“O
OUTRO LADO DA ESPERANÇA” (“TOIVON TUOLLA PUOLEN”), Finlândia, 2017, é o 17º longa-metragem
escrito e dirigido por Aki Kaurismäki, o mais importante diretor do cinema
finlandês da atualidade. Lembro, especialmente, de outros ótimos filmes de
Kaurismäki, como “O Homem sem Passado” e “O Porto”, este último rodado na França
com elenco francês. Neste seu mais recente filme, o pano de fundo da história é
a situação dos refugiados na Europa, representados na figura do sírio Khaled (Sherwan Haji), que
foge da guerra civil de seu país, percorre vários países da Europa e acaba na
Finlândia, escondido num navio cargueiro. Paralelamente à história de Khaled, Kaurismäki
apresenta a trajetória de outro personagem, o vendedor ambulante Wisktröm
(Sakari Kuosmanen), que larga não só o trabalho como também a esposa alcoólatra,
decide comprar um restaurante decadente e assume os empregados mais esquisitos do
mundo. Por uma dessas coincidências da vida, Khaled vai parar no restaurante de
Wisktröm e ajudar a reerguê-lo. Embora trate de uma questão séria como a dos
refugiados, Kaurismäki recheia a história com muito humor, um humor cínico e
irônico. Mesmo nas situações mais hilariantes, os personagens mantêm suas fisionomias
sérias, um recurso que funciona muito bem nesta ótima comédia finlandesa. O filme foi exibido pela primeira vez no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017, e Kaurismäki recebeu o Urso de Prata como Melhor Diretor. Muito justo, pois o filme é simplesmente imperdível!
domingo, 29 de abril de 2018

De vez em quando faz bem para o cérebro
assistir a uma comédia boba, sem compromisso com os neurônios do espectador. Com
esse objetivo, escolhi assistir à produção espanhola “ABRACADABRA”, 2017, escrita e dirigida por Pablo Berger, mesmo
diretor do ótimo “Blancanieves” e “Torremolinos”. Também me motivou a presença
da diva espanhola Maribel Verdú, uma bela e excelente atriz. A história é
fantasiosa, abordando o sobrenatural, tudo levado no maior bom humor. Carmen (Verdú)
é uma dona de casa dedicada à família e, principalmente, ao marido Carlos
(Antonio de La Torre). Um dia, porém, ela percebe que Carlos começa a ter
atitudes estranhas. Depois de muito observar o comportamento de Carlos, Carmen
chega a uma terrível conclusão: seu marido foi possuído por algum espírito
maligno. Ao lado do cunhado maluco e de um charlatão, Carmen vai tentar
descobrir a identidade do tal espírito e, assim, fazer o marido voltar ao normal. Esse
contexto dá margem a situações bastante engraçadas. Mas no quarto final a
comédia perde o ritmo e se transforma num dramalhão mexicano, aliás, espanhol.
Mesmo com alguns defeitos, o filme foi indicado em várias categorias no Prêmio
Goya (o Oscar espanhol). Resumo da ópera: uma grande bobagem, mas muito
divertida.
Embora tenha assistido a alguns bons
filmes no gênero, nunca fui chegado a histórias com temática gay,
principalmente por causa das cenas de sexo entre dois homens, por exemplo, mesmo
que sejam realizadas com alguma sensibilidade, como é o caso do drama romântico
“ME CHAME PELO SEU NOME” (“CALL ME BY
YOUR NAME”), coprodução EUA/Itália/França/Brasil (isso mesmo, tem um brasileiro,
Rodrigo Teixeira, no time de produção). A direção é do italiano Luca Guadagnino
(“100 Escovadas Antes de Dormir”), com roteiro do consagrado James Ivory
(diretor de “Vestígios do Dia”). A história é baseada no romance homônimo do
escritor egípcio André Aciman e ambientada em 1983. A família do professor
Perlman, especialista em cultura grego-romana, está passando as férias de verão
numa casa de campo no interior da Itália. Logo chega o acadêmico Oliver (Armie
Hammer) para ajudar o professor numa pesquisa arqueológica. Os diálogos, tanto
em inglês, italiano e francês, contêm uma grande dose de erudição,
principalmente quando o assunto é arte. Até o surgimento de Oliver, o jovem Elio
(Timothée Chalamet), 17 anos, filho do professor, saía com uma turma de jovens
e uma delas era sua namorada. Elio e Oliver acabam ficando amigos inseparáveis e, depois, muito mais do que amigos. O filme é de grande beleza estética, incluindo a excelente
fotografia, locações e cenários deslumbrantes. Estreou no Sundance Festival e
também foi exibido durante o 42º Festival de Toronto, em setembro de 2017.
