quinta-feira, 25 de março de 2021

“PONTO VERMELHO” (“RED DOT”), 2020, Suécia, 1h25m, produção original Netflix (estreou dia 21 de março de 2021), direção de Alain Darborg, que também assina o roteiro com a colaboração de Per Dickson. Trata-se de um thriller com muito suspense do começo ao fim. A história tem início com o pedido de casamento feito por David (Anastasios Soulis) para Nadja (Nanna Blondell). Aliás, um pedido inusitado, feito no banheiro de uma espelunca. O filme dá um salto de um ano e meio, com eles já casados e em crise conjugal. Na tentativa de salvar o casamento, David propõe uma viagem de alguns dias para as montanhas do norte da Suécia. Só os dois e o cachorro de estimação, para acampar, em pleno inverno, com a promessa de uma noite romântica vendo a aurora boreal. Cá pra nós: dá para ter romantismo num local completamente ermo, com um frio muitos graus abaixo de zero? Típico programa de índio, aliás, de esquimó. Antes de chegar ao tal lugar romântico, eles param num posto para abastecer. Antes de voltar para a estrada, David calcula mal uma manobra e amassa a perua de dois caçadores. Estrago feito, eles saem de fininho e seguem viagem. Em meio a um frio danado, eles acampam no meio do nada. Não demora muito e eles percebem que alguém quer matá-los, ou pelo menos assustá-los, utilizando o ponto vermelho (lembra do título?) da mira de uma arma potente. Daí para a frente eles serão realmente caçados, provavelmente por aqueles caçadores do posto. A caçada segue até o desfecho, quando ocorre uma surpreendente reviravolta, ocasião em que o filme volta no tempo para resgatar um fato até então escondido do espectador. Resumo da ópera: “Ponto Vermelho” é apenas um bom suspense, mas nada especial que mereça uma recomendação entusiasmada.         

quarta-feira, 24 de março de 2021

 

“SINFONIA INACABADA” (“FUGA”), 2006, coprodução Argentina/Chile, 1h51m, roteiro e direção de Pablo Larraín. Resgatei esse filme na plataforma Netflix e o que mais me chamou a atenção foi o título, que remete a tema música clássica, gênero de música que eu adoro. Embora cinéfilo de carteirinha, não lembro de ter ouvido falar nesse filme. E, para minha surpresa, trata-se de um excelente drama. Começa apresentando Eliseo Montalbán (Benjamín Vicuña, ótimo), um jovem compositor envolvido com os ensaios de seu primeiro concerto para piano e orquestra. Teatro completamente lotado, a apresentação acaba numa tragédia: a morte da pianista da orquestra em pleno palco. A partir daí, Montalbán entra em parafuso e acaba num manicômio. Anos depois, o pianista e compositor Ricardo Coppa (Gastón Pauls) descobre a partitura daquele concerto, faltando a última parte. Obcecado por completar a obra, Coppa tenta descobrir o paradeiro de Montalbán. Ele finalmente encontra o manicômio onde Montalbán ficou internado, só que agora completamente abandonado e em ruínas. Mas Coppa não desiste e descobre, numa das paredes do prédio ainda de pé, uma nova partitura. Ele então resolve reunir três amigos músicos para interpretar a obra. A intensidade da música – eles a chamam de “sinfonia macabra” - começa a gerar conflitos entre Coppa e seu quarteto. Até que um dia ele finalmente descobre o paradeiro de Montalbán. O filme é muito bom, tanto que foi premiado em vários festivais, como os de Cartagena (Colômbia), Trieste (Itália) e Málaga (Espanha). Como informação adicional, lembro que “Sinfonia Inacabada” foi o primeiro longa-metragem dirigido pelo chileno Pablo Larraín, que depois faria outros excelentes e premiados filmes, como “O Clube”, “No” e “Neruda”, todos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de “Tony Manero”, “Post Mortem” e “Jackie”, este último realizado em Hollywood e que valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz para  Natalie Portman. Embora não muito fácil de digerir, “Sinfonia Inacabada” é um drama da melhor qualidade. Recomendo.       

       

terça-feira, 23 de março de 2021

“THE GIRL ON THE TRAIN”, 2020, Índia, 120 minutos, roteiro e direção de Ribbu Dasgupta. Trata-se de um suspense policial cuja história é baseada no livro da escritora inglesa Paula Hawkins, lançado em 2015 e que por 13 semanas figurou na lista dos mais vendidos do jornal “New York Times”. Natural que no ano seguinte Hollywood tenha resolvido adaptá-lo para o cinema, surgindo então “A Garota no Trem” (título em português, sendo que o original é o mesmo do livro). Em Portugal, o filme foi lançado como “A Rapariga no Comboio”. A versão norte-americana foi dirigida por Tate Taylor, com Emily Blunt encabeçando o elenco. O filme foi um grande sucesso de crítica e bilheteria. Agora chega o remake indiano, cujo título original foi mantido em inglês e está disponível na Netflix. O roteiro é praticamente o mesmo da primeira versão. Aqui vai um resumo do filme feito por Bollywood. O cenário é o mesmo do livro: Londres. A advogada Mira Kapoor (Parineeti Chopra, irmã da também atriz Priyanka Chopra) ajuda a colocar um mafioso na cadeia e acaba perseguida pela família dele. Ela vive um casamento tranquilo com o médico Shekhar Kapoor (Avinach Tiwary). O casal acaba de comemorar a gravidez dela quando ocorre um acidente automobilístico e ela perde o bebê. A partir dessa tragédia, Mira começa a beber demais, o que acaba resultando no fim do seu casamento. Ela logo descobrirá que Shekhar tem um caso com uma colega médica, dra. Nusrat (Aditi Rao Hydari). Através da janela que a leva todos os dias para o escritório, Mirá observa a casa onde morava e vê o ex-marido com a atual esposa, a tal médica, demonstrando a maior felicidade. Até o dia em que ela surpreende Nusrat no terraço com outro homem. É o estopim para que Mira aumente ainda mais o consumo de álcool, o que logo acaba custando o seu emprego. Com o excesso de bebidas e remédios, Mira começa a sofrer períodos de amnésia. Para não entrar em mais detalhes para não estragar as surpresas e revelar as reviravoltas do roteiro, vou adiantar apenas que Mira será a principal suspeita do assassinato de Nusrat, de acordo com a investigação chefiada pela inspetora Dalbir Bagga (Kirti Kulhari). Falado em inglês e hindi, o filme é repleto de situações que fazem o espectador não desgrudar os olhos da tela até o desfecho imprevisível. Não vou comparar os dois filmes, mas me obrigo a destacar que a história é ótima – como sempre nesses casos, o livro deve ser melhor que as adaptações para o cinema. O que chateia no filme indiano são as sequências daquelas cantorias irritantes típicas de Bollywood, que não combinam com o contexto dramático da história. Fora isso, dá para curtir como um bom suspense.           

