sábado, 18 de abril de 2020


“FIVE”, 2016, França, 1h42m, filme de estreia no roteiro e na direção do ator Igor Gotesman (ele atua como um dos cinco amigos de “Five”). Trata-se de uma comédia simpática e agradável de assistir, daquelas que deixam os nossos neurônios em descanso. Só diverte mesmo. É a história de cinco amigos de infância que fizeram um pacto de morar juntos, como uma família, quando fossem adultos, o que eles conseguem alugando um belo apartamento em Paris. Cada um contribuindo com sua parte com o aluguel e demais despesas. Eles são Samuel (Pierre Niney), Timothy (François Civil), Vadim (papel do diretor Gotesman), Nestor (Idrissa Hanrot) e a bela Julia (Margo Bandilhon), que todo mundo respeita como uma irmã, mas que no fundo todos gostariam de levar para a cama. Embora a amizade seja forte e aparentemente indestrutível, não será nada fácil a convivência, pois cada um tem uma personalidade diferente dos outros. Samuel engana o pai dizendo que está na faculdade de medicina, mas na verdade gasta todo o dinheiro em farras. Timothy é um maconheiro crônico, vive chapado o dia inteiro. Nestor é o garanhão da turma, vive se metendo em encrencas amorosas, sendo que uma delas terá grande importância no desfecho. Julia e Vadim são os mais centrados, pois vivem um romance escondido. Enfim, eles encaram uma rotina como uma família qualquer, até a hora em que é preciso assumir as despesas do apartamento. Samuel perdeu a mesada do pai e os demais se viram como podem. Na hora em que começa a faltar dinheiro, tem sempre aquele que apresenta uma ideia mirabolante. No caso, vender maconha, ao invés de só consumir. Claro que terão que se envolver com traficantes e cada vez mais a situação vai se complicando. O ator Pierre Niney é o mais conhecido do elenco, tendo participando de filmes interessantes como “Yves Saint Laurent”, “20 Anos + Jovem” e o maravilhoso “Frantz”, do diretor François Ozon. Destaco ainda a participação da diva Fanny Ardant no papel dela mesma. Não há dúvidas de que o filme apresenta algumas situações hilariantes e cenas de boa comédia, mas o resultado final é um tanto pífio. Em todo caso, para descontrair, vale a pena a pena assistir.   

sexta-feira, 17 de abril de 2020


“KILLERMAN: A LEI DAS RUAS” (“KILLERMAN”), 2019, Estados Unidos, 1h52, roteiro e direção de Malik Bader (que também atua no filme no papel do personagem Martinez). Trata-se de um filme policial centrado em Moe Diamond (o australiano Liam Hemsworth, irmão mais novo do também ator Chris Hemsworth), um sujeito que desde muito jovem entrou para a delinquência em Nova Iorque. Agora adulto, se especializou em lavagem de dinheiro de origem ilícita. Estamos falando de milhões de dólares e envolvimento com assaltantes e traficantes da pesada. Em quase todas essas trambicagens, Moe está ao lado de outro delinquente, seu amigo de infância Skunk (Emory Cohen). Sem nenhum deles saber, dois detetives corruptos estão atrás dos dois, loucos para se apropriar da grana alheia. Eis que surge no pedaço o poderoso traficante Perico (Zlatko Buric), por coincidência tio de Skunk. Ele pede que o sobrinho e o amigo Moe negociem um carregamento com outra gangue de traficantes, mas aí o caldo engrossa. O roteiro até arruma uma perda de memória de Moe. Vai sobrar para todo mundo, inclusive para a esposa de Moe que está grávida, Lola (Diane Guerrero). O filme até que tem boas cenas de ação (perseguições, muita violência, sangue jorrando e momentos de alta tensão), mas o elenco é muito ruim, a começar por Liam Hemsworth, e a história não me convenceu. 

quinta-feira, 16 de abril de 2020


“CARGA BRUTA – LADRÕES CONTRA TRAFICANTES” (“BRAQUEURS”), 2018, França, 1h21m, roteiro e direção de Julien Leclercq. Filme policial com muita ação, tensão, violência e reviravoltas. Uma quadrilha especializada em assaltar carros-forte está aterrorizando a França, agindo, principalmente, em Paris e arredores. O bando é comandado por Yanis Zeri (Sami Bouajila), um imigrante marroquino que vive na capital francesa com a mãe, a irmã e o seu irmão mais novo, Amine (Redouane Behache), que também faz parte da quadrilha. Depois de realizar mais um bem sucedido assalto, acontece um imprevisto dos mais graves envolvendo Amine, que deixa um rastro que pode denunciar sua quadrilha. E não dá outra. Uma poderosa gangue de traficantes descobre que o assalto foi realizado pela turma de Yanis e resolve chantageá-lo. Em troca de não serem denunciados, Yanes e seus comparsas terão de roubar um grande carregamento de heroína. As coisas dão errado e os traficantes começam a perder a paciência, vingando-se nos familiares da turma de Yanes. Destaque para mais uma excelente atuação do ator franco/tunisiano Sami Bouajila, que já trabalhou em outros bons filmes policiais do cinema francês. Estão ainda no elenco Guillaume Gouix e Alice de Lencquesaing. Sem dúvida, mais um excelente filme policial francês. Méritos ao roteirista e diretor Julien Leclercq, que tem no currículo bons filmes de ação como “O Resgate”, “Gibraltar” e “Lukas”.   

