sábado, 24 de janeiro de 2015

Uns escolhem escalar os picos mais altos do mundo, outros pular de bungee jump ou atravessar o topo de edifícios  equilibrando-se numa corda e ainda aqueles que se arriscam nadando entre tubarões. Enfim, há louco e aventureiro para tudo. “TRILHAS” (“Tracks”), 2013, conta uma dessas histórias malucas. Em 1977, a jovem australiana Robin Davidson (Mia Wasikowska), então com 26 anos, com o apoio da Revista National Geographic, decide atravessar o impiedoso deserto da Austrália a partir da cidade de Alice Springs até o Oceano Índico, totalizando uma distância de 2.700 quilômetros. Com um detalhe: a pé. E apenas com a companhia de sua cadela de estimação e quatro camelos – a viagem durou 9 meses. De vez em quando, em seu caminho, aparecia o fotógrafo da revista Rick Smolan (Adam Driver) para tirar algumas fotos. Uma aventura e tanto, repleta de perigos e sacrifícios. Em alguns momentos, tal era o seu nível de exaustão, Robin pensou em desistir. Mas foi até o fim, o que na época tornou a moça mundialmente famosa. Aliás, depois disso, Robin continuou aventurando-se pelo mundo afora, incluindo atravessar os EUA numa moto e trabalhar como guia turístico na Índia. Para quem gosta de viagens inusitadas e de sofrer junto com o viajante, “TRILHAS” é um ótimo programa.
A bonita e competente atriz norte-americana Maria Bello já trabalhou em bons filmes como “Marcas da Violência”, “Os Suspeitos” e “O Troco”. Ultimamente, porém, suas escolhas não têm sido das melhores. A mais recente delas é o suspense “BIG DRIVER- EM BUSCA DE VINGANÇA” (“Big Driver”), produzido em 2014 para o Canal Lifetime e dirigido por Mikael Salomon (“O Enigma de Andômeda”). Trata-se de uma história baseada num conto do escritor Stephen King. Bello interpreta Tess Thorne, uma famosa escritora de romances policiais, de mistério e suspense – assim como King. Convidada para autografar seu mais recente livro, Tess vai a uma pequena cidade de New England. Uma de suas fãs sugere que ela faça a viagem de volta utilizando-se de uma estrada no meio da floresta. Aí começa o maior pesadelo para Tess, que será vítima de um psicopata sexual. Além de estuprada, ela é violentamente espancada e depois deixada para morrer dentro de um tubo de drenagem. Só que ela não morre. Quando se recupera, Tess parte para a vingança. Para curtir o filme, o espectador tem de entrar no clima das histórias de Stephen King e aceitar que a protagonista converse com fantasmas, com os mortos e até com o GPS do seu carro. Nada que mereça uma recomendação entusiasmada.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Uma sensação no mínimo desagradável é o que se tem ao assistir ao drama grego “O GAROTO QUE COME ALPISTE” (“To Agori Troei To Fagito tou Pouliou” no original, ou “Boy Eating the Bird’s Food” em inglês). O filme é bastante indigesto e deprimente. Trata-se de uma chocante alegoria à grave situação econômica da Grécia a partir de 2010. O jovem Yorgos (Yiannis Papadopoulos), de 23 anos, é um cantor lírico desempregado, não tem amigos e está distanciado da família. Vaga pelas ruas de Atenas remexendo nas latas de lixo para encontrar o que comer. Quando não encontra, divide o alpiste com seu canário e se alimenta com o próprio sêmen depois de se masturbar (desagradável ou não é?). De vez em quando, entra no apartamento do vizinho, um velho doente, para roubar comida e alguns objetos para vender no penhor. Com a mente entravada por dias sem comer, Yorgos tenta manter a pouca sanidade que lhe resta, mas ele é a verdadeira personificação do fracasso. E aí ninguém dá jeito. O filme marcou a estreia de Yiannis Papadopoulos na direção. Começou bem, pois o filme foi indicado para representar a Grécia no Oscar/2014 de Melhor Filme Estrangeiro. De qualquer forma, é bom alertar o espectador desavisado: não espere um entretenimento agradável. Pelo contrário. 
O drama polonês “EM NOME DO...” (“W Imie...”), 2012, estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim/2013 e causou grande polêmica. Não é para menos, pois o filme aborda o tema homossexualidade na Igreja. E mais: produzido no país mais católico da Europa. O padre Adam (Andrzej Chyra) é responsável por uma paróquia no interior da Polônia. Além das missas, confissões e de outras atribuições da sua função, Adam cuida de um centro comunitário que abriga jovens problemáticos à beira da delinquência. Ele é muito querido por todos e muito dedicado. Joga futebol com os rapazes, participa das festas da cidade e está sempre disposto a ajudar a quem precisa, seja com uma palavra de carinho ou um conselho. Só que ele vive o terrível dilema da tentação da carne. Adam é homossexual enrustido e luta consigo mesmo para não sucumbir ao desejo, principalmente com relação aos jovens do centro comunitário. Para piorar, ele é assediado por uma jovem e fogosa paroquiana, ainda por cima casada. A diretora Malgoska Szumowska (de “Elas”, com Juliette Binoche) trata o tema com sobriedade e até alguma sensibilidade, aprofundando-se no sofrimento solitário do padre Adam e seu sacrifício para resguardar sua identidade sexual. O trabalho do ator Andrzej Chyra é fenomenal, um trunfo a mais desse excelente drama polonês.    

