“FIVE”, 2016,
França, 1h42m, filme de estreia no roteiro e na direção do ator Igor Gotesman (ele
atua como um dos cinco amigos de “Five”). Trata-se de uma comédia simpática e
agradável de assistir, daquelas que deixam os nossos neurônios em descanso. Só
diverte mesmo. É a história de cinco amigos de infância que fizeram um pacto de
morar juntos, como uma família, quando fossem adultos, o que eles conseguem
alugando um belo apartamento em Paris. Cada um contribuindo com sua parte com o
aluguel e demais despesas. Eles são Samuel (Pierre Niney), Timothy (François
Civil), Vadim (papel do diretor Gotesman), Nestor (Idrissa Hanrot) e a bela
Julia (Margo Bandilhon), que todo mundo respeita como uma irmã, mas que no
fundo todos gostariam de levar para a cama. Embora a amizade seja forte e
aparentemente indestrutível, não será nada fácil a convivência, pois cada um
tem uma personalidade diferente dos outros. Samuel engana o pai dizendo que
está na faculdade de medicina, mas na verdade gasta todo o dinheiro em farras.
Timothy é um maconheiro crônico, vive chapado o dia inteiro. Nestor é o
garanhão da turma, vive se metendo em encrencas amorosas, sendo que uma delas terá grande importância no desfecho. Julia e Vadim são os mais centrados, pois vivem um romance escondido. Enfim, eles
encaram uma rotina como uma família qualquer, até a hora em que é preciso
assumir as despesas do apartamento. Samuel perdeu a mesada do pai e os demais
se viram como podem. Na hora em que começa a faltar dinheiro, tem sempre aquele
que apresenta uma ideia mirabolante. No caso, vender maconha, ao invés de só
consumir. Claro que terão que se envolver com traficantes e cada vez mais a
situação vai se complicando. O ator Pierre Niney é o mais conhecido do elenco,
tendo participando de filmes interessantes como “Yves Saint Laurent”, “20 Anos
+ Jovem” e o maravilhoso “Frantz”, do diretor François Ozon. Destaco ainda a
participação da diva Fanny Ardant no papel dela mesma. Não há dúvidas de que o
filme apresenta algumas situações hilariantes e cenas de boa comédia, mas o
resultado final é um tanto pífio. Em todo caso, para descontrair, vale a pena a
pena assistir.
sábado, 18 de abril de 2020
sexta-feira, 17 de abril de 2020
“KILLERMAN: A LEI DAS RUAS” (“KILLERMAN”),
2019,
Estados Unidos, 1h52, roteiro e direção de Malik Bader (que também atua no
filme no papel do personagem Martinez). Trata-se de um filme policial centrado
em Moe Diamond (o australiano Liam Hemsworth, irmão mais novo do também ator
Chris Hemsworth), um sujeito que desde muito jovem entrou para a delinquência
em Nova Iorque. Agora adulto, se especializou em lavagem de dinheiro de origem
ilícita. Estamos falando de milhões de dólares e envolvimento com assaltantes e
traficantes da pesada. Em quase todas essas trambicagens, Moe está ao lado de outro
delinquente, seu amigo de infância Skunk (Emory Cohen). Sem nenhum deles saber,
dois detetives corruptos estão atrás dos dois, loucos para se apropriar da grana
alheia. Eis que surge no pedaço o poderoso traficante Perico (Zlatko Buric),
por coincidência tio de Skunk. Ele pede que o sobrinho e o amigo Moe negociem
um carregamento com outra gangue de traficantes, mas aí o caldo engrossa. O
roteiro até arruma uma perda de memória de Moe. Vai sobrar para todo mundo,
inclusive para a esposa de Moe que está grávida, Lola (Diane Guerrero). O filme
até que tem boas cenas de ação (perseguições, muita violência, sangue jorrando
e momentos de alta tensão), mas o elenco é muito ruim, a começar por Liam
Hemsworth, e a história não me convenceu.
quinta-feira, 16 de abril de 2020

quarta-feira, 15 de abril de 2020
“CRIADO IGUAL” (“CREATED EQUAL” – a
tradução literal para o português é minha, já que o filme ainda não chegou por
aqui), 2017, Estados Unidos, 1h31m, direção do veterano ator Bill Duke.
