sexta-feira, 1 de abril de 2016

“ONDULAÇÃO” (“Curling”), 2010, Canadá, é um drama centralizado no relacionamento de Jean-François (Emmanuel Bilodeau) com a filha de 12 anos, Julyvonne (Philomène Bilodeau, filha de Emmanuel na vida real). Eles vivem em Saint-Hilaire, cidade ao sul de Montreal, cujos cenários são de um frio gélido, em meio a muita neve. Emmanuel é um homem solitário, tímido, superprotetor com relação à filha, a ponto de não deixá-la ir para a escola. Sozinha, sem amigos, a adolescente tem como única distração caminhar pelas redondezas de sua casa, na frente da qual passa uma estrada. Até que um dia ela encontra alguns cadáveres num bosque. Será com eles que Julyvonne, finalmente, interagirá socialmente. Coisa de louco. Coisa do diretor canadense Denis Côté (do esquisito “Vic + Flo Viram um Urso”), que também escreveu o roteiro. Aliás, Côté destaca no filme várias cenas mostrando partidas de “Curling” (título original do filme), aquele esporte praticado numa pista de gelo e que consiste no deslizamento de uma pedra de granito, cujo trajeto é acompanhado por “varredores”, que tentam impulsionar ou deter a pedra. No geral, o filme é altamente depressivo e, por isso mesmo, passa longe de um entretenimento agradável.            

segunda-feira, 28 de março de 2016

Se você tem a intenção de assistir ao drama húngaro “O CAVALO DE TURIM” (“A Torinói Ló”), 2011, arme-se primeiro de uma enorme – melhor, de uma descomunal – dose de paciência. Altamente depressivo e monótono, o filme, rodado em preto e branco, tem como ponto de partida, segundo a sinopse oficial, um fato que teria acontecido no dia 3 de janeiro de 1889, em Turim (Itália), quando o filósofo Friedrich Nietzsche evitou que um cavalo continuasse a ser chicoteado pelo dono. Nada disso aparece no filme. Ainda segundo a sinopse, a ideia do filme é justamente mostrar o que teria acontecido com o animal depois do seu encontro com Nietzsche. Venhamos e convenhamos, tudo muito esquisito. Na verdade, o filme se concentra no cotidiano de um velho fazendeiro pobre e sua filha. A rotina dos dois ocupa praticamente as duas horas e meia da produção. A filha levanta, veste um monte de roupas. Depois, veste o pai com um monte de roupas, vai até o poço buscar água, leva feno para o cavalo, cozinha duas batatas para o almoço etc. O diretor Béla Tarr repete todas essas atividades cotidianas em cada um dos seis dias em que o filme é dividido. Enquanto isso, fora da casa uma tempestade de vento não para nunca. Quase não há diálogos e as cenas são longas demais, deixando o filme ainda mais modorrento. Pai e filha esbanjam infelicidade e é impossível não se contaminar pelo clima depressivo. Apesar de tudo isso, foi o vencedor do Urso de Prata – Grande Prêmio do Festival de Berlim 2011 e ainda foi indicado para representar a Hungria na disputa do Oscar 2012 de Melhor Filme Estrangeiro. Assista e tire suas próprias conclusões.  
Cercado de enorme polêmica, chega até nós, finalmente, “CHATÔ, O REI DO BRASIL”, a tão aguardada cinebiografia de Assis Chateaubriand - fundador dos Diários Associados, Rádio e TV Tupi - baseada no livro de Fernando Morais. As filmagens começaram em 1995 e só foram concluídas em 2015. Nesse período, o diretor Guilherme Fontes foi julgado e acusado numa ação judicial de má utilização de verbas públicas, processo ainda em andamento na Justiça. As filmagens foram tão complicadas que várias cenas tiveram que ser refeitas anos depois. No filme, você poderá notar a atriz Leandra Leal novinha, ainda em início de carreira, e a aparição de atores que já morreram, como José Lewgoy e Walmor Chagas. Fontes realizou uma adaptação livre da obra de Fernando Morais. Como um músico de jazz, improvisou, fez quase uma versão onírica, com visual tropicalista. Exagerou na dose. O roteiro é um tanto confuso, com idas e vindas em flashbacks, além de muitas cenas contendo alucinações do personagem principal, confundindo o espectador com relação à compreensão do que é real ou imaginário. O elenco é ótimo, assim como a recriação de época, os cenários, a fotografia. Mas o resultado final não foi aquele que se esperava depois de tanta polêmica. O livro retrata melhor quem foi realmente Assis Chateaubriand. Ou seja, o livro é bem melhor...  

