“PREDADORES
DO AMOR” (“Hounds of Love), Austrália, 2016, filme
que marca a estreia do jovem Ben Young como roteirista e diretor. Uma boa
estreia, aliás. Trata-se de um suspense baseado num caso real ocorrido na
segunda metade da década de 80 na Austrália. O casal John (Stephen Curry) e
Evelyn (Emma Booth) costumava sequestrar garotas, trancafiá-las num quarto e
abusar delas sexualmente. Uma das vítimas, Vicky Maloney (Ashleigh Cummins)
sofreu o diabo nas mãos dos dois psicopatas pervertidos, mas foi
suficientemente inteligente para planejar uma estratégia com o objetivo de
jogar um contra o outro. Desde a cena inicial, quando os dois desequilibrados
assistem a uma partida de vôlei entre meninas e o olhar de ambos parece
selecionar uma nova vítima, até o desfecho, o clima de tensão é de arrepiar,
mesmo que o cenário de quase todo o filme seja unicamente o interior da casa da dupla de
sádicos. A trilha sonora também é utilizada com maestria para aumentar o
suspense. O elenco está muito bem, com destaque para o ator Stephen Curry, mais
conhecido na Austrália como comediante. Seu comportamento é mesmo de assustar. Como
o filme é baseado em fatos reais, achei que faltou no final a informação do que
aconteceu com os personagens reais depois de tudo. Prepare-se para roer as
unhas...
“ROSAS A
CRÉDITO” (“Roses à Crédit”), 2010,
França, roteiro e direção de Amos Gitaï (“Free Zone”, “Kadosh” e “Kedma”). É uma adaptação do romance da escritora francesa Elsa Triolet, lançado em
1959, cujo pano de fundo é o esforço dos franceses em reerguer o país após anos de conflito. A história é centrada em Marjoline (Léa Seydoux) e Daniel (Grégoire
Leprince-Ringuet), jovens que resolvem se casar logo após o final da Segunda
Grande Guerra. Daniel trabalha com o pai Georges (Pierri Arditi) na produção de
rosas, negócio que é uma tradição da família. Marjoline trabalha num salão de
beleza, mas tem sonhos consumistas que estão fora do orçamento do casal. Aí a
coisa complica, as dívidas aumentam e o casamento entra em crise. Trata-se de
mais um bom trabalho do diretor israelense, cuja temática habitual é voltada
para as questões que envolvem Israel e o Oriente Médio. Destaco a exuberante recriação
de época, incluindo figurinos, cenários, trilha sonora e o comportamento social
dos franceses. Com esse filme, a bela Léa Seydoux, na época com 25 anos, se consolidou como uma atriz bastante promissora. Nos anos seguintes, sua carreira daria um grande salto, quando estrelou, sempre em papéis de destaque, filmes como "007 contra Spectre", "Missão Impossível: Protocolo Fantasma", "Meia-Noite em Paris" e o polêmico "Azul é a Cor mais Quente". Hoje, Seydoux já é uma das melhores e mais requisitadas atrizes francesas da atualidade, devendo ocupar, em pouco tempo, o lugar da diva Isabelle Huppert.
Quando filmou o excelente “Almas Silenciosas”, em
2010, o cineasta russo Aleksey Fedorchenko entrou em contato com a cultura do
povo Mari, que habita uma região nas Montanhas Urais ao Norte da Rússia (Bashkortostão e Tatarstão). Os
habitantes chegam hoje a 600 mil e são conhecidos por conservarem suas seculares
tradições pagãs. Certamente para divulgar essa rica e interessante cultura,
Fedorchenko realizou, em 2012, o filme “ESPOSAS CELESTIAIS DO PRADO MARI” (“Nebesnye
Zheny Iugovykh Mari”), inspirado no livro de contos escrito por Denis Osokin,
por sinal autor do roteiro. São 23 histórias curtas, cada uma identificada pelo
nome de uma personagem. Ou seja, cada segmento leva o nome de uma mulher. O
filme explora as tradições do povo Mari, mostrando seus estranhos rituais voltados
para conseguir um objetivo. Por exemplo: arrumar um marido, engravidar,
eliminar marcas de nascença, afastar maus espíritos etc. Muita sexualidade e
misticismo, o que fez com que fosse chamado de “Decameron do Leste”, referência
ao polêmico filme de 1971 do diretor italiano Pier Paolo Pasolini. O filme, realizado
com financiamento do Ministério da Cultura da Federal Russa, é muito
interessante, principalmente por nos apresentar uma cultura que poucos de nós lemos
a respeito ou ouvimos falar.
