e “O Negociador”). Pela primeira vez,
Hollywood trata da questão do genocídio praticado pelos turcos contra os
armênios entre 1914 e 1917 – os turcos negam até hoje. Pelo menos um milhão e
meio de armênios foram perseguidos e assassinados pelo exército do então
Império Otomano (atual Turquia). Infelizmente, o diretor Terry George preferiu
dar mais ênfase ao triângulo amoroso envolvendo a bela Ana (a atriz canadense
Charlotte Le Bon), Michael (o ator guatemalteco Oscar Isaac) e Michael (Christian
Bale). As informações históricas
sobre o genocídio ficaram de lado, fazendo com que o assunto fosse colocado apenas como pano
de fundo para uma trama de amor à beira do novelesco. Resumo da história: o
armênio Michael sonha em ser médico, mas a família não pode pagar a faculdade.
Dessa forma, ele aceita casar com a jovem Maral (Angela Sarafyan) em troca de
um dote substancioso. Longe de Maral, Michael conhece a também armênia Ana,
namorada do fotógrafo norte-americano Chris. Até o final do filme, os dois disputarão
o amor da moça. Claro que no meio do romance tem muita cena de ação e
violência, uma das poucas referências ao genocídio. O filme somente foi
realizado graças ao milionário Kirk Kerkorian, filho de imigrantes armênios que
se tornou um grande empresário em Hollywood e dono de cassinos. Antes de
morrer, aos 98 anos, em 2015, ele investiu do próprio bolso US$ 100 milhões na
produção do filme, que talvez não tenha conseguido ver depois de pronto. “A Promessa”
estreou no Festival de Toronto/2016 sem conseguir arrancar aplausos da plateia
e nem críticas elogiosas, mas é um bom programa.
“MEL” (“MIELE”), 2013, Itália. Em seu primeiro filme
como diretora e roteirista, a atriz Valeria Golino dá mostras de que entende do
riscado. O pano de fundo é a eutanásia. A história toda é centrada em Irene (Jasmine
Trinca), também chamada de “Honey”, o que justifica o título. Com a orientação
de um amigo médico, de quem é sócia na empreitada, Irene ajuda pacientes em
estado terminal a morrer de maneira digna e sem dor. Para isso, utiliza um
remédio utilizado para sacrificar animais doentes e que, pelo que entendi, não
deixa vestígios nos seres humanos. Para obter a substância, Irene faz
constantes viagens ao México, onde a venda do remédio é liberada. Irene começa a repensar sua
atividade quando recebe a incumbência de ajudar o engenheiro Carlo Grimaldi (o
ótimo Carlo Cecchi) a passar para o outro mundo. No meio do processo, ela
descobre que Carlo não tem nenhuma doença grave, o que não justificaria o
procedimento. A italiana Jasmine Trinca brilha como a personagem principal, o
que não é surpresa, pois vem demonstrando muita competência desde que estreou
no cinema, em 2001, no filme “O Quarto do Filho”, de Nanni Moretti. Depois
participou de filmes como “Maravilhoso Boccacio” e “O Franco Atirador”,
contracenando com o astro Sean Penn. Jasmine Trinca consolida-se cada vez mais como uma
das atrizes italianas mais bonitas e competentes da atualidade. “Mel” foi
selecionado para a mostra “Um Certain Regard” do Festival de Cannes 2013,
recebendo uma menção especial do Júri Ecuménico.