sexta-feira, 25 de março de 2016

No começo de 2005, a jovem holandesa Sophie Van Der Stap descobriu que tinha um tumor na pleura, inoperável e agressivo. A partir daí, ao invés de entrar em depressão ou se entregar, ela resolveu enfrentar a doença começando por escrever um diário. Essas memórias, inicialmente divulgadas através de um blog, se transformaram num livro de grande sucesso e foram adaptadas para o cinema em 2013, resultando no drama “A GAROTA DAS NOVE PERUCAS” (“Hente Bin ich Blond”), Alemanha/Bélgica, direção de Marc Rothemund (“Uma Mulher contra Hitler”). A história mostra a trajetória de Sophie (Lisa Tomaschewsky) desde ochoque da descoberta da doença, o desespero da família e as diversas fases do tratamento, incluindo as sessões de quimioterapia e radioterapia. Tudo de forma quase didática. Também como forma de amenizar o seu sofrimento, Sophie compra nove perucas (daí o título), cada uma diferente da outra. Ela chega a dar nome às perucas (Daisy, Platina, Stela, Blondie etc.) e quando as usa assume uma personalidade diferente. E, nesse contexto, impossível não destacar o excelente desempenho da atriz alemã Lisa Tomaschewsky, num primor de interpretação. Apesar do pano de fundo trágico, o roteiro abre espaço para o humor e o romance, além de momentos comoventes. Sem dúvida, um filme muito interessante que vale ser conferido. 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Representante oficial da Islândia na disputa de “Melhor Filme Estrangeiro” no Oscar 2016, “A OVELHA NEGRA” (“Hrútar”), direção de Grímur Hákonarson, reúne momentos de puro drama, outros de humor e ainda outros bastante comoventes. Ambientada numa região do interior da Islândia habitada por fazendeiros criadores de ovelhas (na Islândia, existem 800 mil ovelhas, enquanto a população não passa de 320 mil habitantes), a história é centrada em dois irmãos vizinhos que não se falam há 40 anos, Gummi (Sigurour Sigurjónsson) e Loddi (Theodór Júlíusson). Depois de perder o concurso anual de ovelhas justamente para o irmão Loddi, Gummi fica inconformado e vai, secretamente, avaliar a ovelha vencedora, quando desconfia que o animal está com “scrapie”, uma doença contagiosa. As autoridades de saúde da região confirmam a doença e exigem que todos os animais sejam sacrificados. Diante da trágica situação, Gummi ainda tentará manter o seu rebanho. Apesar do contexto dramático, há espaço para o humor, principalmente no que se refere às atitudes dos irmãos rabugentos, que só se comunicam por bilhetes, levados pelo cachorro de Gummi. A cena final é das mais tocantes e comoventes, de arrancar lágrimas. A simplicidade da história talvez seja o maior trunfo do filme, vencedor da Mostra “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes e exibido por aqui durante a programação da 39ª edição do Festival Internacional de Cinema de São Paulo.

terça-feira, 22 de março de 2016

O drama histórico finlandês “LÁGRIMAS DE ABRIL” (“Käsky”), 2008, direção de Aku Louhimies, utiliza como pano de fundo a guerra civil de 1918 na Finlândia, que matou 37 mil civis e combatentes. O conflito colocou frente à frente os Vermelhos (social-democratas apoiados pela Rússia) e os Brancos (de direita, apoiados pelo Império Alemão). O filme conta a história de um episódio relatado no livro da escritora Leena Lander. Os Brancos prendem um pelotão constituído por 2.000 mulheres que lutavam pelos Vermelhos. Todas foram fuziladas e apenas uma sobreviveu, Miina Malin (a bela Pihla Viitala). Aaro Harjula (Samuel Vauramo), soldado dos Brancos, se sensibiliza com a situação da prisioneira e resolve assumir a responsabilidade de levá-la para julgamento na Corte Marcial. A história, a partir daí, destaca o relacionamento de Miina e Aaro durante a viagem, culminando com a fase de julgamento, a cargo do juiz Emil Allenberg (Eero Aho, em brilhante atuação). Exibido em duas ocasiões na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2009 e 2015), o filme finlandês é muito bom, alternando ação, suspense e romance, além de uma fotografia esplendorosa. Mais do que isso, relembra um fato histórico pouco conhecido por aqui.  

