segunda-feira, 25 de agosto de 2014

“WALT NOS BASTIDORES DE MARY POPPINS”, (tradução infeliz para “Saving Mr. Banks), 2013, conta a história verídica da visita da escritora australiana Pamela Lyndon Travers, mais conhecida por P.L. Travers, aos Estúdios Disney em 1961. Ela foi convidada pelo próprio Walt Disney, que há 20 anos tentava comprar de Travers os direitos de “Mary Poppins”. Travers nunca cedeu, temendo que seu romance fosse transformado, como ela dizia, num dos “desenhos bobocas” da Disney. Durante a visita, a escritora, interpretada por Emma Thompson, mostra-se uma mulher mal-humorada, intransigente e grosseira. Ao apresentar a Travers o roteiro, as músicas e como seriam desenvolvidos os personagens, a equipe de Walt Disney (Tom Hanks) quase vai à loucura com as interferências da escritora. O ambiente, que já era pesado, fica insuportável quando Travers recusa a utilização de animação na cena em que Dick Van Dyke dança com os pinguins. “Vocês que treinem pinguins de verdade”, ordenava. Revoltada, ela não assina a cessão dos direitos e volta para a Inglaterra, onde morava na época. Walt vai até Londres tentar convencê-la. O resto todo mundo conhece. “Mary Poppins” foi lançado em 1964 e se transformou num dos maiores sucessos mundiais da Disney. Tão interessante quanto à visita aos estúdios Disney é o enfoque dado, em flashbacks, ao relacionamento de Travers com seu pai, Roberto Goff (Colin Ferrel), que sempre incentivou a filha a inventar personagens de fantasia. A influência do pai talvez tenha sido a principal motivação de Travers para se tornar escritora. 
“OS HOMENS SÃO DE MARTE... E É PRA LÁ QUE EU VOU!”, 2013, direção de Marcos Baldini, é uma comédia adaptada para o cinema da peça homônima que ficou em cartaz durante 8 anos nos teatros brasileiros, sempre com grande sucesso de público. No filme, Fernanda é novamente interpretada pela atriz Mônica Martelli, que esteve nos palcos como a principal protagonista da peça (ela também é a autora). A história conta as aventuras e desventuras amorosas de Fernanda, que é dona de uma empresa organizadora de eventos especializada em casamentos. Ela tem 39 anos de idade, é bonita, charmosa, alta, corpão... Enfim, um mulherão. Mas solteira. A frustração dessa condição virou trauma e ela resolve partir para o ataque. Conhece alguns caras promissores, fica toda animada, mas logo vem a decepção e a frustração. Todo esse esforço para colocar uma aliança na mão esquerda é acompanhado pelos seus dois assistentes na empresa, Aníbal (Paulo Gustavo) e Nathalie (Daniele Valente), responsáveis pelos momentos mais engraçados do filme, que ainda tem no elenco Eduardo Moscovis, Humberto Martins, Marcos Palmeira, Irene Ravache, Peter Ketnath e Herson Capri. Comparada com outras comédias nacionais mais recentes, esta fica um pouco acima da média em termos de qualidade. Diversão garantida!               

domingo, 24 de agosto de 2014

 

