sábado, 15 de abril de 2017

O drama sueco “MINHA IRMÃ MAGRA” (“Min Lilla Syster”), 2014, tenta responder a uma pergunta que aflige milhares, ou milhões, de pais no mundo inteiro: O que fazer quando você descobre que sua filha sofre de anorexia? O tema é abordado com sensibilidade pela diretora estreante em longas Sanna Lenken, mais conhecida por seus trabalhos na TV. Ela também é a autora do roteiro. É sob o ponto de vista de Stella (a ótima Rebecka Josephson), de 12 anos, que tudo acontece. É como se ela funcionasse como narradora da história. Ela é gordinha e morre de inveja da sua irmã mais velha, Katja (Amy Deasismont), que é a estrela da patinação na escola e queridinha dos pais. Stella, colocada meio de escanteio, observa tudo quieta até descobrir que Katja consegue ser magra porque é anoréxica. Stella até que se compadece pela situação da irmã e tenta ajudá-la. Mas a questão é que Katja pede segredo à irmã, prometendo não contar aos pais que Stella escreve poemas eróticos pensando no treinador Jacob (Maxim Mehmet). De alguma forma, porém, a situação de Katja chega ao conhecimento dos pais, que terão de lidar com o problema. O drama é amenizado por alguns toques de bom humor, principalmente nas cenas envolvendo a gordinha e simpática Stella. Embora o contexto seja dramático, o filme é bastante agradável e merece ser visto. Como aval da minha opinião, lembro que “Minha Irmã Magra” foi eleito o Melhor Filme Nórdico no Festival de Cinema de Gotemburgo e recebeu o Urso de Cristal no Festival de Berlim 2015.    

       

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O drama “VIRGEM JURAMENTADA” (“Vergine Giurata”), 2014, Itália, foi exibido pela primeira vez durante o 65º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2015, foi sucesso de público e crítica em vários festivais pelo mundo afora e, por aqui, integrou a programação da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Filme de estreia da diretora italiana Laura Bispuri, que escreveu o roteiro em conjunto com Francesca Manieri. A história: as irmãs Hana e Hila vivem num vilarejo nas montanhas da Albânia. Elas crescem numa sociedade radicalmente machista, onde as mulheres são tratadas como escravas e obrigadas a se submeter à vontade dos homens. As irmãs se rebelam com a situação. Hila (Flonja Kodheli) escapa de um casamento arranjado e foge com o namorado para a Itália. Hana (Alba Rohrwacher) decide ficar e resolve adotar o sexo masculino, obedecendo à Lei do Kanun e jurando eterna virgindade. Ela passa a se chamar Mark Doda e, apenas com seu rifle, vai morar durante 10 anos em plena solidão nas montanhas. Quando decide visitar a irmã na Itália, Hana/Mark começa a mudar os seus conceitos. O filme é bastante interessante na medida em que revela algumas das principais tradições vigentes naquela região inóspita da Albânia. É um filme de poucos diálogos. A interpretação da atriz italiana Alba Rohrwacher é impressionante. Ela fala muito pouco o filme inteiro, utilizando-se apenas de sua expressão facial e corporal. O filme é muito bom e merece ser visto por quem curte cinema de qualidade.          