segunda-feira, 21 de março de 2016

“DIPLOMACIA” (“Diplomatie”), 2015, co-produção França/Alemanha, com direção do alemão Volker Schlöndorff (“O Tambor”). Quando as forças aliadas estavam às portas de Paris, em agosto de 1944, Hitler deu ordem ao General Dietrich Von Cholitz de destruir a cidade, dinamitando o Louvre, as pontes do Rio Sena, a Torre Eiffel, a Igreja de Notre Dame e outros monumentos históricos. Aí entra em cena Raoul Nordling, Cônsul Geral da Suécia, para tentar convencer Cholitz a não obedecer à ordem do líder nazista. Esta é uma história de ficção, criada pelo dramaturgo e roteirista Cyril Geily para ser encenada como uma peça de teatro, o que de fato ocorreu em 2011, com a mesma dupla de atores do filme, Andre Dussollier (Nordling) e Niels Arestrup (Von Cholitz). Embora a ação se desenvolva praticamente dentro de uma sala de hotel (Meurice), com os protagonistas dialogando o tempo inteiro, o filme em nenhum momento fica monótono ou cansativo. Os argumentos utilizados pelo cônsul sueco para convencer o oficial alemão representam uma verdadeira declaração de amor a Paris. Por seu lado, Cholitz defende sua posição de subserviente, pois um soldado deve sempre obedecer às ordens dos seus superiores. Os diálogos são muito interessantes, de muita erudição. Mas o destaque mesmo é o desempenho da dupla de atores, Dussollier (dos filmes de Alain Resnais) e Arestrup ("O Profeta"), dois monstros sagrados da arte cênica francesa. O filme ganhou o César (Oscar francês) de Melhor Roteiro Adaptado. Imperdível!               

sábado, 19 de março de 2016

“O MAJOR” (“MAЙOP”), 2013, Rússia, escrito e dirigido por Yuri Bykov, é um thriller policial forte e tenso, cuja história revela a podridão moral e ética de policiais que querem ver longe a justiça quando a mesma pode atingir um de seus colegas. O chamado corporativismo que a gente conhece muito bem. O major Sergey Sobolev (Denis Shevod) sai em alta velocidade pela estrada depois que o avisam que a esposa entrara em trabalho de parto e estava num hospital. No meio do caminho, ele atropela e mata um garoto, sendo que a única testemunha é a mãe da vítima, Irina Gutorova (Irina Nizina). O atropelador liga para um colega, o policial Pasha (papel do diretor Bykov), e pede ajuda, pois teme ser acusado e preso. A partir daí, os policiais criam estratégias para livrar Sobolev de um processo, o que inclui apagar qualquer vestígio de culpa. O pai e a mãe do garoto querem que a justiça seja feita e, por isso, sofrerão as consequências. O filme é ambientado em qualquer cidade do interior da Rússia, num cenário desolador e gélido de inverno, o que amplifica ainda mais o clima pesado que predomina do começo ao fim. O filme é interessante por ser russo, mas a história não difere de tantas outras que já vimos em outras línguas.            

