quinta-feira, 25 de outubro de 2018


“A GAROTA OCIDENTAL – ENTRE O CORAÇÃO E A TRADIÇÃO” (“Nuces” no original, que na tradução literal para o português significa “Núpcias”, o que seria um título mais coerente com a história), 2017, Bélgica, roteiro e direção de Stephan Streker (é o seu terceiro longa-metragem). Para escrever o roteiro, Streker se inspirou num caso verídico ocorrido em 2007 no interior da Bélgica envolvendo uma jovem chamada Sadia Sheikh. Na época, o caso gerou grande comoção no país. No filme, a jovem chama-se Zahira Kazim (Lina El Arabi), de 18 anos de idade, uma das filhas de    Mansoor Kazim (Babak Karimi), um comerciante paquistanês estabelecido em Bruxelas há muitos anos. O patriarca da família exige que os filhos sigam as regras da religião muçulmana, assim como as tradições milenares do Paquistão. Para agradar aos seus pais, Zahira, mais ocidentalizada, usa o lenço sobre a cabeça e costuma disfarçar em casa fazendo-se passar por uma muçulmana legítima. Numa de suas escapadas, Zahira acaba ficando grávida do namorado, que foge da paternidade. Sem saber da situação de Zahira, seus pais a obrigam a casar com um paquistanês, como manda a tradição, e escolhem três pretendentes através da internet. Só que ela se apaixona por um francês. Aí a coisa vai pegar para o seu lado, pois a família não deixará a ovelha desgarrar-se do rebanho. Entre trágico e comovente, o desfecho coroa um drama muito bem elaborado, com atores muito bons, principalmente a jovem atriz francesa de origem marroquina Lina El Arabi, e uma história que privilegia um passeio cultural pela intimidade de uma família muçulmana tradicional. O filme é ótimo, tendo participado da seleção oficial de vários festivais de cinema mundo afora, como Toronto, Edimburgo, Istambul, Roma e Roterdãm, recebendo muitos elogios da crítica e do público. Imperdível!      

quarta-feira, 24 de outubro de 2018



“RASTROS” (“POKOT”), 2016, Polônia, marca a volta da veterana e consagrada diretora polonesa Agnieszka Holland à telona, depois de anos dedicados à direção de séries televisivas. A história de "Rastros" é centrada em Janina Duszejko (Agnieszka Mandat-Grabka), uma engenheira aposentada que trabalha como astróloga e professora de inglês num vilarejo localizado no Vale de Klodzko, cercado por florestas. Chamada pelo pessoal de “velha excêntrica”, Janina é uma ferrenha defensora dos animais e inimiga mortal dos caçadores, que formam a maioria da população do vilarejo. É contra eles que Janina dedica seu maior tempo, principalmente depois que suas cadelas desapareceram misteriosamente. Ao mesmo tempo, vários caçadores aparecem mortos, sem pistas aparentes para a polícia. No depoimento de Janina aos policiais, ela aponta os animais como os maiores suspeitos, afirmando que se trata de uma espécie de vingança contra aqueles que os perseguem e os matam. A dedicação de Janina em favor dos animais chega ao ponto de afrontar o padre do vilarejo no meio da sua homilia numa missa, quando ele defendia o direito dos caçadores de exterminar os bichinhos. Até perto do desfecho fica a pergunta: quem anda matando os caçadores? Veja o filme e saiba a resposta. Faço questão de destacar o espetacular desempenho dessa atriz polonesa maravilhosa, Agnieszka Mandat-Grabka. Só a atuação dela vale o ingresso. Mas não é só de drama que o filme é feito. Também tem muito humor. “Pokot” estreou no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017, sendo selecionado posteriormente para representar a Polônia na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. A crítica especializada não gostou. Eu gostei muito e recomendo. Só para lembrar, a diretora polonesa é responsável por filmes excelentes, como "O Segredo de Beethoven", "Filhos da Guerra" e "Na Escuridão", entre outros.      