Roteiristas: Michael Ricigliano, Joyce Renee Lewis, Theta Catalon e Ned Bowman,
que adaptaram a história para o cinema baseados no romance de Roger A. Brown. É um filme de
fundo religioso, filosófico e, principalmente, jurídico, já que grande parte
dele tem como cenário um tribunal. A história começa com a jovem Alejandra
Batista (Edy Ganem), noviça que trabalha como auxiliar numa escola para crianças
carentes administrada por freiras católicas. O sonho dela é entrar para o
seminário e se tornar padre. Como o seu pedido é recusado pela Arquidiocese de
New Orleans, ela decide entrar com um processo. Indicado para defendê-la, sem
honorários (o tal pro bono, que os grandes escritórios norte-americanos
de advocacia costumam promover “para o bem público”). O advogado Thomas Reily
(Aaron Tveit) é nomeado para trabalhar no processo. Pessimista quanto ao
resultado final, Thomas começa a acreditar que a fé de Alejandra é tão forte
que pode interferir no resultado final. O caso gera imediata repercussão e logo ganha
uma grande legião de inimigos: os fervorosos católicos, incluída entre eles a
própria mãe de Thomas, além de um radical disposto a assassinar a noviça rebelde.
Começa o julgamento. A defesa dos preceitos da Igreja no tribunal fica a cargo do
Monsenhor Renzulli (Lou Diamond Phillips). Os principais argumentos de Thomas são
baseados na questão da discriminação de gêneros, ou seja, na igualdade de
direitos que nos Estados Unidos é garantida pela constituição. E por aí vão as
discussões, que resultam em diálogos muito interessantes. Batalha dura para Thomas
e Alejandra. Não é fácil modificar uma norma milenar que faz parte do Código do
Direito Canônico da Igreja Católica. No desfecho, quando começam a subir os
créditos, aparece o Papa Francisco dando uma entrevista coletiva falando
justamente sobre esse tema: “Com relação à ordenação de mulheres, a Igreja já
falou que não. A porta está fechada”. Fora os prós e contras, o filme é muito
interessante ao abordar tema tão polêmico. Só achei que a abordagem ficou na
superfície, poderia ir muito mais fundo, ainda mais que trabalharam no roteiro
uma equipe de quatro roteiristas. Achei um outro defeito de roteiro que me
chamou muito a atenção. Durante todo o processo, ninguém orientou Alejandra a ingressar num convento e estudar para ser freira. Dá para assistir "Criado Igual" numa boa e
depois discutir o tema com os amigos. Vai dar briga boa.
segunda-feira, 13 de abril de 2020

“CARRASCO AMERICANO” (“AMERICAN
HANGMAN”), 2019, Canadá, 1h39m, segundo longa-metragem escrito e dirigido por
Wilson ConeyBeare. Trata-se de um suspense psicológico com alguma violência. Um
psicopata, um tal de Henri Davi (Vincent Kartheiser), sequestra dois homens e
os confina num porão de uma casa. Os reféns não entendem o que está acontecendo
e o maluco demora a esclarecer a razão do duplo sequestro. Um deles é Ron (Paul
Braustein) e o outro é o juiz Straight (Donald Sutherland). O filme segue com
muito papo furado entre o psicopata e a dupla de reféns. O tema das
conversas envolve as falhas do sistema judiciário. Por um erro na sentença de
um caso no passado, o maluco resolve julgar o juiz Straight. Até aí tudo
normal. Só que ele resolve filmar o julgamento e passa a transmiti-lo ao vivo
pela Internet, utilizando as redes sociais. Ainda não contente, o psicopata pede
que os espectadores assumam a responsabilidade de votar se o juiz é culpado ou
inocente. O caso mobiliza o país inteiro e a polícia entre na parada para tentar
descobrir o local secreto onde estão o maluco e seus dois reféns. O filme é
muito ruim, entediante à beira do insuportável, com um elenco medíocre. Difícil acreditar que um ator consagrado como Donald Sutherland
tenha participado desse verdadeiro abacaxi. A única justificativa é que ele
deve estar sem grana. Só pode ser. Mas não cabe a mim julgá-lo, já que o filme
faz isso muito bem. Se puder, fuja a galope!