Embora a ala conservadora de Hollywood tenha criticado sua temática, o filme
ganhou o Oscar 2018 na categoria “Roteiro Adaptado”. Não é para qualquer
público, principalmente aquele cuja cultura está no nível do carpete.
sábado, 28 de abril de 2018
Todo mundo que se liga em cinema lembra
que “Rocky, um Lutador” levou ao estrelato o ator Sylvester Stallone. Mas
poucos sabem que o personagem foi inspirado num tal de Chuck Wepner, lutador
peso-pesado que nos anos 70 ficou famoso ao resistir a 15 assaltos com o então
campeão Muhammad Ali (ex-Cassius Clay). Stallone achou o gancho para criar o
personagem Rocky Balboa. Toda essa incrível história está contada no drama “PUNHOS DE SANGUE – A VERDADEIRA HISTÓRIA
DE ROCKY BALBOA” (“CHUCK”), 2016, direção do canadense Phillipe Falardeau,
com roteiro de Liev Schreiber, Jeff Feverzeig, Jerry Stahl e Michael Cristofer.
O elenco é ótimo: Liev Schreiber, Naomi Watts, Ron Perlman e Elisabeth Moss. O
filme revela que Chuck Wepner viveu frustrado por não ter ganho nada com os
filmes de Stallone, a ponto de estragar o relacionamento com sua esposa e quase
acabar na sarjeta das drogas, sendo salvo por uma admiradora atendente de bar.
O filme é ótimo, as cenas de luta são espetaculares e o desempenho de Schreiber
é simplesmente incrível. Um ótimo programa para uma sessão da tarde.
“A
COMUNIDADE” (“Kollektivet”),
2016, Dinamarca, roteiro e direção de Thomas Vinterberg. Comédia dramática
ambientada nos anos 70. Erik (Ulrich Thomsen) e Anna (Trine Dyrholm) vivem com
a filha adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansem) numa bela casa num
bairro elegante de Copenhague. Ele, professor universitário, ela apresentadora
de telejornal numa importante emissora de TV. Como a vida ficou difícil, as
contas aumentaram, eles resolvem convidar alguns amigos para morar junto e,
assim, dividir as despesas. Dessa forma, nasce uma comunidade nos moldes da
filosofia hippie, com regras estabelecidas, muita paz e amor. Almoços,
jantares, festas, muita cantoria e alegria geral. Todos vivem como se fossem uma
família feliz. Até que Erik, motivado pelo ar libertário, resolve levar a
amante Emma (Helene Relngaar Neumann, esposa do diretor na vida real), sua
estudante na universidade, para morar com a turma. Aí a maionese desanda de vez,
colocando em risco a convivência pacífica que prevalecia deste o início. De
qualquer forma, trata-se de um filme bastante agradável de assistir, com uma
trilha sonora saborosa, destacando o clássico “Goodbye Yellow Brick Road”, de
Elton John. Trata-se de mais um filme polêmico do diretor dinamarquês Vinterberg,
considerado um dos percursores do movimento Dogma 95 com o filme “Festa de
Família”. Vinterberg também é responsável por filmes excelentes como “A Caça” e
“Submarino”. Um ótimo programa para quem curte filmes de qualidade. Sem falar
que a atuação de Trine Dyrholm, talvez a principal atriz dinamarquesa da atualidade , é simplesmente maravilhosa. Para terminar o comentário, basta dizer que o filme foi o mais aplaudido pelo público e crítica do Festival de Cannes.