quarta-feira, 15 de abril de 2020


“CRIADO IGUAL” (“CREATED EQUAL” – a tradução literal para o português é minha, já que o filme ainda não chegou por aqui), 2017, Estados Unidos, 1h31m, direção do veterano ator Bill Duke. Roteiristas: Michael Ricigliano, Joyce Renee Lewis, Theta Catalon e Ned Bowman, que adaptaram a história para o cinema baseados no romance de Roger A. Brown. É um filme de fundo religioso, filosófico e, principalmente, jurídico, já que grande parte dele tem como cenário um tribunal. A história começa com a jovem Alejandra Batista (Edy Ganem), noviça que trabalha como auxiliar numa escola para crianças carentes administrada por freiras católicas. O sonho dela é entrar para o seminário e se tornar padre. Como o seu pedido é recusado pela Arquidiocese de New Orleans, ela decide entrar com um processo. Indicado para defendê-la, sem honorários (o tal pro bono, que os grandes escritórios norte-americanos de advocacia costumam promover “para o bem público”). O advogado Thomas Reily (Aaron Tveit) é nomeado para trabalhar no processo. Pessimista quanto ao resultado final, Thomas começa a acreditar que a fé de Alejandra é tão forte que pode interferir no resultado final. O caso gera imediata repercussão e logo ganha uma grande legião de inimigos: os fervorosos católicos, incluída entre eles a própria mãe de Thomas, além de um radical disposto a assassinar a noviça rebelde. Começa o julgamento. A defesa dos preceitos da Igreja no tribunal fica a cargo do Monsenhor Renzulli (Lou Diamond Phillips). Os principais argumentos de Thomas são baseados na questão da discriminação de gêneros, ou seja, na igualdade de direitos que nos Estados Unidos é garantida pela constituição. E por aí vão as discussões, que resultam em diálogos muito interessantes. Batalha dura para Thomas e Alejandra. Não é fácil modificar uma norma milenar que faz parte do Código do Direito Canônico da Igreja Católica. No desfecho, quando começam a subir os créditos, aparece o Papa Francisco dando uma entrevista coletiva falando justamente sobre esse tema: “Com relação à ordenação de mulheres, a Igreja já falou que não. A porta está fechada”. Fora os prós e contras, o filme é muito interessante ao abordar tema tão polêmico. Só achei que a abordagem ficou na superfície, poderia ir muito mais fundo, ainda mais que trabalharam no roteiro uma equipe de quatro roteiristas. Achei um outro defeito de roteiro que me chamou muito a atenção. Durante todo o processo, ninguém orientou Alejandra a ingressar num convento e estudar para ser freira. Dá para assistir "Criado Igual" numa boa e depois discutir o tema com os amigos. Vai dar briga boa.       

segunda-feira, 13 de abril de 2020


“AUGGIE”, 2019, produzido para a TV norte-americana pela Samuel Goldwyn Filmes, 1h21m, direção de Mat Kanne, que também assina o roteiro com Marc Underhill. É o primeiro longa-metragem da dupla. Trata-se de um misto de ficção científica, fantasia e drama familiar. O arquiteto Felix (Richard Kind) acaba de se aposentar do escritório de arquitetura onde trabalhou 35 anos. De presente de despedida, ele recebe uns óculos da marca Auggie. Ele até estranha, pois a tradição nessas ocasiões é o homenageado receber um relógio de pulso. Como logo descobrirá, os óculos têm um poder muito especial. Ou seja, projetar uma espécie de holograma com uma bela jovem, meiga e sensual, a tal Auggie (Christen Harper). E melhor: a imagem é como se fosse real, interagindo com a pessoa que está usando os óculos. Vivendo um casamento morno de muitos anos com Hilary (Larisa Oleynik), o quase sessentão Felix começa a se entusiasmar mais do que devia, a ponto de chamar a atenção da esposa e da filha com seu comportamento muito estranho. Enfim, ele se apaixona pela imagem e começa a ficar doidão, colocando em risco o próprio casamento. O filme se arrasta num ritmo entediante e se você é homem, pelo menos terá como atrativo a bela Christen Harper, realmente uma menina de virar a cabeça de qualquer um.  


“CARRASCO AMERICANO” (“AMERICAN HANGMAN”), 2019, Canadá, 1h39m, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Wilson ConeyBeare. Trata-se de um suspense psicológico com alguma violência. Um psicopata, um tal de Henri Davi (Vincent Kartheiser), sequestra dois homens e os confina num porão de uma casa. Os reféns não entendem o que está acontecendo e o maluco demora a esclarecer a razão do duplo sequestro. Um deles é Ron (Paul Braustein) e o outro é o juiz Straight (Donald Sutherland). O filme segue com muito papo furado entre o psicopata e a dupla de reféns. O tema das conversas envolve as falhas do sistema judiciário. Por um erro na sentença de um caso no passado, o maluco resolve julgar o juiz Straight. Até aí tudo normal. Só que ele resolve filmar o julgamento e passa a transmiti-lo ao vivo pela Internet, utilizando as redes sociais. Ainda não contente, o psicopata pede que os espectadores assumam a responsabilidade de votar se o juiz é culpado ou inocente. O caso mobiliza o país inteiro e a polícia entre na parada para tentar descobrir o local secreto onde estão o maluco e seus dois reféns. O filme é muito ruim, entediante à beira do insuportável, com um elenco medíocre. Difícil acreditar que um ator consagrado como Donald Sutherland tenha participado desse verdadeiro abacaxi. A única justificativa é que ele deve estar sem grana. Só pode ser. Mas não cabe a mim julgá-lo, já que o filme faz isso muito bem. Se puder, fuja a galope!  