sábado, 11 de abril de 2020

sexta-feira, 10 de abril de 2020
“LINHA RETA” (“THE HUMMINGBIRD
PROJECT”), 2019, Canadá, 1h50m, roteiro e direção de Kim Nguyen. No
início, foi muito difícil entender o que estava acontecendo, mas vou tentar
fazer um resumo. Os primos Vincent (Jesse Eisenberg) e Anton Zaleski (o ator
sueco Alexander Skarsgard) trabalham numa empresa de TI (Tecnologia de
Informação) em Nova Iorque comandada pela durona Eva Torres (Salma Hayek). Em segredo, os
dois bolam um plano mirabolante e audacioso: construir um cabo de fibra ótica
em linha reta do Kansas a Nova Jersey (cerca de 2 mil quilômetros). Pelo que entendi
– confesso ser completamente leigo em TI -, o objetivo é acelerar o tempo de
frequência das informações da bolsa de valores em milissegundos, o que lhes
daria a vantagem de sair na frente dos concorrentes. Para bancar o projeto,
eles conseguem convencer um grande investidor de Wall Street a entrar com o capital
necessário, prometendo um lucro de bilhões. Projeto pronto, eles resolvem se demitir da empresa de Torres, que
fica revoltada com a “traição” dos seus funcionários mais competentes, Anton,
um gênio da informática, e Vincent, um estrategista e negociador dos melhores no mercado. A partir daí, o filme acompanha todas as fases de construção do cabo de fibra
ótica, o que envolve a contratação de empresas especializadas e negociação com
os proprietários dos terrenos por onde passará o tal cabo. Nessa fase, o filme
melhora muito, ganha ritmo e ação, mostrando as dificuldades e os desafios interpostos no caminho. Muita
coisa acontece durante a execução da obra, inclusive uma uma série de reviravoltas que coloca o filme num
ritmo quase que frenético. Excelente o trabalho de roteiro e direção do
cineasta canadense Kim Nguyen, que passei a admirar depois de ter assistido o
maravilhoso “Rebelle” (“A Feiticeira da Guerra”), que representou o Canadá na disputa
do Oscar de 2013 de Melhor Filme Estrangeiro. “Linha Reta” é excelente,
valorizado ainda mais pela ótima atuação do trio Eisenberg/Skarsgard/Hayek.
Imperdível!
quinta-feira, 9 de abril de 2020

quarta-feira, 8 de abril de 2020
“JUNTAS NO CRIME” (“SWEETHEARTS”), 2019
Alemanha, 1h47m. Seja qual for o país, virou moda colocar o título original em
inglês, com vistas, naturalmente, a facilitar a entrada do filme nos países de
língua inglesa. Pesquisei o mesmo título em alemão e tem o mesmo significado do
inglês: “Namoradas”. Estranhei, pois não é o caso de um filme lésbico. A
tradução para o português até que ficou melhor. É o segundo longa-metragem
escrito e dirigido pela atriz Karoline Herfurth, que também atua como um dos
personagens principais. Trata-se de um misto de comédia, policial e filme de
ação. Vamos à história: Mel (Hanna Herzsprung) é mãe solteira e trabalha como
funcionária de um grande hospital em Berlim. Nas horas vagas, costuma assaltar
joalherias e vender o produto do roubo para importantes receptadores. Um dos
assaltos, porém, dá errado, e Mel é obrigada a fazer uma refém, Franny (papel
da diretora Herfurth). Aí começa um tipo de road movie. As duas partem
pelas estradas afora fugindo da polícia, em meio a várias confusões com gente da pesada. Mas, como refém, Franny é um desastre.
Costuma ter ataques violentos de pânico, que só passam quando ela joga um game
no celular chamado “Banana Kong”. Em meio à fuga, Mel faz mais um refém, desta
vez o policial Harry (Frederick Lau). Aí o filme se perde mostrando situações
das mais inverossímeis, terminando num desfecho que beira o ridículo. Como roteirista
e diretora, Karoline Herfurth mostrou que continua uma ótima atriz. É um filme simpático, mas, com exceção de alguns momentos
de bom humor, nada vi que justifique uma recomendação. A não ser que você
queira dar uma folga aos seus neurônios.
terça-feira, 7 de abril de 2020
“DE QUEM É A CULPA?” (“GUILTY”),
2019,
Índia, 1h59m, direção da cineasta Ruchi Narain, com roteiro de Kanika Dhillon.
O pano de fundo que inspirou a história é o alarmante crescimento, nos últimos
anos, de estupros contra mulheres na Índia, o que justifica o fato da
roteirista e da diretora serem do sexo feminino. No caso de “De Quem é a Culpa?”,
a vítima é uma jovem estudante que acusa o bonitão da escola de tê-la
estuprado. Ele tem uma namorada fixa, é vocalista de uma banda de rock e filho
de gente importante ligada ao governo indiano e que, por isso mesmo, a acusação
ganha enorme repercussão no país. Como as coisas vão se desenrolando, eu
esperava o desfecho num tribunal, mas, para minha decepção, as cenas de
julgamento duram poucos segundos. Com exceção de um ou outro adulto, o elenco é
constituído em sua grande maioria por jovens adolescentes, o que chega a lembrar
de algum episódio de “Malhação”. Posso citar alguns nomes do elenco,
mas certamente ninguém por aqui deve conhecê-los, nem mesmo eu, que já vi um
monte de filmes indianos. Kiara Advani, Ashrut Jaim e Akansha Ranjan Kapoor.
