domingo, 14 de julho de 2019


“JOGO DUPLO” (“THE PADRE”), 2018, Estados Unidos/Canadá, 1h32m, terceiro longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta canadense Jonathan Sobol. Ambientada numa cidade qualquer do interior da Colômbia, a história é centrada no vigarista que aplicava golpes vestido de padre. Por isso, ficou conhecido como “O Padre” (Tim Roth). Em seu encalço estavam o juiz da corte norte-americana e ex-oficial do exército dos EUA Nemes (Nick Nolte) e o policial local Gaspar (Luís Guzmán). Pelo meio do filme, ficamos sabendo que Nemes tinha um outro motivo particular para caçar “O Padre”. Enquanto isso, em meio às suas picaretagens, “O Padre” acaba conhecendo a jovem Lena (Valeria Henríquez), que acaba de fugir de casa para tentar ingressar nos Estados Unidos e resgatar sua irmã mais nova, adotada por uma família norte-americana. Para essa missão, ela chantageia “O Padre”, dizendo que, se ele não a ajudasse, ela o entregaria às autoridades. Durante a fuga, a dupla planeja o roubo a uma igreja que possui objetos litúrgicos de alto valor, inclusive um grande cálice de ouro. E dá-lhe perseguição, num misto de suspense e road movie. Embora com excelentes atores como Nick Nolte e Tim Roth, quem se destaca no elenco é a jovem atriz colombiana Valeria Henríquez, cuja atuação lhe valeu uma indicação de Melhor Atriz no Canadian Screen Awards. Resumo da ópera: nada de especial para recomendar “Jogo Duplo”, que classifico apenas como mediano.   

sexta-feira, 12 de julho de 2019


“UMA QUESTÃO PESSOAL” (“UNA QUESTIONE PRIVATA”), 2017, Itália, 1h25m, roteiro e direção de Paolo Taviani. Trata-se de uma adaptação livre para o cinema do romance de Beppe Fenoglio, publicado em 1963. A história é ambientada na região de Piemonte durante a Segunda Guerra Mundial, quando os fascistas de Mussolini, em apoio aos nazistas de Hitler, perseguiam, prendiam e matavam os partisans membros da Resistência italiana. Uns anos antes, Milton (Luca Marinelli), Giorgio (Lorenzo Richelmy) e Fulvia (Valentina Bellè) eram amigos inseparáveis. Amavam passear, tomar um bom vinho, dançar e ouvir jazz. Fulvia não tirava da vitrola (muita gente talvez não saiba, mas vitrola era o toca-discos da época) o disco de Judy Garland cantando “Over the Rainbow” (trilha sonora do "O Mágico de Oz". Fulvia sabia a letra de cor e salteado. Resumindo: Milton e Giorgio se apaixonaram por Fulvia, mas aí veio a Segunda Guerra Mundial e separou o trio. Fulvia foi enviada para um lugar longe do conflito, Milton e Giorgio entraram para a Resistência, cada qual em um batalhão diferente. Quando Milton retornou à casa de Fulvia, encontrou a velha governanta. Conversa vai, ela deixa a entender que Giorgio teve um caso com Fulvia. Milton fica transtornado, louco de ciúmes, e sai à procura de Giorgio para esclarecer a verdade. Descobre, porém, que Giorgio foi aprisionado pelos fascistas, mas mesmo assim fará de tudo para chegar até ele. Apesar do contexto de guerra, o filme explora a paixão doentia de Milton por um amor antigo que dificilmente se concretizará novamente diante da situação de guerra. Para ele, a verdade sobre o relacionamento de Fulvia com Giorgio vira uma obsessão paranoica, “Uma Questão Pessoal”. Com o irmão Vittorio doente – faleceu em 2018 -, Paolo Taviani trabalhou praticamente sozinho no roteiro e na direção. Beirando os noventa, Paolo, ainda mais sem o irmão, talvez não tenha folego para continuar filmando. Se isso realmente acontecer, será uma pena para o cinema. Lembro que os Taviani foram responsáveis por grandes clássicos do cinema italiano, como "Pai Patrão" e "La Notte Di San Lorenzo", entre tantos outros.     

terça-feira, 9 de julho de 2019


“SUPREMA” (“ON THE BASIS OF SEX”), 2018, EUA, 2h1m, direção de Mimi Leder, com roteiro assinado por Daniel Stiepleman. Trata-se da cinebiografia da juíza Ruth Bader Ginsburg, segunda mulher a integrar a Suprema Corte dos Estados Unidos – ela foi nomeada em 1993 pelo presidente Bill Clinton. O filme começa lá pela segunda metade dos anos 50, quando Ruth ingressa na prestigiosa Universidade de Harvard, mesmo casada e mãe. Quando o marido foi transferido para Nova Iorque, Ruth conseguiu vaga na também prestigiosa Columbia para prosseguir seus estudos. Em ambas as faculdades, Ruth sempre foi a primeira da classe. Formada, saiu à procura de emprego em vários escritórios de advocacia. Foi recusada em quase todos, pois na época os homens eram os privilegiados com as vagas - além dela ser judia, é claro. Num dos escritórios, ouviu do entrevistador que as mulheres não eram bem-vindas por causa dos ciúmes que talvez provocassem nas esposas dos seus advogados. Na verdade, na sociedade norte-americana machista e conservadora da época, as mulheres não tinham muita chance – ela conseguiu vaga como professora universitária de Direito. A partir dessa desigualdade é que Ruth encontrou o filão para se destacar no Direito. Desafiou as leis que discriminavam as mulheres, defendeu a igualdade de gênero, enfrentou os tribunais com sua oratória envolvente, conhecimento e inteligência, culminando com a sua indicação à Suprema Corte. Uma história de coragem e perseverança. Para se ter uma ideia da sua importância, Ruth foi eleita, em 2015, pela Revista Time, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. No filme, Ruth é interpretada por Felicity Jones (“A Teoria de Tudo”), atriz inglesa muito competente, simpática e charmosa, mesmo baixinha e dentucinha. Na verdade, o papel seria de Natalie Portman, que desistiu na última hora. Completam o elenco Armie Hammer como Martin Ginsburg, marido de Ruth, Sam Waterston, Justin Theroux e a sempre eficiente Kathy Bates. Tudo bem que tem muito blá-blá-blá, mas blá-blá-blá do mais alto nível envolvendo leis, constituição e, acima de tudo, questões de justiça. Filmão!