segunda-feira, 22 de outubro de 2018


“LBJ – A ESPERANÇA DE UMA NAÇÃO” (“LBJ”), 2017, EUA, roteiro e direção de Rob Reiner. Trata-se de um drama histórico biográfico centrado na figura de Lyndon Baines Johnson, que assumiu a presidência dos Estados Unidos depois do assassinato do presidente John Kennedy, em novembro de 1963 – LBJ era o vice-presidente. O filme explora o período de 1959 a 1964, destacando os bastidores da política norte-americana. Lyndon Johnson assumiu a presidência cercado de opositores, inclusive no próprio partido, o principal deles Bobby Kennedy, justamente o irmão do presidente assassinado. Mesmo contrariando os desejos dos políticos do sul, seu conclave eleitoral, Johnson teve a coragem de lutar em favor da aprovação do Ato dos Direitos Civis, uma bandeira de John Kennedy, que dava aos negros direitos iguais aos brancos. O filme é uma aula de História daquele período tão tumultuado nos EUA - crise com Cuba, Guerra do Vietnã, manifestações antirracistas etc. O elenco é dos melhores: Woody Harrelson (espetacular como LBJ), Bill Pullman, Jennifer Jason Leigh, Jeffrey Donovan, Richard Jenkins e Michael Stahl. Filmaço! Ah, só para lembrar, o veterano diretor Rob Reiner, de 71 anos, tem em seu currículo dois grandes clássicos do cinema: “Conta Comigo”, de 1986, e “Questão de Honra”, de 1992.

domingo, 21 de outubro de 2018


“UM GAROTO COMO JAKE” (“A KID LIKE JAKE”), EUA, 2018, direção de Silas Howard. A história foi adaptada da peça escrita pelo autor norte-americano Daniel Pearle, que também assina o roteiro. Jake, o garoto do título, tem 4 anos e já nessa idade saiu do armarinho. Adora contos de fadas e de se vestir de princesa, sendo fã incondicional de Cinderela e Rapunzel. Seus pais, Alex (Claire Danes) e Greg Wheeler (Jim Parsons), até que lidam bem com a situação, agindo com naturalidade – Greg é psicólogo. Longe da presença do garoto, eles conversam sobre o que está acontecendo. Num desses diálogos, o pai afirma que seu irmão também gostava de brincar de bonecas, mas depois cresceu, se transformou num homão de 1m90 e muito macho. Ou seja, vamos dar tempo ao tempo. Até que um dia eles têm de preencher um formulário descrevendo a personalidade do menino, suas preferências e atitudes, para tentar uma bolsa de estudos. Para isso, eles pedem ajuda a Judy (a sempre ótima Octavia Spencer), a diretora da pré-escola de Jake. Essa parte é bastante engraçada, os pais tentando disfarçar a opção do garoto, dando a entender que ele é bastante inteligente, pois é capaz de citar de cor vários contos de fadas. No começo do filme, achei que ia ficar no meio do caminho, mas continuei a assistir e gostei muito. Um filme bastante interessante e agradável que merece ser visto por toda a família.      

sábado, 20 de outubro de 2018


“ESCOBAR – A TRAIÇÃO” (“LOVING ESCOBAR”), 2018, Espanha, roteiro e direção de Fernando León de Aranoa (“Segunda-Feira ao Sol”). Baseado no livro “Amando a Pablo, Odiando a Escobar”, da jornalista colombiana Virginia Vallejo, este talvez seja o melhor filme sobre a trajetória e personalidade, ascensão e queda de Pablo Escobar, que durante a década de 80, como líder do Cartel de Medellín, foi o traficante de drogas mais importante da Colômbia, responsável por alimentar de cocaína, durante quase uma década, o mercado dos Estados Unidos. Em 1981, a jornalista Virginia Vallejo (Penélope Cruz), apresentadora de grande popularidade da TV colombiana, teve um caso com o famoso traficante (Javier Bardem), que na época era casado com Maria Victoria (Julieth Restrepo). Humilhada pelo amante e correndo risco de vida por causa dessa relação, Virgínia decide colaborar com a DEA (agência anti-drogas do governo norte-americano), entregando os segredos mais escabrosos do traficante. Em 1982, quando o governo dos EUA (Ronald Reagan) decidiu fazer um acordo com o governo colombiano para a prisão e extradição de Escobar, o traficante resolveu se candidatar a deputado federal para barrar o projeto norte-americano. Venceu as eleições e continuou a traficar, até ser morto em 1993, aos 44 anos. O filme é bastante esclarecedor quanto a personalidade de Escobar, que um dia diz ao filho: “Se não te respeitam, façam com que o temam”. A frase representa exatamente a filosofia do traficante colombiano, para quem a lealdade era ponto de honra. Um ótimo desempenho de Javier Bardem no papel de Escobar, mas achei que Penélope Cruz, mulher de Bardem na vida real, exagerou na sua interpretação da apresentadora colombiana. De qualquer forma, na minha opinião é um ótimo e definitivo filme sobre o famoso traficante colombiano.      