“PEDALANDO COM MOLIÈRE” (“Alceste à Bicyclette”), 2013, dirigido por Phil ippe le Guay, é daqueles filmes para se curtir e degustar com calma, apreciar os diálogos inteligentes, cultos – sem pedantismo – e, acima de tudo, bem humorados. Todos esses predicados fazem desse filme francês uma delícia de assistir e saborear. Gauthier Valance (Lambert Wilson), um ator famoso em evidência numa série de TV, vai até Île de Ré (as locações são lindas) tentar convencer Serge Tanneur (Fabrice Luchini) a voltar aos palcos para atuar na peça “O Misantropo”, de Molière.  Afastado dos holofotes há três anos, Serge era um grande ator de cinema e teatro. Ele concorda em ensaiar a peça com Gauthier, mas não deixa claro se vai participar ou não. Durante alguns dias, Serge e Gauthier terão uma convivência bastante difícil. Em meio aos atritos, os dois protagonistas vão garantir momentos de muito humor, alguns até hilariantes. Mas é nos diálogos inteligentes que o filme se sobrepõe, lembrando o também ótimo “Conversas com meu Jardineiro”, com outra dupla de atores franceses consagrados, Daniel Auteuil e Jean-Pierre Darroussin. Os dois filmes são imperdíveis.             
“BELÉM – ZONA DE CONFLITO” (“Bethlehem”), 2013, direção de Yuval Adler, é um drama israelense centrado na história de Sanfur (Shhadi Marei), jovem palestino que há dois anos é informante do serviço secreto de Israel. Ele foi cooptado pelo agente Razi (Tsahi Halevi), com o qual mantém um relacionamento de amizade. As coisas se complicam quando o irmão mais velho de Sanfur, Ibrahim, assume a autoria de um atentado à bomba que matou dezenas de israelenses em Jerusalém. O filme mostra claramente que as facções que lutam pela causa palestina não se entendem, embora tenham em comum um ódio mortal a Israel. Algumas são radicais, outras moderadas. Só que divergem o tempo inteiro sobre como devem agir. E acabam brigando entre si. Quando Ibrahim é assassinado pelos soldados de Israel, por exemplo, duas facções disputam o cadáver à tapa, cada qual querendo associar o “mártir” à sua sigla. Em meio a tudo isso, alguns palestinos começam a desconfiar que Sanfur é colaboracionista. Ele terá de sujas as mãos de sangue para provar que não é. O clima de tensão predomina durante todo o filme, mostrando que viver por aquelas bandas não é nada fácil. É caminhar todos os dias na corda bamba. Quando o filme termina, com tantas demonstrações de ódio de um lado e de outro, você tem a sensação mais do que evidente de que a paz nunca chegará àquela região. Sempre será uma zona de conflito.         

sábado, 23 de agosto de 2014

Vem da Romênia o ótimo drama “INSTINTO MATERNO” (“Pozitia Copilului”), valorizado por uma estupenda atriz, Luminita Gheorghiu. Ela interpreta Cornelia, uma dama da alta sociedade de Bucarest. Ela tem um filho de 34 anos, Barbu (Godgan Dumitrache), um cara supermimado que mora fora para fugir das garras possessivas da mãe. Uma noite, Barbu dirigia em alta velocidade quando, ao ultrapassar outro veículo, atropela e mata um menino. Barbu é detido numa delegacia para ser interrogado. Cornelia é avisada e imediatamente vai para a delegacia. A partir daí, ela vai fazer de tudo – mentir, chantagear, oferecer propina etc. – para livrar Barbu de um processo. Ela trata Barbu como se fosse uma criança e este, por sua vez, a agride com impropérios e ofensas, de vadia pra cima. É aí então que entra em cena a grande atriz. Ela ouve o filho xingá-la com uma expressão tal de passividade que parece que não está ouvindo nem se importando com que Barbu está dizendo. Cornélia tem uma fixação obsessiva tão grande pelo filho que, quando vai até a casa dos pais do garoto falecido pedir desculpas e se derrama em lágrimas, a gente fica em dúvida se ela está sendo sincera ou fingindo. Com uma atriz como Luminita, fica difícil saber. O filme, dirigido por Calin Peter Netzer, conquistou, merecidamente, o Urso de Ouro no Festival de Berlim 2013.                