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quem tem claustrofobia (fobia a lugares fechados) e sofre de nictofobia (medo do escuro), jamais assista ao drama mexicano “7:19”, 2016, direção de Jorge Michel Grau. O pano de fundo é o terremoto que arrasou a Cidade do México no dia 19 de setembro de 1985, causando milhares de mortos e destruindo dezenas de edifícios e casas. O título refere-se ao exato momento em que o terremoto começou. O filme quase inteiro é ambientado nos destroços de um grande edifício, onde cinco pessoas tentam sobreviver em meio aos escombros enquanto o socorro não chega. Um deles é o dr. Fernando Pellicer (Demian Bichir, do polêmico “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino), executivo cujo sogro foi o construtor do prédio. Outro é Martin Soriano (Hector Bonilla), porteiro do edifício prestes a se aposentar. O ritmo lento e arrastado, sem qualquer ação, pode causar sonolência. Ou seja, só vai chegar ao final quem tiver uma dose monumental de paciência ou conseguir ficar acordado. Menos mal que tudo seja inspirado em fatos reais, mas trata-se, sem dúvida, de um filme sem muitos atrativos, ou seja, pouco recomendável.      
“10.000 Km”, Espanha, 2014, direção de Carlos Marques-Marcet. Alexandra (Natalia Tena) e Sergi (David Verdaguer) vivem em Barcelona e formam um casal ainda em fase de lua-de-mel, com muita paixão e sexo. Posso estar enganado, mas a cena de sexo inicial foi mesmo para valer, mesmo não sendo explícito. Ao mesmo tempo, Alex e Sergi querem ter um filho. Um dia ela, fotógrafa e designer gráfica, recebe uma proposta de trabalho irrecusável para ficar um ano em Los Angeles. Eles conversam bastante antes de tomar a decisão e, enfim, Alexandra vai para os EUA. Todos os dias eles conversam pela webcam, trocam juras de amor eterno e contam os dias que faltam para terminar o trabalho dela. Mesmo à distância, o relacionamento se desgasta e entra em crise, mais pelo ciúme e as desconfianças de Sergi. E o filme vai por aí afora com muito papo furado interminável pela internet. O filme todo é um tédio insuportável, cansativo e enfadonho, a começar pelo fato de vermos apenas dois personagens em cena falando um com o outro durante os mais de 100 minutos de duração. Os diálogos são de uma profundidade milimétrica. O roteiro foi escrito pelo diretor Carlos Marques em conjunto com Clara Roquet e dele também participaram os dois atores. O diretor faz parte de um grupo de cineastas espanhóis intitulado “La Panda”, cujo objetivo é realizar filmes criativos e de baixo orçamento. No caso de “10.000 Km”, eu acrescentaria mais um objetivo: fazer dormir.  


sábado, 8 de abril de 2017

                                               

“ALIADOS” (“Allied”), 2016, EUA, roteiro de Steven Knight e direção do veterano Robert Zemeckis (“O Voo”, “Náufrago”). Ambientado no início dos anos 40 em plena Segunda Guerra Mundial, conta a história do oficial canadense Max Vatan (Brad Pitt) e da militante da resistência francesa Marianne Beausejour (Marion Cotillard), recrutados como espiões e com a missão de assassinar um embaixador alemão em Casablanca, no Marrocos. Eles fingem ser casados, mas, claro, acabam se apaixonando. Após a missão cumprida, eles se casam de verdade e vão morar na Inglaterra. Felizes para sempre? Ledo engano! O serviço secreto inglês começa a desconfiar que Marianne é, na verdade, uma espiã a serviço dos nazistas. Aí o caldo engrossa e Max é obrigado a vigiar a patroa e, se for o caso, assassiná-la. Há algumas referências claras ao clássico “Casablanca”: a pianista que toca “A Marselhesa” num bar repleto de alemães, a cena final em meio aos aviões e, principalmente, os figurinos usados pelos principais protagonistas. O filme, aliás, disputou o Oscar 2017 na categoria “Melhor Figurino”, sua única indicação. A atriz francesa Marion Cotillard, que já havia conquistado um Oscar de “Melhor Atriz” por “Piaf – Um Hino ao Amor”, dá conta do recado, mas Brad Pitt atua no piloto automático, comprovando mais uma vez não ser um grande ator. Segundo os fofoqueiros de plantão, Marion e Pitt tiveram um caso durante as filmagens, o que resultou na separação entre o ator e Angelina Jolie. Não acredito, pois a atriz francesa estava grávida e, além disso, é casada. Será que foi uma jogada de marketing para promover o filme? De qualquer forma, trata-se de uma história bastante interessante e cheia de suspense.    

segunda-feira, 3 de abril de 2017

“MANCHESTER À BEIRA-MAR” (“MANCHESTER BY THE SEA”) teve seis indicações ao Oscar 2017, inclusive de Melhor Filme (perdeu para “Moonlight”), mas conseguiu que Casey Affleck (irmão mais moço do Ben) ganhasse o prêmio de Melhor Ator. Trata-se de um filme altamente depressivo, repleto de tragédias, e quem sofre mais é justamente Lee Chandler, o personagem interpretado por Affleck. Para explicar porque ele se transformou num homem  triste e melancólico, o roteirista e diretor Kenneth Lonergan (“Conte Comigo”) recorreu a inúmeros flashbacks que se alternam com a ação do presente até o desfecho. O filme começa e mostra Lee Chandler morando em Boston, onde trabalha como zelador de dois edifícios. Vive isolado e deprimido. Para piorar, recebe a notícia de que seu irmão Joe Chandler (Kyle Chandler) acabara de morrer, deixando órfão seu filho adolescente Patrick (Lucas Hedges). A situação provoca o retorno de Lee à sua cidade natal Manchester, onde terá de se confrontar com a ex-esposa Randi (Michelle Williams) e remoer uma tragédia do passado. Mas é o relacionamento difícil e conflituoso com o sobrinho Patrick que garante ao filme as melhores cenas e os diálogos mais afiados. Um bom filme que merece ser visto, sem dúvida valorizado pelo ótimo desempenho de Casey Affleck.      