Depois de dirigir “Post Mortem”, “No” (indicado ao
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013), e “O Clube”, o diretor chileno
Pablo Larraín caiu nas graças da crítica especializada e de Hollywood. Tanto é
que depois dirigiu “Jackie”, com Natalie Portman. Todos os seus filmes têm um
fundo político muito forte, explorando, principalmente, períodos de ditadura
vividos pelo povo chileno. Não foi de outra forma que dirigiu “NERUDA”, com
roteiro de Guilhermo Calderón (que também escreveu “Violeta foi para o Céu” e “O
Clube”). “Neruda” é ambientado em 1948, quando o grande poeta chileno era
senador da república e ligado ao partido comunista. Para não ser preso, Neruda
empreendeu uma fuga pelo sul do país até chegar à Argentina. Não há muitos
registros históricos sobre essa aventura. Dessa forma, Guilhermo Calderón e Larraín
imaginaram o que teria ocorrido e criaram uma narrativa ficcional centrada na
perseguição do policial Oscar Peluchoneau (Gael Garcia Bernal) a Neruda (Luis
Gnecco). A fotografia, os figurinos e os cenários lembram os filmes noir de antigamente
– Neruda era fã da literatura policial norte-americana. Muitos trechos dos
principais poemas escritos por Neruda aparecem na narrativa in-off, o que, ao invés de reforçar o
contexto das situações, tornou o filme um tanto cansativo. A semelhança física do
ator com o poeta é impressionante. Pena que sua atuação ficou um tanto
caricatural. O filme foi selecionado para
representar o Chile no Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer forma, é um filme de Larraín e que, por isso mesmo, merece ser conferido.
“VOCÊ
SERÁ UM HOMEM” (“Tu Serás un Homme”), França,
2014, escrito e dirigido por Benoit Cohen. Confesso que fiquei desconfiado e
não muito motivado a assistir, a começar pelo título estranho e também como foi
concebido, misturando espanhol e francês. Além disso, não tinha
referências sobre o diretor e o elenco, repleto de gente desconhecida. Por fim,
a capinha do DVD, com aquela foto de alguém vestindo uma máscara das
mais esquisitas. Pensei: lá vem bomba! Decidi finalmente conferir e, para minha surpresa, acabei
assistindo um filme bastante interessante e agradável, um ótimo programa para
uma sessão da tarde. A história: Léo (Aurelio Cohen), um garoto de 10 anos
esperto e inteligente, vive enfurnado na biblioteca do pai devorando livros de
poesia. Ele não recebe muito carinho e atenção nem do pai (Grégoire
Monsaingeon) nem da mãe (Eléonore Pourriat), que sofre da síndrome do pânico e
não sai de casa há três anos. Ao colocar um anúncio procurando uma babá para
cuidar de Léo, quem aparece e acaba contratado é o jovem Théo (Aurelio Cohen).
Em pouco tempo, Théo e Léo ficam amigos inseparáveis. Com seu jeito alegre e
descontraído, Théo também cai nas graças da mãe. O pai, enciumado, não gosta da
situação e acaba demitindo Théo e contratando uma nova babá, desta vez uma bela
garota. Aí começa a confusão, pois a nova babá é nada menos do que a ex-namorada
de Théo. O filme privilegia o bom humor,
embora aborde temas sérios como amadurecimento, amizade e relacionamento
familiar. A simpatia dos atores é mais um trunfo que torna este filme francês uma boa dica de entretenimento.
Em 2007, uma equipe pertencente à Ong francesa “Arca
de Zoé” tentou resgatar 103 crianças órfãs do Chade para levá-las à França para
adoção. Para evitar os trâmites burocráticos de imigração, a ação teria de ser
secreta, envolvendo visitas às aldeias perto da fronteira de Darfur, além do
aluguel de um Boeing-737 para transportar as crianças. Porém, por trás de uma
aparente ação humanitária, havia outras intenções não muito escrupulosas. Essa
história foi transformada no filme “OS CAVALEIROS BRANCOS” (“Les
Chevaliers Blancs”), 2015, França/Bélgica, direção de Joachim Lafosse, que
escreveu o roteiro juntamente com Thomas Van Zuylen, Julie de Carpentries e
Zélia Abade, com base no livro “Les Chevaliers Blancs”, de François-Xavier
Pinte e Geoffroy D’Ursel. Os personagens da história real receberam nomes
fictícios, como Jacques Arnault (Vincent Lindon), chefe da missão, Laura
(Louise Bourgoin), a repórter Françoise (Valérie Donzelli) e Xavier (Reda
Kateb), além de médicos e enfermeiros. A Ong do filme foi intitulada “Move for
Kids”. Ao invés de priorizar o clima de tensão e perigo enfrentado pela equipe
em suas visitas às aldeias em meio a uma guerra civil, o diretor preferiu
destacar a rotina do grupo e os desentendimentos entre seus integrantes, que
divergiam sobre as verdadeiras intenções da Ong. Com essa opção, Lafosse privilegiou
a falação ao invés da ação. De qualquer forma, vale pela presença sempre marcante
de Vincent Lindon e pela história em si, que ficou pouco conhecida por aqui.