sexta-feira, 22 de agosto de 2014


Todo mundo conhece os fatos que levaram Getúlio Vargas a cometer suicídio. O presidente vivia uma enorme crise política, agravada por acusações de corrupção e, principalmente, pelo atentato da Rua Tonelero, que matou um major da Aeronáutica e feriu o então deputado federal Carlos Lacerda, na época o mais ferrenho adversário do governo Vargas. O segurança pessoal do presidente, Gregório Fortunato, foi acusado de planejar o crime e Vargas acabou acusado como mandante, embora nada disso tenha sido provado. O drama histórico “GETÚLIO”, 2013, dirigido por João Jardim, conta tudo isso e - o mais interessante - é que coloca o espectador nos bastidores da crise, ou seja, diretamente nas salas do Palácio do Catete, então residência de Getúlio e sede do seu governo. A gente acompanha as conversas de bastidores, as reuniões ministeriais, os encontros de Getúlio com ministros, políticos e assessores. O filme evidencia, com competência, todo aquele clima de tensão gerado pela grave crise - toda a ação ocorre durante os 19 dias anteriores ao suicídio. O filme dá destaque maior à presença de Alzira Vargas (Drica Moraes), filha do presidente e sua principal conselheira. Tony Ramos faz um Getúlio fisicamente quase perfeito, mas sua voz poderia apresentar outro tom (é muito a voz do ator) e também acentuar mais o sotaque gaúcho do presidente. As filmagens aconteceram no próprio Palácio do Catete, hoje um museu. No elenco, estão ainda Daniel Dantas, Alexandre Borges, Clarisse Abujamra, Leonardo Medeiros, Jackson Antunes e Marcelo Médici.  

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Não é muito comum chegar até nós, seja no cinema ou em DVD, um filme produzido na Islândia, cuja indústria cinematográfica é bem recente – anos 80. Vem de lá um filme produzido em 2006 chamado “TRILHA FRIA” (“KÖLD SLÓO”, ou no inglês "Cold Trail"). Trata-se de um suspense dirigido por Björn Br. Björnsson. A história é centrada em Baldur (Pröstur Leó Gunnarsson), um jornalista investigativo de um jornal da capital Reykjavík. Quando é noticiada a morte acidental de um homem encarregado da segurança de uma usina de energia elétrica nos confins do deserto ártico islandês, vem à tona um segredo do passado. A mãe de Baldur, por uma foto publicada no jornal, identifica a vítima como sendo o pai do jornalista. É motivo suficiente para Baldur seguir para a usina com o objetivo de investigar o que aconteceu. Segundo a polícia, havia sido um acidente. Baldur, porém, vai descobrir fatos escabrosos relacionados com o pessoal que trabalha na usina, inclusive caça ilegal e contrabando de renas. Quando você pensa que o filme vai acabar, ainda haverá uma reviravolta surpreendente no final, justamente esclarecendo o assassinato. Mas não se entusiesme muito: o filme não é nenhuma Brastemp, apesar dos cenários gelados repletos de neve. Em todo caso, vale pela curiosidade de assistir a um filme islandês.      

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A mente humana é capaz de criar obras artísticas espetaculares, mas também é capaz de criar muita bobagem. Nesta última categoria, incluo “SOB A PELE” (“Under the Skin”), 2013, um filme inglês de ficção científica dos mais esquisitos. Nem a nudez frente e verso de Scarlett Johansson é capaz de salvar esse abacaxi. Ela é uma alienígena que chega à Terra e ocupa o corpo de uma mulher. No volante de uma van, ela percorre ruas e estradas da Escócia, oferecendo carona para homens que depois serão atraídos por ela para uma casa abandonada. Lá dentro, ela tira a roupa e eles vão atrás, babando e também se despindo, mas aí submergem dentro de uma água escura. Numa noite, ela dá carona a um homem todo deformado, tipo “Homem-Elefante”, e sente algo por ele que é humano: pena. A partir daí, não consegue mais cumprir sua missão. Há várias situações inexplicáveis, como um motoqueiro que passa o filme inteiro indo de lá pra cá, ou o afogamento de uma mulher e o filho numa praia. Scarlett Johansson continua insossa, mas tem um corpão, isso não se pode negar. A história foi baseada no romance homônimo de Michel Faber. Se por acaso você ler uma crítica elogiando o filme, lembre de uma frase do crítico Rubens Ewald Filho: “Crítico adora o que não entende”
O drama inglês “LOCKE”, 2013, dirigido por Steven Knight, que também escreveu o roteiro, não é um filme muito fácil de assistir. A não ser que você não se incomode em passar duas horas vendo um homem falando ao telefone o tempo inteiro. E, pior, ao volante de um carro por uma estrada. Ivan Locke (Tom Hardy), engenheiro-chefe de uma grande obra na cidade inglesa de Birmingham, entra em seu carro após o final do turno de trabalho. Ele recebe um telefonema de Bethan (Olivia Colman), uma mulher com a qual, meses antes, teve um caso de uma noite. Ela diz que está grávida e, naquele exato instante, está indo para um hospital em Londres, onde mora, e pede que Locke esteja ao lado dela quando o bebê nascer. Ele concorda em ir. Durante a viagem, Locke fala sem parar ao telefone, seja com seu chefe na obra, com o seu encarregado, com sua mulher, seu filho, e ainda conversa hipoteticamente com o pai, responsabilizando-o por todos os seus traumas. É um blá-blá-blá sem fim. O filme dura o tempo real da viagem de Locke até Londres. Teve crítico que adorou, achou uma obra-prima. Arrisque se quiser, mas já está avisado(a). 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

