quinta-feira, 5 de março de 2020


“UMA MULHER ALTA” (“DYLDA”), 2019, Rússia, 2h19m, terceiro longa-metragem escrito e dirigido pelo jovem cineasta Kantemir Balagov, de apenas 28 anos. Inspirada no livro “A Guerra não tem Rosto de Mulher” (1983), escrito por Svetlana Aleksiévitch (Prêmio Nobel de Literatura em 2015), “Uma Mulher Alta” retrata os acontecimentos pós-Segunda Guerra Mundial em Leningrado, que se transformou num cenário de miséria, fome e destruição, onde os moradores sobreviventes andam como zumbis em meio aos destroços. Nesse contexto de colapso social, a trama é concentrada em duas amigas ex-combatentes: Íya (Viktoria Miroshnichenko) e Masha (Vasilisa Perelygina). Também chamada de “Varapau” pela sua altura, Íya voltou antes do front e assumiu a responsabilidade de cuidar do filho de Masha. Ambas voltariam a se encontrar trabalhando como enfermeiras num hospital militar repleto de soldados feridos. Juntas, Íya e Masha tentarão sobreviver aos traumas de guerra, à fome e à falta de perspectivas, além de um fato trágico envolvendo o filho de Masha. Uma se agarrará à outra para enfrentar as dificuldades. Interessante que as duas protagonistas principais são atrizes estreantes, mas nem por isso deixam de ter uma atuação magistral. O diretor Balagov utiliza tons saturados de vermelho e verde, o que lembra, em menor proporção, os filmes do diretor espanhol Pedro Almodovar. Selecionado para representar a Rússia na disputa do Oscar 2020 na categoria “Filme Internacional” (eu preferia como era, “Filme Estrangeiro”), “Uma Mulher Alta” não ficou entre os cinco finalistas, o que achei uma grande injustiça. Antes, o filme recebeu o prêmio de crítica internacional e de direção na mostra “Um Certo Olhar”, no Festival de Cannes. Por aqui, foi exibido durante a programação oficial do 21º Festival do Rio, em dezembro de 2019. Sem dúvida, um grande filme. Imperdível!

terça-feira, 3 de março de 2020


Desde que a vi em “A Insustentável Leveza do Ser”, em 1988, e depois, nos anos 90, na famosa trilogia do diretor polonês Krzysztof Kieslowski (“A Liberdade é Azul”, A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”, jamais deixei de assistir a um filme com a  francesa Juliette Binoche. E foram muitos, incluindo “O Paciente Inglês” etc. Um de seus filmes mais recentes é “QUEM VOCÊ PENSA QUE SOU” (“CELLE QUE VOUS CROYEZ”), 2019, França, 1h41m, roteiro e direção de Safy Nebbou. Binoche é Claire Millaud, uma professora universitária divorciada, com dois filhos, que procura fugir da solidão com namorados mais jovens. O último deles é Ludo (Guillaume Gouix), que de repente resolve terminar a relação humilhando Claire. Ela resolve se vingar entrando num site de relacionamentos com o nome de Clara, utilizando as fotos de uma sobrinha linda de 24 anos de idade. A isca foi lançada e Claire pesca justamente quem queria: Alex (François Civil), o melhor amigo de Ludo. A história vai se desenrolando paralelamente às sessões de Claire com a psicanalista Catherine Bormans (Nicole Garcia). O diretor Safy Nebbou insiste em manipular o enredo com algumas dúvidas para o espectador. Por exemplo, se o que está acontecendo é na vida real ou virtual. A complexidade da trama também está no fato de que Claire está escrevendo um livro cujo conteúdo sugere muitas semelhanças com o que está acontecendo no filme. Enfim, um “filme cabeça” não indicado para quem curte “Capitão América” e assemelhados. E com uma vantagem especial: a presença de Juliette Binochet em mais uma atuação impecável. “Quem Você Pensa que Sou” estreou no 69º Festival Internacional de Berlim em fevereiro de 2019 e foi exibido por aqui, antes de entrar no circuito comercial, durante a programação do Festival Varilux de Cinema Francês, em junho de 2019.

segunda-feira, 2 de março de 2020

JOJO RABBIT”, 2019, Estados Unidos, 1h48m, roteiro e direção do neozelandês Taika Waititi (que também atua no filme). Indicado para disputar o Oscar 2020 em seis categorias, inclusive de Melhor Filme, “Jojo Rabbit” ganhou apenas uma estatueta como Melhor Roteiro Adaptado – do romance “Caging Skies”, da escritora neozelandesa Christina Leunens, lançado em 2004. Realmente, o roteiro é primoroso, criativo, que soube criar situações de bom humor num contexto trágico – a Segunda Guerra Mundial. A história é toda centrada num garoto de 10 anos, Jojo Betzler (o estreante Roman Griffin Davis), admirador do nazismo e de Adolph Hitler. Seu sonho é ingressar na Juventude Hitlerista. A situação começa a mudar quando ele descobre que a mãe Rosie Betzler (Scarlett Johansson) esconde uma garota judia (Thomasin McKenzie) no armário, uma evidente referência a Anne Frank. Jojo fica sabendo ainda que a mãe é uma antinazista convicta e que, por isso, sofrerá uma trágica consequência. A simpatia de Jojo pelo nazismo é incentivada por seu amigo imaginário, o próprio Adolph Hitler (papel do diretor), em aparições hilariantes. O filme já começa de modo surpreendente, associando o histerismo dos alemães diante dos discursos de Hitler com o histerismo das fãs que iam aos concertos dos The Beatles. Uma sacada genial. Tudo funciona muito bem, mas o grande trunfo do filme é realmente a atuação do estreante ator britânico Roman Griffin Davis como Jojo. Ele domina o filme de cabo a rabo. Outro protagonista que dá um show é o gordinho York (Archie Yates), responsável pelas cenas mais engraçadas. O elenco conta ainda com Sam Rockweel, Rebel Wilson e Stephen Merchant. O filme estreou durante o 44º Festival de Cinema de Toronto, arrancando elogios entusiasmados dos críticos e do público. Eu também gostei, achei o filme genial, interessante e muito criativo. Imperdível!    