segunda-feira, 8 de julho de 2019


“A MULA” (“The Mule”), 2018, EUA, 1h55m, é o mais novo filme dirigido por Clint Eastwood. Ele também interpreta o personagem principal, Earl Stone, um idoso de 90 anos preso depois de transportar, durante dois anos, mais de 1 tonelada de drogas a serviço do cartel mexicano Sinaloa. Utilizando sua velha pick-up e depois uma mais moderna, Stone levava drogas do México para Michigan. Stone foi escolhido porque tinha o perfil perfeito para passar sem desconfianças pela fronteira e pelas barreiras policiais. Além do fato de ser um idoso de aspecto ilibado, embora um péssimo pai e marido, era respeitado como cidadão que lutou durante a Segunda Guerra Mundial contra os nazistas na Itália e também como paisagista, decorador e floricultor. Porém, nem ele nem os traficantes contavam com a astúcia da equipe comandada pelo agente Colin Bates (Bradley Cooper), do Departamento de Narcóticos dos EUA. Ainda fazem parte do elenco de "A Mula" Dianne West, Taissa Farmiga (irmã de Vera), Andy Garcia, Laurence Fishburn, Michael Peña e Alison Eastwood (filha mais velha de Clint). Embora difícil de acreditar, a história é totalmente baseada em fatos reais. Ou seja, na vida do norte-americano Leo Earl Sharp (1924-2016), preso em 2011 e condenado a cumprir uma pena de três anos. Também conhecido como “El Tata”, Sharp trabalhou para o cartel de drogas comandado pelo poderoso chefão mexicano Laton, no filme interpretado por Andy García. Para escrever o roteiro, Nick Schenck (“Gran Torino”, também dirigido e interpretado por Eastwood) se inspirou na reportagem “A Mula de Drogas de 90 Anos do Cartel Sinaloa”, escrita por Sam Dolnick e publicada pelo Jornal New York Times em 2014. Para quem viu tantos filmes ótimos com a assinatura de Eastwood, "A Mula" certamente será motivo de decepção. Sem dúvida, um dos mais fracos do grande astro norte-americano. Em todo caso, Eastwood é Eastwood, e só por isso vale colocar o filme para rodar.    

sábado, 6 de julho de 2019


“O RETORNO DE BEN” (“BEN IS BACK”), 2018, EUA, 1h42m, roteiro e direção de Peter Hedges. O Ben do título (Lucas Hedges, filho do diretor) é um jovem problemático que sai da reabilitação e volta para a casa na véspera de Natal. Detalhe importante: sem avisar a família. Holly Burns (Júlia Roberts), a mãe, é a única que o recebe de braços abertos e cheia de amor, ao contrário do padastro Neal Beeby (Courtney B. Vance), convencido de que Ben certamente não está totalmente curado e que, por isso, tem grandes chances de estragar a harmonia da família. Dito e feito. Holly tenta ser amorosa e protetora, ao mesmo tempo em que se mostra durona a ponto de seguir o filho até no banheiro. Quando a família retorna da missa de Natal, constata que desconhecidos invadiram a casa, destruíram vários objetos e sequestraram o cachorro de estimação. Desconfiam que os responsáveis têm tudo a ver com o passado turbulento de Ben, que, além de consumir, vendia drogas para o traficante local. Holly e o filho partem noite afora para tentar achar o cachorro. A partir daí a tensão aumenta cada vez mais e o filme se transforma num verdadeiro suspense. De qualquer forma, a mensagem principal é o amor incondicional de uma mãe por seu filho, capaz de sacrificar a família e arriscar o próprio casamento para defendê-lo e protegê-lo. Aqui, merece destaque a força dramática da atuação de Júlia Roberts. Longe da fogosa prostituta de “Uma Linda Mulher” (1990) e da moça romântica de “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (1997), Júlia, aos 51 anos, prova que a maturidade e a experiência foram capazes de torná-la uma atriz ainda melhor, como já havia provado em dramas como “Erin Brockovich” (2000), “Álbum de Família” (2013) e  “Extraordinário (2017).  O jovem Lucas Hedges também prova mais uma vez que é um ator dos mais promissores. Ele já havia se destacado em filmes como “Boy Erased: Uma Verdade Anulada”, “Anos 90” e “Manchester à Beira-Mar”. Voltando a “O Retorno de Ben”, o classifico como um dos melhores dramas dos últimos anos envolvendo a questão das drogas e suas consequências para a família.         