segunda-feira, 22 de março de 2021

 

“SILENCIADAS” (“AKELARRE”), 2020, Espanha, 1h31m, roteiro e direção de Pablo Agüero, diretor argentino radicado na França. Disponível na plataforma Netflix, o filme foi inspirado numa história verídica ocorrida no auge da Inquisição, no início do século 17. Antes de iniciar o comentário em si, vou relatar o fato histórico. Em 1606, o rei Henrique IV da França e Navarra, encarregou o juiz francês Pierre de Rosceguy De Lancre de investigar possíveis práticas de feitiçaria nos territórios bascos da França. Foi iniciada, então, uma verdadeira "caça às bruxas”, culminando na morte de centenas de mulheres, conforme o próprio juiz relatou nos livros que escreveu antes de morrer. Mais de um século depois, essas histórias foram condensadas no livro “A Feiticeira”, de Jules Michelet, que serviu para a base do roteiro de Agüero. O filme é ambientado numa vila de pescadores do país basco. O juiz inquisidor Rostegui (Alex Brendemühl), acompanhado de um padre conselheiro (Daniel Fanego) e soldados, chega à vila e prende seis jovens mulheres para interrogatório. Elas são suspeitas de praticar o Sabbath, também conhecido como ritual das bruxas, durante o qual, segundo se acreditava, as mulheres se comunicavam e até se relacionavam sexualmente com o Lúcifer. A líder das jovens é Amaia (Amaia Aberasturi), que confessa ser mesmo uma bruxa e que, em troca de suas vidas, promete encenar o ritual para Rostegui. Quando se comunica com Lúcifer, Amaia fala uma língua desconhecida e aparentemente, para os inquisidores, diabólica, mas é, na verdade, o dialeto basco. O filme é muito interessante e esclarecedor sobre a tenebrosa época da inquisição e como eram realizados os interrogatórios, que não dispensavam a tortura. Além da história em si, outros destaques do filme são os excelentes desempenhos da jovem atriz Amaia Aberasturi e do veterano Alex Brendemühl, além do visual marcante proporcionado pela fotografia de Javier Agirre. “Silenciadas” recebeu seis indicações ao 8º Prêmio Feroz, da Asociación de Informadores Cinematográficos de Espanã, equivalente ao Globo de Ouro que antecede o Oscar norte-americano. Logo em seguida, recebeu nove indicações ao 35º Goya Awards (o Oscar espanhol), sendo premiado em cinco delas.                       

sábado, 20 de março de 2021

 

“MOMENTUM”, 2015, coprodução Estados Unidos/África do Sul, 1h36m, direção de Stephen Camanelli, seguindo roteiro escrito por Debra Sullivan e Adam Marcus. Só para esclarecer antes de começar o comentário: originária do latim, a palavra “Momentum” quer dizer impulso, ímpeto, força, pique. Trata-se, portanto, de um filme de ação com uma história mirabolante dentro de um enredo um tanto confuso. O filme começa com um assalto a um banco na cidade do Cabo (África do Sul). O objetivo dos assaltantes era roubar diamantes, sem saber que no meio deles havia um dispositivo eletrônico com um vídeo estarrecedor e comprometedor envolvendo um poderoso senador norte-americano (Morgan Freeman, em rápidas aparições). Entre os assaltantes está Alex Farraday (Olga Kurylenko), uma ladra com treinamento militar. Para encontrar quem roubou os diamantes e o tal dispositivo, o senador contrata um ex-agente da CIA e uma equipe de mercenários altamente treinados e violentos. O alvo principal é justamente Alex, que será caçada até o final da história. O filme tem ótimas sequências de ação, com muita pancadaria, tiros e perseguições de carro. Só para lembrar, durante muitos anos o diretor Stephen Campanelli foi operador de câmera daqueles filmes de ação do astro Clint Eastwood. “Momentum” também conta com mais um trunfo: a atriz ucraniana Olga Kurylenko. Além de bonita, competente e versátil, ela costuma arrasar em filmes de ação (veja abaixo uma relação deles), dispensando, em muitos deles, os seus dublês. Outro destaque é o ator inglês James Purefoy, que interpreta o vilão que vai atrás de Alex. Sua atuação é primorosa, alternando sadismo e violência com boas pitadas de humor, principalmente nos diálogos com sua vítima Alex. O elenco conta ainda com Ebby Weyime, Jenna Saras, Lee Reviv, Karl Thaning, Lee-Anne Summers, Daniel Fox, Aidan Whytock, Greg Kriek e Lisa Leonard. Resumo da ópera: “Momentum” é apenas um bom filme de ação que não insulta nossa inteligência. Como prometido, indico alguns filmes com a presença da ótima Olga Kurylenko, os quais vale a pena assistir: "007 - Quantum of Solace", "Oblivion", "Hitman - Assassino 47", "A Mensageira" e o recente "Sentinelle", além de outros mais.                         

quinta-feira, 18 de março de 2021

 

