Existem dois bons motivos para assistir “O MAGO
DAS MENTIRAS” (“The Wizard of Lies”): primeiro, a presença de astros
como Robert De Niro e Michelle Pfeiffer. Segundo, a história bombástica da
maior fraude financeira já ocorrida nos EUA, cometida pelo consultor financeiro
Bernard Madoff nos anos 90 até 2008, quando foi preso e o esquema todo
revelado. Madoff conseguiu arrecadar 65 bilhões de dólares por intermédio de
falsas aplicações em fundos inexistentes, enganando milhares de investidores,
entre os quais muita gente importante do meio artístico. O filme foi inspirado
no livro escrito pela jornalista Diana B. Henriques, do The New York Times, que
apresenta os bastidores de todo o processo, as investigações feitas pelo FBI e
a desintegração da família de Madoff, aqui incluído o suicídio de um de seus
filhos, Mark (Alessandro Nivola). Madoff (De Niro) é mostrado como um homem
egocêntrico, autoritário, inescrupuloso, frio e calculista. Enfim, um sujeito
dos mais desagradáveis. Michelle Pfeiffer, de volta ao cinema, tem um papel
quase decorativo, mas continua bonita, charmosa e boa atriz. A produção é da
HBO, com direção de Barry Levinson, e foi exibida diretamente na TV, estreando
no último dia 20 de maio. É provável, portanto, que não chegue ao circuito
comercial dos cinemas. Não custa ficar atento à programação da HBO, que
certamente voltará a exibí-lo.
Baseado em fatos reais, o drama inglês “NEGAÇÃO”
(“Denial”), 2016, Inglaterra, foi levado às telas com roteiro de David Hare
e direção de Mick Jackson. O início de toda a história remonta à segunda metade
da década de 70, quando o historiador David Irving (Timothy Spall) escreve um
livro defendendo a tese de que Adolf Hitler não ordenou e nem sabia do genocídio
de judeus nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Na publicação, Irving ainda coloca em
dúvida a própria existência do Holocausto, atribuindo a invenção aos judeus,
que queriam, com isso, ganhar dinheiro. Alguns anos depois, a pesquisadora
norte-americana Deborah Lipstadt (Rachel Weisz) escreve um livro em que
desmente o historiador, que entra com um processo de difamação contra ela. O
caso vai a julgamento em 1994. Com riqueza de detalhes, o filme mostra os
bastidores do julgamento e as estratégias da equipe de advogados constituídos
para defender Deborah, comandada pelo experiente jurista Richard Rampton (Tom
Wilkinson). Uma das cenas mais importantes e impactantes é a visita dos
advogados e da própria Deborah ao campo de concentração de Auschwitz. O roteiro
do filme foi inspirado no livro “History on Trial: My Day in Court with a
Holocaust Denier”, escrito pela própria pesquisadora e publicado em 2015. O pior
de tudo é que, ainda hoje, tem muita gente que acredita que o Holocausto nunca
existiu.
“KÓBLIC”, Argentina, 2016, é um drama escrito e dirigido por
Sebastián Borensztein (“Um Conto Chinês”). O pano de fundo de toda a história é
a ditadura militar argentina (1976/1983). O capitão Tomás Kóblic (Ricardo
Darín) abandona o exército depois de protagonizar os terríveis “voos da morte”,
durante os quais inimigos do regime eram drogados e jogados vivos de aviões no Rio da
Prata ou em alto mar. Kóblic era quem pilotava esses aviões, o que lhe
acarretou grandes problemas de consciência e recordações traumáticas. Kóblic se
refugia num vilarejo fictício chamado Colonia Elena e vai trabalhar numa pequena
empresa de aviões agrícolas que fazem a pulverização de plantações. A presença
da Kóblic desperta a curiosidade dos moradores, principalmente do delegado
Velarde (Oscar Martínez), um psicopata assassino de cachorros. Velarde vai
perseguir Kóblic e tentar descobrir a verdade sobre o seu passado. Em meio a
tantos problemas, Kóblic acaba se apaixonando por Nancy (a atriz espanhola Inma
Cuesta), esposa do dono de um posto de gasolina. A história acaba virando um
caso de polícia, com assassinatos e muito suspense. É claro que o astro Ricardo Darín domina o cenário, mas este
não é o seu melhor filme. Longe disso. Mas sua presença, sempre marcante,
valoriza qualquer produção. Acho que vi quase todos os seus filmes e recomendo,
como imperdíveis, alguns deles, como “O Filho da Noiva”, “Truman”, “Abutres”, “Conto
Chinês” e o melhor de todos, “O Segredo dos seus Olhos”, vencedor do Oscar 2010
de Melhor Filme Estrangeiro.