“DUAS VIDAS” (“Zwei Leben”), 2013, é uma co-produção Alemanha/Noruega, direção de George Maas. Trata-se de um drama com enredo bastante complicado. O ano é 1990, portanto, logo depois da queda do muro de Berlim. Katrine (Juliane Köhler) leva uma vida tranquila na Noruega ao lado da família. Um dia, porém, recebe a visita do advogado Sven Solbach (Ken Duken), que está entrando com um processo judicial contra o governo norueguês por um fato que ocorreu no final da 2ª Guerra Mundial: a liberação de bebês concebidos por norueguesas e soldados alemães para a Alemanha. Pronto, a vida de Katrine vira do avesso. O advogado tem provas de que ela é uma dessas crianças e quer o seu depoimento no tribunal. Katrine, porém, quer se manter fora do processo, pois tem medo de que segredos do seu passado sejam revelados. Em flashbacks, ela vai relembrando tudo o que aconteceu desde a sua fuga da Alemanha Oriental, incluindo fatos tenebrosos que não podem vir à tona, pois podem colocar sua vida e a da sua família em grande risco. “DUAS VIDAS” lembra muito aqueles filmes de espionagem que contam histórias do tempo da Guerra Fria envolvendo os países da Cortina de Ferro. Além da ótima Juliane Köhler, o elenco traz Liv Ullmann e Suen Mordin. O filme foi indicado para representar a Alemanha no Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro.    
O drama turco “A PARTÍCULA” (“Zerre”), 2012, dirigido por Erdem Tépegöz, é pra lá de pesado, baixo astral, muito longe, mas muito longe mesmo, de um filme que possa ser chamado de entretenimento. O pano de fundo é a crise econômica na Turquia, o desemprego, a falta de opções e muita pobreza. Zeynep (a excelente Jale Arikan) é uma mulher bem sofrida, mãe solteira, mora com a mãe e a filha deficiente num bairro pobre do subúrbio de Istambul. Trabalha numa fábrica, mas o que ganha não dá nem pra comer. Ela e a mãe ainda fazem sachês perfumados para vender, mas a renda é quase nada. Ela tem a ajuda diária do irmão, que trabalha num restaurante e faz uma marmita com as sobras dos clientes e dá a Zeynep. Como desgraça pouca é bobagem, Zeynep é demitida da fábrica. E não é o tipo de demissão “passa no RH”. Ela é literalmente empurrada aos trancos para fora da fábrica, sem receber um tostão, ou melhor, lira turca. Desesperada, ela passa a procurar emprego e acaba conseguindo um trabalho temporário numa fábrica têxtil longe de Istambul, onde deverá permanecer por alguns dias. Na fábrica, ela é assediada sexualmente pelo seu chefe e foge de volta para Istambul. O desfecho do filme deixa claro que não há perspectiva para Zeynep e a família senão o sofrimento e a penúria. A atriz Jale Arikan é a alma do filme, que foi eleito como o melhor do Festival de Cinema de Moscou em 2013.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