“SOPHIE E O SOL
NASCENTE” (“Sophie
and the Rising Sun”, título original e também do livro de Augusta Trobaugh), EUA, 2016, escrito e
dirigido por Maggie Greenwald. Ambientada em 1941 no pequeno vilarejo de Salty
Creek, Carolina do Sul, a história é centrada no romance de Sophie Willis
(Julianne Nicholson) e Grover Ohta (Takashi Yamaguchi), um asiático que, meses
antes, havia sido encontrado desacordado e bastante ferido numa rua do
vilarejo. Ele é levado para a casa de Anne Morrison (Margot Martindale), que
cuida de seus ferimentos e lhe dá guarida. Apelidado pela vizinhança de “chinês”
– na verdade, ele é descendente de japoneses –, Ohta acaba conhecendo a solitária
Sophie, que vive da pesca e venda de caranguejos. Os dois começam a se encontrar
escondidos, já que os moradores do vilarejo são bastante conservadores e, muitos deles, racistas. Até que os japoneses atacam a base norte-americana de Pearl Harbor.
Como os milhares de japoneses residentes nos EUA, Ohta passa a ser perseguido,
sofre agressões e é obrigado a se esconder. Mas nem mesmo essa situação impede
o romance com Sophie. No elenco, destaque para os desempenhos de Diane Ladd como a vilã ultraconservadora e fofoqueira e de Lorraine Toussaint como a governanta de Anne. O filme fez parte da seleção oficial do Sundance Film
Festival e foi exibido pela primeira vez no Brasil durante a 40ª Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.
Selecionado para representar Israel na disputa do Oscar/2016
de Melhor Filme Estrangeiro, “BABA JOON”
tem como seu principal trunfo a simplicidade. A história, as locações, o elenco,
tudo muito simples e realizado com bastante sensibilidade pelo diretor Yuval
Delshad, também autor do roteiro, marcando sua estreia em longas. A história é
centrada na relação do autoritário Yitzhak (Navid Negahban) e seu filho Moti
(Asher Avrahami), de 12 anos. Com muito trabalho e sacrifício físico, Yitzahak
administra uma fazenda de criação de perus no interior de Israel, empreendimento
criado pelo pai “Baba” Joon (Rafael Eliasi), que muitos anos antes saiu do Irã
e se estabeleceu em Israel, convertendo-se ao judaísmo. Yitzhak insiste, muitas
vezes utilizando a violência, em convencer Moti a aprender a cuidar da granja,
mas o garoto só quer saber de mecânica, montar, desmontar e consertar motores.
Ou seja, essa história de um negócio de pai para filho não faz parte das
intenções de Moti. Para piorar a situação, chega para uma visita Dariush (David
Diaan), irmão de Yitzhak, que também se livrou da fazenda para viver e trabalhar
nos EUA. Dariush dá a maior força a Moti, o que contraria Yitzhak, gerando um
grave conflito familiar. O filme é falado em persa, língua oficial do Irã, assim
como do Afeganistão e Tajiquistão. “Baba Joon” foi premiado em vários festivais
de cinema pelo mundo afora e por aqui foi exibido durante o Festival do Cinema
Judaico de São Paulo, em 2016. Também foi eleito o Melhor Filme de 2015 pela Israeli Film Academy.
“AS CONFISSÕES” (“Le Confissioni”), Itália, 2015, direção de Roberto
Andó, que também escreveu o roteiro em parceria com Angelo Pasquini. Trata-se
de um drama de fundo político e religioso, com algumas pitadas de suspense, além de muita erudição. Num
luxuoso hotel na costa do Báltico estão reunidos, para discutir a economia
global e europeia, os ministros das Finanças do G-8 (os oito países mais
desenvolvidos). O encontro tem a coordenação de Daniel Roché (Daniel Auteuil),
presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Como convidados especiais
para amenizar o ambiente, estão hospedados um monge misterioso (Toni Servillo),
uma consagrada escritora de livros infantis (Connie Nielsen) e um músico
roqueiro quarentão (Johan Heldenbergh). Uma determinada noite, Roché pede que o
monge vá ao seu quarto, pois pretende se confessar. Na mesma noite, o
presidente do FMI é encontrado morto. A partir desse fato, todos passam a
pressionar o monge a revelar a confissão feita pelo falecido. Os ministros desconfiam
que Roché, na confissão, possa ter contado algum segredo que não poderia ser
revelado. Num clima repleto de intrigas, a polícia tenta desvendar o mistério
da morte do executivo do FMI. O filme faz duras críticas ao sistema capitalista,
principalmente o alinhamento dos países ricos contra os mais pobres e a
soberania dos banqueiros. Os diálogos são do mais alto nível e talvez sejam a
cereja do bolo desta ótima produção italiana. Mais uma atuação magistral do
ator italiano Toni Servillo, de “A Grande Beleza”. O elenco conta ainda com
Pierfrancesco Favino, Moritz Bleibtreu, Lambert Wilson e Marie-Josée Croze.
