terça-feira, 16 de maio de 2017

O drama francês “MARGUERITE & JULIEN – UM AMOR PROIBIDO” (“Marguerite & Julien”) resgata uma história verdadeira ocorrida no início do Século XVII, quando dois irmãos foram condenados por sua relação incestuosa – interpretados por Anaïs Demoustier (Marguerite) e Jérémie Elkaïm (Julien de Ravalet). A ideia de fazer um filme contando essa história surgiu no início da década de 70, quando o diretor François Truffaut resolveu desenvolver um roteiro, mas o projeto não foi concretizado. A atriz e agora cineasta Valérie Donzelli retomou a ideia,  transformando-o no seu quinto longa-metragem. Embora a trama seja ambientada originalmente em 1603, Donzelli desenvolveu-a em várias épocas, misturando o Século XVII com o início do Século XX e culminando nos dias atuais. Em outras palavras: uma confusão cronológica daquelas, com carruagens antigas ao lado de carros modernos e até de um helicóptero. Mais esquisito ainda foi o fato de toda essa história de incesto e amor proibido ser contada num orfanato para meninas que nem chegaram à adolescência. Não é por nada, mas acho que Valérie Donzelli exagerou na dose, extrapolando o bom senso. Melodramático demais. Mesmo tendo concorrido à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2015, não achei pontos positivos suficientes para recomendá-lo.                   
Os telespectadores que assistiam ao noticiário do Channel 40 da Cadeia WXLT, de Sarasota (Flórida) na manhã do dia 15 de julho de 1974 tiveram a oportunidade de presenciar uma das cenas mais chocantes da história da televisão mundial. Na bancada do estúdio, após pronunciar a frase “Para dar continuidade à política do Canal 40 de trazer as últimas notícias sobre sangue e miolos, vocês verão outro primor: uma tentativa de suicídio”, a repórter Christine Chubbuck, aos 29 anos, faria ao vivo seu trágico ato final. O dia fatídico e os que antecederam essa tragédia são retratados no drama “CHRISTINE” 2016, EUA, com direção de Antonio Campos (filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes), que também assina o roteiro ao lado de Craig Hilowich. O filme explora os antecedentes psicológicos da repórter, interpretada com maestria pela atriz inglesa Rebecca Hall. Christine tinha um histórico de depressão e uma vida pessoal tumultuada, principalmente a relação conturbada com sua mãe Peg (J. Smith-Cameron). No trabalho, Christine era sempre pressionada a conseguir reportagens que aumentassem a audiência da emissora, o que a levava ao limite do estresse. O filme estreou no Festival de Sundance em 2016 e, no mesmo ano, foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. O filme é muito bom, ainda mais pelo maravilhoso desempenho de Rebecca Hall, injustamente não indicada ao Oscar 2017 por essa atuação.            


segunda-feira, 15 de maio de 2017

O drama independente “MELHORES AMIGOS” (“Little Men”), 2016, EUA, reúne novamente o diretor Ira Sachs com o roteirista brasileiro Maurício Zacharias (“O Céu de Suely” e “Madame Satã”). Eles trabalham juntos há vários anos, sendo responsáveis por filmes como “O Amor é Estranho”, “Deixe a Luz Acesa” e “Vida de Casado”. O fio condutor de “Melhores Amigos” é a mudança da família Jardine – Brian (Greg Kinnear), Kathy (Jennifer Ehle) e Jake (Theo Taplitz) – para a casa deixada pelo avô de Brian, recentemente falecido, no Brooklin. O térreo da casa é ocupado por uma loja cuja proprietária é Leonor (a atriz chilena Paulina Garcia, de “Glória”, em seu primeiro filme em língua inglesa). Seu filho Toni (Michael Barbieri) logo faz amizade com Jake. Os dois não se desgrudam. O avô de Brian cobrava um aluguel irrisório de Leonor. Brian e sua irmã Audrey (Talia Balsan) resolvem reajustar o valor. Inconformada, Leonor resolve não assinar um novo contrato, iniciando uma batalha jurídica que esfriará de vez a amizade entre as duas famílias. Destaco como trunfo do filme o excelente desempenho do elenco, principalmente os jovens atores que interpretam Jake e Toni. Apesar do contexto dramático, o filme é leve e pode ser visto numa sessão da tarde com pipoca.           