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

“ERROS DO CORPO HUMANO” (“Errors of the Human Body”), 2011, é uma co-produção Alemanha/EUA com direção de Eron Sheean. Trata-se de um drama de ficção com algumas pitadas de suspense. Geoff Burton (Michael Eklund), um renomado cientista canadense, é convidado para participar de uma experiência num mundialmente respeitado instituto para Biologia Celular e Molecular e Genética em Dresden (Alemanha). Aqui, sob a supervisão da dra. Rebecca Müller (Karoline Herfurth), está sendo desenvolvido um experimento que objetiva a busca do gene da regeneração humana. Geoff topa na hora, pois o estudo tem relação com a doença que acometeu seu filho ainda bebê. Como é possível prever, muitos diálogos são difíceis de entender, a não ser que você seja um cientista, um biólogo ou um geneticista. É claro que logo aparece o   famoso vilão de laboratório, o cientista com cara de maluco Jarek (Tomas Lemarquis), que será o responsável pela criação de um vírus devastador. Ao tentar desmascarar Jarek, Geoff acaba contaminado pelo vírus e, claro, correrá um grande risco de vida. Admira que um filme alemão seja tão ruim. O resultado final é constrangedor, a começar pelo ator canadense Michael Eklund, que passa o filme inteiro com olhos de peixe morto e ar de coitado, mesmo antes de ser contaminado. O personagem Jarek é tão ridículo e constrangedor que mais parece um vilão de filme infantil ou saído de um filme dos Trapalhões. Em todo esse contexto medíocre, surpreende a participação da ótima atriz alemã Karoline Herfurth, de “O Leitor”. De tão ruim, o filme, na verdade, deveria se chamar “Erros da Mente Humana”, referência óbvia ao criador desse abacaxi.     

“FILHA DISTANTE” (“Días de Pesca”), 2012, direção de Carlos Sorin, é mais um bom e sensível filme argentino. Conta a história de Marco Tucci (Alejandro Awada), que, aos 52 anos, depois de um problema sério de saúde, resolve mudar de vida. Deixa de fumar e de beber e começa a praticar exercícios físicos. Marco aproveita essa fase de mudança para também reencontrar a filha Anna (Victoria Almeida), que não vê há anos, retomar o relacionamento de outrora e aparar algumas arestas do passado. Para isso, Marco utiliza a desculpa de tirar umas férias para pescar tubarões no litoral da Patagônia, onde sua filha mora. Saindo de Buenos Aires, ele pega estrada de carro e, pelo caminho, com seu sorriso simpático e cativante, vai fazendo amizades. Ao chegar à cidade onde sua filha morava, vai descobrir que ela já havia mudado há uns três anos, sem avisar, o que já dá uma ideia da distância entre os dois – não apenas geográfica. No reencontro com a filha e o neto, que não conhecia, acontece um dos momentos mais tocantes do filme, quando, durante o jantar, Anna pede a Marco que cante “aquela canção”. Marco então canta a ária “Che Gelida Manina” a capella. Apesar de todos os esforços de Marco, a reaproximação será mais difícil do que ele imaginava. Além da história em si, o filme é bastante interessante porque toda a ação se desenrola em meio aos cenários deslumbrantes e belas paisagens, embora um tanto melancólicas, da Patagônia. Com exceção dos dois protagonistas principais, o restante do elenco é composto somente por atores amadores. Mais um gol de placa do cinema argentino.                                                                                          

