segunda-feira, 13 de janeiro de 2020


Sou fã de carteirinha de Woody Allen desde que utilizava a mesma para pagar meia-entrada como estudante. E faz tempo – década de 60. São mais de 50 anos curtindo os filmes de Allen. Todo ano ele lança um, seja escrevendo, dirigindo ou também atuando, e não perdi nenhum. Ele sempre foi um dos meus diretores preferidos, ao lado de Scola, Fellini, Tornatori, Scorcese e Monicelli. Hoje, aos 84 anos, Allen continua em pleno vigor criativo e artístico, como comprova seu filme mais recente, “UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK” (“A RAINY DAY IN NEW YORK"), que escreveu e dirigiu, mas não atuou. Nele, Allen conta a história das peripécias dos namorados Gatsby (Timothée Challamet) e Ashleigh Enright (Elle Fanning) em Nova York. Fanning escreve para o jornal da faculdade e seu objetivo na Big Apple é entrevistar o diretor de cinema Roland Pollard (Liev Schreiber). O combinado é que depois da entrevista Gatsby levará Ashleigh para um passeio noturno na cidade, incluindo jantar, piano ao vivo e um giro de charrete pelo Central Park. Só que o esperado programa dá muito errado, já que Ashleigh ainda consegue uma entrevista exclusiva com o famoso roteirista Ted Davidoff (Jude Law) e ainda com o ator latino Francisco Vega (Diego Luna), o galã do momento em Hollywood. Enquanto isso, Gatsby fica desesperado por não conseguir falar com a namorada e, passeando solitário pela cidade, reencontra casualmente Shannon Tyrell (Selena Gomez), a irmã mais nova de uma antiga namorada. Além disso, ainda vai a uma festa da sua família com uma garota de programa. E por aí vai a história, com muitos encontros e desencontros, com o habitual humor de Allen, repleto de diálogos e situações inteligentes e hilariantes. Como o título já entrega, Nova York é filmada debaixo de uma chuva incessante, mas em nenhum momento perde seu charme, principalmente graças à bela fotografia do consagrado mestre italiano Vittorio Storaro. Mais um saboroso filme com a assinatura de Woody Allen e, portanto, imperdível!   

sábado, 11 de janeiro de 2020


Bruce Willis continua duro de matar, mas seus últimos filmes são duros de aguentar, de engolir, de assistir. Em quase todos eles Willis aparece pouco, mas seu nome surge sempre em destaque nos materiais de divulgação, como se ele fosse o protagonista principal. Além do mais, Willis está nitidamente sem fôlego para atuar em filmes de ação. Fora que nunca foi um bom ator e agora piorou muito. Se alguém tiver alguma dúvida a respeito de tudo isso que escrevi, assista ao recente suspense policial “CENTRO DO TRAUMA” (“TRAUMA CENTER”), 2019, EUA, 1h26m, direção do cineasta iraniano radicado na América Matt Eskandari, com roteiro de Paul J. Da Silva. A história toda gira em torno de Madison Taylor (Nicky Whelan), que por um azar acaba testemunhando o assassinato de um policial. Embora não possa identificar os dois atiradores, ela recebeu um tiro na perna e a bala pode denunciar a quem pertence o revólver do assassino. Os dois vilões conseguem descobrir que Madison está internada num hospital. Como também são policiais – da Narcóticos -, acabam tendo livre acesso às dependências do hospital. Seu objetivo é retirar a bala da perna da moça. Enquanto isso, nada de Willis, cujo personagem é o tenente Steve Swake. Por um bom tempo, Madison consegue fugir dos vilões até a chegada da cavalaria, ou seja, o pangaré Willis. A ação transcorre à noite, o hospital no maior silêncio, enquanto em alguns andares Madison tenta se esconder dos bandidos. Muito barulho, inclusive tiros, mas nada chama a atenção nem dos seguranças do hospital e muito menos dos médicos e enfermeiras. Tenha dó! Os atores Tito Ortiz e Texas Battle, os vilões, são tão medíocres que chegam a ser cômicos. Posso apontar como únicos destaques a presença da bela atriz australiana Nicky Whelan e a aparição do ator Steve Guttenberg, que andava sumido das telas – pelo menos faz tempo que não o vejo. “Centro do Trauma” é um enorme abacaxi, daqueles que vem com a Carmem Miranda pendurada. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020


“A CAMAREIRA” (“LA CAMARISTA”), 2019, México, 1h42m, estreia no roteiro e direção da atriz Lila Avilés. O filme foi selecionado para representar o México na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro (o México ganhou no ano passado por “Roma”, de Alfonso Cuarón). “A Camareira” é um filme simples, intimista, mas muito sensível. Utiliza apenas um personagem principal e outros dois ou três coadjuvantes, tem poucos diálogos e o cenário é único: o interior de um hotel de luxo na cidade do México. Mesmo assim, em nenhum momento torna-se entediante. A história acompanha o cotidiano de trabalho de Eve (Gabriela Cartol, ótima), camareira dos apartamentos vips do 21º andar. O tempo inteiro, ela aparece arrumando lençóis, travesseiros, limpando os banheiros e a sujeira deixada pelos hóspedes. Mostra Eve tomando conta do bebê de uma cliente argentina (Agustina Quinci), auxiliando um senhor judeu ortodoxo a apertar os botões do elevador no sabá, além de suas conversas, na hora de descanso, com a colega Minitoy (Teresa Sánchez). Eve é mãe solteira e trabalha duro para sustentar seu filho e pagar uma babá. Ela quer melhorar de vida e, por isso, participa de um programa de educação para adultos promovido para os empregados do hotel. Suas jornadas de trabalho, recheadas de plantões extras, a afastam vários dias do seu filho, deixando-a frustrada e triste. Enfim, a história toda gira em torno de Eve, que aparece em cena a cada segundo de projeção. Ou seja, leva o filme nas costas, realizando um excelente desempenho, o que lhe valeu uma indicação ao Prêmio Ariel (o Oscar mexicano concedido pela Academia Mexicana de Artes e Ciências Cinematográficas) de Melhor Atriz. “A Camareira” ganhou o Prêmio Ariel como Melhor Filme de Estreia. Resumo da ópera: o filme é muito bom, bastante sensível e agradável de assistir.    