Conhece alguém? Nem eu. Destaco um aspecto muito interessante em relação a “De
Quem é a Culpa?”. Trata-se do fato de ser bastante diferente dos filmes de
Bollywood. A começar pela ausência daqueles irritantes e entediantes números
musicais e de dança, o que achei um ponto bastante positivo. Outro aspecto diz respeito
ao fato de que o filme apresenta cenas que Bollywood não costumava filmar, como
jovens transando, bebendo álcool, fumando um baseado e falando um monte de
palavrões. Aliás, para facilitar seu ingresso no mercado internacional, o filme
é quase todo falado em inglês (como o título original) e um pouco de hindi,
língua falada por 70% dos indianos. Enfim, “De Quem é a Culpa?” pode ser visto
como uma novidade do cinema de Bollywood. Nem bom nem ruim, apenas
interessante.
segunda-feira, 6 de abril de 2020
Representante oficial de Israel
na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “O CONFEITEIRO” (“The
Cakemaker”), 1h53, foi é o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por
Ofir Raul Graizer, mais conhecido em Israel como diretor de curtas. Sem dúvida,
estreou de forma magistral, realizando um filme bastante sensível e muito
interessante. A história começa em Berlim e envolve o confeiteiro Thomas (Tim
Kalkhof), proprietário de uma confeitaria, e o israelense Oren (Roy Miller), um
importante executivo que costuma viajar à Alemanha para cuidar dos negócios de
sua empresa. Atraído pela qualidade dos bolos feitos por Thomas, Oren vira um
cliente assíduo da confeitaria. Papo vai, papo vem, Oren sente-se atraído não
apenas pelos bolos, mas também pelo confeiteiro. Embora casado em Israel e pai
de um menino, Oren assume o romance com Thomas, resultando num aumento de viagens
a Berlim. O caso fica mais sério, a ponto de Oren pensar em abandonar a família
e ir morar com o amante. Um dia, porém, acontece um trágico imprevisto: Oren
morre num acidente automobilístico. Devastado pela notícia e, ao mesmo tempo,
disposto a conhecer pessoalmente a esposa de Oren, Anat (Sarah Adler), e quem
sabe ajudá-la nesse momento difícil, Thomas resolve ir para Jerusalém. Sem se
identificar, ele procura trabalho na cafeteria de propriedade de Anat. A partir
daí, além de conseguir o trabalho como ajudante de cozinha, Thomas começa a
preparar seus famosos cookies e bolos que farão o maior sucesso, atraindo
muitos clientes para a cafeteria de Anat. De início, o alemão, por razões históricas
óbvias, não foi bem recebido pela família e amigos de Anat. Ainda mais por não
ter qualquer vínculo com a religião judaica. Mas Anat segura a barra, até
que... A partir daqui, deixo as surpresas do roteiro a quem se dispuser a
assistir ao filme, que, como escrevi no início deste comentário, foi escrito e dirigido com muita competência e sensibilidade pelo cineasta israelense. Indicado apenas para o
pessoal que, como eu, exige qualidade e curte o bom cinema. Imperdível!
sábado, 4 de abril de 2020
“O
AUTOR” (“EL AUTOR”), 2017, Espanha, produção Netflix, 1h52m,
direção de Manuel Martín Cuenca (“Canibal”), que também assina o roteiro
juntamente com Alejandro Hernández. Na verdade, é um roteiro adaptado, cuja
inspiração veio do livro “O Motivo”, de 2005, escrito por Javier Cercas. Trata-se
de um misto de drama e suspense psicológico, com pitadas de humor negro. A história
é centrada em Álvaro (Javier Gutiérrez), advogado de um cartório quer pretende
ser escritor. Para isso, frequenta as aulas de redação e literatura do
professor Juan (Antonio de La Torre). De início, ela não demonstra muito
talento e, por isso, Juan pega no seu pé, sendo até ofensivo. Mas Álvaro não
desiste. Nem mesmo quando descobre que sua esposa Amanda (María León) anda
pulando a cerca. Durante uma aula, o professor explica para os alunos que é
importante sair às ruas, conversar e interagir com as pessoas, ouvir o que elas
falam. Só assim serão capazes de criar personagens e escrever um livro. Depois que
se separou da esposa, Álvaro passa a morar num prédio e resolve conversar com
todos os vizinhos - e também ouvir o que eles dizem entre quatro paredes. Dessa forma, faz amizade com um casal de imigrantes
mexicanos, com um senhor que vive enaltecendo os tempos do Generalíssimo Franco
e com a síndica do condomínio (Adelfa Calvo). Durante as conversas, Álvaro
acabará se envolvendo com o dia a dia dos moradores. É dessa interação que ele
consegue inspiração para criar seus personagens e construir uma história para compor
seu primeiro romance. Ele leva tão a sério o seu trabalho que muitas vezes costuma
sentar-se para escrever completamente nu, como soube que fazia Ernest Hemingway,
seu ídolo na literatura. Trata-se de mais um excelente, criativo e original
drama espanhol. E, melhor, com uma reviravolta surpreendente no final, transformando
“O Autor” num ótimo entretenimento. Sua estreia mundial aconteceu no Toronto International
Film Festival, em 2017, e logo em seguida conquistou os prêmios Goya 2018 (o
Oscar espanhol) de Melhor Ator (Gutiérrez) e de Melhor Atriz Coadjuvante
(Adelfa Calvo).
