sábado, 16 de dezembro de 2017

O que você faria se sua filha de 17 anos resolvesse, de uma hora para outra, ingressar no Estado Islâmico e virar uma terrorista? O drama francês “NÃO ME ABANDONE” (“Ne M’Abandonne Pas”), 2015, direção de Xavier Durringer, pode ajudar você a dar essa resposta. A jovem Chama (Lina El Arabi), de 17 anos, sofre a tradicional lavagem cerebral e acaba se casando pela Internet com um antigo namorado francês, que foi cooptado pelo EI e que agora mora na Síria. Está tudo preparado para que Chama vá para a Síria fazer parte do grupo terrorista. A médica Inès (Samia Sassi), mãe de Chama, descobre o plano e fará tudo para que a filha não entre nessa “furada”. Para isso, conta com a ajuda do ex-marido Sami (Sami Bouajila) e de Adrien (Marc Lavoine), pai de Louis, o jovem francês recrutado pelo EI e marido “virtual” de Chama. Pela Internet, Inès fica sabendo como o EI faz a cabeça dos jovens – o filme, de forma didática, mostra alguns vídeos do EI com mensagens motivacionais e os métodos empregados para atrair candidatos para a causa. O filme também acompanha o sofrimento de Inès e sua luta para resgatar a filha das garras dos terroristas. “Não me Abandone” foi produzido originalmente para ser uma minissérie para a TV francesa, exibida em 2016, e que agora virou filme. O tema é bastante atual e merece ser motivo de reflexão. Ninguém está livre dessa situação.              

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017



“EU SOU UM ASSASSINO” (“JESTEM MORDERCA”), Polônia, 2016, escrito e dirigido por Maciej Pieprzyca. Baseado em fatos reais, o filme relembra o caso do “Vampiro”, como foi apelidado o serial killer Zdzislaw Marchwicki, responsável pelo assassinato de 14 mulheres em cidades próximas a Varsóvia. A polícia não conseguia encontrar o assassino e foi ainda mais pressionada depois que ele assassinou a sobrinha de Edward Gierek, um alto dirigente do partido comunista, então no poder na Polônia. Policiais mais experientes foram afastados do caso e as investigações passaram a ser comandadas pelo detetive Janusz Jasinski (Miroslaw Haniszewski, em ótima atuação), sem muita experiência nesse tipo de caso. Até chegar ao assassino, inclusive com a ajuda de um computador, o policial sofrerá uma grande pressão não só de seus superiores como da mídia em geral. Jasinski chegará ao limite físico e psicológico, tentando aplacar a situação com um cigarro atrás do outro e muita vodka, além dos favores de uma amante bem mais jovem que sua esposa. Mesmo depois de chegar ao criminoso – que no filme recebeu o nome de Wieslaw Kalicki (Arkadiusz Jakubik), e se transformar num verdadeiro herói, Jasinski não desestressou. Passou a duvidar das evidências e, depois de visitar diariamente o assassino na prisão, chegou à conclusão de que Kalicki não tinha o perfil de um serial killer. Na última quarta parte do filme, a história passa a destacar o julgamento do assassino e sua possível condenação à morte. O filme é excelente, tem muito suspense e um ritmo frenético. Imperdível!       

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Para quem gosta de filmes históricos, “A JOVEM RAINHA” (“The Girl King”), 2015, coprodução Finlândia/Alemanha/Canadá/Suécia/França - falado em inglês - é um ótimo programa. Escrito por Michel Marc Bouchard e dirigido pelo diretor finlandês Mika Kaurismäki, o filme conta a atribulada trajetória da Rainha Cristina da Suécia, em meados do Século XVII. Órfã de pai aos seis anos de idade, depois da morte do Rei Gustavo II, Cristina era a única herdeira do trono, só que para os padrões daquela época, inconcebível uma mulher assumir cargo tão importante. Dessa forma, nas mãos do seu tutor, Chanceler Axel Oxenstierna, ela foi criada como um príncipe. Aos 18 anos, foi finalmente coroada rainha. Após assumir, Cristina passou a cultivar as artes e as ciências, além da filosofia – ela se correspondia e depois ficaria amiga do filósofo francês René Descartes (1596-1650). Cristina ficou famosa também por gostar de mulheres (o título original é esclarecedor). Seu caso mais rumoroso foi com a dama de companhia, a condessa Ebba Sparre. Nos papéis principais, ótimos desempenhos da atriz sueca Malin Buska (Rainha Cristina), Michael Nyqvist (ator sueco falecido em junho de 2017) como o Chanceler Axel Oxenstierna, a canadense Sarah Gadon como a condessa Sparre, e o ator francês Patrick Bauchau, como René Descartes, além da atriz alemã Martina Gedeck e do ator francês Hippolyte Girardot. Outros destaques positivos são a ótima fotografia e a recriação de época, especialmente os cenários e os figurinos. “A Jovem Rainha” pode ser considerada uma refilmagem livre do clássico “Rainha Cristina”, de 1933, com Greta Garbo arrasando no papel principal. Irmão do também diretor de cinema Aki Kaurismäki, Mika tem uma relação antiga e muito próxima com o Brasil. Ele foi o responsável, por exemplo, pelos documentários “Brasileirinho – Grandes Encontros do Choro”, de 2005, “Bem-Vindo a São Paulo, de 2004, e “Moro no Brasil”, de 2002. Mika mora há 25 anos no Rio de Janeiro, é casado com uma baiana e tem dois filhos brasileiros.       