sábado, 11 de abril de 2020


“TALK-SHOW: REINVENTANDO A COMÉDIA” (“LATE NIGHT”), 2019, Estados Unidos, 1h43m, direção de Nisha Ganatra, com roteiro de Mindy Kalinga, que também atua no filme. A produção divulgou o filme como uma comédia, mas achei que está mais para o drama, embora tenha algumas (poucas) cenas cômicas. Vamos à história: Katherine Newbury (Emma Thompson) é uma consagrada apresentadora de um programa de entrevistas na TV norte-americana. Está há 25 anos no ar, valendo-se de frases bem-humoradas para conquistar o público e de convidados importantes, entre eles celebridades do mundo político e artístico. Aos poucos, porém, a fórmula sofre um desgaste e o programa começa a perder audiência. Quando recebe a notícia de que será substituída se não melhorar a audiência, Katherine convoca seu produtor e sua equipe de roteiristas para uma reunião urgente. Dela acaba participando a jovem Molly Patel (Mindy Kaling), única mulher entre o grupo de roteiristas. Ela não é bem recebida pelos colegas e muito menos por Katherine. Aos poucos, porém, Molly começa a conquistar a confiança de todos, graças à sua sinceridade nas reuniões e às suas sugestões criativas e audaciosas. Como pano de fundo da história, lembrando que a diretora, a roteirista e as principais atrizes são mulheres, está uma evidente crítica ao machismo generalizado na indústria do entretenimento. O roteiro, o primeiro escrito pela atriz Mindy Kaling, é bastante inteligente ao expor o problema sem assumir uma atitude feminista radical. O maior trunfo do filme, porém, é a atuação magistral da grande atriz inglesa Emma Thompson, que leva o filme nas costas. Também estão no elenco John Lithgow e Amy Ryan. Enfim, entretenimento garantido, agradável e inteligente. O filme ainda não chegou ao nosso circuito comercial. Só foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema do Rio, em dezembro de 2019. 


sexta-feira, 10 de abril de 2020


“LINHA RETA” (“THE HUMMINGBIRD PROJECT”), 2019, Canadá, 1h50m, roteiro e direção de Kim Nguyen. No início, foi muito difícil entender o que estava acontecendo, mas vou tentar fazer um resumo. Os primos Vincent (Jesse Eisenberg) e Anton Zaleski (o ator sueco Alexander Skarsgard) trabalham numa empresa de TI (Tecnologia de Informação) em Nova Iorque comandada pela durona Eva Torres (Salma Hayek). Em segredo, os dois bolam um plano mirabolante e audacioso: construir um cabo de fibra ótica em linha reta do Kansas a Nova Jersey (cerca de 2 mil quilômetros). Pelo que entendi – confesso ser completamente leigo em TI -, o objetivo é acelerar o tempo de frequência das informações da bolsa de valores em milissegundos, o que lhes daria a vantagem de sair na frente dos concorrentes. Para bancar o projeto, eles conseguem convencer um grande investidor de Wall Street a entrar com o capital necessário, prometendo um lucro de bilhões. Projeto pronto, eles resolvem se demitir da empresa de Torres, que fica revoltada com a “traição” dos seus funcionários mais competentes, Anton, um gênio da informática, e Vincent, um estrategista e negociador dos melhores no mercado.  A partir daí, o filme acompanha todas as fases de construção do cabo de fibra ótica, o que envolve a contratação de empresas especializadas e negociação com os proprietários dos terrenos por onde passará o tal cabo. Nessa fase, o filme melhora muito, ganha ritmo e ação, mostrando as dificuldades e os desafios interpostos no caminho. Muita coisa acontece durante a execução da obra, inclusive uma uma série de reviravoltas que coloca o filme num ritmo quase que frenético. Excelente o trabalho de roteiro e direção do cineasta canadense Kim Nguyen, que passei a admirar depois de ter assistido o maravilhoso “Rebelle” (“A Feiticeira da Guerra”), que representou o Canadá na disputa do Oscar de 2013 de Melhor Filme Estrangeiro. “Linha Reta” é excelente, valorizado ainda mais pela ótima atuação do trio Eisenberg/Skarsgard/Hayek. Imperdível!  


quinta-feira, 9 de abril de 2020


“KV-1 – ALMAS DE FERRO” (“NESOKRUSHIMYY”), 2018, Rússia, 1h30, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Konstantin Maximov. O cinema de Hollywood, sempre baseado em fatos reais, já fez e continua fazendo inúmeros filmes enaltecendo os feitos heroicos dos soldados norte-americanos durante a Segunda Grande Guerra, assim como já fizeram tantos outros países. Inclusive a Rússia, de onde vem “KV-1”, que conta a história dos tripulantes de um tanque da 15ª Brigada Motorizada que, sozinhos, em 1942, destruíram 16 tanques alemães, dois veículos blindados e outros 8 veículos, o que lhes valeria o título de heróis nacionais. Os alemães haviam tentado invadir Moscou, mas foram rechaçados. O contra-ataque russo colocou em campo sua divisão de tanques em perseguição aos alemães. Um deles, o KV-1 dessa história, cuja tripulação era comandada pelo oficial Semyon Konovalov (Andrey Chernyshov), estava em missão de reconhecimento quando deu de cara com vários tanques inimigos perto da fazenda Nizhmemityakin, no Distrito de Tarasovskoye, na Região de Rostov. A batalha foi feroz, mas os corajosos russos deram conta do recado. Entre uma batalha e outra, o filme ainda guarda espaço para a reconciliação de Konovalov com sua ex-esposa Kavla (Olga Pogodina), em cenas açucaradas demais para quem está no meio de uma guerra. Mais uma história impressionante da fonte inesgotável de episódios gerados pela Segunda Guerra Mundial. Somente por este aspecto vale a pena assistir.