“ALÉM DA REALIDADE” (“WHEN THE BOUGH BREAKS”), 2017 1h47m, Estados Unidos, disponível na Netflix, direção de Jon Cassar, seguindo roteiro escrito por Jack Olsen. Apesar do lamentável título em português (a tradução literal do título original é “Quando o Ramo Quebrar”, que também não tem nada a ver com a história), trata-se de um ótimo suspense. John Taylor (Morris Chestnut) e sua esposa Laura Taylor (Regina Hall) resolvem procurar uma “barriga de aluguel” para gerar um filho através da “fertilização ‘in vitro’". Depois de procurar várias candidatas, eles escolhem a jovem Anna Walsh (Jaz Sinclair). Para conhecê-la melhor, John e Laura convidam a moça para jantar, juntamente com seu namorado, Mike Mitchell (Theo Rossi), um soldado do exército de folga. De cara, John não simpatiza com o comportamento do rapaz e depois diz a Laura que devem cancelar o acordo. Ela, porém, se encantou com o jeito doce e tímido de Anna e convence o marido a fechar o “negócio”, ou seja, firmar um contrato de gestação (proibido no Brasil), o que envolve uma boa soma de dinheiro para a gestante contratada. Dias depois de Anna ser submetida ao procedimento de inseminação, ela é espancada pelo namorado e acaba no hospital. John e Laura resolvem levá-la para sua confortável casa para que ela seja melhor cuidada durante a gestação. Aos poucos, porém, Anna acabará revelando uma personalidade completamente diferente daquela mocinha doce que aparentava ser. A partir daí, o suspense rola solto até o desfecho. Além da história em si e do roteiro bem elaborado, outro trunfo do filme é a atuação dos protagonistas principais, em especial da jovem atriz Jaz Sinclair, que arrasa quando se transforma, de repente, de mocinha carente a uma vilã psicótica. Além disso, ela também dá show quando precisa mostrar seu lado sensual. Resumindo, “Além da Realidade” é um ótimo suspense, prende a atenção do começo ao fim. Entretenimento de primeira!.                   

terça-feira, 16 de março de 2021

 

“FILHOS DE ISTAMBUL” (“KAHITTAN HAYATLAR”), 2020, Turquia, 1h37m, produção original Netflix (estreou na plataforma dia 12 de março de 2021), direção de Can Ulkay e roteiro de Ercan Mehmet Erdem. Mais um dramalhão para fazer chorar, assim como “O Milagre da Cela 7”, outro filme turco da Netflix. Dessa vez, a história é centrada no catador de papel Mehmet (Çagatay Ulusoy), que administra um lixão de um bairro pobre na periferia de Istambul. Ele é muito popular por sua bondade, pois há anos ajuda crianças e adolescentes órfãos e sem teto, dando-lhes emprego e até moradia. Certo dia ele encontra escondido num saco de lixo o garoto Ali (Emir Ali Dogrul), de 8 anos, abandonado pela mãe para evitar que ele continuasse a ser espancado pelo padrasto. Mehmet logo se identificou com o drama do garoto, pois ele mesmo havia passado pela mesma experiência na infância. Dessa forma, acolheu Ali em sua própria moradia, exercendo o papel de um verdadeiro pai. Para aumentar o grau de dramaticidade da história, o roteirista incorporou ao personagem de Mehmet uma doença renal grave, que só um transplante de rim poderá salvá-lo. Até o desfecho, que reserva uma revelação para aumentar ainda mais o nível das lágrimas, o filme acompanha a amizade fraterna entre Mehmet e o garoto, recheada de sequências pra lá de comoventes. Além da bonita história de amor, amizade e solidariedade, o filme apresenta belas imagens da capital turca, principalmente as noturnas. “Filhos de Istambul” emociona e convence como drama social. Um belo filme que merece ser visto.                      

segunda-feira, 15 de março de 2021

 

Tahar Rahim e Roschdy Zem são dois dos melhores e mais atuantes atores do cinema francês. Coincidentemente, são filhos de imigrantes árabes, Rahim de argelinos e Zem de marroquinos. Eles são os principais destaques do drama “O PREÇO DO SUCESSO” (“Le Pris Du Succès”), 2017, França, 1h32m, disponível na plataforma Netflix, direção de Teddy Lussi-Modeste (seu segundo longa), que também assina o roteiro com a colaboração de Rebecca Zlotowski. Tahar Rahim é Brahim Mecheri, um comediante de stand-up em ascensão, um sucesso capaz de arrastar multidões para os seus shows. Mourad Mecheri (Roschdy Zem) é seu irmão e empresário, que sempre se dizia responsável pelo sucesso de Brahim. No auge de sua ascensão, Brahim se apaixona por Linda (Maïwenn Le Besco), com quem pretende se casar. Como Linda não é muçulmana, a família Mecheri, ultraconservadora, nunca apoiou o namoro. Além disso, Brahim começou a se desentender com o irmão, cujo comportamento agressivo chegou ao limite quando ele agrediu Linda. Diante desses problemas, Brahim contratou um novo empresário, o que acabou desgastando ainda mais o relacionamento com Mourad e com sua própria família. “O Preço do Sucesso” estreou, com muitos elogios, na Seção de Apresentações Especiais do Toronto International Film Festival. Quando li que nos créditos havia os nomes de Tahim Rahim e Roschdy Zem, já sabia que o filme era bom. Aliás, ótimo e imperdível!                          

sábado, 13 de março de 2021

 