domingo, 18 de janeiro de 2015

“SUSPENSÃO DA REALIDADE” (“Suspension of Disbelief”), 2012, é um drama inglês bastante criativo e instigante. Em sua trama policialesca, mescla o gênero noir com muito erotismo e um certo suspense. Na festa de aniversário de sua filha Sarah (Rebecca Nighty), o escritor e roteirista de cinema Martin (o ator alemão Sebastian Koch, de “A Vida dos Outros”), em crise criativa, conhece a exuberante Angelique (a atriz holandesa Lotte Verbeek). Conversam durante algum tempo e depois ele vai dormir. Dois dias depois, Angelique aparece morta, aparentemente, por afogamento. Em meio às investigações da polícia, aparece em cena Therese (Verbeek), a irmã gêmea de Angelique. Tal qual a irmã, Therese também é uma jovem sedutora. Por suas atitudes, difícil acreditar que ela tenha boas intenções. O aparecimento de Therese vai aumentar ainda mais o mistério com relação à morte de Angelique. Envolvido na história, Martin volta a encontrar ideias para um novo roteiro de filme. A partir daí, ficção e realidade se misturam num jogo que estimula o cérebro do espectador. A bela atriz holandesa Verbeek, como a mulher fatal em dose dupla, está ótima. É um filme bastante diferente e interessante, com a assinatura de Mike Figgs, diretor inglês que tem no currículo filmes como “Despedida em Las Vegas”, de 1996, que deu um Oscar de melhor ator para Nicolas Cage. Há 9 anos que ele não dirigia um longa. Quem curte cinema de qualidade e fora do padrão habitual vai gostar.              
A atriz Kristen Stewart, da Série Crepúsculo, faz a personagem principal do drama “CAMP X-RAY”, 2013, dirigido por Peter Sattler, que também escreveu o roteiro. Kristen é a soldado Amy Cole, uma jovem que sai de sua pequena cidade do interior dos EUA e se alista no exército. Seu objetivo é ir para o Iraque, conhecer uma nova cultura e, principalmente, conseguir a oportunidade de uma viagem para o Exterior, o que nunca conseguiu fazer. Só que ela é enviada para uma nova unidade da Prisão de Guantánamo, em Cuba, criada logo após o 11 de setembro de 2001. A missão de Amy é vigiar uma dezena de celas ocupadas por terroristas envolvidos com o atentado. A ordem é específica: não deixar que cometam suicídio. Uma das regras a serem cumpridas é jamais conversar com um detento. Só que Amy a descumpre e dá atenção especial para Ali (Payman Maadi, de “A Separação”), com o qual costuma conversar em seus turnos. Esse tipo de situação já foi mostrada em muitos outros filmes. Um clichê dos mais desgastados. No caso desse filme, chega a ser até inverossímil, já que em seu primeiro dia no corredor das celas Amy é atingida por um “coquetel” (como chamam um bolo de fezes) lançado por Ali, situação que mais provoca inimigos do que amigos. Resumo da ópera: o filme é fraco. Também não é fácil suportar quase duas horas em frente à telinha para ver a ação ser desenrolada quase que inteiramente num corredor de prisão. Stewart precisa ser mais rigorosa em suas próximas escolhas, já que provou que, além de bonita, é uma boa atriz, como já comprovaram filmes como o recente “Acima das Nuvens” e “On the Road”. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

“INVENCÍVEL” (“Unbroken”), 2014, é o segundo longa de Angelina Jolie como diretora (o primeiro foi “Terra de Amor e Ódio”, de 2011, sobre a Guerra na Bósnia). O filme conta a incrível história de Louis Zamperini, norte-americano filho de italianos, que nos dois últimos anos da Segunda Grande Guerra passou por uma experiência quase inacreditável. Pois tudo que está na tela aconteceu de verdade, exatamente como relata o livro “Unbroken: A World War II Story of Survival, Resiliense and Redemption”, escrito por Laura Hillenbrand (o roteiro do filme foi elaborado pelos irmãos Ethan e Joel Coen). Antes da guerra, Zamperini (Jack O’Connell) era um ótimo corredor. Chegou a competir nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, integrando a equipe de atletismo dos EUA. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, ele se alistou na Força Aérea. Em 1943, depois de um combate, seu avião caiu no Oceano Pacífico. Em dois botes de borracha, Zamperini e dois companheiros ficaram perdidos no mar durante 47 dias, sem água ou comida. Foi um verdadeiro milagre dois deles terem sobrevivido. Mas o pior viria depois. Resgatados pela marinha japonesa, eles são enviados para um campo de prisioneiros no Japão comandado pelo sádico oficial Watanabe (o ator e astro pop japonês Takamasa Ishihara). A vítima preferida para suas torturas era justamente Zamperini, que ficaria preso mais dois anos, até o final da guerra (ele morreu em julho de 2014, aos 97 anos). O filme é muito bom, embora tenha sido indicado ao Oscar 2015 em apenas 3 categorias: “Melhor Fotografia”, “Edição de Som” e “Mixagem de Som”.                                                             