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020


“O PINTASSILGO” (“THE GOLDFINCH”), 2019, Estados Unidos, 2h29m, direção do cineasta irlandês John Crowley (“Brooklyn”). O filme estreou no Festival de Cinema de Toronto em setembro de 2019. A história foi adaptada pelo roteirista Peter Straughan do romance “The Goldfinch”, que deu à escritora Donna Tartt o Prêmio Pulitzer de 2014. O personagem principal é Theodore Decker (Cakes Fegley na adolescência e Ansel Elgort na fase adulta). Aos 13 anos, Theo foi com a mãe visitar o Museu Metropolitano de Arte da Nova Iorque. Durante a visita acontece um atentado à bomba que mata sua mãe e outras pessoas. Theo sobrevive e recolhe dos escombros o quadro “O Pintassilgo”, do pintor holandês Carel Fabritius (1622-1654), justamente aquele que ele admirava quando a bomba explodiu. Como seu pai sumiu do mapa há tempos, Theo não tinha onde morar e acabou sendo acolhido na casa da sra. Barbour (Nicole Kidman, com a aparência meio esquisita, talvez excesso de botox), mãe de seu colega de escola. E por aí vai a história, acompanhando a trajetória de Theo pela vida afora, incluindo a amizade com o dono de um antiquário, envolvimento com o tráfico de drogas, o noivado com uma moça da alta sociedade novaiorquina, o reencontro com o pai irresponsável em Las Vegas e até uma viagem para a Europa na tentativa de recuperar o quadro que estava de posse de um mafioso russo. Não deve ter sido fácil para o roteirista Peter Straughan condensar tanta informação e as inúmeras situações vividas por Theo e descritas nas 700 páginas do livro de Donna Tartt. Ou seja, muita coisa para contar em apenas 2h29m de projeção. O elenco conta ainda com Jeffrey Wright, Luke Wilson, Sarah Paulson, Willa Fitzgerald, Aneurin Barnard, Hailey Wist, Finn Wolfhard e Aimee Lawrence. Vale uma visita pela história e pelo excelente elenco.     

domingo, 5 de janeiro de 2020


“JT LEROY”, 2018, coprodução Estados Unidos/Canadá, 1h48m, roteiro e direção de Justin Kelly. Baseada em fatos reais, a história relembra um caso de grande repercussão ocorrido nos Estados Unidos em meados da primeira década deste século. Sob o pseudônimo de JT Leroy, a escritora independente Laura Albert escreveu, em 2000, o livro “Sarah”, que logo virou best-seller ao retratar a vida sofrida, tumultuada e chocante de Jeremiah “Terminator” Leroy (o pseudônimo JT Leroy, que assinava o livro), que todo mundo acreditava ser um personagem real. Em 2001, saiu um novo livro de Laura Albert, também como JT Leroy: “O Coração é Enganoso Acima de Todas as Coisas”. Mas, afinal, quem é o JT Leroy na vida real? A curiosidade mexeu com os meios literários, com a mídia e com os milhões de leitores pelo mundo inteiro. Até com Hollywood, que queria fazer um filme com JT Leroy. Laura Albert (Laura Dern), a autora verdadeira, teve a ideia de transformar sua cunhada Savannah Knoop (Kristen Stewart) no tal JT Leroy, uma falsa jogada de marketing que durou até 2005, quando uma reportagem do Jornal The New York Times revelou a farsa. Com seu tipo andrógeno, a atriz Kristen Stewart, que, como o personagem JT Leroy, também é bissexual na vida real, é o grande destaque do filme, que teve sua estreia mundial no dia 15 de setembro de 2018 no Festival de Toronto. Lembro que o roteiro foi inspirado no livro “Girl Boy Girl: How I Became JT Leroy”, escrito pela própria Savannah Knoop, que também ajudou o diretor Justin Kelly a roteirizar a  história. Também estão no elenco, além de Kristen Stewart e Laura Dern, a atriz alemã Diane Kruger, Jim Sturgess e Courtney Love. Muita gente aqui no Brasil talvez nunca tenha ouvido falar no caso JL Leroy. Por isso mesmo, o filme pode ser bastante interessante, valorizado ainda mais pelo excelente elenco e o ótimo roteiro.       

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020


Discutir a relação no casamento. O assunto já foi abordado inúmeras vezes no cinema, sendo impossível não lembrar do clássico “Cenas de um Casamento” (1973), do sueco Ingmar Bergman, onde Liv Ullmann e Erland Josephson discutem a relação durante quase 3 horas de projeção. Em “Kramer vs. Kramer” (1979), a relação conjugal também foi discutida pelo casal vivido por Meryl Streep e Dustin Hoffman, culminando numa disputa judicial pela guarda do filho. Esses dois aspectos – discutir o relacionamento e disputa judicial – foram incorporados ao drama “HISTÓRIA DE UM CASAMENTO” (“MARRIAGE STORY”), 2019, Estados Unidos, 2h17m, roteiro e direção de Noah Baumbach. No início, tudo parece correr às mil maravilhas com Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson). Depois de dez anos de casados, que resultaram no filho Henry (Azhy Robertson), a relação começa a azedar a partir do momento em que Nicole, uma atriz de teatro, resolve sair de Nova Iorque para tentar o cinema em Hollywood, levando o filho a tiracolo. Charlie, diretor de teatro, não se conforma com a situação e parte para Los Angeles com o objetivo de tentar um acordo. Só que Nicole contrata a advogada Nora Fanshaw (Laura Dern) e entra com uma ação na justiça para preservar a guarda do menino e ainda exigir uma grana de Charlie. E por aí vai a “História de um Casamento”, com muito blá, blá, blá – é verborrágico ao extremo, como é o estilo do roteirista e diretor Noah Baumbach (dos chatérrimos “Frances Ha” e “Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe”). Para escrever o roteiro de “História de um Casamento”, Noah confirmou em entrevista que inseriu muitos momentos de seu tumultuado casamento com a atriz Jennifer Jason Leigh, com a qual viveu de 2005 até 2012. Também estão no elenco Alan Alda, Ray Liotta e Julie Hagerty. Dizem que existe uma grande chance de Adam Driver e Scarlett Johansson serem indicados ao Oscar 2020. Pode ser, mas o filme em si não chega a ser uma maravilha. Achei a situação forçada demais e a verborragia reinante chega a incomodar. Em todo caso, vale uma visita para conferir.      