“O RECEPCIONISTA” (“THE NIGHT CLERK”), 2020, Estados Unidos, 1h30m, disponível na Netflix, roteiro e direção de Michael Cristofer. É um suspense policial centrado num rapaz autista. Mesmo com a evidente incapacidade de se relacionar com as pessoas e de se comunicar, Bart Bromley (Tye Sheridan) trabalha no turno da noite na recepção de um pequeno hotel. Para minimizar esse problema, o jovem resolveu estudar o comportamento das pessoas e, dessa forma, poder interagir socialmente. Só que, para isso, ele instala câmeras escondidas nos quartos do hotel. Da recepção, ele vê tudo o que se passa nos quartos. Até que uma noite ele presencia um homem agredindo violentamente uma mulher. Quando chega, ela está morta. Em estado de choque, ele senta na cama e fica olhando o cadáver, até que é surpreendido por seu colega que chegou para substituí-lo no plantão. A polícia é chamada e logo começa a investigar o que aconteceu. De cara, o detetive Espada (John Leguizamo) já considera o jovem autista como um possível suspeito, para a revolta e desespero de sua mãe superprotetora Ethel (Helen Hunt). Bart é transferido para outro hotel da rede, onde continua agindo como um verdadeiro voyeur, mas sem a maldade característica desse tipo de procedimento. Eis que chega ao hotel a bela Andrea Rivera (Ana de Armas), pela qual ele se apaixona. E, como se sabe, amor de autista não é normal. Daqui para a frente não dá para comentar muito para não correr o risco de antecipar a sequência da história. Gostaria de destacar alguns pontos desse filme. Primeiro, achei uma forçada de barra criarem um personagem problemático para um cargo tão importante do hotel – talvez menos, mas também absurdo como aquele médico da série “The Good Doctor”, que também é cirurgião, mesmo tendo a Síndrome de Savant e autismo. Enfim, é cinema. Outro destaque, desta vez, positivo, é a atuação espetacular do jovem ator Ty Sheridan, que me impressionou muito. Também me chamou a atenção a aparência envelhecida da atriz Helen Hunt, mas que continua bastante competente. Resumo da ópera: “O Recepcionista” consegue manter um certo suspense, mas o desfecho não contribuiu para que o filme mereça uma indicação entusiasmada.                            

sexta-feira, 12 de março de 2021

 

“18 PRESENTES” (“18 REGALI”), 2020, Itália, 1h55m, disponível na plataforma Netflix, direção de Francesco Amato, com roteiro de Massimo Gaudioso e Davide Lantiere. Dramalhão fantasioso feito para arrancar lágrimas. A história é baseada em um fato real ocorrido em 2017. Quando estava grávida de uma menina, Elisa Girotto, de 40 anos, descobriu um tumor maligno de mama inoperável já em fase de metástase. A criança, Anna, nasceu saudável e Elisa ainda viveria alguns meses. Antes de morrer, Elisa deixou uma série de anotações, entre as quais, além de conselhos para a filha, uma lista de 18 presentes que seu marido Alessio Vicenzotto deve providenciar a cada aniversário de Anna até os 18 anos de idade. Este é o fato real que inspirou o enredo do filme que deu margem à fantasia mirabolante dos dois roteiristas. Dessa forma, o filme acompanha cada aniversário de Anna, uma menina que cresceu rebelde e problemática, a ponto de detestar todos os presentes. Mesmo agora, aos 18 anos, Anna (Benedetta Porcaroli) continua dando trabalho para o pai Alessio (Edoardo Leo), a ponto de se recusar a participar da festa organizada para receber a família e amigos. Nesse dia, ela tem uma violenta discussão com o pai e sai correndo de casa, sendo atropelada. No tempo em que ficou desacordada no hospital, Anna, num passe de mágica, volta no tempo e reencontra sua mãe grávida (dela). A partir desse encontro – espiritual ou fantasmagórico? -, o filme irá destacar a amizade entre a filha e a mãe à beira da morte. Tem gente que diz ter chorado baldes, mas não achei assim tão chororô. Na verdade, até me decepcionei com o conjunto da obra. Apesar do bom desempenho do trio principal de atores, o filme não me emocionou. Pelo contrário, me entediou. Além da pandemia de covid e da atual situação econômica, se você quiser mais um motivo para chorar, então assista.                         

terça-feira, 9 de março de 2021

 

“DON OSCAR” (“LAVAPERROS”), 2020, Colômbia, 1h47m, produção original Netflix, direção de Carlos Moreno, seguindo roteiro de Pilar Quintana e Antonio García Angel. Na base na sátira, com pitadas de humor, “Don Oscar” conta a história de um traficante que já foi poderoso e que agora está em decadência. Para piorar, ele deve muito dinheiro a um traficante iniciante, que ameaçou matá-lo caso não honre a dívida. Além disso, a casa do ex-poderoso traficante está sendo vigiada pela polícia antidrogas. Nesse ponto, merece destaque a dupla de policiais encarregados dessa vigilância, responsáveis pelos momentos de maior humor. Pressionado por essa pressão policial e pela ameaças do outro traficante, Don Oscar (Christian Tappan, ótimo) resolve se esconder num sítio isolado na zona rural juntamente com um capanga. Enquanto isso, o jardineiro da casa do traficante descobre, escondida na base de uma estátua de santa, uma grande quantidade de dinheiro fruto do tráfico e com o qual Don Oscar pretendia saldar sua dívida com o outro bandido. Imagine a confusão. Aí entra em cena a figura de Bobolitro (Ulises Gonzalez), zelador da casa de Don Oscar e responsável pelo cuidado com os cachorros – por isso, o título “Lavaperros”. Fanático religioso, casado com uma prostituta, Bobolitro é um sujeito aparentemente bonachão, enorme de gordo, mas aos poucos revela-se um assassino impiedoso. Inúmeras outras situações fazem parte do roteiro, como o caso amoroso de Claudia (Isabella Licht), esposa de Don Oscar, com um de seus capangas. O filme é todo recheado de situações inusitadas e engraçadas, como a sequência – talvez a melhor do filme - de um culto em uma igreja evangélica, onde o pastor, totalmente possesso, dá um hilariante show cantando um “heavy metal gospel” com uma banda de mulheres. O filme colombiano me surpreendeu pela sátira criativa e, ao mesmo tempo, grotesca do mundo obscuro das drogas. Enfim, o filme é ótimo.                         

segunda-feira, 8 de março de 2021

 