sexta-feira, 27 de abril de 2018
“PARIS
PODE ESPERAR” (“PARIS CAN WAIT”),
2016, roteiro e direção de Leonor Coppola (isso mesmo, a esposa do consagrado
diretor Francis Ford Coppola). Michael Lockwood (Alec Baldwin) está com a
esposa Anne (Diane Lane) no Festival de Cannes. Ele é um famoso produtor de
Hollywood e ela uma fotógrafa amadora. Ao fim do festival, o casal havia
programado ir até Paris para alguns dias de férias. Mas eis que surge um
imprevisto e Michael é obrigado a viajar para Budapeste (Hungria) com o
objetivo de supervisionar uma importante produção internacional. Ele pede ao
seu sócio francês Jacques Clément (Arnaud Viard) que acompanhe Anne até Paris. Um
risco e tanto deixar a esposa aos cuidados desse charmoso francês. Será que
Anne resistirá aos encantos de Clément? Tchan, tchan, tchan... Já começa quando
Anne pede que encurtem a viagem: Clément responde que “Paris pode esperar”. Daí
em diante, ele levará Anne por um verdadeiro roteiro romântico pelo interior da
França, incluindo paisagens deslumbrantes, restaurantes típicos, gastronomia,
vinhos e cultura histórica das cidades visitadas. Este foi o primeiro
longa-metragem de ficção dirigido por Leonor, mais conhecida como
documentarista. Leonor é mãe de outros dois cineastas, Sofia e Roman Coppola.
Um filme muito simpático, agradável de assistir, ainda mais com o charme e a beleza
madura da atriz Diane Lane. Aliás, o roteiro lembra muito um filme estrelado também
por Diane em 2003, “Sob o Sol da Toscana”.
quinta-feira, 26 de abril de 2018

segunda-feira, 16 de abril de 2018
“O MASSACRE DE VOLÍNIA” (“WOLYN”), Polônia, 2016, roteiro e direção de Wojtka Smarzowskiego.
Drama histórico que relembra um dos maiores massacres ocorridos na Polônia
durante a Segunda Grande Guerra. Como se sabe, a Polônia foi invadida pelos alemães
em setembro de 1939, dando início àquele que é considerado o maior conflito
mundial do Século XX. Enquanto as tropas nazistas entravam pelo oeste, para
onde foi mobilizado praticamente todo o exército polonês, alguns dias depois os
russos invadiam o país pelo leste sem encontrar praticamente nenhuma
resistência. A região de Voivodia, especialmente o vilarejo de Volínia, povoada
por poloneses, ucranianos e judeus, foi a primeira a enfrentar o terror infligido
pelos russos e depois pelos alemães. Além de russos e alemães, os habitantes de
Volínia ainda sofreram uma limpeza étnica por parte dos ucranianos – chamados de
“bandeiristas” - que mataram milhares de poloneses. O filme, em duas horas e
meia, mostra de forma bastante realista o sofrimento dos habitantes de Volínia,
incluindo cenas que certamente não farão nada bem ao estômago do espectador
mais sensível. Paralelamente a toda essa tragédia, o diretor Wojtka conta a
história de amor entre dois jovens habitantes de Volínia, a bela polonesa Zosia
Glowacka (Michalina Labacz) e o ucraniano Petro (Wasyl Wasylik). Zosia é
obrigada pelo pai a casar com um comerciante rico, em troca de alguns acres de terra,
algumas galinhas e um cavalo. De qualquer forma, o cenário trágico da guerra e
do massacre de Volínia é que prevalece neste excelente drama polonês. Vale a
pena conhecer – pelo lado histórico - mais esse fato triste e lamentável
ocorrido durante a Segunda Guerra. Sofrimento e maldade na sua mais pura
essência. Apesar de tudo, imperdível!