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019


“ATLANTIQUE”, 2019, coprodução França/Senegal/Bélgica, com distribuição da Netflix (foi lançado mundialmente em 29 de novembro de 2019), 1h47m, marca a estreia da atriz francesa Mati Diop como roteirista e diretora de longa-metragens. A história reúne ingredientes de vários gêneros: drama, romance, policial, mistério, suspense e fantasia. É ambientado em Dakar, capital do Senegal, e totalmente falado em Wolof, a língua oficial do país. A jovem Ada (a atriz estreante Mame Bineta Sane), de 17 anos, de uma família humilde da periferia de Dakar, é prometida em casamento para Omar (Babacar Sylla), herdeiro de uma família rica. Só que ela ama Suleiman (Ibrahima Traoré), um jovem operário que trabalha no canteiro de obras de um edifício futurista em Dakar. Como não recebem salário há meses, Suleiman e alguns companheiros decidem embarcar clandestinamente para a Espanha, mas o barco desaparece misteriosamente. Enquanto isso, durante os preparativos para o casamento de Ada, acontece um incêndio na casa de Omar, iniciado no leito nupcial destinado ao casal. A polícia entra em ação para investigar o fato e começa a desconfiar que o incêndio não foi simplesmente um acidente e sim uma vingança de Suleiman, que, embora desaparecido, teria sido visto andando pelas ruas de Dakar. Ao mesmo tempo, os espíritos dos homens desaparecidos no mar assumem o corpo de várias jovens, que vão até o empresário Nidaye (Diankou Sembene) cobrar os salários devidos pelo trabalho na construção. O mar – no caso, o Oceano Atlântico (daí o “Atlantique”) - aparece em várias cenas do filme, com a câmera estática, uma ideia da diretora para destacar sua importância na história. “Atlantique” foi selecionado para disputar a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2019, conquistando o também importante “Grand Prix Spécial Du Jury”. Em Cannes, Mati Dopi também se destacou como a primeira diretora negra a competir pela Palma de Ouro. O filme é muito interessante, merece ser visto. 

sábado, 28 de dezembro de 2019


“MAMÃE SAIU DE FÉRIAS” (“MAMÁ SE FUE DE VIAJE”), 2019, México, 1h40m, roteiro e direção de Fernando Sariñana. Trata-se de um remake do filme argentino “Mamá se Fue de Viaje”, de 2017, que também teve uma versão italiana este ano, “10 Giorni Senza Mamma”. A versão mexicana, tema deste comentário, é muito divertida. Cassandra (Andrea Legarreta), a dona da casa, resolve tirar umas férias para fazer um curso de Ioga. Deixou os quatro filhos aos cuidados do pai, completamente inexperiente na função, pois dedica-se integralmente à empresa onde trabalha como gerente. Ah, ainda sobrou o cachorro da família, “Canabis”. Aquelas confusões de sempre: acordar cedo para fazer o café para a criançada, cuidar das roupas de cada um, deixar comida com o cachorro, levar e buscar no colégio etc. E ainda ter que cuidar de contratar uma faxineira, pois a antiga sofreu um acidente e está de licença. Como toda a desgraça não vem sozinha, Gabriel tem de mostrar serviço na empresa, já que haverá uma promoção para um cargo mais alto e ele é cotado como favorito. Sua maior chance de conquistar o cargo pode estar no Dia da Família, um evento anual organizado pela empresa no qual os funcionários levam suas famílias para participar de brincadeiras, jogos e muitas diversões. As cenas dessa festa são as mais engraçadas do filme. “Mamãe Saiu de Férias” é uma ótima dica para uma sessão da tarde com a família. Para rir à vontade!    

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019


“AS GOLPISTAS” (“HUSTLERS”), 2019, Estados Unidos, 1h49m, roteiro e direção de Lorene Scafaria, que adaptou a história, baseada em fatos reais, inspirada no artigo “The Hustlers at Scores”, da jornalista investigativa Jessica Pressler, publicada com exclusividade em 2016 na Revista New York Magazine (no filme, Jessica é interpretada por Julia Stiles). Os fatos se referem a um grupo de dançarinas, ex-strippers, que aplicavam golpes contra seus clientes, a maioria dos quais empresários, altos executivos e gente com a conta bancária recheada. O golpe era simples: elas chamavam o cliente para um programa, colocavam um remédio em sua bebida – tipo “boa noite, Cinderela” - e depois surrupiavam seus cartões de crédito, esvaziavam suas contas e transferiam o dinheiro para uma conta conjunta das “meninas”. A chefona do esquema era Ramona (Jennifer Lopez), com a cumplicidade de Destiny (Constance Wu), Mercedes (Keke Palmer) e a loiraça Annabelle (Lili Reinhart). O filme conta a história das moças desde o começo, 2007, quanto atuavam como strippers num clube frequentado por altos executivos de Wall Street. Em 2008, com a crise econômica, o clube perdeu os clientes e os negócios caíram ladeira abaixo. Cada uma das moças foi se virar de alguma forma, até trabalhando como vendedoras em lojas de roupas. Alguns depois, elas se reencontraram e tiveram a ideia dos golpes. Confesso que fiquei em dúvida se assistia ou não, mas não me arrependi, pois o filme é bastante interessante, principalmente por ser baseado em fatos reais que, se eu não estiver enganado, passaram em branco por aqui. Embora seja de Constance Wu a personagem condutora da história, é a diva Jennifer Lopez que se destaca pelo visual “mulherão” e até com uma atuação bastante convincente. Dizem até que deve ser indicada ao Oscar. O filme estreou no dia 7 de setembro de 2019 no Festival Internacional de Cinema de Toronto.   