quarta-feira, 3 de julho de 2019


“BELOS SONHOS” (“FAI BEI SOGNI”), 2016, Itália, 2h14m, direção de Marco Bellocchio, que também assina o roteiro com a colaboração de Valia Santella e Edoardo Albinati. A história foi adaptada do livro de memórias de Massimo Gramellini, jornalista italiano de grande destaque como profissional do Jornal La Stampa e, atualmente, do Corriere Della Sera. Final dos anos 60. O filme começa mostrando a relação afetuosa entre o menino Massimo (Dario Dal Pero), de 9 anos, e sua jovem mãe (Barbara Ronchi). São inseparáveis, vão ao cinema, passeiam juntos, dançam hits do rock da época, assistem a filmes de terror na TV, enfim, são felizes como toda mãe e filho deveriam ser. Essa felicidade seria abalada quando ela morre repentinamente. Massimo não aceita o que aconteceu e a explicação do seu pai (Guido Caprino) é que ela teve um infarto fulminante. O filme dá um corte abrupto e pula para meados da década de 90, quando Massimo, adulto e já um consagrado jornalista, ainda carrega as lembranças da mãe. Quando ele resolve vender a casa onde moravam, acaba descobrindo, por intermédio de um recorte de jornal, a verdadeira causa da morte de sua mãe. E entra em parafuso, incluindo ataques de pânico e outros traumas. É nesse período que conhece Elisa (a atriz argentina Bérénice Bejo, de “O Artista”), uma médica que o atende num ambulatório de Turim – a cidade onde toda a história é ambientada. Em “Belos Sonhos”, Bellocchio, continua explorando os temas Família, Fé e Política, como já havia feito na maioria dos seus filmes, como “Bom Dia, Noite” e “Vinceri”, só para citar dois. Seu mais recente trabalho deve chegar logo aos cinemas. Trata-se de “Il Traditore” (“O Traidor”), sobre o mafioso Tommaso Buscetta. No elenco, com atuação bastante elogiada, a atriz brasileira Maria Fernanda Cândido. “Belos Sonhos” foi escolhido como filme de abertura da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, depois de ser exibido no Festival de Cannes, onde saiu cheio de elogios. Realmente, o filme é excelente, sensível, comovente e bem-humorado. Imperdível!    

terça-feira, 2 de julho de 2019


“O HOMEM COM O CORAÇÃO DE FERRO” (“The Man with The Iron Heart”), 2017, coprodução França/Inglaterra/Bélgica/EUA, 120 minutos, terceiro longa-metragem dirigido por Cédric Jimenez (“A Conexão Francesa”), que também assina o roteiro com a colaboração de David Farr e Audrey Diwan. A história, baseada em fatos reais, foi inspirada no livro “HHHH”, do escritor francês Laurent Binet. Até a metade do filme, o foco principal recai sobre a ascensão do líder nazista Reinhard Heydrich (Jason Clarke), principal arquiteto da “Solução Final”, e que chegaria ao posto de chefe das SS e Gestapo. Depois que ele sofre um atentado em Praga (Tchecoslováquia, hoje República Checa), em 1942, o filme passa a acompanhar a perseguição dos nazistas a dois membros da resistência tcheca, Jan Kubis (Jack O’Connell) e Jozef Gabcik (Jack Reynor), acusados de serem os autores – o planejamento foi feito pelos ingleses, que denominaram a operação de “Antropóide”. O filme tem uma grande produção, uma esmerada recriação de época e cenários deslumbrantes – as filmagens ocorreram em Praga, cidade dos eventos, e em Budapest (Hungria) -, sem contar o ótimo elenco, onde se destacam, além de Jason Clark, em atuação inspirada como o líder nazista, Jack O’Connell e Jack Reynor, Rosamund Pike, Céline Sallette, Mia Wasirowska, Gilles Lellouche e Enzo Cilente. Para quem gosta de fatos históricos, principalmente ligados à Segunda Grande Guerra, trata-se de um filmaço!    

domingo, 30 de junho de 2019



"A OLIVEIRA" (“El Olivo”), 2016, Espanha, 1h40m. Belíssimo drama repleto de momentos comoventes, de grande sensibilidade, e, melhor, de muito humor. Criada na zona rural do interior da Província de Castellón, desde criança a jovem Alma (Anna Castillo) sempre foi apegada ao avô Ramón (Manuel Cucala), que de repente deixou de falar e entrou num estado de demência, não conhecendo mais ninguém. A grande paixão de Ramón era uma oliveira muita antiga que pertencia à família há várias gerações e onde Alma sempre sentava para conversar com o avô. Quando Alma tinha 10 anos e Ramón já estava doente, a família resolveu vender a árvore para um empresário alemão. Dez anos depois, Alma, vendo que a saúde do avô piorava, resolve encontrar a tal oliveira e trazer de volta para Ramón, acreditando que assim ele recuperaria a sanidade. Com a ajuda de uma amiga craque em internet, ela descobre que a oliveira está exposta no salão de entrada da sede de uma grande empresa na cidade alemã de Düsseldorf. Apelando para a chantagem emocional, Alma convence o amigo Rafa (Pep Ambrós) e o tio Alcachofra (Javier Gutiérrez) a viajar de caminhão para a Alemanha com o objetivo de resgatar a árvore. A direção do filme leva a assinatura da atriz e diretora Icíar Bollaín. O primoroso roteiro ficou a cargo de Paul Laverty, um veterano no ramo, autor de muitos roteiros para o diretor inglês Ken Loach, tais como “A Parte dos Anjos”, “Ventos da Liberdade”, “Eu, Daniel Blake” e “Jimmy's Hall”, entre outros. "A Oliveira" foi exibido por aqui durante a programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2018, e, que eu me lembre, não frequentou os cinemas. Como escrevi no início deste comentário, trata-se de um filme bastante sensível e emotivo, um dos mais bonitos que assisti nos últimos anos. Simplesmente imperdível!