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020


“PARTIDA FRIA” (“THE COLDEST GAME”), 2019, Polônia, produção da Netflix (estreou dia 8 de fevereiro de 2020), 1h40m, roteiro e direção de Lukasz Kosmicki – é o seu primeiro longa-metragem; eu seu país, Kosmicki é mais conhecido como diretor de séries televisivas. O pano de fundo da história é a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, no auge da guerra fria que colocou em cada lado do ringue mundial os EUA e a União Soviética. Nesse contexto, o professor norte-americano de matemática Joshua Mansky (Bill Pullman), um gênio no xadrez, é cooptado – “obrigado” seria a palavra mais correta – pela CIA para disputar uma série de partidas com o campeão russo Gavrylow em Varsóvia. O objetivo da inteligência norte-americana é utilizar Mansky para tentar identificar um espião russo de codinome Gift, capaz de confirmar se os russos têm ogivas nucleares em Cuba. Só que a turma da KGB, chefiada pelo General Krutov (Aleksey Serebryakov), descobre a intenção dos norte-americanos e parte para o ataque, implementando ações que podem colocar em perigo a vida de Mansky. Como quase todo filme de espionagem, o roteiro demora a engrenar, ou seja, esclarecer o que está acontecendo, dificultando o entendimento por parte do espectador. O filme é todo falado em inglês, com alguns diálogos em polonês e russo. Também estão no elenco a atriz holandesa Lotte Verbeek e os atores James Bloor e Robert Wieckicewicz, este último do polonês “Clero”. Como informação adicional, este foi o último filme produzido por Piotr Wozniak-Starak, que morreu antes da exibição de estreia. Resumo da ópera: indicado apenas para aqueles que curtem filmes de espionagem.    


“ELISA E MARCELA”, 2019, roteiro e direção de Isabel Coixet, 1h58m, roteiro e direção de Isabel Coixet. Produção espanhola da Netflix, cuja primeira exibição ocorreu em fevereiro de 2019 no Festival de Cinema de Berlim e lançada em maio no circuito comercial da Espanha. A história é verídica, baseada em acontecimentos ocorridos entre o fim do século 19 e começo do 20. Para escrever o roteiro, Coixet se baseou no livro biográfico “Elisa e Marcela – Más Allá de Los Hombres” (“Elisa e Marcela – Além dos Homens”, escrito por Narciso de Gabriel. Elisa Sanchez Loriga (Natalia de Molina) e Marcela Gracia Ibeas (Greta Fernández) se conhecem ainda jovens quando cursavam a Escola de Formação de Professores e o amor foi à primeira vista. Daí para a cama foi um passo. Em 1901, elas resolveram se casar e, para isso, Elisa se travestiu de homem, intitulando-se Mario e utilizando os documentos de um tio falecido. Casaram-se na Igreja de San Jorge, na região de Coruña, na Galícia. Embora o padre tenha sido enganado, o casamento foi legalmente oficial, tendo sido considerado mais tarde a primeira união homossexual da Europa. Não demora muito para que a verdadeira identidade de Mario seja revelada, culminando com a prisão das duas amantes, que depois são obrigadas a fugir para Portugal e depois para a Argentina. Rodado em preto e branco, o filme contém cenas ardentes de sexo entre as protagonistas, mas sem chocar, tudo filmado com bom gosto erótico e nada explícito. Como aval de qualidade, lembro que a roteirista e diretora espanhola Isabel Coixet tem no currículo alguns bons filmes, como “Minha Vida Sem Mim”, “Confissões de um Apaixonado” e “A Vida Secreta das Palavras”. A bela e excelente atriz Natalia de Molina eu já conhecia de outros filmes. Recomendo!    

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020


“CLERO” (“KLER”), 2018, Polônia, 2h13m, roteiro e direção de Wojciech Smarzowski (“Wolyn”). Inacreditável que um filme tão bom não tenha sido exibido por aqui. Trata-se de um drama com uma contundente, corrosiva e impiedosa crítica à Igreja Católica, em especial aos padres poloneses. A história é centrada em três padres pilantras ao extremo. Um é pedófilo, abusa sexualmente de um menino órfão cego. O outro é alcoólatra e tem amante e filho; o terceiro faz negociatas com licitações de obras das igrejas, trabalhando em favor de um mafioso. Além dos pecados citados, os três têm em comum também rotineiras bebedeiras homéricas, nas quais a vodka é ingerida como água - não a santa. As maracutaias também envolvem o arcebispo da Cracóvia, cidade ao sul da Polônia. Enfim, mais uma cutucada – eu diria um violento chute - nas feridas da Igreja Católica, com ênfase na pedofilia – no filme, o diretor Smarzowski coloca várias pessoas que foram abusadas por padres poloneses dando os seus dramáticos depoimentos, numa sequência de cenas bastante chocantes.  Quando estreou na Polônia, um país onde 85% da população é católica, o filme causou grande impacto e repercussão, levando às salas de cinema mais de um milhão de espectadores nas primeiras semanas de exibição, batendo recordes de bilheteria, assim como aconteceu na Islândia, Noruega e Irlanda. Infelizmente, não foi exibido por aqui. Alguém sabe por quê? Pela sua abordagem denunciando os podres da Igreja e dos padres poloneses, o filme chocou políticos conservadores daquele país e levou o vice-ministro da Cultura a afirmar que “Kler” utilizou “estereótipos negativos” e tratou a Igreja Católica injustamente. Do ótimo elenco, conhecia apenas dois atores: Arkadiusz Jakubik (“Noite Silenciosa”, I’m a Killer” e “A Arte de Amar”) e a bela Joanna Kulig (“Guerra Fria” e “Agnus Dei”). IMPERDÍVEL com maiúscula!      