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A pacata cidadezinha de Aramoana, no litoral da Nova Zelância, foi palco, em 1990, de um terrível massacre. David Gray (Matthew Sunderland), um desempregado estranho e antissocial, resolve se vingar do mundo. Compra uma espingarda automática de caça e, no dia 13 de novembro, começa a atirar nas pessoas da vizinhança. Mata 13 e fere outras tantas, até ser morto pela polícia. Este acontecimento trágico, que ficou gravado para sempre como uma das maiores carnificinas da Nova Zelândia, é mostrado em detalhes no filme “24 HORAS DE MASSACRE” (“Out of the Blue”), 2006. Como diz o título, foram 24 horas de pura aflição e medo para os habitantes de Amanoara, tempo em que o assassino ficou solto. Os policiais da cidade não estavam preparados para enfrentar uma situação desse tipo e nem habituados a utilizar armas. Enquanto esquadrões especiais não chegavam a Amaroana, seus moradores ficaram confinados em suas casas e orientados a trancar portas e janelas. O filme neozeolandês, dirigido por Robert Sarkies, pode ter muitos defeitos, mas tem pelo menos um grande mérito: manter um clima angustiante de tensão, horror e suspense do começo ao fim. O trauma foi tão grande que a população de Amanoara não permitiu que as filmagens ocorressem na cidade. Long Beach, uma localidade bem próxima, serviu de cenário para as filmagens. Mesmo que hoje em dia a gente esteja tão acostumada a fatos desse tipo, o filme incomoda muito principalmente pela forma como a matança é mostrada.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O novo filme do diretor canadense David Cronenberg é “MAPAS PARA AS ESTRELAS” (“Maps to the Stars”), 2014. Na verdade, o título poderia ser “Mentes Psicóticas”, já que praticamente todos os personagens apresentam distúrbios mentais, histerismo e comportamento neurótico. Como uma crítica velada a Hollywood, toda a ação se passa em Los Angeles e seus personagens têm, de uma forma ou de outra, uma ligação com a indústria cinematográfica. Tem a atriz ninfomaníaca e desequilibrada Havana Segrand (Juliane Moore), obcecada para ganhar o papel que foi de sua mãe num filme da década de 80. Tem a família Weiss, de comportamento totalmente disfuncional. A filha Agatha (Mia Wasirowska), piromaníaca, acaba de sair de uma prisão psiquiátrica e vai trabalhar como assistente de Havana. Seu irmão é o ator mirim Benjie (Evan Bird), um adolescente mimado e maléfico de 13 anos que aos nove já frequentava clínicas de reabilitação. O dr. Stafford (John Cusack) é o pai, um psicólogo que aplica métodos inusitados de terapia, e a histérica Christina (Olivia Wiliiams) é a mãe. Tem ainda Jerome (Robert Pattinson), um motorista de limusine que quer ser ator - este talvez o único personagem perto da normalidade. O filme é muito perturbador. Há cenas quase explícitas de sexo grupal, lesbianismo, incesto e violência, além do sobrenatural, aqui representado pela aparição de fantasmas. Mas não deixa de ser um filme bastante instigante na medida em que nos faz refletir sobre a potencialidade maléfica e doentia da mente humana em qualquer contexto, o que não livra nem a meca do cinema - o título do filme reforça essa intenção. Juliane Moore, que já está na disputa do Oscar 2015 como Melhor Atriz pelo Filme “Para Sempre Alice”, dá mais um show de interpretação, provando que é uma das melhores atrizes do cinema atual (por esse papel, ganhou o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes 2014). Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho do diretor David Cronenberg, recomendo três que considero seus melhores filmes: "Marcas da Violência”, “Um Método Perigoso” e “Senhores do Crime”.           