sexta-feira, 19 de outubro de 2018


“VIVA A FRANÇA!” (“EN MAI FAIS CE QU’IL TE PLAÎT”), 2015, França, roteiro e direção de Christian Carion. Trata-se de mais um drama histórico da Segunda Guerra Mundial baseado em fatos reais. Em maio de 1940, quando era iminente a invasão da França pelas tropas do exército alemão, os franceses residentes no norte do país resolveram fugir para o sul, contrariando ordens do governo central. Deixando tudo para trás, mais de 8 milhões de franceses marcharam para o sul, transformando essa fuga no maior movimento migratório de toda a História. “Viva a França!” aborda o tema centrando a trama na população de um pequeno vilarejo, cujo prefeito Paul (Oliver Gourmet) convence todos a fugir da aproximação das tropas nazistas. O filme acompanha a saga de velhos, mulheres e crianças estrada afora, numa marcha triste, desesperançada, quase fúnebre. As cenas mais fortes e chocantes são aquelas em que os comboios de civis são metralhados por aviões alemães, caracterizando um dos mais hediondos e abomináveis crimes de guerra. Além de Gourmet, estão no elenco August Diehl, Mathilde Seigner, Alice Iaaz, Matew Rhys e Laurent Guerra. Ah, a trilha sonora é assinada pelo grande Enio Morricone. O filme foi exibido no Brasil durante a programação do Festival Varilux de Cinema Francês/2016.    

quinta-feira, 18 de outubro de 2018


“OPERAÇÃO FINAL” (“OPERATION FINALE”), 2018, EUA, direção de Chris Witz, com roteiro de Matthew Orton, produção da Netflix (o que significa que provavelmente não chegará a ser exibido nos circuitos comerciais). A história é toda baseada em fatos reais, bastante conhecidos. Em 1960, portanto quinze anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, agentes do Mossad (serviço secreto de Israel) localizaram o nazista Adolf Eichmann na Argentina, conseguindo sequestrá-lo e enviá-lo para ser julgado em Israel. Como todo mundo sabe, Eichmann foi o grande idealizador dos campos de concentração e da “Solução Final”, o holocausto de 10 milhões de pessoas, a maioria judeus. Os bastidores de toda essa história estão neste ótimo drama histórico, talvez o melhor já feito sobre a prisão de Eichmann. O filme também dá destaque a um fato bastante tenebroso: a presença maciça de nazistas na Argentina. O ator inglês Ben Kingsley rouba a cena como o assassino nazista, numa interpretação digna de Oscar (ele já é dono da estatueta de Melhor Ator por "Gandhi", em 1983). Outra boa presença é a do ator guatemalteco Oscar Isaac como Peter Malkin, chefe da equipe do Mossad. Aliás, a cena em que o israelense barbeia Eichmann com uma navalha é uma das mais angustiantes que já vi no cinema. Também estão no elenco Joe Alwyn, Mélanie Laurent e Greta Scacchi. Fiquei triste ao constatar que a atriz italiana Greta Scacchi, que faz o papel de Vera Eichmann, esposa do nazista, está envelhecida e bastante inchada, embora ainda moça (58 anos). Era uma atriz lindíssima, uma das minhas musas do cinema. O diretor Chris Weitz tem uma boa carreira em Hollywood, com filmes como "A Bússola de Ouro", "Um Grande Garoto" e "A Saga Crepúsculo: Lua Nova". Este "Operação Final" talvez seja o seu melhor filme.      

quarta-feira, 17 de outubro de 2018


“O PROFESSOR DO CAMPO” (“VENKOVSKÝ UCITEL”) – A tradução do título em português é minha, baseada no título original vertido para o inglês “The Country Teacher”. Tive a sorte de desencavar esse excelente drama de 2008 produzido na República Checa, escrito e dirigido por Bohdan Sláma. A história é centrada no jovem Petr Dolezal (Pavel Liska), um professor de Ciências Naturais que sai da Praga para lecionar numa escola pública da zona rural. Seu jeito não engana: ele é homossexual. Mas segura a barra, ou seja, fica dentro do armário para não prejudicar sua reputação. Só que ele acaba conhecendo a viúva Marie (Zuzana Bydzovská), com quem faz uma forte amizade. A porta do armário começa a se abrir quando Petr se apaixona pelo filho de Marie, o adolescente Chlapec (Ladslav Sedivy). O pano de fundo homossexual é tratado com muita sensibilidade pelo diretor Sláma, que soube dosar o drama vivido pelo professor com momentos bastante comoventes. O ator Pavel Liska e a atriz Zuzana Bydzovská – principalmente ele – dão um show de interpretação. Enfim, o filme é ótimo, cinema da melhor qualidade.  