quarta-feira, 8 de abril de 2020


“JUNTAS NO CRIME” (“SWEETHEARTS”), 2019 Alemanha, 1h47m. Seja qual for o país, virou moda colocar o título original em inglês, com vistas, naturalmente, a facilitar a entrada do filme nos países de língua inglesa. Pesquisei o mesmo título em alemão e tem o mesmo significado do inglês: “Namoradas”. Estranhei, pois não é o caso de um filme lésbico. A tradução para o português até que ficou melhor. É o segundo longa-metragem escrito e dirigido pela atriz Karoline Herfurth, que também atua como um dos personagens principais. Trata-se de um misto de comédia, policial e filme de ação. Vamos à história: Mel (Hanna Herzsprung) é mãe solteira e trabalha como funcionária de um grande hospital em Berlim. Nas horas vagas, costuma assaltar joalherias e vender o produto do roubo para importantes receptadores. Um dos assaltos, porém, dá errado, e Mel é obrigada a fazer uma refém, Franny (papel da diretora Herfurth). Aí começa um tipo de road movie. As duas partem pelas estradas afora fugindo da polícia, em meio a várias confusões com gente da pesada. Mas, como refém, Franny é um desastre. Costuma ter ataques violentos de pânico, que só passam quando ela joga um game no celular chamado “Banana Kong”. Em meio à fuga, Mel faz mais um refém, desta vez o policial Harry (Frederick Lau). Aí o filme se perde mostrando situações das mais inverossímeis, terminando num desfecho que beira o ridículo. Como roteirista e diretora, Karoline Herfurth mostrou que continua uma ótima atriz. É um filme simpático, mas, com exceção de alguns momentos de bom humor, nada vi que justifique uma recomendação. A não ser que você queira dar uma folga aos seus neurônios.    

terça-feira, 7 de abril de 2020


“DE QUEM É A CULPA?” (“GUILTY”), 2019, Índia, 1h59m, direção da cineasta Ruchi Narain, com roteiro de Kanika Dhillon. O pano de fundo que inspirou a história é o alarmante crescimento, nos últimos anos, de estupros contra mulheres na Índia, o que justifica o fato da roteirista e da diretora serem do sexo feminino. No caso de “De Quem é a Culpa?”, a vítima é uma jovem estudante que acusa o bonitão da escola de tê-la estuprado. Ele tem uma namorada fixa, é vocalista de uma banda de rock e filho de gente importante ligada ao governo indiano e que, por isso mesmo, a acusação ganha enorme repercussão no país. Como as coisas vão se desenrolando, eu esperava o desfecho num tribunal, mas, para minha decepção, as cenas de julgamento duram poucos segundos. Com exceção de um ou outro adulto, o elenco é constituído em sua grande maioria por jovens adolescentes, o que chega a lembrar de algum episódio de “Malhação”. Posso citar alguns nomes do elenco, mas certamente ninguém por aqui deve conhecê-los, nem mesmo eu, que já vi um monte de filmes indianos. Kiara Advani, Ashrut Jaim e Akansha Ranjan Kapoor. Conhece alguém? Nem eu. Destaco um aspecto muito interessante em relação a “De Quem é a Culpa?”. Trata-se do fato de ser bastante diferente dos filmes de Bollywood. A começar pela ausência daqueles irritantes e entediantes números musicais e de dança, o que achei um ponto bastante positivo. Outro aspecto diz respeito ao fato de que o filme apresenta cenas que Bollywood não costumava filmar, como jovens transando, bebendo álcool, fumando um baseado e falando um monte de palavrões. Aliás, para facilitar seu ingresso no mercado internacional, o filme é quase todo falado em inglês (como o título original) e um pouco de hindi, língua falada por 70% dos indianos. Enfim, “De Quem é a Culpa?” pode ser visto como uma novidade do cinema de Bollywood. Nem bom nem ruim, apenas interessante.       

segunda-feira, 6 de abril de 2020


Representante oficial de Israel na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “O CONFEITEIRO” (“The Cakemaker”), 1h53, foi é o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Ofir Raul Graizer, mais conhecido em Israel como diretor de curtas. Sem dúvida, estreou de forma magistral, realizando um filme bastante sensível e muito interessante. A história começa em Berlim e envolve o confeiteiro Thomas (Tim Kalkhof), proprietário de uma confeitaria, e o israelense Oren (Roy Miller), um importante executivo que costuma viajar à Alemanha para cuidar dos negócios de sua empresa. Atraído pela qualidade dos bolos feitos por Thomas, Oren vira um cliente assíduo da confeitaria. Papo vai, papo vem, Oren sente-se atraído não apenas pelos bolos, mas também pelo confeiteiro. Embora casado em Israel e pai de um menino, Oren assume o romance com Thomas, resultando num aumento de viagens a Berlim. O caso fica mais sério, a ponto de Oren pensar em abandonar a família e ir morar com o amante. Um dia, porém, acontece um trágico imprevisto: Oren morre num acidente automobilístico. Devastado pela notícia e, ao mesmo tempo, disposto a conhecer pessoalmente a esposa de Oren, Anat (Sarah Adler), e quem sabe ajudá-la nesse momento difícil, Thomas resolve ir para Jerusalém. Sem se identificar, ele procura trabalho na cafeteria de propriedade de Anat. A partir daí, além de conseguir o trabalho como ajudante de cozinha, Thomas começa a preparar seus famosos cookies e bolos que farão o maior sucesso, atraindo muitos clientes para a cafeteria de Anat. De início, o alemão, por razões históricas óbvias, não foi bem recebido pela família e amigos de Anat. Ainda mais por não ter qualquer vínculo com a religião judaica. Mas Anat segura a barra, até que... A partir daqui, deixo as surpresas do roteiro a quem se dispuser a assistir ao filme, que, como escrevi no início deste comentário, foi escrito e dirigido com muita competência e sensibilidade pelo cineasta israelense. Indicado apenas para o pessoal que, como eu, exige qualidade e curte o bom cinema. Imperdível!   