sábado, 14 de abril de 2018

sexta-feira, 13 de abril de 2018
Mais do que um filme muito
interessante e sensível, “LUCKY”,
2017, EUA, homenageia um dos atores mais importantes do cinema e da TV
norte-americanos: Harry Dean Stanton. Sua longa carreira começou em 1954 e
partir de então deslanchou com participações marcantes em séries como Bat
Masterson, O Fugitivo, Paladino do Oeste etc. No cinema, também marcou presença
em clássicos como “No Calor da Noite”, “O Poderoso Chefão 2”, “Paris, Texas” e “À
Espera de um Milagre”, entre tantos outros. Em “Lucky”, Stanton faz o papel principal, o velho Lucky, de 91 anos, solitário,
preso a uma rotina que inclui fazer alguns alongamentos logo que acorda ao som
de um tango, tomar café da manhã na lanchonete do Joe (Barry Shabaka Henley),
onde resolve palavras cruzadas, e no final da tarde curtir um Bloody Mary no bar de Elaine (Beth Grant).
Nos dois lugares, Stanton conversa com todo mundo e sempre tem na ponta da
língua um sarcasmo implacável. Aliás, o que mais gostei no filme foram os
diálogos. “Lucky” também seus momentos bem-humorados e sensíveis, como quando
ele canta, durante uma festa, uma bela canção mariach em espanhol. O filme ficou com cara de homenagem póstuma a
Stanton, que faleceu no mesmo mês (setembro de 2017) em que foi lançado nos
cinemas dos Estados Unidos. “Lucky”
foi o primeiro filme dirigido pelo conhecido ator John Carroll Lynch, com
roteiro de Logan Sparks e Drago Sumonja. Do elenco, também participam Ron
Livingston, David Linch, Tom Skerritt e James Darren. Enfim, um filme para quem
curte cinema de qualidade, digno de um ator que ficou conhecido como uma lenda do cinema independente norte-americano. Não perca!
segunda-feira, 9 de abril de 2018
“DEPOIS DAQUELA MONTANHA” (“THE MOUNTAIN BETWEEN US”), EUA,
2017, estrelando Kate Winslet, Idris Alba, Beau Bridges e Dermot Mulroney. Não se engane com o bom elenco. O
filme é um ABACAXI com letra maiúscula. A fotojornalista Alex (Winslet) e o
neurocirurgião Ben (Alba) estão num aeroporto aguardando o mesmo vôo. Não se
conhecem. Ela está a caminho da cidade onde casará com Mark (Mulroney). Ben está
voltando de um congresso médico. Como o
vôo é cancelado, os dois resolvem alugar um pequeno avião, com um piloto (Bridges)
que não oferece a mínima confiança. Tava na cara que algo trágico estava prestes
a acontecer. E não dá outra: o avião cai numa região montanhosa (fiquei sem
saber onde fica essa região; o filme não explica; só fiquei sabendo que as
gravações aconteceram no Canadá). Alex e Ben, além do cão labrador órfão do
piloto, tentam sobreviver ao frio intenso, tempestades de neve, quedas e nenhuma comida. E dá-lhe papo furado, num ritmo arrastado e monótono. Os dois
acabam tendo um romance que parece ter ficado para trás depois que conseguem
voltar à civilização. O desfecho é constrangedor. Consegue ser pior do que aqueles
finais horríveis daqueles filmes românticos
da pior qualidade. A grande surpresa foi constatar que o diretor é o israelense
Hany Abu-Assad, que havia dirigido dois filmes excelentes, “Paradise Now”,
indicado ao Oscar 2006, e “Omar”, também indicado ao Oscar, desta vez em 2014. O
roteiro ficou a cargo de J. Mills Goodloe e Chris Weitz, que adaptaram a
história do livro “The Mountain Between Us”, de Charles Martin. Difícil
acreditar que ótimos atores como Kate Winslet e Idris Alba tenham concordado em
participar de tamanha bomba. Se eles correram risco durante as filmagens, isso
eu não sei, mas o perigo maior sobrou para o espectador: perigo de um sono
profundo.