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020


“UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA” (”A BEAUTIFUL DAY IN THE NEIGHBORHOOD”), 2019, EUA, direção de Marielle Heller e roteiro escrito por Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster. Sabe aqueles filmes bonitinhos e inocentes da Disney feitos para exibição numa sessão da tarde com a família reunida, suco e pipoca? Não achei uma introdução melhor para definir meu sentimento com relação a “Um Lindo Dia na Vizinhança”. A história relembra um fato acontecido em 1998. O jornalista investigativo Tom Junod foi encarregado pela Revista Esquire de escrever um perfil de Fred Rogers, apresentador do programa infanto-juvenil "Mister Rogers' Neighborhood", de grande audiência na TV dos EUA desde a década de 60. Para escrever o roteiro, Micah e Noah se basearam no próprio artigo de Tom Junod e no livro biográfico escrito por Rogers. No filme, o jornalista recebeu o nome de Lloyd Vogel (Matthew Rhys) e Fred Rogers é interpretado por Tom Hanks. Na verdade, embora o pano de fundo seja Rogers, o personagem principal é o jornalista, casado com Andrea Vogel (Susan Kelechi Watson), com quem tem um filho, e seus problemas com o pai Jerry Vogel (Chris Cooper, ótimo como sempre), a quem acusa de ser, indiretamente, responsável pela morte da mãe. Enfim, Tom Hanks é o coadjuvante da história, sendo indicado como tal para disputar o Oscar 2020, tendo perdido para Brad Pitt. O filme tem um tom pedagógico e educativo,  mensagens positivas - "o mundo é colorido" e outras banalidades -, parecendo mais uma sessão de terapia em grupo para crianças e adolescentes. Um blá-blá-blá entediante, com lições de moral que mais parecem um programa de autoajuda. Nem o carisma de Tom Hanks consegue salvar “Um Lindo Dia na Vizinhança”, bobinho como o próprio título. No Brasil, o filme, já lançado no circuito comercial, foi exibido pela primeira vez durante a programação do 21º Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em dezembro de 2019. Em seus comentários, os críticos profissionais, em geral, tentaram amenizar a chatice do filme, talvez em respeito a Tom Hanks. Mas o filme é chato mesmo.       

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020


“MISSÃO DE HONRA” (“303: Bitwa Anglie”, título original em polonês; filme ganhou dois nomes nos países de língua inglesa: “Hurricane: 303 Squadron” e “Mission of Honor”), 2018, coprodução Polônia/Inglaterra, 2h3m, direção de David Blair e roteiro de Robert Ryan. Mais uma história da fonte inesgotável de histórias da Segunda Guerra Mundial. A não ser aqueles que estudaram a fundo aquele conflito, poucos por aqui conheceram a heroica participação de pilotos de caça poloneses lutando pela Inglaterra contra os ataques aéreos alemães contra Londres e outras cidades. Depois de lutarem contra os nazistas durante anos em seu país, eles foram para a Inglaterra reforçar o contingente da RAF (Royal Air Force). Eles integraram o famoso Esquadrão 303 da RAF, comandado pelo oficial John Kent “Kentowski” (Milo Gibson, filho do Mel). Em suas inúmeras missões, os habilidosos e corajosos aviadores poloneses derrubaram centenas de aviões de combate da Luftwaffe, a força aérea alemã. Além de enaltecer os seus fatos heroicos, o filme também mostra os poloneses como um grupo irresponsável na rotina do quartel, dado a bebedeiras homéricas e brigas na base de socos. O filme mostra dezenas de cenas de combates aéreos emocionantes e de muita tensão. Os pilotos poloneses foram considerados pelos ingleses e países aliados, como verdadeiros heróis de guerra, o que não aconteceu quando voltaram para a Polônia depois do final do conflito. Além de Milo Gibson, estão no elenco Iwan Rheon, Marcin Dorocinski e Stefanie Martini. Um filme obrigatório para quem gosta de relembrar ou ficar por dentro de fatos históricos.  