“DRONE”, Canadá, 2017, escrito e dirigido por Jason Bourque
(“Black Fly”). Trata-se de um suspense que explora um tema dos mais atuais: a
utilização de drones para fins militares. No caso, aviões que lançam mísseis para
eliminar terroristas. Neil Winstin (Sean Bean, de “Senhor dos Anéis” e “Game of
Thrones”) é contratado pela CIA para operar esses drones. Ele mora num pacato
subúrbio de classe média alta em Washington com a esposa Ellen (Mary McCormack)
e o filho Shane (Maxwell Haynes). Neil mantém em segredo sua atividade. Ele diz
para a família, amigos e vizinhos, que trabalha numa empresa de computação. Certo
dia, aparece um sujeito chamado Imir Shaw (Patrick Sabong, de “Uma Noite no Museu
3”), interessado em comprar o barco que pertencia ao pai de Neil, recentemente
falecido. O espectador logo percebe que o homem misterioso, que se identificou
como paquistanês em viagem a trabalho nos EUA, está escondendo uma segunda
intenção, claramente relacionada com o lançamento de um míssel numa cidade do Paquistão
e que ocasionou a morte de alguns civis. É melhor ficar por aqui para não
estragar o desfecho. O filme não é ruim, mantém um bom ritmo de suspense e
tensão, mas poderia ter um final mais bem elaborado. Vale para uma sessão da
tarde.
Vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de
Berlim 2014, o drama alemão “14 ESTAÇÕES DE MARIA” (“KREUZWEG”)
foi escrito e dirigido por Dietrich Brüggeman (“Corra se puder”). O enredo
segue a trajetória de Maria (Lea van Acken), uma garota de 14 anos criada por
uma família católica conservadora. Dividida em 14 segmentos que lembram as
estações da Via-Crúcis de Jesus Cristo antes da ser crucificado (o título
original "Kreuzweg" significa Via-Crúcis), a história apresenta Maria como uma garota de
muita fé e obediente aos preceitos da religião católica. Ela segue as
orientações do Padre Weber (Florian Stetter), de uma congregação que prefere
seguir uma linha mais rígida, ao contrário da abertura estimulada pelo Concílio
Vaticano II. A comunidade onde vive Maria não aceita, por exemplo, músicas gospel
ou soul, consideradas obras satânicas. O melhor exemplo de fanatismo religioso,
porém, vem da própria mãe de Maria, interpretada pela excelente Franziska Weisz.
Cada um dos segmentos foi filmado com a câmera estática, com os atores se
movimentando dentro do quadro, numa concepção que lembra muito um espetáculo
teatral. O filme é bastante verborrágico. No primeiro segmento, por exemplo, num
curso preparatório para a Crisma, o padre Weber fala sem parar durante 15
minutos, durante os quais destaca alguns dos principais preceitos da Igreja
Católica para um grupo de crianças. Trata-se de um filme não muito fácil de
digerir, um tanto pesado, mas, sem dúvida, um excelente trabalho de roteiro,
direção e fotografia.
O drama australiano “PARTISAN”, 2015, escrito
e dirigido por Ariel Kleiman (é seu longa de estreia), conta a história de uma
comunidade secreta, à parte da sociedade, situada na periferia de alguma
cidade, provavelmente na Austrália, onde as filmagens realmente aconteceram. Quem chefia
o lugar é o misterioso Gregori (o ator francês Vincent Cassel), cuja intenção é
– pelo menos o que dá a entender – transformar as crianças em futuros
assassinos de aluguel para eliminar seus desafetos. Alexander (Jeremy Chabriel), seu filho adotivo e o
garoto mais velho da turma, já possui algumas mortes no currículo. Por mais contraditório que pareça, é Alexander quem vai confrontar o seu mentor, numa reviravolta pra lá de inesperada. Quase nada
do que acontece é explicado ao espectador. Algumas mães convivem
com seus filhos na comunidade e assistem a tudo numa atitude pra lá de passiva, em meio a aulas de culinária, sessões de karaokê etc.
É um filme bastante estranho, pesado, desagradável, sem muito nexo, totalmente aberto a interpretações. Não dá pra entender também como um ator tão conceituado como Vincent Cassel está fazendo nesse filme. Aliás, difícil entender como alguém faz um filme como esse, que não passa de uma bobagem monumental.