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Momentos de muita tensão e suspense estão garantidos no drama de guerra “NA MIRA DO ATIRADOR” (“THE WALL”), 2017, EUA, direção de Doug Liman. Iraque, 2007, os sargentos norte-americanos Allen Isaac (Aaron Taylor Johnson) e Shane Matthews (John Cena) são enviados a um local extremo no deserto iraquiano para investigar um possível atentado que matou vários engenheiros e militares que trabalhavam na construção de um oleoduto. Ao chegarem ao local, porém, descobrem que as vítimas foram mortas a tiros precisos na cabeça, indicando que a matança tenha sido obra de um franco-atirador, ou seja, um sniper. A confirmação viria logo depois, quando ambos são atingidos por tiros disparados não se sabe de onde. Encurralados pelo atirador, os dois soldados norte-americanos só contam com a proteção de uma antiga parede de tijolos. Para piorar ainda mais a situação, o atirador iraquiano consegue interceptar uma comunicação via rádio que Isaac tentava concluir para pedir ajuda ao seu pelotão. O iraquiano fala um inglês fluente e inicia uma longa conversa com Isaac, transformando o embate num claro duelo psicológico. Não será muito fácil para os soldados norte-americanos saírem vivos dessa situação, a não ser que cheguem reforços, a famosa “cavalaria”. O maior mérito do diretor Liman foi manter o nível de tensão mesmo com apenas dois personagens e uma voz in-off em cena, o que poderia deixar o filme arrastado e monótono. Mais uma prova da competência do diretor, responsável também por bons filmes de ação como “A Identidade Bourne” e “Sr. & Sra. Smith”, entre outros. "Na Mira do Atirador" revela-se, portanto, um ótimo programa.           

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O drama norte-americano “CASTELO DE VIDRO” (“The Glass Castle”), 2017, com roteiro e direção de Destin Daniel Cretton, é baseado no livro autobiográfico da jornalista Jeanette Walls, “The Glass Castle”, lançado em 2005 e traduzido para mais de 30 idiomas. Enfim, um grande best-seller. Walls relembra todos aqueles anos em que ela e os três irmãos conviveram com os pais totalmente desequilibrados e irresponsáveis, Rex (Woody Harrelson) e Rose Mary (Naomi Watts). Ele, um sonhador lunático, desempregado crônico e alcoólatra. A mãe, uma artista plástica que imagina um dia sagrar-se uma grande pintora, mas sem nenhum talento para tal. Pai e mãe sempre encararam a vida contrários a qualquer tipo de rotina familiar convencional. Nem com os quatro filhos eles foram capazes de mudar a filosofia de vida. Viraram nômades, mudavam de cidade para cidade, sempre morando em casas caindo aos pedaços. Para disfarçar sua incompetência como chefe de família, Rex prometia que um dia construiria uma grande casa de vidro, o tal castelo do título. Jeanette e os irmãos podem se queixar que, por causa dos pais irresponsáveis, passaram por muitas dificuldades, incluindo falta de comida e lugar para dormir. Mas jamais poderiam se queixar de que a vida da família era uma rotina chata. Pelo contrário, foi, durante anos, uma grande aventura, cheia de imprevistos, a cada dia uma novidade, boa ou ruim. No filme, interpretada pela excelente Brie Larson (Oscar de Melhor Atriz em 2016 por “O Quarto de Jack”), Walls aparece já como uma jornalista de sucesso em Nova Iorque, querendo esquecer o seu passado, mas não consegue, principalmente em razão da sua forte ligação com o pai, uma relação de amor e ódio. A atuação de Woody Harrelson é excelente, tanto que muitos críticos já estão acreditando numa possível indicação ao Oscar 2018 para disputar o prêmio de Melhor Ator. No geral, o filme é muito bom. Nos créditos finais, o diretor Cretton apresenta os verdadeiros personagens como estão nos dias de hoje. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Típico representante do cinema de arte francês, “O IGNORANTE” (“Le Cancre”), 2016, tem roteiro e direção de Paul Vecchiali, que ainda atua como o personagem principal. É basicamente uma obra teatral, verborrágica e musical, com diálogos bastante inspirados e bem-humorados, mas muitas vezes arrastados além da conta. A base da história é o difícil relacionamento entre Rodolphe (Vecchiali) e seu filho Laurent (Pascal Cervo). Ao discutir sua vida com Laurent, Rodolphe faz um balanço reflexivo da sua agitada vida amorosa. Nesse ponto, as mulheres com as que se relacionou surgem em cena para conversar com Rodolphe e relembrar o romance que tiveram, os altos e baixos e, principalmente, tentam descobrir o que não deu certo nas respectivas relações. Fica evidente, desde o início, que Rodolphe só teve um grande amor na vida, sua cunhada Marguerite (Catherine Deneuve), irmã de sua esposa. Os momentos mais engraçados ficam por conta da falta de sintonia entre pai e filho. Rodolphe tem a pose aristocrática, veste hobby de chambre e echarpes, enquanto Laurent não troca um moletom surrado, alvo constante da implicância do seu pai. Além de Vecchiali, Cervo e Deneuve, completam o elenco atores e atrizes consagrados do cinema e teatro francês, como Mathieu Amalric, Annie Cordy, Françoise Lebrun, Françoise Arnoul, Edith Scob e Marianne Basler. Sem dúvida, um filme bastante interessante e inteligente, mas muito longe de agradar o grande público.    