domingo, 14 de maio de 2017



“INSUBSTITUÍVEL” (“Médecin de Campagne”), 2016, traz de volta à tela um dos mais competentes atores franceses: François Cluzet (quem não se lembra dele como o tetraplégico de “Intocáveis”?). Ele interpreta o médico Jean-Pierre Werner, que há 30 anos dedica-se a cuidar da população de uma zona rural no interior da França. Werner é um médico à moda antiga. Além do consultório, onde costuma não cobrar consulta dos pobres, visita seus pacientes em suas casas, envolve-se emocionalmente com quase todos os casos, conversa demoradamente com cada um, dá conselhos e é radicalmente contra internações em hospitais. Todo mundo adora Werner. Só que um dia ele é diagnosticado com uma doença grave, com poucas chances de cura. Aconselhado a descansar e iniciar um tratamento mais intensivo, Werner não desiste de continuar trabalhando. Até que uma médica recém-formada, Natalie Delezia (Marianne Denicourt), chega para ajudá-lo e, tudo a leva a crer,  substituí-lo no futuro. De início, ele resolve boicotá-la, o que resulta nas cenas mais bem-humoradas do filme. O roteirista e diretor Thomas Lilti, que já havia colocado a medicina como tema de outro filme (“Hipócrates”), não deixa a trama cair no melodrama, o que faz desta produção francesa um ótimo entretenimento, mas o melhor do filme é, sem dúvida, o desempenho de Cluzet.        

sexta-feira, 12 de maio de 2017



“FRANTZ”, 2016, França/Alemanha, escrito e dirigido por François Ozon. Mais um excelente drama que Ozon readaptou para o cinema, baseado no filme “Não Matarás” (1932), do diretor alemão Ernest Lubitsch. Ambientado em 1919, um ano após o término da Primeira Guerra Mundial, conta a história do jovem francês Adrien Rivoire (Pierre Niney), que visita uma pequena cidade da Alemanha para depositar flores no túmulo de um soldado alemão. Ele é surpreendido no cemitério por Anna (Paula Beer), que iria se casar com o falecido. Anna fica curiosa para saber quem é aquele jovem misterioso e o pressiona para contar a verdade. Adrien conta que era muito amigo do alemão quando este morava em Paris antes do início da guerra. Adrien e Anna ficam amigos e essa amizade parece ter tudo para terminar em novo romance. Os pais do soldado morto, Magda (Marie Gruber) e Hans Hoffmeinster (Ernest Stözner), recebem Adrien em sua casa e ficam encantados quando ele descreve o que fazia com o amigo alemão em Paris. O espectador mais atento acabará percebendo que Adrien esconde algum segredo e que, uma hora ou outra, será finalmente revelado. Considero este um dos melhores filmes do diretor francês, um dos mais criativos do cinema atual – de Ozon recomendo ainda “Uma Nova Amiga”, “Sob a Areia” e, principalmente, o espetacular “Dentro de Casa”. A cada filme Ozon surpreende ao inovar na narrativa, criando sempre uma expectativa próxima do suspense. Em “Frantz”, Ozon utiliza o preto e branco para acentuar a carga dramática, o que acontece em 90% do filme. “Frantz” concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2016 e foi indicado em 11 categorias ao Prêmio César 2017 (o Oscar francês), além de ter sido aclamado nos festivais de Toronto e Sundance. IMPERDÍVEL!    

quarta-feira, 10 de maio de 2017

“ARMAS NA MESA” (“Miss Sloane”), 2016, EUA, direção do veterano diretor inglês John Madden (“Shakespeare Apaixonado” e “O Exótico Hotel Marigold 1 e 2”) e roteiro de Jonathan Perera. A trama é centrada em Elizabeh Sloane (Jessica Chastain), uma das lobistas mais famosas de Washington. É workalohic assumida, muito competente, extremamente ambiciosa e sem qualquer escrúpulo, a ponto de prejudicar e colocar em risco de vida seus próprios colegas de trabalho. Quando indicada por seu chefe George Dupont (Sam Waterston) para comandar uma campanha em prol da indústria de armas, ela recusa o trabalho e, mais do que isso, resolve passar para o outro lado, ou seja, assumir o cargo de coordenadora de uma ação para a implantação de leis de controles de armas mais rígidas desenvolvida pelo escritório de uma ONG. A partir daí, ela entra em rota de colisão com seu ex-escritório, resultando num processo que a levará a julgamento pelo Congresso norte-americano. A reviravolta no desfecho é sensacional. O filme parece ter sido feito para Jessica Chastain deitar e rolar. E ela deita e rola, esbanja charme, prepotência e arrogância na medida certa, justificando a posição de uma das atrizes mais competentes da atualidade. Ela já havia sido indicada para o Oscar de Melhor Atriz em 2013 por sua atuação em “A Hora mais Escura” e agora, com “Miss Sloane”, talvez tenha sido a grande injustiçada pela Academia no Oscar 2017. Ela está simplesmente sensacional. Se o filme já é bom por si só, é ainda melhor com a presença dessa maravilhosa atriz. Veja e confira!
                                                                   