“PREDADORES
DO AMOR” (“Hounds of Love), Austrália, 2016, filme
que marca a estreia do jovem Ben Young como roteirista e diretor. Uma boa
estreia, aliás. Trata-se de um suspense baseado num caso real ocorrido na
segunda metade da década de 80 na Austrália. O casal John (Stephen Curry) e
Evelyn (Emma Booth) costumava sequestrar garotas, trancafiá-las num quarto e
abusar delas sexualmente. Uma das vítimas, Vicky Maloney (Ashleigh Cummins)
sofreu o diabo nas mãos dos dois psicopatas pervertidos, mas foi
suficientemente inteligente para planejar uma estratégia com o objetivo de
jogar um contra o outro. Desde a cena inicial, quando os dois desequilibrados
assistem a uma partida de vôlei entre meninas e o olhar de ambos parece
selecionar uma nova vítima, até o desfecho, o clima de tensão é de arrepiar,
mesmo que o cenário de quase todo o filme seja unicamente o interior da casa da dupla de
sádicos. A trilha sonora também é utilizada com maestria para aumentar o
suspense. O elenco está muito bem, com destaque para o ator Stephen Curry, mais
conhecido na Austrália como comediante. Seu comportamento é mesmo de assustar. Como
o filme é baseado em fatos reais, achei que faltou no final a informação do que
aconteceu com os personagens reais depois de tudo. Prepare-se para roer as
unhas...
“ROSAS A
CRÉDITO” (“Roses à Crédit”), 2010,
França, roteiro e direção de Amos Gitaï (“Free Zone”, “Kadosh” e “Kedma”). É uma adaptação do romance da escritora francesa Elsa Triolet, lançado em
1959, cujo pano de fundo é o esforço dos franceses em reerguer o país após anos de conflito. A história é centrada em Marjoline (Léa Seydoux) e Daniel (Grégoire
Leprince-Ringuet), jovens que resolvem se casar logo após o final da Segunda
Grande Guerra. Daniel trabalha com o pai Georges (Pierri Arditi) na produção de
rosas, negócio que é uma tradição da família. Marjoline trabalha num salão de
beleza, mas tem sonhos consumistas que estão fora do orçamento do casal. Aí a
coisa complica, as dívidas aumentam e o casamento entra em crise. Trata-se de
mais um bom trabalho do diretor israelense, cuja temática habitual é voltada
para as questões que envolvem Israel e o Oriente Médio. Destaco a exuberante recriação
de época, incluindo figurinos, cenários, trilha sonora e o comportamento social
dos franceses. Com esse filme, a bela Léa Seydoux, na época com 25 anos, se consolidou como uma atriz bastante promissora. Nos anos seguintes, sua carreira daria um grande salto, quando estrelou, sempre em papéis de destaque, filmes como "007 contra Spectre", "Missão Impossível: Protocolo Fantasma", "Meia-Noite em Paris" e o polêmico "Azul é a Cor mais Quente". Hoje, Seydoux já é uma das melhores e mais requisitadas atrizes francesas da atualidade, devendo ocupar, em pouco tempo, o lugar da diva Isabelle Huppert.
Quando filmou o excelente “Almas Silenciosas”, em
2010, o cineasta russo Aleksey Fedorchenko entrou em contato com a cultura do
povo Mari, que habita uma região nas Montanhas Urais ao Norte da Rússia (Bashkortostão e Tatarstão). Os
habitantes chegam hoje a 600 mil e são conhecidos por conservarem suas seculares
tradições pagãs. Certamente para divulgar essa rica e interessante cultura,
Fedorchenko realizou, em 2012, o filme “ESPOSAS CELESTIAIS DO PRADO MARI” (“Nebesnye
Zheny Iugovykh Mari”), inspirado no livro de contos escrito por Denis Osokin,
por sinal autor do roteiro. São 23 histórias curtas, cada uma identificada pelo
nome de uma personagem. Ou seja, cada segmento leva o nome de uma mulher. O
filme explora as tradições do povo Mari, mostrando seus estranhos rituais voltados
para conseguir um objetivo. Por exemplo: arrumar um marido, engravidar,
eliminar marcas de nascença, afastar maus espíritos etc. Muita sexualidade e
misticismo, o que fez com que fosse chamado de “Decameron do Leste”, referência
ao polêmico filme de 1971 do diretor italiano Pier Paolo Pasolini. O filme, realizado
com financiamento do Ministério da Cultura da Federal Russa, é muito
interessante, principalmente por nos apresentar uma cultura que poucos de nós lemos
a respeito ou ouvimos falar.