“VIVER É FÁCIL COM OS OLHOS FECHADOS” (“Vivir es Facil com los Ojos Cerrados”), Espanha, 2013, dirigido por David Trueba (irmão do também cineasta Fernando Trueba), é baseado numa história real. Aliás, uma história bastante interessante. O ano é 1966. Antonio (Javier Câmara) é um professor de inglês em Albaceta e que, apaixonado pelos Beatles, utiliza em suas aulas as letras das canções da banda inglesa. Quando soube que John Lennon viria à Espanha para a Almeria (Andaluzia) participar das gravações do filme de “Como Eu Ganhei a Guerra”, dirigido por Richard Lester, ele pegou seu carro e rumou para Almeria, onde estava instalado o set das filmagens. Ele queria, de qualquer jeito, conhecer Lennon pessoalmente. No caminho, Antonio dá carona a dois jovens, Juanjo (Fracesc Colomer) e Belén (Natalia de Molina), com os quais dará sequência à viagem e fará uma singela amizade. Depois de muito esforço, Antonio finalmente consegue conversar com Lennon, que lhe mostra uma canção que acabara de compor: “Strawberry Fields Forever”. Segundo consta, Lennon realmente compôs a música inspirado nas plantações de morango existentes ao redor de Almeria (o título do filme é um trecho da letra da música). Dizem também que foi somente depois da conversa de Lennon com o professor espanhol que os Beatles resolveram encartar as letras das músicas nos seus próximos discos. Todos esses fatos realmente aconteceram, inclusive o filme com Lennon, o que torna este filme espanhol ainda mais saboroso. Não foi à toa que conquistou todos os principais prêmios da 28ª edição do Prêmio Goya, o Oscar espanhol.    

domingo, 17 de agosto de 2014

“CHE” foi um projeto audacioso – co-produção França/Espanha/EUA - que tinha por objetivo retratar a trajetória do médico e guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara. O diretor Terrence Malick quase ficou com o filme (ainda bem que não), que enfim foi dirigido por Steven Soderbergh em 2007. Com mais de quatro horas de duração e dividido em duas partes (Parte 1: “O Argentino” e Parte 2: “A Guerrilha”), o filme estreou no Festival de Cannes em 2008 e deu o prêmio de Melhor Ator a Benício Del Toro, realmente impressionante na pele de Che. O elenco ainda conta com Demián Bichir, ótimo como Fidel Castro, Rodrigo Santoro, como Raúl Castro, e mais Franka Potente, Joaquim de Almeida, Julia Ormond, Catalina Sandino Moreno e Lou Diamond Phillips, além de Matt Damon, que faz uma ponta. A primeira parte centra a história na revolução que derrubou o ditador Fulgêncio Batista do governo de Cuba. A segunda parte é toda voltada para a presença de Che na Bolívia, onde liderou uma guerrilha armada até ser morto pelos soldados do exército boliviano, em outubro de 1967. Quem quiser conhecer a trajetória dessa figura mítica não deve perder essa grande obra histórica do cinema.   
Em 2003, o menino Colton, de 4 anos de idade, filho de um pastor de uma pequena cidade do Estado de Nebraska (EUA), é operado de emergência por causa de uma crise de apendicite. O estado dele é tão grave que poucos acreditam que fosse viver. Mas viveu. E, quando acordou, disse que esteve no Céu, viu os anjos, conversou com Jesus e com outras pessoas que já haviam morrido – que ele nem sabia que tinham existido. Uma experiência do tipo “quase morte”. O relato do garoto revela-se surpreendente pelos detalhes. Quando ouve o filho descrever o que viu no Céu e com quem conversou, o pastor coloca em cheque a sua própria fé, dividindo suas dúvidas com a comunidade, o que quase lhe custou o cargo na igreja. Essa história virou livro de grande sucesso e, agora, um filme, “O CÉU É DE VERDADE” (“Heaven is for Real”), que arrastou multidões para os cinemas nos EUA quando foi lançado, no início de 2014. O filme conseguiu reunir uma equipe de atores e atrizes de peso, como Greg Kinnear (pastor Todd Burpo), Kelly Reilly (Sonja Burpo), Margo Martindale (Nancy) e Thomas Haden Church (Jay), além do diretor Randall Wallace (“O Homem da Máscara de Ferro”). O menino Colton é vivido pelo ator mirim estreante Connor Corum. Enfim, um filme para discutir, refletir e testar a nossa fé.    