sábado, 29 de junho de 2019



“A FILHA DA MÁFIA” (“Victoria Gotti: My Father’s Daughter”), 2019, EUA, Lifetimes Movies – estreou no Brasil na TV fechada no dia 9 de junho de 2019 -, 1h26m, roteiro e direção de Catherine Cyran. A história é baseada em fatos reais relatados no livro de memórias de Victoria Gotti (“The Family of Mine: What It Was Like Growing Up Gotti”), filha do poderoso John Gotti, chefão da Família Gambino, que nos anos 60, 70 e 80 dominou a cena do crime em Nova Iorque. O filme apresenta a rotina particular de Gotti (Maurice Bernard), sua esposa Butch (Ronda Dent) e os quatro filhos, entre os quais Victoria (Chelsea Frei) era a que tinha maior proximidade com o pai. O longa foi produzido pela própria Victoria, que aparece várias vezes narrando os principais acontecimentos. Com imagens da época, "A Filha da Máfia" reproduz com eficácia o clima reinante em Nova Iorque, dominada pelo crime organizado, leia-se a máfia italiana. John Gotti já havia sido personagem principal de outro filme, “Gotti”, de 2018, com John Travolta interpretando o mafioso. Meus elogios à “A Filha da Máfia” são suspeitos, pois sempre adorei filmes envolvendo a Máfia. Mesmo sendo do mal, acho seus personagens fascinantes. O melhor filme que já assisti no gênero foi “Os Bons Companheiros”, de 1990, dirigido por Martin Scorsese.

quinta-feira, 27 de junho de 2019



“DAGUERREÓTIPO – O SEGREDO DO QUARTO ESCURO” (“Le Secret de La Chambre Noire”), 2017, França, 131 minutos, direção do japonês Kiyoshi Kurosawa (nenhum parentesco com o mestre Akira Kurosawa), que também assina o roteiro com a colaboração de Catherine Paillé e Eléonore Mahmoudian. Trata-se de um suspense com pitadas de terror psicológico. Nada explícito, porém, apenas vozes do além e aparições de fantasmas. O suspense é muito bem elaborado (Kiyoshi é considerado um especialista no gênero – “Pulse” e “Cure” foram dirigidos por ele). Ele utiliza muito o recurso da câmera em slow motion percorrendo um ambiente e antevendo algum susto. Vamos à história do filme: o jovem Jean (Tahar Rahim) é contratado como assistente de Stéphane Hégray (Olivier Gourmet), um famoso fotógrafo de moda que vive enclausurado em sua mansão após a morte trágica de sua esposa Denise. Para realizar suas fotos, Stéphane utiliza o Daguerreótipo, equipamento antigo dos primórdios da fotografia. E, como seu modelo preferido, ele recruta a filha Marie (Constance Rousseau), que se submete a extenuantes sessões de foto que costumam durar horas (o Daguerreótipo exige 10 minutos, no mínimo, de exposição à luz solar para obter uma imagem satisfatória). Quando Stéphane começa a dar sinais de loucura, Marie e Jean resolver bolar um plano para convencê-lo a vender a velha e carcomida mansão e faturar uma grana com a comissão. O filme é tecnicamente bem feito, mantendo o suspense do começo ao fim e, como principal trunfo, conta com dois excelentes atores franceses, Olivier Gourmet e Tahar Rahim. Conta ainda com uma ponta de luxo, o ator Mathieu Amalric. Tudo bem que Kiyoshi Kurosawa não é nenhum Akira, mas comprova mais uma vez que é um bom cineasta.  

terça-feira, 25 de junho de 2019



“OS GIGANTES NÃO EXISTEM” (“LOS GIGANTES NO EXISTEN” – a tradução literal para o português é minha, já que o filme não chegou por aqui e nem deve chegar), 2017, coprodução Guatemala/Espanha, 1h22m, direção de Chema Rodríguez, que também assina o roteiro juntamente com Francisco Vargas e Leon Siminiani. A história, baseada em fatos reais, é ambientada em 1982, no auge da Guerra Civil da Guatemala (1960-1996). O personagem verdadeiro, no qual o roteiro foi inspirado, é Jesus Tecú Osorio, único sobrevivente do massacre do Vilarejo de Rio Negro, onde foram mortos 176 civis, entre mulheres, idosos e crianças. A matança foi obra do Exército Nacional da Guatemala e dos integrantes do PAC (Patrulhamento da Audofesa Civil). No filme, Jesus foi transformado em Andrés (José Javier Martinez), de 9 anos, que após o massacre foi sequestrado e obrigado a trabalhar como escravo do violento Pedro (Rafael Rojas), um sujeito que mora num casebre miserável e que mantém uma banca de legumes na feira do seu vilarejo. Maria (Patricia Orantes), esposa doente de Pedro, se afeiçoa ao garoto e o trata como filho. Essa situação dura cerca de dois anos, quando de repente aparece a irmã mais velha de Andrés com objetivo de resgatá-lo. O filme é bastante pesado, num cenário de miséria, tristeza e medo. Nesse contexto, o diretor espanhol Chema Rodríguez (é o seu segundo longa-metragem) é implacável em aumentar ainda mais a carga dramática e o impacto da história, incluindo algumas cenas bastante chocantes. Ou seja, não é um filme agradável de se ver. De qualquer forma, foi escolhido para ser exibido nas seleções oficiais dos festivais de cinema de Chicago, Roma, Guadalajara, Punta Del Este e Sevilha, recebendo rasgados elogios da crítica.  