sexta-feira, 3 de abril de 2020
“GRAÇAS
A DEUS” (“GRÂCE À DIEU”), 2018, França/Bélgica, 2h17m, roteiro e
direção de François Ozon. Grande vencedor do Prêmio do Júri (“Urso de Prata”)
do Festival Internacional de Cinema de Berlim/2019, o filme consagra o cineasta
francês François Ozon como um dos melhores diretores do cinema atual (leia
algumas dicas de seus filmes no final deste comentário). Inspirado em fatos
ocorridos na França, especificamente na cidade de Lyon, Ozon vai a fundo no
psicológico devastado das vítimas do padre pedófilo Bernard Preynat (Bernard
Verley), que nas décadas de 1980 e 1990 abusou de vários garotos que integravam
um grupo de escoteiros, fatos que viriam a público
muitos anos mais tarde. Alexandre Guérin (Mevil Poupaud), um respeitado
empresário e chefe de família, vítima do padre quando garoto, ficou revoltado
ao ler uma notícia de que Preynat continuava trabalhando com crianças. Com o apoio
da família, ele resolve denunciar o padre ao cardeal Philippe Barbarin (François
Marthouret). Uma psicóloga da paróquia de Lyon promove uma acareação entre Preynat
e Alexandre. O pedófilo confirma os fatos, mas não pede perdão a Alexandre. Além
disso, o cardeal Barbarin firma posição de que tal crime já está prescrito. É a
gota d’água para que Alexandre resolva denunciar publicamente o que aconteceu.
Daí para a frente, várias outras vítimas de Preynat, cujos abusos não podem ser
prescritos, resolvem se posicionar, o que culmina na criação da associação “Palavra
Liberada”. As vítimas resolvem entregar o padre pedófilo à polícia, além de denunciarem
o cardeal Barbarin por omissão. Nesse ponto, o diretor Ozon faz questão de
destacar a burocracia administrativa da Igreja na tomada de uma posição, uma
atitude que denota um forte corporativismo. Embora um tanto verborrágico, o
filme consegue manter um ritmo quase que frenético do começo ao fim, num clima
de forte tensão psicológica. Também fazem parte do elenco Aurélia Petit, Éric
Caravaca, Denis Ménochet, Sinan Arlaud, Josiane Balasco, Hélène Vincente e
Amélie Daure. Para encerrar o comentário, conforme prometido, indico outros
ótimos de François Ozon: “Frantz”, “O Amante Duplo”, “Jovem e Bela”, “Swimming
Pool”, “Uma Nova Amiga” e “Dentro de Casa”, este último, na minha opinião, o
melhor de Ozon. “Graças a Deus” é mais um filme imperdível do diretor francês.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Não é sempre que a gente
descobre uma joia como o criativo e original “UMA MULHER EM GUERRA” (“KUNA
FER I STRÍD”; nos países de língua inglesa, “Woman at War”), 2018,
Islândia, 1h41m, segundo longa-metragem do ator e cineasta islandês Benedikt
Erlingsson. A história é centrada na cinquentona Halla (Halldora
Geirhardsdottir), uma ativista ambiental que resolve sabotar as linhas de energia
nas montanhas de sua região como forma de protesto contra uma fundição de alumínio,
que estaria poluindo os rios e o meio ambiente de seu país. Sua guerra
particular acaba tomando proporções enormes, mobilizando a imprensa do país e suas
autoridades, que iniciam uma verdadeira caçada contra “os terroristas” que querem
destruir a economia da Islândia. Halla tem uma vida dupla, alternando suas
atividades de ativista com a de professora de música. Ela é a respeitável cidadã
responsável pelo coral da terceira idade de sua vila, um disfarce que não
admite erros. Sua perspectiva tende a mudar quando ela recebe uma carta de uma Ong
responsável pela adoção de crianças órfãs originárias de países em conflito. Era
a resposta que ela aguardava há quatro anos: a Ong tinha descoberto uma menina
na Croácia que estava à sua disposição para adoção. Juntamente com essa
novidade, surge em cena Ása (papel da própria Halldora), irmã gêmea de Halla. As
duas devem resolver a questão estratégica da adoção, pois é exigido que Halla
vá à Croácia buscar a criança. Antes disso, porém, Halla quer fazer mais uma
sabotagem, desta vez mais contundente. Em algumas cenas, aqui beirando o
surreal, músicos e cantoras folclóricas acompanham as ações de Halla, um
recurso que lembra os coros de teatro grego. Além de muito movimentado, o filme
reúne gêneros como drama, comédia, política e consciência ambiental. O filme
estreou no Festival de Cannes 2018, sendo indicado para o grande prêmio “Critics’
Week”. Além disso, foi vencedor do 12º Prêmio Lux de Cinema, premiação promovida
pelo Parlamento Europeu. “Uma Mulher em Guerra” também representou a Islândia
no Oscar 2019 como Melhor Filme Internacional. Por aqui, chegou a ser exibido
durante a programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo, em outubro de 2018. A atriz e diretora norte-americana Jodie Foster gostou
tanto do filme islandês que já está filmando um remake nos Estados Unidos. Enfim, “Uma
Mulher em Guerra” é um filme genial, uma verdadeira pérola do cinema mundial.
