sexta-feira, 25 de maio de 2018


“O QUE TE FAZ MAIS FORTE” (“STRONGER”), 2017, EUA, direção de David Gordon Green. Todo mundo lembra do atentado ocorrido no dia 15 de abril de 2013 durante a Maratona de Boston, quando a explosão de duas bombas matou três pessoas e deixou 264 feridas, muitas gravemente. Um dos feridos com maior gravidade foi o jovem Jeff Bauman, de 28 anos, que perdeu as duas pernas abaixo dos joelhos e se transformou num verdadeiro herói nacional ao ajudar o FBI a descobrir a identidade de um dos terroristas. Bauman escreveu uma autobiografia na qual se baseou o roteirista John Pollono para adaptá-la ao cinema. O filme conta em detalhes o sofrimento pelo qual Bauman (Jake Gyllenhaal) passou depois do acidente, os primeiros curativos (a cena é de arrepiar), as sofridas sessões de fisioterapia, as horas de desespero e angústia, o apoio dos pais e amigos e o tumultuado romance com a jovem Erin Hurley (Tatiana Maslany). Também ganham destaque no filme as homenagens que Bauman recebeu da cidade de Boston durante os concorridos jogos das equipes locais de beisebol e futebol americano. O foco principal, porém, é o esforço de Bauman para superar a tragédia com muita coragem e perseverança. Gostei do filme, mas fiquei muito triste ao ver a ótima atriz inglesa Miranda Richardson (que faz a mãe de Bauman) tão fora de forma, envelhecida e enorme de gorda, mas mesmo assim ainda muito competente.        

quarta-feira, 23 de maio de 2018


“OBEDIÊNCIA PERFEITA” (“OBEDIENCIA PERFECTA”), 2014, México, roteiro e direção de Luis Urquiza (seu primeiro e único longa-metragem). A história toca numa ferida das mais purulentas envolvendo a Igreja Católica, ou seja, o abuso sexual praticado por seus padres. No caso, o padre mexicano Angel de La Cruz (Juan Manuel Bernal), fundador da Ordem Cruz de Cristo, que durante quase duas décadas abusou sexualmente de jovens seminaristas – praticamente adolescentes. Seu jovem “preferido” era Julián (Sebastián Aguirre), que ao entrar no seminário de Angel ganhou o pseudônimo de Sacramento Santos. Baseado nos preceitos de Ignácio de Loyola, fundador da Ordem dos Jesuítas, Angel adotava como ensinamento básico e regra obrigatória a “obediência perfeita”, fazer tudo o que os padres superiores mandarem, inclusive “aquilo”. Toda a história contada no filme foi baseada no livro “Los Legionários de Cristo”, escrito por Ernesto Alcocer, cujo personagem principal é o padre Marcial Maciel Degollado (1920-2008), processado e depois excomungado pelo Papa Bento XVI. O diretor Urquiza disse, em entrevista, que resolveu fazer o filme depois que soube que o Papa João Paulo II, em sua gestão, acobertou o padre Marcial.  O filme não precisou escancarar em imagens explícitas os detalhes escabrosos da rotina do seminário, embora apresente cenas bastante perturbadoras envolvendo os padres e os jovens seminaristas. O filme é muito bom, com maior destaque para o desempenho do ator Juan Manuel Bernal como o padre Angel. Sua atuação é impressionante, fazendo você sentir uma  repugnância quase assassina pelo personagem, ironicamente chamado de Angel. Por esse trabalho, Bernal conquistou o Prêmio Ariel (o Oscar mexicano) de Melhor Ator em 2015.    

domingo, 20 de maio de 2018


Quem gosta de História, especialmente daqueles anos que precederam o início da Segunda Guerra Mundial (década de 30), não deve perder o drama biográfico “MASARYK”, 2016, República Tcheca, roteiro e direção de Julius Sevcik. A trama toda é centrada no diplomata e político Jan Garrigue Masaryk (Karel Roden), Ministro das Relações Exteriores da então Checoslováquia. Jan, filho de Tomás Masaryk, o primeiro presidente do país, teve participação importante nas reuniões que envolveram os chanceleres dos países europeus para tratar do assunto Hitler e sua política de agressão aos países menores como a Checoslováquia. As principais tratativas de Masaryk envolviam diretamente a Inglaterra e a França, então os únicos países capazes de enfrentar a poderosa Alemanha. Os bastidores dessas negociações praticamente tomam conta do filme, além da amizade de Masaryk com a jornalista e escritora norte-americana Marcia Davenport (Arly Jover). Outro destaque é a presença da bela atriz e supermodelo Eva Herzigová, que se mostra muito competente no papel de uma cantora de boate.  Apresentado durante a programação da 67ª Edição do Festival Internacional de Berlim, o filme é excelente e, repito, indicado especialmente para quem gosta de História.