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

“A REUNIÃO” (“Återträffen”), 2013, é um drama sueco bastante original. Além de ter escrito o roteiro e dirigido o filme, Anna Odell também interpreta a personagem principal da história, a quem dá seu nome. Durante 9 anos, Anna estudou e se formou com a mesma turma. Só que, por seu comportamento meio alienado, era vítima de bullying por parte da maioria dos seus colegas. Pois essa turma toda vai se reunir 20 anos depois para um reencontro festivo. Anna não é convidada, mas mesmo assim aparece na festa, sendo friamente recebida e até ignorada por alguns. Mas ela não deixa barato. Vai fazer de tudo para estragar a reunião, acusando quem a tratava mal. Enfim, vai armar o maior barraco. Constrangimento geral. Na verdade, toda essa parte da história integra um filme realizado por Anna, agora diretora de cinema, no qual imagina o que aconteceria se ela realmente tivesse ido à tal reunião. Quando termina a produção do filme, Anna resolve convidar os verdadeiros personagens – seus antigos colegas de turma – para assistirem, causando novos constrangimentos e situações bastante embaraçosas. Não sei se a Anna real passou por esse tipo de experiência, mas a personagem que ela criou para o filme, de tão frustrada, é de uma chatice irritante. Dá vontade de entrar na telinha e acertar-lhe uns tabefes (perdão, Maria da Penha). De qualquer forma, o filme é interessante, mas só vai agradar a um público específico. “A Reunião” foi exibido pela primeira vez no Festival de Veneza 2013, com muitos elogios, e marca a estreia de Anna Odell na direção.                                                     

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O suspense “UM BOM CASAMENTO” (“A Good Marriage”) 2013, dirigido por Peter Askin, é baseado num conto de Stephen King publicado em 2010 no livro “Full Dark, No Stars”. Autor de ótimas histórias de arrepiar (só para lembrar algumas: “O Iluminado”, “Colheita Maldita” e “Carrie, a Estranha”), muitas delas adaptados para o cinema, King também assina o roteiro deste filme. Casados há 25 anos, Bob (Anthony LaPaglia) e Darcy Anderson (Joan Allen) ainda vivem em clima de lua de mel. Até que, um dia, ao procurar pilhas na garagem, ela encontra uma caixa contendo indícios de que o marido é o tal serial killer responsável pelo assassinato de várias moças na cidade. Ela entra em desespero. O que fazer diante dessa situação? Chamar a polícia, denunciar o marido? Sem saber o que fazer, ela começa a ter pesadelos terríveis. Num deles, ela é assassinada pelo próprio marido.  Muita água vai rolar até Darcy receber a visita de um investigador de polícia aposentado (Stephen Lang), que tem aproveitado o tempo ocioso para investigar os assassinatos praticados por Bob. O filme não tem aqueles sustos habituais nem o clima de terror que caracterizam a obra de Stephen King. Na verdade, a história é fraca e o filme idem, apesar da presença da ótima atriz Joan Allen e do bom ator LaPaglia.    

domingo, 11 de janeiro de 2015

Mais do que uma comédia, “O PALÁCIO FRANCÊS” (“Quai d’Orsay”), de 2013, é uma sátira inteligente aos burocratas e políticos franceses - e à própria política exterior francesa. O filme mostra os bastidores do Ministério das Relações Exteriores como uma verdadeira fuzarca, onde ninguém se entende. A história começa quando o jovem Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz), recém-formado na Escola Nacional de Administração, é contratado para o Setor de Linguagem do Ministério. Ele é apresentado ao ministro Alexandre Taillard (Thierry Lhermitte), que parece um furacão. Entra nas salas dos seus assessores já gritando e dando ordens, sempre o dono da razão. Um tormento. Toda vez que abre a porta de um escritório voa um monte de papelada, maneira criativa que o diretor Bertrand Tavernier encontrou para reforçar a ideia de um tsunami. Hiperativo, autoritário, ganancioso e megalomaníaco, Taillard toma suas decisões consultando o livro de frases criadas pelo filósofo Heráclito. Em meio ao bagunçado ambiente, Arthur recebe a missão de escrever o texto de um importante discurso que Taillard fará dali a alguns dias na ONU. A participação da atriz Julie Gayet – aquela que, dizem, teve um caso com o presidente francês François Hollande – como uma fogosa assistente do ministro Taillard reforça ainda mais o tom de sátira desta ótima comédia francesa. Outro destaque é Jane Birkin, irreconhecível no papel de uma escritora ganhadora do Prêmio Nobel. Estão ainda no elenco Niels Arestrup e Anaïs Demoustier. Mas quem domina mesmo o filme, com uma atuação impagável, é o ator Therry Lhermitte como o ministro. Um show!