terça-feira, 24 de dezembro de 2019


“CORINGA” (“Joker”), 2019, EUA, 2h2m, direção de Todd Philips, que também assina o roteiro com a colaboração de Scott Silver. Como todo mundo sabe, “Coringa” é aquele personagem assustador dos filmes de Batman e um de seus principais inimigos. O filme volta no tempo para 1981, quando “Coringa” era apenas Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um palhaço que durante o dia trabalhava na porta de comércios de rua em Gotham City e à noite tentava fazer sucesso como comediante de stand-up. Ainda não havia Batman (ele não aparece e nem mesmo é mencionado). A história é toda centrada em Arthur Fleck, um sujeito com graves distúrbios mentais controlados apenas com remédios que recebe da assistência social, que também é encarregada do seu acompanhamento psicológico. Até que um dia o governo municipal, para reduzir custos, cancela os remédios e o tratamento psicológico. Sem essa assistência, Fleck passa a ter surtos psicóticos violentos. Vestido de palhaço, ele mata três executivos de uma importante empresa de Gotham City dentro de um vagão do metrô. A notícia se espalha pela cidade e o tal palhaço assassino não identificado transforma-se no herói das classes menos favorecidas, provocando um movimento popular violento contra a elite da cidade. Enquanto sua identidade não é descoberta, Fleck, por causa de um vídeo onde aparece fazendo stand-up, é convidado a participar do programa televisivo de auditório comandado por Murray Franklin (Robert De Niro) e logo vira celebridade, exigindo que seja chamado de “Coringa”. Este é apenas um resumo da história, mas tem muito mais até o desfecho. Na verdade, o roteiro apresenta como pano de fundo um estudo psicológico de uma mente doentia, que gradualmente se transforma num psicopata dos mais violentos. O filme tem todos os ingredientes para receber um grande número de indicações ao Oscar 2020, a começar pela impressionante atuação de Joaquin Phoenix. Seus olhares, seus gestos e suas risadas provocam calafrios. Para fazer o papel, o ator perdeu 24 quilos, aspecto que tem bastante efeito na premiação. Também é destaque a direção de arte, especialmente os cenários, figurinos e uma fotografia deslumbrante, além do restante do elenco, com Zazie Beetz, Frances Conroy e Brett Cullen. Outro trunfo do filme é sua trilha sonora, criada pela compositora islandesa Hildur Guonadóttir, que fortalece, valoriza e aumenta a tensão de cada uma das cenas impactantes, que são muitas. O filme estreou em agosto de 2019 durante o 76º Festival Internacional de Cinema de Veneza e ganhou o "Leão de Ouro", principal premiação do evento. “Coringa” é um filme perturbador, tenso, assustador. E genial. Um dos grandes filmes do ano. Imperdível!   



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019


“EL REINO”, 2018, Espanha, 2h12m, roteiro e direção de Rodrigo Sorogoyen (“Que Dios nos Perdone”). Um filme poderoso e impactante, onde os bastidores sujos da política – corrupção, traições, negociatas etc. – são expostos de forma crua e impiedosa. A história é inspirada num dos mais famosos esquemas de corrupção da Espanha, o “Caso Gürtel”, descoberto em novembro de 2007 e que levou gente graúda do Partido Popular (PP) para a cadeia. No filme, o personagem principal é Manuel López-Vidal (Antonio de la Torre, ótimo), vice-secretário de um governo regional que está sendo cotado para ser candidato de seu partido a um alto cargo no governo espanhol. A turma partidária de Manuel inclui políticos importantes (é nesse grupo que se baseou o título original do filme). São os chamados “caciques” do partido. Eles se reúnem constantemente em restaurantes e hotéis luxuosos e até no iate de um deles, além de festinhas tipo Sérgio Cabral e quadrilha em Paris. O objetivo dessas reuniões é o de sempre: festejar alguma maracutaia bem-sucedida, derrubar algum inimigo (ou até um amigo) político e planejar o próximo golpe. Enfim, gente da pior qualidade e sempre com a pior das intenções (lembram políticos de algum país que você conhece?). Até que um dia Paco (Nacho Fresnada), um dos políticos da turma de Manuel, acaba denunciado e preso acusado de conceder contratos públicos a empresas em troca de dinheiro. As acusações recaem também sobre Manuel, que, ao ver sua carreira política praticamente arruinada, decide que não vai “cair” sozinho. O elenco conta ainda com Bárbara Lennie (excelente), Josep Maria Pou, Mónica López, Luis Zahera e Ana Wagener. “El Reino” foi o grande vencedor do 33º Prêmio Goya de Cinema (o Oscar espanhol), recebendo nada menos do que 13 indicações. Ganhou em sete categorias, entre as quais Melhor Diretor, Melhor Ator (Antonio de La Torre) e Melhor Roteiro Original. Também arrancou elogios entusiasmados quando foi exibido no 66º Festival de San Sebastian e ainda na Seção “Contemporany World Cinema” do Toronto International Film Festival/2018. Sem dúvida, um grande filme. Imperdível!       

terça-feira, 17 de dezembro de 2019


PÂNICO NAS ALTURAS (“OTRYV”), 2019, Rússia, 1h25m, direção de Tigran Sakakyan, que também é autor do roteiro com a colaboração de Denis Kosyakov e Alexandr Nazarov. É o primeiro longa-metragem do cineasta russo Tigran. Uma boa estreia, aliás, pois realizou um suspense de tirar o fôlego. Na noite de Ano Novo, cinco amigos resolver alugar um teleférico para subir numa montanha dos Montes Urais e de lá descer até a base de snowboarding. Programa de maluco, enfrentar um frio de muitos graus abaixo de zero (a cordilheira é uma das mais frias do mundo), tempestades etc. No meio do caminho, quando estão bem lá no alto, lá embaixo, na sala de controle, o maquinista sofre um grave acidente, provocando a parada do equipamento. Ou seja, o teleférico ficou ao sabor do vento, deixando os amigos apavorados. O filme relata o sofrimento desse pessoal até o desfecho. A gente acompanha tudo na maior aflição, num alto nível de tensão e suspense, pois a cada minuto acontece algo para piorar ainda mais a situação. A gente fica com a impressão de que apenas nós, os espectadores, sobreviveremos. No elenco – para mim, de ilustres desconhecidos - estão Irina Antonenko (uma atriz russa lindíssima), Anastasiya Grachyova, Vladimir Gusev, Denis Kostakov (também um dos roteiristas) e Andrey Nazimov. Um bom programa para quem gosta de sofrer curtindo o sofrimento dos outros.           