“O INSULTO” (L’INSULTE”), 2017, Líbano (o título original, em francês, é por causa da coprodução com a Bélgica), roteiro e direção de Ziad Doueiri (“O Atentado” e “West Beyrouth”). Ambientada em Beirute, a história começa a ser desenrolada a partir de um incidente simples – o mecânico Tony Hanna (Adel Karam) lavava a sacada de seu apartamento quando a água saiu pelo encanamento quebrado e caiu sobre Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha), engenheiro responsável por uma obra naquela rua. Um xinga o outro e vice-versa. Começa a troca de insultos. O desentendimento toma proporções maiores quando os insultos tocam nas feridas de ambas as partes, ou seja, Tony é um cristão libanês e Yasser um refugiado palestino. O conflito acaba na Justiça e o filme vira um “filme de tribunal”. Mais do que isso: transforma-se numa pendência jurídica que acaba mobilizando a mídia libanesa, levando o caso para as primeiras páginas dos jornais e para o noticiário televisivo. Graças a um primoroso roteiro, o filme aborda as mais importantes questões que envolvem o Líbano desde a segunda metade do Século 20, como os massacres de cristãos em Damour (1976) e dos palestinos em Sabra e Chatila (1982). Todos os fatos políticos da época são recordados durante o julgamento, tanto pela defesa como pela acusação. Apesar do tema árido e um tanto pesado, o filme conta com momentos de grande sensibilidade. Os atores são ótimos (Kamel El Basha foi eleito o melhor ator no Festival de Veneza). O filme é uma verdadeira aula de cinema, com destaque para o roteiro, que, a partir de um acidente aparentemente trivial, consegue abordar os principais aspectos políticos e religiosos que fizeram do Líbano um dos países mais conflituosos do Oriente Médio. O filme é tão bom que chegou ao Oscar 2018 como um dos cinco finalistas na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Assisti a todos e posso afirmar com toda certeza: “O Insulto” merecia ganhar a estatueta. Simplesmente imperdível!      
      

terça-feira, 15 de maio de 2018


“LETRAS DA MORTE” (“HANGMAN”), 2017, EUA, direção de Johnny Martin e roteiro da dupla Charles Huttinger e Michael Caissie. Trata-se de um suspense policial que tem como maior atrativo a presença de Al Pacino como o detetive aposentado Ray Archer, que volta à ativa para ajudar o detetive Will Ruiney (Karl Urban) nas investigações para descobrir a identidade do serial killer responsável por várias mortes. O assassino é brincalhão, pois além de enforcar as vítimas, desenha do lado uma forca com aqueles espaços para colocar as letras. Como os crimes ganharam repercussão, a jornalista Christ Davies (Brittany Snow) é autorizada pelo comando da polícia a acompanhar os detetives aos locais dos crimes e nas investigações. Este é o quinto filme dirigido por Johnny Martin, mais conhecido em Hollywood por ter trabalhado como stuntman (dublê) em inúmeros filmes de ação. Tudo bem que “Hangman” não é nenhuma maravilha, mas dá para ver sem exigir muito dos neurônios. Como informação adicional, acrescento que o filme ganhou um zero bem redondo do pessoal do site Rotten Tomatoes, especializado em críticas de cinema e TV. A opção é sua.     
      

domingo, 13 de maio de 2018


“O ESTRANGEIRO (“THE FOREIGNER”), 2017, é uma coprodução China/Inglaterra reunindo dois grandes astros do cinema atual: Jackie Chan e Pierce Brosnan. É um filme de muita ação, explosões, perseguições e pancadaria. O empresário chinês naturalizado inglês Quan Ngoo Minh (Chan), dono de um restaurante em Londres, passa o filme inteiro tentando descobrir os autores do atentado à bomba que matou sua filha. Assumiu a autoria uma organização terrorista irlandesa. Para conseguir o seu objetivo, Quan pressiona o vice-ministro da Irlanda, Liam Henessy (Brosnan), a fornecer alguma pista. O chinês é “osso duro de roer” e vai fazer da vida de Henessy um verdadeiro inferno. A história é baseada no livro “The Chinaman”, escrito por Stephen Leather e adaptado para o cinema pelo roteirista David Marconi. O filme é dirigido por um especialista em filmes de ação, o neo-zeolandês Martin Campbell, o mesmo de dois filmes da franquia James Bond, “GoldenEye” e “Casino Royale”, além de “A Lenda do Zorro” e “O Fim da Escuridão”. Serve para uma sessão da tarde com pipoca.
    