Depois de dirigir “Post Mortem”, “No” (indicado ao
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013), e “O Clube”, o diretor chileno
Pablo Larraín caiu nas graças da crítica especializada e de Hollywood. Tanto é
que depois dirigiu “Jackie”, com Natalie Portman. Todos os seus filmes têm um
fundo político muito forte, explorando, principalmente, períodos de ditadura
vividos pelo povo chileno. Não foi de outra forma que dirigiu “NERUDA”, com
roteiro de Guilhermo Calderón (que também escreveu “Violeta foi para o Céu” e “O
Clube”). “Neruda” é ambientado em 1948, quando o grande poeta chileno era
senador da república e ligado ao partido comunista. Para não ser preso, Neruda
empreendeu uma fuga pelo sul do país até chegar à Argentina. Não há muitos
registros históricos sobre essa aventura. Dessa forma, Guilhermo Calderón e Larraín
imaginaram o que teria ocorrido e criaram uma narrativa ficcional centrada na
perseguição do policial Oscar Peluchoneau (Gael Garcia Bernal) a Neruda (Luis
Gnecco). A fotografia, os figurinos e os cenários lembram os filmes noir de antigamente
– Neruda era fã da literatura policial norte-americana. Muitos trechos dos
principais poemas escritos por Neruda aparecem na narrativa in-off, o que, ao invés de reforçar o
contexto das situações, tornou o filme um tanto cansativo. A semelhança física do
ator com o poeta é impressionante. Pena que sua atuação ficou um tanto
caricatural. O filme foi selecionado para
representar o Chile no Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer forma, é um filme de Larraín e que, por isso mesmo, merece ser conferido.
“VOCÊ
SERÁ UM HOMEM” (“Tu Serás un Homme”), França,
2014, escrito e dirigido por Benoit Cohen. Confesso que fiquei desconfiado e
não muito motivado a assistir, a começar pelo título estranho e também como foi
concebido, misturando espanhol e francês. Além disso, não tinha
referências sobre o diretor e o elenco, repleto de gente desconhecida. Por fim,
a capinha do DVD, com aquela foto de alguém vestindo uma máscara das
mais esquisitas. Pensei: lá vem bomba! Decidi finalmente conferir e, para minha surpresa, acabei
assistindo um filme bastante interessante e agradável, um ótimo programa para
uma sessão da tarde. A história: Léo (Aurelio Cohen), um garoto de 10 anos
esperto e inteligente, vive enfurnado na biblioteca do pai devorando livros de
poesia. Ele não recebe muito carinho e atenção nem do pai (Grégoire
Monsaingeon) nem da mãe (Eléonore Pourriat), que sofre da síndrome do pânico e
não sai de casa há três anos. Ao colocar um anúncio procurando uma babá para
cuidar de Léo, quem aparece e acaba contratado é o jovem Théo (Aurelio Cohen).
Em pouco tempo, Théo e Léo ficam amigos inseparáveis. Com seu jeito alegre e
descontraído, Théo também cai nas graças da mãe. O pai, enciumado, não gosta da
situação e acaba demitindo Théo e contratando uma nova babá, desta vez uma bela
garota. Aí começa a confusão, pois a nova babá é nada menos do que a ex-namorada
de Théo. O filme privilegia o bom humor,
embora aborde temas sérios como amadurecimento, amizade e relacionamento
familiar. A simpatia dos atores é mais um trunfo que torna este filme francês uma boa dica de entretenimento.
Em 2007, uma equipe pertencente à Ong francesa “Arca
de Zoé” tentou resgatar 103 crianças órfãs do Chade para levá-las à França para
adoção. Para evitar os trâmites burocráticos de imigração, a ação teria de ser
secreta, envolvendo visitas às aldeias perto da fronteira de Darfur, além do
aluguel de um Boeing-737 para transportar as crianças. Porém, por trás de uma
aparente ação humanitária, havia outras intenções não muito escrupulosas. Essa
história foi transformada no filme “OS CAVALEIROS BRANCOS” (“Les
Chevaliers Blancs”), 2015, França/Bélgica, direção de Joachim Lafosse, que
escreveu o roteiro juntamente com Thomas Van Zuylen, Julie de Carpentries e
Zélia Abade, com base no livro “Les Chevaliers Blancs”, de François-Xavier
Pinte e Geoffroy D’Ursel. Os personagens da história real receberam nomes
fictícios, como Jacques Arnault (Vincent Lindon), chefe da missão, Laura
(Louise Bourgoin), a repórter Françoise (Valérie Donzelli) e Xavier (Reda
Kateb), além de médicos e enfermeiros. A Ong do filme foi intitulada “Move for
Kids”. Ao invés de priorizar o clima de tensão e perigo enfrentado pela equipe
em suas visitas às aldeias em meio a uma guerra civil, o diretor preferiu
destacar a rotina do grupo e os desentendimentos entre seus integrantes, que
divergiam sobre as verdadeiras intenções da Ong. Com essa opção, Lafosse privilegiou
a falação ao invés da ação. De qualquer forma, vale pela presença sempre marcante
de Vincent Lindon e pela história em si, que ficou pouco conhecida por aqui.