domingo, 8 de abril de 2018
“NA FLOR DA IDADE” (título
original “GRZELI NATELI DGEEBI”; em inglês, ficou “IN BLOOM”), 2013, roteiro e direção de Nana
Ekvtimishvili e Simon Grob. O filme foi selecionado para representar a ex-república
soviética da Geórgia na disputa do Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro (vencido
pelo italiano “La Grande Bellezza”). A história, ambientada no início dos anos
90 em Tbilisi, capital da Geórgia, é centrada na amizade entre as adolescentes
Eka (Lika Babluani) e Natia (Mariam Bokeria), mas o pano de fundo é o momento
dramático vivido pelo país. Na época, a Geórgia tinha acabado de proclamar sua
independência, logo após o colapso da União Soviética. A situação no país era
de caos: guerra civil, desabastecimento de comida e constantes apagões de
energia elétrica. Filas imensas para conseguir um pedaço de pão terminavam
sempre em confusão. Dentro desse clima sombrio, Eka e Natia viviam às turras
com suas respectivas famílias: o pai de uma era um bêbado crônico e o da outra
estava preso já há algum tempo. Mas elas seguiam sua vida em frente, se comportando
como todos os jovens da sua idade. Aliás, o enredo reserva um bom espaço para explorar o comportamento da juventude georgiana. A amizade entre Eka e Natia sempre
esteve acima dos problemas e algumas desavenças. O mais interessante do filme,
porém, é o destaque dado ao modo de vida dos georgianos, suas tradições,
cultura e folclore. O melhor momento do filme, inclusive, é justamente uma festa de
casamento onde todo mundo dança ao som de uma música típica do país. O filme
não chegou a ser exibido por aqui no circuito comercial, apenas durante a 41ª
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro/novembro de 2017.
sábado, 7 de abril de 2018
Representante oficial da Islândia na disputa do Oscar 2018 de
Melhor Filmes Estrangeiro, “A SOMBRA DA ÁRVORE” (“UNDIR TRÉNU”), roteiro
e direção de Hafsteinn Gunnar Sigurdsson, é uma ótima comédia de humor negro. O enredo
percorre duas vertentes. Na primeira, Agnes (Lára Jóhanna Jónsdóttir) surpreende
o marido Atli (Steibór Hróar Steinbórsson) se masturbando na frente do
computador assistindo a um vídeo onde ele próprio faz sexo com outra mulher. O
casamento entra em crise e Atli volta a morar com os pais. Na segunda vertente,
a história é centrada em dois casais de vizinhos, um deles justamente os pais
de Atli, Inga (Edda Björguinsdóttir) e Baldwin (Sigurour Sigurjónsson), que vivem
a amargura da terceira idade, ela uma mulher insatisfeita e sempre disposta a
encarar uma briga. Na casa deles, uma grande árvore impede que os vizinhos Agnes
(Lára Jóhanna Jónsdóttir) e Atli (Steibór Hróar Steinbórsson) curtam o sol no
terraço. Começa a desavença, incluindo o sumiço do gato de Inga e do cachorro
pastor alemão de Agnes e Atli. Os casais se acusam pelo desaparecimento dos
bichos, transformando a convivência num verdadeiro inferno, com direito a
confrontos que terminam num verdadeiro banho de sangue. Apesar do contexto de
intolerância, tudo é levado no maior bom humor, tornando essa comédia um ótimo
entretenimento. Por aqui, foi exibido durante a programação da 41ª Mostra Internacional do Cinema de São Paulo, em out./nov. 2017.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
“EU, TONYA” (“I, TONYA”), 2017, EUA, direção do australiano Craig
Gillespie (“A Garota Ideal”, “Horas
Decisivas”), com roteiro de Steven Rogers. Trata-se da cinebiografia da
patinadora artística norte-americana Tonya Harding, que às vésperas dos Jogos
Olímpicos de Inverno de 1994 participou de um plano macabro, juntamente com o
marido Jeff Gillooly e mais dois amigos: ferir sua principal rival na época,