sábado, 10 de janeiro de 2015

“POR UMA MULHER” (“Pour Une Femme”), 2013. A história desse drama francês é ótima, inspirada nas memórias da mãe da diretora Diane Kuris - em alguns filmes anteriores, a mãe da diretora também virou personagem. O filme começa em 1985, quando Anne (Sylvie Testud), ao remexer as coisas da mãe, falecida há três meses, encontra algumas fotos e um diário. Em flashback, a ação passa para 1945. Três anos antes, os judeus russos Michel (Benoit Magimel) e Léna (Melanie Thierry) fogem de um campo de concentração nazista na França. Vão morar em Lyon. Michel já está estabelecido como alfaiate com loja própria. Léna dá mostras de que está infeliz, pois fica trancada no apartamento tomando conta da filha pequena – Anne. Ela quer trabalhar, nem que seja na alfaiataria, mas Michel não permite. Até que um dia chega Jean (Nicolas Duvauchelle), que Michel apresenta como sendo seu irmão e o hospeda em sua casa. Na verdade, Jean faz parte de uma organização judaica que caça criminosos nazistas pela Europa e está em Lyon para realizar uma missão. Com o tempo e a convivência praticamente diária, Léna vai se aproximar cada vez mais de Jean. Pouco antes de estrear nos cinemas brasileiros, o filme foi exibido no Festival do Rio de Janeiro, em setembro de 2014. No elenco, destaque para esse estupendo ator que é o francês Benoit Magimel.  O filme é muito bom e merece ser conferido por quem curte cinema de qualidade.                                                 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O drama “PIAZZA FONTANA: UMA CONSPIRAÇÃO ITALIANA” (“Romanzo di Una Strage”), 2014, direção de Marco Tullio Giordana, dá sequência à tradição do cinema italiano de realizar ótimos filmes políticos. Já tivemos Elio Petri (“Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita"), Gillo Pontecorvo (“A Batalha de Argel”), Francesco Rosi ("O Caso Mattei") e Marco Bellocchio (“Vincere”), entre tantos outros diretores. O filme de Giordana relata o caso do atentado à bomba ocorrido em 12 de dezembro de 1969 no Banco Nacional da Agricultura, na Praça Fontana, em Milão, que provocou a morte de 17 pessoas e ferimentos em outras 88. O filme centra a história nas investigações realizadas pelo Comissário Luigi Calabresi (Valerio Mastandrea), mostrando a detenção de suspeitos anarquistas e seus posteriores interrogatórios. A morte de um deles, Giuseppe Pinelli (PierFrancesco Favino), que “cometeu suicídio” quando era interrogado, complicará a vida de Calabresi. Durante as investigações, Calabresi passa a desconfiar que fanáticos de direita tenham praticado o atentado para jogar a culpa nos anarquistas. Sofrendo pressões de ambos os lados, Calabresi tentará descobrir a verdade e agir com justiça. O maior mérito do filme é mostrar, quase num tom de reportagem – todo o enredo é baseado em fatos reais-, o contexto político conturbado vivido naqueles anos pela Itália e por outros países no mundo inteiro. Um filme muito bem realizado, ideal para quem gosta da história política mundial contemporânea.                           