“A SENTINELA” (“SENTINELLE”), 2020, França, 1h20m, direção de Julien Leclercq, que também assina o roteiro ao lado de Matthieu Serveau. Lançado na plataforma Netflix no dia 5 de março de 2021, trata-se de um filme de ação cujo personagem central é a subtenente do exército francês Klara (Olga Kurylenko). Começa o filme e lá está ela combatendo em algum país do Oriente Médio. Ela volta a Paris com o tradicional transtorno de estresse pós-traumático, sequela que toma conta da maioria dos soldados que voltam de um conflito. Na base de remédios e acompanhamento psicológico, Klara tenta voltar à vida normal. Ela continua trabalhando no exército, desta vez integrando o esquadrão responsável pela “Operação Sentinela”, criada com o objetivo de garantir a segurança contra ataques antiterroristas na França. Homossexual assumida, Klara vai a uma balada com a irmã caçula Tanya (Marilyn Lima). Enquanto ela engata um “amasso” com uma loira, Tanya some de vista e, no dia seguinte, é encontrada abandonada numa praia, depois de espancada e estuprada. Klara resolve ir atrás dos responsáveis. Só que tem um problema: o estuprador é filho de um diplomata russo. Mas ela não quer saber e vai fundo na vingança. “A Sentinela” tem boas cenas de ação, com destaque para as lutas corpo a corpo. É aqui que a bela atriz ucraniana naturalizada francesa Olga Kurylenko dá um show de competência, o que é normal em sua bem sucedida carreira no cinema. O diretor francês Julien Leclercq é especialista em filmes de ação. E bons filmes, como “Gibraltar”, “Lukas”, “Carga Bruta” e “A Terra e o Sangue”. Talvez “A Sentinela” não seja tão bom quando estes, mas garante um entretenimento legal numa sessão à base de pipoca. Mas não espere muito.                        

sábado, 6 de março de 2021

 

“ROMEO. AKBAR. WALTER.”, 2019, Índia, 2h30h, disponível na Netflix, roteiro e direção de Robby Grewal. Trata-se de um thriller político e de espionagem baseado em fatos reais. Ambientado em meados de 1971, quando havia um clima de crescente tensão entre o Paquistão e a Índia envolvendo o Paquistão Oriental (hoje Bangladesh), na época apoiado pelo país de Indira Gandhi. Ali Aka Romeo (John Abraham), um simples caixa de banco, foi recrutado pelo serviço secreto indiano (APA) para trabalhar como espião – seu recrutamento ocorreu depois de um assalto encenado ao banco, quando ele enfrentou os bandidos. Sua difícil e perigosa missão era se infiltrar no governo paquistanês e descobrir informações sobre um possível ataque ao Paquistão Oriental e à própria Índia. Romeo adotou o nome Ambar Malik, intitulando-se cidadão paquistanês. Num lance de pura sorte, ele conseguiu fazer amizade com Isaq Afrid (Anil George), um poderoso traficante de armas com ligações estreitas com o governo do Paquistão. Aos poucos, Malik ganhou a confiança de Isaq e conseguiu ter acesso a importantes documentos secretos, um deles referente à data do ataque ao Paquistão Oriental. A verdadeira identidade de Malik correu o risco de ser descoberta quando alguns oficiais do exército, a mando de Nawab Afrid, filho de Isaq, o prenderam e o torturaram. Malik manteve-se firme e logo seria libertado, continuando com sua missão de passar informações para o serviço secreto indiano. Quase no final, o filme reserva uma reviravolta e tanto, quando Malik já teria outra identidade: Walter Khan. Com exceção da história em si, muito interessante, o filme naufraga em vários aspectos. Exagera naquelas cantorias irritantes típicas dos filmes de Bollywood, totalmente fora do contexto em se tratando de um filme de fundo político. Além disso, o elenco é muito fraco, difícil escolher o pior ator ou atriz, sem falar nas cenas de ação - poucas, aliás -, risíveis de tão mal feitas. O ator principal, o tal John Abraham, é um canastrão de primeira, não convence em momento nenhum. Repito: só vale pela história. Já assisti a muitos filmes bons do cinema indiano, mas este me surpreendeu de forma bastante negativa. Se não tiver interessado em saber alguns detalhes daquele conflito entre o Paquistão e Índia, fuja a galope desse desastre de Bollywood.                      

sexta-feira, 5 de março de 2021

 

 

“ÁRVORE DE SANGUE” (“EL ÁRBOL DE LA SANGRE”), 2018, Espanha, 2h10m, disponível na Netflix, roteiro e direção de Julio Medem. Puro drama ao estilo novelão, cuja trama lembra alguns romances de Gabriel García Márquez, “Cem Anos de Solidão”, por exemplo, incluindo elementos do realismo fantástico, como uma vaca caindo de uma árvore. O filme espanhol acompanha a história de duas famílias bascas desde a época da Guerra Civil Espanhola. Durante essa trajetória, ambas estarão ligadas por laços familiares e de amizade. Nos tempos atuais, os namorados Rebeca (Úrsula Corberó) e Marc (Álvaro Cervantes) se confinam na casa da fazenda da família dela para escrever a história das suas respectivas famílias. Até a metade do filme, o roteiro mistura uma série de personagens sem explicar exatamente quem são, o que dificulta o entendimento por parte do espectador. Como um quebra-cabeças, as peças vão se encaixando e finalmente a gente começa a entender o que está acontecendo e quem é quem. Repleto de flashbacks, o filme tenta explicar como as duas famílias começaram a se relacionar, em um enredo repleto de tragédias, traições, assassinatos, segredos perturbadores e romances proibidos. Não faltam inúmeras cenas de sexo – nenhuma explícita -, uma característica dos filmes do diretor Julio Medem, como já comprovaram “Lúcia e o Sexo”, de 2001, e “Um Quarto em Roma”, de 2010. A fotografia caprichada de Kiko de Larica e o elenco são dois pontos altos do filme. Além de Corberó e Cervantes, atuam outros nomes expressivos do cinema espanhol, como Najwa Nimri, Joaquín Furriel, Maria Molins, Daniel Grao, Ángela Molina, Josep Maria Pou e Patricia López Arnaiz. Enfim, “Árvore de Sangue” tem todos os ingredientes para agradar aos espectadores que curtem uma história de saga familiar.    

quarta-feira, 3 de março de 2021

 