Nancy Kerrigan, impedindo-a de disputar a competição. Na época, o caso ficou
famoso no mundo inteiro, colocando-se entre as páginas mais tristes e chocantes
do mundo esportivo. O filme mostra o início da carreira vitoriosa de Tonya, que
aos 4 anos de idade já encantava os adeptos e os fãs da patinação artística no
gelo. Ano após ano, Tonya conquistaria inúmeros torneios, tornando-se a estrela
máxima do seu esporte, a única patinadora a realizar com perfeição o “Triple
Axel”, o mais difícil e complicado movimento da patinação artística. Poucos
sabiam, porém, que por trás dessa garota havia uma mãe obcecada, violenta e
descontrolada, responsável direta não apenas pela trajetória de Tonya, mas
também por tudo de mal que a garota seria capaz de fazer para conquistar suas
vitórias. Tonya só era feliz quando estava no ringue de patinação com os
holofotes e os aplausos do público. Na verdade, sua vida particular era um
verdadeiro inferno, com sua mãe insana e o marido que a espancava quase todo
dia. Não deixe de ver os créditos finais, que explicam os destinos que tiveram
os principais personagens da história. Tudo isso está em “Eu, Tonya”, que
consagrou a australiana Margot Robbie (Tonya) como uma ótima atriz, tendo sido
indicada para receber o Oscar 2018. Seu trabalho é excelente. O diretor Gillespie
tentou deixá-la menos linda, o que é impossível. Conseguiu pelo menos
desglamourizá-la. Eu mesmo achava, antes deste filme, que Margot Robbie era
mais bonita do que competente. Ela me convenceu também do contrário. Outro
destaque do filme é a veterana Allison Janney no papel de LaVona Harding, mãe
de Tonya, o que lhe valeu, com muita justiça, o Oscar 2018 de Melhor Atriz
Coadjuvante. Enfim, um ótimo programa para curtir na telinha.
domingo, 1 de abril de 2018

sábado, 31 de março de 2018
“COLHEITA AMARGA” (“Bitter
Harvest”), 2017,
Canadá, roteiro e direção do diretor alemão George Mendeluk. Trata-se de um
drama histórico baseado em fatos reais, ambientado nos primeiros anos da década
de 30 na Rússia. Stalin ordenou a
expropriação das terras produtivas dos agricultores ucranianos, alegando que
elas pertenciam ao estado russo. Como os ucranianos não concordaram, Stalin
simplesmente mandou seu exército confiscar tudo o que era produzido na Ucrânia.
Além disso, como uma espécie de vingança, lançou o Projeto “Holodomor”, cujo
objetivo era promover a morte da população da Ucrânia por inanição. O caso
ficou conhecido como o “holocausto ucraniano”, pois causou a morte de cerca de
10 milhões de ucranianos. Esse lamentável fato histórico somente viria a
público em 1991, logo depois da desintegração da União Soviética. Esse pavoroso
genocídio colocou Stalin como um assassino pior do que Hitler. “Colheita Amarga”, em sua
fase inicial, é ambientado no vilarejo ucraniano de Smila, onde vivem as
famílias de Yuri (Max Irons) e Natalka (Samantha Barks), ambas atingidas pela
perseguição violenta de Stalin. O avô de Yuri é um herói de guerra ucraniano,
Ivan Kachaniuk (Terence Stamp), opositor ferrenho de Stalin. Numa segunda fase,
a ação muda para Kiev, para onde vai Yuri tentar a vida e ganhar dinheiro para enviar
para sua família. O filme retrata de forma bastante realista o sofrimento do
povo ucraniano, com muitas cenas de execução e tortura. Nem mesmo o romance
entre Yuri e Natalka consegue amenizar o contexto dramático deste que foi
considerado um dos maiores genocídios do Século XX. O filme merece ser visto por retratar um fato histórico tão importante.
quarta-feira, 28 de março de 2018
“O SACRIFÍCIO DO CERVO
DOURADO” (“THE KILLING OF A SACRED DEER”), 2017, Inglaterra. O título já não é muito convidativo.