terça-feira, 5 de dezembro de 2017

“VIVA”, 2015, coprodução Irlanda/Cuba, direção de Paddy Breathnach, com roteiro de Mark O’Halloran. O drama é centrado no jovem Jesus (Héctor Medina), de 18 anos, que vive perambulando pelas ruas de Havana tentando sobreviver fazendo bicos como garoto de programa – os principais clientes são os turistas que visitam a ilha – e como maquiador e penteador de perucas num clube noturno de drag queens. Ele gosta de cantar e um dia pede uma chance ao dono do clube para fazer uma apresentação com o nome artístico de “Viva”, o que justifica o título do filme. Jesus faz sucesso e acaba incluído na programação. Tudo vai bem até aparecer seu pai Angel (o ótimo Jorge Perugorría), um ex-boxeador que estava preso há 15 anos. Claro que ele, machão convicto, não vai gostar do que o filho está fazendo e aí os dois entram em conflito, dificultando o relacionamento. Ao mesmo tempo, o filme pinta um quadro não muito otimista sobre o regime cubano: mostra uma Havana triste, com muitos desempregados e gente sem esperança. As pessoas vivem pedindo dinheiro emprestado para comprar comida. Para contrastar, “Viva” apresenta um sistema público de saúde que funciona para os mais pobres, principalmente quando Jesus precisa internar o pai gravemente enfermo. O filme foi premiado em vários festivais pelo mundo afora e representou a Irlanda na disputa do Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro – foi um dos 9 pré-finalistas. Sua primeira exibição por aqui, antes do circuito comercial, aconteceu durante o 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em novembro de 2016. Resumo da ópera: um ótimo filme que merece ser visto por quem aprecia cinema de qualidade. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

Baseado em fatos reais, “O ZOOLÓGICO DE VARSÓVIA” (“The Zookeeper’s Wife”), 2017, EUA/Polônia, direção da norte-americana Niki Caro, conta a incrível história do casal Antonina e Jan Zabinski, que durante a Segunda Guerra Mundial salvou centenas de judeus enquanto a Polônia era dominada pelos alemães. Antonina (Jessica Chastain) e Jan (o ator belga Johan Heldenbergh) eram proprietários do Zoológico de Varsóvia quando a invasão nazista aconteceu, em setembro de 1939. Nessa época, mantinham uma grande amizade com o zoologista alemão Lutz Heck (Daniel Brühl), dono de um zoológico em Berlim, que depois da invasão virou oficial nazista. Jan e Antonina ajudaram centenas de judeus a fugir dos guetos de Varsóvia para escondê-los no seu zoológico – segundo o livro “The Zookeepers’s Wilfe: A War Story”, escrito pela norte-americana Diane Akerman, no qual o filme é baseado, o casal conseguiu salvar mais de 300 judeus. Um filme emocionante e tocante, embora muito triste e, em alguns momentos, bastante chocante. Jessica Chastain mais uma vez domina o cenário com sua habitual competência. Uma história de coragem que merece ser conhecida.       