“A DÍVIDA”
(”Oliver’s Deal”), coprodução EUA/Peru/Espanha, 2015, primeiro
longa escrito e dirigido por Barney Elliott. O filme começa mostrando o
trabalho de um garoto, seu pai e sua irmã numa fazenda situada nos alpes
peruanos – as paisagens são lindas. O cenário muda de forma abrupta para um
escritório sofisticado de Nova Iorque, cujo negócio principal é adquirir e
depois negociar títulos da dívida pública de países do Terceiro Mundo. Pelo
menos foi isso que eu entendi. Não há muita explicação sobre a atividade e
talvez os leigos no assunto, como eu, ficarão totalmente por fora. Pelo que foi
possível entender, o escritório está envolvido num acordo financeiro entre o
governo dos EUA e o Peru. O escritório é comandado por Nathan (David Strathairn),
que tem como seu braço direito Oliver Campbell (Stephen Dorff), tão inescrupuloso
quanto seu chefe. O único funcionário do escritório que tem alguma sensibilidade
é Ricardo (o ator argentino Alberto Ammann). Enquanto eles combinam estratégias
para novos negócios no escritório de Nova Iorque, o poderoso empresário peruano
Ruben Caravedo (o ator espanhol Carlos Bardem, irmão de Javier) tenta comprar
as terras de pequenos proprietários rurais, entre eles o dono da fazenda onde
pai e filhos aparecem trabalhando no início. Um novo personagem aparece na
história (para confundir ainda mais): uma enfermeira (Elsa Olivero) que tenta conseguir uma
operação para sua mãe num hospital público em Lima. Qual a ligação do drama dessa
enfermeira com o enredo? Quase nenhuma. Só encher linguiça. Resumindo: Oliver e
Ricardo vão para o Peru tentar convencer o coitado do fazendeiro a vender suas
terras. No final, porém, descobrirão que uma trama sórdida está por trás de
tudo. É a tal da ganância corporativa: os ricos explorando os pobres.
O drama “PAULINA” (“La Patota”), 2015, Argentina,
escrito e dirigido por Santiago Mitre, explora um tema dos mais polêmicos: o
estupro. Trata-se, na verdade, da refilmagem do clássico – também argentino – “La Patota”, de
1961. A história é centrada na advogada Paulina (Dolores Fonzi), que desiste de
uma promissora carreira na área jurídica para se embrenhar numa zona rural
pobre e ensinar política aos jovens da região. Ela quer formar cidadãos
responsáveis, afirma ao pai, o juiz Fernando (Oscar Martinez, de “Inseparáveis”
e “O Cidadão Ilustre”), que não se conforma com a decisão de certa forma
irresponsável da filha. Numa noite em que pega emprestada a moto de uma amiga,
Paulina é atacada por um grupo de jovens e estuprada. O pai exige que a polícia
investigue o caso e prenda os agressores, mesmo que não conte com a colaboração
de Paulina. Sua atitude passiva em relação ao que ocorreu revolta o pai, cujo
desejo é fazer uma vingança sem piedade. A situação se complica ainda mais
quando uma consequência do estupro é revelada. Dolores Fonzi, que foi casada
com o ator mexicano Gael García Bernal, é uma das atrizes de maior evidência na
Argentina. Além de bonita, é excelente atriz. O filme foi escrito e dirigido
por Santiago Mitre (“La Cordillera”) e teve como um dos produtores o diretor
brasileiro Walter Salles. Exibido por aqui durante a 39ª Mostra Internacional
de Cinema de São Paulo, em outubro de 2015, “Paulina” venceu o Prêmio da Semana
da Crítica no Festival de Cannes 2015. Mais um bom filme argentino que merece ser visto.