sábado, 4 de abril de 2020


“O AUTOR” (“EL AUTOR”), 2017, Espanha, produção Netflix, 1h52m, direção de Manuel Martín Cuenca (“Canibal”), que também assina o roteiro juntamente com Alejandro Hernández. Na verdade, é um roteiro adaptado, cuja inspiração veio do livro “O Motivo”, de 2005, escrito por Javier Cercas. Trata-se de um misto de drama e suspense psicológico, com pitadas de humor negro. A história é centrada em Álvaro (Javier Gutiérrez), advogado de um cartório quer pretende ser escritor. Para isso, frequenta as aulas de redação e literatura do professor Juan (Antonio de La Torre). De início, ela não demonstra muito talento e, por isso, Juan pega no seu pé, sendo até ofensivo. Mas Álvaro não desiste. Nem mesmo quando descobre que sua esposa Amanda (María León) anda pulando a cerca. Durante uma aula, o professor explica para os alunos que é importante sair às ruas, conversar e interagir com as pessoas, ouvir o que elas falam. Só assim serão capazes de criar personagens e escrever um livro. Depois que se separou da esposa, Álvaro passa a morar num prédio e resolve conversar com todos os vizinhos - e também ouvir o que eles dizem entre quatro paredes. Dessa forma, faz amizade com um casal de imigrantes mexicanos, com um senhor que vive enaltecendo os tempos do Generalíssimo Franco e com a síndica do condomínio (Adelfa Calvo). Durante as conversas, Álvaro acabará se envolvendo com o dia a dia dos moradores. É dessa interação que ele consegue inspiração para criar seus personagens e construir uma história para compor seu primeiro romance. Ele leva tão a sério o seu trabalho que muitas vezes costuma sentar-se para escrever completamente nu, como soube que fazia Ernest Hemingway, seu ídolo na literatura. Trata-se de mais um excelente, criativo e original drama espanhol. E, melhor, com uma reviravolta surpreendente no final, transformando “O Autor” num ótimo entretenimento. Sua estreia mundial aconteceu no Toronto International Film Festival, em 2017, e logo em seguida conquistou os prêmios Goya 2018 (o Oscar espanhol) de Melhor Ator (Gutiérrez) e de Melhor Atriz Coadjuvante (Adelfa Calvo).


sexta-feira, 3 de abril de 2020


“GRAÇAS A DEUS” (“GRÂCE À DIEU”), 2018, França/Bélgica, 2h17m, roteiro e direção de François Ozon. Grande vencedor do Prêmio do Júri (“Urso de Prata”) do Festival Internacional de Cinema de Berlim/2019, o filme consagra o cineasta francês François Ozon como um dos melhores diretores do cinema atual (leia algumas dicas de seus filmes no final deste comentário). Inspirado em fatos ocorridos na França, especificamente na cidade de Lyon, Ozon vai a fundo no psicológico devastado das vítimas do padre pedófilo Bernard Preynat (Bernard Verley), que nas décadas de 1980 e 1990 abusou de vários garotos que integravam um grupo de escoteiros, fatos que viriam a público muitos anos mais tarde. Alexandre Guérin (Mevil Poupaud), um respeitado empresário e chefe de família, vítima do padre quando garoto, ficou revoltado ao ler uma notícia de que Preynat continuava trabalhando com crianças. Com o apoio da família, ele resolve denunciar o padre ao cardeal Philippe Barbarin (François Marthouret). Uma psicóloga da paróquia de Lyon promove uma acareação entre Preynat e Alexandre. O pedófilo confirma os fatos, mas não pede perdão a Alexandre. Além disso, o cardeal Barbarin firma posição de que tal crime já está prescrito. É a gota d’água para que Alexandre resolva denunciar publicamente o que aconteceu. Daí para a frente, várias outras vítimas de Preynat, cujos abusos não podem ser prescritos, resolvem se posicionar, o que culmina na criação da associação “Palavra Liberada”. As vítimas resolvem entregar o padre pedófilo à polícia, além de denunciarem o cardeal Barbarin por omissão. Nesse ponto, o diretor Ozon faz questão de destacar a burocracia administrativa da Igreja na tomada de uma posição, uma atitude que denota um forte corporativismo. Embora um tanto verborrágico, o filme consegue manter um ritmo quase que frenético do começo ao fim, num clima de forte tensão psicológica. Também fazem parte do elenco Aurélia Petit, Éric Caravaca, Denis Ménochet, Sinan Arlaud, Josiane Balasco, Hélène Vincente e Amélie Daure. Para encerrar o comentário, conforme prometido, indico outros ótimos de François Ozon: “Frantz”, “O Amante Duplo”, “Jovem e Bela”, “Swimming Pool”, “Uma Nova Amiga” e “Dentro de Casa”, este último, na minha opinião, o melhor de Ozon. “Graças a Deus” é mais um filme imperdível do diretor francês.    