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020


“CAVALOS ROUBADOS” (“UT OG STAELE HESTER”), 2019, coprodução Noruega/Dinamarca/Suécia, 2h3m, direção de Hans Petter Moland (“O Cidadão do Ano”), que também escreveu o roteiro baseado no romance escrito por Per Petterson. A história é ambientada em 1999 e toda ela centrada em Trond (Stellan Skarsgard), um homem de 67 anos que vive amargurado desde a morte da esposa num acidente de carro do qual ele era o motorista. Trond resolve voltar ao vilarejo onde viveu desde que nasceu e se isolar numa cabana, tendo ao seu lado apenas o cachorro de estimação. Tudo parecia ir bem até Tronde encontrar com Lars Haug (Bjorn Floberg), antigo morador do vilarejo que quando era criança participou diretamente de um evento trágico. As conversas com Lars fizeram com que Trond comece a remoer o passado, especificamente o verão de 1948, quando tinha 15 anos (papel do jovem Jon Ranes). As recordações não são muito boas, pois envolvem o período em que Trond foi abandonado pelo pai (Tobias Santalemann). Trond relembra também sua paixão frustrada por uma mulher casada e bem mais velha (Danica Cursic). Tudo isso em longos flashbacks e a narração do próprio Trond. O drama é muito bem feito, cenários deslumbrantes da Natureza, valorizados pela fotografia de Rasmus Videbaek, premiada na 69ª edição do Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019, onde o filme fez sua estreia mundial. “Cavalos Roubados” também foi exibido por aqui durante a programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme representou a Noruega na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. Cinema da melhor qualidade!          

domingo, 16 de fevereiro de 2020


“O RELATÓRIO (“THE REPORT”), 2019, Estados Unidos, 1h59m, roteiro e direção de Scott Z. Burnes – mais conhecidos como diretor de curtas e séries televisivas, este é o seu segundo lonta-metragem. Muito bom, aliás, principalmente pela história ser baseada em fatos. Em 2007, o senado norte-americano criou uma comissão para investigar as denúncias de que o pessoal da CIA, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, submeteu prisioneiros suspeitos, principalmente muçulmanos, a violentas torturas, prática condenada pelo governo norte-americano. A comissão de investigação foi comandada pela senadora Diane Feinstein (Annette Bening), que nomeou o agente Daniel Jones (Adam Driver) para chefiar os trabalhos. Durante cinco anos, Daniel e sua reduzida equipe, mesmo com a falta de colaboração da CIA, conseguiu elaborar um relatório de 700 páginas comprovando que as denúncias estavam corretas. Descobriu também que as fitas e vídeos dos interrogatórios e relatos de técnicas de tortura foram destruídos. Para isso, contou com a ajuda de um repórter do Jornal New York Times e de pessoas que testemunhas que presenciaram ou participaram dos interrogatórios. Mesmo com os protestos da CIA, o relatório foi divulgado pela senadora e causou grande repercussão na mídia. Embora verborrágico demais – não dá para piscar nas legendas -, o filme tem como principal trunfo manter uma tensão angustiante até o desfecho. O elenco conta ainda com Joh Hamm, Sarah Goldberg e Maura Tierney. E, mais uma vez, com uma brilhante atuação, Adam Driver prova por que é hoje um dos atores mais requisitados por Hollywood. Depois de estrear no Festival de Cinema de Toronto, em setembro de 2019, “O Relatório” foi exibido por aqui durante a programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro.           


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020


“QUEM COM FERRO FERE” (“QUIEN A HIERRO MATA”), 2019, Espanha, produção Netflix, 1h42m, direção de Paco Plaza, com roteiro de Juan Galiñanes e Jorge Guerricaechevarría. Fiquei na dúvida se assistia ou não este suspense espanhol, principalmente por causa desse título horroroso em português. Pensei: lá vem mais uma bomba! O que me motivou a assisti-lo ir foi a presença de Luis Tosar, um ator espanhol que admiro há anos, com atuações em bons filmes como “Cela 211”, “Enquanto Você Dorme” e “Segunda-Feira ao Sol”, entre tantos outros. Pois “Quem Com Ferro Fere” é ótimo, com mais uma excelente atuação de Tosar. Ele faz o personagem principal, Mario, enfermeiro-chefe de uma clínica residencial médica para idosos. Certo dia, chega para ser internado Antonio Padín (Xan Cejudo), um veterano e poderoso traficante de drogas que cumpria pena em regime fechado. Porém, com sua saúde bastante debilitada, a justiça resolveu liberá-lo para ser internado na tal clínica. A chegada de Padín traz uma recordação dolorosa para Mario. Há muitos anos, Mario perdeu seu irmão mais moço em consequência de uma overdose, justamente com a droga fornecida pelo cartel de Padín. Enquanto planeja uma vingança sem deixar rastros, Mario tem de conviver com as ameaças dos dois filhos malucos do velho, Kike (Enric Auquer) e Toño (Ismael Martínez), que poderão atingir sua esposa Ana (María Luisa Mayol, mulher de Tosar na vida real), que está prestes a ter nenê. O suspense vai aumentando cada vez mais, culminando com um desfecho trágico e surpreendente. O filme é muito bom e merece ser conferido. Por suas atuações neste filme, o Festival Goya 2020 (o Oscar espanhol) premiou Luis Tosar como Melhor Ator e Enric Auquer como Melhor Ator Revelação.          