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Do bumbum de um nenê e da cabeça de um diretor de cinema a gente nunca sabe o que vai sair. Muitas vezes sai a mesma coisa. Principalmente se o diretor for também o escritor da história. É o caso do dramaturgo norte-americano Neil LaBute, que escreveu e dirigiu, em 2013, “SOME VELVET MORNING” (ainda sem tradução por aqui). O filme tem apenas dois personagens e é inteiramente ambientado numa casa. A campainha toca e Velvet (Alice Eve) atende à porta. De mala e cuia (só dá pra ver a mala) aparece Fred (Stanley Tucci), seu ex-amante que não via há cerca de quatro anos. Ele chega e diz que se separou e veio para morar com ela. Aí tem início um verdadeiro tormento para o espectador. Fred e Velvet vão discutir a antiga relação, o fato dela ser uma prostituta de luxo e ainda ter como namoradinho o filho do ex-amante. E assim o filme se arrasta até o final, com diálogos enfadonhos e medíocres. Pela sua experiência em dramaturgia, LaBute certamente optou por adaptar para a tela um texto idealizado para os palcos. Mas nem se fosse uma peça teatral se salvaria da chatice. No desfecho, uma reviravolta tenta poupar o espectador de uma overdose de tédio. Só para ilustrar, o título original foi inspirado numa canção gravada em 1967 por um dueto formado por Nancy Sinatra e Lee Hazlewood.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

“CANTINFLAS – A Magia da Comédia” (“Cantinflas”), 2014, México, é uma merecida – e até tardia – cinebiografia do ator Mario Moreno, que nas décadas de 40 e 50 foi o maior ídolo do cinema mexicano. Seu personagem Cantinflas arrastou multidões para as salas de cinema do México e também foi um grande sucesso em outros países, o Brasil incluído. Cantinflas nasceu como personagem cômico na década de 30, quando fazia shows em teatros de periferia e circos. Nesses palcos, sua maior virtude como comediante era a improvisação. Depois que começou a fazer filmes, seu sucesso foi arrasador. Por causa de sua indumentária e maneira de atuar, com seus trejeitos corporais, Cantinflas tinha um pouco de Carlitos e Mazzaropi. Em 1955, foi convidado por Hollywood para ser o principal protagonista de “Volta ao Mundo em 80 Dias”, filme que fez um enorme sucesso e lotou cinemas no mundo inteiro. Por esse filme, ele conquistou o Globo de Ouro como Melhor Ator de Comédia ou Musical, vencendo ninguém menos do que Marlon Brando. O filme conta tudo isso e mais alguns detalhes de sua vida pessoal, como seu grande amor pela dançarina russa Valentina Ivanova (Ilse Salas), com a qual viria a se casar. O ator que interpreta Cantinflas é o ótimo Óscar Jaenada, cuja semelhança com o antigo ídolo mexicano é impressionante. O fato de Óscar ser espanhol gerou uma onda de protestos no México. Escolhido para representar o México na disputa do Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro – não ficou entre os 9 pré-finalistas -, o filme teve críticas injustamente desfavoráveis, pois é bem feito e conta com um ótimo elenco. Charles Chaplin disse, lá pelos anos 50, que “Cantinflas é o maior comediante vivo”. Precisa dizer mais? 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Baseada em fatos reais e situada em 1988, a história contada em “GIBRALTAR” tem como personagem principal Marc Duval (Gilles Lellouche), um francês expatriado dono de um bar na ilha de Gibraltar, na Península Ibérica. Ele é casado e pai de um bebê. O bar é frequentado por todo tipo de gente, incluindo traficantes de drogas, principalmente árabes e espanhóis. Com a promessa de uma compensação financeira, o agente alfandegário Redjani Belimane (Tahar Rahim) convence Duval a ser seu informante, denunciando qualquer situação suspeita. Com muitas dívidas, ainda mais depois de ter comprado um barco, Duval aceita a condição de dedo-duro. Quem frequenta o bar normalmente fica em torno de uma mesa de snooker, e é lá que Duval coloca um microfone e um gravador. O trabalho de informante é um sucesso. Prometendo ainda mais dinheiro, Belimane arranja outras missões para Duval, inclusive levar drogas em seu barco para vendê-las. Na hora da entrega, vinha o flagrante. Se esse trabalho já era muito perigoso, Duval vai torná-lo ainda mais depois que se envolve com o italiano Claudio Lanfredi (Riccardo Scamarcio), o traficante nº 1 da Europa na época. Para piorar, Cécile (Mélanie Bernier), irmã de Duval, começa um caso com o traficante italiano. É o tipo de filme que fica fácil prever que não haverá happy-end. Mais uma vez, o cinema francês faz um bom filme policial, repleto de ação e suspense, e valorizado pelas presenças de ótimos atores como Lellouche, Rahim e Scamarcio.
As guerras, em especial a Segunda Mundial, sempre forneceram boas histórias para o cinema. Quase todas baseadas em fatos reais ou pelo menos inspiradas em relatórios militares. Mais um bom filme do gênero chega dos EUA, estrelado por Brad Pitt. Intitulado “CORAÇÕES DE FERRO” (“Fury”), 2014, conta a emocionante aventura de cinco tripulantes de um tanque de guerra norte-americano no final da Segunda Guerra Mundial, quando as forças aliadas lutam com os nazistas dentro da própria Alemanha. O durão e violento Sargento Wardaddy (Pitt) lidera o grupo, que num determinado combate perde um membro da tripulação, que logo é substituído pelo novato Norman (Logan Lerman). Só que tem um detalhe: Norman entrou no exército como datilógrafo e, por alguma falha burocrática, acabou na linha de frente. A tripulação do tanque, apelidado de “Fury”, é composta ainda por Boyd Swan (Shia Labeouf), Trini Garcia (Michael Peña) e Travis (Jon Bernthal).  O filme é bastante realista nas cenas de violência e de combates. Tem ação do começo ao fim e muito suspense. Para os fãs do gênero, um programão!    