      


“HABI, A ESTRANGEIRA” (“Habi, La Extranjera”), 2013, Argentina/Brasil (um dos produtores é o nosso diretor Walter Salles, além da participação da atriz Maria Luisa Mendonça). Trata-se do primeiro longa-metragem escrito e dirigido por María Florencia Álvarez, mais conhecida na Argentina como diretora de curtas. A história é centrada na jovem Analía (Martina Juncadella), de 20 anos de idade, que viaja de sua pequena cidade no interior da Argentina para a capital Buenos Aires com o objetivo de entregar algumas peças de artesanato. Ao tentar encontrar o endereço para entregar mais uma peça, ela entra por engano numa casa onde transcorre um velório muçulmano. Como foi bem tratada e recebida com carinho, ela resolve ficar e acaba participando das orações. A jovem gostou do ambiente e das pessoas e passa a frequentar a comunidade muçulmana, querendo aprender árabe e conhecer a religião, além de adotar alguns hábitos das mulheres, como, por exemplo, o uso do chador. Para ser melhor recebida, ela adota o nome de Habiba Rafat e diz para todo mundo que nasceu no Líbano. Dessa forma, uma viagem que seria um “bate-e-volta” transforma-se numa estadia de vários dias. Mesmo sem dinheiro, ela consegue alugar um quarto numa pensão espelunca, onde conhece Margarita (Maria Luisa Mendonça), uma brasileira radicada na Argentina e que vive às turras com o namorado cafajeste argentino. Claro que nem tudo será um mar de rosas, principalmente depois que ela conhece um jovem muçulmano e se apaixona. Enfim, um filme apenas interessante, mas longe de merecer uma recomendação entusiasmada.      

quinta-feira, 10 de maio de 2018


Existem alguns bons motivos para assistir “THE FORGIVEN” (na tradução literal para o português, “O Perdoado”, mas não sei será traduzido assim por aqui), 2017, Inglaterra. O principal deles é a história em si, baseada em fatos reais, ou seja, o período pós-Apartheid na África do Sul, quando o presidente eleito Nelson Mandela constituiu a Comissão de Verdade e Reconciliação, com o objetivo de julgar os crimes cometidos entre 21 de março de 1960, quando houve o famoso massacre de Sharpeville, e 10 de maio de 1994, dia da posse de Mandela. O Arcebispo Desmond Tutu foi encarregado de presidir a Comissão. Nos julgamentos, as famílias das pessoas assassinadas, geralmente por motivos racistas, eram colocadas frente a frente com os assassinos (geralmente policiais do antigo regime), resultando excelentes cenas para o filme. Numa delas, a mãe de uma jovem que havia sido brutalmente morta encara o assassino, fala poucas e boas e no fim acaba o perdoando, num dos momentos mais tocantes do filme. Outro bom motivo é a presença de dois ótimos atores, Forest Whitaker como Desmond Tutu, e Eric Bana como Piet Blomfield, um assassino cruel sentenciado à prisão perpétua. Outro fator que merece destaque é o trabalho do experiente roteirista e diretor inglês Roland Joffé, responsável por clássicos como “Os Gritos do Silêncio” (1984), “A Missão” (1986), e “Vatel – Um Banquete para o Rei” (2000), entre tantos outros. Ao elaborar “The Forgiven”, Joffé baseou-se na peça “The Archbishop and The Antichrist”, escrita por Michael Ashton, que também colaborou com o roteiro. Enfim, estão aí expostos os motivos para você curtir esse excelente filme, que estreou, com elogios, durante o Festival de Cinema de Londres/2017.     
      