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Representante da Noruega na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro, o drama histórico “A NEGATIVA DO REI” (“Kongens Nei”), direção de Erik Poppe, ficou entre os nove finalistas (o vencedor foi o iraniano “O Apartamento”). O filme retrata um dos acontecimentos mais importantes da história da Noruega. Em abril de 1940, com o falso objetivo de defender o país escandinavo de uma possível invasão inglesa, as tropas alemãs invadiram a Noruega, exigindo sua imediata rendição. O Rei Haakon VII (Jesper Christensen) se negou a negociar com os alemães, daí o título do filme, e a seguida declaração de guerra contra a Alemanha. Além de mostrar os bastidores dos acontecimentos que envolveram a família real norueguesa e o governo, o filme destaca os esforços do embaixador alemão em Oslo, Kurt Bräuer (o ótimo Karl Markovics, de “Os Falsários”), em negociar a rendição, evitando um massacre da população civil e dos despreparados soldados noruegueses. Só que os comandantes militares alemães não queriam saber de negociar. Os fatos narrados estão no livro “Kongens Nei”, escrito por Al Reidar Jacobsen, transformados para roteiro do filme pela dupla Harald Rosenløw-Eeg e Jan Tryeve Røyneland. O filme é muito bom, não apenas porque é bem feito, bem dirigido e interpretado, mas por contar um fato histórico da maior importância, mas pouco conhecido por aqui. Para quem gosta de História mundial, um filme simplesmente obrigatório e imperdível!                                                                


sábado, 6 de maio de 2017

“A CRIADA” (“AH-GA-SSI”), 2016, Coréia do Sul, roteiro e direção de Park Chan-Wook (“Oldboy”, “Segredos de Sangue”). Trata-se de um drama da mais alta qualidade, criativo e, ao mesmo tempo, de difícil compreensão, longo (2h47m) e enigmático, sem falar no fato de que é falado em japonês e coreano. A trama, porém, é engenhosa. Requer uma atenção especial para os detalhes. Nem tudo o que você vê é o que realmente acontece. O roteiro é baseado no romance galês “Fingersmith” (“Na Ponta dos Dedos”), escrito por Sarah Waters. Ambientado nos anos 30 na Coréia do Sul durante a ocupação japonesa, o filme descreve uma trama diabólica. A jovem camponesa Sooke (Kim Tae-Ri) é contratada como empregada da rica e ingênua herdeira Hideko (Kim Min-Hee), que mora com o tio autoritário Kouzuki (Cho Jin-Woong). A verdadeira intenção de Sooke é promover a aproximação do falso conde Fugiwara (Ha Jung-Woo) e convencer Hideko a desposá-lo. Na segunda parte do filme, numa narrativa fragmentada, repleta de idas e vindas, além da repetição das cenas da primeira parte sob ângulos diferentes, o enredo transforma-se num verdadeiro quebra-cabeças e sua montagem terá a finalidade de explicar tudo o que realmente aconteceu, com direito a várias reviravoltas até chegar ao desfecho. O primor visual, tanto com relação à fotografia, cenários, figurinos e recriação de época, é um dos maiores destaques do filme, assim como a requintada elaboração das cenas eróticas, que beiram o explícito sem abrir mão do bom gosto. Não há dúvidas de que estamos diante de um filme bastante interessante e inovador. Poucos diretores do cinema atual teriam a coragem de utilizar a câmera com tantos planos diferentes e de forma tão criativa. Não é um filme para iniciantes. Concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 e ganhou nada menos do que 37 prêmios internacionais em festivais pelo mundo afora.                                     
Em 1879, a descoberta de uma caverna com pinturas rupestres, inicialmente datadas de 10.000 anos, em Santander (norte da Espanha), causou enorme polêmica no mundo científico da época,  envolvendo ciência, religião, história e arte. O caso virou um embate dos mais ferrenhos entre o  arqueólogo amador espanhol Marcelino Sanz de Sautuola, descobridor da caverna, e o francês Émile Cartailhac, então a maior autoridade em pré-história, sem contar a reação da Igreja Católica, contrária às teorias de Sautuola. Ao apresentar sua descoberta a cientistas do mundo inteiro num congresso, Marcelino foi humilhado por Cartailhac, que o chamou de charlatão. Marcelino caiu em desgraça perante o mundo científico e somente 35 anos depois sua teoria seria reconhecida. Toda essa fascinante história é contada em “ALTAMIRA”, 2016, numa coprodução Reino Unido/Espanha, sob a direção do veterano diretor inglês Hugh Hudson (“Carruagens de Fogo”, “Greystoke: The Legend of Tarzan” e “África dos Meus Sonhos”).  No elenco, Antonio Banderas, a atriz iraniana Golshifteh Farahani, Rubert Everett, Clément Sibony, Irene Escolar e Allegra Allen. Um trabalho primoroso do diretor Hudson, que resolveu contar uma história das mais interessantes sob o ponto de vista da ciência e da arte. O filme é valorizado ainda mais pela excelente fotografia, além dos cenários deslumbrantes da região da Cantábria, onde está localizada Santander. Imperdível!                               