  
“UM INSTANTE DE AMOR” (“Mal De Pierres”), 2016, França, 120 minutos, direção da atriz, roteirista e diretora Nicole Garcia, que escreveu o roteiro em conjunto com Jacques Fieschi e Natalie Carter. A história, baseada no romance best-seller “Mal Di Pietre”, da escritora italiana Milena Agus, é ambientada nos anos 50 numa pequena aldeia francesa, onde a jovem Gabrielle (Marion Cotillard) é conhecida por sua rebeldia e por sua compulsão sexual. Ao ser rejeitada por um professor casado, Gabrielle entra em surto e passa a se comportar de um modo bastante anormal. A solução encontrada por seus pais foi arranjar um casamento com o pedreiro José (o ator espanhol Alex Brendmühl). Com dificuldade para engravidar, Gabrielle é examinada por um médico, que diagnosticou o tal “Mal de Pierres”, aqui conhecido como cálculo renal. Gabrielle então é encaminhada a um spa nos alpes suíços e inicia um tratamento para eliminar as pedras no rim. Aqui, ela conhece o tenente André Sauvage (Louis Garrel), pelo qual se apaixona perdidamente, colocando em risco o seu casamento com José. O filme comprova mais uma vez o talento dramático de Marion Cotillard, já demonstrado em “Ferrugem e Osso”, “Era uma vez em Nova Iorque” e, principalmente, em “Piaf – Um Hino ao Amor”, pelo qual foi premiada com o Oscar de Melhor Atriz em 2007. Além de tudo isso, ela é linda. “Um Instante de Amor” é muito bom e merece ser conferido. Segundo o crítico Cássio Starling Carlos, da Folha de S. Paulo, trata-se de “Um bom champanhe servido em copo de plástico”. Ou seja, ele não achou tão bom como eu achei. A primeira exibição de "Um Instante de Amor" por aqui aconteceu durante o Festival Varilux de Cinema Francês/2017.   

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

“JOÃO, O MAESTRO”, 117 minutos, nacional, 2017, roteiro e direção de Mauro Lima. Conta a história da emocionante trajetória de vida do maestro João Carlos Martins. Em sua primeira fase, o filme acompanha o menino pianista virtuoso, um verdadeiro gênio precoce, os primeiros professores e o início dos seus problemas de saúde. Ainda jovem segunda fase –, alcança fama internacional como especialista na obra de Bach, viaja pelo mundo realizando concertos e vai morar em Nova Iorque. É nesta cidade que Martins sofre um acidente que afetará, para sempre, os movimentos de sua mão direita. Já adulto, ele aprende a conviver com suas deficiências e se consagra como maestro, regendo orquestras em vários países. Enfim, um exemplo de superação que aprendemos a admirar nos últimos anos. O filme é muito interessante ao exaltar seu impressionante talento como pianista, reconhecido e exaltado pelos principais músicos, maestros e compositores do mundo inteiro. Além de gênio musical, Martins sempre foi um mulherengo convicto, um aspecto praticamente desconhecido de sua biografia. Até agora. Na adolescência, o maestro é interpretado pelo garoto Davi Campolongo; na juventude, pelo ator Rodrigo Pandolfo; e, na fase adulta, pelo ator Alexandre Nero. Ainda estão no elenco Aline Moraes e Caco Ciocler, entre outros bons atores. Mais um bom trabalho do diretor Mauro Lima, que se especializou em cinebiografias, como  “Meu Nome não é Johnny” e “Tim Maia” – seu próximo filme será “Casagrande e seus Demônios”, sobre o ex-jogador de futebol e atual comentarista global.    