Filmaço!
“ESTA É A SUA MORTE – O
SHOW” (“THE Show”), 2017,
EUA, roteiro assinado por Noha Pink e Kenny Yakkel, com direção do ator Giancarlo
Esposito, que também está no elenco e tem um dos papeis principais. Trata-se de
uma das mais contundentes críticas ao sensacionalismo adotado pelos programas
de TV, principalmente os reality shows. Na sequência inicial, o apresentador
Adam Rogers (Josh Duhamel) comanda a parte final de um programa ao vivo onde um
milionário escolhe para esposa uma das candidatas. A que não foi escolhida pega
um revólver e mata o “noivo” e aponta a arma para a moça escolhida. Rogers
salta à frente e protege aquela que seria a segunda vítima. Claro que a
audiência vai às alturas. Depois do que aconteceu, Ilana Katz (Famke Janssen),
principal diretora da emissora, dá sinal verde a Rogers para implementar um
programa que aumente ainda mais a audiência. Ou seja, para conquistar uma
audiência maior, vale tudo, até mesmo mostrar suicídios ao vivo. Trata-se do
segundo filme dirigido por Esposito, mais conhecido por sua participação como
ator em séries como “Breaking Bad”, “Revolução” e “The Get Down”. Também estão
no elenco Caitlin Fitzgerald e Sarah Wayne Callies, além de uma ponta de luxo
pelo ator James Franco. É um filme bastante interessante - apesar de algumas cenas realmente chocantes - e, mesmo sendo uma ficção,
não fica muito longe da realidade em que vivemos atualmente.
“Z: A CIDADE PERDIDA” (“The Lost City of Z”),
EUA, 2016. Quem ler o
título vai pensar que se trata de mais um filme de aventuras ao estilo Indiana
Jones. Tudo bem, toda a ação até que lembra, mas este, ao contrário das
histórias do herói vivido por Harrison Ford, não é um filme de ficção. Trata-se
da trajetória verídica do explorador e arqueólogo inglês Percy Fawcett
(1867/1925), que nas primeiras décadas do Século XX viajou várias vezes para a
Amazônia em busca de uma cidade perdida – a do título. Tudo começa em 1906,
quando Fawcett (Charlie Hunnam), também oficial do exército inglês, recebe a
missão de cartografar os limites inexplorados da Amazônia, mais especificamente
na fronteira do Brasil com a Bolívia. Nesta sua primeira viagem, Fawcett
descobre evidências de uma civilização que considerou avançada. Ao apresentar
sua descoberta aos membros da Sociedade Geográfica Real (Royal Geographic
Society), Fawcett foi ridicularizado, mas mesmo assim recebeu apoio financeiro
para outras expedições. Quando começa a I Grande Guerra, ele é escalado para
lutar nos campos da França contra os alemães. Depois do conflito, Fawcett ainda
voltaria mais algumas vezes para a Amazônia, onde desapareceria juntamente com
seu filho Jack (Tom Holand, o atual “Homem-Aranha”). A história é baseada no
livro “The Lost City of Z”, escrito por David Grann e agora adaptado para o
cinema pelo diretor James Gray (“Os Donos da Noite” e “Era uma Vez em Nova
Iorque”), também autor do roteiro. O elenco conta ainda com Robert Pattinson e
Sienna Miller. O filme estreou, com elogios da crítica e do público, no 67º
Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017. Um ótimo programa para uma
sessão da tarde com pipoca.