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019


“O MISTÉRIO DE HENRI PICK” (“LE MISTÈRE HENRI PICK”), 2018, França, 1h40m, roteiro e direção de Rémi Bezançon, com a colaboração de Vanessa Portal. O filme foi uma das atrações da programação oficial do Festival Varilux de Cinema Francês realizado aqui no Brasil em junho de 2019. Daphne Despero (Alice Izaaz), jovem funcionária de uma famosa editora de Paris, tira uns dias de férias para visitar seu pai em Crozon, um pequeno vilarejo na Bretanha. Numa visita a uma livraria do lugar, ela acaba conhecendo uma seção inusitada, dedicada a manuscritos rejeitados, ou seja, que não foram aceitos pelas editoras e, portanto, jamais publicados. Ao verificar alguns exemplares, Daphne encontra um com o título que chamou sua atenção: “As Últimas Horas de uma História de Amor”, escrito por um tal de Henri Pick. Pesquisando quem seria o desconhecido escritor, ela descobre que era um antigo pizzaiolo de um restaurante local, falecido há dois anos. Ela encontra a viúva de Pick, Madeleine (Josiane Stoléru), e sua filha, Joséphine (Camille Cottin), que desconheciam a existência do tal manuscrito e muito menos que Pick tinha como hobby a escrita. Com a autorização de Madeleine e de Joséphine, o livro é publicado pela editora de Daphne e vira um best-seller imediato em toda a França. A história de como o livro foi descoberto vira um fenômeno de mídia e Daphne, Madeleine e Joséphine são convidadas para participar do programa televisivo de grande audiência comandado por um renomado crítico literário, Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini). Durante a entrevista, ao vivo, Rouche afirma que o livro é uma fraude, que um simples pizzaiolo jamais escreveria um romance tão bom. A atitude de Rouche acaba tumultuando o ambiente, e suas convidadas, sentindo-se caluniadas, saem furiosas do programa. Resultado: Rouche perde o emprego e, pior, acaba abandonado pela esposa, que adorou o livro. A partir daí, o caso vira ponto de honra para Rouche. Ele vai tentar provar de qualquer jeito que Henri Pick jamais escreveu o livro. O filme é muito simpático e divertido, principalmente depois que Rouche inicia sua investigação. Destaque para a participação especial da atriz alemã Hanna Schygulla, que um dia foi minha musa mas que agora, aos 75 anos, está irreconhecível. Fabrice Luchini é um dos mais competentes atores franceses e sua atuação valoriza ainda mais essa deliciosa produção que tem como pano de fundo a Literatura e o trabalho das editoras. Imperdível!           

domingo, 15 de dezembro de 2019


“ALÉM DA ILUSÃO” (PLANETARIUM”), 2016, França, 1h46m, roteiro e direção da cineasta francesa Rebecca Zlotowski (“Grand Central”). A história é toda centrada nas irmãs Laura (Natalie Portman) e Kate Barrow (Lily-Rose Depp), jovens norte-americanas que nos anos 30 partiram para a Europa com o objetivo de ganhar dinheiro com apresentações de mediunidade, que lotavam teatros nas principais capitais europeias. Kate era quem invocava os espíritos, enquanto Laura trabalhava como empresária da dupla e mestre de cerimônias. Em Paris, elas são contratadas para uma apresentação particular ao produtor de cinema André Korben (Emmanuel Salinger), judeu polonês, que quer se comunicar com um amigo que faleceu anos antes. Korben torna-se amigo das irmãs e resolve agenciá-las para produções cinematográficas. Mas é Laura quem faz sucesso, tornando-se uma atriz de relativo sucesso. O grande destaque do filme é a primorosa direção de arte, envolvendo a recriação de época, cenários e figurinos. Um trabalho deslumbrante. Confesso que não lembro de ter visto Natalie Portman tão bonita como neste filme. Trata-se da segunda incursão da atriz, nascida em Israel, no cinema francês. A primeira foi justamente em sua estreia, em 1994, aos 13 anos de idade, no filme “O Profissional”, contracenando com Jean Reno e Gary Oldman, dirigida por Luc Besson. Hoje, aos 38 anos, figura como uma das melhores e mais bonitas atrizes da atualidade. Possui até um Oscar de Melhor Atriz em 2010 por sua atuação em “Cisne Negro”. Natalie já tem um filme como diretora, “De Amor e Trevas”, além de um segmento de “Nova Iorque, Eu te Amo”. Destaco também no elenco a jovem atriz Lily-Rose Depp, filha do ator Johnny Depp e da atriz e cantora Vanessa Paradis, além das presenças de Amira Casar e Louis  Garrel, este último numa participação especial. Resumo da ópera: “Além da Ilusão” é cinema de muita qualidade, um excelente programa para os amantes da Sétima Arte.                