quinta-feira, 4 de maio de 2017

“A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN” (“Billy Lynn’s Long Half Time Walk”), EUA, 2016, direção de Ang Lee. História baseada no livro escrito por Ben Fountain, também autor do roteiro. Ambientado em 2005, o enredo é centrado no jovem soldado Billy Lynn (Joe Alwyn), que volta do Iraque como herói depois de salvar um sargento de uma emboscada em meio a intenso tiroteio. Billy e seus companheiros de pelotão – chamado pela mídia norte-americano como “Bravo” – chegam aos EUA com honras, condecorações e homenagens. Políticos e empresários ligados ao esporte, ao cinema e ao mundo dos espetáculos tentam se aproveitar da fama dos rapazes. Entendi o filme como uma crítica mordaz ao establishment político e empresarial do Tio Sam. Seu lançamento nos cinemas dos EUA foi um grande fracasso de bilheteria, apesar da história envolvendo soldados heróis e das participações especiais de Vin Diesel, Steve Martin, Kristen Stewart e Chris Tucker. Achei verborrágico demais. O resultado final ficou muito aquém da competência do consagrado diretor taiwanês Ang Lee, responsável por excelentes filmes como “O Segredo de Brokeback Montain”, “As Aventuras de Pi” e “Tempestade de Gelo”. Na minha opinião, o melhor de Lee ainda é “Comer, Beber, Viver”, de 1994.                               

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O drama canadense “MEAN DREAMS” teve sua primeira exibição no Festival de Cannes 2016. A direção é de Nathan Morlando, em seu segundo longa – o primeiro foi “Edwin Boyd: A Lenda do Crime” –, com roteiro de Ryan Grassby e Kevin Coughlin. Ainda não tem data para estrear em nossos cinemas e, por isso, não há tradução para o título. Aliás, duvido que seja exibido por aqui, pois não tem muito apelo comercial, a não ser pelo fato de ser o penúltimo filme da carreira do ator Bill Paxton, falecido em fevereiro de 2017, e pela presença da atriz adolescente Sophie Nélisse, que ficou conhecida depois de ter atuado em “A Menina que Roubava Livros”. A história de “Mean Dreams” é centrada nos jovens Jonas Ford (Josh Wiggins) e Casey (Nélisse), que moram em propriedades rurais vizinhas, fazem amizade e acabam se apaixonando. Casey é filha do policial Wayne Caraway, um sujeito violento e alcoólatra, que a maltrata inclusive com espancamentos. Jonas passa a rondar a casa da namorada e acaba descobrindo que o pai dela está envolvido com o tráfico de drogas. Aí a coisa complica de vez, pois Jonas foge com a maleta de dinheiro que o policial roubara. Pior: na fuga, leva a filha do policial junto. A partir daí, o filme se transforma numa perseguição pelas estradas, de um lado os jovens fugitivos e, de outro, o policial Wayne e seu chefe (Colm Feore), também envolvido na maracutaia envolvendo as drogas. Dá pra ver numa sessão da tarde.                           