sexta-feira, 18 de março de 2016

“PAIS E FILHAS” (“Fathers & Daughters”), EUA, 2015, direção do italiano Gabrielle Muccino (“À Procura da Felicidade” e “Sete Vidas”). O elenco é ótimo: Russell Crowe, Amanda Seyfried, Diane Kruger, Aaron Paul, Jane Fonda, Octavia Spencer e Bruce Greenwood. Mas o filme... Trata-se de um drama, praticamente dividido em duas partes. Na primeira, o escritor e vencedor do Prêmio Pulitzer Jake Davis (Crowe) vive um momento difícil após a morte da esposa num acidente. Jake tenta criar a filha Katie (Killie Rogers) de 5 anos, da melhor maneira possível, ao mesmo tempo em que precisa de tempo para escrever mais um livro, pois o dinheiro anda curto. Para piorar, ele começa a sofrer de um tipo de doença neurológica que o faz ter ataques parecidos com quem sofre de epilepsia. A cunhada Elizabeth (Diane Kruger), irmã da falecida, e o cunhado William (Bruce Greenwood), um casal de ricaços, quer a guarda da menina. Essa é uma parte da história. O filme salta vinte anos e aí começa a segunda parte, que acompanha a trajetória de Katie adulta (Amanda Seyfried), seu trabalho como psicóloga de crianças problemáticas, seu vício em sexo e as lembranças do pai, naquela altura do campeonato debaixo de sete palmos. O grandalhão Russel Crowe não combina com o personagem do escritor. Diane Kruger está irreconhecível e as cenas que mostram o romance conturbado de Katie com Cameron (Aaron Paul) são constrangedoras, com diálogos que fariam vergonha a qualquer novelão mexicano... Muccino tentou fazer um filme para arrancar lágrimas, mas nem isso conseguiu.         

segunda-feira, 14 de março de 2016

“TUDO VAI FICAR BEM” (“Every Thing Will be Fine”), 2014, co-produção Alemanha-Canadá e direção do alemão Wim Wenders (“Asas do Desejo”, “Paris, Texas”), é um drama pesado e depressivo. Tudo começa quando o escritor Tomas Eldan (James Franco), em crise existencial e conjugal, se isola nos cafundós gelados do Canadá para tentar recuperar a criatividade perdida. No meio desse processo, ele acidentalmente atropela e mata um garoto que brincava de trenó com o irmão. A tragédia abala não só a mãe do garoto, Kate (Charlotte Gainsbourg), assim como também o escritor, traumatizado e se sentindo culpado pelo atropelamento. A história se desenrola por mais 11 anos, período em que Eldan se separa da primeira esposa, Sara (Rachel McAdams), e já está com a segunda, Ann (Maria-Josée Croze). Acontece que depois do acidente fatal, Eldan volta a ser criativo e consegue emplacar vários livros de sucesso, recebendo prêmios e elogios dos críticos literários. Ficou rico. Quando tudo parece ir às mil maravilhas, surge no cenário um rapaz de 16 anos chamado Christopher, que nada mais é do que o irmão do menino atropelado por Eldan há 11 anos. O garoto é fã incondicional de Eldan, do qual já leu todos os livros. O escritor terá de se confrontar com Christopher e com o trauma que parecia ter esquecido. Um certo suspense predomina na parte final do filme, cujo desfecho só pode ser explicado por algum psicólogo. O filme teve a sua exibição de estreia, fora de competição, no Festival de Berlim/2015. Confesso que nunca fui muito fã de Wenders, e se depender deste último filme, continuarei não sendo.   
O gênero policial nunca teve grande destaque na vasta filmografia do veterano diretor francês Claude Lelouch (“Um Homem, Uma Mulher”, “Retratos da Vida”, “Os Miseráveis”). Em 2007, porém, Lelouch escreveu e dirigiu um ótimo filme policial: “CRIMES DE AUTOR” (“Roman de Gare”). A trama é inteligente, bem elaborada, com doses de suspense e humor na medida certa, com direito a uma reviravolta bastante surpreendente no final. O enredo reúne uma escritora de sucesso, Judith Ralitzer (Fanny Ardant), um repórter “ghost-writer”, Pierre Laclos (Dominique Pinon), e uma cabeleireira estressada e neurótica, Huguette (Audrey Dana), abandonada pelo noivo num posto de estrada. Lelouche teve o mérito de desenvolver a história até o seu desfecho com poucos personagens e criando situações que se desenrolam num clima que garante o suspense até o final. Outro mérito de Lelouch diz respeito ao elenco, encabeçado pela diva Fanny Ardant, ainda no auge da beleza. O desempenho hilariante da atriz Audrey Dana (hoje também diretora) é outro destaque, assim como a atuação de Dominique Pinon, ator-fetiche daqueles filmes esquisitos do diretor Jean-Pierre Jeunet. Quando estreou no Festival de Cannes, o filme não foi muito bem recebido pela Crítica. Mas eu recomendo, pois é criativo e muito interessante, além de ter a assinatura de um grande diretor.  