terça-feira, 16 de outubro de 2018


“A FUGA” (“THE ESCAPE”), 2017, Inglaterra, roteiro e direção de Dominic Savage (mais conhecido como roteirista e diretor de séries da TV inglesa). A história: Tara (Gemma Arterton) é uma mulher que entrou na casa dos trinta e começa a rever os seus valores. Ela é casada com Mark (Dominic Cooper), tem dois filhos pequenos e mora numa bela casa num bairro de classe média alta. Ou seja, leva uma vida confortável. Mas sua rotina como dona de casa não é fácil: acordar e vestir as crianças, preparar o café da manhã, levar os filhos para o colégio e ainda escolher e fazer o nó na gravata do marido. É dose, sem contar o fato de que Mark acorda sempre disposto a fazer sexo, mesmo que ela não esteja a fim. Essa árdua rotina acaba provocando um surto depressivo em Tara, que expõe sua insegurança, infelicidade e total incapacidade de ser um exemplo de dona de casa. Ela não aguenta mais e um dia resolve “explodir”. Ou seja, pega um trem para Paris, passagem só de ida, e fica perambulando pela capital parisiense para meditar. O que fazer com sua vida dali em diante? Quando retorna a Londres, faz uma visita à sua mãe Anna (Marthe Keller) em busca de um conselho. Tara quer liberdade. Sua mãe define bem a situação: “Casamento e liberdade não combinam”. Simples assim. Será que Tará voltará para a sua família? Assista ao filme para saber a resposta. É um drama pesado, bem ao gosto do talento dramático da atriz inglesa Gemma Arterton, que está ótima no papel. Seu coadjuvante, Dominic Cooper, é um excelente ator, como já comprovou principalmente no excelente e pouco divulgado “O Dublê do Diabo”, de 2011, quando faz o papel de sósia do sádico Uday Hussein, filho de Saddam. O talento desses dois atores vale o ingresso. O filme estreou no Toronto International Film 2017, recebendo rasgados elogios. Prefiro indicá-lo como uma opção alternativa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018


“ESTADOS UNIDOS PELO AMOR” (“ZJEDNOCZONE STANY MILOSCI”), 2016, Polônia, roteiro e direção do jovem diretor Tomasz Wasilewski – o filme ganhou o Urso de Prata como “Melhor Roteiro” no 66º Festival Internacional de Cinema de Berlim. A história é ambientada no início dos anos 90 em Varsóvia, quando as mudanças políticas – queda do Muro de Berlim e o fim do Comunismo – apontavam para a recuperação da liberdade e da economia do país. Os poloneses, porém, tinham suas dúvidas quanto ao futuro e viviam, digamos assim, uma crise de valores. O filme acompanha a trajetória de quatro mulheres frustradas, infelizes e neuróticas. Uma jovem mãe com o casamento em crise que se envolve com um homem casado; uma diretora de escola apaixonada pelo pai de um de seus alunos, que recentemente ficou viúvo; uma velha professora obcecada por sua jovem vizinha; e uma mulher que vive uma crise no casamento e tem fixação por um padre. A carência de cada uma delas também envolve a falta de sexo – todas elas, em algum momento, aparecem nuas, assim como alguns de seus parceiros. Os nús, principalmente, masculinos, beiram o grotesco. O quarteto de mulheres é formado por excelentes atrizes: Julia Kijowska (Agata), Dorota Kolac (Renata), Marta Nieradkiewicz (Marzena) e Magdalena Cielecka (Iza). A câmera do diretor está sempre em movimento, o que dá uma dinâmica especial a cada cena. A câmera também capta a intimidade dos personagens, parecendo transformar o espectador numa espécie de voyeur. Resumo da ópera: é um filme bastante interessante, com grande força dramática, retratando uma sociedade à beira de mudanças radicais. O pano de fundo é justamente a situação vivida pela Polônia naquela época. Quem quiser conferir in loco, o filme fará parte da programação especial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, prevista para ao final de outubro/2018.  

domingo, 14 de outubro de 2018


“O DIA TROUXE A ESCURIDÃO” (“El Día Trajo la Oscuridad”), 2013, Argentina, direção de Martín De Salvo, com roteiro de Josefina Trotta. Trata-se de um terror psicológico ambientado numa região rural da Argentina, que de repente é atingida por uma doença misteriosa, um tipo de vírus da raiva. Virgínia (Mora Recalde) mora com seu pai, que é médico e atende às famílias da comunidade. Virgínia vive solitária na casa de fazenda, pois o pai sai toda hora para consultas. Um certo dia ela recebe uma inesperada visita, de sua prima Anabel (Romina Paula, de “Medianeras”), uma jovem misteriosa que parece não estar nada bem de saúde. Anabel sai noite afora e volta de manhã toda suja. Claro que tem coisa ruim por aí. O filme tenta segurar a tensão até o desfecho, quando a terrível verdade é revelada. Mas o ritmo é lento demais, não acontece nada durante um tempão e a única novidade é o lance lésbico entre as primas. Segundo o diretor De Salvo, a história foi inspirada no conto “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu, escritor irlandês de histórias de terror do Século 19, além de receber forte influência dos contos de terror de Edgar Allan Poe, principalmente no que ser refere aos nomes das personagens. O material de divulgação afirma que o filme foi aclamado nos festivais de Berlim e Roterdã. Sei não!  

