sábado, 25 de abril de 2015

Após assistir à comédia australiana “A PEQUENA MORTE” (“The Little Death”), 2014, fiquei intrigado com o título do filme. Mas depois descobri a ligação: a expressão “Pequenequena Morte” é uma metáfora para o Orgasmo. Ou seja, tem tudo a ver com o filme, cujo tema principal é o Sexo. A história envolve vários casais - na faixa dos 30/40 anos - residentes em Sydney que estão encontrando problemas em seu relacionamento sexual. Tudo por conta de uma tara ou fetiche de um dos cônjuges: uma tem o sonho de ser estuprada; outra só tem desejo sexual quando o marido chora; outro descobre que só tem vontade de fazer sexo com a esposa se ela estiver dormindo; e ainda outro que, ao realizar o sonho da esposa de transar com um ator, acaba achando que tem o dom de representar... E vai por aí afora. O filme reserva o melhor para o desfecho, quando uma intérprete da língua dos sinais intermedia uma conversa de um rapaz surdo-mudo com uma moça do disque-sexo. Hilariante. O diretor Josh Lawson, que escreveu o roteiro e protagoniza um dos personagens (o marido da mulher que sonha em ser estuprada), soube dosar as situações com muito humor, inteligência e – o mais importante - sem apelar para a baixaria, coisa rara nas comédias sobre sexo. Além de Lawson, estão no elenco Lisa McCune, Bojana Novakovic, Patrick Brammall e Kate Mulvany. Um filme bastante divertido e muito interessante.   

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Inexplicavelmente elogiado pelos críticos profissionais – ganhou até o Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes 2014 -, o drama ucraniano “A GANGUE” (“Plemya”) tenta inovar o conceito de cinema mudo colocando seus atores atuando através da linguagem dos sinais. O único som é o do ambiente. A história é centrada num jovem recém-chegado a um internato especializado em deficientes auditivos. Ele entra para uma gangue que pratica furtos e logo se destaca por sua ousadia. Mas entra em desgraça ao se envolver com a namorada do chefão. O filme é muito violento e tem algumas cenas de sexo quase explícito. Não é só por isso que o filme é bastante desagradável. Os gestos dos atores são sempre nervosos, praticamente histéricos, o que faz parecer que estão sempre querendo se livrar de um ataque de mosquitos. Como foi seu filme de estreia, o diretor Miroslav Slaboshpytskiy provavelmente queria chocar as plateias e garantir publicidade. Conseguiu pelo menos chocar, o que aconteceu durante sua exibição na última Mostra São Paulo. De qualquer forma, pode ser interessante para quem curte filmes esquisitos. Mas, repito, é muito incômodo, causa desconforto a cada cena. Sem dúvida, um filme distante "anos-luz” do que costumamos chamar de entretenimento.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Em “PASOLINI”, 2014, uma co-produção França/Itália/Bélgica, o polêmico diretor norte-americano Abel Ferrara conta como foram os últimos dias de vida do também polêmico diretor italiano Pier Paolo Pasolini. Homossexual assumido, Pasolini foi assassinado a pauladas por um garoto de programa. Ferrara enfoca a intimidade de Pasolini nas cenas em que está em casa com a irmã e a mãe, jantares em seu restaurante preferido, sozinho e com amigos, e suas andanças pela noite afora em busca de garotos de programa. Numa das cenas de maior impacto, garotos estão enfileirados aguardando pelo sexo oral de Pasolini. Ferrara também reproduz algumas das últimas entrevistas dadas pelo diretor italiano, nas quais ele fala sobre política, filosofia, literatura e cinema. Não podemos esquecer que Pasolini, além de diretor de cinema, era um respeitado filósofo, cronista, roteirista e dramaturgo. Enfim, um intelectual dos mais influentes naquela época. Numa das entrevistas, Pasolini pede que o entrevistador envie as perguntas por escrito, pois ele confessa ter dificuldade em se expressar verbalmente. Willem Defoe, com sua reconhecida competência, interpreta Pasolini. Também estão no elenco Ricardo Scamarcio, a portuguesa Maria de Medeiros e Ninetto Davoli. O filme, que estreou no Festival de Veneza 2014, deve ser exibido por aqui apenas nos circuitos de arte. 