“A DÍVIDA”
(”Oliver’s Deal”), coprodução EUA/Peru/Espanha, 2015, primeiro
longa escrito e dirigido por Barney Elliott. O filme começa mostrando o
trabalho de um garoto, seu pai e sua irmã numa fazenda situada nos alpes
peruanos – as paisagens são lindas. O cenário muda de forma abrupta para um
escritório sofisticado de Nova Iorque, cujo negócio principal é adquirir e
depois negociar títulos da dívida pública de países do Terceiro Mundo. Pelo
menos foi isso que eu entendi. Não há muita explicação sobre a atividade e
talvez os leigos no assunto, como eu, ficarão totalmente por fora. Pelo que foi
possível entender, o escritório está envolvido num acordo financeiro entre o
governo dos EUA e o Peru. O escritório é comandado por Nathan (David Strathairn),
que tem como seu braço direito Oliver Campbell (Stephen Dorff), tão inescrupuloso
quanto seu chefe. O único funcionário do escritório que tem alguma sensibilidade
é Ricardo (o ator argentino Alberto Ammann). Enquanto eles combinam estratégias
para novos negócios no escritório de Nova Iorque, o poderoso empresário peruano
Ruben Caravedo (o ator espanhol Carlos Bardem, irmão de Javier) tenta comprar
as terras de pequenos proprietários rurais, entre eles o dono da fazenda onde
pai e filhos aparecem trabalhando no início. Um novo personagem aparece na
história (para confundir ainda mais): uma enfermeira (Elsa Olivero) que tenta conseguir uma
operação para sua mãe num hospital público em Lima. Qual a ligação do drama dessa
enfermeira com o enredo? Quase nenhuma. Só encher linguiça. Resumindo: Oliver e
Ricardo vão para o Peru tentar convencer o coitado do fazendeiro a vender suas
terras. No final, porém, descobrirão que uma trama sórdida está por trás de
tudo. É a tal da ganância corporativa: os ricos explorando os pobres.
O drama “PAULINA” (“La Patota”), 2015, Argentina,
escrito e dirigido por Santiago Mitre, explora um tema dos mais polêmicos: o
estupro. Trata-se, na verdade, da refilmagem do clássico – também argentino – “La Patota”, de
1961. A história é centrada na advogada Paulina (Dolores Fonzi), que desiste de
uma promissora carreira na área jurídica para se embrenhar numa zona rural
pobre e ensinar política aos jovens da região. Ela quer formar cidadãos
responsáveis, afirma ao pai, o juiz Fernando (Oscar Martinez, de “Inseparáveis”
e “O Cidadão Ilustre”), que não se conforma com a decisão de certa forma
irresponsável da filha. Numa noite em que pega emprestada a moto de uma amiga,
Paulina é atacada por um grupo de jovens e estuprada. O pai exige que a polícia
investigue o caso e prenda os agressores, mesmo que não conte com a colaboração
de Paulina. Sua atitude passiva em relação ao que ocorreu revolta o pai, cujo
desejo é fazer uma vingança sem piedade. A situação se complica ainda mais
quando uma consequência do estupro é revelada. Dolores Fonzi, que foi casada
com o ator mexicano Gael García Bernal, é uma das atrizes de maior evidência na
Argentina. Além de bonita, é excelente atriz. O filme foi escrito e dirigido
por Santiago Mitre (“La Cordillera”) e teve como um dos produtores o diretor
brasileiro Walter Salles. Exibido por aqui durante a 39ª Mostra Internacional
de Cinema de São Paulo, em outubro de 2015, “Paulina” venceu o Prêmio da Semana
da Crítica no Festival de Cannes 2015. Mais um bom filme argentino que merece ser visto.
Faz
algum tempo que Adam Sendler não aparece na telona. Por um bom tempo ele estará
só na telinha da TV. O ator norte-americano assinou contrato com a Netflix para
protagonizar seis filmes. Os dois primeiros foram “The Ridiculous 6” (2015) e “Zerando
a Vida” (2016). O terceiro e mais recente é “SANDY WEXLER” (2017), uma
comédia onde Sendler aparece como o personagem do título, um empresário
mequetrefe de Los Angeles que no início dos anos 90 – período em que a história
é ambientada – agenciava os mais diferentes artistas, desde um ventríloquo, um
lutador de luta-livre e até um acrobata saltador de obstáculos, cujas
apresentações sempre acabavam em fracassos e fraturas. Até que um dia Wexler
descobre, fazendo show num parque de diversões, a cantora Courtney Clarke
(Jennifer Hudson). Ela logo se transforma num grande sucesso comercial, uma
estrela da música pop. Com seu jeito abobalhado e inconveniente, Wexler
desperdiça o momento e cai em desgraça, enquanto Courtney alavanca cada vez mais
sua carreira artística. O filme, dirigido por Steven Brill (“A Herança de Mr.