Romance, aventura e História, ingredientes que fazem de “AMOR EM TEMPOS DE GUERRA” (“The Ottoman Lieutenant”), EUA, 2016,
um programa bastante interessante. Pouco antes do início da Primeira Guerra
Mundial, a enfermeira norte-americana Lillie (a atriz islandesa Hera Hilmar)
vai a uma palestra onde conhece o Dr. Jade (Josh Hartnett), médico que trabalha
numa missão voluntária na Anatólia, território da Turquia – na época, Império
Otomano. Lillie se encanta com o desafio de participar desse trabalho e, mesmo
contrariando os pais, embarca na aventura. Ao chegar à Turquia, ela ganha a
escolta do oficial do exército Ismail (o ator holandês Michiel Huisman). Quando
chega ao hospital, Lillie é apresentada ao dr. Woodruff (Ben Kingsley),
fundador da missão (hoje seria uma Ong). Com o início da I Guerra Mundial e a
possível invasão russa, além dos conflitos internos entre armênios e otomanos,
Lillie e seus companheiros enfrentarão grandes desafios em meio à violência
reinante. Mesmo nesse cenário conturbado, haverá espaço para o romance entre
Lillie e o oficial turco, para desespero e ciúme do Dr. Jade. O filme teve a direção de Joseph Ruben ("Dormindo com o Inimigo", "Os Esquecidos"), com roteiro de Jeff Stockwell. Mesmo previsível
e recheado de clichês típicos de um melodrama açucarado, o filme garante um
ótimo entretenimento. As incríveis locações na Turquia, valorizadas por uma excelente
fotografia, proporcionam um visual deslumbrante.
“NA VERTICAL” (“RESTER
VERTICAL”), França, 2016,
escrito e dirigido por Alain Guiraudie (“Um Estranho no Lago”). Difícil
interpretar e até comentar um filme tão esquisito, pesado e perturbador. Um
roteirista de cinema, Léo (Damien Ronnard), vaga sem rumo pelo interior da França
em busca de uma ideia para seu próximo filme, algo relacionado com os lobos. Em
sua trajetória, Léo acaba conhecendo Marie (India Hair), filha de um pastor de
ovelhas e mãe solteira de dois meninos, e um idoso que vive em conflito com seu
neto. Seu envolvimento com Marie resulta no nascimento de um filho, que ela rejeita
em consequência de uma depressão pós-parto. Todo esse contexto desagradável
resulta em cenas repulsivas de sexo – beirando o explícito –, parto normal e sodomia, o que
consagra esta produção francesa como uma das mais indigestas e repugnantes já
realizadas nos últimos anos. Além disso, as situações envolvendo o personagem
principal são bastante inverossímeis, como a consulta a uma mulher misteriosa
no meio de um pântano, beirando o surreal. Todos os personagens revelam um
acentuado desequilíbrio mental, o que deve ser uma característica da personalidade do próprio
diretor, capaz de criar um filme tão repulsivo e mórbido. Como em “Estranho no
Lago”, Guiraudie quis novamente chocar a plateia – o que conseguiu durante o
69º Festival de Cannes (2016) –, mas certamente será reconhecido como um diretor apelativo e
com alguma disfunção de personalidade. Se você procura um filme que proporcione
um entretenimento leve, passe longe.