quinta-feira, 30 de março de 2017

Quem conhece um pouco de História deve se lembrar do atentado contra Adolf Hitler ocorrido numa cervejaria de Munique no dia 8 de novembro de 1939, que matou 8 pessoas, menos o alvo principal. O líder nazista escapou ileso, pois saiu 13 minutos antes da bomba explodir. O autor do atentado, o carpinteiro Georg Elser, foi preso logo depois. Hitler exigia que ele denunciasse os seus supostos parceiros, embora Elser tenha agido sozinho. Dá-lhe tortura, uma especialidade dos nazistas. Este é o enredo do excelente drama histórico alemão “13 MINUTOS” (“Elser”), 2014, dirigido por Oliver Hirschbiegel e com roteiro de Fred e Léonie-Clair, pai e filha. O filme tem como foco central o período em que Elser (Christian Friedel) passou na prisão, seus interrogatórios e as sádicas torturas que sofreu. Aliás, as cenas de tortura são bastante chocantes, podem incomodar os espectadores mais sensíveis. O filme também destaca, em flashbacks, sua ligação com a Frente Vermelha de Lutadores, organização associada ao Partido Comunista Alemão, e os motivos que o levaram a praticar o atentado, além de sua paixão por Elsa (Katharina Schüttler), esposa de um simpatizante nazista. O diretor Hirschbiegel carrega no currículo o excelente “A Queda – As Últimas Horas de Hitler”, indicado ao Oscar 2005 de Melhor Filme Estrangeiro. O diretor alemão também trabalhou em Hollywood, dirigindo filmes como “Invasores”, “Rastros de Justiça” e “Diana”. “13 Minutos” é mais um filme alemão de muita qualidade. Obrigatório!


segunda-feira, 27 de março de 2017

O drama francês “SKY”, 2015, roteiro e direção de Fabienne Berthaud, é todo ambientado nos Estados Unidos e conta a história de Romy (Diane Kruger) e Richard (Gilles Lellouche), que resolvem sair em férias para tentar salvar um casamento em crise. De Paris, eles vão para os EUA dispostos a percorrer as paisagens desérticas da Route 66. A escolha não poderia ter sido pior. Em poucos dias eles se separam depois de uma violenta discussão e ela segue estrada, chegando a Las Vegas. Sem dinheiro, ela acaba se vestindo de coelhinha e, ao lado de dois sósias de Elvis Presley, ganha uma graninha tirando fotos com turistas nas calçadas de Vegas. Na cidade dos cassinos, ela conhece Diego (Norman Reedus), cujo aspecto repugnante é incrementado por acessos de tosse. Como se não bastasse, Romy ainda vai a uma benzedeira índia. Enfim, quem viu alguns filmes de Diane Kruger, como “Adeus, Minha Rainha” ou “Tudo por Ela”, vai estranhá-la num papel tão constrangedor e num filme tão fraco, que, aliás, não foi exibido comercialmente por aqui. E duvido que seja, para o bem da reputação de Kruger e para alívio do pessoal que curte cinema de qualidade.   
“UM INÍCIO PROMISSOR” (“Um Début Prometteur”), 2014, França, roteiro e direção de Emma Luchini. A história, baseada no romance “Au Diable Vauvert”, de Isabelle Blondie, é centrada em dois irmãos com uma grande diferença de idade. Martin (Manu Payet) já é quase quarentão, alcoólatra e drogado, não trabalha e vive passando por clínicas de recuperação. O mais novo, Gabriel (Zacharie Chasseriaud), de 16 anos, vive no mundo da lua e acaba se apaixonando por uma mulher com o dobro de sua idade, Mathilde Carmain (Veerle Baetens). Os irmãos são filhos de um horticultor, o esquisito Francis Vauvel (Fabrice Luchini, pai da diretora). Parece uma comédia romântica. Como não provoca risos nem sorrisos, não emplaca como comédia. Como romance, também passa longe. Ou seja, não há muitos atrativos que possam motivar uma recomendação entusiasmada, a não ser a presença da atriz belga Veerle Baetens, que arrasou no ótimo “Alabama Monroe”, filme de 2012, e que aqui está mais sensual do que nunca. O grande ator Fabrice Luchini aparece pouco, provavelmente para dar uma força para a filha diretora. Em resumo, filme dos mais descartáveis. Ao contrário do que diz o título, nem o início é promissor.                                                                                                      