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020


“DOIS PAPAS” (“The Two Popes”), 2019, produção Netflix, 2h06m, direção do brasileiro Fernando Meirelles e roteiro de Anthony McCarten. O filme é ficcional e centrado na relação entre o então cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) e o Papa Bento XVI (Anthony Hopkins), cujas divergências dão margem a primorosos diálogos, misturando seriedade, erudição e um fino bom humor. Bergoglio era favorável às reformas na Igreja, enquanto o Papa Bento XIV, desde quando era o cardeal alemão Joseph Ratzinger, era contra qualquer mudança. Durante a gestão de Bento XVI, Bergoglio, por não concordar com a forma com que o papa alemão conduzia a Igreja, resolveu pedir aposentadoria. Foi o que levou o cardeal argentino para Roma conversar com Bento XVI. Daí as conversas que dão um toque especial ao filme. Um verdadeiro e saboroso duelo verbal. Ao mesmo tempo, em flashbacks, o filme relembra a trajetória de Bergoglio desde sua juventude até a decisão de se tornar padre, atuando nos bairros pobres da periferia de Buenos Aires, que nunca abandonou mesmo depois de se tornar cardeal. O roteiro escrito pelo neozelandês Anthony McCarten, é um primor. Para escrevê-lo, ele se baseou em reportagens, entrevistas e depoimentos de gente ligada ao Vaticano. Como roteirista, McCarten já era respeitado pelos filmes “O destino de Uma Nação”, “A Teoria de Tudo” e “Bohemian Rhapsody”. “Dois Papas” voltou a reunir Fernando Meirelles e o ator Anthony Hopkins. Meirelles dirigiu Hopkins em “360”, de 2011. Depois de se consagrar com o nacional “Cidade de Deus”, de 2002, Meirelles dirigiu, em 2005, o elogiado “O Jardineiro Fiel”, seu primeiro filme em língua inglesa. Ou seja, com a dupla Meirelles/McCarten, “Dois Papas” só poderia dar certo. Como realmente deu. “Dois Papas” foi indicado ao Oscar 2020 em três categorias: Melhor Ator (Jonathan Pryce), Melhor Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins) e Melhor Roteiro Adaptado. Saiu de mãos abanando, mas é um ótimo filme. Imperdível!   

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Indicado para disputar o Oscar 2020 em três categorias (Melhor Filme, Melhor Edição de Som e Mixagem de Som), “FORD VS. FERRARI” corre por fora para Melhor Filme, ou seja, um azarão para concorrer com filmaços como “O Irlandês”, “Coringa”, “1917” e “Era Uma Vez... em Hollywood”. Em todo caso, vamos aguardar o veredito da Academia – estou escrevendo este comentário poucas horas antes da cerimônia do Oscar. “Ford vs. Ferrari”, 2019, Estados Unidos, 2h33m, foi dirigido por James Mangold, com roteiro de Jez Butterworth, John-Henry e Jason Keller. A história é real e relembra os acontecimentos da década de 60 envolvendo a Ford Motor Company e a italiana Ferrari. Em 1963, numa reunião dos mais altos executivos da Ford com o chefão Henry Ford II (Tracy Letts), chegou-se à conclusão de que a empresa deveria se modernizar, ganhar visibilidade, por exemplo, disputando as corridas de automobilismo. Foi citado o caso da Ferrari, marca que ficou famosa a partir das vitórias nas pistas. Para entrar no jogo, Henry Ford II tentou até comprar a Ferrari, enviando para a Itália o seu diretor Lee Iacocca (Jon Bernthal) para negociar com o próprio comendador Enzo Ferrari. Não deu certo, e Ford acabou liberando a contratação de uma equipe para projetar um carro de corrida próprio. A equipe era comandada pelo ex-piloto e projetista Carroll Shelby), que escolheu como piloto oficial Ken Miles (Christian Bale), também um conhecedor profundo da mecânica dos carros de corrida. O principal objetivo de Henry Ford II seria desbancar a supremacia da Ferrari na famosa “24 Horas de Le Mans”, na França, competição vencida pela marca italiana há vários anos. Depois de vencer o Grande Prêmio de Daytona (EUA) e provar que poderia enfrentar a Ferrari, o pessoal da Ford decidiu disputar Le Mans em 1966. Shelby também ficou famoso por ter projetado para a Ford os modelos Shelby Cobra, Shelby Daytona e Mustang Shelby, que fizeram grande sucesso nas pistas. O filme tem cenas de corrida bastante empolgantes, que garantem muita emoção até o final. Para os fãs do automobilismo, “Ford vs. Ferrari” é um programão. Mesmo quem não curte também vai gostar.            

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020


“O ESCÂNDALO” (“BOMBSHELL”), 2019, EUA, 1h49m, direção de Jay Roach, com roteiro de Charles Randolph. A história é baseada em fatos reais, ou seja, nas denúncias de funcionárias da gigante Fox News, em 2016, contra o chefão Roger Ailes, fundador e CEO da empresa. O filme mostra que há muitos anos Ailes (John Lithgow) obrigava as mulheres a se submeter a seus caprichos sexuais. Caso contrário, não encontravam lugar na empresa. Entre elas, as principais âncoras, repórteres e jornalistas. Uma delas, porém, resolveu denunciar Ailes depois de ser demitida. Gretchen Carlson (Nicole Kidman) contratou advogados para processar o CEO da Fox. No vácuo dessa primeira denúncia, outras funcionárias da Fox News ingressaram com novos processos. Megyn Kelly (Charlize Theron) foi uma delas. Outra personagem importante no filme é a jornalista Kayla Pospisil (Margot Robbie), também vítima do tarado. Em meio a todo esse escândalo, que ocupou com destaque o noticiário norte-americano em 2016, o filme destaca a influência do partido republicano nos meios de comunicação. Na Fox News, por exemplo, não se podia falar mal de Donald Trump, então candidato à presidência. Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes do filme, que ainda conta no elenco com as presenças de Connie Britton, Allison Janney e Kate McKinnon. Mas o destaque principal, sem dúvida, é o trio das protagonistas principais, Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie, atrizes que, além de bonitas, são muito competentes. Theron, quase irreconhecível por causa da maquiagem, cabelo e lentes de contato, foi indicada ao Oscar 2020 como Melhor Atriz. A australiana Margot Robbie também foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante. Ela é, na minha opinião, a atriz mais bonita do cinema atual. E a também australiana Nicole Kidman está muito bem no papel da âncora que resolve fazer a primeira denúncia. Outra indicação recebida pelo filme para a disputa do Oscar 2020 é a de Melhor Cabelo e Maquiagem. Resumo da ópera: “O Escândalo” é um bom filme, mas poderia ser muito melhor. O que o valoriza, além do trio de atrizes, é o fato de ter sido baseado em acontecimentos reais.         