sexta-feira, 11 de março de 2016

O drama independente “THE GIRL IN THE BOOK”, 2015, EUA, escrito e dirigido por Marya Cohn, conta a história de Alice (Emily VanCamp), uma assistente editorial que há muito tempo é aspirante a escritora. Aos 29 anos, não tem um par fixo. Quando sai à noite, sempre acaba com um cara diferente na cama. Até que um dia aparece na sua editora o escritor Milan Daneker (o ator sueco Michael Nyqvist, da série original “Millennium”). Ao rever Milan, Alice passa a relembrar alguns fatos do passado, quando era apenas uma adolescente (papel de Ana Mulvoy-Ten). Alice relembra, por exemplo, como seu pai (Michael Cristofer), um renomado e prepotente agente literário, não media consequências para conseguir representar um escritor, no caso, Milan, o que incluía praticamente “oferecer” a filha ao escritor. Aliás, a atriz inglesa Ana Mulvoy-Ten, como a “Lolita” do filme, certamente faria inveja à original de Nabokov. Uma graça (embora na vida real tenha 23 anos de idade). O filme até que se desenvolve bem, mesmo alternando muitos flashbacks, e seu principal mérito é revelar a sujeira que rola nos bastidores do mundo editorial de livros.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A comédia política “ESPECIALISTA EM CRISE” (“Our Brand is Crisis”), EUA, 2015, direção de David Gordon Green, deixa bem claro que nem sempre o vilão da história é o candidato, e sim seu consultor político, ou, como chamam no Brasil, “marqueteiro” – João Santana e Duda Mendonça são exemplos. Esses profissionais, muitas vezes, são os responsáveis pela criação de acusações falsas contra adversários e promessas mentirosas de campanha. No filme, a consultora política é Jane Bodine (Sandra Bullock), que decidira se aposentar após quatro derrotas seguidas de seus candidatos. Apelidada de “Jane Calamidade”, ela volta ao cenário para tentar eleger um candidato à presidência da Bolívia, o senador Pedro Castillo (o ator português Joaquim de Almeida), último nas pesquisas a apenas dois meses das eleições. No país sul-americano, Bodine cruza com um antigo inimigo de profissão, o consultor Pat Candy (Billy Bob Thornton), responsável pela consultoria política ao candidato líder das pesquisas. A briga promete ser boa. Apesar da presença de Bullock e de Thornton (dois bons atores), o filme é muito fraco e contém cenas constrangedoras e dispensáveis, como aquelas em que a marqueteira sai à noite para beber e dançar com três jovens bolivianos da periferia. Cenas descartáveis como o próprio filme. Só para ilustrar, George Clooney é um produtores do filme, assim como Bullock. 

terça-feira, 8 de março de 2016

“STRATOS” (“MIKRO PSARI”), Grécia, 2013, é um drama policial pesado, sinistro, esquisito e, principalmente, muito desagradável de assistir. Segundo o diretor Yannis Economides, trata-se de “um filme noir mediterrâneo”. De qualquer forma, o filme é bastante interessante pela maneira como foi concebido. Stratos (Vangelis Mourikis) é um ex-presidiário que trabalha como assassino de aluguel para pagar uma dívida a um chefão do crime organizado, Leônidas (Alekos Pangalos), que o salvou da morte na cadeia. Para pagar a tal dívida, Stratos se associa a Yorgos (Yannis Tsortekis), irmão de Leônidas, para criar e executar um plano de fuga, o que inclui a construção de um túnel subterrâneo. Com o objetivo de conseguir dinheiro para financiar o plano, Stratos vira um assassino de aluguel e, de madrugada, trabalha na confecção de massas numa padaria. Enredo meio estranho, não? É sim, e o personagem Stratos é mais estranho ainda. Quase não fala, tem o olhar vazio e frio, não esboça reação a nenhum tipo de provocação. Parece um autômato. Na hora de matar, porém, age com muita competência e uma frieza polar. Nesse ponto, cabe destacar a ótima interpretação do ator Vangelis Mourikis. O desfecho apresenta uma reviravolta surpreendente. O filme não é para iniciantes, ou seja, é difícil de aturar, ainda mais pelos seus longos 137 minutos de duração. Na sua sessão de estreia, durante a competição oficial do Festival de Berlim/2014, muita gente abandonou a plateia na metade do filme. Concordo que o filme não é muito fácil de digerir, mas tem muitos méritos, como a história em si, o roteiro bem estruturado, um ótimo elenco e uma incrível fotografia.   