E a sensação de dúvida aumenta ainda mais quando a gente lê na sinopse que o
filme foi escrito e dirigido pelo diretor grego Yórgos Lánthimos, conhecido no
mundo da Sétima Arte como um autor de filmes esquisitos, tais como “Dente
Canino” e “O Lagosta”. Ou seja, um diretor excêntrico e hermético. Tentei desvendar o
segredo do título e descobri que se refere a uma tragédia grega escrita por
Eurípedes. O diretor Yórgos levou tão a sério que o filme realmente virou uma
tragédia, repulsivo, desconfortável, perturbador e lúgubre. E olha que o elenco
não é tão ruim: Colin Farrell, Nicole Kidman e Barry Keoghan (de “Dunkirk”), só
para citar os principais nomes. Vamos à história: em suas horas de folga, o
médico Steven Murphy (Farrell), um renomado cirurgião cardíaco, sempre conversa
com o jovem Martin (Keoghan). Há anos que os dois mantém uma relação de
verdadeiros amigos. Há um elo bastante forte que une os dois: o pai de
Martin morreu durante uma operação de coração realizada por Murphy. Aos poucos,
Martin vai se aproximando da família do médico, da esposa Anna (Kidman) e dos dois
filhos Bob (Sunny Suljic) e Kim (Raffey Cassidy). A partir daí, o filme se
transforma num suspense psicológico até que interessante: será que o garoto vai
atingir a família do médico para se vingar da morte do pai? Tchan, tchan,
tchan... Não espere explicações plausíveis para o que você vai ver. Pior de
tudo é que o filme venceu o Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes.
segunda-feira, 26 de março de 2018

sábado, 24 de março de 2018
“MÁS NOTÍCIAS PARA O SR. MARS” (“Des Nouvelles de La Planète Mars”), 2015,
França/Bélgica, roteiro e direção do alemão Dominik Moll. Trata-se de uma
comédia muito engraçada sobre um engenheiro, Phillippe Mars (François Damiens),
que de repente se vê às voltas com várias situações que vão deixá-lo à beira de
um ataque de nervos. Começa que sua ex-mulher, Myrian (Léa Drucker), uma
repórter de TV, é obrigada a cobrir um evento internacional em Bruxelas
(Bélgica) e pede a Phillippe que cuide dos seus dois filhos adolescentes. Como
se não bastasse, sua irmã Xanaé Mars (Olivia Cotê) promove uma exposição de
quadros nos quais retrata os pais completamente nús e, mais tarde, obriga Phillippe
a ficar com seu cachorrinho de estimação. O suplício de Phillippe ainda não
terminou. Jérôme (Vincent Macaigne), seu colega de trabalho no escritório, tem
um surto psicótico, é internado numa clínica e depois liberado, indo pedir “asilo”
na casa de Phillippe, levando a tiracolo uma paciente pela qual se apaixona, a
birutinha Chloé (a maravilhosa atriz belga Verlee Baetens, do ótimo “Alabama
Monroe”). A confusão está formada, garantindo boas risadas durante a maior
parte do tempo. Só que nos minutos finais, o filme perde o ritmo de comédia e
passa a adotar momentos do mais puro sentimentalismo, sem prejudicar o resultado final. Em todo caso, vale pelos diálogos bem humorados e pelas
situações divertidas. Uma delas, a aparição dos fantasmas dos pais de Phillippe, dois velhinhos simpáticos que alegram o ambiente. Sem dúvida, um ótimo programa.