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020


“O FAROL” (“THE LIGHTHOUSE”), 2019, Estados Unidos, 1h50m, direção de Robert Eggers (“A Bruxa”), que também assina o roteiro com a colaboração de seu irmão Max Eggers. A história, ambientada no final do século XIX e inspirada em fatos reais, é centrada na relação entre o experiente faroleiro Thomas Wake (Willem Dafoe) e seu assistente Ephraim Winslow (Robert Pattinson). Os dois são enviados a um rochedo distante da costa para cuidar de um farol, Wake como faroleiro e Winslow como zelador do local. Enquanto cada um cuida de sua função específica, o confinamento e a solidão começam a afetar a dupla. Passam a se xingar, discutem por qualquer motivo e tomam bebedeiras homéricas. Winslow, em especial, tem alucinações sobrenaturais, evocando monstros marinhos e até uma sereia (a modelo Valeriya Karaman). A situação se complica ainda mais quando uma violenta tempestade no mar impede que o navio de suprimentos chegue ao rochedo. Filmado em preto e branco (a fotografia, de Jarin Blaschke, foi indicada para disputar o Oscar 2020), “O Farol” não é um filme de fácil digestão. É lúgubre, tenebroso, violento, escatológico, um misto de drama, suspense, terror e fantasia. E também verborrágico demais, com os diálogos e longos monólogos falados no inglês antigo, difícil de entender. A entonação utilizada pelos atores é bastante teatral, assim como o texto, que lembra as peças trágicas dos dramaturgos de antigamente. O filme estreou durante o 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes em maio de 2019, arrancando muitos elogios da crítica especializada. Recomendo assistir exclusivamente pela ótima atuação dos atores (principalmente Pattinson, o que para mim é surpresa, pois sempre o considerei um ator muito fraco; Dafoe está ótimo como sempre)  e também pela fotografia em p/b, claramente inspirada pelo cinema expressionista alemão da primeira metade do século passado.     

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020


Vencedor de dois prêmios no Globo de Ouro (Melhor Filme de Drama e Melhor Diretor) e indicado em 10 categorias para disputar o Oscar 2020, entre os quais Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia, 1917é mais um excelente filme da ótima safra 2019 do cinema mundial. Trata-se de um épico de guerra ambientado durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e conta a história de dois jovens soldados ingleses, os cabos Schofield (George Mackay) e Blake (Dean-Charles Chapman), que recebem uma difícil e quase suicida missão. Eles serão obrigados a atravessar as linhas inimigas alemãs para levar uma mensagem ao comandante de um pelotão inglês de 1.600 soldados. A ordem do alto comando era suspender o avanço do batalhão, pois a retirada dos alemães da Linha Hindenburg, norte da França, era um subterfúgio para pegar os ingleses numa armadilha. O filme inteiro mostra o sacrifício e o ato heroico dos dois jovens soldados, que enfrentaram terríveis obstáculos para cumprir a difícil missão. Para escrever o roteiro, juntamente com Krysty Wilson-Cairns, o diretor britânico Sam Mendes se inspirou nas histórias da 1ª Guerra Mundial contadas por seu avô paterno Alfred Mendes, que lutou no conflito pelo exército inglês. Sam Mendes (Oscar de Melhor Diretor com “A Beleza Americana” em 2000, e diretor dos dois últimos 007, “Operação Skyfall” e “007 contra Spectre”) filmou tudo em apenas dois longos planos-sequência (sem cortes), com a câmera acompanhando a ação bem perto dos protagonistas, proporcionando ao espectador a sensação de estar em cena participando como protagonista. Para esse trabalho magistral, Mendes contou com a colaboração do fotógrafo Roger Diakins. Ainda estão no elenco Mark Strong, Andrew Scott, Colin Firth, Benedict Cumberbatch e Richard Madden. Muita adrenalina, ação e suspense, valorizados por cenas sensacionais, de tirar o fôlego. Realmente, um filmaço!    