Deeds” e “Ligeiramente Grávidos”), foi escrito pelo trio de roteiristas Dan
Bulla, Paul Sado e Tim Herlihy, que se inspiraram na trajetória de um
empresário chamado Sandy Wernick, que realmente existiu e ganhou uma certa notoriedade
na década de 90. O filme conta com rápidas aparições de comediantes, atores e
celebridades do cinema e da TV, como Jay Leno, John Lovitz, Chris Rock, Jimmy
Kimmel, David Spade e Pauly Shore, além das participações especiais de Rob
Schneider, Kevin James, Terry Crews e Jane Seymour, ainda bonita e em grande
forma aos 66 anos. O personagem vivido por Sendler é irritante ao extremo, inconveniente
e completamente sem graça, como o filme inteiro – a não ser uma única cena onde
ele é manipulado pelo ventríloquo. Sendler é o chato de sempre, caprichando
para ser o mais abobado possível, parecendo um Jerry Lewis com surto de
debilidade mental. O filme é muito fraco e longo demais: 2h10. Para quem gosta
de cinema de qualidade, trata-se de um atentado ao intelecto.
Jim
Jarmusch é um dos diretores de cinema mais cultuados da atualidade por grande parte dos críticos
especializados. Esse status foi
obtido por filmes autorais como “Flores Partidas”, “Amantes Eternos” e “Estranhos
no Paraíso”, que definiram seu estilo pouco convencional. Com o recente “PATERSON”,
o diretor norte-americano de 64 anos novamente arrancou elogios entusiasmados, transformando-se
numa das grandes sensações do Festival de Cannes 2016. Ambientado na cidade de
Paterson, em Nova Jersey, o filme acompanha o cotidiano de Paterson (Adam
Driver, de “Star Wars”), um motorista de ônibus que adora escrever poesias nas
horas vagas. Ele é casado com Laura (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani),
uma mulher ingênua e infantil que procura seu lugar no mundo profissional, indecisa
entre a música, a culinária ou as artes plásticas. A rotina de Paterson começa
cedo com o café da manhã com Laura, o trabalho de motorista, a cerveja no final
do dia no bar de Doc (Barry Shabaka Henrley) e os passeios com o buldogue
Marvin. E, claro, escrever poesias, que Jarmusch faz questão de reproduzir na
tela – na verdade, o autor delas é o poeta Ron Padgett, a quem o diretor admira
há muitos anos. Como na maioria de seus filmes, Jarmusch mais uma vez reúne
humor, ironia e erudição, tornando “Paterson” um entretenimento inteligente e
acima da média.
O filme
se chama “DESCONHECIDA” (“Complete Unknown”), mas poderia se chamar “Inexplicável”.
Vou tentar explicar o “Inexplicável”, a começar pela história sem pé nem
cabeça. Mulher bonita (Alice - Rachel
Weisz) conhece um rapaz num bar. Este a convida para jantar com uma turma de
amigos na casa de um deles, Tom (Michael Shannon). Todo mundo fica curioso em conhecê-la. Ela conta que viajou pelo mundo
inteiro, trabalhou como bióloga na Tasmânia e até como assistente de mágico na
China, entre outras peripécias que deixariam Forrest Gump com vergonha. Será
ela uma mentirosa compulsiva ou tudo que disse é verdade? Pior: Tom, que é casado, acaba lembrando da moça, que há muitos
anos se chamava Jennifer. Parece que tiveram um romance. Muita coincidência
ela aparecer justamente na casa dele. O pessoal sai para dançar numa discoteca.
Alice, ou Jennifer, vai embora e Tom sai atrás. Enquanto conversam, uma senhora
(Kathy Bates) leva um tombo e eles a socorrem. Alice, ou Jennifer, diz que Tom
é médico e que cuidará dela. E por aí vai essa aberração cinematográfica, que
inclui uma longa cena com sapos noturnos, que não quer dizer absolutamente
nada, assim como o filme inteiro. Inexplicável também é o fato de Rachel Weisz
e Michael Shannon, dois bons atores, aceitarem participar de tamanho
descalabro. E também Kathy Bates e Danny Glover, estes últimos em rápida
aparição, talvez envergonhados. Quem escreveu e dirigiu esse verdadeiro abacaxi
foi Joshua Marston, que ficou conhecido depois de dirigir “Maria Cheia de Graça”,
filme de 2004, que não é tão ruim como este. Conselho: passe bem longe!