terça-feira, 2 de maio de 2017

Marco Bellocchio é um dos mais importantes diretores italianos da atualidade. São de sua autoria filmes muito bons como “Vincere” e “A Bela que Dorme”, entre tantos outros. Recentemente, lançou “Belos Sonhos”, elogiado pela crítica especializada e que ainda não tive a oportunidade de assistir. Em 2015, Bellocchio escreveu e dirigiu “SANGUE DO MEU SANGUE” (“SANGUE DEL MIO SANGUE”), inspirado num episódio do clássico romance histórico “I Promessi Sposi”, escrito em 1827 por Alessandro Manzoni. O filme é dividido em duas partes. Na primeira, ambientada no Século 17, um padre católico comete suicídio após ter um caso com a freira Benedetta (Lidiya Liberman). Federico Mai (Piergiorgio Bellocchi Jr, filho do diretor), irmão gêmeo do padre que se matou, exige dos padres do monastério que forcem a freira a confessar sua culpa, impedindo dessa forma que o irmão falecido não seja enterrado num cemitério de animais, como era costume fazer com os suicidas da época. Os padres assumem o papel de inquisidores e tentam convencer a freira a confessar mediante tortura. Ela acaba não confessando, o que lhe acarretará um castigo da maior crueldade. O filme dá um salto para os dias atuais e a história que será contada não tem qualquer ligação com a primeira, a não ser o monastério, que agora virou um casarão onde se esconde um misterioso conde (Roberto Herlitzka). Um milionário russo quer comprar o imóvel para transformá-lo num hotel de luxo. O mesmo Piergiorgio Bellocchio surge como protagonista dessa história. Se na primeira parte Marco Bellocchio faz críticas ácidas à Igreja Católica, na segunda aproveita para denunciar a corrupção que predomina no meio político italiano. Por falar nisso, Bellocchio, se fosse político, talvez fosse acusado de nepotismo, ao colocar no elenco seu filho Piergiorgio e sua fiha Elena Bellocchio. “Sangue do Meu Sangue” venceu o Prêmio da Crítica no Festival de Veneza 2015, sendo aplaudido de pé por 8 minutos ao final de sua exibição. Aplausos exagerados, na minha opinião. Por aqui, estreou em 2016 durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.                         

quinta-feira, 27 de abril de 2017

“TE VEJO AMANHÃ EM HONG KONG” (“Already Tomorrow in Hong Kong”), 2015, EUA/Hong Kong, roteiro e direção de Emily Ting. Quando o filme terminou, fiquei com a nítida impressão de que um dos seus patrocinadores foi a Secretaria de Turismo de Hong Kong. E, para disfarçar, colocou dois atores em cena para perambular pela cidade, tendo como cenário sua iluminação intensamente feérica. Eles vão pra lá, vem pra cá, sobem e descem escadas, percorrem mercados, ruas e alguns pontos turísticos conhecidos, além de passear de barco. Tudo à noite, para valorizar a iluminação. Será que de dia a cidade também é tão bonita? Duvido. Josh Goldenberg (Bryan Greenberg, que lembra o jovem Mel Gibson) está fumando na calçada, dando um tempo na festa da namorada. Nisso surge Ruby (Jamie Chung) e eles acabam conversando. Saem andando pela cidade (e a festa???), num passeio com muito blá-blá-blá, um papo furado vazio e de uma profundidade milimétrica. Um ano depois, eles voltam a se encontrar e começa tudo de novo. Andam pela cidade, conversam o tempo inteiro e nada de chegar aos finalmente. O desfecho é abrupto e sem graça, o que certamente deve desagradar os espectadores mais românticos. A estrutura do filme lembra muito a trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite”, nos quais Ethan Hawke e Julie Delpy desfilam sua chatice verborrágica o tempo inteiro. Como curiosidade, vale dizer que Bryan Greenberg e Jamie Chung são casados na vida real.      ong Kong”)HonHongho              
O pano de fundo é político, envolvendo a repressão violenta da Rússia contra uma república fictícia chamada Karadjistan. Nada muito fora da realidade que a gente conhece muito bem. O filme espanhol “KAMIKAZE”, 2014, aborda essa temática com muito bom humor e sensibilidade, abrindo espaço também para o romance. Slatan (Álex García) é recrutado como homem-bomba por um grupo terrorista do Kardjistan para explodir um avião de passageiros que faria a rota Moscou-Madri. Só que uma violenta tempestade de neve impede o voo. Os passageiros, de várias nacionalidades, são hospedados num hotel até a tempestade passar. O misterioso Slatan acaba fazendo amizade com um grupo de espanhóis e argentinos. Durante os três dias em que os passageiros são obrigados a permanecer no hotel - a temperatura lá fora é de -32º -, muita coisa acontece e Slatan começa a rever os seus conceitos. Será que ele realmente explodirá o avião? Além do humor, o roteirista e diretor Álex Pina adiciona muita ação e suspense, principalmente no desfecho, o que torna essa produção espanhola um ótimo entretenimento. Pena que não tenha sido exibido comercialmente por aqui. Além de Álex García, estão no elenco Verónica Echegui, Carmen Machi, Leticia Dolera, Eduardo Blanco e Héctor Alterio, estes dois últimos argentinos.                 