domingo, 19 de abril de 2015

“LA ISLA MÍNIMA”, 2014, é um suspense policial espanhol da melhor qualidade. A história é ambientada em 1980. Os detetives Pedro (Raúl Arévalo) e Juan (Javier Gutiérrez) são deslocados de Madri para investigar o desaparecimento de duas jovens irmãs numa pequena cidade localizada numa ilha às margens do Rio Guadalquivir, sul da Espanha. Os parceiros policiais não têm nenhuma afinidade. Pensam de maneira diferente inclusive quando se trata de discutir a situação política da Espanha. O mais velho, Juan, além de esconder um passado tenebroso como integrante da polícia secreta de Franco, gosta de dar uns sopados nos interrogados. As irmãs são encontradas mortas e os laudos concluem que, antes de ser assassinadas, foram estupradas e torturadas. Com o avanço das investigações, Pedro e Juan conseguem desvendar outras mortes misteriosas ocorridas na região. O clima de tensão e suspense perdura do começo ao fim do filme, proporcionando um ótimo entretenimento para quem gosta do gênero policial. O filme é tão bom que mereceu nada menos do que 17 indicações ao Prêmio Goya/2015 (o Oscar espanhol), vencendo nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor (Alberto Rodriguez), Atriz Revelação (Nerea Barros), Roteiro Original, Trilha Original, Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Montagem. Realmente, é muito bom.                                                                                                                                                            

sábado, 18 de abril de 2015

“UMA PROMESSA” (“Une Promesse”), 2013, é um drama francês dirigido por Patrice Leconte. É falado em inglês e tem nos principais papéis os ingleses Alan Rickman e Rebbeca Hall, além do ator escocês Richard Madden. Para reforçar ainda mais o contexto globalizado, a trama é baseada em romance do grande escritor austríaco Stefan Zweig. Ambientada na Alemanha de 1912, a história começa com a chegada do jovem Friedrich Zeitz (Madden) para trabalhar na usina siderúrgica de propriedade do empresário Karl Hoffmeinster (Rickman). Com seu conhecimento do processo de produção e sua visão arrojada, Friedrich logo cai nas graças de Karl, que promove o jovem a seu consultor e secretário particular. Essa aproximação levará Friedrich a conhecer Lotte (Rebecca Hall), pela qual se apaixona perdidamente. E o sentimento é recíproco. Só que o empresário transfere Friedrich para o México para cuidar de um novo negócio. Dessa forma, o jovem e a mulher casada se separam e prometem renovar o amor dali a dois anos, quando Friedrich deveria voltar à Alemanha. Esta é a promessa estabelecida no título. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, porém, ele não consegue voltar e acaba se estabelecendo no México. Será que o destino irá uní-los novamente? Tchan, tchan, tchan, tchan...  Para um drama romântico, até que o filme funciona, mas o desfecho repentino decepciona. Uma coisa não se pode negar: Rebecca Hall, além de linda, é uma ótima atriz.                          

“O ANO MAIS VIOLENTO” (“A Most Violent Year”), 2014, é um drama ambientado em Nova Iorque em 1981, um dos anos de maior índice de criminalidade da história daquela cidade norte-americana. Daí o título do filme. Nesse contexto de extrema violência, o empresário Abel Morales (Oscar Isaac), imigrante colombiano, tenta alavancar os negócios de sua empresa ligada à atividade de distribuição de combustíveis. Para isso, está negociando a compra de um local para construir um centro de armazenamento e precisa, urgentemente, de uma montanha de dinheiro. Enquanto sai atrás de empréstimos, Abel sofre uma enorme pressão por parte dos concorrentes, grupo que inclui desde empresários desonestos até a máfia italiana, que roubam suas cargas e espancam seus motoristas. Como se não bastasse, Abel ainda enfrenta um procurador corrupto, Lawrence (David Oylowo, de “Selma”), que o ameaça com a aplicação das mais variadas e injustas multas. Com a ajuda da esposa Anna (Jessica Chastain), Abel tenta aguentar toda essa pressão, o que não será muito fácil num ano tão violento. O enredo é meio complicado e a gente só começa a entender o que está acontecendo lá pela metade do filme. Como já tinha feito em “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, o diretor J.C. Chandor não dá nada mastigado para o espectador. O filme comprova o talento do ator guatemalteco Oscar Isaac, cuja semelhança com o ator Al Pacino dos tempos de “O Poderoso Chefão” é impressionante. Outro trunfo desse excelente drama é a fotografia em tons sombrios de Branford Young. Quase uma obra de arte. A caracterização de época também é excelente, com destaque para os figurinos. Jessica Chastain, por exemplo, veste as roupas da coleção Vintage Armani de 1981. Resumindo, um filme de muita qualidade. 