quinta-feira, 23 de março de 2017

Já vi muitos filmes bons com elencos formados por ilustres desconhecidos, assim como assisti a muitos filmes ruins com astros consagrados. Neste segundo caso incluo “BELEZA OCULTA” (“Collateral Beauty”), EUA, 2016. Olha só o elenco: Will Smith, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Edward Norton, Michael Peña e Naomi Harris. Elenco de primeira para um filme de segunda. A história: o empresário Howard (Smith) é um dos sócios de uma famosa agência de propaganda. É considerado um gênio criativo e dos negócios. Depois da morte de sua filha de 6 anos de idade, ele entra em crise existencial, se transforma num morto-vivo, começa a brincar com peças de dominó e a escrever cartas para a Morte, o Tempo e a Vida. É mole? Tem mais. Seus sócios na agência resolvem contratar atores para representar os destinatários das cartas e tentar conversar com Howard. Quer mais? Uma mãe que também perdeu a filha ouve um conselho de uma misteriosa mulher: “Você precisa ver a beleza oculta”. Vá dizer isso a alguém que acaba de perder um ente querido. Os responsáveis por esse besteirol: o roteirista Allan Loeb (“Coincidências do Amor”) e o diretor David Frankel (“Marley & Eu”). Eles tentaram fazer um filme para o público chorar, exagerando no tom emotivo e no sentimentalismo barato, utilizando diálogos artificiais e de uma profundidade milimétrica. Com toda razão, o filme foi massacrado pela crítica especializada. Não perca seu tempo!       

quarta-feira, 22 de março de 2017

Baseado em fatos reais, relatados no livro “The Septembers of Shiraz”, da escritora iraniana Dalia Sofer, e transformado em roteiro por Hanna Weg, o drama “SETEMBRO EM SHIRAZ” (“Setptembers of Shiraz”), EUA, 2015, conta a história de uma família judia que sofreu nas mãos dos radicais fieis ao regime do aiatolá Khomeini logo após a deposição do Xá Reza Pahlevi, em 1979. Isaac (Adrien Brody) é um joalheiro de sucesso em Teerã, mas depois da revolução é acusado de ser espião de Israel. Ele é preso e torturado, enquanto sua esposa Garnez (Salma Hayek) faz de tudo para libertá-lo. A situação de Isaac se complica ainda mais quando descobrem uma carta onde o deposto Xá Pahlevi agradece e elogia um de seus trabalhos. Dirigido pelo diretor australiano Wayne Blair (“Música da Alma”), o filme consegue manter o clima de tensão do começo ao fim. O filme é quase todo falado em inglês, com Adrien Broden e Salma Hayek tentando caprichar no sotaque. Vale ser visto por contar uma história que realmente aconteceu. A ideologia implementada naquela época no Irã tem muito a ver com os princípios do atual e sanguinário Estado Islâmico.                                            

segunda-feira, 20 de março de 2017

“LATIN LOVER”, 2014, Itália, roteiro e direção de Cristina Comencini. No 10º aniversário da morte do famoso galã Saverio Crispo (Francesco Scianna), sua cidade natal resolve resgatar sua memória com um dia de homenagens. Além de grande ator, requisitado inclusive por Hollywood, Saverio era um mulherengo crônico - impossível não lembrar de Marcelo Mastroianni. As duas viúvas oficiais, mais suas cinco filhas são convidadas para participar desse dia especial. Elas se reencontram um dia antes, oportunidade em que relembram a convivência que tiveram com Saverio, trocam confidências e revelam alguns segredos de alcova. Além disso, há o marido espanhol de uma delas, que assedia a cunhada mais jovem e bonita. No fundo, Cristina Comencini (“O Mais Belo Dia da Minha Vida”) presta uma homenagem ao cinema italiano, resgatando o gênero que consagrou, entre outros, os diretores Dino Risi e Mario Monicelli, dois mestres da comédia. No desfecho, a projeção de um documentário com Saverio lembra a cena final de uma obra-prima do cinema italiano: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatori. O principal trunfo de Comencini foi contar com um excelente elenco feminino: Virna Lisi, Marisa Paredes, Valeria Bruni Tedeschi, Angela Finocchiaro, Candela Peña, Nadeah Miranda. Este, aliás, foi o último filme da diva Virna Lisi, a atriz mais bonita do cinema italiano nos anos 60/70, que morreu logo depois do final das filmagens. O filme é dedicado a ela. Também atuam com destaque os atores espanhóis Lluís Homar e Jordi Mollià. Enfim, um programa delicioso.                                         