quarta-feira, 26 de abril de 2017

“BELAS FAMÍLIAS” (“Belles Famílles”), França, 2016, roteiro e direção de Jean-Paul Rappeneau. Trata-se de uma comédia de poucas risadas – alguns sorrisos, talvez. Depois da metade, vira uma comédia romântica, na medida em que os dois personagens principais se apaixonam. O empresário francês Jérôme Varenne (Mathieu Amalric) reside na China, de onde comanda seus negócios e se prepara para casar com a bela Chen-Li (Gemma Chan), seu braço direito na empresa. Ao viajar para Londres com o objetivo de participar de uma importante reunião, Jérôme fica sabendo que seu irmão colocou à venda, sem consultá-lo, o casarão na cidade de Ambray (arredores de Paris), onde a família Varenne morou durante muitos anos. Jérôme vai a Paris e aí começa a confusão, que envolve um corretor imobiliário ganancioso, uma antiga amante do pai de Jérome e as principais autoridades da cidade, incluindo o prefeito Pierre Cotteret (André Dussollier) - eterno apaixonado por Suzanne Varenne (Nicole Garcia), a matriarca da família.  Jérôme fica encantado com a jovem Louise (Marine Vacth), filha de Florence (Karin Viard), que teria sido amante do patriarca da família Varenne. Só para esclarecer: a tradução literal de “Belles Famílles” para “Belas Famílias” não condiz com o significado correto do título francês, que na verdade exprime a ideia de “parentes agregados”. Apesar do ótimo elenco, o filme não convence como comédia, mas tem seus atrativos, como os cenários, a mansão e a beleza das atrizes Marine Vacth e Gemma Chan. Se fosse dar uma nota de 0 a 10, com muito boa vontade cravaria um 5.              

terça-feira, 25 de abril de 2017

Vou logo dizendo: “A ESPERA” (“L’ATTESA”), 2016, Itália/França, direção de Piero Messina, não é um filme para principiantes. Ou seja, o público normal. Destina-se ao espectador acostumado a frequentar sessões do chamado cinema de arte. A história, baseada na peça “La Vita Che Ti Diedi”, de Luigi Pirandello, é toda ambientada num casarão do interior da Sicília, na Itália. O filme começa com o velório de Giusepee, o filho de Anna (Juliette Binoche). Durante a recepção que se segue ao enterro, com convidados espalhados pelo casarão, chega a jovem Jeanne (Lou de Laâge), a namorada francesa do falecido. Anna diz a ela que foi seu irmão que morreu e que Giusepee prometeu chegar para os festejos da Páscoa, dali a uns dias. Jeanne fica hospedada na casa e, por incrível que pareça, acredita na versão da mãe enlutada. Roteiro pra lá de inverossímil. O filme é entediante, sensação ampliada pelo silêncio sepulcral que habita o casarão. A presença de Pietro (Giorgio Colangeli), soturno e misterioso, lembra um filme de terror. Se por um lado o filme é lento, chegando a ser cansativo, por outro lado é plasticamente muito bonito, com imagens do mais puro refinamento e uma belíssima fotografia. Com certeza, esse apuro visual o jovem diretor italiano Messina adquiriu ao trabalhar com o diretor Paolo Sorrentino, do qual foi assistente de direção nos filmes “A Grande Beleza” e "Aqui é o meu Lugar". Para os fãs do cinema de arte pode ser um grande filme, mas para os espectadores comuns pode servir como um eficiente sonífero. De qualquer forma, trata-se de um filme que merece ser conferido.                