IMPERDÍVEL com letras maiúsculas!
“A TRINCHEIRA INFINITA” (“La
Trinchera Infinita”), 2019, Espanha, 2h27m, produção e distribuição
Netflix, direção de Jon Garaño e Aitor Arregi, seguindo roteiro assinado por
Luiso Berdejo e Jose Maria Goenaga. A história, baseada em fatos reais, tem
como pano de fundo a situação política da Espanha desde o início da Guerra
Civil Espanhola (1936-1939), passando pela Segunda Guerra Mundial e o período
posterior em que o Generalíssimo Franco governou o país com mãos de ferro. Na
verdade, o enredo vai até 1969. É uma história incrível, toda ambientada num
vilarejo do interior da Espanha. No início da Guerra Civil, houve uma grande
caçada aos comunistas. Um deles era Higinio Blanco (Antonio de la Torre), que
passou a ser procurado como inimigo número 1 pela polícia local. Com o cerco ao
vilarejo, impedindo qualquer fuga, Higinio resolve se esconder num porão da
casa, ajudado pela esposa Rosa (Belén Cuesta). Esse confinamento só terminaria
em 1969, acredite se quiser. Nesse longo período de 33 anos, Higinio também
ficaria escondido na casa de seu pai, num quarto construído especialmente para
se transformar em esconderijo. Enquanto Rosa costurava e consertava roupas para
o pessoal da vila, Higinio só tinha contato com o mundo exterior apenas através
de um buraco na parede, devidamente disfarçado atrás de um espelho. Mesmo em
1963, quando Franco decretou a anista ao pessoal envolvido em questões
políticas, Higinio decidiu não sair da toca. Para destacar ainda mais a sensação
de claustrofobia dos dois personagens, a fotografia foi realizada em tons
escuros até quase o desfecho. Eu já conhecia Antonio de la Torre e Belén Cuesta
de outros carnavais, ou melhor, de outros bons filmes. Dele, eu já tinha
assistido, entre outros filmes, o espetacular “O Candidato” (“El Reino”) e “Que
Dios nos Perdone”. Dela, lembro da recente comédia “O Outro Pai” e “Kiki: Os Segredos
do Desejo”. Juntos agora em “A Trincheira Infinita”, os dois esbanjam
competência. O filme foi lançado na plataforma Netflix no dia 28 de fevereiro
de 2020, mas antes foi exibido no Festival Internacional de San Sebastian 2019,
onde ganhou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Disputou também o
Goya (o Oscar espanhol), conquistando os prêmios de Melhor Atriz (Cuesta) e de
Melhor Som. Excelente!
terça-feira, 31 de março de 2020
“JUSTIÇA EM CHAMAS” (“TRIAL BY
FIRE”), 2019, Estados Unidos, 2h7m, direção de Edward Zwicz, com
roteiro de Geoffrey Fletcher, adaptado do livro “Trial by Fire”, escrito por
David Grann. O filme relembra um caso de grande repercussão nos Estados Unidos,
que tem como pano de fundo os prós e contras envolvendo a pena de morte. No
caso, os contras. A história, baseada em fatos reais, é toda centrada em
Cameron Todd Willingham (Jack O’Connell), que, em 1991, foi preso acusado de
provocar o incêndio que resultou na morte de suas três filhas, duas das quais
gêmeas. Ele foi julgado e condenado à morte por injeção letal (o fato aconteceu
no Texas). Alguns anos antes da execução, Elizabeth Gilbert (Laura Dern), uma
dona de casa viúva, passou a enviar cartas a Cameron e até agendou uma visita ao
presidiário. Depois de inúmeras cartas trocadas e outras tantas visitas,
Elizabeth ficou obcecada pelo fato de que o inquérito tinha várias falhas e resolveu
contratar um advogado para entrar com recurso para rever os detalhes do
julgamento. Não conseguiu reverter a situação de Cameron, que foi executado em
2004. Poucos anos depois, uma matéria investigativa publicada pela tradicional
revista “The New Yorker” revelava estudos científicos que provaram ser Cameron
inocente da acusação. O filme revela em detalhes os bastidores de toda a história,
com um roteiro bem engendrado por Geoffrey Fletcher, que já havia conquistado
um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por “Preciosa – Uma História de Esperança”
(2010). O currículo invejável do diretor Edward Zwicz também é um bom aval de
qualidade: “Jack Reacher: Sem Retorno”, “O Dono do Jogo”, “Amor e Outras Drogas”,
“Um Ato de Liberdade”, “Diamante de Sangue” e “O Último Samurai”. Resumo da
ópera: “Justiça em Chamas” é um bom entretenimento, valorizado pelas atuações
da sempre ótima Laura Dern e do ator inglês Jack O’Connell.