“MULHERES OCULTAS” (“LITTLE BIG WOMEN”), 2020, Taiwan, 2h04m, disponível na Netflix, direção de Joseph Hsu, que também assina o roteiro com a colaboração de Maya Huang. Inspirado num curta-metragem de 2017, também produzido em Taiwan, “Mulheres Ocultas” é um belo e sensível drama familiar. A história é centrada em Lin Hsiu-Ying (Grace Chen), que no dia do seu aniversário de 70 anos recebe a notícia de que seu ex-marido acaba de falecer. Dessa forma, ao invés da festa, ela, as três filhas e a neta tomam providências para a cerimônia do funeral. Um detalhe: o marido a deixou há 10 anos para viver com outra mulher, abandonando Lin e as três meninas. Durante esse tempo, Lin trabalhou duro para sustentar sozinha a família. Mesmo a contragosto, ela concorda em promover o funeral do ex-marido mulherengo. O roteiro destaca o relacionamento da mãe com as filhas, que nas conversas relembram a infância e a situação atual de cada uma. Hsuan (Hsieh Ying), por exemplo, é uma bailarina profissional diagnosticada com câncer; Yu (Vivian Hsu) é a filha médica, mãe da única neta de Lin; e Jiajia (Su Ke-Fang), a mais jovem e que ajuda a mãe no restaurante. Durante o funeral, Lin terá a oportunidade de conhecer Tsai Meilin (Ning Ding), a mulher pela qual seu ex-marido se apaixonou. Além da rotina familiar em que mãe e filhas terão a oportunidade de se reconciliar, o filme destaca detalhes do tradicional cerimonial budista para homenagear o morto. São cenas comoventes e de muita sensibilidade, valorizadas pela excelente fotografia de Jon Keng. Por sua atuação, a veterana atriz Grace Chen ganhou o prêmio Golden Horse Awards (o Oscar de Taiwan) de Melhor Atriz. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Busan (Coreia do Sul) e foi muito elogiado pela crítica especializada. Além disso, foi o filme de maior bilheteria de 2020 em Taiwan. Embora lento e contemplativo, “Mulheres Ocultas” é um drama da melhor qualidade. Não perca!                          

 

terça-feira, 2 de março de 2021

 

“CRAZY TRIPS – BUDAPESTE” (“BUDAPEST”), 2018, França, 1h42m, disponível na plataforma Netflix, direção de Xavier Gens, seguindo roteiro escrito por Simon Moutaïrou e Manu Payet. Trata-se de uma comédia com doses maciças de besteirol e politicamente incorreta. Vincent (Manu Payet, um dos roteiristas) e Arnaud (Jonathan Cohen) são amigos de longa data, moram em Paris com suas esposas e vivem num padrão de vida elevado graças aos seus salários de altos executivos em suas respectivas empresas. Cansados da rotina dos escritórios, e depois de ouvirem o relato de uma prostituta húngara de 69 anos numa espelunca, eles têm uma ideia se não maluca, pelo menos muito arriscada e inusitada. Ou seja, criar uma agência de turismo para promover festas de despedida de solteiros em Budapeste. Segundo a dica da prostituta, lá na Hungria a mão de obra é muito barata e há uma quantidade enorme de mulheres, muito maior do que a população masculina. Ainda segundo ela, a libertinagem corre solta em Budapeste, com lugares especialmente dedicados à diversão masculina. Antes de tomarem qualquer decisão, Vincent e Arnaud viajam para Budapeste e contratam um guia maluco para orientá-los e levá-los até as tais atrações. Depois dessa primeira experiência, os dois amigos voltam a Paris com a certeza de que o negócio tem tudo para dar certo. Para desespero de suas esposas, eles pedem demissão de seus empregos e iniciam o processo para a criação da empresa de turismo, cujo slogan é “Um Final de Semana de Solteiro em Budapeste”. A promoção inclui recepção e transporte com limusine e hospedagem em hotel três estrelas, além das atrações especiais: passeio em tanque de guerra, praticar tiro com armas de pesado calibre e bares de luxo com direito a lindas garotas de programa e, se quiserem, drogas à vontade. O primeiro grupo é um desastre, causando um prejuízo enorme aos dois novos empresários. Mas os pedidos aumentam cada vez mais e o negócio deslancha. Muitas confusões acontecem pelo caminho, lembrando as comédias besteirol do tipo “Se Beber Não Case”, ou seja, sem compromisso nenhum com o intelecto, o que proporciona um merecido descanso para os neurônios. Resumindo, mesmo que o humor seja tão escrachado, o filme diverte. Lembrete final: "Crazy Trips - Budapeste" foi inspirado numa agência de turismo de Paris que promove esse tipo de programa.                              

 

              

segunda-feira, 1 de março de 2021

 

“A CAMINHO DA FÉ” (“COME SUNDAY”), 2018, EUA, 1h46m, direção de Joshoa Marston, seguindo roteiro de Marcus Hinchey. Trata-se de um drama com fundo religioso, baseado em fatos reais, relembrando uma história que teve grande repercussão nos Estados Unidos no final da década de 80 e nos anos 90. Carlton Pearson (Chiwetel Ejiofor, de “12 Anos de Escravidão”), pastor da Igreja Pentecostal de Deus em Cristo, era na época um religioso famoso em todo território norte-americano – sua sede era em Tulsa, Oklahoma. Ele tinha um programa de televisão e seus cultos lotavam salões até com 6 mil pessoas. Ficou famoso por reunir brancos e negros para ouvir seus sermões e cantar hinos religiosos. Uma celebridade religiosa muito respeitada. Um dia, porém, ao assistir pela TV imagens de Ruanda (África) mostrando crianças morrendo de fome e o povo sendo dizimado numa violenta guerra civil, Pearson passou a contestar alguns dogmas da Bíblia, como a existência do Inferno e que tanto os cristãos como os não-cristãos serão salvos no dia do julgamento final. Referindo-se à questão de Ruanda, Pearson perguntou às pessoas em seu culto de domingo: “Será que Deus mandaria essas pessoas para o Inferno só porque elas não são cristãs? O Inferno realmente existe?”. Foi um escândalo para os seus seguidores, inclusive para seu chefe religioso, o bispo Oral Roberts (Martin Sheen). Pearson foi chamado de herege por questionar a doutrina cristã. Em meio a essa polêmica, que virou manchete nos meios de comunicação, Pearson aceita participar de um debate teológico com o conjunto de bispos pentecostais afro-americanos, resultando numa das sequências mais impactantes do filme. Ainda participam do elenco Condola Rashãd como Gina, a esposa do pastor, Jason Segel, Lakeith Stanfield e Danny Glover. Mas o dono do filme é mesmo o ator Chiwetel Ejiofor, num desempenho magistral. Embora não tenha caído nas graças da crítica, eu achei o filme bastante interessante, principalmente por nos fazer refletir sobre as opiniões de Pearson e a fé religiosa. Recomendo.                         