quarta-feira, 1 de abril de 2020


Não é sempre que a gente descobre uma joia como o criativo e original “UMA MULHER EM GUERRA” (“KUNA FER I STRÍD”; nos países de língua inglesa, “Woman at War”), 2018, Islândia, 1h41m, segundo longa-metragem do ator e cineasta islandês Benedikt Erlingsson. A história é centrada na cinquentona Halla (Halldora Geirhardsdottir), uma ativista ambiental que resolve sabotar as linhas de energia nas montanhas de sua região como forma de protesto contra uma fundição de alumínio, que estaria poluindo os rios e o meio ambiente de seu país. Sua guerra particular acaba tomando proporções enormes, mobilizando a imprensa do país e suas autoridades, que iniciam uma verdadeira caçada contra “os terroristas” que querem destruir a economia da Islândia. Halla tem uma vida dupla, alternando suas atividades de ativista com a de professora de música. Ela é a respeitável cidadã responsável pelo coral da terceira idade de sua vila, um disfarce que não admite erros. Sua perspectiva tende a mudar quando ela recebe uma carta de uma Ong responsável pela adoção de crianças órfãs originárias de países em conflito. Era a resposta que ela aguardava há quatro anos: a Ong tinha descoberto uma menina na Croácia que estava à sua disposição para adoção. Juntamente com essa novidade, surge em cena Ása (papel da própria Halldora), irmã gêmea de Halla. As duas devem resolver a questão estratégica da adoção, pois é exigido que Halla vá à Croácia buscar a criança. Antes disso, porém, Halla quer fazer mais uma sabotagem, desta vez mais contundente. Em algumas cenas, aqui beirando o surreal, músicos e cantoras folclóricas acompanham as ações de Halla, um recurso que lembra os coros de teatro grego. Além de muito movimentado, o filme reúne gêneros como drama, comédia, política e consciência ambiental. O filme estreou no Festival de Cannes 2018, sendo indicado para o grande prêmio “Critics’ Week”. Além disso, foi vencedor do 12º Prêmio Lux de Cinema, premiação promovida pelo Parlamento Europeu. “Uma Mulher em Guerra” também representou a Islândia no Oscar 2019 como Melhor Filme Internacional. Por aqui, chegou a ser exibido durante a programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2018. A atriz e diretora norte-americana Jodie Foster gostou tanto do filme islandês que já está filmando um remake nos Estados Unidos. Enfim, “Uma Mulher em Guerra” é um filme genial, uma verdadeira pérola do cinema mundial. IMPERDÍVEL com letras maiúsculas!   


“A TRINCHEIRA INFINITA” (“La Trinchera Infinita”), 2019, Espanha, 2h27m, produção e distribuição Netflix, direção de Jon Garaño e Aitor Arregi, seguindo roteiro assinado por Luiso Berdejo e Jose Maria Goenaga. A história, baseada em fatos reais, tem como pano de fundo a situação política da Espanha desde o início da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), passando pela Segunda Guerra Mundial e o período posterior em que o Generalíssimo Franco governou o país com mãos de ferro. Na verdade, o enredo vai até 1969. É uma história incrível, toda ambientada num vilarejo do interior da Espanha. No início da Guerra Civil, houve uma grande caçada aos comunistas. Um deles era Higinio Blanco (Antonio de la Torre), que passou a ser procurado como inimigo número 1 pela polícia local. Com o cerco ao vilarejo, impedindo qualquer fuga, Higinio resolve se esconder num porão da casa, ajudado pela esposa Rosa (Belén Cuesta). Esse confinamento só terminaria em 1969, acredite se quiser. Nesse longo período de 33 anos, Higinio também ficaria escondido na casa de seu pai, num quarto construído especialmente para se transformar em esconderijo. Enquanto Rosa costurava e consertava roupas para o pessoal da vila, Higinio só tinha contato com o mundo exterior apenas através de um buraco na parede, devidamente disfarçado atrás de um espelho. Mesmo em 1963, quando Franco decretou a anista ao pessoal envolvido em questões políticas, Higinio decidiu não sair da toca. Para destacar ainda mais a sensação de claustrofobia dos dois personagens, a fotografia foi realizada em tons escuros até quase o desfecho. Eu já conhecia Antonio de la Torre e Belén Cuesta de outros carnavais, ou melhor, de outros bons filmes. Dele, eu já tinha assistido, entre outros filmes, o espetacular “O Candidato” (“El Reino”) e “Que Dios nos Perdone”. Dela, lembro da recente comédia “O Outro Pai” e “Kiki: Os Segredos do Desejo”. Juntos agora em “A Trincheira Infinita”, os dois esbanjam competência. O filme foi lançado na plataforma Netflix no dia 28 de fevereiro de 2020, mas antes foi exibido no Festival Internacional de San Sebastian 2019, onde ganhou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Disputou também o Goya (o Oscar espanhol), conquistando os prêmios de Melhor Atriz (Cuesta) e de Melhor Som. Excelente!  

terça-feira, 31 de março de 2020


“JUSTIÇA EM CHAMAS” (“TRIAL BY FIRE”), 2019, Estados Unidos, 2h7m, direção de Edward Zwicz, com roteiro de Geoffrey Fletcher, adaptado do livro “Trial by Fire”, escrito por David Grann. O filme relembra um caso de grande repercussão nos Estados Unidos, que tem como pano de fundo os prós e contras envolvendo a pena de morte. No caso, os contras. A história, baseada em fatos reais, é toda centrada em Cameron Todd Willingham (Jack O’Connell), que, em 1991, foi preso acusado de provocar o incêndio que resultou na morte de suas três filhas, duas das quais gêmeas. Ele foi julgado e condenado à morte por injeção letal (o fato aconteceu no Texas). Alguns anos antes da execução, Elizabeth Gilbert (Laura Dern), uma dona de casa viúva, passou a enviar cartas a Cameron e até agendou uma visita ao presidiário. Depois de inúmeras cartas trocadas e outras tantas visitas, Elizabeth ficou obcecada pelo fato de que o inquérito tinha várias falhas e resolveu contratar um advogado para entrar com recurso para rever os detalhes do julgamento. Não conseguiu reverter a situação de Cameron, que foi executado em 2004. Poucos anos depois, uma matéria investigativa publicada pela tradicional revista “The New Yorker” revelava estudos científicos que provaram ser Cameron inocente da acusação. O filme revela em detalhes os bastidores de toda a história, com um roteiro bem engendrado por Geoffrey Fletcher, que já havia conquistado um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por “Preciosa – Uma História de Esperança” (2010). O currículo invejável do diretor Edward Zwicz também é um bom aval de qualidade: “Jack Reacher: Sem Retorno”, “O Dono do Jogo”, “Amor e Outras Drogas”, “Um Ato de Liberdade”, “Diamante de Sangue” e “O Último Samurai”. Resumo da ópera: “Justiça em Chamas” é um bom entretenimento, valorizado pelas atuações da sempre ótima Laura Dern e do ator inglês Jack O’Connell.      