"QUANDO A NEVE CAI" (“DESPITE THE FALLING SNOW”), 2016, Inglaterra, roteiro e direção da
inglesa Shamim Sarif, que adaptou para o cinema o romance que ela mesmo escreveu.
A história é ambientada no final da década de 50 em Moscou, durante a Guerra
Fria. Depois de viver com o trauma de ver seus pais assassinados pelo regime de
Stalin, Katya (a sueca Rebecca Fergusson, de “Missão Impossível: Nação Secreta”)
resolve se vingar e passa a trabalhar como espiã para os EUA. Numa de suas
missões, ela é escalada para conseguir informações junto a Alexander (Sam Reid),
que ocupa um cargo importante no governo comunista, a quem deveria seduzir. Katya
não poderia imaginar, porém, que Alexander iria se apaixonar perdidamente por ela, e
vice-versa. E os dois acabam se casando. Em 1961, Alexander acompanha uma
missão diplomática russa para uma reunião com os norte-americanos em Nova
Iorque e acaba desertando. A história salta para 1992. A fotógrafa Lauren
(papel também de Fergusson), sobrinha de Alexander, resolve ir para Moscou
tentar descobrir o que aconteceu com Katya depois que o marido desertou. Ela
conhece Marina (a bela atriz alemã Antje Traue), uma jornalista de grande
influência na capital soviética, que se propõe a ajudá-la. Ao encontrar um
antigo parceiro de Katya, ela descobrirá toda a verdade. Mesmo que a espionagem
apareça como pano de fundo, é o romance entre Katya e Alexander que norteará todo
o desenrolar da história. Não é o melhor filme de espionagem que já vi, nem é
ruim, mas fica bem longe dos melhores.
“UM MERGULHO NO PASSADO” (“A
Bigger Splash”), 2015, coprodução Itália/França,
roteiro de David Kajganich e direção de Luca Guadagnino, é uma refilmagem do
clássico policial francês “A Piscina”, de 1969, com Alain Delon e Romy
Schneider. No filme recente, falado em inglês, a história é centrada na estrela
do rock Marianne Lane (Tilda Swinton), que resolve passar as férias de verão
com o namorado Paul de Smedt (Mathias Schoenaearts) numa casa na paradisíaca Ilha
de Pantelleria, na Sicília. Tudo vai bem com o casal até que chega uma visita das
mais inesperadas e indesejadas: Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-produtor
musical de Marianne, e sua filha Penélope (Dakota Johnson). Prevendo confusão, Paul
não quer que Marianne hospede Harry e a filha. Marianne, porém, não tem opção,
pois, além de antigo amigo, Harry produziu muitos de seus discos e shows. Os
dias passam e o clima vai ficando cada vez mais pesado, principalmente pelo
comportamento inconveniente do egocêntrico e verborrágico Hawkes, que não para
de beber, toma banho de piscina nú e ainda assedia Marianne. Os jogos de
sedução também envolvem Penélope e Paul. É claro que a convivência acabará numa
tragédia e, a partir de então, o filme se transforma num verdadeiro suspense
policial, envolvendo até mesmo os coitados dos refugiados que chegam de barco
ao litoral italiano. Apesar do elenco de astros, o filme não convence e, em
muitos momentos, torna-se até desagradável, principalmente por causa do personagem
histriônico e irritante de Ralph Fiennes.
O drama
inglês “45 ANOS” (“45 YEARS”), foi escrito e dirigido por Andrew Haigh e
teve sua primeira exibição no Festival de Berlim/2015. Na tranquilidade
bucólica da confortável casa em que vivem numa zona rural da Inglaterra, Geoff
Mercer (Tom Courtnay) e Kate (Charlotte Rampling) curtem uma rotina tediosa ao
lado do seu cão pastor Max. Às vésperas da festa do 45º aniversário de casamento, Geoff recebe a
notícia de que o corpo de uma antiga namorada e uma de suas grandes paixões da
juventude, que estava desaparecida depois de um acidente, foi encontrado numa
geleira dos Alpes Suíços. Ao recordar alguns fatos dessa antiga paixão, Geoff acaba
gerando ciúmes em Kate. O relacionamento entre os dois fica abalado,
principalmente pela insegurança de Kate quanto ao verdadeiro amor de Geoff, se
ela ou a antiga namorada. Nos dias em que antecedem a festa, Kate e Geoff recordam
alguns fatos que marcaram seu casamento, mas o fantasma da antiga namorada
sempre aparece no meio da conversa. Será que haverá clima para a festa? A
resposta você só terá assistindo a este excelente filme, cujo roteiro foi
baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine, e claramente inspirado
no clássico “Cenas de um Casamento”, de 1973, do diretor sueco Ingmar Bergman. “45
Anos” foi premiado em vários festivais pelo mundo afora. Charlotte Rampling e
Tom Courtnay conquistaram o Prêmio Urso de Ouro de Melhor Atriz e Ator no
Festival de Berlim/2015. Além disso, também por esse filme, Rampling foi
indicada e disputou o Oscar/2016 de Melhor Atriz. A trilha sonora, dos anos 60,
é deliciosa: Marvin Gaye, Aaron Neville, Buffalo Springfield, The Moody Blues,
The Turtles etc.