 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

 

Nunca fui muito fã de documentários, mas ao longo da minha carreira de cinéfilo amador assisti a alguns muito bons. E não poderia deixar de assistir ao documentário “PELÉ”, recentemente integrado à plataforma Netflix – o lançamento mundial ocorreu dia 23 de fevereiro de 2021. Realizado em 2020, com roteiro e direção dos ingleses Ben Nicholas e David Tryhorn, produzido pelo cineasta Kevin MacDonald (vencedor do Oscar em 2000 por “Munique 1972: Um Dia de Setembro”), “PELÉ” tem 1h48m e faz parte das homenagens mundiais ao rei do futebol e seus 80 anos de idade. O documentário começa contando a história do rei do futebol quando trabalhava como engraxate e jogava peladas em Bauru. Depois, sua chegada ao Santos FC. A partir daí, a ênfase é dada à participação de Pelé nas quatro copas do mundo que disputou e, ao mesmo tempo, à situação política do Brasil, especialmente a partir de 1964, quando o País ingressou na fase da ditadura militar. O período enfocado pelo documentário vai de 1956 até 1970, destacando a conquista do tricampeonato mundial no México e a decretação do AI-5. Na entrevista concedida aos realizadores, Pelé esclarece que, embora pressionado por um lado e outro, jamais quis se envolver em política. “Meu negócio era jogar futebol”. No documentário, a posição de Pelé chegou a ser comparada com o ativismo do lutador norte-americano Muhammad Ali, que foi crítico da guerra do Vietnã, além de se recursar ao alistamento, sendo preso por isso. O melhor do documentário são algumas cenas inéditas e preciosas dos bastidores, principalmente aquela em que Pelé, de cadeira de rodas, recebe os companheiros do Santos FC durante um almoço em sua casa no Guarujá. O documentário também destaca inúmeros depoimentos de ex-companheiros como Rivelino, Zagalo, Brito e Jairzinho, além dos jornalistas Juca Kfouri e José Trajano. Também participam Fernando Henrique Cardoso, Benedita da Silva e Gilberto Gil. Numa época em que qualquer imbecil é considerado celebridade, como esse pessoal do BBB, do funk e os tais “influencers” digitais, o documentário chega para mostrar e esclarecer de vez quem é uma celebridade de verdade. Aliás, a maior que o Brasil já teve.                          

 

              

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

 

“NÃO ESTOU LOUCA” (“NO ESTOY LOCA”), 2018, Chile, 1h56m, disponível na plataforma Netflix, roteiro e direção de Nicolás Lopes. É uma comédia bastante divertida, com ótimas atuações do elenco e sequências hilariantes. A principal personagem da história é Carolina (Paz Bascuñán), uma mulher de 38 anos que sofre dois baques num mesmo dia. Primeiro, ela recebe o diagnóstico de que é infértil - ela e o marido Fernando (Marcial Tagle) vinham tentando há anos. Para contar a triste notícia, Carolina combina um encontro com o marido em um restaurante. Mas é Fernando quem conta a pior notícia: ele está apaixonado por Maité (Fernanda Urrejola), justamente a melhor amiga e companheira de trabalho de Carolina. Pior ainda, Maité está grávida. Arrasada, Carolina vai para casa, enche a cara e tenta o suicídio se atirando da janela do apartamento. Só que a queda é amortecida por um toldo, mas mesmo assim ela fica bastante ferida e inconsciente. Fernando aproveita a ocasião para interná-la numa clínica psiquiátrica. De início apavorada, Carolina aos poucos começa a interagir com a turma de malucos e logo faz amizade com alguns, na verdade algumas. Embora seja uma comédia, “Não Estou Louca” reserva momentos bastante sensíveis, como as conversas de Carolina com o psiquiatra-chefe (Luis Pablo Román). Destaque para as atuações de Paz Bascuñan e da veterana Antonia Zegers (do ótimo drama chileno “O Clube”) como Silvia, uma das birutas do pedaço. Outra participação que merece um elogio especial é da atriz Gabriela Hernández como Marta, a mãe possessiva e autoritária de Carolina. Ao contrário da maioria dos filmes que envolvem doentes mentais, que costumam carregar no drama, esta comédia chilena adota o politicamente incorreto, fazendo graça justamente com a deficiência das pessoas, criando personagens caricatos e engraçados. Não acredito que alguém possa se chatear com isso. Resumo da ópera: “Não Estou Louco” é uma comédia que diverte e emociona. Imperdível!                           

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

 