                                                                                                                                                        

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Em 1995, a norte-americana Cheryl Strayed, então com 26 anos de idade, resolveu encarar uma aventura daquelas: percorrer a pé e sozinha a trilha conhecida como “Pacific Crest Trail”, ou seja, 1.100 milhas (4.200 km), da fronteira do México até o Canadá pela Cost a do Oceano Pacífico. Para contar a aventura, Cheryl escreveu o livro “A Jornada de uma Mulher em Busca do Recomeço”, que depois, em 2014, virou o filme “LIVRE” (“Wild”), com a atriz Reese Witherspoon como a jovem aventureira. Ao contrário de tantos malucos que encaram desafios perigosos para superar seus limites e virar celebridade, Cheryl tinha como objetivo expurgar alguns fatos do seu passado recente, como seu divórcio, a morte da mãe, Bobbi (Laura Dern), e, principalmente, se livrar do sexo promíscuo que praticava e do vício das drogas pesadas. Enfim, refletir sobre sua vida de fracassos e, quem sabe, dar a volta por cima. O filme, dirigido pelo canadense Jean-Marc Vallée, acompanha a trajetória da viagem de Cheryl, além de relembrar, em flashbacks, sua infância, o relacionamento com a mãe, o pai bêbado e violento e as orgias regadas a sexo e drogas. Witherspoon foi indicada ao Oscar como Melhor Atriz e Laura Dern como Melhor Atriz Coadjuvante, mas não ganharam. O filme é bastante reflexivo, o que justifica seu ritmo um tanto lento, mas é bem feito e merece ser visto, principalmente pelo fato de contar uma incrível história real, o que valoriza qualquer produção. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

“SEGREDOS DE UM CRIME” (“Felony”), 2013, é um suspense policial australiano cujo maior trunfo é o elenco: Joel Edgerton, Tom Wilkinson, Jai Courtney e Melissa George. A história envolve o drama vivido pelo detetive Malcolm Toohey (Edgerton), que ao voltar de uma festa atropela acidentalmente um garoto. Só que, ao ligar para a emergência e para a polícia, ele mente dizendo que encontrara o garoto caído na estrada. Apesar da mentira, Malcolm é bom caráter e considerado um ótimo policial, além de ter um casamento bastante estável com a enfermeira Julie (Melissa George). Mas depois do que aconteceu, ele fica com um grande problema de consciência, o que o leva a querer contar a verdade, principalmente depois que soube que o estado da vítima é grave e ela corre o risco de morrer. A verdade é encoberta pelo detetive Carl Summer (Wilkinson), melhor amigo de Malcolm. Só que o detetive Jim Melic (Jai Courtney), que vem acompanhando o caso desde a cena do acidente, começa a desconfiar que existe uma armação para proteger Malcolm. E ele não vai sossegar enquanto não descobrir a verdade, ainda mais depois que se apaixonou pela mãe do menino atropelado, Ankhila Sarduka (Sarah Roberts). Mesmo enquadrado no gênero policial, o filme, dirigido por Mattew Saville, tem pouca ou quase nenhuma ação, a não ser no começo. O suspense fica a cargo de uma certa tensão psicológica, acompanhando o dilema de Malcolm: revelar a verdade ou continuar escondendo o que realmente aconteceu. É o que prende a atenção até o final do filme. Como curiosidade, o ator Joel Edgerton também é autor do roteiro. 