segunda-feira, 7 de maio de 2018


“UMA ESPÉCIE DE FAMÍLIA” (“Una Especie de Familia”), Argentina, 2017, roteiro e direção de Diego Lerman. Trata-se de um drama (dramalhão, na verdade) centrado na médica Malena (Bárbara Lennie), que, depois de perder um filho na fase de gestação, resolve adotar um bebê. Ela consegue a doação por intermédio de uma moça de família pobre que mora num vilarejo da província de Misiones, a 800 km de Buenos Aires. Tudo acertado, Malena ruma para acompanhar o parto de Marcela (Yanina Ávila), a tal mãe que concordou em doar a criança. Depois que o bebê nasce, porém, a família de Marcela surpreende com a decisão de entregar o bebê se a médica pagar 10 mil dólares. Além disso, quer que o marido de Malena, Mariano (Claudio Tolcachir), assuma a paternidade do bebê e o registre em seu nome. Imbróglio formado, resta a Malena conseguir o dinheiro e ainda convencer o marido a assinar o termo de paternidade. A situação engrossa de vez e mais não dá para contar porque o que vai acontecer talvez seja difícil de adivinhar. Deixo esse suspense para o espectador. O filme vale principalmente pela ótima atuação da bela e competente atriz espanhola Bárbara Lennie, que trabalhou sob a direção de Pedro Almodóvar em “A Pele que Habito”, além de ter participado do elenco do “Mel com Laranjas”. Mas a atuação que mais surpreende é a da estreante Yanina Ávila como a mãe biológica da criança. O filme foi exibido por aqui durante a 41º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017.     

domingo, 6 de maio de 2018


Confesso de cara que não foi fácil resistir até o final das 2h7min de duração do drama romeno   “ANA, MON AMOUR”, 2017, escrito e dirigido por Calin Peter Netzer, o mesmo diretor do ótimo “Instinto Materno”. A história é baseada no livro “Luminita, Mon Amor”, escrito por Cezar Paul-Bädescu (que também colaborou na elaboração do roteiro). O tédio já começa com dois estudantes de filosofia discutindo Nietzsche. Dessa forma erudita é que começa o romance entre Ana (Diana Cavallioti) e Toma (Mircea Postelnicu). A partir daí, o filme acompanha a relação tumultuada entre os dois durante muitos anos depois. Ana é uma mulher depressiva crônica, tem ataques de ansiedade e pânico e é emocionalmente perturbada, talvez porque tenha sido estuprada pelo padrasto quando era adolescente – pelo menos é o que o filme dá a entender. Toma é inseguro, também depressivo, fuma sem parar e se entrega totalmente aos defeitos de Ana, que se transforma numa obsessão para ele ao longo dos anos em que ficam juntos. Para aguentar o tranco, Toma se submete a sessões de psicanálise mostradas ao espectador de forma bastante tediosa. Um aviso importante para quem se sujeitar a acompanhar esse drama: tire as crianças da sala, pois tem cenas de nú frontal e de sexo explícito, aliás, de muito mau gosto. Outra cena que choca é aquela em que Toma é obrigado a limpar as sujeiras de Ana depois de um surto. A cena que achei mais interessante, porém, é aquela em que os editores do jornal em que Toma trabalha discutem a pauta da próxima edição. A ideia é colocar, como destaque, uma entrevista com o escritor brasileiro Paulo Coelho. Toma é contra, dizendo que Coelho não é bom escritor e que, por isso, não merece destaque, ao que foi contestado pelo editor-chefe, que defende a entrevista dizendo que nenhum escritor no mundo vende tanto quanto Paulo Coelho. O filme estreou no 67º Festival de Berlim e foi exibido por aqui durante a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017.   
      

quinta-feira, 3 de maio de 2018


“A FILHA” (“The Daughter”), 2015, Austrália, estreia do ator suíço Simon Stone como roteirista e diretor. Para escrever a história, ele se baseou na peça “O Pato Selvagem”, escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1884. Não conheço a peça de Ibsen para poder analisar melhor sua adaptação para o cinema, mas não deve ter sido uma tarefa muito fácil, tendo em vista a forte carga emocional e dramática que envolve os personagens do começo ao final do filme. Talvez por isso mesmo, Stone escalou um excelente elenco: Paul Schneider, Geoffry Rush, Miranda Otto, Ewen Leslie, Anna Torv, Odessa Young e Sam Neil. Mas vamos à história: ao retornar à cidade natal para o casamento do pai (Rush) com uma ex-empregada da casa (Anna Torv), Cristian (Schneider) é surpreendido com o fora dado por telefone pela sua noiva. Ele entra em depressão e acaba se encrencando com o pai, um homem prepotente que não admite ser contrariado. A situação acaba piorando, e muito, depois que Cristian descobre um antigo segredo envolvendo o próprio pai e Charlotte (Miranda Otto), esposa do amigo Oliver. As verdades lançadas no ventilador atingirão todo mundo, principalmente a jovem Hedvig (Odessa), filha de Charlotte e Oliver. É drama que não acaba mais. Achei que a interpretação à beira da histeria acabou constrangendo alguns atores. Vejam e comprovem.         