segunda-feira, 30 de março de 2020
“O INFORMANTE” (“THE INFORMER”), 2019,
EUA, 1h53m. Todo mundo que trabalhou no filme é de um país diferente,
transformando a produção numa verdadeira ONU. O diretor Andrea Di Stefano é
italiano; os roteiristas Anders Roslund e Borge Hellstrom são suecos; o ator
principal, Joel Kinnaman, é sueco radicado nos Estados Unidos; Rosamund Pike e
Clive Owen são ingleses; e Ana de Armas é uma atriz cubana radicada nos EUA. Claro
que essa diversidade não prejudicou o filme, pois é todo mundo muito competente. Toda a história é centrada em Pete
Koslow (Kinnaman), ex-soldado da equipe de Operações Especiais do exército norte-americano, um
briguento que cumpre pena depois de espancar e matar um sujeito em defesa de
Sofia (Ana de Armas), sua esposa. Em troca da redução da pena, ele é cooptado
pelos agentes do FBI Wilsox (Pike) e Montgomery (Owen) para se infiltrar numa
gangue da máfia polonesa chefiada por um tal de “General”, que estava dominando
o tráfico de drogas em Nova Iorque. A missão de Koslow não é nada fácil: ser
enviado para uma prisão de segurança máxima onde o pessoal do “General” mandava
e desmandava. Para isso, teria proteção total do FBI e do próprio diretor da
prisão. Para encurtar a história e não revelar detalhes, destaco apenas que
Koslow vai comer o pão que o diabo amassou, pois será perseguido não só pelo
pessoal da gangue polonesa, mas também pela polícia novaiorquina e pelo próprio
FBI, que havia lhe prometido proteção. Como filme de ação, funciona
perfeitamente, garantindo momentos de muita tensão, suspense e pancadarias.
sábado, 28 de março de 2020

sexta-feira, 27 de março de 2020
“A NATUREZA DO TEMPO” (“EN ATTENDANT
LES HIROLDELLES”), 2018, coprodução França/Argélia, 1h55m, primeiro
longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta argelino Karim Moussaoui. São
três histórias dentro do filme. Na primeira, Mourad (Mohamed Djouhri), um
investidor do ramo imobiliário, enfrenta problemas com o filho, que pretende
abandonar a faculdade de medicina perto da formatura. Na segunda, o jovem Djalil
(Mehdi Ramdani) é contratado como motorista para levar Aicha (Hania Amar) e
seus pais à cidade do noivo para os preparativos do casamento. Na terceira e
última história, um médico neurologista (Hassan Kachach) é procurado por uma
mulher que o acusa de tê-la estuprado. No meio de cada história, o roteiro
inventa várias situações envolvendo os personagens, o que de certa forma
consegue tornar o filme um pouco mais dinâmico. Uma boa sacada do roteiro é
promover o encontro casual de personagens de uma história e das outras perto do
desfecho. Ao fim da terceira história, a do médico acusado de estupro, aparece
um homem misterioso cuja identidade não é revelada. Sua aparição cai no vazio , deixando o espectador com cara de Ué? No geral, o filme é lento demais, entediante, mas interessante sob o
ponto de vista do cotidiano da sociedade argelina. Os cenários são áridos, o
vento levantando areia para todos os lados, e as ruas são mostradas com ruínas
que parecem resultado de alguma guerra. Cenários de total desolação. “A
Natureza do Tempo” concorreu a melhor filme na Mostra “Um Certain Regard” do
Festival de Cannes. Indicado somente para cinéfilos ou espectadores
interessados em conhecer os bastidores da vida na Argélia.
quinta-feira, 26 de março de 2020
“OS AERONAUTAS” (“THE
AERONAUTS”), 2019, Inglaterra, produção Amazon Prime, 1h41m,
direção de Tom Harper, que também assina o roteiro juntamente com Jack Thorne.