sábado, 13 de outubro de 2018


“VIDAS À DERIVA” (“Adrift”), 2018, EUA, direção de Baltasar Kormákur, com roteiro de Aaron Kandell, Jordan Kandell e David Branson Smith. A história é baseada em fatos reais ocorridos em 1983 e centrada na paixão fulminante de dois jovens aventureiros: Tami Oldhan (Shailene Woodley, da Série “Divergente”) e Richard Sharp (o ator britânico Sam Caiflin, de “Como Eu Era Antes de Você” e “Jogos Vorazes”). Tami e Richard se conheceram no Taiti, ilha da Polinésia Francesa, se apaixonaram e um dia resolveram navegar pelo mundo afora a bordo do barco “Hazanã”. Como não eram velejadores muito experientes, contavam com mares calmos. Ledo engano, pois logo se viram diante de um furacão, um tal de “Raymond”, cuja força virou o barco e deixou os dois largados à própria sorte, sofrendo da falta de água, alimentos, medicamentos, sol escaldante, sem comunicação etc. Enfim, fortes candidatos a morrer no mar. O filme inteiro, portanto, acompanha os 41 dias em que os jovens passaram à deriva tentando sobreviver de qualquer jeito. O roteiro, porém, amenizou a tragédia iminente privilegiando também a história de amor entre Tami e Richard, com muito vaivém entre o passado e o presente, visando provocar lágrimas na plateia, ou seja, apostar no romantismo para não deixar o filme tão pesado. Méritos para os roteiristas e para o diretor islandês Kormákur, que tem em seu currículo um excelente filme de sobrevivência no mar: “Sobrevivente”, de 2012.  Kormákur já havia trabalhado em Hollywood, onde dirigiu dois filmes de ação com o ator Mark Wahlberg, “Dose Dupla” e “Contrabando”, abrindo caminho para "Vidas à Deriva".      

quinta-feira, 11 de outubro de 2018


Se você acha que já viu tudo no cinema, prepare-se para ter uma surpresa: um faroeste sul-africano. Estou falando de “CINCO DEDOS POR MARSELHA” (“Five Fingers for Marseilles”), 2018, escrito e dirigido por Michael Matthews. O filme é todo falado em sesoto (língua oficial da África do Sul e do Lesoto) e ambientado numa comunidade pobre chamada “Trilho", na periferia da cidade de Marselha, nos cafundós da África do Sul. Conta a história de um grupo de amigos que na adolescência resolveu intitular-se “Cinco Dedos”, tipo aquela velha história “Um por todos, todos por um”. Quando ainda eram bem jovens, enfrentam a opressão policial matando um agente da lei. O responsável foi Tau, que fugiu da cidade para não ser preso. Os outros quatro amigos ficaram e cresceram com a cidade. Vinte anos depois, Tau (Vuyo Dabula) retorna e percebe que nada mudou. Pior, além da polícia corrupta, a população ainda tem de sofrer nas mãos de malfeitores sanguinários. Tau e uns poucos corajosos, incluindo um gringo e um chinês, resolvem “limpar” Marselha, salvando a população dos bandidos. A história é muito parecida com filmes que já vimos no cinema, como os faroestes “spaghettis” de Sérgio Leone, nas décadas de 60 e 70, quando o mocinho chega à cidade e vira herói depois de eliminar as gangues de criminosos. Tem até a silhueta de um cavalo no fim da tarde, assinatura visual de dezenas de faroestes. Apesar da boa intenção, este western peca pelo amadorismo da produção. As cenas de ação, tiros etc., por exemplo, são de uma infantilidade atroz, muito malfeitas. Além disso, já viram um faroeste onde só aparece um cavalo em cena? Dá para sentir muita saudade dos filmes do Clint Eastwood, John Wayne, Giuliano Gemma...    
 