sábado, 18 de março de 2017


“CHEVALIER”, 2016, Grécia, direção de Athina Rachel Tsangari e roteiro de Efthymis Filippou. Seis amigos partem para um cruzeiro num luxuoso iate com a ideia de pescar e praticar mergulho. Só que o barco apresenta um problema mecânico e é obrigado a permanecer ancorado por uns dias no golfo de Daronikos (Mar Egeu). Para passar o tempo, eles inventam um jogo chamado “Chevalier”, que exige um confronto psicológico entre os participantes, originando desavenças, intrigas e até agressões físicas. Eu descreveria como uma terapia de grupo tumultuada. É preciso ter uma enorme paciência para chegar ao final do filme, monótono ao extremo e repleto de diálogos sem nexo, bem ao estilo da diretora Athina Tsangari, responsável por um dos filmes mais esquisitos que já vi: “Attenberg” (2010). “Chevalier” é mais compreensível e não tão chato. Seria injusto, porém, não destacar o excelente trabalho dos atores e a ótima fotografia. De qualquer forma, o filme foi o representante oficial da Grécia na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro.                                        

sexta-feira, 17 de março de 2017

A Segunda Grande Guerra já rendeu centenas, talvez milhares, de histórias que se transformaram em livros ou filmes. Quando a gente pensa que tudo já foi contado vem mais uma, e assim tem sido há muitos anos. Duas das mais recentes histórias foram contadas no filme “Até o Último Homem”, dirigido por Mel Gibson, e no dinamarquês “TERRA DE MINAS”, ambos concorrentes ao Oscar 2017, o segundo pelo prêmio de Melhor Filme Estrangeiro (vencido pelo iraniano “O Apartamento”, de Asghar Farhadi). “Terra de Minas” conta uma história incrível, principalmente por ser baseada em fatos reais. Quando a guerra caminhava para o seu final, os alemães acreditavam que as forças aliadas invadiriam a Europa pelo litoral da Dinamarca, há anos ocupada pelos nazistas. Acreditando nessa possibilidade, os estrategistas alemães deram ordem de instalar mais de um milhão de minas nas praias dinamarquesas. Quem conhece um pouco de História sabe que a invasão ocorreu na Normandia (França). Quando terminou a guerra, o exército dinamarquês resolveu utilizar os dois mil soldados alemães feitos prisioneiros para escavar e desarmar todas essas minas. O filme, escrito e dirigido por Martin Zandvliet, centraliza toda a ação num grupo de 14 soldados alemães colocados sob o comando do rigoroso sargento dinamarquês Carl Leopold Rasmussen (o estupendo Roland Moller). Além de não terem a mínima experiência no desarmamento de minas, os alemães eram todos muito jovens, alguns deles recém-saídos da adolescência. O filme reserva momentos de alta tensão, principalmente durante o trabalho dos garotos, durante o qual uma tremida de mão significava uma explosão. Mas tem seus momentos comoventes, que servem para amenizar o contexto dramático e trágico da história. Impossível não se emocionar com a situação dos garotos alemães, principalmente quando um deles chora e chama pela mãe. Um filmaço, simplesmente imperdível!                                  