domingo, 23 de abril de 2017

“INSEPARÁVEIS” (“Inseparables”), 2016, é a versão argentina da comédia francesa “Intocáveis”, cuja história é bastante conhecida - no caso argentino, os créditos dão conta de que a história é baseada em fatos reais, informação comprovada nos créditos finais. Um milionário tetraplégico procura um assistente terapêutico em tempo integral. Quem acaba contratado é alguém sem nenhuma qualificação para o cargo, mas cai nas graças do deficiente pela maneira de ser, autêntico, alegre e sem medo de dizer as verdades. E, o principal, não trata o patrão com compaixão. Com a convivência, surge uma grande amizade entre os dois. No caso do filme argentino, o tetraplégico é Felipe (Oscar Martinez) e o seu assistente é Tito (Rodrigo de La Serna), até então ajudante do jardineiro da mansão. Como o francês original, o filme argentino prioriza o humor. Os dois filmes são ótimos e muito divertidos. Se na versão francesa, de 2011, o forte é o carisma da dupla principal – Omar Sy e François Cluzet –, na versão argentina o trunfo maior é o veterano ator Oscar Martinez no papel do milionário deficiente. Um show. O ator Rodrigo de La Serna talvez seja histriônico em demasia, embora com isso não prejudique o resultado final. O roteiro e a direção ficaram a cargo de Marcos Carnevale, que já nos presentou com filmes maravilhosos como “Elza & Fred”, “Viúvas” e “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”. Este último, aliás, ganhou recentemente uma versão francesa, “Um Amor à Altura”. Mais um trunfo da versão argentina: a presença da bela e sensual Carla Peterson como Verônica, uma das secretárias de Felipe.             



sexta-feira, 21 de abril de 2017

“A PARTIDA” (“Departure”), Reino Unido, 2015, roteiro e direção de Andrew Steggall. A história é centrada em Beatrice (Juliet Stevenson, a Madre Teresa de Calcutá, de “The Letters”), e no seu filho Elliot (Alex Lawther). Os dois são ingleses e viajam para o sul da França com o objetivo de vender a casa de campo da família. Durante os dias em que ficam por lá separando os móveis e os objetos que desejam se livrar, os dois fazem amizade com Clément (Phénix Brossard), um enigmático jovem francês que vive perambulando pelas redondezas. Beatrice é uma mulher à beira de um ataque de nervos, infeliz, desequilibrada, carente e neurótica. O filho Elliot, que pretende ser poeta, é um homossexual enrustido que não vê a hora de sair do armário. A convivência com Clément desperta os desejos incontidos na mãe e no filho, lembrando o enredo do clássico “Teorema”, de Pasolini, onde um intruso (Terence Stamp) seduz e desintegra uma família burguesa. A chegada de Philip (Finbar Lynch), marido de Beatrice e pai de Elliot, ao invés de colocar ordem no ambiente, acaba tumultuando ainda mais o relacionamento familiar, principalmente depois que um segredo sórdido do seu passado é revelado. O filme é pesado, um tanto arrastado e com poucos atrativos para merecer uma recomendação entusiasmada, a não ser a ótima fotografia. Não confundir com o drama japonês do mesmo nome, este sim um grande filme.        

quinta-feira, 20 de abril de 2017

“UM LUGAR NA TERRA” (“Une Place Sur La Terre”), França, 2013, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Fabienne Godet. Antoine Dumas (o ator belga Benoît Poelvoorde) é um fotógrafo freelancer que mora sozinho num apartamento da periferia de uma cidade, provavelmente Paris. Ele é depressivo, fumante inveterado e alcoólatra, só encontrando algum alento na amizade com Mateo (Max Baissette de Malglaive), um garoto de 7 anos que mora no mesmo prédio e que o visita constantemente. Numa noite qualquer, Dumas escuta alguém tocando piano e vê, pela janela, que é uma moça. Ele pega sua máquina fotográfica e passa a retratá-la. Dumas acaba conhecendo a tal moça, Elena (a bela atriz grega Ariane Labed), depois que ela sofre um acidente e ele a socorre. O que parecia apenas uma amizade transforma-se em paixão doentia para Dumas e por fim uma obsessão paranoica, tão forte a ponto de transformar as paredes de seu apartamento numa grande exposição de fotos da moça. O filme inteiro é focado num homem dilacerado pelo amor que nunca se concretiza e que transforma seus sentimentos num verdadeiro inferno. O tratamento dado à história e a maneira de contá-la descartam qualquer apelo comercial, posicionando o filme como do gênero “cinema de arte”, ou seja, não é destinado para todo tipo de público. Aliás, não vi qualquer ligação do título com a história. Em todo caso, vale pelo ótimo desempenho de Poelvoorde e pela competência e beleza de Ariane Labed.    