sábado, 16 de agosto de 2014

“ATÉ QUE PROVEM A INOCÊNCIA” (“Until proven innocent”), 2009, é um telefilme produzido na Nova Zelândia. Conta a história, verídica, de um grave erro judiciário ocorrido naquele país nos anos 90. David Dogherty, aqui interpretado por Cohen Holloway, foi acusado e condenado em 1993 pelo sequestro e estupro de uma menina de 11 anos. O caso aconteceu na cidade de Auckland. Enquanto cumpria pena, ele foi entrevistado pela jornalista Donna Chisholm (Jodie Himmer), do jornal Sunday Star-Times. Ao conhecê-lo, Donna acreditou que Dogherty estava sendo vítima de um erro judiciário e mobilizou o advogado Murray Gibson (Peter Elliott) para tentar uma apelação para um novo julgamento. O caso ainda envolveu o cientista Arie Geursen (Tim Spite), que analisou a condenação explorando a versão controversa do DNA encontrado na menina. No fim, a comprovação daquele velho ditado: “A Justiça tarda, mas não falha”. Fora o interesse por conhecer um caso que certamente não chegou ao nosso noticiário, e por retratar um grave erro judiciário, o filme deve ser indicado para estudantes de Direito. Até pelo seu tom didático ao apresentar como funciona o sistema judiciário da Nova Zelândia. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O australiano “O FOGUETE” (“The Rocket”), 2013, é mais um daqueles filmes que nos encantam e nos emocionam. É o filme de estreia do diretor Kim Mordaunt, que consegue extrair, de um cenário de extrema pobreza que é o interior do Laos e de uma história envolvendo camponeses no limite da miséria, momentos de grande sensibilidade e até de bom humor. Só pra se ter uma ideia, a trilha sonora traz o balanço de James Brown. Essa grande sacada tem tudo a ver com o hilariante personagem Purple (Thep Phongam), uma espécie de cover do cantor americano. Vestido com um terno lilás – que nunca tira do corpo - e com o penteado igual ao de Brown, ele é o responsável pelos momentos mais engraçados do filme. A história gira em torno do menino Ahlo (Sitthiphon Disamoe), cuja família – juntamente com dezenas de outras - é obrigada a sair da vila onde mora por causa da construção de uma represa. Eles são levados para outra região e lá são alojados num acampamento improvisado e em condições quase sub-humanas. É lá que Ahlo vai conhecer Kia (Loungnam Kaosainam), uma gracinha de menina com a qual fará uma grande amizade (o tio de Kia é justamente o tal cover do James Brown). No final, o filme reserva espaço para um concurso de foguetes, uma tradição local para “chamar” chuva. Ahlo vai participar, com a ajuda de Purple, e tentar ganhar o prêmio em dinheiro. Além de ter representado a Austrália no Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro, “O FOGUETE” foi premiado em Festivais como o de Berlim, Tribeca, Sidney e Melbourne. Mais do que imperdível, um filme obrigatório. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

“METEORA” (“Metéora”), 2012, é um drama grego de fundo religioso que explora pecado e culpa ao apresentar uma paixão proibida. Não é um filme para qualquer público. É contemplativo, arrastado e com poucos diálogos. Em meio a citações bíblicas e efeitos de animação, o filme conta a história de dois religiosos – o monge Theodoros (Theo Alexander) e a freira Urania (a atriz russa Tamila Koulieva) – que moram em monastérios da Igreja Cristã Ortodoxa na  região central da Grécia chamada Meteóra. Eles se encontram secretamente para conversar e rezar, mas a tentação da carne é mais forte, e aí ninguém segura. De início, Urania consegue rejeitar os avanços de Theodoros, mas depois se entrega de corpo e alma à paixão. Os protagonistas são também representados por figuras de animação criadas ao estilo da arte bizantina, criadas pelo diretor Spiros Stathoulopoulos para complementar a narrativa. A trilha sonora é composta por cantos gregorianos, o que reforça ainda mais o sentido religioso da história. “METEORA” foi exibido no Festival de Berlim 2012 e arrancou elogios de muitos críticos. Mas repito: não é um filme que se possa chamar de entretenimento leve.   