domingo, 5 de abril de 2015

“O MENSAGEIRO” (“Kill the Messenger”), 2014, EUA, direção de Michael Cuesta. Filmaço, daqueles de prender a gente na poltrona sem piscar nem dar um pio. A história, baseada em fatos reais, é centrada no jornalista investigativo Gary Webb (Jeremy Renner), do pequeno jornal San Jose Mercury News, da cidade de San José (Califórnia). Em meados dos anos 90, ele descobre a ligação da CIA com traficantes de cocaína da Nicarágua e denuncia tudo numa série de reportagens, que o levaram a conquistar o Prêmio Pulitzer de Jornalismo. Só que, no meio do caminho, a CIA e a grande imprensa norte-americana, aqui incluídos Washington Post e o New York Times, “mordidos” pelo furo que tomaram, iniciam uma campanha impiedosa para desacreditar o jornalista, acusando-o de forjar provas e utilizar fontes pouco confiáveis. Essa reviravolta acabou com a trajetória jornalística de Gary, que anos depois teria um fim trágico. O filme segue o mesmo estilo de suspense que consagrou “Todos os Homens do Presidente”, sobre o escândalo Watergate. Trata-se de uma verdadeira aula de jornalismo investigativo, mostrando que, para praticá-lo, é preciso perspicácia, esperteza, talento e, acima de tudo, muita coragem. O filme, repito, é muito bom e conta com um elenco de primeira: além de Renner (ótimo), atuam Rosemarie DeWitt, Michael Sheen, Mary Elizabeth Winstead, Ray Liotta, Andy Garcia, Oliver Platt, Robert Patrick e Paz Vega.                                   
Pouco antes de participar de “Cinquenta Tons de Cinza”, o ator irlandês Jamie Dornan trabalhou no drama romântico “VOANDO PARA CASA” (“Flying Home” ou “Racing Hearts”). O filme, dirigido por Dominique Deruddere, é uma co-produção Bélgica/França. A história é bastante açucarada e lembra as adaptações para o cinema dos romances do escritor Nicholas Sparks. A estrutura é a mesma: o mocinho e a mocinha se conhecem no começo, se afastam por um algum motivo e no desfecho se reencontram e vivem felizes para sempre – clichê dos clichês dos filmes românticos. No filme belga, Coli (Dornan) é um audacioso executivo de uma grande firma de investimentos de Nova Iorque. Fecha negócios milionários em todo o mundo. Ao negociar um contrato de bilhões de euros com um Sheik árabe (Ali Suliman), este condiciona o negócio à compra de um pombo-correio campeão, cujo proprietário, Jos Pauwels (Jan DeCleir), mora na região de Flanders, na Bélgica. É para lá que vai Colin, com o objetivo de adquirir a ave para o Sheik. Só que ele não contava conhecer e se apaixonar pela neta de Pauwels, Isabelle (Charlotte DeBruyne). Ao mentir para convencer Pauwels a vender o pombo, Colin desperta a ira de Isabelle e aí o romance naufraga. Será que o casal terá a chance de se reencontrar? Glicose pura, mas bem acima do nível dos dramas românticos habituais. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

“PEQUENOS ACIDENTES” (“Little Accidents”), 2014, EUA, é um drama independente ambientado numa pequena cidade americana cuja economia gira em torno de uma mina de carvão. A história envolve dois acontecimentos trágicos: um acidente na mina que matou 10 operários e a morte acidental de um garoto, justamente o filho do gerente da mina. De um lado, o processo investigativo do acidente que matou os mineiros, no qual a principal testemunha é Amos Jenkins (Boyd Holbrook), único sobrevivente da tragédia. Do outro lado, a investigação da polícia sobre o desaparecimento do garoto, vitimado por um acidente envolvendo Owen (Jacob Lofland), cujo pai era uma das vítimas fatais na mina. Bill Doyle (Josh Lucas), gerente da mina, está sendo investigado e, para piorar, não vive um bom momento em seu casamento com Diane (Elizabeth Banks), o que vai resultar em traição por uma das partes. As tramas caminham em paralelo até o final, sem muitas reviravoltas ou surpresas. O filme é praticamente a adaptação de um curta, com o mesmo nome e temática, realizado em 2010 pela jovem diretora Sara Colangelo, que também dirige o longa. Não deixa de ser uma produção interessante, principalmente pela oportunidade de rever a atriz Chloë Sevigny, há um tempo sumida, como a viúva mãe de Owen.
Em “ADEUS À LINGUAGEM” (“Adieu au Langage”), 2013, do diretor francês Jean-Luc Godard, um personagem prevê que um dia teremos de contratar intérpretes para explicar o que dizemos uns aos outros, pois hoje ninguém está se entendendo. O mesmo vale para mais esse atentado cometido por Godard contra a arte cinematográfica, cuja premissa principal é oferecer entretenimento, diversão. Godard talvez seja o mais indecifrável dos cineastas indecifráveis. Pior que Terrence Malick (”A Árvore da Vida”) e outros diretores que se acham gênios, aclamados  por críticos afetados. Nesse filme, como é de seu estilo, Godard monta um mosaico de imagens desconexas, acrescentando citações filosóficas, políticas e históricas. Não há uma história. Em meio à parafernália visual e verborrágica, um casal anda pelado pela casa dizendo frases sem sentido um para o outro e um cachorro é filmado em várias situações. Numa delas, uma voz em off comenta que os bichos não estão pelados, pois estão pelados. Inteligente, não? E por aí vai Godard, que, para fazer esse filme, deve ter tido um tipo de surto criativo à base de algum alucinógeno. O pior de tudo é que “Adie au langage” foi eleito o melhor filme de 2014 por alguns críticos norte-americanos e, no mesmo ano, venceu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes. Em resumo, Godard é um chato de galocha, ou galoche, em francês. Repetindo o que me disse Rubem Ewald Filho, “Crítico adora filme que não entende”. Em todo caso, assista e tire suas conclusões.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