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019


“BACURAU”, 2019, Brasil, 2h10m, roteiro e direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Ou seja, feito a quatro mãos. Ou, melhor, dois cérebros. O que não quer dizer nada, pois o filme é sem pé nem cabeça. A história é dividida em três atos. Primeiro, a apresentação do pessoal do povoado de Bacurau, nos cafundós do sertão, durante o velório e enterro da matriarca do lugar, dona Carmelita. Tem a antiga moradora que volta para as exéquias, a médica do lugar, o professor e outros personagens. Logo no início, o pessoal descobre que Bacurau não está no mapa. Um lugar fictício? No segundo ato, aparece um grupo de turistas norte-americanos que veio ao sertão do Brasil para participar de um tipo de gincana, durante a qual ganha ponto a cada pessoa que matam. As vítimas, claro, são moradoras de Bacurau e arredores. Para localizá-las e depois matá-las, o grupo utiliza drones disfarçados de discos voadores (Vão vendo!). No terceiro e último capítulo, os assassinos finalmente encontram a resistência do povoado, que vai se defender com a ajuda de um cangaceiro sanguinário nascido no vilarejo. A guerra está lançada! “Bacurau” é um filme meio surreal, que mistura gêneros como drama, faroeste caboclo, fantasia e ficção científica. No fundo, no fundo, é um filme trash, daqueles tipo invasão de zumbis, terror sanguinolento e outros congêneres. As filmagens aconteceram na cidade de Barra, no Rio Grande do Norte. No elenco, destaque para as presenças de Sônia Braga, do ator alemão Udo Kier, Bárbara Colen, Thomás Aquino, Silvero Pereira, Karine Teles, Lia de Itamaracá e Wilson Rabelo. Apesar dos pesares, o filme dividiu o Prêmio do Júri no 72º Festival de Cannes/2019 com "Les Misérables". Momento cultural: Bacurau é o nome de uma ave de hábitos noturnos que vive no sertão brasileiro e também apelido do último ônibus da madrugada no Recibe. Quer embarcar nessa arriscada aventura? Fique à vontade.                  

terça-feira, 10 de dezembro de 2019


“AD ASTRA – RUMO ÀS ESTRELAS” (“AD ASTRA”), 2019, Estados Unidos, 2h01m, roteiro e direção de James Gray. Trata-se de uma ficção científica bem arrojada, com uma história pra lá de mirabolante, maluca mesmo, indicada para quem curte filmes com naves espaciais e viagens interplanetárias. Estamos num futuro bastante distante, quando o mundo inteiro de repente é afetado por ondas elétricas vindas não se sabe de onde e que estão ocasionando apagões em todo nosso planeta. O major Roy McBride (Brad Pitt), engenheiro e astronauta, é enviado para espaço com o objetivo de descobrir o que está acontecendo. Ele chega primeiro à Lua e depois a Marte. Em ambos estão instaladas bases militares espaciais norte-americanas. No meio da missão, os superiores entram em contato com Roy e dizem ter evidências de que seu pai, o também astronauta Clifford McBride (Tommy Lee Jones), que se perdeu no espaço há 20 anos no caminho para Netuno, pode estar vivo. Segundo foi apurado, Clifford abandonou sua missão inicial e partiu para outras galáxias tentando provar que existe vida inteligente em outros planetas, ao contrário das versões oficiais que já comprovaram não existir vida além da Terra (a afirmação é do filme). Perturbado pela notícia sobre a possibilidade de seu pai estar vivo, Roy desobedece a seus superiores, sequestra uma nave e parte para encontrar seu pai, se é que realmente está vivo. Se há algo que deve ser elogiado no filme de Gray (“Uma Vez em Nova Iorque”, “Z: A Cidade Perdida”) é o design de produção, com cenários deslumbrantes e uma fotografia das mais competentes, além de algumas cenas de ação muito bem realizadas. O que me irritou foi a utilização demasiada da narração em off, na qual Roy exprime seus pensamentos. Uma chatice que lembra os filmes abomináveis do intragável cineasta norte-americano Terrence Malick. No mais, “Ad Astra” (momento cultural: do latim traduzido para o português, “Rumo às Estrelas”) não merece muitos elogios e poucos motivos para recomendá-lo. Mas sou suspeito em dizer isso, pois nunca fui muito fã de filmes de ficção científica, principalmente aqueles com naves, astronautas, viagens interplanetárias e alienígenas. Completam o elenco Liv Tyler, Ruth Nega e Donald Sutherland. O filme estreou durante a programação oficial do Festival de Veneza no dia 29 de agosto de 2019. Indicado para aqueles que vivem no mundo da Lua.                   

domingo, 8 de dezembro de 2019


“CONEXÃO DE ELITE” (“THE PREPPIE CONNECTION”), 2016, EUA, 95 minutos, feito originalmente para TV, roteiro e direção de Joseph Castelo (é o seu 3º longa-metragem). A história é baseada em fatos reais e inspirada na vida de Derek Oatis, um estudante de família pobre que na década de 80, por intermédio de uma bolsa, conseguiu se matricular numa renomada escola preparatória particular. Para se enturmar com um grupo de jovens estudantes ricos e bagunceiros, Derek ingressou na turma para ficar perto de uma menina que ele adorava, mas que namorava um outro cara. Na convivência com os ricaços da faculdade, Derek percebeu que podia ganhar dinheiro vendendo cocaína e, assim, ajudar os pais financeiramente. Com a colaboração de um aluno colombiano cujo pai era embaixador, Derek conseguiu viajar para a Colômbia e lá entrar em contato com um traficante, arranjar a droga e depois comercializá-la na faculdade. Fez isso várias vezes, mas abusou da sorte e acabou preso (o verdadeiro Derek aparece dando um depoimento durante os créditos finais). O caso foi um escândalo nacional, pois envolveu filhos de políticos e empresários importantes. No filme, Derek ganhou o nome de Tobias Hammel (Thomas Mann), assim como os outros personagens tiveram os nomes alterados, provavelmente por questões judiciais, como Alexis Hayes (Lucy Fry), Ellis Tynes (Logan Huffman) e Ingrid (Amy Hargreaves), entre outros. Aos 28 anos, o bom ator Thomas Mann já tem um currículo extenso no cinema, com 5 séries de TV e 26 filmes, entre os quais “João e Maria: Caçadores de Bruxas” (2013), “Escola de Espiões” (2015), “Herança de Sangue” (2016) e “Estrada Sem Lei” (2018).             