domingo, 23 de junho de 2019


“DUAS RAINHAS” (“MARY QUEEN OF SCOTS”), 2018, co-produção EUA/Inglaterra, 2h05m, primeiro longa-metragem de Josie Rourke, mais conhecida na Inglaterra como diretora de teatro. O roteiro, escrito por Beau Willimon (o mesmo de “House of Cards”), foi inspirado no livro “My Heart Is My Own: The Life of Mary Queen of Scots”, escrito pelo biógrafo e historiador John Guy. Existem vários bons motivos para indicar este belo filme de época. Primeiro, a história em si, ambientada no século 16 e baseada em fatos reais, ou seja, os acontecimentos que fazem parte da história de Inglaterra e Escócia, incluindo o relacionamento conflituoso entre a Escócia da Rainha Mary Stuart e a Inglaterra da Rainha Elizabeth I. Segundo, a primorosa recriação da época, com cenários suntuosos e maravilhosos figurinos (o filme foi um dos finalistas na disputa do Oscar 2019 de Melhor Figurino), além do excelente trabalho de maquiagem. A fotografia, que leva a assinatura do premiado John Matheson, é outro grande destaque. Mas o que mais me impressionou foi o trabalho dessas duas grandes atrizes, Saoirse Ronan como Mary Stuart e Margot Robbie como Elizabeth I. Nem mesmo a pesada maquiagem e o nariz postiço conseguiram deixar feia a australiana Margot Robbie, talvez a atriz mais bonita do cinema atual. A norte-americana Saoirse Ronan firma-se como uma das melhores atrizes do momento, tendo atuado em filmes como “O Grande Hotel Budapeste”, “Brooklyn” e “Lady Bird: A Hora de Voar”, entre tantos outros. Nunca fui muito fã de filmes de época, mas já assisti a alguns muito bons, o mais recente deles “A Favorita” e agora “Duas Rainhas”. Não percam!   

sábado, 22 de junho de 2019


“CHOQUE E PAVOR – A VERDADE IMPORTA” (“SCHOCK AND AWE”), 2017, Estados Unidos, 1h32m, direção de Rob Reiner, com roteiro de Joey Hartstone. Baseada em fatos reais, a história aborda os bastidores da cobertura da imprensa norte-americana após os atentados de 11 de setembro de 2001. Primeiro, as tentativas fracassadas de capturar Osama Bin Laden no Afganistão. Logo depois, o alvo do governo norte-americano seria o Iraque de Saddam Hussein. Para justificar a invasão do país árabe, o governo Bush garantia que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Será que isso era verdade? O governo norte-americano afirmava que sim, mas não apresentava provas concretas. É aí que entram em ação os principais órgãos de comunicação do Tio Sam. O filme apresenta os fatos a partir da cobertura de dois jornalistas da editoria política da empresa Knight Ridder, especializada na publicação de jornais e internet. Designados pelo editor-chefe John Walcott (papel do diretor Rob Reiner), Warren Strobel (James Marsden) e Jonathan Landay (Woody Harrelson) saíram a campo para verificar se realmente o Iraque tinha o tal arsenal de armas de destruição em massa. Uma parte da imprensa norte-americana defendia a invasão, confiando nas versões oficiais do governo, principalmente os conservadores The Washington Post e o The New York Times. A disputa pelas informações corretas levou a imprensa norte-americana a uma verdade guerra. O editor John Walcott até chegou a contratar o jornalista Joe Galloway (Tommy Lee Jones), veterano na cobertura da Guerra do Vietnam, para auxiliar os trabalhos investigativos. O filme, elaborado num ritmo ágil, quase alucinante, destaca muitas informações importantes sobre aquele período histórico e revela as sequelas da guerra sobre os jovens soldados que morreram ou voltaram mutilados. A pergunta que ficou no ar: valeu a pena sacrificar tanta gente, incluindo as perdas humanas da população civil do Iraque? O filme é excelente, justificando a fama de Rob Reiner como um dos cineastas mais importantes da atualidade – é só lembrar que ele é responsável por filmes como o clássico “Conta Comigo”, “O Lobo de Wall Street”, “Um Amor de Vizinha” e tantos outros. “Choque e Pavor” também tem mulheres bonitas: Jessica Biel e Mila Jovovich. Filme indicado para estudantes e profissionais de jornalismo, mas o público em geral deve assistir também, pois contempla um fato histórico da maior importância.     

quinta-feira, 20 de junho de 2019


“O PACIENTE”, 2018, Brasil – Globo Filmes – 1h40, direção de Sérgio Rezende, com roteiro de Gustavo Liptzein. O filme revela, com detalhes, tudo o que se passou durante os dias em que Tancredo Neves ficou internado. Os bastidores desse período, ilustrados com imagens da época, estão no filme de Sérgio Rezende, cineasta que se notabilizou por realizar obras enfocando personagens e eventos históricos nacionais, entre as quais “Guerra de Canudos”, “Mauá – O Imperador e Rei”, “Lamarca” e “Zuzu Angel – assisti a todos, ótimos. No caso de “O Paciente”, o roteiro foi adaptado do livro “O Paciente – O Caso Tancredo Neves”, escrito pelo historiador Luís Mir e lançado em 2010. Para escrever o livro, Mir fez uma extensa pesquisa e realizou várias entrevistas com os envolvidos, além de ler os prontuários médicos e documentos, até então confidenciais, do Hospital de Base de Brasília e do Instituto do Coração, em São Paulo. O drama começa três dias antes antes da posse, quando Tancredo (Othon Bastos) começa a sentir fortes dores abdominais. Ao contrário dos conselhos médicos, que recomendaram uma operação urgente, já que se tratava de uma apendicite, Tancredo se recusou a ser operado, pois queria de qualquer jeito tomar posse e evitar uma possível crise institucional. Ele temia, por exemplo, que se caso José Sarney assumisse em seu lugar, o então presidente João Figueiredo não aceitaria entregar a faixa, o que de fato aconteceu. Tancredo piorou e aí ele foi submetido a uma primeira cirurgia, que revelou não ser o caso de apendicite e sim de diverticulite. O filme segue revelando detalhes dos bastidores, o sofrimento de Tancredo com as várias cirurgias e procedimentos, a angústia da família – e de todo o País -, as desavenças entre os médicos – quase teve pancadaria -, o despreparo não só dos médicos como do Hospital de Base de Brasília, e a transferência do ilustre paciente para o Instituto do Coração, em São Paulo, onde acabaria falecendo no dia 21 de abril de 1985, deixando o posto vazio para o glorioso José Sarney – e deu no que deu. Além de Othon Bastos, em atuação comovente, estão no elenco Leonardo Franco, Paulo Betti, Leonardo Medeiros, Esther Góes, Otávio Müller, Eucir de Souza, Luciana Braga, Emílio Dantas e Lucas Drummond. Achei o filme excelente, tenso, revelador, angustiante, reservando para o seu desfecho Milton Nascimento cantando “Coração de Estudante” – de marejar os olhos. Imperdível!     