quinta-feira, 16 de março de 2017

O drama “MEDITERRANEA”, 2015, Itália, explora um tema dos mais atuais: a fuga de imigrantes africanos para a Europa. É o primeiro filme de longa-metragem escrito e dirigido pelo norte-americano radicado na Itália Jonas Carpignano. Para realizar “Mediterranea”, Jonas entrevistou inúmeros imigrantes que conseguiram chegar ao litoral italiano, inclusive o ator principal do filme, Koudous Seihon. Jonas centra a história em dois imigrantes: Ayiva (Sehon) e Abas (Alassane Sy). A dupla, juntamente com um grupo de imigrantes, sai de Burkina Faso para tentar melhorar de vida na Itália. A viagem é uma verdadeira aventura – e muito perigosa. Eles atravessam a Argélia e a Líbia, passam fome, enfrentam o calor do deserto e ainda são assaltados. Além disso, enfrentam uma arriscada travessia pelo Mar Mediterrâneo num barco em péssimo estado. No meio do caminho, são resgatados pela guarda costeira italiana e conseguem chegar e se estabelecer na cidade de Rosarno, na região da Calábria. O primeiro inimigo que encontrarão é o rigoroso inverno, além da rejeição violenta dos moradores locais. Ayiva e Abas acabam trabalhando numa plantação de laranjas, onde o regime é de semiescravidão. Tudo muito longe do paraíso que esperavam encontrar. Jonas conduz o filme de forma bastante realista, como se fosse um documentário, sensação reforçada pelo elenco formado quase que integralmente por verdadeiros imigrantes africanos e alguns italianos locais. Um filme bastante esclarecedor, de grande impacto, que merece ser visto por quem aprecia cinema de qualidade.                           



terça-feira, 14 de março de 2017

“AMOR À PRIMEIRA BRIGA” (“Les Combattants”), 2014, França, primeiro filme escrito e dirigido por Thomas Cailley. Aclamado pela crítica especializada e detentor de três prêmios César (o Oscar francês), o filme conta a história da relação inicialmente conturbada entre dois jovens, o marceneiro Arnaud Labrède (Kévin Azaïs) e a bonita, durona e temperamental Madeleine Beaulieu (Adèle Haenel). Ele é de família pobre e trabalha prestando serviço de marceneiro e pedreiro juntamente com o irmão. Ela estuda Macroeconomia e pertence a uma família de classe média alta. Desiludida com a crise financeira enfrentada pela França e com o desemprego em alta, Madeleine decide cumprir um estágio no exército. Arnaud segue o mesmo caminho e ambos são submetidos a um rigoroso treinamento. Os dois acabam abandonando o estágio e partem para a floresta tentando sobreviver com os ensinamentos do exército. Apesar de ter apenas 28 anos de idade, a atriz Adèle Haenel já pode ser considerada veterana no cinema francês, tendo iniciado sua carreira em 2002 em “Les Diables”. Atualmente, está em cartaz por aqui com “A Garota Desconhecida”. “Amor à Primeira Briga” ganhou os prêmios César de Melhor Atriz (Haenel), Melhor Ator Revelação (Azaïs) e Melhor Primeiro Filme. Confesso que o filme não me encantou o suficiente para recomendá-lo. Em todo caso, veja e tire suas próprias conclusões.                           

segunda-feira, 13 de março de 2017



“FRANK E LOLA – AMOR OBSESSIVO” (“FRANK & LOLA”), EUA, 2016, roteiro e direção de Matthew Ross. Mistura de drama e suspense, filmado ao estilo noir, com fotografia em tons escuros e muitas cenas noturnas. Frank (Michael Shannon) é um chef que começa a fazer sucesso em Las Vegas. Quando conhece a jovem, bela e misteriosa Lola (a atriz inglesa Imogen Poots), ele se apaixona e começa uma relação bastante complicada, repleta de desconfiança, principalmente por causa do seu ciúme doentio. De qualquer forma, ele está certo quando desconfia de certas atitudes de Lola, cujo passado é cercado de segredos. Um deles é o seu relacionamento com Alan (Michael Nyqvist), a quem acusa de tê-la estuprado quando ela era bastante jovem. Contratado por um ricaço francês para elaborar um jantar especial, Frank viaja para Paris, onde Alan mora, e resolve tirar tudo a limpo. O elenco conta ainda com Justin Long, Rosanna Arquette e Emmanuelle Devos. O filme teve sua primeira exibição em janeiro de 2016 durante o Festival de Sundance e dividiu opiniões. Alguns críticos elogiaram, outros não. Eu achei um tanto monótono, lento demais e depressivo. De qualquer forma, é estrelado pelo excelente Michael Shannon, um dos atores mais requisitados atualmente tanto por Hollywood como pelas produtoras independentes.                        
“ANIMAIS NOTURNOS” (“Nocturnal Animals”), EUA, 2016, é o segundo filme escrito e dirigido por Tom Ford. O primeiro foi o ótimo “Direito de Amar”, de 2009, com Colin Firth e Julianne Moore. Ford é mais conhecido como estilista de moda, bastante conceituado no mundo fashion. Como cineasta, também é muito competente, destacando-se por uma estética cinematográfica inovadora. Em “Animais Noturnos”, por exemplo, ele introduz um filme dentro de outro. Explico: Susan Morrow (Amy Adams), proprietária de uma badalada galeria de arte, recebe os originais de um romance escrito por seu ex-marido Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Como Susan vive uma fase solitária com o novo e ausente marido (o bonitão Armie Hammer), ela dedica suas noites à leitura do livro, cujo título é justamente “Animais Noturnos”. Trata-se de um thriller envolvendo uma família em viagem de férias e que numa estrada é abordada e atacada por um grupo de marginais. Aí começa o outro filme, mostrando toda a situação da família nas mãos dos marginais e as investigações a cargo de um misterioso detetive (Michael Shannon). Enquanto lê o romance do ex-marido, Susan faz uma profunda reflexão sobre sua vida e seu casamento fracassado com o escritor. Ainda estão no elenco Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Ellie Bamber e Laura Linney, esta última hilariante como a mãe esnobe de Susan. O filme recebeu muitos elogios da crítica especializada. Realmente, é muito bom, mas merece um aviso: não é para qualquer público.                 