Produzido
pela Walt Disney Pictures em parceria com a ESPN Films, “RAINHA DE KATWE”
(“Queen of Katwe”), 2016, EUA, conta a incrível e comovente história de Phiona
Mutesi (Madina Nalwanga), uma menina pobre residente na favela de Katwe, na
periferia de Kampala, capital da Uganda, que se tornou campeã nacional de Xadrez
e jogadora de destaque internacional. O filme acompanha a trajetória da garota
desde 2007 até 2012, mostrando a extrema pobreza em que vivia com a família,
muitas vezes sem ter o que comer. Phiona e seu irmão Brian se inscrevem num pequeno
projeto de esportes na periferia de Katwe que promovia a inclusão de crianças
pobres na prática do Xadrez. Eles iam, na verdade, para comer o mingau que era
distribuído gratuitamente aos participantes. Só que Phiona demonstrou um grande
talento para o Xadrez e foi incentivada pelo treinador Robert Katende (David
Oyelowo) a levar os treinamentos a sério, mesmo contra a vontade da mãe da menina,
Harriet (Lupita Nyong’o), que preferia ver a filha vendendo milho nas ruas para ganhar
algum dinheiro. O filme é sensível e bastante realista, principalmente ao
abordar e mostrar a extrema pobreza em que vivia Phiona e sua família – as filmagens
aconteceram na própria Katwe e em Joanesburgo (África do Sul). A direção do
filme ficou a cargo da indiana radicada nos EUA Mira Nair e o roteiro foi escrito
por William Wheeler, baseado no livro “The Queen of Katwe: A Story of Life,
Chess and One Extraordinary Girl’s Dream of Becoming a Grande Master”, de Tim
Crothers. Há que se destacar, além da incrível história, a ótima atuação da
atriz Lupita Nyong’o como a mãe de Phiona. Vencedora do Oscar de Atriz
Coadjuvante em 2014 pelo filme “12 Anos de Escravidão”, Lupita nasceu no México
– mãe mexicana e pai queniano. O ator inglês David Oylenwo também está
excelente no papel de treinador de Phiona. Para fechar com chave de ouro este
belo filme, nos créditos finais são mostrados, lado a lado, os atores e os
personagens reais que interpretaram, os quais acompanharam, pessoalmente, cada
detalhe das filmagens, prestando assessoria à diretora Mira Nair. Imperdível!
O
material de divulgação e a sinopse informam que o filme é baseado em fatos
reais, só que omitem quando e onde tudo aconteceu. Deve ter sido nos EUA, onde
tudo acontece. De qualquer forma, trata-se de uma história incrível,
adaptada para o cinema como “12 PÉS DE PROFUNDIDADE” (“12 Feet Deep” –
a tradução para o português é minha, já que o filme ainda não chegou por aqui),
escrito e dirigido por Matt Eskandari (“Jogo de Assassinos”). Duas irmãs, Jonna
(Alexandra Park) e Bree (Nora-Jane Noone), estão se divertindo numa piscina
pública olímpica quando uma delas deixa cair o anel de noivado. As duas
mergulham e acham o anel, só que preso num dos ralos. O treinador McGradey
(Tobin Bell) acha que todo mundo já foi embora e fecha a cobertura móvel da
piscina, feita de fibra de vidro, passa a tranca no ginásio e vai embora. As moças ficam então presas entre a água e a
cobertura, um espaço de mais ou menos meio metro. A sensação é claustrofóbica e
angustiante. Aflição pura. Se você pensa que a situação das irmãs pode piorar
ainda mais, acertou. Lá pelas tantas aparece a faxineira da noite, uma
ex-presidiária, que resolve chantagear as moças para levantar uma grana. Além disso, uma das irmãs é diabética e precisa urgentemente de uma injeção de insulina. Haja sofrimento! Até
que o filme funciona como suspense e você ficará na expectativa de saber como
tudo irá terminar. Claro que tem bastante enrolação e papo furado para passar o
tempo até o desfecho. Vale para uma sessão da tarde com pipoca.