segunda-feira, 30 de março de 2020


“O INFORMANTE” (“THE INFORMER”), 2019, EUA, 1h53m. Todo mundo que trabalhou no filme é de um país diferente, transformando a produção numa verdadeira ONU. O diretor Andrea Di Stefano é italiano; os roteiristas Anders Roslund e Borge Hellstrom são suecos; o ator principal, Joel Kinnaman, é sueco radicado nos Estados Unidos; Rosamund Pike e Clive Owen são ingleses; e Ana de Armas é uma atriz cubana radicada nos EUA. Claro que essa diversidade não prejudicou o filme, pois é todo mundo muito competente. Toda a história é centrada em Pete Koslow (Kinnaman), ex-soldado da equipe de Operações Especiais do exército norte-americano, um briguento que cumpre pena depois de espancar e matar um sujeito em defesa de Sofia (Ana de Armas), sua esposa. Em troca da redução da pena, ele é cooptado pelos agentes do FBI Wilsox (Pike) e Montgomery (Owen) para se infiltrar numa gangue da máfia polonesa chefiada por um tal de “General”, que estava dominando o tráfico de drogas em Nova Iorque. A missão de Koslow não é nada fácil: ser enviado para uma prisão de segurança máxima onde o pessoal do “General” mandava e desmandava. Para isso, teria proteção total do FBI e do próprio diretor da prisão. Para encurtar a história e não revelar detalhes, destaco apenas que Koslow vai comer o pão que o diabo amassou, pois será perseguido não só pelo pessoal da gangue polonesa, mas também pela polícia novaiorquina e pelo próprio FBI, que havia lhe prometido proteção. Como filme de ação, funciona perfeitamente, garantindo momentos de muita tensão, suspense e pancadarias.      

sábado, 28 de março de 2020


“LUCE”, 2019, EUA, 1h49m, roteiro e direção de Julius Onah, cineasta nigeriano radicado nos Estados Unidos. É o terceiro longa-metragem de sua carreira. Para escrever o roteiro, Julius teve como inspiração a peça teatral escrita por J.C. Lee, que também colaborou no filme. Trata-se de um suspense psicológico centrado no jovem Luce Edgar (Kelvin Harrison Jr.), um ídolo em sua escola, admirado por alunos e professores, além de orador oficial da turma nos principais eventos do colégio. Ele havia sido adotado quando tinha 7 anos, trazido da Eritreia – país da África Oriental - pelo casal Peter (Tim Roth) e Amy Edgar (Naomi Watts). Acontece que Luce, por suas reações contraditórias, tinha a desconfiança da professora Harriet Wilson (Octavia Spencer). Como se não bastasse, ela acabaria encontrando no armário do rapaz um artigo político incitando à violência como forma de resolver conflitos. Além disso, havia um pacote com fogos de artifício. As situações levam a crer que Luce não era um jovem perfeito, aquele anjo que parecia ser, mas que tinha um lado obscuro, aspecto que sua mãe protetora jamais acreditaria. A situação cria um mal estar entre Luce e a professora, envolvendo os pais do rapaz e a direção da escola. Nesse sentido, o trabalho dos atores valoriza o clima tenso que vai do começo ao fim do filme. Destaque especial para a interpretação magistral do jovem ator Kelvin Harrison Jr., de apenas 25 anos, e também da sempre espetacular Octavia Spencer, que tem um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Histórias Cruzadas” (2012). Naomi Watts também está ótima como a mãe superprotetora que não vê defeitos no filho. E, finalmente, Tim Roth, com uma atuação mais contida, mas mesmo assim excelente. A estreia mundial de “Luce” aconteceu no Festival de Cinema Independente de Sundance, onde foi o filme mais comentado, recebendo elogios entusiasmados. Também ganhou 94% de aprovação no site “Rotten Tomates”, uma porcentagem difícil de alcançar. Enfim, “Luce” é uma verdadeira aula de cinema, ou como fazer com que o espectador não desgrude os olhos da tela. Sensacional!   