terça-feira, 28 de novembro de 2017

“AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO” (“Belye Nochi Pochtalona Alekseya Tryapitsyna”), 2014, Rússia, 1h30min. Trata-se de um projeto arrojado e inusitado da roteirista Elena Kiseleva e do diretor Andrei Konchalovsky. Eles escolheram um vilarejo distante e isolado ao norte da Rússia, às margens do lago Kenozero, reuniram os moradores, formaram o elenco, cada qual representando a si mesmo, e montaram a história. O personagem principal é o carteiro (Alekseya Tryapitsyna), responsável pela entrega das correspondências e pagamento das aposentadorias. É o único elo com o mundo exterior. Como meio de transporte, ele utiliza um barco, pois os moradores residem em volta do lago. Eles vivem distantes de qualquer modernidade, talvez bem próximo de como viviam seus antepassados. Ele visita as famílias, entra nas casas, conversa com um ou com outro e ainda encontra tempo para se apaixonar por uma moradora (Irina Ermalova, a única atriz profissional do elenco). Para conseguir um melhor resultado com relação às interpretações, Konchalovsky utilizou câmeras escondidas em várias cenas. O resultado final é muito interessante, principalmente para os espectadores que gostam de cinema de arte e novidades estéticas. O filme valeu a Konchalovsky o Prêmio de Direção no Festival de Veneza 2014. Por aqui, foi exibido somente na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  

  

domingo, 26 de novembro de 2017



Com raríssimas exceções, como o ótimo “A Separação” (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012), os filmes iranianos são muito contemplativos e reflexivos. É o estilo reinante no cinema iraniano. Mais um exemplo desse estilo, adorado pelos críticos profissionais e pelos júris dos festivais, é o drama “QUE HORAS SÃO NO SEU MUNDO?” (“Dar Donyaye to Sa’at Chand Ast?”), 2014, que marcou a estreia no roteiro e direção de Safi Yazdanian. A história é centrada em Gizeh Gol (Leila Hatami, atriz de “A Separação”), que volta ao Irã para visitar sua cidade natal, Rasht, depois de vinte anos residindo em Paris. Logo que chega, ela é assediada por Farhad (Ali Mosaffa, marido de Leila na vida real), um fabricante de molduras que, sabe-se lá por que, conhece tudo sobre a vida de Gizeh e não larga do seu pé. Enquanto isso, Gizeh aproveita para visitar o túmulo da mãe, falecida cinco anos antes, e outras pessoas que, de alguma forma, tiveram relação com sua família. Gizeh também passa o tempo refletindo sobre o seu passado, relembrando fatos de sua infância e adolescência. O filme, exibido por aqui durante a 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ainda apresenta uma versão interessante do bolerão “Quizas, Quizas, Quizas” em francês. Só para quem aprecia o cinema iraniano.     
“PRIMEIRO-MINISTRO” (“DER PREMIER”), 2016, Bélgica, roteiro e direção de Erik Van Looy. Prestes a receber a presidente dos EUA em Bruxelas para uma reunião sobre a Paz Mundial e o Meio Ambiente, o Primeiro-Ministro da Bélgica (Koen De Bouw) é envolvido numa trama bastante sinistra. Sua esposa e filhos são sequestrados por um grupo terrorista internacional e serão assassinados se ele não matar a presidente americana (Saskia Reeves). Eva (Charlotte Vandermeersch), assessora de Comunicação do Primeiro-Ministro, também será envolvida no caso e também correrá risco de morte. Sem dúvida, o filme garante muito suspense do começo ao fim e o espectador, com certeza, acompanhará tudo roendo as unhas. A tensão aumenta ainda mais a partir do momento em que o Primeiro-Ministro tenta contornar a situação não obedecendo às ordens dos vilões. Mas é preciso reconhecer que a história é inverossímil demais do começo ao fim, com muitos furos (cadê o pessoal da segurança do Primeiro-Ministro?) e situações fantasiosas, incluindo a improvável e surpreendente revelação da identidade do grupo criminoso, culminando com um desfecho pra lá de constrangedor. Sou obrigado a reconhecer: Hollywood faz muito melhor.    