quarta-feira, 2 de março de 2016

O ótimo drama de guerra “SUÍTE FRANCESA” (“Suite Française”), 2014, Reino Unido, é inspirado no livro homônimo da escritora ucraniana Irène Némirovsky. A história, ambientada na cidade francesa de Bussy durante a Segunda Guerra Mundial, é centrada na jovem Lucile Angellier (Michelle Williams), que mora com a sogra, Madame Angellier (Kristin Scott Thomas), enquanto espera o marido voltar da guerra. Enquanto isso, a cidade é dominada por um regimento de nazistas, cujos oficiais exigem ser acomodados nas melhores casas. Numa delas, justamente a de Madame Angellier, é hospedado Bruno Von Falk (o ator belga Matthias Schoenaertes), um oficial refinado que toca piano e compõe – a “Suíte Francesa”, que dá nome ao título do filme, é uma de suas composições. Como era de se prever, o clima fica quente entre o alemão e Lucile, o que vai ocasionar várias situações de risco. O filme é muito bem dirigido por Saul Dibb (“A Duquesa”) e conta com um ótimo elenco de apoio, incluindo o ator francês Lambert Wilson, Margot Robbie, Sam Riley e Ruth Wilson. Embora não prejudique o resultado final, fica estranho um filme ambientado no interior da França ser falado em inglês. Curiosidade: Irène Némirovsky morreu no Campo de Auschwitz em 1942 e “Suite Française” só foi publicado em 2004, depois que sua filha Denise encontrou o romance entre os manuscritos deixados pela escritora.

terça-feira, 1 de março de 2016

“BATALON”, 2015, direção de Dimitriy Meskhiev, é um drama de guerra russo baseado em fatos reais. Ambientado em 1917, conta a história da participação de um batalhão de mulheres no front da Primeira Guerra Mundial contra os alemães. O grupo foi formado e autorizado por ordem do então Ministro da Guerra Alexander Kerensky como uma estratégia para motivar o exército masculino, então em fase de dissolução por causa da guerra civil provocada pela Revolução Russa. O batalhão de mulheres ficou conhecido como “O Batalhão da Morte”, pois havia poucas chances delas voltarem vivas. E, como o filme deixa bem claro, elas sabiam disso, mas mostraram muita coragem ao assumir o risco. O comando desse grupo ficou a cargo da oficial Maria Bochkareva (Mariya Aronova), uma mulher que, antes de ingressar no exército, apanhava do marido. No comando do grupo, porém, ela se destacou como uma voz que se fazia ouvir e respeitar, mas que tinha lá seus momentos de ternura. Interpretada por uma ótima atriz, é a personagem mais interessante do filme, lembrando que a verdadeira Maria Bochkareva foi consagrada como heroína nacional, motivando a formação de outros batalhões femininos, o que se tornou prática normal no exército russo a partir de então. Filme interessante por contar uma história pouco conhecida da Primeira Guerra Mundial.
“A SAPIÊNCIA” (“La Sapienza”), 2014, França, roteiro e direção de Eugène Green, nascido nos EUA e naturalizado francês. No dicionário, “Sapiência” quer dizer “Sabedoria”. Mas, para suportar os 104 minutos desse filme, é preciso ter não apenas  Sapiência, e sim uma dose extra de Paciência. O filme acompanha a crise existencial e de criatividade do renomado arquiteto francês Alexandre Schmid (Fabrizio Rongione). A situação começa a interferir no seu casamento com Aliénor (Cristelle Prot). Alexandre resolve fazer uma viagem de estudos à Itália e leva a esposa. Seu objetivo é se aprofundar na obra de dois mestres do Barroco, Francesco Borromini e Gian Lorenzo Bernini. Na pequena cidade de Stresa, o casal conhece os jovens irmãos Lavínia (Arianna Nastro) e Goffredo (Ludovico Succio). Alexandre convida Goffredo para acompanhá-lo a Roma, enquanto Aliénor fica em Stresa com Lavínia. Quando estão em cena, Alexandre e Goffredo dedicam-se a discutir a Arquitetura Clássica italiana, ao mesmo tempo em que as imagens mostram detalhes das obras de Borromini e Bernini, datadas do Século XVII - o diretor filma de forma didática, como se preparasse slides para uma aula de Arquitetura (as imagens, aliás, são muito bonitas). As cenas são alternadas com os passeios de Aliénor e Lavínia, cujos diálogos têm como tema a importância do Amor na vida das pessoas. Viu como é preciso Paciência para chegar até o final do filme? Recomendo apenas para o pessoal que está estudando ou é ligado à Arquitetura. E também para quem sofre de insônia... De qualquer forma, vale acrescentar que o filme foi selecionado para exibição, durante 2014, nos Festivais de Locarno, Vancouver, Toronto, Londres e Nova Iorque.   