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O grande trunfo do drama espanhol “TRUMAN”, 2015, roteiro e direção de Cesc Gay (“O que os Homens Falam”), é a presença do ator argentino Ricardo Darín, mais uma vez dando um show de interpretação. Ele é Julián, um ator argentino radicado na Espanha e que está com os dias contados por conta de um câncer em fase de metástase. Ao tomar conhecimento da doença do antigo amigo, Tomás (Javier Cámara), que há muitos anos mora no Canadá, viaja para Madrid para dar uma força a Julián. Durante quatro dias, os amigos terão a oportunidade de conversar, lembrar os velhos tempos e preparar os últimos dias de Julián, o que envolve uma visita a uma funerária, uma última consulta ao médico, um jantar com a amiga Paula (Dolores Fonzi), uma viagem a Amsterdam para o aniversário do filho de Julián e, por fim, encontrar um lar para “Truman”, o velho cachorro prestes a ficar órfão. A situação, embora dramática, é tratada com muito bom humor através de diálogos afiados e do sarcasmo de Julián. Tem também seus momentos de sensibilidade, que farão rolar lágrimas dos espectadores mais emotivos. Por falar em lágrimas, o cão que “interpreta” Truman – que na vida real se chamava “Troilo” - morreu meses depois do término das filmagens. “Truman” é um programa bastante agradável. Recomendo como imperdível, principalmente, repito, pela presença de Ricardo Darín.   

terça-feira, 18 de abril de 2017



O drama francês “UM BELO VERÃO” (“La Belle Saison”), 2015, roteiro e direção de Catherine Corsini (“Partir”, “Três Mundos”), conta a história do amor de duas mulheres no início dos anos 70. Delphine (Izïa Higelin) trabalha na fazenda dos pais e é lésbica assumida, embora esconda essa condição. Numa viagem a Paris, conhece Carole (Cécile de France), uma militante feminista. É bom lembrar que naqueles anos o movimento feminista e a liberação sexual estavam no auge no mundo inteiro e, especialmente, na França. Embora casada com Manuel (Benjamin Bellecour), Carole cede ao assédio de Delphine e as duas acabam se apaixonando. Para assumir o romance, Delphine e Carole serão obrigadas a lutar contra o preconceito reinante na época, principalmente na comunidade rural onde vivem os pais de Delphine. A história lembra o polêmico “Azul é a Cor mais Quente”, de 2013, inclusive nas cenas de sexo, bastante ousadas, embora não explícitas. Além da história bem contada, também devo destacar a atuação do elenco, principalmente as duas atrizes principais, a belga Cécile de France e a francesa Izïa Higelin, que não negam fogo nas cenas eróticas. Conforme afirmou a diretora Corsini, o filme foi realizado como homenagem a Delphine Seyrig e Carole Roussopoulus, cinegrafistas que ficaram famosas ao filmar as lutas das mulheres nos anos 70, como, por exemplo, a primeira marcha homossexual da França. Sem dúvida, um dos melhores filmes franceses desta década.  
Grande sensação do cinema independente norte-americano em 2015, o drama “KRISHA” é um dos filmes mais perturbadores que já vi. Como escreveu um crítico, trata-se de “um furacão de emoções”. E é verdade, pois o clima tenso impera do começo ao fim. Com roteiro e direção de Trey Edward Saults – é seu primeiro longa-metragem -, o filme tem como personagem principal a sessentona Krisha (Krisha Fairchild), que depois de 10 anos afastada da família, retorna para passar o feriado de Ação de Graças na casa da irmã. Aliás, toda a trama acontece num único cenário, justamente a casa onde estão reunidos todos os parentes, incluindo o filho dela, interpretado pelo próprio diretor. A presença inesperada de Krisha deixa o clima pesado, pois todos sabem que ela é mentalmente desequilibrada, graças a um passado dedicado ao alcoolismo e ao vício de drogas. A relação traumática com a família é exposta durante o almoço. Sobra até para o peru... Claro que não é um entretenimento dos mais agradáveis, mas vale a pena assistir pelo desempenho impressionante da atriz Krisha Fairchild, de "The Killing of John Lennon" e "Fuga Desenfreada". O filme venceu o Grande Prêmio do Público no SXSW Film Festival/2015 e foi exibido por aqui na programação da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.