sábado, 25 de novembro de 2017

Mais um filme daqueles para dar inveja do cinema argentino. Mesmo que não seja dos melhores, mas é muito bom. Estou falando de “O CIDADÃO ILUSTRE” (“EL CIUDADANO ILUSTRE”), 2016, direção da dupla Gaston Duprat/Mariano Cohn (“O Homem do Lado”), com roteiro de Andrés Duprat. A história é centrada no escritor argentino Daniel Mantovani (Oscar Martinez), que acaba de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Rico, famoso, vaidoso, egocêntrico e um tanto arrogante, ele vive numa bela casa em Barcelona. Depois do Nobel, ele passa a receber inúmeros convites para palestras, homenagens e entrevistas, rejeitando a todos, menos um: o convite para receber o título de “Cidadão Ilustre” em sua pequena cidade natal, Salas, no interior da Argentina. Foi de lá que, há quarenta anos, Daniel saiu para tentar a vida como escritor na Europa. Deu certo. Publicou dezenas de livros, muitos deles sucesso de vendas e de crítica. Daí o Nobel. Ao chegar a Salas, Daniel é homenageado com um busto na praça principal, recebe o convite para presidir um júri de um concurso de pinturas e para proferir palestras sobre a arte em geral. A levada do filme é de comédia, com muitas situações bastante hilariantes. Ao mesmo tempo, motiva reflexões acerca do choque cultural evidente entre o escritor famoso, culto e bem sucedido, e as pessoas de origem simples, que não evoluíram culturalmente e nem por isso deixaram de ser importantes na vida do escritor, haja vista que muitos de seus livros foram baseados em histórias e personagens de sua antiga cidade. O filme estreou no Festival de Veneza 2016, de onde saiu com o Prêmio de Melhor Ator para Oscar Martinez, também conhecido por ter atuado em “Ninho Vazio”, “Inseparáveis”, “Kóblic”, “Relatos Selvagens” e “Paulina”. Sem dúvida, um dos melhores atores argentinos da atualidade, ao lado de Ricardo Darín. “O Cidadão Ilustre” foi o filme de maior bilheteria na Argentina em 2016. Além de Oscar Martinez, estão no elenco Belén Chavanne, Andrea Frigerio, Gustavo Garzón e Dady Brieva.   

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Em abril de 1980, terroristas ligados à Frente Nacional do Khuzistão invadiram a Embaixada do Irã em Londres fazendo 26 reféns. A exigência dos terroristas: que o governo iraniano libertasse 91 militantes da FNK que estavam presos no Irã. “6 DIAS” (“6 DAYS”), produção da Netflix que estreou no dia 9 de setembro de 2017, conta os detalhes desse episódio, a tomada da embaixada, os bastidores das negociações, o trabalho da imprensa, o planejamento do grupo especial do SAS (Special Air Service) encarregado de invadir o prédio e soltar os reféns, além do desfecho violento. Nos papéis principais, o ator Jamie Bell (quem se lembra dele, adolescente, na pele de “Billy Elliot”, de 2000?) como o soldado líder do grupo SAS, Mark Strong, como o negociador, e Abbie Cornish como a repórter televisiva que ganhou fama depois de um excelente trabalho de cobertura. O filme também destaca a firme posição de Margaret Tatcher, que assumira recentemente o cargo de primeira-ministra do Reino Unido. Ela não admitiu, em nenhum momento, qualquer tipo de negociação com os sequestradores. Toa Fraser assina a direção e Glenn Standring o roteiro. Vale assistir apenas para relembrar o que aconteceu, mas, como cinema, deixa muito a desejar. Faltou tensão e ação. Ficou parecendo um filme-reportagem.  

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

“ATRÁS DAS NUVENS” (“Achter De Wolken”), 2016, Bélgica, é o primeiro longa-metragem dirigido por Cecília Verheyden, com roteiro de Michael DeCock. Trata-se de um drama que explora a paixão ardente entre uma mulher e um homem na terceira idade. O filme começa mostrando o velório do marido de Emma (Chris Lomme). Um dos presentes é Gerard (Jo De Meyere), muito amigo do falecido e antigo admirador de Emma. Ele não a via há 50 anos e, ao reencontrá-la, reavivou a antiga paixão. Dessa forma, passou a assediá-la, utilizando as mais elementares armas da conquista, a começar com um buquê de flores – a cena em que ele vai entregar o buquê é hilariante. Conversa vai, conversa vem, acabam se apaixonando ardentemente. Eles, porém, encontrarão a forte resistência de Jacky (Katelijne Verbeke), a filha infeliz e mal-amada de Emma, que não se conforma com o repentino romance. A única a dar força a Emma é sua neta, Evelien (a graciosa Charlotte de Bruyne). Aqui, o tema da paixão na terceira idade é tratado com rara sensibilidade, inclusive nas cenas de sexo. Sim, tem sexo! A atriz Chris Lomme e o ator Jo De Meyere, ambos de 78 anos, dão um show de interpretação, tornando o filme ainda mais irresistível. Pena que não tenha chegado por aqui. Imperdível!    