quarta-feira, 2 de maio de 2018


O drama nacional “COMO NOSSOS PAIS” é o quarto longa-metragem escrito e dirigido pela diretora Laís Bodanksy. A história é centrada na personagem Rosa (a ótima Maria Ribeiro), uma mulher beirando os 40 anos e que vive uma fase infeliz. É casada com Dado (Paulo Vilhena), um marido pouco participativo na família. Rosa é obrigada a lidar sozinha com a rebeldia precoce das filhas pré-adolescentes, com os problemas da casa e, além disso, perde o emprego e, para coroar as “boas” notícias, ainda descobre que o marido está tendo um caso com uma colega de trabalho mais nova. Se você pensa que desgraça é pouca, Rosa ainda vai ter que digerir um segredo bombástico revelado pela mãe Clarice (Clarisse Abujamra) num almoço de família. A história acompanha o desgaste do casamento de Rosa, seu difícil relacionamento com a mãe, o carinho que tem pelo padrasto irresponsável Homero (Jorge Mautner) e uma “pulada de cerca” com um amigo (Felipe Rocha). O filme é muito bom, tanto que conquistou seis “kikitos” no 45º Festival de Gramado, incluindo Direção, Melhor Atriz (Maria Ribeiro), Atriz Coadjuvante (Clarisse Abujamra) e Ator Coadjuvante (Paulo Vilhena). No desfecho, ainda podemos curtir a música “Como Nossos Pais”, de Belchior e imortalizada por Elis Regina, só que instrumental, mas ainda assim linda e emocionante demais.          

segunda-feira, 30 de abril de 2018


O drama italiano “INDIVISÍVEIS” (“INDIVISIBILI”), 2017, quarto longa-metragem escrito e dirigido pelo diretor napolitano Edoardo De Angelis, conta a história de duas irmãs siamesas de 18 anos de idade que possuem um grande talento vocal. Por isso, desde cedo, se apresentam em festas de casamento e aniversário, além fazer shows pelas cidades próximas a Nápoles. Elas são exploradas pelo pai viciado em jogo e pela mãe alcoólatra e viciada em drogas. Ou seja, elas não vêem a cor do dinheiro. Até que chegam aos 18 anos e resolvem se rebelar, inclusive ameaçando se submeter a uma operação para separá-las, conforme sugestão de um médico durante um casamento. As moças que interpretam as siamesas Viola e Daisy (Marianna e Angela Fontana, estreando no cinema) são realmente gêmeas na vida real, mas não siamesas como no filme. O pai explorador é interpretado pelo ator Massimiliano Rossi e a mãe viciada Titti pela atriz Antonia Truppo. Todos com ótima atuação. As locações das filmagens, na periferia pobre de Nápoles, sugeriram a alguns críticos profissionais que o filme se aproximou muito do estilo neo-realista do cinema italiano das décadas de 40/50. Talvez, mas de qualquer forma trata-se de um filme bastante interessante e que vale a pena ser conferido.        

domingo, 29 de abril de 2018


“O OUTRO LADO DA ESPERANÇA” (“TOIVON TUOLLA PUOLEN”), Finlândia, 2017, é o 17º longa-metragem escrito e dirigido por Aki Kaurismäki, o mais importante diretor do cinema finlandês da atualidade. Lembro, especialmente, de outros ótimos filmes de Kaurismäki, como “O Homem sem Passado” e “O Porto”, este último rodado na França com elenco francês. Neste seu mais recente filme, o pano de fundo da história é a situação dos refugiados na Europa, representados na figura do sírio Khaled (Sherwan Haji), que foge da guerra civil de seu país, percorre vários países da Europa e acaba na Finlândia, escondido num navio cargueiro. Paralelamente à história de Khaled, Kaurismäki apresenta a trajetória de outro personagem, o vendedor ambulante Wisktröm (Sakari Kuosmanen), que larga não só o trabalho como também a esposa alcoólatra, decide comprar um restaurante decadente e assume os empregados mais esquisitos do mundo. Por uma dessas coincidências da vida, Khaled vai parar no restaurante de Wisktröm e ajudar a reerguê-lo. Embora trate de uma questão séria como a dos refugiados, Kaurismäki recheia a história com muito humor, um humor cínico e irônico. Mesmo nas situações mais hilariantes, os personagens mantêm suas fisionomias sérias, um recurso que funciona muito bem nesta ótima comédia finlandesa. O filme foi exibido pela primeira vez no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017, e Kaurismäki recebeu o Urso de Prata como Melhor Diretor. Muito justo, pois o filme é simplesmente imperdível!        