“UM LAÇO DE AMOR” (“GIFTED”), 2016, EUA, roteiro de Tom Flynn e direção de Mark Webb (“O Espetacular Homem-Aranha”, “A Marca de Electra”). Desde a morte trágica e precoce de sua irmã, Frank Adler (Chris Evans, o “Capitão América”) cria sua sobrinha Mary (McKenna Grace), uma menina superdotada, um gênio na matemática. E, como todo gênio, também geniosa. Ao perceber que a inteligência de Mary é muito acima do normal, a diretora do colégio chama Frank e diz que ela precisava ir para um colégio para crianças superdotadas. Frank não permite, pois quer que Mary cresça e seja educada como uma criança normal. Nesse meio tempo aparece a avó Evelyn (Lindsay Duncan), que entra com um processo para obter a guarda da menina. Aí o filme vira um drama de tribunal, com as partes brigando pela menina. Não é apenas no filme que McKenna Grace é um prodígio. Como atriz, hoje com apenas 11 anos, ela atua desde 2013, em séries especiais de TV e cinema (“Como se tornar um Conquistador” e “Amityville: O Despertar”, entre outros). Ela é o grande destaque desse filme, que tem ainda no elenco a ótima Octavia Spencer e Jenny Slate. Enfim, um filme bastante agradável, sensível e comovente, próprio para assistir com toda família
O thriller “CORRA!” (“Get
Out”), EUA, primeiro filme escrito e dirigido pelo
ator Jordan Peele, foi a grande sensação do Sundance Film Festival (janeiro de
2017), o mais conceituado festival de filmes independentes. Orçado em apenas
US$ 4,5 milhões, faturou em alguns meses nada menos do que US$ 252
milhões, tornando-se um dos filmes mais lucrativos de 2017. Trata-se de um
suspense psicológico, com altas doses de humor negro (Peele é mais conhecido
como comediante) e que tem como pano de fundo o racismo, ou, mais especificamente,
as relações inter-raciais. A história: Rose (Allison Williams) leva o namorado
afro-descendente Chris Washington (Daniel Kaluuya) para passar o final de
semana na casa de seus pais, o neurocirurgião Dean e a psiquiatra Missy
Armitage (Bradley Whitford e Catherine Keener). Rose não avisa que Chris é
negro. Em todo caso, ele é bem recebido pelos Armitage, família que inclui
ainda o irmão de Rose, Jeremy (Caleb Landry Jones). Para deixar de lado
qualquer dúvida, o pai de Rose afirma que já votou no presidente Obama duas
vezes e que votaria novamente. Só que essa aparente boa recepção acaba se
transformando num terrível pesadelo para Chris. O filme garante bastante
tensão, alguns bons sustos e momentos bem-humorados. Quando o filme começou, lembrei
de “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”, o clássico dirigido em 1967 por Stanley
Kramer. Uma jovem (Katherine Houghton) leva o namorado negro (Sidney Poitier)
para jantar na casa dos pais brancos (Spencer Tracy e Katherine Hepburn). Neste,
tudo termina bem, ao contrário de “CORRA!”.
“ABLUKA” (“Bloqueio”, na tradução literal do turco), 2015,
Turquia/França, segundo filme escrito e dirigido por Emin Alper, jovem diretor
de 43 anos. Numa Istambul frequentemente vítima de atos terroristas, Kadir (Mehmet
Özgür) é colocado em liberdade condicional depois de ficar preso por 20 anos.