terça-feira, 28 de janeiro de 2020


“BLACK ’47” (não deverá chegar por aqui, pois não tem nenhum apelo comercial; por isso, não foi traduzido), 2018, Irlanda, 1h40, roteiro e direção de Lance Daly. Trata-se de um drama histórico bastante pesado, ambientado em 1847 na Irlanda durante o período que se chamou A Grande Fome, que vitimou milhares de irlandeses. A história é centrada no mercenário Martin Feeney (o ator australiano James Frechville), que desertou do exército inglês que lutava no Afeganistão para rever sua família na Irlanda, mas encontrou todos mortos pela fome e pela omissão das autoridades inglesas. Feeney quer se vingar de todos os que fizeram tanto mal à sua família, desde o juiz que lhes tirou a casa até o empresário avarento que se negava a lhes dar comida. A série de assassinatos cometidos por Feeney chamaram a atenção das autoridades inglesas, que enviaram para capturá-lo um ex-colega de exército de Feeney, Hannah (Hugo Heaving). O filme acompanha a trajetória de Feeney e, em seu encalço Hannah, por uma Irlanda afundada na mais trágica crise econômica, durante a qual grande parte da população morria de fome e frio. Nos diálogos, além da língua inglesa, o roteirista e diretor Lance Daly fez questão de utilizar os dialetos dos irlandeses residentes em aldeias e vilarejos da zona rural. Reforçam o elenco atores ingleses bastante conhecidos, como Stephen Rea e Jim Broadbent. “Black ‘47” estreou, com elogios, durante o Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018. O filme é muito interessante sob o ponto de vista histórico, mostrando um país devastado pela fome e dominado pela tirania inglesa, o que provocou a ira do povo e depois o surgimento de uma ira maior: o IRA.     

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020


“ENTRE FACAS E SEGREDOS” (“KNIVES OUT”), 2019, Estados Unidos, 2h10m, roteiro e direção de Rian Johnson. Mais um dos excelentes filmes que comprovam a qualidade da safra 2019 de Hollywood, que já nos presenteou com os magistrais “Coringa”, “O Irlandês”, “Era uma vez...em Hollywood” e outros tantos. “Knives Out” é um filme policial de mistério e foi escrito inspirado, segundo o próprio Rian Johnson, nas histórias da escritora inglesa Agatha Christie, principalmente “Assassinato no Expresso Oriente”. Ou seja, segue a fórmula de um assassinato, vários suspeitos, interrogatórios e o desfecho revelando o criminoso. O escritor de livros policiais Harlan Thrombey (Christopher Plummer) aparece morto com a garganta cortada depois de sua festa de 85º aniversário. Todos que estavam na festa tornam-se suspeitos: os filhos, genros, netos, empregados etc., cada um com uma motivação diferente para excluir Harlan da vida terrena. O tenente Elliott (Lakeith Stanfield) é o encarregado oficial das investigações, auxiliado pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig, o atual 007), cujo método de interrogatório privilegia uma forte pressão psicológica e perguntas desconcertantes. Blanc escolhe como seu bode expiatório a enfermeira Marta Cabrera (a atriz cubana Ana De Armas, ótima), a imigrante latino-americana que cuidava da saúde do falecido, aplicando-lhe os remédios e injeções. A intuição de Blanc estava certa. Marta será a personagem que mais ajudará o detetive a solucionar o mistério da morte do escritor, a que mais se envolverá nos acontecimentos da investigação. O roteiro do filme é magistral, tanto que foi indicado ao Oscar 2020. Entre o suspense reativado a cada minuto e as várias e surpreendentes reviravoltas, o espectador estará se divertindo com uma trama bastante engenhosa e com um humor sutil e irônico. O elenco é um luxo só: além de Plummer, Craig e Ana De Armas, atuam Chris Evans (o Capitão América), Jamie Lee Curtis, Don Johnson (pai de Dakota, de “50 Tons de Cinza”), Michael Shannon, Toni Colette e Katherine Langforfd. Cinema de qualidade e diversão garantida.     

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020


“VELOZ COMO O VENTO” (“VELOCE COME IL VENTO”), 2016, Itália, 1h40m, direção de Matteo Rovere, que também assina o roteiro com a colaboração de Francesca Manieri e Filippo Gravino. A jovem Giulia De Martino (Matilda De Angelis) é uma jovem pilota de corridas que disputa o Campeonato Italiano de GT (Gran Turismo) por uma equipe modesta chefiada por Hélio De Martino, seu pai. Ela tinha grandes chances de conquistar o campeonato, mas durante uma das provas decisivas seu pai morre vítima de um infarto fulminante. No enterro, surge do nada o filho mais velho do falecido, Loris De Martino (Stefano Accorsi), sumido há 20 anos. Loris chegou a ser um piloto promissor na categoria GT e ficou conhecido pelo apelido de “Dançarino” por suas manobras ousadas nas pistas. Só que Loris se entregou às drogas – é viciado em heroína – e virou um sujeito fracassado. Quando soube da morte do pai, apareceu para tentar ganhar algum dinheiro de herança. Não seria tão simples assim. Seu pai hipotecou a casa para manter a equipe de corrida. Dessa forma, restava a Giulia conquistar o campeonato e resgatar as dívidas. Para isso, teve que aceitar seu irmão viciado como técnico. Um acidente, porém, tira Giulia das pistas, colocando um ponto final no seu sonho de conquistar o campeonato de GT. Numa última chance de ganhar algum dinheiro, Loris decide participar de uma prova chamada Corrida da Itália (Italian Race), um tipo de rallye muito perigoso que costuma provocar muitas mortes. Com a ajuda do mecânico Tonino (Paolo Graziosi), Loris resolve recuperar o velho Peugeot 205 Turbo 16, seu antigo companheiro de provas, e enfrentar os desafios da Italian Race. “Veloce Come Il Vento” conquistou 12 prêmios em festivais de cinema, um deles o “Davi Di Donatello”, da Academia do Cinema Italiano, como Melhor Filme. Não achei tão bom assim, embora as cenas nas pistas sejam bem filmadas. Só para amantes do automobilismo esportivo.          