sexta-feira, 23 de março de 2018
“O FILHO DE JOSEPH” (“Les Fils de Joseph”), 2016,
França, escrito e dirigido por Eugène Green. A história é centrada no jovem
Vincent (Victor Ezenfis), de 15 anos, criado pela mãe solteira Marie (Natacha
Régnier). Vincent insiste que ela revele o nome do seu pai, que durante anos foi um segredo trancado a sete chaves. A mãe sempre tinha a mesma resposta: “Você não tem pai”. Um dia, porém, Vincent, garoto
esperto, acaba descobrindo a identidade do pai, Oscar Pormenor (Mathieu
Amalric), um importante editor de livros. Em meio a uma vingança planejada por
Vincent contra o próprio pai, surge na história Joseph (Fabrizio Rongione),
irmão de Oscar, que aparece do nada para pedir um empréstimo. Logo fica
evidente que os irmãos nunca se deram e continuarão assim depois que Oscar recusa-se
a atender ao pedido de Joseph. Papo vai, papo vem, Joseph faz amizade com
Vincent, que fica interessado em Marie. Até
aí o filme fica interessante, mas perde o ritmo no final, principalmente quando, numa longa cena, Joseph,
Marie e Vincent caminham na praia com um burrinho, uma referência explícita à
cena bíblica de José e Maria a caminho de Belém. Trata-se de mais uma
excentricidade do diretor norte-americano radicado na França, responsável pelo elogiado
“La Sapienza”, também difícil de digerir. Na maioria de seus filmes, Eugène Green faz questão de colocar pitadas de humor negro, diálogos com pretensões intelectuais e uma certa erudição. Em "O Filho de Joseph", por exemplo, ele dá grande destaque a um quadro pendurado no quarto do jovem Vincent, "O Sacrifício de Isaac", pintado por Caravaggio no Século 17. Resumo da ópera: Eugène quis fazer um filme com pretensões intelectuais, mas acabou reforçando ainda mais a sua imagem de diretor excêntrico. Como informação adicional, lembro
que assinam a produção Luc e Jean-Pierre, conhecidos como os Irmãos Dardenne, consagrados
diretores belgas. “O Filho de Joseph” é apenas interessante, longe de agradar o
grande público.
segunda-feira, 19 de março de 2018
“ROMAN J. ISRAEL” (“Roman J. Israel, Esq.”), roteiro
e direção de Dan Gilroy (do excelente “O Abutre”, com Jake Gyllenhaal), conta a
história de um advogado criminalista brilhante, Roman Israel (Denzel
Washington), mas um tipo bastante estranho: gordo, desajeitado, roupas cafonas
e um cabelo “black power” igual aos
ativistas dos anos 60/70 – ele idolatra especialmente Angela Davis. Durante
anos, ele atuou nos bastidores do escritório e dos tribunais, elaborando as estratégias de defesa que seu
sócio, Willian Henry Jackson, utilizava, com grande sucesso nos julgamentos. Quando Willian sofre um ataque cardíaco e entra em coma, Roman é obrigado a
assumir o seu trabalho nos tribunais. Só que Roman é um advogado radicalmente
idealista, seguindo à risca os princípios morais e éticos da profissão. Pode estar
diante de um juiz no tribunal ou de um importante promotor, ele não tem medo de
enfrentar qualquer autoridade para fazer valer as suas convicções. Depois que seu
escritório é fechado, ele passa a trabalhar para outro advogado de sucesso,
George Pierce (o ator irlandês Colin Farrel), um verdadeiro “tubarão” no meio
jurídico, advogado/empresário que só enxerga o Direito como uma forma de ganhar
dinheiro, sem concessões à ética da profissão. Mais um grande trabalho de Denzel
Washington, que, pelo papel, foi indicado ao prêmio de “Melhor Ator” no Oscar
2018. Denzel já havia conquistado a estatueta de Melhor Ator em 2002 por “Dia
de Treinamento” e a de Melhor Ator Coadjuvante por “Glory”, em 1990. “Roman J. Israel” tem como seu maior
trunfo justamente o desempenho de Denzel, embora a história também seja ótima e
o filme muito bom.
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