quarta-feira, 19 de junho de 2019


“O PAI DE ITALIA” (“IL PADRE D’ITALIA”), 2017, Itália, 1h22m, direção de Fabio Mollori, que também assina o roteiro com a colaboração de Josella Porto. A história começa mostrando a tristeza do jovem homossexual Paolo (Luca Marinelli), devastado com o fim do relacionamento de oito anos com o namorado Mario (Mario Sgueglia). Ainda em depressão e com a intenção de esquecer o antigo amante, Paolo vai a uma discoteca gay tentando conhecer um novo parceiro, mas quem ele acaba conhecendo é a jovem Mia (Isabella Ragonese, ótima), que faz bico como cantora em "inferninhos", mas nunca se destacou. Ela também está em fase depressiva, depois de ser abandonada grávida pelo namorado. Ou seja, juntou a fome com a vontade de comer. Paolo se propõe a ajudar a moça a encontrar o pai da criança. Para isso, pega “emprestado” o carro de serviço da loja de móveis onde trabalha. Paolo e Mia saem de Turim e iniciam um verdadeiro périplo turístico, passando por Asti, Roma e chegando até Nápoles, onde mora a família conservadora de Mia. O filme se transforma num road movie. Afinal, quem assumirá a filha que Mia está esperando? Claro, “O Pai de Italia”. Mas quem será? Assista e desvende o mistério. Não é que o filme seja ruim, mas achei exagero o fato de que tenha sido premiado em vários festivais – na verdade, nenhum que seja importante. Enfim, vale pela excelente atuação da dupla principal de protagonistas e pelos cenários deslumbrantes, valorizados pela ótima fotografia assinada por Daria D'Antonio, além de alguns momentos sensíveis e comoventes.     

segunda-feira, 17 de junho de 2019


“GLORIA BELL”, 2018, EUA, 1h41. Trata-se do remake do filme chileno “Glória”, de 2013, que disputou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O roteirista e diretor Sebastián Lelio é o mesmo do original chileno. Gloria Bell (Julianne Moore) é uma cinquentona divorciada há quatro anos que, para espantar a solidão, costuma ir às discotecas de Los Angeles frequentadas por pessoas de meia-idade. Abro aqui um parêntese especial para destacar a deliciosa trilha sonora, com hits da disco anos 70, como “Ring My Bell”, “Gloria” etc., além de Paul McCartney. Bem, voltemos à história. Entre um e outro romance/sexo casual, Gloria acaba conhecendo Arnold (John Torturro), um sujeito também solitário e divorciado, que vive em função dos problemas das filhas. O romance entre os dois transcorre aos trancos e barrancos, principalmente devido à insegurança de Arnold, situação que segue até o desfecho, quando Gloria Bell resolve agir com força e determinação, características de sua personalidade. Resumo da ópera: o filme é bom, mas inferior ao original chileno. Seu único trunfo é contar com a maravilhosa Julianne Moore, cuja atuação também é espetacular, como a da chilena Paulina Garcia – só que Julianne Moore não teve coragem de encarar o nu frontal de Paulina, apesar de aparecer nua em várias cenas. Nunca fui fã do ator John Torturro e continuo não sendo. Acho ele um chato. Todos os remakes que assisti foram mais fracos que os originais. Posso até citar alguns: “Olhos da Justiça”, com Julia Roberts, adaptação do espetacular argentino “O Segredo dos Seus Olhos”; o sueco “Millennium: Os Homens que não Amavam as Mulheres”, que Hollywood transformou em remake; o francês “Os Intocáveis”, que ganhou versões do cinema argentino e do norte-americano; “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”, original argentino, copiado pelo cinema francês como “Um Amor à Altura”.   