Faz
algum tempo que Adam Sendler não aparece na telona. Por um bom tempo ele estará
só na telinha da TV. O ator norte-americano assinou contrato com a Netflix para
protagonizar seis filmes. Os dois primeiros foram “The Ridiculous 6” (2015) e “Zerando
a Vida” (2016). O terceiro e mais recente é “SANDY WEXLER” (2017), uma
comédia onde Sendler aparece como o personagem do título, um empresário
mequetrefe de Los Angeles que no início dos anos 90 – período em que a história
é ambientada – agenciava os mais diferentes artistas, desde um ventríloquo, um
lutador de luta-livre e até um acrobata saltador de obstáculos, cujas
apresentações sempre acabavam em fracassos e fraturas. Até que um dia Wexler
descobre, fazendo show num parque de diversões, a cantora Courtney Clarke
(Jennifer Hudson). Ela logo se transforma num grande sucesso comercial, uma
estrela da música pop. Com seu jeito abobalhado e inconveniente, Wexler
desperdiça o momento e cai em desgraça, enquanto Courtney alavanca cada vez mais
sua carreira artística. O filme, dirigido por Steven Brill (“A Herança de Mr.
Deeds” e “Ligeiramente Grávidos”), foi escrito pelo trio de roteiristas Dan
Bulla, Paul Sado e Tim Herlihy, que se inspiraram na trajetória de um
empresário chamado Sandy Wernick, que realmente existiu e ganhou uma certa notoriedade
na década de 90. O filme conta com rápidas aparições de comediantes, atores e
celebridades do cinema e da TV, como Jay Leno, John Lovitz, Chris Rock, Jimmy
Kimmel, David Spade e Pauly Shore, além das participações especiais de Rob
Schneider, Kevin James, Terry Crews e Jane Seymour, ainda bonita e em grande
forma aos 66 anos. O personagem vivido por Sendler é irritante ao extremo, inconveniente
e completamente sem graça, como o filme inteiro – a não ser uma única cena onde
ele é manipulado pelo ventríloquo. Sendler é o chato de sempre, caprichando
para ser o mais abobado possível, parecendo um Jerry Lewis com surto de
debilidade mental. O filme é muito fraco e longo demais: 2h10. Para quem gosta
de cinema de qualidade, trata-se de um atentado ao intelecto.
Jim
Jarmusch é um dos diretores de cinema mais cultuados da atualidade por grande parte dos críticos
especializados. Esse status foi
obtido por filmes autorais como “Flores Partidas”, “Amantes Eternos” e “Estranhos
no Paraíso”, que definiram seu estilo pouco convencional. Com o recente “PATERSON”,
o diretor norte-americano de 64 anos novamente arrancou elogios entusiasmados, transformando-se
numa das grandes sensações do Festival de Cannes 2016. Ambientado na cidade de
Paterson, em Nova Jersey, o filme acompanha o cotidiano de Paterson (Adam
Driver, de “Star Wars”), um motorista de ônibus que adora escrever poesias nas
horas vagas. Ele é casado com Laura (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani),
uma mulher ingênua e infantil que procura seu lugar no mundo profissional, indecisa
entre a música, a culinária ou as artes plásticas. A rotina de Paterson começa
cedo com o café da manhã com Laura, o trabalho de motorista, a cerveja no final
do dia no bar de Doc (Barry Shabaka Henrley) e os passeios com o buldogue
Marvin. E, claro, escrever poesias, que Jarmusch faz questão de reproduzir na
tela – na verdade, o autor delas é o poeta Ron Padgett, a quem o diretor admira
há muitos anos. Como na maioria de seus filmes, Jarmusch mais uma vez reúne
humor, ironia e erudição, tornando “Paterson” um entretenimento inteligente e
acima da média.
O filme
se chama “DESCONHECIDA” (“Complete Unknown”), mas poderia se chamar “Inexplicável”.
Vou tentar explicar o “Inexplicável”, a começar pela história sem pé nem
cabeça. Mulher bonita (Alice - Rachel
Weisz) conhece um rapaz num bar. Este a convida para jantar com uma turma de
amigos na casa de um deles, Tom (Michael Shannon). Todo mundo fica curioso em conhecê-la. Ela conta que viajou pelo mundo
inteiro, trabalhou como bióloga na Tasmânia e até como assistente de mágico na
China, entre outras peripécias que deixariam Forrest Gump com vergonha. Será
ela uma mentirosa compulsiva ou tudo que disse é verdade? Pior: Tom, que é casado, acaba lembrando da moça, que há muitos
anos se chamava Jennifer. Parece que tiveram um romance. Muita coincidência
ela aparecer justamente na casa dele. O pessoal sai para dançar numa discoteca.