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

“MULHER DE OURO” (“Woman in Gold”), 2015, EUA/Inglaterra, direção de Simon Curtis (“Sete Dias com Marilyn”), conta a história incrível e verídica de uma mulher austríaca, Maria Altmann (Helen Mirren, e, quando jovem, Tatiana Maslany), que fugiu dos nazistas no início da Segunda Guerra Mundial e foi morar em Los Angeles. Seus familiares acabaram mortos nos campos de concentração na Europa. Quase sessenta anos depois, ela resolve tentar recuperar as obras de arte roubadas de sua casa em Viena pelos alemães, principalmente o quadro “Retrato de Adele Bloch-Bauer”, de Gustav Klimt, que há anos estava exposto na famosa Galeria Belvedere de Viena. Adele, a modelo do quadro, era a tia preferida de Maria. Para iniciar o processo judicial, Maria recorre ao jovem advogado Randol Schoenberg (Ryan Reynolds), ele mesmo nascido na Áustria e neto do famoso compositor. Mesmo com pouca experiência, Randol assume o caso e resolve enfrentar o governo austríaco nos tribunais. A relação entre Randol e Maria e o desenrolar da batalha jurídica – cujo final não conto –, além de flashes da família Altmann nas primeiras décadas do século 20, dão força ao excelente roteiro escrito pelo dramaturgo Alexi Kaye Campbell.  Mais uma vez é Helen Mirren quem domina as cenas, comprovando porque é uma das melhores atrizes da atualidade. Além dela e de Ryan Reynolds, estão no elenco Daniel Brühl, Katie Holmes (a ex de Tom Cruise), Elizabeth McGovern e Jonathan Price.         

domingo, 28 de fevereiro de 2016

O direito ao voto (sufrágio) foi uma das conquistas mais árduas das mulheres. Entre fins do Século XIX e princípio do Século XX, elas batalharam em vários países do mundo para conseguir exercer o direito que, até então, era somente dos homens. No caso do drama histórico inglês “AS SUFRAGISTAS” (“Suffragette”), 2015, direção de Sarah Gavron, a história é ambientada na Inglaterra e mostra como foi que as mulheres conseguiram conquistar o direito de votar naquele país. O enredo é centralizado na jovem Maud Watts (Carey Mulligan), que desde os 7 anos de idade trabalhava numa grande lavanderia de Londres, onde os trabalhadores –  principalmente as trabalhadoras - eram explorados sem qualquer escrúpulo, a começar pelo salário irrisório. Incentivada por Edith Ellyon (Helena Bonham Carter), proprietária de uma farmácia que servia de local para as reuniões clandestinas do grupo de mulheres, Maud ingressa no movimento, contrariando seu marido e seus chefes na lavanderia. Maud participa das manifestações, apanha da polícia e acaba presa diversas vezes. A luta dessas mulheres ganha corpo com a presença, em Londres, da fundadora do movimento britânico do sufragismo, Emmeline Pankhurst (Meryl Streep). Aliás, a grande Meryl Streep aparece muito pouco, apenas uma ponta. O filme é muito bom não apenas pela história em si, mas também pelo esmero na recriação de época, figurinos e cenários. Uma grande produção que merece ser conferida (Espere os créditos finais, antes dos quais são relacionados inúmeros países – inclusive o Brasil - e as respectivas datas em que o voto foi liberado para as mulheres).