domingo, 16 de junho de 2019


Será possível fazer um bom drama romanceado dentro do depósito de mercadorias de um supermercado? E ainda incluir cenas poéticas com uma empilhadeira? O drama alemão “NOS CORREDORES” (“IN DEN GÄNEM”), 2018, prova que sim, graças à criatividade e à sensibilidade do roteirista e diretor Thomas Stuber, que conseguiu um resultado final recheado de cenas tocantes, sem deixar de lado o humor. A história é centrada no jovem Christian (Franz Rogowski), um sujeito solitário, tímido, triste e misterioso - aparentemente com um passado obscuro. Ele é contratado por um supermercado para trabalhar como ajudante do setor de bebidas. Seu chefe é Bruno (Peter Kurth), um cinquentão boa gente que ensina tudo o que sabe a Christian, inclusive dirigir empilhadeiras para recolher ou estocar mercadorias. Independente do cargo acima, Bruno faz amizade com Christian. Este, por sua vez, trabalha sério e ganha a confiança não só de Bruno como dos demais colegas de trabalho. Christian também faz amizade com Marion (Sandra Hüller), uma mulher que vive um casamento infeliz. Christian logo se apaixona por ela, mas por causa de sua timidez e pelo fato da moça ser casada, resolve não tomar a iniciativa. Mas tá na cara que ela também se afeiçoa por Christian. Praticamente toda a ação do filme transcorre num único cenário, justamente os corredores do setor de abastecimento. Eu já conhecia o ótimo ator Franz Rogowski do filme “Em Trânsito”. Ele é aquele ator que um dia eu comparei ao norte-americano Joaquim Phoenix, inclusive pelo lábio leporino. "Nos Corredores" recebeu vários prêmios em festivais pelo mundo afora, inclusive no 68º Festival de Berlim, em fevereiro de 2018, onde teve sua primeira exibição. Drama alemão da melhor qualidade.    

sábado, 15 de junho de 2019


“TRAGO COMIGO”, 2016, Brasil, 1h24m, direção de Tata Amaral. Em 2009, Tata Amaral dirigiu uma minissérie produzida pela TV Cultura, em que tratava das memórias dos anos de chumbo da Ditadura Militar. O mesmo tema proporcionou a ideia de se criar um filme, com o mesmo nome e a mesma diretora, mas com uma concepção diferente, um filme/peça teatral dentro de um filme. Ótima ideia, desenvolvida com muita competência pelos roteiristas Thiago Dotori e Willem Dias. Vamos à história: Telmo Marinicov (Carlos Alberto Riccelli, em ótima atuação) é um ex-ator de teatro que militou na luta armada, lá pelo final da década de 60, assaltando bancos e cometendo sequestros e atentados. Depois de preso e exilado, Telmo volta ao Brasil e se consolida como um dos mais importantes diretores de teatro. Numa entrevista que concede a um documentário falando sobre aquela época, Telmo tem um lapso de memória ao ser questionado sobre sua namorada e militante Lia. Ele não consegue lembrar o que aconteceu com ela. Telmo resolve então montar uma peça teatral em que revive os momentos mais marcantes de sua militância. O enredo do filme destaca desde a seleção de atores, jovens e amadores, os ensaios num velho teatro reformado e a dificuldade de Telmo em transmitir o comportamento e a ideologia dos jovens militantes na época dos anos de chumbo. Apesar do contexto dramático, ainda há espaço para boas tiradas de humor. Durante a projeção, o espectador terá a oportunidade de ouvir vários depoimentos emocionados de militantes que foram vítimas da repressão, acabaram presos e submetidos a interrogatórios na base da tortura. O filme se desenrola praticamente num cenário, ou seja, no palco onde a peça é ensaiada. Mesmo assim, não há um minuto de conforto ou monotonia, pois a vitalidade das situações e dos diálogos prende a atenção até o desfecho revelador. Além de Riccelli, estão no elenco, entre outros, Georgina Castro, Selma Egrei, Felipe Rocha, Emílio Di Biasi e Maria Helena Chira. "Trago Comigo" é ótimo, capaz de comprovar que ainda existe vida inteligente no cinema nacional. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019


“O ÚLTIMO GOLPE DE MARTELO” (“Le Dernier Coup de Marteau” – a tradução em português é minha, já que o filme não chegou por aqui – nos países de língua inglesa, ganhou o título de “The Last Hammer Blow”), 2014, França, 1h22m, segundo longa-metragem escrito e dirigido pela cineasta francesa Alix Delaporte. A história toda é centrada no adolescente Victor (Romaín Paul), de 13 anos, que vive com a mãe doente Nadia (Clotilde Hesme) num velho e maltratado trailer à beira-mar na periferia pobre da cidade de Montpellier. Victor está dividido entre cuidar da mãe, que tem um câncer terminal, e participar dos treinos de uma equipe de futebol amadora, da qual é um dos atletas de maior destaque. Quando sua mãe desiste de reformar o trailer por não ter dinheiro e comunica a Victor que pretende se mudar para a casa dos pais, em outra cidade, o garoto sai em busca de ajuda do seu pai biológico, o maestro Samuel Rovinski (Grégory Gadebois), regente da Orquestra Sinfônica de Montpellier. Rovinski não sabia da existência do filho e o encontro dos dois reserva ao espectador alguns momentos comoventes e sensíveis do filme, cuja primeira exibição aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Veneza, durante o qual Roman Paul recebeu o Prêmio “Marcello Mastroianni” de Melhor Ator Jovem. Para aumentar ainda mais o tom dramático da história, a diretora Delaporte utilizou na trilha sonora trechos da Sinfonia nº 6 em Lá Menor de Gustav Mahler, também conhecida como a "Trágica". Resumo da ópera: o filme é excelente, um drama francês da melhor qualidade. Especial para espectadores que curtem o bom cinema europeu.         