sexta-feira, 27 de março de 2020


“A NATUREZA DO TEMPO” (“EN ATTENDANT LES HIROLDELLES”), 2018, coprodução França/Argélia, 1h55m, primeiro longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta argelino Karim Moussaoui. São três histórias dentro do filme. Na primeira, Mourad (Mohamed Djouhri), um investidor do ramo imobiliário, enfrenta problemas com o filho, que pretende abandonar a faculdade de medicina perto da formatura. Na segunda, o jovem Djalil (Mehdi Ramdani) é contratado como motorista para levar Aicha (Hania Amar) e seus pais à cidade do noivo para os preparativos do casamento. Na terceira e última história, um médico neurologista (Hassan Kachach) é procurado por uma mulher que o acusa de tê-la estuprado. No meio de cada história, o roteiro inventa várias situações envolvendo os personagens, o que de certa forma consegue tornar o filme um pouco mais dinâmico. Uma boa sacada do roteiro é promover o encontro casual de personagens de uma história e das outras perto do desfecho. Ao fim da terceira história, a do médico acusado de estupro, aparece um homem misterioso cuja identidade não é revelada. Sua aparição cai no vazio , deixando o espectador com cara de Ué? No geral, o filme é lento demais, entediante, mas interessante sob o ponto de vista do cotidiano da sociedade argelina. Os cenários são áridos, o vento levantando areia para todos os lados, e as ruas são mostradas com ruínas que parecem resultado de alguma guerra. Cenários de total desolação. “A Natureza do Tempo” concorreu a melhor filme na Mostra “Um Certain Regard” do Festival de Cannes. Indicado somente para cinéfilos ou espectadores interessados em conhecer os bastidores da vida na Argélia.    

quinta-feira, 26 de março de 2020


“OS AERONAUTAS” (“THE AERONAUTS”), 2019, Inglaterra, produção Amazon Prime, 1h41m, direção de Tom Harper, que também assina o roteiro juntamente com Jack Thorne. A história, baseada em fatos reais, foi inspirada no livro “Falling Up Wards: How We Took to the Air”, de Richard Holmes, que relembra a sensacional aventura de um cientista e uma balonista (personagem fictício, que explico no final deste comentário). O filme é ambientado no ano de 1862 em Londres. O cientista James Glaisher associou-se à famosa balonista Amelia Wren (Felicity Jones) para um voo muito especial: pesquisar formas de se prever a meteorologia. Enfrentando chuva torrencial, temporais, raios, frio de congelar e muita ventania, a dupla conseguiu, além da pesquisa em si, bater o recorde de altura da época: 8.700 quilômetros. No filme, a personagem Amelia Wren foi criada à vontade do roteirista e do diretor. Na verdade, o verdadeiro companheiro de Glaisher na missão foi o também cientista Henry Coxell. Amelia Wren surgiu inspirada em uma balonista muito famosa na época, Sophie Blanchard. Com relação a  James Glaisher, o cientista foi uma figura muito importante no mundo científico, sendo pesquisador do departamento de Meteorologia do Observatório Real de Grenwich e fundador da Sociedade Real de Meteorologia e da Sociedade Aeronáutica da Grã-Bretanha. O filme é espetacular, com cenas de perigo de tirar o fôlego. A gente acompanha tudo de muito perto, como se estivesse no balão. Méritos para o diretor Tom Harper, que soube manter um ritmo frenético deste o início até o desfecho, valorizando aquela que foi uma das aventuras mais espetaculares que o cinema já produziu. Também estão no elenco Vincent Perez, Tom Courtnay, Himesh Patel, Rebecca Front e Anne Reid. Relembro que Eddie Redmayne e Felicity Jones trabalharam juntos em “A Teoria de Tudo” (2014), filme que resultou no Oscar de Melhor Ator para Redmayne, que viveu o físico inglês Stephen Hawking. No caso de “Os Aeronautas”, porém, o destaque maior fica para a dentucinha Felicity Jones, que arrasa principalmente nas cenas de ação. IMPERDÍVEL!          

quarta-feira, 25 de março de 2020


“MINHA OBRA-PRIMA” (“MI OBRA MAESTRA”), 2018, Argentina, 1h45m, roteiro e direção de Gaston Duprat. Mais um filme argentino para dar inveja a nosotros. Trata-se de uma divertida e inteligente comédia reunindo dois dos mais consagrados atores do país de Maradona: Guillermo Francella e Luis Brandoni. Guillermo é Arturo Silva, um conhecido marchand e galerista de Buenos Aires. Brandoni é Renzo Nervi, um pintor que fez grande sucesso na década de 80, mas agora não consegue vender mais nada. E, pior, virou um artista carrancudo, mal-humorado, insuportável e difícil de se lidar. E, além do mais, falido. Mesmo com a decadência do pintor, Arturo jamais abandonou o amigo de muitos anos, que o ajudou a ganhar muito dinheiro. Agora, porém, Arturo está tendo enorme dificuldade de ajudar Nervi, principalmente devido ao seu comportamento antissocial. Quando um acidente ocorre com o pintor, obrigando-o a ser internado, Arturo vê uma ótima possibilidade de reverter o quadro de penúria do amigo e também ganhar dinheiro com isso. Eles bolam um plano macabro para valorizar os quadros de Nervi, que assinou um documento doando-os ao marchand. Tudo caminha bem até que um ex-aluno de Nervi, Alex (Raul Arévalo), meio que sem querer, descobre um segredo que abalará o mercado das artes na Argentina. Graças ao roteiro elaborado por Duprat, o filme diverte muito com seu humor corrosivo, que no fundo é uma sátira ao mundo das artes. Mas seu maior trunfo é, sem dúvida, o trabalho magistral dos atores Francella e Brandoni, que conseguem transformar seus personagens em figuras simpáticas e cativantes. Eu já conhecia Francella dos filmes “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”, “Um Namorado para Minha Esposa” e do espetacular “O Segredo dos seus Olhos”. Aos 79 anos, Brandoni é um dos mais conhecidos atores argentinos, mas confesso que não lembro de tê-lo visto em algum filme. Com relação ao roteirista e diretor Gastón Duprat, lembro de dois de seus filmes, “O Homem ao Lado” e “O Cidadão Ilustre", ambos muito bons. “Minha Obra-Prima” é mais um filmaço argentino. Imperdível!