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O veterano diretor inglês Ken Loach é um dos cineastas mais politizados em atividade. À sua vasta filmografia de filmes políticos ele acrescentou, em 2014, "O SALÃO DE JIMMY" (“JIMMY’S HALL”), cuja história, baseada em fatos reais, é ambientada na Irlanda no início dos anos 30. O personagem principal é Jimmy Gralton (Barry Ward), o mais conhecido líder comunista irlandês. Nascido em Leitrim, na Irlanda, Jimmy fugiu para Nova Iorque para não ser preso por suas atividades políticas. Dez anos depois volta para a sua terra natal e é recebido como herói. Ele reinaugura um centro cultural e recreativo onde as pessoas podem ter aulas de dança, literatura, artes plásticas e discutir livremente temas políticos. Nos finais de semana, o local é utilizado pela população da cidade para dançar. Para o líder religioso da cidade, padre Sheridan (o ótimo Jim Norton), o centro de Jimmy é um local de perversão, principalmente por permitir que as pessoas dancem “um tal de jazz”,  ritmo considerado profano. Incitados pelo padre Sheridan, os conservadores partem para o enfrentamento contra a turma de Jimmy e aí começa uma perseguição implacável. O filme é ótimo, valorizando ainda mais a filmografia do cineasta inglês, da qual recomendo “Terra e Liberdade”, “Ventos da Liberdade”, “Pão e Rosas”, “Rota Irlandesa” e “A Parte dos Anjos”.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O drama cubano “NUMA ESCOLA DE HAVANA” (“Conducta”), 2014, é uma daquelas pérolas que de repente o cinema nos presenteia. Embora tenha patrocínio do Ministério da Cultura daquele país, não faz nenhuma propaganda do regime e muito menos esconde o lado pobre de Havana. A história é centrada no menino Chala (Armando Valdes Freire), de 11 anos. Filho de uma drogada, Sonia (Yuliet Cruz), Chala se vê responsável pelo dinheiro da casa. Cria pombos para vender e possui quatro cães treinados para lutar nas rinhas. No colégio, Chala é uma pedra no sapato dos professores, que a toda hora querem enviá-lo para um internato. A única que consegue dominá-lo é a veterana professora Carmela (Alina Rodriguez), por quem o garoto tem muito respeito e até uma grande dose de carinho. A amizade de Carmela e Chala rende os momentos mais sensíveis e comoventes do filme – para provocar umas lágrimas a mais, lembro que a atriz faleceu em julho de 2015, aos 63 anos. É o terceiro longa do diretor cubano Ernesto Daranos Serrano. Ganhou o Festival de Cinema de Havana e foi indicado para ser o representante oficial de Cuba na disputa do Oscar/2015 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Produção simples, mas de muita qualidade. Não perca! 
Fazia tempo que eu não assistia a um filme com uma força dramática tão grande. Trata-se de “MOMMY”, 2014, Canadá, escrito e dirigido pelo jovem (26 anos) e cultuado diretor canadense Xavier Dolan (“Eu Matei a Minha Mãe” e “Amores Imaginários”). Também fazia tempo que não via uma atuação tão espetacular como a da atriz Anne Dorval. Ela interpreta Diane Després, uma viúva emocionalmente descontrolada e afogada em dívidas que um dia é obrigada a acolher o filho Steve (Antoine Olivier Pilon), de 15 anos, expulso de um reformatório após incendiar a cafeteria e causar ferimentos em várias pessoas. Steve, por conta de sua hiperatividade e seu déficit de atenção, é agressivo, rebelde e violento, à beira da psicopatia. Para piorar, ele se recusa a tomar os remédios receitados. De vez em quando, ele entra numa banheira cheia de gelo para tentar se acalmar. Ele trata a mãe aos gritos, além de tapas e bordoadas. A frase mais carinhosa dita por ele em relação à mãe é “Sua vadia”. Essa relação de amor e ódio chega aos extremos da gritaria e discussões histéricas. Impossível não ficar incomodado na poltrona. A situação dá uma amenizada quando a vizinha Kyla (Suzanne Clément), outra mulher problemática, passa a frequentar a casa de Diane. Mas não resolve o problema e tudo parece caminhar para um desfecho trágico. O filme é ótimo, mas o maior destaque é, sem dúvida, a atuação incrível de Anne Dorval, a mãe. Seria injusto não destacar também as ótimas atuações do jovem ator Antoine Olivier Pilon e da veterana Suzanne Clément. “Mommy” ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2014, além de ter sido indicado para disputar o Oscar/2015 de Melhor Filme Estrangeiro. Imperdível!