domingo, 19 de novembro de 2017

“MONSIEUR & MADAME ADELMAN”, França, 2016, primeiro filme dirigido pelo ator e roteirista Nicolas Bedos. A história: logo depois da morte do escritor de grande sucesso Victor Adelman (Bedos, o diretor), sua viúva Sarah (Doria Tillier) resolve contar a um jornalista – que pretende escrever uma biografia do falecido tudo sobre o seu relacionamento de 45 anos com o escritor. A trajetória do casal é acompanhada desde 1971, quando se conhecem, até a morte dele, em 2016. Como pano de fundo, alguns dos fatos marcantes da vida cultural e política da França. Uma verdadeira e conturbada história de amor, pontuada por momentos dramáticos e outros de muito bom humor. Os diálogos são muito inteligentes, pontuados por certa erudição e engraçados, resultando em cenas bastante hilariantes, como as consultas do escritor com seu psicanalista e os jantares durante os quais um apresenta a família para o outro. Para fechar a história com chave de ouro, esse maravilhoso filme francês ainda reserva para o seu desfecho revelações surpreendentes acerca da vida do casal. A atriz Doria Tillier faz sua estreia no cinema – é mais conhecida por sua participação em séries da TV francesa. E que atriz maravilhosa. É a alma do filme, embora Bedos também esteja ótimo. Um trabalho primoroso, duas horas de puro prazer cinematográfico, um filme para ficar na memória de quem curte cinema de qualidade. Simplesmente imperdível! 

sábado, 18 de novembro de 2017

“A VIAGEM DE FANNY” (“LE VOYAGE DE FANNY”), 2016, França, terceiro longa-metragem dirigido por Lola Doillon, com roteiro de Anne Peyègne, que o escreveu baseada no livro autobiográfico “Le Voyage de Fanny – L’histoire Vraie D’Une Jeune Fille Au Destin Hors Du Commun”, escrito por Fanny Bel-Ami. É mais uma daquelas histórias incríveis e verídicas ambientadas durante a Segunda Guerra Mundial. Assim como milhares de outras crianças de origem judia, Fanny, na época com 12 anos, foi entregue, juntamente com as duas irmãs menores, a uma instituição que cuidava de organizar fugas de crianças para outros países, fugindo dos nazistas que ocupavam a França. A Suíça era um dos destinos escolhidos. Depois de entregue a uma dessas instituições, Fanny e mais algumas crianças acabam ficando por conta própria, tentando chegar até a Suíça. Uma jornada de muitos perigos e sofrimento, passando fome e frio. A diretora não carregou muito no drama, embora mantenha muitos momentos de alta tensão e suspense, com belas locações no interior da França. O filme tratou a história como uma aventura infantil, “Um drama disfarçado de sessão da tarde”, como bem definiu um crítico profissional. De qualquer forma, por se tratar de uma história verídica, vale a pena curtir. O elenco conta com Léonie Souchaud, a Fanny, e com as participações especiais de Cécile de France, Stéphane de Groodt e Olivier Massart. Informação importante: entre 1938 e 1944, mais de 5 mil crianças judias escaparam da França rumo à Suíça, EUA e Espanha.     

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ao ser exibido como filme de abertura do Festival de Cannes 2016, dentro da Mostra “Um Certain Regard”, o drama egípcio “CLASH” (“Eshtebak”), roteiro e direção de Mohamed Diab, surpreendeu e causou polêmica não apenas pelo forte teor político, mas também pela estética inovadora. Trata-se de um filme bastante perturbador, cuja ação é toda ambientada dentro de um camburão da polícia. Cairo, 2013, a capital egípcia vive momentos de alta tensão com a queda do presidente islamita Mohamed Morsi. As manifestações de rua são violentas e precisam ser reprimidas. Uns manifestantes são a favor deste ou daquele credo religioso, como também pró-exército, além dos fanáticos defensores da Irmandade Muçulmana e daqueles que defendem outras ideologias. Ninguém se entende, uma confusão danada. O tal camburão – sempre filmado de dentro , percorre as ruas do Cairo recolhendo os manifestantes mais exaltados, sejam eles adultos, jovens, mulheres, velhos e até crianças. Claro que no camburão as diferenças serão colocadas em jogo, tumultuando ainda mais o ambiente. As pessoas detidas no camburão gritam o tempo todo defendendo cada qual sua posição política, aumentando ainda mais a tensão e a sensação claustrofóbica. Resumo da ópera: é um filme bastante interessante e, ao mesmo tempo, muito indigesto e desagradável. “Clash” foi o representante oficial do Egito na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro, lembrando que foi o segundo filme escrito e dirigido pelo diretor Mohamed Diab – o primeiro foi o também elogiado “Cairo 678”. 