sexta-feira, 10 de março de 2017

“O ESGRIMISTA” (“VEHKLEJA”), 2015, Finlândia/Estônia, roteiro de Anna Heinämaa e direção de Klaus Härö. Baseado em fatos reais. Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos russos foram recrutados à força pelas tropas alemãs invasoras e obrigados a lutar pelo exército nazista. Terminada a guerra, muitos deles foram presos como colaboracionistas e inimigos da Rússia, sendo condenados e enviados para enxugar gelo na Sibéria. O esgrimista Endel Nelis (1925-1993) foi um dos russos cooptados pelos alemães, mas conseguiu escapar da prisão ao mudar de identidade. No início dos anos 50, como Endel Keller, ele conseguiu um emprego de professor de esportes num colégio da pequena cidade de Haapsalu, na Estônia. Mesmo com a discordância da direção da escola e a muito custo, Endel conseguiu incluir a prática da esgrima como uma das modalidades a ser ensinada aos garotos. O diretor da escola achava que a esgrima não era um esporte para o proletariado e sim para a elite burguesa. Com muito treinamento, Endel conseguiu levar a escola para disputar um torneio juvenil em Leningrado, mesmo arriscando-se a ser reconhecido e preso pelo serviço secreto de Stalin. Dirigido com rara sensibilidade pelo diretor finlandês, o filme concorreu na categoria Melhor Filme Estrangeiro ao Globo de Ouro 2016. Sua única exibição no Brasil aconteceu na Seção “Foco Nórdico” da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/2016. É um filme que emociona. Uma história comovente que precisa ser conhecida.              



quarta-feira, 8 de março de 2017

Lançado no Festival Internacional de Berlim, em fevereiro de 2016, o terror psicológico  “CREEPY” (“Kurîpî Itsuwari no Rinjin”) colocou mais uma vez em evidência o diretor japonês Kiyoshi Kurosawa (não tem parentesco com o famoso diretor Akira Kurosawa, já falecido). Kiyoshi é considerado um mestre do terror (“Pulse”, “A Cura”). Em “Creepy”, ele se inspira na história do livro “Kurîpî”, best-seller do escritor Yukata Maekawa. O roteiro, também de Kurosawa, é de início um pouco confuso, mas depois torna-se bem inteligível – e assustador. Koichi Takakura (Hidetoshi Nishijima) é um ex-detetive que leciona Psicologia Criminal numa universidade. Certo dia, Nogami (Masahiro Higashide), um antigo companheiro da polícia, pede a Takakura que o ajude a desvendar um mistério relacionado com o desaparecimento de três pessoas de uma família há seis anos. Para iniciar a investigação, os dois localizam a jovem Saki (Haruna Kawaguchi), na época adolescente e única sobrevivente. Ao mesmo tempo, a esposa de Takakura, sentindo-se solitária no novo bairro, passa a interagir com a vizinhança e logo faz amizade com o misterioso Nishino (Teruyuki Kagawa), um homem sem passado e com um comportamento bastante estranho. Takakura e seu colega policial passam a desconfiar que Nishino pode ter ligação com o caso da família desaparecida. A tensão aumenta a cada cena, ainda mais com o auxílio de uma trilha sonora pulsante que lembra os filmes de Alfred Hitchcock, do qual o diretor japonês é um confesso admirador. Podemos chamar a primeira fase do filme como teórica: investigação, muito papo e interrogatórios. Na fase prática, o filme deixa o suspense de lado e passa ao terror explícito, quando o assassino e seus métodos são revelados. “Creepy” (pode ser traduzido como horripilante, assustador) é um filme bastante interessante que merece ser visto como uma nova vertente criativa do gênero terror psicológico.                 