Singelo,
comovente, sensível. Assim é o drama francês “FATIMA”, 2015, escrito e
dirigido pelo marroquino Philippe Faucon (“Samia”). A história acompanha o
cotidiano de Fatima (Soria Zeroual), imigrante argelina divorciada de 44 anos, que
há duas décadas imigrou para Paris e cria, com o trabalho de faxineira, as duas
filhas nascidas em solo francês, Nesrine (Zita Hanrot), de 18 anos, e Souad
(Kenza Noah Aïche), de 15 anos. Fatima não fala bem o francês e se comunica com
as filhas em árabe, resultando num choque cultural dentro da própria família,
pois Nesrine e Souad, plenamente integradas aos modos e costumes da França, não
aceitam seguir as tradições muçulmanas, como, por exemplo, usar o véu para sair
na rua. Nesrine é o orgulho da família, pois conseguiu ingressar na faculdade
de Medicina, fato que gera a inveja das vizinhas também imigrantes. Souad é uma adolescente rebelde e briguenta, que não se conforma que a mãe seja uma faxineira. Ao cair de
uma escada e ficar afastada do trabalho por licença médica, Fatima passa a
escrever um diário em árabe, escrevendo tudo aquilo que gostaria de dizer às
filhas em francês, além de fazer uma abordagem sobre os desafios de viver em
outro país, em meio a muito preconceito. Numa das passagens do diário, escrito
com muita poesia e sensibilidade, ela faz uma homenagem às “Fátimas” que, como
ela, fazem o serviço pesado e sustentam suas famílias a custa de muito suor. Um
texto muito bonito, que valoriza ainda mais esse belo filme, cujo roteiro foi inspirado
em dois livros escritos pela imigrante marroquina Fatima Elayubi em 2006 e
2011. “Fatima”, merecidamente, conquistou o Prêmio César (o Oscar francês) de Melhor
Filme em 2016.
Ainda
não tem data para estrear por aqui “REGRAS NÃO SE APLICAM” (“Rules Don’t
Apply”), 2016, sexto filme escrito – em conjunto com Bo Goldman - e
dirigido pelo ator Warren Beatty. Ambientado em 1958, conta a história da jovem
Marla Mabrey (Lily Collins), que chega a Hollywood em companhia da mãe Lucy
(Annette Bening) para fazer um teste na produtora do excêntrico milionário
Howard Hughes (Warren). Frank Forbes (Alden Ehrenreich) é o motorista escalado
para servir Marla entre sua casa e o estúdio. Logo é possível perceber que os
dois se apaixonarão, mesmo que uma das regras de Hughes seja desrespeitada: nenhum
dos seus funcionários pode se envolver com as atrizes de seu estúdio – daí o
título original. O filme é uma mistura de romance, comédia e drama, além de uma
sátira ao misterioso Hughes, aqui apresentado como uma figura patética e
histriônica. O resultado final não me agradou e, se há algo a destacar de forma
positiva, é a exuberante recriação de época, especialmente os cenários e os
figurinos, além da deliciosa trilha sonora. Outro fator de destaque é a presença de atores famosos fazendo
apenas uma ponta no filme, como Matthew Broderick, Candice Bergen, Steve
Coogan, Martin Sheen, Oliver Platt, Paul Sorvino e Ed Harris. Vale para uma
sessão da tarde com pipoca. Nada muito especial.
O drama
norte-americano “CHRONIC” disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes
2015, onde teve sua primeira exibição – ainda não chegou por aqui, e duvido que
chegue. Foi escrito e dirigido pelo mexicano Michel Franco (“Depois de Lúcia”)
e traz no papel principal o ator britânico Tim Roth. Ele é David, um
enfermeiro/cuidador que há muitos anos trabalha com pacientes terminais. Sua
dedicação extrapola a função pela qual é contratado, pois acaba sempre ficando
amigo, confidente e conselheiro dos doentes. O filme mostra a rotina tediosa de
David, atendo-se a detalhes como a limpeza das sujeiras, o banho demorado, a
medicação e, em especial, o carinho com que trata cada um deles. É assim que
David aparece cuidando de duas mulheres com câncer, um idoso que acabara de
sofrer um violento derrame e um rapaz com problemas motores. A dedicação de
David nem sempre é compreendida pela família dos doentes. Ao ser surpreendido
abraçando um deles, David é acusado, injustamente, de assédio sexual. Ao mesmo
tempo, ele tenta se reconciliar com a filha Nadia (Bitsie Tulloch), fruto de um
casamento desfeito. Ele também vive perturbado pelas recordações envolvendo um
evento trágico ocorrido com seu filho, o que finalmente explica sua extrema
dedicação aos doentes terminais. O filme é lento, sensação reforçada por longas
cenas sem diálogos, e um tanto chocante ao mostrar o triste final de pessoas cuja
única perspectiva é morrer sem sofrimento. O desfecho, abrupto e surpreendente,
é perturbador. Não é um filme agradável de assistir, mas muito impactante. Mesmo numa atuação contida, o britânico Tim Roth mostra mais uma
vez por que é considerado um dos melhores atores da atualidade. Aos 56 anos, Roth já trabalhou
com grandes diretores, como Giuseppe Tornatore (no ótimo “A Lenda do Pianista
do Mar”, de 1998), além de alguns filmes de Quentin Tarantino, como “Os Oito
Odiados” e “Cães de Aluguel”.