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

“UMA VIDA COMUM” (“Still Life”), 2013, é um drama inglês bastante interessante. John May (Eddie Marsan) trabalha para uma repartição pública municipal de Londres e sua função é localizar familiares e amigos de pessoas que morrem sozinhas. Muitas vezes ele não encontra ninguém que tenha relação com o falecido, mas faz questão de promover um funeral digno, redigindo ele mesmo o obituário e também o discurso funerário.  Para elaborar o perfil do morto e redigir o discurso, ele estuda fotos e objetos encontrados na casa do falecido. May sempre vai à cerimônia. Enfim, um homem bom, que extrapola suas obrigações de trabalho para homenagear os mortos que nunca conheceu. Pessoalmente, porém, May é solitário e triste. Não tem família nem amigos. Ao iniciar a investigação sobre um homem chamado Billy Stoker, May é demitido, mas pede a seu chefe que este seja seu último trabalho. E a este May dedica-se de corpo e alma, localizando amigos e familiares. O final do filme reserva um acontecimento surpreendente e, no desfecho, uma cena bastante comovente. Enfim, um filme que vale a pena conferir. O diretor do filme é o italiano Uberto Pasolini, que não tem parentesco com Pier Paolo, mas é sobrinho do grande diretor Luchino Visconti. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O drama “O CADERNO GRANDE” (“A NAGY FÜZET”), dirigido por János Szász, foi o candidato oficial da Hungria na disputa do Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro. A história é baseada no livro escrito por Ágota Kristof. Em 1944, em meio à invasão do país pelos alemães, mãe leva seus dois filhos gêmeos de 12 anos de idade para morar com a avó numa pequena fazenda no interior da Hungria. Os dois garotos vão sofrer o diabo nas mãos da avó, uma velha azeda e mal-humorada, cujo maior prazer na vida é embebedar-se toda a noite e xingar o marido falecido. Ela chama os netos o tempo inteiro de “bastardos” e todo dia de manhã adora dar uns safanões nos garotos, que adoram chamá-la de bruxa. Os dois gêmeos não se desgrudam por um só minuto e é essa união que fará com que eles consigam sobreviver não só aos maus-tratos da avó, como a outras situações difíceis aos quais são submetidos. Aliás, desde o começo do filme os gêmeos apanham muito, a tal ponto que resolvem bater um no outro para se acostumar com a dor. O filme é altamente depressivo e melancólico. Crianças em cenários de guerra sempre aumentam a dramaticidade da história. O tal “caderno grande” é um tipo de diário que os meninos escrevem todas as noites contando os acontecimentos do dia. Não adianta citar o elenco, composto por ilustres desconhecidos, pelo menos para nós. Mas há que se destacar o desempenho dos dois garotos e, principalmente, da atriz que faz a avó. Esta sim, vale a pena citar: Piroska Molnár.     

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

“CÍRCULOS” (“KRUGOVI”), 2012, é uma co-produção Sérvia/Croácia/Alemanha, dirigida por Srdan Glolubovic. Trata-se de um drama bastante pesado sobre culpa e perdão. O filme começa em 1993, em plena guerra étnica na Bósnia. O soldado sérvio Marko (Vuk Kostic) está de folga e volta ao seu vilarejo para visitar a família. Quando está na praça bebendo com um amigo, ele vê três soldados espancando Haris (Leon Lucev), um comerciante muçulmano que ele conhece faz tempo. Marko sai em defesa de Haris, consegue impedir que os soldados o matem. Só que Marko é brutalmente agredido pelo trio e acaba morrendo no meio da praça. Quinze anos depois, as feridas desse episódio continuam abertas para cinco personagens que, de uma forma ou de outra, tiveram relação com o crime ou eram ligadas a Marko, desencadeando as mais variadas situações. Bogdan (Nikola Rakocevic), um dos assassinos de Marko, é internado num hospital em estado grave e será atendido pelo dr. Nebojsa (Nebojsa Glogovac), que era o melhor amigo de Marko. Outra história vai envolver Nada (Hristina Popovic), viúva de Marko, que viaja até a Alemanha para pedir ajuda a Haris, o muçulmano que seu marido salvou do espancamento. A outra história vai colocar frente a frente o pai de Marko e o filho de um dos assassinos. O “Círculos” do título, portanto, faz referência às voltas que a vida dá e as coincidências e encontros que proporciona. Exibido na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e premiado em vários festivais pelo mundo afora, o filme representou a Sérvia no Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro. Um filme difícil, mas de grande impacto emocional.            