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020


Depois de assistir “MINHA IRMÃ DE PARIS” (“NI UNE NI DEUX”), 2019, França, 1h38m, não entendi por que os materiais de divulgação trataram o filme como comédia. Até alguns críticos caíram nessa, provavelmente porque não o assistiram e apenas reproduziram a sinopse. Na verdade, trata-se de um drama familiar. Julie Varenne (Mathilde Seigner), uma atriz francesa de sucesso em filmes independentes de arte, aceita participar de uma comédia, na tentativa de alavancar uma carreira em decadência. Uns dias antes do início das filmagens, ela se submete a uma aplicação de botóx no lábio superior que não dá certo. Ela fica desfigurada. E agora, o que fazer? Auxiliada pelo seu empresário Jean-Pierre (François-Xavier Demaison), Julie acaba recorrendo a uma fã que um dia pediu seu autógrafo e é muito parecida com a atriz. Trata-se de Laurette (Seigner), uma cabeleireira dona de um salão de beleza. Laurette topa trabalhar como dublê de Julie e se sai muito bem. Quando a verdadeira atriz melhora e volta a filmar, a coisa se complica. No meio desse agito todo, Julie acabará descobrindo que Laurette é, na verdade, sua irmã gêmea. Como únicos trunfos de “Minha Irmã de Paris”, destaco a atuação de Mathilde Seigner nos dois papéis, assumindo as personalidades completamente diferentes das irmãs. Só para lembrar: Mathilde é irmã da também atriz Emmanuelle Seigner, esposa e musa do cineasta Roman Polanski desde os anos 80. Outro destaque do filme são os belos cenários da cidade de Aix-em-Provence, onde a personagem Laurette mantém seu salão de beleza. Resumo da ópera: entre um e outro sorriso amarelo, dá para assistir “Minha Irmã de Paris” numa sessão da tarde para adultos.      

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


“DOR E GLÓRIA” (“DOLOR Y GLORIA”), 2019, Espanha, 1h53m, é o filme mais autobiográfico do roteirista e diretor Pedro Almodóvar. É o seu 21º longa-metragem e, na minha opinião, o mais genial. A história é centrada no cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas), que tem dificuldade de enfrentar a velhice que chega e, com ela, a depressão e a falta de inspiração. Tem problemas de saúde, dores pelo corpo e nenhuma vontade de socializar. Até que um dia resolvem prestar uma homenagem ao filme “Sabor”, que Mallo escreveu e dirigiu há 32 anos, um grande sucesso na época. Os preparativos para a homenagem fizeram com que Mallo reencontrasse Alberto Crespo (Azie Etxeandia), ator principal do filme e com o qual havia brigado. Mallo também terá a oportunidade de rever Federico (o ator argentino Leonardo Sbaraglia), seu antigo namorado. Em meio a esses encontros, Mallo começa a recordar de sua infância pobre (papel do menino Asier Flores) em Valência nos anos 60 e de sua relação com a dedicada mãe Jacinta (Penélope Cruz), além de mostrar como surgiu sua opção sexual. Antonio Banderas está ótimo no papel do diretor amargurado e, merecidamente, conquistou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2019, onde o filme teve a sua estreia mundial e a indicação para a Palma de Ouro. “Dor e Glória” também está representando a Espanha na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. Segundo a prestigiosa revista norte-americana Times, trata-se do melhor filme do ano. Almodóvar reconhece que Mallo tem tudo a ver com sua vida pessoal (reparem que o penteado do ator Banderas é igual ao do cineasta). Quem assistir poderá constatar que o Almodóvar colocou no roteiro uma série de memórias afetivas. “Dor e Glória” é um grande filme, melancólico e, ao mesmo tempo, bastante sensível. Na minha humilde opinião, um dos melhores de Almodóvar. Não perca!          

domingo, 19 de janeiro de 2020


“DEPOIS DO CASAMENTO” (“AFTER THE WEDDING”), 2019, Estados Unidos, 1h52m, roteiro e direção de Bart Freundlich. Trata-se do remake do filme dinamarquês “Efter Brylluppet”, de 2006, dirigido por Susanne Bier. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano seguinte, o filme de Susanne Bier tinha como protagonista principal o ator Mads Mikkelsen. No caso desta nova versão norte-americana, o papel de Middelsen foi substituído por de uma mulher. A história do drama recente é centrada em Isabel (Michelle Williams) que há muitos anos vive em Calcutá (Índia) prestando serviços humanitários num orfanato, agora como gerente. Ela não sabe como seguir adiante, pois não há ajuda financeira. Quando tudo parecia perdido, eis que chega a notícia de que uma alta executiva de uma renomada empresa de publicidade sediada em Nova Iorque está disposta a doar milhões de dólares para o orfanato. Isabel segue para Nova Iorque para conhecer a empresária Theresa (Jullianne Moore) e negociar os valores e as condições do contrato. Será preciso esperar alguns dias para essa reunião, pois Theresa está organizando o casamento de sua filha Grace (Abby Quinn). Isabel é convidada para a cerimônia sem saber que uma grande surpresa estará prestes a acontecer, envolvendo Oscar (Billy Crudup), justamente o marido de Theresa. Não dá para contar mais para não estragar as surpresas do roteiro, que são muitas até o desfecho. Quem for muito sensível pode comprar uma caixa de lenços, pois as lágrimas vão rolar. O grande trunfo dessa versão hollywoodiana, além da história bastante interessante, é contar com três ótimos atores: Julianne Moore (na vida real, esposa do diretor), Michelle Williams e Billy Crudup. No mais, nada de muito empolgante para merecer uma recomendação entusiasmada. Porém, trata-se de um bom programa para quem gosta de filmes lacrimosos.