No dia
15 de abril de 2013, feriado nacional nos EUA (“Patriots Day”), um atentado
terrorista durante a tradicional maratona de Boston matou 3 pessoas e deixou 264
feridas, muitas delas com os membros inferiores amputados. O evento trágico foi
considerado o pior em solo norte-americano desde o 11 de setembro de 2001. O
drama “O DIA DO ATENTADO” (“Patriots Day”), 2016, relembra em
detalhes todo o episódio, desde as horas que o antecederam, o atentado em si e
a posterior caçada aos terroristas. O diretor Peter Berg ( de “Horizonte Profundo:
Desastre no Golfo” e do ótimo “O Grande Herói”), seguindo o roteiro escrito por
ele mesmo em conjunto com Matt Cook e Joshua Zetumer, utilizou inúmeras cenas
reais do momento da tragédia, algumas muito chocantes. Mas o aspecto mais
destacado ficou por conta da caçada aos terroristas, identificados e presos 102
horas depois. Esse trabalho reuniu a polícia de Boston e agentes do FBI. Um
grande galpão foi adaptado para concentrar toda a investigação, o que incluiu uma
montagem de uma maquete gigante reproduzindo a rua onde as duas bombas explodiram. Tudo bem
que o filme tem o tom patriótico típico dos filmes norte-americanos, o que não
é demérito nenhum. O elenco é outro destaque: Mark Wahlberg (também um dos produtores),
Kevin Bacon, John Goodman, J. K. Simmons e Michelle Monaghan. Filmaço!
“O IDEALISTA” (“IDEALISTEN”), 2015, Dinamarca, roteiro e direção de Christina
Rosendahl. O filme resgata um fato não muito divulgado por aqui – não me lembro
de ter lido ou ouvido falar do assunto. No dia 21 de janeiro de 1968, um
bombardeiro B-52 norte-americano carregando ogivas nucleares caiu e explodiu
próximo à base aérea dos EUA em Thule, na Groenlândia, naquela época um
território da Dinamarca. A declaração oficial das autoridades dava conta de que
realmente havia acontecido um acidente nuclear, mas a situação estava
totalmente sob controle. Vinte anos depois, portanto em 1988, o jornalista dinamarquês
Poul Brick (Peter Plaugborg) resolveu reabrir o caso. Brick vai fundo no
assunto, entrevista os dinamarqueses que trabalhavam na base, muitos deles
afetados por doenças causadas pelo acidente, e as autoridades encarregadas de
investigar as causas da queda do avião e suas consequências. Ao fim de anos de
trabalho, Brick chegará a uma conclusão que desagradará tanto o governo da
Dinamarca quanto o dos EUA. O filme destaca os esforços de Brick para chegar a
uma verdade que ele acreditava estar escondida durante décadas e que precisava
ser revelada. Como se fosse um documentário em sua grande parte, o filme também
reúne inúmeros vídeos, reportagens e entrevistas feitas após o acidente, muitos
dos quais acabaram reforçando a tese abraçada pelo jornalista dinamarquês. O
trabalho de Brick é considerado um dos mais importantes exemplos de jornalismo
investigativo, o que por si só garante um ótimo entretenimento, principalmente
para os estudantes de Comunicação. O filme foi exibido por aqui durante a 40ª
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.
Antes
de assistir ao drama “A LUZ ENTRE OCEANOS” (“THE LIGHT BETWEEN OCEANS”),
2016, EUA/Nova Zelândia, roteiro e direção do australiano Derek Cianfrance,
separe uma caixa de lenços de papel. A história é baseada no livro best-seller da escritora australiana M.