“CRIME E DESEJO” (“ABOVE SUSPICION”), 2019, EUA, 1h41m, disponível na Netflix, direção do australiano Phillip Noyce, seguindo roteiro de Chris Gerolmo, que adaptou a história do livro escrito em 1993 pelo jornalista norte-americano Joe Sharkey, no qual relatou um caso verídico ocorrido no final dos anos 80, que culminou na prisão de Mark Putnam, que ficou famoso por ter sido o primeiro agente do FBI preso por assassinato. Putnam (Jack Huston) é enviado para uma pequena cidade do Kentucky, com a esposa Kathy e a filha pequena, para investigar uma série de assaltos a banco ocorridos na região. No início das investigações, o agente conhece Susan Smith (Emilia Clarke, de “Game of Thrones”), uma viciada em drogas que vive com o namorado Cash (Johnny Knoxville), o traficante local. Para aliviar sua barra com relação às drogas, Susan concorda em se tornar informante de Putnam, começando por denunciar o tal assaltante de bancos, que acaba preso pelo agente. Não demora muito e Putnam acaba entre os lençóis com Susan, o que, pouco mais tarde, será motivo para uma série de aborrecimentos, culminando com uma tragédia. Susan não quer ser apenas a “outra”. Quer que Putnam abandone a esposa e case com ela. A vida do agente acaba virando um verdadeiro inferno, a começar pelo fato dele ter desrespeitado um dos mandamentos sagrados do FBI: um agente jamais poderá levar um(a) informante para a cama. Putnam lembrará disso até o desfecho. Mesmo com a presença da atriz inglesa Emilia Clarke, a estrela da série “Game of Thrones”, e a história bastante interessante, pelo fato de ser baseada em fatos reais, o filme não deslancha como suspense, embora apresente uma reviravolta surpreendente no final – surpreendente para quem não conhece a história, é claro. Trocando em miúdos, “Crime e Desejo” não caiu nas graças da crítica especializada e nem nas minhas. Apenas um filme mediano, que pode ser visto para conhecer um fato que teve grande repercussão nos Estados Unidos. Espere até os créditos finais para conhecer o verdadeiro agente Mark Putnam, que aparece em vídeo concedendo uma entrevista após sair da cadeia. Encerro o comentário com uma curiosidade. O autor do livro que inspirou a história, o jornalista Joe Sharkey, foi um dos únicos sobreviventes do acidente aéreo ocorrido na região amazônica em 2006, quando um um Boeing da Gol colidiu com um jato executivo Legacy de uma empresa de táxi aéreo dos EUA, matando seus 154 passageiros e tripulantes. Sharkey estava no Legacy e conseguiu sobreviver.               

 

              

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021


“FELICIDADE POR UM FIO” (“NAPPILY EVER AFTER”), 2018, EUA, 1h38m, disponível na Netflix, direção da cineasta saudita Haifaa al-Mansour, seguindo roteiro de Cee Marcellus e Adam Brooks. Trata-se de uma comédia romântica muito agradável de assistir. O enredo foi inspirado no primeiro volume de uma série de livros da romancista norte-americana Trisha R. Thomas. A história é toda centrada em Violet Jones (Sanaa Lathan), uma executiva negra de sucesso numa importante agência de propaganda. Desde criança, Violet sempre teve o seu cabelo afro reprimido pela mãe, que sempre adotou cabelos alisados como fórmula ideal para fazer da filha uma mulher perfeita, não apenas no campo pessoal como também no profissional. Dessa forma, Violet cresceu usando sempre o cabelo alisado e roupas chiques. A beleza e o charme, além da excelente forma física da atriz Sanaa Lathan, caíram como uma luva na personagem, cuja vaidade sempre esteve acima de tudo. Por todo lugar que passa com seu porte elegante de modelo de passarela, chama a atenção de todo mundo, principalmente os homens. Ela está namorando Clint Conrad (Ricky Whittle), um médico bonitão que sempre deu a entender que casará com Violet. Ledo engano, pois logo cada um seguirá o seu caminho. Logo depois ela conhece Will (Lyriq Bent), um cabeleireiro profissional proprietário de um salão de beleza. Parece que agora vai. Mais um ledo engano. Que se dane a vaidade, e Violet muda radicalmente: fica careca. A partir daí é que ela resolve rever os seus conceitos com relação à vaidade e vai à luta levantando a bandeira “Eu serei o que sempre quis ser, e não o que os outros querem que eu seja”. E assim ela assume com orgulho a sua fase careca, sem medo de ser feliz. Até o desfecho, muitas reviravoltas acontecerão na sua vida, algumas boas e outras nem tanto. O filme é muito bem-humorado, com algumas sequências hilariantes. Seu pai Richard (Ernie Hudson), por exemplo, é uma figura. Ele se separa para seguir a carreira de modelo fotográfico e ganha um outdoor posando para um anúncio de cuecas para a terceira idade. Mais um acerto da diretora Haifaa al-Mansour, que ficou conhecida como a primeira cineasta da Arábia Saudita. Radicada há alguns anos nos Estados Unidos, Haifaa tem em seu currículo filmes elogiados pela crítica, como “Mary Shelley”, “A Candidata Perfeita” e “O Sonho de Wadjda”.             


 

“RELATOS DO MUNDO” (“NEWS OF THE WORLD”), 2020, Estados Unidos, 1h59m, disponível na plataforma Netflix. A direção é de Paul Greengrass, que também assina o roteiro com a colaboração de Luke Davies. A história é bastante interessante, baseada no livro escrito por Paulette Giles em 2016 que leva o mesmo título do filme original. O personagem principal é o capitão Jefferson Kylle Kidd (Tom Hanks), um veterano da Guerra de Secessão que ganha a vida lendo as notícias dos jornais para as populações das cidades do Texas. Numa dessas idas e vindas, ele encontra uma menina órfã de 10 anos, Johanna Leonberger (Helena Zengel). Aliás, duas vezes órfã. Sua família alemã foi dizimada pelos índios da tribo Kiowa, que sequestraram a menina, ainda bebê, e a criaram na aldeia. Aí o homem branco chegou e dizimou os índios Kiowa, levando a menina para o convívio dos “civilizados”. Foi quando o capitão Kylle Kidd a resgatou e resolveu levá-la para os parentes de sua família original. Um longo caminho a percorrer, durante o qual ficarão amigos e também enfrentarão alguns perigos, como bandidos e até uma tempestade de areia. O filme vale pelo carisma e talento de Tom Hanks e pela atriz mirim alemã Helena Zengel, cujo desempenho já lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro como Melhor Atriz Coadjuvante. A química entre ela e o veterano Hanks é um dos grandes trunfos do filme. O diretor Paul Greengrass faz essa incursão pelo gênero faroeste sem criar muitas sequências de ação, o que sempre foi sua especialidade, como demonstrou em filmes como, por exemplo, os da franquia Bourne. Desta vez, Greengrass opta por um filme mais intimista, com pouca ação, sem duelos na rua, brigas no saloon, flechada e sem o cavalo malhado do cacique. Mesmo sem esses clichês tradicionais dos filmes de faroeste, “Relatos do Mundo” é um ótimo filme para curtir numa sessão da tarde com pipoca.