domingo, 10 de agosto de 2014

O drama independente norte-americano “MARGARET”, dirigido por Kenneth Lonergan, foi produzido em 2006, mas somente lançado em 2011. Dizem que por causa de ações judiciais, cujos motivos não foram divulgados. É um filme, no mínimo, intrigante. A começar pelo título, pois não há personagens com este nome. “Margaret”, na verdade, é um nome apenas mencionado num poema durante uma aula de literatura. A história gira em torno de Lisa Cohen (Anna Paquin), uma estudante de 17 anos que um dia, ao tentar chamar a atenção de um motorista de ônibus numa avenida movimentada, acaba provocando um acidente com morte. Com medo de prejudicar o motorista do ônibus, ela mente em seu depoimento à polícia e mais tarde quer voltar atrás. Esse contexto envolvendo Lisa serve como pano de fundo para inúmeras situações paralelas, a principal delas mostrando o relacionamento difícil de Lisa com a mãe Joan (a ótima J. Smith-Cameron). No filme inteiro, as duas travam verdadeiras guerras verbais. Uma diz uma coisa, a outra entende diferente, e vice-versa. E tudo acaba numa gritaria infernal. Diálogos desse tipo, descontrolados e agressivos, permeiam o filme inteiro envolvendo diversos personagens, o que pode incomodar quem está a fim de um entretenimento leve. O pessoal não se entende, e dá-lhe discussão. É um filme longo (150 minutos). Mas não deixa de ser um filme acima da média. Além de Paquin e J. Smith-Cameron, estão no elenco Mark Ruffalo, Matt Damon, Jean Reno, Matthew Broderick e Allison Janney, entre outros.
Às vésperas das eleições presidenciais de 1950 na Colômbia, o candidato favorito Jorge Elicier Gaitán, do Partido Liberal, é assassinado a tiros quando saía de seu escritório. O caso provocou uma grande comoção no país e foi chamado de “El Bogotazo”. Este é o pano de fundo do filme colombiano “ROA”, 2012. A figura central do filme é Juan Roa Sierre, pai de família desempregado e que tem como ídolo o candidato Gaitán (Santiago Rodréguez). Ele o procura pessoalmente e diz estar passando por sérias necessidades e pede que o ajude arrumar um trabalho. O político trata Roa com arrogância, diz não poder fazer nada e lhe dá três berinjelas como compensação. Decepcionado com o tratamento, Roa passa a ter raiva de Gaitán, a ponto de planejar seu assassinato. A situação se complica ainda mais quando um grupo rival a Gaitán descobre as intenções de Roa e passa a chantageá-lo, colocando em risco a vida da sua família. Baseado no livro “O Crime do Século”, de Miguel Torres, o filme coloca em dúvida a culpa de Roa pelo assassinato. Um mistério histórico que perdura até hoje. Além da história em si, que recoloca em evidência um fato importante na história política da Colômbia, há que se destacar o capricho na reconstituição de época, muito bem feita. O filme é dirigido por Andrés Baiz, o mesmo de “O Quarto Secreto” (“La Cara Oculta”), um dos melhores suspenses dos últimos anos. O elenco conta ainda com Catalina Sandino Moreno, colombiana que concorreu ao Oscar/2005 de Melhor Atriz pelo filme "Maria Cheia de Graça". Aqui, ela faz o papel de esposa de Roa.