Alice, ou Jennifer, vai embora e Tom sai atrás. Enquanto conversam, uma senhora
(Kathy Bates) leva um tombo e eles a socorrem. Alice, ou Jennifer, diz que Tom
é médico e que cuidará dela. E por aí vai essa aberração cinematográfica, que
inclui uma longa cena com sapos noturnos, que não quer dizer absolutamente
nada, assim como o filme inteiro. Inexplicável também é o fato de Rachel Weisz
e Michael Shannon, dois bons atores, aceitarem participar de tamanho
descalabro. E também Kathy Bates e Danny Glover, estes últimos em rápida
aparição, talvez envergonhados. Quem escreveu e dirigiu esse verdadeiro abacaxi
foi Joshua Marston, que ficou conhecido depois de dirigir “Maria Cheia de Graça”,
filme de 2004, que não é tão ruim como este. Conselho: passe bem longe!
"QUANDO A NEVE CAI" (“DESPITE THE FALLING SNOW”), 2016, Inglaterra, roteiro e direção da
inglesa Shamim Sarif, que adaptou para o cinema o romance que ela mesmo escreveu.
A história é ambientada no final da década de 50 em Moscou, durante a Guerra
Fria. Depois de viver com o trauma de ver seus pais assassinados pelo regime de
Stalin, Katya (a sueca Rebecca Fergusson, de “Missão Impossível: Nação Secreta”)
resolve se vingar e passa a trabalhar como espiã para os EUA. Numa de suas
missões, ela é escalada para conseguir informações junto a Alexander (Sam Reid),
que ocupa um cargo importante no governo comunista, a quem deveria seduzir. Katya
não poderia imaginar, porém, que Alexander iria se apaixonar perdidamente por ela, e
vice-versa. E os dois acabam se casando. Em 1961, Alexander acompanha uma
missão diplomática russa para uma reunião com os norte-americanos em Nova
Iorque e acaba desertando. A história salta para 1992. A fotógrafa Lauren
(papel também de Fergusson), sobrinha de Alexander, resolve ir para Moscou
tentar descobrir o que aconteceu com Katya depois que o marido desertou. Ela
conhece Marina (a bela atriz alemã Antje Traue), uma jornalista de grande
influência na capital soviética, que se propõe a ajudá-la. Ao encontrar um
antigo parceiro de Katya, ela descobrirá toda a verdade. Mesmo que a espionagem
apareça como pano de fundo, é o romance entre Katya e Alexander que norteará todo
o desenrolar da história. Não é o melhor filme de espionagem que já vi, nem é
ruim, mas fica bem longe dos melhores.
“UM MERGULHO NO PASSADO” (“A
Bigger Splash”), 2015, coprodução Itália/França,
roteiro de David Kajganich e direção de Luca Guadagnino, é uma refilmagem do
clássico policial francês “A Piscina”, de 1969, com Alain Delon e Romy
Schneider. No filme recente, falado em inglês, a história é centrada na estrela
do rock Marianne Lane (Tilda Swinton), que resolve passar as férias de verão
com o namorado Paul de Smedt (Mathias Schoenaearts) numa casa na paradisíaca Ilha
de Pantelleria, na Sicília. Tudo vai bem com o casal até que chega uma visita das
mais inesperadas e indesejadas: Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-produtor
musical de Marianne, e sua filha Penélope (Dakota Johnson). Prevendo confusão, Paul
não quer que Marianne hospede Harry e a filha. Marianne, porém, não tem opção,
pois, além de antigo amigo, Harry produziu muitos de seus discos e shows. Os
dias passam e o clima vai ficando cada vez mais pesado, principalmente pelo
comportamento inconveniente do egocêntrico e verborrágico Hawkes, que não para
de beber, toma banho de piscina nú e ainda assedia Marianne. Os jogos de
sedução também envolvem Penélope e Paul. É claro que a convivência acabará numa
tragédia e, a partir de então, o filme se transforma num verdadeiro suspense
policial, envolvendo até mesmo os coitados dos refugiados que chegam de barco
ao litoral italiano. Apesar do elenco de astros, o filme não convence e, em
muitos momentos, torna-se até desagradável, principalmente por causa do personagem
histriônico e irritante de Ralph Fiennes.