“AQUI EM CASA TUDO BEM” (“A CASA TUTTI BENE”), 2018, Itália, escrito e dirigido por Gabriele Muccino. Uma grande família chega de balsa à ilha de Ísquia, no golfo de Nápoles, para as comemorações das Bodas de Ouro dos patriarcas Pietro (Ivano Marescotti) e Alba (Stefania Sandrelli). Estão lá seus filhos, seus genros e noras, primos, crianças, uma ex-nora, tem aquele primo que não toma jeito na vida e vive pedindo dinheiro emprestado, primos que revivem um amor do passado etc. No começo, tudo é alegria, abraços, beijos e muita cantoria para relembrar os velhos tempos. No fim do dia, na hora de voltarem para o continente, uma tempestade impede que a balsa chegue à ilha. Ou seja, ficam todos literalmente “ilhados”. Não é só o tempo que muda. O clima fica ruim nos relacionamentos e aí chega a hora de lavar a roupa suja. E nenhum cinema consegue explorar com tanta graça os “barracos” familiares como o italiano. O elenco é ótimo: além da antiga diva Stefania Sandrelli e Marescotti, atuam Sandra Milo, Stefano Accorsi, Pierfrancesco Favino, Carolina Crescentini, Claudia Gerini e Elena Cucci. O diretor Gabrielle Muccino já transitou por Hollywood, onde filmou “Sete Vidas” e “À Procura da Felicidade”, ambos com Will Smith. “Aqui em Casa Tudo Bem” é, até agora, o maior sucesso de bilheteria na Itália em 2018. Além do elenco e dos diálogos ácidos e bem-humorados, o filme tem uma fotografia maravilhosa, principalmente ao retratar a Natureza que cerca a ilha paradisíaca de Ísquia. Sem dúvida, uma ótima comédia, ao estilo dos mestres Dino Risi e Mario Monicelli.  
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018


“A SOMBRA DA VERDADE” (“BACKSTABBING FOR BEGINNERS”), 2017, EUA/Dinamarca/Canadá, roteiro e direção do dinamarquês Per Fly Plejdrup. Trata-se de um ótimo thriller político que relembra um dos fatos mais escabrosos da diplomacia mundial, envolvendo num esquema de corrupção gente importante das Nações Unidos e dirigentes de países do Oriente Médio. Tudo baseado em fatos reais, relatados no livro “Backstabbing for Beginners: My Crash Course in International Diplomacy”, escrito pelo jornalista dinamarquês Michael Soussan. A história começa em 2002 e é centrada no jovem diplomata Michael Sullivan (Theo James, da série “Divergente”), que cai nas graças de um chefão da ONU, Pasha (Ben Kingsley). Numa missão muito complicada para sua inexperiência, Michael é colocado na coordenação do Programa “Petróleo por Comida” (“Oil for Food”), um projeto da ONU para alimentar as populações mais carentes do Oriente Médio. Para iniciar sua tarefa, Michael é enviado em missão para o Iraque e lá conhece a tradutora Nashim (Belçim Bilgin), que esconde sua condição de cidadã curda. Enfim, Michael vai conhecer bem de perto a podridão do jogo diplomático e, com a coragem de um jovem idealista, tentará denunciá-la. O filme é muito bom, tem suspense e tensão do começo ao fim, mas o que vale mesmo é a história que ele conta.
 

terça-feira, 9 de outubro de 2018


Nunca fui muito fã de filmes sobre discos voadores, alienígenas e outras ficções, mas “UFO”, 2018, EUA, me prendeu desde o início. Sabe aquele filme que você começa a ver e fica curioso sobre o que vai acontecer? Começa assim: dezenas de pessoas que estavam esperando seus vôos no aeroporto de Cincinnati (Ohio) são surpreendidas pela aparição de um UFO (um OVNI para nós, ou seja, Objeto Voador Não Identificado). O porta-voz do aeroporto dá uma entrevista coletiva afirmando que tudo não passou de um engano, que a nave misteriosa não passava de um jato Gulfstream, desmentindo os depoimentos de várias testemunhas. Para dar maior veracidade à sua versão, o diretor do aeroporto ainda cita vários números, como coordenadas, tempo de vôo etc. Derek (Alex Sharp), um jovem e brilhante universitário, um pequeno gênio da matemática e da física, investiga os números oficiais transmitidos pela direção do aeroporto e chega à conclusão de que o que realmente ocorreu foi a aparição de um UFO. Com a ajuda da sua professora de matemática avançada Dra. Hendricks (Gillian Anderson, de “Arquivo X”), o rapaz contesta publicamente a versão oficial e, com isso, chama a atenção do FBI, que também investiga o caso com uma equipe comandada pelo agente especial Franklin Ahls (David Strathairn). Muitos diálogos são incompreensíveis para nós, os leigos, com números de coordenadas espaciais, fluxos de ondas magnéticas, dados científicos etc. Em algumas cenas, parece que você está assistindo a um filme grego sem legendas. Não dá para entender bulhufas! Mesmo assim, o filme prende a atenção até o seu final. “UFO” foi o quarta longa-metragem escrito e dirigido por Ryan Eslinger. Um bom trabalho, sem dúvida.          
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018