L. Stedman. Depois de lutar na I Grande Guerra, Tom Sherbourne (Michael
Fassbender) precisa encontrar um lugar para se recuperar das feridas psicológicas
do conflito. Encontrou refúgio como faroleiro na Ilha Janus Rocki, situada
entre os oceanos Pacífico e Índico – daí o título. Ele casa com a jovem Isabel
Graysmark (Alicia Vikander), que conhece logo ao ser contratado. Isabel
engravida duas vezes, mas perde os bebês. Um dia, um barco a remo, à deriva,
chega à ilha, com um homem morto e um bebê. Tom e Isabel adotam a criança e
escondem o fato de todos, inclusive das autoridades que deveriam ser avisadas
pelo faroleiro, conforme procedimento acertado em contrato. Anos mais tarde, a
situação se complica com o surgimento da mãe biológica da criança, Hannah
Hoennfeldt (Rachel Weisz), que acaba com o mistério que envolvia o barco. Ao saber da verdade, Tom é acometido por um enorme complexo de
culpa, mas, assistindo à felicidade de Isabel como mãe, decide manter a
história em segredo. Mas não por muito tempo. O filme foi elaborado de acordo
com o estilo novelístico do livro, transformando-se num dramalhão e tanto, mas
a história é bastante interessante e repleta de suspense, sem falar nos
cenários deslumbrantes (uma ilha da Tasmânia serviu de locação). Durante as
filmagens, o ator alemão Fassbender e a sueca Vikander iniciaram um romance que
dura até hoje. Para quem gosta de um bom drama, um ótimo programa.
“ESTRELAS ALÉM DO TEMPO” (“Hidden
Figures”) conta uma história que há muitos anos ficou praticamente
escondida do grande público. Pelo menos não me lembro de ter lido ou ouvido
falar de cientistas negras que tiveram um papel fundamental no desenvolvimento
do programa espacial norte-americano no início da década de 60, no auge da
Guerra Fria, quando os Estados Unidos disputavam com a União Soviética quem
ganharia a corrida espacial. Inconcebível que durante tanto tempo essa história
não tenha sido contada. Até que, em 2014, Margot Lee Shetterly resolveu
transformá-la em livro – “Hidden Figures” -, adaptado para o cinema pela
roteirista Allison Schroeder e pelo diretor Theodore Melfi (“Um Santo Vizinho”).
O enredo é centrado na matemática
Katherine Johnson (Taraji P. Henson), na especialista em computação Dorothy
Vaughn (Octavia Spencer) e na engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe), que
venceram o forte preconceito racial e, com muita coragem e determinação,
encontraram seu espaço na NASA, ocupando cargos do mais alto nível. Só para se ter uma ideia da importância dessas
mulheres, basta dizer que Katherine, um gênio precoce da matemática, foi a
responsável pelos cálculos que permitiram o lançamento e a reentrada na
atmosfera terrestre da cápsula espacial com o astronauta John Gleen, o primeiro
a entrar em órbita. Apesar do contexto dramático causado pelo preconceito racial e da Guerra Fria como pano de fundo, o filme é levado com muito bom humor, culminando num entretenimento dos mais agradáveis. Ainda estão no elenco Kevin Costner, Kirsten Dunst e
Mahershala Ali, que também atuou em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, pelo qual
ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Por falar em Oscar 2017, “Estrelas
Além do Tempo” foi indicado em três categorias: “Melhor Filme”, “Atriz
Coadjuvante” (Octavia Spencer) e Roteiro Adaptado. IMPERDÍVEL!
Indicado
ao Oscar 2017 em seis categorias, inclusive Melhor Filme, “LION: UMA JORNADA
PARA CASA” (“Lion”), EUA/Austrália, direção de Garth Davis, conta a história
verídica do indiano Saroo Brierley, que, em 1986, aos cinco anos de idade se
perdeu do irmão mais velho Guddu numa estação de trem do interior da India e
acabou mais perdido ainda em Calcutá, depois de uma viagem de mais de 1.600 km.
Saroo é encaminhado para um orfanato e logo depois adotado por um casal australiano.
Vinte e cinco anos depois, ele sente a necessidade de rever sua mãe biológica e
seu irmão. Este é, basicamente, o enredo dessa incrível e comovente história,
adaptada para o cinema pelo roteirista Luke Davies (“Life – Um Retrato de James
Dean”), que se baseou nos fatos narrados por Saroo na autobiografia “A Long Way
Home”. O elenco é ótimo: Dev Patel (Saroo), Sunny Pawar (Saroo menino), Rooney
Mara (Lucy), Nicole Kidman (Sue, a mãe adotiva) e David Wenham (John, o pai
adotivo). Impossível não se emocionar com a trajetória épica de Saroo. Um belo
filme que merece ser visto. Espere os créditos finais, nos quais aparecem os personagens verdadeiros se encontrando, inclusive a mãe biológica e a mãe adotiva. Lenços de papel à mão...