A história, baseada em fatos reais, foi inspirada no livro “Falling Up Wards: How
We Took to the Air”, de Richard Holmes, que relembra a sensacional aventura de
um cientista e uma balonista (personagem fictício, que explico no final deste
comentário). O filme é ambientado no ano de 1862 em Londres. O cientista James Glaisher
associou-se à famosa balonista Amelia Wren (Felicity Jones) para um voo muito
especial: pesquisar formas de se prever a meteorologia. Enfrentando chuva
torrencial, temporais, raios, frio de congelar e muita ventania, a dupla
conseguiu, além da pesquisa em si, bater o recorde de altura da época: 8.700 quilômetros.
No filme, a personagem Amelia Wren foi criada à vontade do roteirista e do
diretor. Na verdade, o verdadeiro companheiro de Glaisher na missão foi o
também cientista Henry Coxell. Amelia Wren surgiu inspirada em uma balonista
muito famosa na época, Sophie Blanchard. Com relação a James
Glaisher, o cientista foi uma figura muito importante no mundo científico,
sendo pesquisador do departamento de Meteorologia do Observatório Real de Grenwich
e fundador da Sociedade Real de Meteorologia e da Sociedade Aeronáutica da Grã-Bretanha.
O filme é espetacular, com cenas de perigo de tirar o fôlego. A gente acompanha
tudo de muito perto, como se estivesse no balão. Méritos para o diretor Tom
Harper, que soube manter um ritmo frenético deste o início até o desfecho,
valorizando aquela que foi uma das aventuras mais espetaculares que o cinema já
produziu. Também estão no elenco Vincent Perez, Tom Courtnay, Himesh Patel,
Rebecca Front e Anne Reid. Relembro que Eddie Redmayne e Felicity Jones
trabalharam juntos em “A Teoria de Tudo” (2014), filme que resultou no Oscar de
Melhor Ator para Redmayne, que viveu o físico inglês Stephen Hawking. No caso
de “Os Aeronautas”, porém, o destaque maior fica para a dentucinha Felicity
Jones, que arrasa principalmente nas cenas de ação. IMPERDÍVEL!
quarta-feira, 25 de março de 2020
“MINHA OBRA-PRIMA” (“MI OBRA
MAESTRA”), 2018, Argentina, 1h45m, roteiro e direção de Gaston
Duprat. Mais um filme argentino para dar inveja a nosotros. Trata-se de
uma divertida e inteligente comédia reunindo dois dos mais consagrados atores
do país de Maradona: Guillermo Francella e Luis Brandoni. Guillermo é Arturo
Silva, um conhecido marchand e galerista de Buenos Aires. Brandoni é
Renzo Nervi, um pintor que fez grande sucesso na década de 80, mas agora não
consegue vender mais nada. E, pior, virou um artista carrancudo, mal-humorado,
insuportável e difícil de se lidar. E, além do mais, falido. Mesmo com a
decadência do pintor, Arturo jamais abandonou o amigo de muitos anos, que o
ajudou a ganhar muito dinheiro. Agora, porém, Arturo está tendo enorme
dificuldade de ajudar Nervi, principalmente devido ao seu comportamento antissocial.
Quando um acidente ocorre com o pintor, obrigando-o a ser internado, Arturo vê
uma ótima possibilidade de reverter o quadro de penúria do amigo e também
ganhar dinheiro com isso. Eles bolam um plano macabro para valorizar os quadros
de Nervi, que assinou um documento doando-os ao marchand. Tudo caminha
bem até que um ex-aluno de Nervi, Alex (Raul Arévalo), meio que sem querer,
descobre um segredo que abalará o mercado das artes na Argentina. Graças ao roteiro
elaborado por Duprat, o filme diverte muito com seu humor corrosivo, que no
fundo é uma sátira ao mundo das artes. Mas seu maior trunfo é, sem dúvida, o
trabalho magistral dos atores Francella e Brandoni, que conseguem transformar
seus personagens em figuras simpáticas e cativantes. Eu já conhecia Francella
dos filmes “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”, “Um Namorado para Minha
Esposa” e do espetacular “O Segredo dos seus Olhos”. Aos 79 anos, Brandoni é um
dos mais conhecidos atores argentinos, mas confesso que não lembro de tê-lo
visto em algum filme. Com relação ao roteirista e diretor Gastón Duprat, lembro
de dois de seus filmes, “O Homem ao Lado” e “O Cidadão Ilustre", ambos muito
bons. “Minha Obra-Prima” é mais um filmaço argentino. Imperdível!
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