Da fonte inesgotável de histórias ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial surge “O BANQUEIRO DA RESISTÊNCIA” (“Bankier Van het Verzet”), Holanda, 2018, produção Netflix, com direção de Joram Lürsen e roteiro de Marieke Van der Pol, Mattijs Bocketing e Thomas Van der Ree. Trata-se de mais uma história de coragem e heroísmo. Com a invasão da Holanda pelos nazistas, a partir de 1940, dois irmãos banqueiros de Amsterdam, Walraven e Gijjs Van Hall resolveram ajudar financeiramente a resistência holandesa. Para isso, elaboraram um complexo esquema que incluiu a criação de um bando clandestino, a emissão de promissórias falsas e títulos do governo. Tudo muito arriscado. De 1940 a 1945, praticamente durante toda a ocupação alemã, os irmãos van Hall conseguiram movimentar – em números de hoje - uma quantia equivalente a meio bilhão de euros. O filme é repleto de suspense, com momentos de alta tensão e um desfecho a quilômetros de distância de um happy end. Destaco também a sensacional recriação de época, principalmente os figurinos, valorizando uma superprodução histórica. Aliás, como a produção é da Netflix, o filme certamente não será exibido nos circuitos comerciais. O negócio é acompanhar a programação televisiva da produtora. De qualquer forma, é um filmaço, simplesmente imperdível!
 
 

domingo, 7 de outubro de 2018



“O TERCEIRO ASSASSINATO” (“SANDOME NO SATISUJIN”), 2017, Japão, roteiro e direção de Kirokazu Kore-eda. Trata-se de um drama jurídico centrado no julgamento de Misumi (Koji Yakusho), que matou seu chefe a golpes de chave inglesa num terreno abandonado à beira de um rio, queimou o corpo e fugiu, mas logo foi capturado. Acreditando estar agindo para se livrar da pena de morte, ele confessa o crime e vai para a cadeia aguardar o julgamento. O conceituado advogado Tomoaki Shigemori (Masaharu Fukuyama) aceita a missão de defendê-lo e mobiliza toda a sua equipe para descobrir tudo sobre a vida pregressa do réu. Shigemori fica sabendo, por exemplo, que seu próprio pai, juiz na época, foi quem condenou Misumi a cumprir uma longa pena depois de considerado culpado por outro crime. Ao realizar as entrevistas com familiares do réu e da vítima, amigos e prováveis testemunhas, Shigemori percebe que está no meio de verdades desconexas e declarações contraditórias. Misumi, inclusive, toda hora muda a versão do crime. Afinal, o que está acontecendo? O grande trunfo desse ótimo filme de tribunal são os diálogos entre advogado e seus entrevistados, verdadeiros embates psicológicos que fortalecem ainda mais uma trama bem urdida por um roteiro de muita qualidade. Sem dúvida, mais uma obra instigante, provocadora e fascinante deste Kore-eda, que é considerado o melhor roteirista e diretor japonês em atividade, responsável por filmes como “Depois da Vida”, “Ninguém pode Saber”, “Seguindo em Frente e “Pais e Filhos", este último vencedor do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes 2013. Assisti a quase todos e passei a admirar o grande diretor japonês. “O Terceiro Assassinato” é mais um excelente trabalho de Kore-Eda. Imperdível!


 
 

sábado, 6 de outubro de 2018



“A CÂMERA DE CLAIRE” (“Keul-Le-Eo-Ui-Ka-Me-La”), Coreia do Sul, 2017, do roteirista e diretor queridinho dos críticos profissionais, Hong Sang-Soo. Mais um exemplar típico do gênero cinema de arte. Dentro de seu estilo intimista, de poucos personagens e muitos diálogos, sua marca inconfundível em 12 anos de carreira, Sang-Soo ambienta a história em Cannes durante os dias do festival de cinema, embora não apareça nenhuma imagem do tapete vermelho nem a paparicação em torno dos grandes astros. A professora Claire (Isabelle Huppert, em seu segundo filme com o diretor sul-coreano; o primeiro foi “A Visitante Francesa”, de 2012), caminha por Cannes tirando fotos de pessoas e de paisagens com sua câmera Polaroid. Numa dessas andanças ela conhece Jeon Manhee (Kim Minhee), uma sul-coreana que veio com uma equipe de cinema participar do festival. Em poucas horas de conversa – em inglês -, as duas mulheres fazem confidências, contam suas histórias e acabam fazendo amizade. Claire segue seu caminho e faz contato com outro sul-coreano, o diretor So Wansoo (Jin-Yeong Jeong), coincidentemente da mesma equipe de Manhee. A presença de um quarto personagem, Nam Yaghye (Jang Mi Hee), esposa de Wansoo, será fundamental para esclarecer alguns fatos narrados pela jovem Manhee.  Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes 2017, “A Câmera de Claire” ganhou rasgados elogios, confirmando a fama de Hong Sang-Soo.   