Ele é obrigado a assumir o compromisso de vigiar seus vizinhos e denunciar
aqueles que sejam suspeitos de praticar os atentados. Quando chega ao seu
bairro, na periferia de Istambul, Kadir procura seu irmão Ahmet (Berkay Ates),
mais novo, que na época de sua prisão era apenas um garoto de 7 anos de idade. Abandonado
pela mulher, que levou embora os filhos, Ahmet encontra-se em depressão e quase
não sai de casa. Kadir vai tentar ajudá-lo a sair dessa situação. Ao mesmo
tempo, Kadir e Ahmet são integrados a uma equipe de trabalhadores encarregados
de revirar as latas de lixo da periferia de Istambul em busca de indícios que
levem a algum terrorista. Além disso, o grupo é obrigado a participar de um
trabalho encomendado pela prefeitura local com o objetivo de eliminar –
assassinar – os cachorros de rua, o que resulta em cenas bastante chocantes. Os
fatos transcorrem sem muita explicação, a começar pelo motivo da prisão de
Kadir, não esclarecido até o final. Trata-se de um drama muito pesado,
desagradável de assistir, que certamente vai revirar o estômago dos espectadores mais sensíveis. Mas não deixa de ser interessante, não apenas pela
história em si, mas por mostrar uma periferia de extrema pobreza, um cenário de
Istambul que não faz parte das revistas ou guias de turismo. Exibido durante a
72ª edição do Festival de Cinema de Veneza, “Abluka” conquistou Prêmio Especial
do Júri.
“APRENDIZ” (o título original é “Apprentice”, em inglês, uma
das línguas oficiais de Singapura – embora o filme não seja falado em inglês),
2016, Singapura, 115 minutos, escrito e dirigido por Junfeng Boo. A história é
centrada num ex-militar do exército de Singapura, Aiman (Firdaus Rahman), que
consegue emprego como guarda numa penitenciária de segurança máxima, também
responsável pela execução de presos condenados à morte. No caso, por
enforcamento. Enquanto Aiman é levado a conhecer o seu novo local de trabalho,
a gente logo percebe que sua intenção pode ser outra. Algo relacionado com o que
aconteceu com seu pai no passado. Aiman logo cai nas graças de Rahim (Wan
Hanafi Su), que há trinta anos é o carrasco oficial da prisão, ou seja, o
sujeito que puxa a alavanca da forca. Rahim nomeia Aiman seu assistente, ou
seja, o aprendiz de carrasco, a quem repassa todos os segredos de uma execução eficiente. A relação entre Aiman e Rahim é o fio condutor de
toda a história. O filme é surpreendente, pois consegue prender a atenção do
espectador com uma história simples, um roteiro enxuto e primoroso, com poucos personagens. Um drama da
melhor qualidade, que representou Singapura na disputa do Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro em 2017, além de ter sido indicado ao prêmio “Um Certain Regard” no
Festival de Cannes 2016. Também foi premiado em vários festivais de cinema pelo
mundo afora. Um filme que merece ser visto por quem aprecia cinema de
qualidade.
“DE CABEÇA ERGUIDA” (“La Tête
Haute”), 2015, França, direção da atriz e diretora
Emmanuelle Bercot, que também escreveu o roteiro em conjunto com Marcia Romano.
A história é centrada em Malonny (Rod Paradot), um jovem delinquente que, aos
seis anos, é abandonado por Séverine (Sara Forestier), uma mãe irresponsável
que desistiu de cuidar do garoto, afirmando à juíza Florence Baque (Catherine
Deneuve) que “ele é um delinquente desde que começou a andar”. Sob a tutela do
Estado francês, Malonny, nos dez anos seguintes, passou por vários
reformatórios, dos quais fugia para roubar carros. Dado a explosões de raiva
seguidas de agressões a quem estivesse à sua frente, Malony acabava sempre detido
e, em várias ocasiões, encaminhado à presença da juíza Florence, que lhe deu
todas as chances para se recuperar, sem nenhum sucesso. Florence resolveu então
indicar um tutor de sua confiança, Yann (Benoit Magimel), que vai tentar de
tudo para convencer o garoto a ter um pouco de juízo. O filme é ótimo, com
destaque para o excelente desempenho do estreante Rod Paradot e da atriz Sara
Forestier, que interpreta sua mãe. O filme foi selecionado para ser exibido na
abertura do Festival de Cannes 2015. Aliás, desde 1987 que um filme dirigido
por uma mulher não abria o aclamado festival. Por aqui, foi exibido também em
2015 durante a programação do Festival Varilux de Cinema Francês.