segunda-feira, 6 de março de 2017

“ELIS”, 2015, roteiro e direção de Hugo Prata (seu longa de estreia), é uma cinebiografia da cantora Elis Regina. No filme, a trajetória de Elis começa a ser contada quando ela chega ao Rio, aos 18 anos, em 1964, como uma ilustre desconhecida para logo depois se transformar numa conhecida ilustre. Estão lá retratados seu encontro com Ronaldo Bôscoli e Miéle no Beco das Garrafas, seus shows arrasadores e o início de sua amizade com o cantor/dançarino Lennie Dale. Elis chega a São Paulo para cantar “Arrastão”, de Edu Lobo, no I Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965, e mais uma vez levanta a plateia, conquistando o 1º lugar. Vem o convite da TV Record para comandar, junto com Jair Rodrigues, o programa “O Fino da Bossa”. E por aí vai a carreira daquela que é considerada até hoje a maior cantora que o Brasil já teve - no que concordo plenamente. O filme dá maior ênfase à vida particular conturbada de Elis, seu casamento com Bôscoli e depois com César Camargo Mariano, seu caso com Nelson Motta, a perseguição que sofreu dos militares, a desavença com o cartunista Henfil, seus shows nem sempre aclamados e, por fim, a fase depressiva que a levaria à morte em 1982, aos 36 anos de idade. A atriz mineira Andréia Horta representa Elis de forma magistral, incluindo caras e bocas, imitando com perfeição os gestos que Elis fazia quando falava e cantava. Em algumas cenas, a semelhança é incrível e emocionante. Entre os fatos importantes da carreira de Elis, porém, senti falta de uma menção ao disco “Elis & Tom”, que gravou junto com o maestro carioca, talvez seu trabalho musical mais importante. Não há também qualquer referência à amizade com Milton Nascimento. Mesmo essas falhas de roteiro não chegam a prejudicar o resultado final.  O elenco é ótimo: Caco Ciocler (César Camargo Mariano), Gustavo Machado (Ronaldo Bôscoli), Lúcio Mauro Filho (Miéle), Júlio Andrade (Lennie Dale), Rodrigo Pandolfo (Nelson Motta) e César Trancoso (Marcos Lázaro). Para quem passou dos 60, viveu aquela época e acompanhou a trajetória de Elis, o filme é pura emoção. Simplesmente imperdível!       



“UMA VIAGEM INFERNAL” (“HEATSTROKE”), “2013, EUA, roteiro e direção de Evelyn Purcell. A história: Paul (Stephen Dorff), um biólogo, zoólogo e professor norte-americano, planeja uma viagem à África do Sul para estudar o comportamento das hienas. Ele pretende levar apenas sua namorada Tally (Svetlana Metkina), mas acaba sendo obrigado a carregar na bagagem a “mala” Josie (Maisie Williams, de “Game of Thrones”), sua filha adolescente. Eles chegam a um acampamento instalado no deserto e, sem querer, descobrem a existência de um grupo de mercenários envolvido com o tráfico de armas. Paul é assassinado pelos bandidos, que agora vão atrás de Tally e de Josie. Até o desfecho, esta perseguição preencherá toda a ação. O filme é muito fraco, o suspense é mínimo e a atuação do elenco é, no mínimo, constrangedora. O roteiro tem tantos furos que mais parece um queijo suíço. O ator Stephen Dorff, que já fez bons filmes como, por exemplo, “Um Lugar Qualquer” (2010), dirigido por Sofia Coppola, há tempos atua no elenco Série B de Hollywood e não duvido que já esteja na Série C depois de “Uma Viagem Infernal”. Posso estar enganado, mas o filme foi feito para alavancar a carreira cinematográfica da atriz russa Svetlana Metkina. Se esta era realmente a intenção, tudo foi por água abaixo, pois ela nunca mais fez nenhum filme. O papel de vilão sobrou para o ator Peter Stormare. Enfim, mais uma bobagem descartável.