quarta-feira, 3 de outubro de 2018


O terror “HEREDITÁRIO” (“HEREDITARY”), EUA, 2018, é o filme de estreia do roteirista e diretor Ari Oster. A história começa com a morte da matriarca da família Graham, uma velha dedicada ao culto a Paimon, um dos reis do inferno. Como todas as integrantes da família, Anne Graham (Toni Collette), filha da velha, sofre de distúrbio psicológico. Ela é casada com Steve (Gabriel Byrne) e tem dois filhos, Charlie (Milly Shapiro), e o adolescente Perer (Alex Wolff). A maldição da velha vai atingir toda a família de Anne. Como a história é meio sem pé nem cabeça – aliás, muita gente perde a cabeça durante o filme -, e você espera uma explicação plausível para o desfecho, o que não acontece. A cena final é bastante constrangedora. Calma, não deixe de assistir por minha causa, pois a crítica especializada adorou. Teve até um crítico que afirmou: “Este é o filme mais aterrorizante de 2018”. Diante de tudo isso, não custa experimentar.                                                                                                   
 
 

terça-feira, 2 de outubro de 2018


“DESOBEDIÊNCIA” (“DISOBEDIENCE”), EUA, 2017, roteiro e direção do chileno Sebastián Lelio. Trata-se de um drama centrado na amizade de duas mulheres que voltam a se encontrar e acabam revivendo o romance que tiveram na juventude. A fotógrafa Ronit Krushka (Rachel Weisz) está radicada há muitos anos em Nova Iorque, onde é uma profissional respeitada. É uma mulher liberada, solitária. Um dia ela recebe a notícia de que seu pai, um rabino importante, acaba de morrer em Londres. Ao chegar à capital inglesa para o funeral, ela é recebida com muita frieza pelos judeus ortodoxos que vivem na comunidade judaica no bairro de Hendon. Tratada como ovelha negra da família, Ronit só é bem recebida pelo seu primo David Kuperman (Alessandro Nivola) e ainda mais pela esposa dele, Esti (Rachel McAdams).  Logo fica claro que as duas tiveram um caso na juventude e mesmo depois de tantos anos decidem retomar o romance. As cenas de sexo entre as duas são bastante tórridas, mas dirigidas com sensibilidade por Lelio. Tanto David, eleito o novo rabino, como a comunidade de judeus ficam sabendo do caso, mas as mulheres aguentam firme. Este é o primeiro filme em língua inglesa dirigido por Sebastián Lelio, que tem em seu currículo ótimos filmes como “Gloria”, de 2013, e “Uma Mulher Fantástica”, que ganhou o Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. Para realizar “Desobediêcia”, o diretor chileno adaptou o livro "Disobedience”, escrito pela romancista inglesa Naomi Alderman. Enfim, um filmaço imperdível, com destaque para o desempenho dessas duas grandes atrizes, com jeito de Oscar 2019, principalmente para Rachel McAdams.  Alessandro Nivola também está muito bem e talvez mereça uma indicação.                                                                                                     
 

domingo, 30 de setembro de 2018


“O QUE DE VERDADE IMPORTA” (“The Healer”), 2017, EUA, um misto de drama, fantasia, comédia romântica e religião. Trata-se do primeiro filme cuja arrecadação de bilheteria pelo mundo inteiro está sendo destinada a entidades que cuidam de crianças com câncer. O diretor mexicano Paco Arango preside uma delas, a Aladina. Ele esteve aqui no Brasil, no dia 27 de setembro, para divulgar o filme. Vamos à história: Alec Bailey (o candidato a galã Oliver Jackson-Cohen) mora em Londres, ganha uns cobres consertando eletrodomésticos e vive encalacrado em dívidas de jogo. Deve uma grana preta até para uns mafiosos russos. Quando se vê quase sem saída para a situação, surge um tio distante, Raymond Heacock (Jonathan Pryce), com uma proposta irrecusável, ou seja, pagará todas as suas dívidas, mas em troca Alec terá de se mudar para a Nova Escócia (Canadá) e lá morar durante um ano. Claro que Alec acaba topando a empreitada e, ao chegar por lá, descobre que tem o dom da cura. Ele conhece uma moça que se diz lésbica, Cecilia (Camilla Luddington), e vai fazer amizade com uma jovem que tem câncer terminal, a bonitinha Abigail (Kaitlyn Bernard). Entre cenas bem-humoradas e outras até comoventes, o filme é ideal para reunir a família numa sessão da tarde sem compromisso. Dá pra ver numa boa.