sábado, 7 de dezembro de 2019


“INVASÃO AO SERVIÇO SECRETO” (“ANGEL HAS FALLEN”), 2019, EUA, 2h1m, direção de Ric Roman Waugh, que também é autor do roteiro com a colaboração de Katrin Benedikt, Robert Mark Kamen, Matt Cook e Creighton Rothenberger. Este é o terceiro filme da série que conta como principal personagem o agente secreto Mike Benning (Gerard Butler, também protagonista dos dois primeiros, “Invasão à Casa Branca”, de 2013, e “Invasão a Londres”, de 2016). Desta vez, ou mais uma vez, Mike tenta proteger o presidente norte-americano Allan Trumbull (Morgan Freeman) de uma conspiração comandada por integrantes de uma organização ligada à indústria de armas, cujo objetivo é assassinar Trumbull e provocar uma guerra com a Rússia. Entre eles, alguns ex-agentes secretos que trabalharam com Benning. No primeiro atentado contra o presidente, durante uma pescaria num lago, os criminosos utilizam um sofisticado “exército” de drones equipados com bombas. Morre quase todo mundo, numa espetacular cena de prender o fôlego.  Ao longo das investigações realizadas pelo FBI, descobre-se que existe alguém ligado à alta cúpula do governo que está vazando informações não só para a imprensa, como também para a organização criminosa, que não sossega enquanto não matar o nº 1 dos EUA. Enquanto isso, o pessoal do FBI recebe um dossiê falso que aponta como o idealizador de toda a trama o próprio Benning, que é obrigado a fugir e depois tentar provar sua inocência. Leah Benning, esposa do agente, e o pai dele, Clay Benning (Nick Nolte), acabam também envolvidos na história, correndo risco de vida. Mas o nosso herói vai resolver tudo da melhor maneira possível, garantindo um desfecho mais do que previsível. O ator escocês Gerard Butler, que já esbanjou charme em “O Fantasma da Ópera (2004) e barriga de tanquinho em “300” (2006), mostra agora uma evidente decadência física. Está meio inchado, resultado das biritas que adora tomar. Talvez não faça a 4ª versão, se houver. De qualquer forma, “Invasão ao Serviço Secreto” tem todos os ingredientes de um bom filme de ação, geralmente um gênero que dá folga aos nossos neurônios. Saco de pipoca na mão e boa sessão da tarde!            

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019


“PÁSSARO DO ORIENTE” (“EARTHQUAKE BIRD”), 2019, coprodução EUA/Japão em conjunto com a Netflix, 1h48m, roteiro e direção do cineasta inglês Wash Westmoreland. A história é baseada no livro “The Earthquake Bird", de 2001, escrito pela romancista inglesa Susanna Jones, um grande best seller na época. Tóquio, 1989. A cena inicial mostra Lucy Fry (Alicia Vikander) sendo interrogada numa delegacia de polícia sobre o desaparecimento de sua amiga Lily Bridges (Riley Keough). Durante os diálogos, surpreende como a sueca Vikander domina o idioma japonês. Tinha que ser assim, pois seu personagem mora já há cinco anos no Japão. Lucy trabalha como tradutora numa empresa no centro de Tóquio e, aparentemente, é uma jovem normal e trabalhadora, porém muito solitária. Em flashbacks, o filme recorda os fatos que antecederam ao sumiço de Lily. Primeiro, o envolvimento amoroso de Lucy com Teiji (Naoki Kobayashi), um japonês charmoso que trabalha como cozinheiro num restaurante, mas que nas horas vagas é fotógrafo amador. Os dois se apaixonam e o romance vai bem até a chegada de Lily dos Estados Unidos. Ao apresentar Lily a Teiji, Lucy percebe que os dois se atraem e pinta o maior ciúme. O suspense do filme gira em torno justamente do que Lucy fará a respeito. Eliminar Lily, como sugere o episódio que se desenrola na delegacia? Como sugestão para colocá-la como principal suspeita, o filme aborda um fato traumático de seu passado, justamente o que a motivou a se mudar para o Japão. Ou quem sabe Teiji, que adora retratar pessoas mortas e quer provar seu amor por Lucy? Nada mais é possível acrescentar para não estragar o final da história. O filme é bastante interessante, apresentando como um de seus maiores destaques os cenários da capital japonesa, valorizados pela fotografia deslumbrante do sul-coreano Chung Chung-hoon. Com relação à história, o diretor Westmoreland (“Para Sempre Alice” e “Colette”) consegue manter um clima de tensão que nos leva a querer chegar logo ao fim para descobrir o que realmente aconteceu. Também merecem destaque as atuações da atriz sueca Alicia Vikander, vencedora do Oscar 2015 de Melhor Atriz Coadjuvante pelo seu trabalho em “A Garota Dinamarquesa” e protagonista de “Tom Raider: A Origem” (2018) como Lara Croft. Na vida real, Alicia é casada, desde 2017, com o ator Michael Fassbender. Quanto à bela e boa atriz Riley Keough, lembro que é filha da cantora Lisa Marie Presley e, portanto, neta de Elvis. Com quase 1m90 de altura, Naoki Kobayashi foge um pouco do estereótipo de seus conterrâneos. Além de ator, o galã Naiki é cantor de um grupo pop, além de dançarino e modelo. Voltando a “Pássaro do Oriente”, cuja estreia aconteceu dia 10 de outubro de 2019 no BFI London Film Festival (na Netflix, foi exibido pela primeira vez no dia 5 de novembro de 2019), trata-se de um filme bastante criativo, bem escrito e dirigido. Recomendo.          