O drama
inglês “45 ANOS” (“45 YEARS”), foi escrito e dirigido por Andrew Haigh e
teve sua primeira exibição no Festival de Berlim/2015. Na tranquilidade
bucólica da confortável casa em que vivem numa zona rural da Inglaterra, Geoff
Mercer (Tom Courtnay) e Kate (Charlotte Rampling) curtem uma rotina tediosa ao
lado do seu cão pastor Max. Às vésperas da festa do 45º aniversário de casamento, Geoff recebe a
notícia de que o corpo de uma antiga namorada e uma de suas grandes paixões da
juventude, que estava desaparecida depois de um acidente, foi encontrado numa
geleira dos Alpes Suíços. Ao recordar alguns fatos dessa antiga paixão, Geoff acaba
gerando ciúmes em Kate. O relacionamento entre os dois fica abalado,
principalmente pela insegurança de Kate quanto ao verdadeiro amor de Geoff, se
ela ou a antiga namorada. Nos dias em que antecedem a festa, Kate e Geoff recordam
alguns fatos que marcaram seu casamento, mas o fantasma da antiga namorada
sempre aparece no meio da conversa. Será que haverá clima para a festa? A
resposta você só terá assistindo a este excelente filme, cujo roteiro foi
baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine, e claramente inspirado
no clássico “Cenas de um Casamento”, de 1973, do diretor sueco Ingmar Bergman. “45
Anos” foi premiado em vários festivais pelo mundo afora. Charlotte Rampling e
Tom Courtnay conquistaram o Prêmio Urso de Ouro de Melhor Atriz e Ator no
Festival de Berlim/2015. Além disso, também por esse filme, Rampling foi
indicada e disputou o Oscar/2016 de Melhor Atriz. A trilha sonora, dos anos 60,
é deliciosa: Marvin Gaye, Aaron Neville, Buffalo Springfield, The Moody Blues,
The Turtles etc.
Singelo,
comovente, sensível. Assim é o drama francês “FATIMA”, 2015, escrito e
dirigido pelo marroquino Philippe Faucon (“Samia”). A história acompanha o
cotidiano de Fatima (Soria Zeroual), imigrante argelina divorciada de 44 anos, que
há duas décadas imigrou para Paris e cria, com o trabalho de faxineira, as duas
filhas nascidas em solo francês, Nesrine (Zita Hanrot), de 18 anos, e Souad
(Kenza Noah Aïche), de 15 anos. Fatima não fala bem o francês e se comunica com
as filhas em árabe, resultando num choque cultural dentro da própria família,
pois Nesrine e Souad, plenamente integradas aos modos e costumes da França, não
aceitam seguir as tradições muçulmanas, como, por exemplo, usar o véu para sair
na rua. Nesrine é o orgulho da família, pois conseguiu ingressar na faculdade
de Medicina, fato que gera a inveja das vizinhas também imigrantes. Souad é uma adolescente rebelde e briguenta, que não se conforma que a mãe seja uma faxineira. Ao cair de
uma escada e ficar afastada do trabalho por licença médica, Fatima passa a
escrever um diário em árabe, escrevendo tudo aquilo que gostaria de dizer às
filhas em francês, além de fazer uma abordagem sobre os desafios de viver em
outro país, em meio a muito preconceito. Numa das passagens do diário, escrito
com muita poesia e sensibilidade, ela faz uma homenagem às “Fátimas” que, como
ela, fazem o serviço pesado e sustentam suas famílias a custa de muito suor. Um
texto muito bonito, que valoriza ainda mais esse belo filme, cujo roteiro foi inspirado
em dois livros escritos pela imigrante marroquina Fatima Elayubi em 2006 e
2011. “Fatima”, merecidamente, conquistou o Prêmio César (o Oscar francês) de Melhor
Filme em 2016.
Ainda
não tem data para estrear por aqui “REGRAS NÃO SE APLICAM” (“Rules Don’t
Apply”), 2016, sexto filme escrito – em conjunto com Bo Goldman - e
dirigido pelo ator Warren Beatty. Ambientado em 1958, conta a história da jovem
Marla Mabrey (Lily Collins), que chega a Hollywood em companhia da mãe Lucy
(Annette Bening) para fazer um teste na produtora do excêntrico milionário
Howard Hughes (Warren). Frank Forbes (Alden Ehrenreich) é o motorista escalado
para servir Marla entre sua casa e o estúdio. Logo é possível perceber que os
dois se apaixonarão, mesmo que uma das regras de Hughes seja desrespeitada: nenhum
dos seus funcionários pode se envolver com as atrizes de seu estúdio – daí o
título original. O filme é uma mistura de romance, comédia e drama, além de uma
sátira ao misterioso Hughes, aqui apresentado como uma figura patética e
histriônica. O resultado final não me agradou e, se há algo a destacar de forma
positiva, é a exuberante recriação de época, especialmente os cenários e os
figurinos, além da deliciosa trilha sonora. Outro fator de destaque é a presença de atores famosos fazendo
apenas uma ponta no filme, como Matthew Broderick, Candice Bergen, Steve
Coogan, Martin Sheen, Oliver Platt, Paul Sorvino e Ed Harris. Vale para uma
sessão da tarde com pipoca. Nada muito especial.