Mais uma pérola do surpreendente cinema sul-coreano: “A REDE” (“GEUMUL”), 2016, roteiro e direção de Kim Ki-Duk, o mesmo do sensacional “Pieta”. Como faz diariamente, o pescador norte-coreano Nam Chul-Woo (Ryoo Seung-bum) sai para pescar próximo à fronteira com a Coréia do Sul. Quando recolhe a rede para voltar, esta se enrosca no motor, deixando o barco à deriva, ultrapassando as águas territoriais da Coréia do Sul. Ao chegar à margem, ele é imediatamente detido e levado pela polícia sul-coreana para interrogatório. As autoridades acreditam que ele é um espião a serviço da Coréia do Norte. E dá-lhe interrogatório, com direito a torturas físicas e psicológicas. Os sul-coreanos, além de forçarem Chul-Woo a confessar que é um espião, querem obrigá-lo a se exilar na Coréia do Sul, tentando fazer uma lavagem cerebral no coitado com o slogan “É impossível viver numa ditadura. Venha morar num país livre”. As autoridades, tentando cooptá-lo para o seu lado, levam-no a conhecer Seul, um paraíso capitalista e repleto de oportunidades, mas Chul-Woo continua insistindo que é inocente e que quer voltar para sua esposa na Coréia do Norte. O caso chega à imprensa internacional, o que faz com que o pescador seja libertado e devolvido para o seu país de origem. Chul-Woo chega à Coréia do Norte como herói, com direito a recepção com bandeirolas e banda de música. A comemoração, porém, esconde uma terrível intenção por parte das autoridades norte-coreanas. Junto com o pobre e inocente pescador, o espectador irá viver momentos bastante angustiantes. O filme foi exibido por aqui durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Filmaço!

De vez em quando faz bem para o cérebro assistir a uma comédia boba, sem compromisso com os neurônios do espectador. Com esse objetivo, escolhi assistir à produção espanhola “ABRACADABRA”, 2017, escrita e dirigida por Pablo Berger, mesmo diretor do ótimo “Blancanieves” e “Torremolinos”. Também me motivou a presença da diva espanhola Maribel Verdú, uma bela e excelente atriz. A história é fantasiosa, abordando o sobrenatural, tudo levado no maior bom humor. Carmen (Verdú) é uma dona de casa dedicada à família e, principalmente, ao marido Carlos (Antonio de La Torre). Um dia, porém, ela percebe que Carlos começa a ter atitudes estranhas. Depois de muito observar o comportamento de Carlos, Carmen chega a uma terrível conclusão: seu marido foi possuído por algum espírito maligno. Ao lado do cunhado maluco e de um charlatão, Carmen vai tentar descobrir a identidade do tal espírito e, assim, fazer o marido voltar ao normal. Esse contexto dá margem a situações bastante engraçadas. Mas no quarto final a comédia perde o ritmo e se transforma num dramalhão mexicano, aliás, espanhol. Mesmo com alguns defeitos, o filme foi indicado em várias categorias no Prêmio Goya (o Oscar espanhol). Resumo da ópera: uma grande bobagem, mas muito divertida.        


Embora tenha assistido a alguns bons filmes no gênero, nunca fui chegado a histórias com temática gay, principalmente por causa das cenas de sexo entre dois homens, por exemplo, mesmo que sejam realizadas com alguma sensibilidade, como é o caso do drama romântico “ME CHAME PELO SEU NOME” (“CALL ME BY YOUR NAME”), coprodução EUA/Itália/França/Brasil (isso mesmo, tem um brasileiro, Rodrigo Teixeira, no time de produção). A direção é do italiano Luca Guadagnino (“100 Escovadas Antes de Dormir”), com roteiro do consagrado James Ivory (diretor de “Vestígios do Dia”). A história é baseada no romance homônimo do escritor egípcio André Aciman e ambientada em 1983. A família do professor Perlman, especialista em cultura grego-romana, está passando as férias de verão numa casa de campo no interior da Itália. Logo chega o acadêmico Oliver (Armie Hammer) para ajudar o professor numa pesquisa arqueológica. Os diálogos, tanto em inglês, italiano e francês, contêm uma grande dose de erudição, principalmente quando o assunto é arte. Até o surgimento de Oliver, o jovem Elio (Timothée Chalamet), 17 anos, filho do professor, saía com uma turma de jovens e uma delas era sua namorada. Elio e Oliver acabam ficando amigos inseparáveis e, depois, muito mais do que amigos. O filme é de grande beleza estética, incluindo a excelente fotografia, locações e cenários deslumbrantes. Estreou no Sundance Festival e também foi exibido durante o 42º Festival de Toronto, em setembro de 2017. Embora a ala conservadora de Hollywood tenha criticado sua temática, o filme ganhou o Oscar 2018 na categoria “Roteiro Adaptado”. Não é para qualquer público, principalmente aquele cuja cultura está no nível do carpete.        