terça-feira, 3 de dezembro de 2019


“O IRLANDÊS” (“THE IRISHMAN”), 2019, EUA, direção de Martin Scorsese, distribuição da Netflix (no Brasil, estreou dia 27 de novembro de 2019). Posso afirmar, com toda certeza, que este é o grande favorito ao Oscar 2020 em várias categorias. Um épico com a marca registrada do grande diretor Martin Scorsese. Com roteiro de Steven Zaillian, adaptado do livro “I Heard You Paint Houses”, escrito por Charles Brandt, a história, baseada em fatos reais, acompanha, durante décadas, desde o pós-Segunda Guerra Mundial, a trajetória de Frank Sheeran (Robert De Niro), um simples motorista de caminhão que transportava carnes para um frigorífico pertencente a um chefão da Máfia. Aos poucos ele vai se aproximando do crime organizado e logo se transforma num assassino de aluguel sob o mando de Russel Bufalino (Joe Pesci), chefão mafioso da Pensilvânia. Também se transforma em homem de confiança e segurança do lendário líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino), que mantinha estreitas ligações com os chefões do crime organizado. Scorsese prioriza a questão da honra entre os integrantes da máfia italiana, os acordos realizados em mesas de restaurantes, muitos resultando em mortes encomendadas – sim, há muita violência -, vinganças, traições e toda a sujeira que envolve a atividade criminosa. Completam o elenco, entre outros, Karvey Keitel, Bobby Carnevale, Anna Paquin e Stephen Graham. Mas os destaques são, sem dúvida, os desempenhos magistrais de De Niro, Pacino e, principalmente, Joe Pesci (aposto que vai ganhar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante). Eu acreditava que nenhum outro filme sobre a Máfia superaria “Os Bons Campanheiros”, do próprio Scorsese. E não é que ele se superou? “O Irlandês” é sensacional, uma obra-prima, 3h30m do mais puro deleite cinematográfico, um filme que você não quer que termine. Logo depois de seu lançamento, em 27 de setembro durante o 57º Festival de Cinema de Nova Iorque, “O Irlandês” já foi considerado o melhor filme de 2019 e o melhor roteiro adaptado pela National Board of Review, organização que reúne críticos de cinema e profissionais da indústria cinematográfica norte-americana. Obrigado, Scorsese!     

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019


“A DAMA DE BACO” (“JUG-YEO-JU-NEUM YEO-JA” - nos países de língua inglesa, "The Bacchus Lady"), 2016, Coreia do Sul, 1h50m, roteiro e direção de E J. Yong. Mais uma pérola do cada vez mais surpreendente cinema sul-coreano. Trata-se de um “drama agridoce”, segundo definição do próprio diretor. Realmente, a história é dramática, muito triste e melancólica, mas tem seus momentos sensíveis e algumas pitadas de humor. A trama é toda centrada em So-Young (Yoon Yeo-Jeong), uma idosa que passou dos 70 e se prostitui para ganhar dinheiro. Um parêntese: embora seja a 12ª economia do mundo (a 11ª quando o filme foi realizado), a Coreia do Sul ainda apresenta um dos maiores índices de pobreza entre idosos do mundo, situação, inclusive, que leva vários deles ao suicídio. Voltamos ao filme: So-Young frequenta o parque Jongmyo, na capital Seul, onde circula, juntamente com outras idosas, com o pretexto de vender uma garrafinha de Bacchus, bebida energética para os idosos se sentirem com mais disposição para o sexo. Na verdade, o que lhe dá dinheiro são os programas que faz a quatro paredes num motel próximo. Numa ida ao médico para tratar de uma doença venérea, So-Young testemunha uma briga entre uma imigrante filipina e o médico, acusado por ela de ser o pai do seu filho, o agride e acaba presa. O menino, Jae-Woo (Chon Moo-Song), fica solto nas ruas e So-Young resolve adotá-lo. A idosa mora num conjunto residencial simples e tem como vizinhos um rapaz boa gente, Do-Hoon (Yoo Kye-Sang), e a simpática transsexual Tina (An A-Zu). Mesmo responsável pelo garoto, So-Young continua a fazer seus programas, às vezes levando até o menino junto. Ao mesmo tempo, So-Young conhece vários idosos desiludidos com a vida, solitários ou doentes terminais, que imploram a ela que os ajude a passar para o outro lado. Enfim, tudo no filme gira em torno da idosa So-Young, interpretada com muita sensibilidade e competência pela veterana atriz sul-coreana Yoon Yeo-Jeong, que eu passei a admirar depois que a vi atuar em filmes como “A Empregada”, de 2010, e no ótimo “Canola”, de 2016, entre tantos outros. “A Dama de Baco” foi exibido na seleção oficial dos Festivais de Berlim, Londres, Seattle, Hong Kong, Melbourne e Rio de Janeiro, além de receber os prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Atriz no “Fantasia Film Festival” (Montreal), em julho de 2016. Também conquistou o Prêmio do Júri no Asia Pacific Screen Awards. Merecia muito mais, pois é um grande filme, sensível e impactante. Não perca!       

domingo, 1 de dezembro de 2019



“ERA UMA VEZ EM...HOLLYWOOD” (“ONCE UPON A TIME...IN HOLLYWOOD”), 2019. EUA, 2h40m, roteiro e direção de Quentin Tarantino. Este é o 9º longa-metragem do diretor norte-americano e, para mim, o melhor. Ele ambienta a história em 1969, o ano em que turma do Charles Manson matou a atriz Sharon Tate e amigos, naquela que é considerada até hoje a maior tragédia ligada à história do cinema. Além de ser casada com o cineasta polonês Roman Polanski e estar grávida quando foi assassinada, Sharon (Margot Robbie) era uma atriz em grande ascensão. Este episódio tão nefasto ocupa grande parte do final do filme de Tarantino. Na verdade, o grande cineasta norte-americano fez uma comédia satirizando Hollywood, ao mesmo tempo em que homenageia o Cinema em geral e, particularmente, o gênero western ou, como nós o chamamos, faroeste. E Tarantino conhece como ninguém a sua grande paixão, desde que trabalhava como atendente numa videolocadora. A história é centrada em Rick Dalton (Leonardo Di Caprio), um ator de grande sucesso em séries de TV que decide arriscar o estrelato em Hollywood. Quem o acompanha no seu dia a dia é o amigo Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê oficial há vários anos, além de motorista, segurança e companheiro nas bebedeiras. Em meio à rotina de trabalho de Rick nos sets de filmagem, Tarantino acrescenta a aparição de astros da época, como Bruce Lee (Mike Moh) e um impagável Steve McQueen (Damian Lewis). E ainda utiliza efeitos especiais para colocar Rick Dalton contracenando em filmes famosos das décadas de 50 e 60, mais uma das grandes atrações deste filme genial de Tarantino, na minha opinião, como já disse, o melhor do cineasta. O elenco também conta com astros do porte de Al Pacino, Bruce Dern, Margaret Qualley, Kurt Russell, Dakota Fanning, Luke Perry, Austin Butler, Lorenza Izzo, Julia Butters e Rafal Zawierucha. “Era uma Vez...” estreou na programação oficial do 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019. A recepção foi a melhor possível. Realmente, um filmaço!