domingo, 12 de novembro de 2017

“TERRA SELVAGEM” (“Wind River”), EUA, 2016, escrito e dirigido por Taylor Sheridan. A história, ambientada nas montanhas geladas do Wyoming em pleno inverno, começa quando Cory Lambert (Jeremy Renner), caçador de animais predadores, encontra o cadáver de uma jovem no meio da neve. Como há vestígios de violência no corpo da vítima, a polícia local comunica o fato ao FBI, que envia a agente Jane Banner (Elizabeth Olsen) para investigar o crime misterioso. Jane pede ajuda a Cory e ao policial Dan Crowheart (Graham Greene). Os três seguirão algumas pistas, encontrarão alguns suspeitos e, finalmente, os criminosos. O filme prende a atenção do começo ao fim, tem suspense e muita ação. É o segundo filme escrito e dirigido por Taylor Sheridan, mais conhecido pela assinatura dos roteiros dos ótimos “Sicario: Terra de Ninguém”, de 2015, e “A Qualquer Custo”, de 2016, este último indicado ao Prêmio de Melhor Filme no Oscar 2017. Por “Terra Selvagem”, Taylor Sheridan também conquistou o Prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes 2017, dentro da Mostra “Un Certain Regard”. Sem dúvida, um ótimo programa. 

sábado, 11 de novembro de 2017

“MULHERES DO SÉCULO XX” (“20TH CENTURY WOMEN”), 2016, EUA, roteiro e direção de Mike Mills. Trata-se de uma produção independente que mereceu duas indicações ao Oscar 2017: “Melhor Roteiro” e “Melhor Atriz” (Annette Bening). Ambientada na segunda metade dos anos 70, a história é centrada em Dorothea Fields (Bening), uma cinquentona divorciada que cria sozinha o filho adolescente Jamie (Lucas Jade Zumann). Tudo acontece ao redor de Dorothea, que aluga um quarto da casa para a jovem Abbie (Greta Gerwig) e outro para William (Billy Crudup). A jovem Julie (Elle Fanning), amiga de infância de Jamie, também frequenta o círculo familiar, mas de maneira diferente: ela entra escondida pela janela e vai dormir com Jamie – na base da amizade. Recheado de diálogos e reflexões bem-humoradas, o roteiro procura destacar o modo de pensar das diferentes gerações, assim como tenta fazer um passeio cultural e comportamental da família norte-americana nos anos 70, com direito a discussões sobre sexo – o principal assunto , política, anticoncepcionais, família, religião etc., com direito à reprodução de uma parte de um discurso em cadeia nacional do então presidente Jimmy Carter. Outro destaque no filme é o enfoque dado ao nascimento do movimento punk, do qual a jovem Abbie é adepta fanática. O filme tem bons momentos, como nos diálogos entre Jamie e a mãe, além de um jantar constrangedor entre amigos durante o qual os assuntos principais são “menstruação” e “orgasmo”. Com relação ao elenco, gostei da atuação de Annette Bening, embora tenha exagerado um pouco em caras e bocas, e também de Elle Fanning, cada dia mais competente. Dá para assistir numa boa, mas não chega a justificar uma recomendação entusiasmada. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Quem acompanha o noticiário esportivo sabe que o ciclista norte-americano Lance Armstrong foi um grande fenômeno. Basta lembrar que, entre 1999 e 2005, venceu sete edições do Tour de France, a mais importante prova ciclística do mundo. Desde os anos 90, Armstrong dominava o cenário esportivo mundial, chegando ao nível de herói nacional, principalmente depois que venceu um câncer e voltou a competir em alto nível. Em 2012, porém, a revelação bombástica: durante todos aqueles anos, Armstrong utilizou substâncias químicas proibidas, anabolizantes e o EPO (Eritropoietina). Caiu em desgraça no mundo esportivo, perdeu seus títulos e acabou execrado por todos aqueles que o consideravam um verdadeiro “Capitão América”. Toda essa história está contada no drama “O PROGRAMA” (“The Program”), 2016, Inglaterra/França, dirigido pelo veterano diretor inglês Stephen Frears. Para esse projeto, Frears adaptou o livro “Sete Pecados Capitais”, escrito pelo jornalista irlandês David Walsh (Chris O’Dowd), que durante anos investigou a possibilidade do ciclista norte-americano ter utilizado substâncias químicas ilegais para vencer as competições. O filme também destaca a ligação de Armstrong (Ben Foster) com o médico italiano Michelle Ferrari (Guillaume Canet), que há anos dopava vários atletas de ponta. Frears foca todo o seu filme na questão do doping, não abrindo espaço para mostrar como foram algumas de suas vitórias e nem mesmo a vida particular do atleta. Não é o melhor trabalho de Stephen Frears, diretor de filmes memoráveis como “Ligações Perigosas”, “Alta Fidelidade”, “A Rainha”, “Philomena” e “Florence - Quem é Essa Mulher?”, mas obrigatório para quem curte o mundo esportivo.