sábado, 28 de abril de 2018


Todo mundo que se liga em cinema lembra que “Rocky, um Lutador” levou ao estrelato o ator Sylvester Stallone. Mas poucos sabem que o personagem foi inspirado num tal de Chuck Wepner, lutador peso-pesado que nos anos 70 ficou famoso ao resistir a 15 assaltos com o então campeão Muhammad Ali (ex-Cassius Clay). Stallone achou o gancho para criar o personagem Rocky Balboa. Toda essa incrível história está contada no drama “PUNHOS DE SANGUE – A VERDADEIRA HISTÓRIA DE ROCKY BALBOA” (“CHUCK”), 2016, direção do canadense Phillipe Falardeau, com roteiro de Liev Schreiber, Jeff Feverzeig, Jerry Stahl e Michael Cristofer. O elenco é ótimo: Liev Schreiber, Naomi Watts, Ron Perlman e Elisabeth Moss. O filme revela que Chuck Wepner viveu frustrado por não ter ganho nada com os filmes de Stallone, a ponto de estragar o relacionamento com sua esposa e quase acabar na sarjeta das drogas, sendo salvo por uma admiradora atendente de bar. O filme é ótimo, as cenas de luta são espetaculares e o desempenho de Schreiber é simplesmente incrível. Um ótimo programa para uma sessão da tarde.      


“A COMUNIDADE” (“Kollektivet”), 2016, Dinamarca, roteiro e direção de Thomas Vinterberg. Comédia dramática ambientada nos anos 70. Erik (Ulrich Thomsen) e Anna (Trine Dyrholm) vivem com a filha adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansem) numa bela casa num bairro elegante de Copenhague. Ele, professor universitário, ela apresentadora de telejornal numa importante emissora de TV. Como a vida ficou difícil, as contas aumentaram, eles resolvem convidar alguns amigos para morar junto e, assim, dividir as despesas. Dessa forma, nasce uma comunidade nos moldes da filosofia hippie, com regras estabelecidas, muita paz e amor. Almoços, jantares, festas, muita cantoria e alegria geral. Todos vivem como se fossem uma família feliz. Até que Erik, motivado pelo ar libertário, resolve levar a amante Emma (Helene Relngaar Neumann, esposa do diretor na vida real), sua estudante na universidade, para morar com a turma. Aí a maionese desanda de vez, colocando em risco a convivência pacífica que prevalecia deste o início. De qualquer forma, trata-se de um filme bastante agradável de assistir, com uma trilha sonora saborosa, destacando o clássico “Goodbye Yellow Brick Road”, de Elton John. Trata-se de mais um filme polêmico do diretor dinamarquês Vinterberg, considerado um dos percursores do movimento Dogma 95 com o filme “Festa de Família”. Vinterberg também é responsável por filmes excelentes como “A Caça” e “Submarino”. Um ótimo programa para quem curte filmes de qualidade. Sem falar que a atuação de Trine Dyrholm, talvez a principal atriz dinamarquesa da atualidade , é simplesmente maravilhosa. Para terminar o comentário, basta dizer que o filme foi o mais aplaudido pelo público e crítica do Festival de Cannes.    