sábado, 3 de janeiro de 2015

“ARMÊNIA” (“Le Voyage en Arménie”), 2006, França, direção de Robert Guédiguian, é uma tocante e muito interessante homenagem ao pequeno país que até pouco tempo atrás era uma república soviética. A história é centrada em Anna (a ótima Ariane Ascaride), uma médica que mora em Marselha com o marido Pierre (Jean-Pierre Darroussin) e a filha Jeanette (Madeleine Guédiguian). Ela descobre que seu pai Barsam (Marcel Bluwal) tem um grave problema de coração e precisa ser operado. Só que Barsam, depois de saber do diagnóstico, resolve viajar para sua Armênia natal - uma viagem de despedida? Anna vai atrás dele, sem saber exatamente onde ele está. Nessa busca, Anna conhecerá personagens bastante interessantes, como um herói da guerra da independência, Yervanth (Gérard Meylan), e a jovem Schaké (Chorik Griogorian), além de Manouk (Romik Avinian), um senhor que se apresenta voluntariamente para levá-la de carro – caindo aos pedaços – para vários lugares. Ao longo de sua busca pelo pai, Anna – assim como o espectador - vai conhecer um pouco da história, das tradições e dos valores culturais da Armênia, como também verificar in loco como os armênios vivem nos dias de hoje. Pouca gente sabe, mas a Armênia foi a primeira nação do mundo a adotar o cristianismo, no ano de 301 dC. Ou o fato de que o Monte Ararat é o símbolo maior do país, mas que, para tristeza dos armênios, pertence hoje à Turquia. À parte esse contexto, vamos dizer, histórico, o filme é bastante leve, agradável, bem humorado e, sem exagero, irresistível. Não perca! 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Apesar de dramático ao extremo, “ESTRANGEIRA” (“Die Fremde”), 2010, é um ótimo filme alemão. Aliás, foi o candidado da Alemanha ao Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011. A história mostra a jovem Umay (Sibel Kebilli), de 25 anos, vivendo em Istambul com o marido Kemal (Ufuk Bayraktar) e o filho Cem (Nizam Schiller), de 3 anos. Cansada do marido violento, Umay foge com o filho para a Alemanha, onde vive sua família – pais e três irmãos. Ela imaginava encontrar conforto e carinho na casa dos pais e junto aos irmãos. Ledo engano! Por ter abandonado o marido, Umay é tratada como se fosse uma prostituta. Se era espancada pelo marido em Istambul, agora é maltratada pelos pais e pelos irmãos, com direito a apanhar também. Ela foge pela segunda vez e vai parar numa espécie de abrigo para mães solteiras e vítimas de violência doméstica. Apesar de tudo o que aconteceu, Umay ainda vai tentar se reaproximar da família, o que será um grande erro com consequências trágicas. Dirigido pela austríaca Feo Aladag, o filme tem o mérito de denunciar o absurdo tratamento que é destinado às mulheres no mundo árabe, onde os valores culturais admitem até o marido bater na mulher. Numa das conversas que tem com o pai, Umay justifica sua fuga dizendo que não aguentava mais a violência de Kemal. O pai responde: “E daí, ele é seu marido. Ele tem esse direito. Além do mais, um tapinha de vez em quando não faz mal”. Haja Lei Maria da Penha... O desempenho espetacular da atriz alemã de origem turca Sibel Kebilli valoriza ainda mais esse ótimo drama alemão.