terça-feira, 11 de junho de 2019


“MUSEU” (“MUSEO”), 2018, México, 2h06m, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Alonso Ruizpalacios. A história é baseada num fato real ocorrido em dezembro de 1985 na Cidade do México, ou seja, o roubo de 140 peças pré-hispânicas de alto valor histórico do Museu Nacional de Antropologia. O filme acompanha a façanha dos dois ladrões, os estudantes de Veterinária Juan Núñez (Gael García Bernal) e Benjamin Wilson (Leonardo Ortizgris), desde o início do planejamento do roubo, sua execução e depois as tentativas frustradas de vender as peças. No início do filme, a frase “Esta é uma réplica da história original” dá o tom de sátira ao que assistiremos. Embora baseado em fatos reais, o diretor Ruizpalacios trata tudo o que aconteceu com bastante humor, aliviando a carga dramática que poderia se esperar de um acontecimento sério que despertou a revolta de toda a população mexicana. Só para se ter uma ideia do tipo de humor utilizado por Ruizpalacios, numa cena em que Juan e Benjamin são parados na estrada, um dos policiais olha para Juan/Gael García Bernal e pergunta se ele é o famoso ator e pede um autógrafo. Aliás, por falar em Gael García Bernal, o ator está bastante à vontade no papel. Embora não goste muito dele, tenho de concordar que ele está ótimo. “Museu” estreou no 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018, conquistando o Prêmio de Melhor Roteiro. Por aqui, fez parte da programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Museu” é mais uma prova da excelente fase do cinema mexicano, que na disputa dos últimos cinco Oscars de Melhor Diretor, venceu quatro, dois para Alejandro G. Iñarritu, um para Guillermo Del Toro e mais um para Alfonso Cuáron, sem falar no Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro conquistado por “Roma”.     

segunda-feira, 10 de junho de 2019


 “HISTÓRIAS DE UMA VIDA” (“LE COLLIER ROUGE”), 2018, França, 1h23m, direção do veterano Jean Becker, que também escreveu o roteiro inspirado no romance homônimo de Jean-Christophe Rufin, lançado em 2014. A história, ambientada no verão de 1919, é centrada no soldado Morlac (Nicolas Duvauchelle), herói francês da Primeira Guerra Mundial e agora prisioneiro numa penitenciária da pequena aldeia de Montabron. Ele foi preso por ter cometido um crime contra a pátria, recusando-se a pedir desculpas mesmo correndo o risco de ser fuzilado. O comandante Lantier Du Grezz (François Cluzet), juiz militar, é designado para cuidar do caso, em especial convencer Morlac de pedir perdão, livrando-o da execução.  Quando chega pela primeira vez à prisão, o comandante Lantier vê que há um cão latindo sem parar bem na porta. O pessoal da aldeia esclarece que o cachorro pertence a Morlac, foi com ele para a guerra, participou de algumas batalhas e agora sofre com seu dono preso. Enquanto isso, Lantier segue conversando com Morlac, que conta tudo como aconteceu, inclusive sua paixão por Valentine (Sophie Verbeeck), proprietária de um pequeno sítio onde cria cabras. Em flashbacks, o diretor Jean Becker relembra o início desse romance, a amizade de Morlac com o cão e algumas batalhas durante a guerra. Em resumo, o cachorro terá um papel fundamental na decisão do comandante, assim como Valentine. O filme é bastante simpático, tem o trunfo de ter no elenco três bons atores como François Cluzet, Nicolas Duvauchelle e a bela Sophie Verbeeck. O filme marca o retorno de Jean Becker na direção, lembrando que ele tem no currículo bons filmes como “Um Crime no Paraíso”, “Dois Dias para Esquecer” e o ótimo “Conversas com meu Jardineiro”.    
          

domingo, 9 de junho de 2019


“O AMANTE DUPLO” (“L’AMANT DOUBLE”), 2018, França/Bélgica, 1h47m, roteiro e direção de François Ozon. Trata-se de um suspense inspirado no romance “Lives of the Twins”, da consagrada escritora norte-americana Joyce Carol Oates. A história é centrada em Chloé (Marine Vacth), funcionária de um museu que sofre com dores no estômago. Ela é submetida a uma série de exames clínicos que não detectam qualquer tipo de problema físico. Os médicos, então, a aconselham a procurar um psicólogo. Ela então marca consulta com Paul (o ator belga Jérémie Renier), iniciando uma série de sessões de terapia, durante as quais surge uma atração sexual entre ambos. Quando o romance fica mais sério, Chloé é recomendada a outro psicólogo, Louis (também Renier), irmão gêmeo de Paul. Logo surge também uma atração sexual e Chloé fica dividida entre um e outro, até descobrir segredos sombrios sobre o passado dos irmãos. Paul, por exemplo, foi casado com uma moça chamada Sandra, filha da sra. Schenker (Jacqueline Bisset). Aí o enredo fica ainda mais complexo, depois que Chloé descobre um terrível segredo sobre o seu próprio passado. Enfim, mais um bom suspense de Ozon, cujo estilo lembra muito Hitchcock e Brian De Palma. “O Amante Duplo” é recheado de erotismo e muitas cenas de sexo e nudez, as quais, segundo o crítico de cinema Paulo Villaça, fazem “50 Tons de Cinza” parecer Frozen. Realmente, o erotismo de Ozon beira o explícito. Marine Vacth é linda e ótima atriz. Jérémie Renier, fazendo os dois irmãos, também merece destaque, provando mais uma vez que é um excelente ator. O filme estreou no Festival de Cannes 2018 e causou grande polêmica pelo modo como foi feito, dividindo os críticos. Por aqui, foi uma das atrações da programação oficial do Festival Variux de Cinema Francês, em junho de 2018. O filme é muito bom e ratifica François Ozon como um dos mais importantes cineastas da atualidade (é um dos meus preferidos). Com a assinatura de Ozon, recomendo filmes como “Dentro de Casa” (2013), “Frantz” (2017), “Uma Nova Amiga” (2015), Swimming Pool (2003) e “Jovem e Bela” (2013), este último também com Marine Vacth. É Ozon, portanto, imperdível!