sexta-feira, 27 de abril de 2018


“PARIS PODE ESPERAR” (“PARIS CAN WAIT”), 2016, roteiro e direção de Leonor Coppola (isso mesmo, a esposa do consagrado diretor Francis Ford Coppola). Michael Lockwood (Alec Baldwin) está com a esposa Anne (Diane Lane) no Festival de Cannes. Ele é um famoso produtor de Hollywood e ela uma fotógrafa amadora. Ao fim do festival, o casal havia programado ir até Paris para alguns dias de férias. Mas eis que surge um imprevisto e Michael é obrigado a viajar para Budapeste (Hungria) com o objetivo de supervisionar uma importante produção internacional. Ele pede ao seu sócio francês Jacques Clément (Arnaud Viard) que acompanhe Anne até Paris. Um risco e tanto deixar a esposa aos cuidados desse charmoso francês. Será que Anne resistirá aos encantos de Clément? Tchan, tchan, tchan... Já começa quando Anne pede que encurtem a viagem: Clément responde que “Paris pode esperar”. Daí em diante, ele levará Anne por um verdadeiro roteiro romântico pelo interior da França, incluindo paisagens deslumbrantes, restaurantes típicos, gastronomia, vinhos e cultura histórica das cidades visitadas. Este foi o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Leonor, mais conhecida como documentarista. Leonor é mãe de outros dois cineastas, Sofia e Roman Coppola. Um filme muito simpático, agradável de assistir, ainda mais com o charme e a beleza madura da atriz Diane Lane. Aliás, o roteiro lembra muito um filme estrelado também por Diane em 2003, “Sob o Sol da Toscana”.

quinta-feira, 26 de abril de 2018


“O JURAMENTO” (“Eiourinn” no original; “The Oath” nos países de língua inglesa), Islândia, é um suspense policial produzido em 2016 mas somente lançado nos cinemas e em DVD em 2018. A temática: o que um pai de família pode – ou deve - fazer quando descobre que sua filha é viciada em drogas e, pior, que está (na) morando com um traficante? Na história, este é o grande dilema do médico Finnur, um conceituado cirurgião cardíaco do principal hospital de Reykjavik, a capital da pequena Islândia. O que fazer? Finnur resolve tomar uma atitude extrema, sem medir as consequências. Afinal, não será qualquer marginal que estragará a vida da sua filha. Dr. Finnur é interpretado por Baltasar Kormákur, que escreveu a história e dirigiu o filme. Kormákur tem em seu currículo como diretor o excelente “Sobrevivente” (2012). Também dirigiu algumas produções nos EUA, como “Dose Dupla” e “Contrabando”. Em “O Juramento”, Kormákur consegue manter um bom nível de suspense, garantindo a atenção do espectador do começo ao fim. Completam o elenco a bela Hera Hilmar como Anna, filha do médico, e Gísli Örn Garoarsson, como o delinquente Óttar. Um programa à altura para quem curte um bom suspense.         

segunda-feira, 16 de abril de 2018


“O MASSACRE DE VOLÍNIA” (“WOLYN”), Polônia, 2016, roteiro e direção de Wojtka Smarzowskiego. Drama histórico que relembra um dos maiores massacres ocorridos na Polônia durante a Segunda Grande Guerra. Como se sabe, a Polônia foi invadida pelos alemães em setembro de 1939, dando início àquele que é considerado o maior conflito mundial do Século XX. Enquanto as tropas nazistas entravam pelo oeste, para onde foi mobilizado praticamente todo o exército polonês, alguns dias depois os russos invadiam o país pelo leste sem encontrar praticamente nenhuma resistência. A região de Voivodia, especialmente o vilarejo de Volínia, povoada por poloneses, ucranianos e judeus, foi a primeira a enfrentar o terror infligido pelos russos e depois pelos alemães. Além de russos e alemães, os habitantes de Volínia ainda sofreram uma limpeza étnica por parte dos ucranianos – chamados de “bandeiristas” - que mataram milhares de poloneses. O filme, em duas horas e meia, mostra de forma bastante realista o sofrimento dos habitantes de Volínia, incluindo cenas que certamente não farão nada bem ao estômago do espectador mais sensível. Paralelamente a toda essa tragédia, o diretor Wojtka conta a história de amor entre dois jovens habitantes de Volínia, a bela polonesa Zosia Glowacka (Michalina Labacz) e o ucraniano Petro (Wasyl Wasylik). Zosia é obrigada pelo pai a casar com um comerciante rico, em troca de alguns acres de terra, algumas galinhas e um cavalo. De qualquer forma, o cenário trágico da guerra e do massacre de Volínia é que prevalece neste excelente drama polonês. Vale a pena conhecer – pelo lado histórico - mais esse fato triste e lamentável ocorrido durante a Segunda Guerra. Sofrimento e maldade na sua mais pura essência. Apesar de tudo, imperdível!