“ACIMA DAS NUVENS” (“Clouds of Sils Maria”), 2014, é mais um grande filme com a assinatura do diretor francês Olivier Assayas (de “Depois de Maio”). A história é centrada na atriz Maria Enders (Juliette Binoche), que, beirando os 50 anos, é convidada para reencenar a mesma peça que a catapultou ao estrelato quando tinha apenas 18 anos. Ela interpretava a jovem Sigrid, que na peça tem um caso amoroso com Helena, sua chefe e vinte anos mais velha. É claro que, agora, Enders interpretará Helena. Para ensaiar o texto, ela se isola numa cabana nos Alpes Suíços com sua assistente  Valentine (Kristen Stewart). Enders não vive um bom momento em sua vida pessoal. Recém-saída de um divórcio e abalada pela súbita morte do amigo e dramaturgo Wilhelm Melchior (autor da peça), ela ainda tem que lidar com o fato de estar ficando mais velha, sentimento reforçado pelo convite para interpretar Helena. É um filme feito de diálogos – aliás, muito inteligentes -, a maioria deles relacionados com a psicologia dos personagens da peça. Os diálogos também colocam em discussão a amizade e a convivência entre a atriz fragilizada e sua assistente, uma relação que dá a entender que existe algo mais do que apenas o vínculo profissional. Não é, definitivamente, um filme para o grande público. Mas é muito bom e tem no elenco seu maior trunfo, com ótimos desempenhos de Binoche (como se fosse novidade) e Kristen Stewart, além de Chloë Grace Moretz, como a jovem atriz Jo-Ann Ellis. O cenário, nada menos do que deslumbrante dos Alpes Suíços, é outro destaque desse filme que consagra Assayas como um dos melhores diretores do cinema europeu atual.                                                                                                                                               

domingo, 29 de março de 2015

O drama “FORÇA MAIOR” (“Force Majeure”) foi o candidato oficial da Suécia na disputa pela estatueta do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/2015. Não ficou entre os cinco finalistas, mas ganhou rasgados elogios dos críticos. Realmente, é muito bom, mas um tanto inacessível para o grande público. Trata-se de um drama bastante pesado, um verdadeiro tratado psicológico do comportamento humano, sua instabilidade, fragilidade e desequilíbrio. Não duvido que esteja sendo exibido durante as aulas nas faculdades de Psiquiatria e Psicologia pelo mundo afora. Tomas (Johannes Bah Kuhnke), sua esposa Ebba (Lisa Loven Kongsli) e os dois filhos Vera (Clara Wettergreen) e Harry (Vicent Wettergreen) – irmãos também na vida real – vão passar as férias e esquiar nos Alpes Franceses. Tudo vai às mil maravilhas quando, de repente, durante almoço no terraço do hotel, a família e os outros hóspedes são surpreendidos pelo que parecia ser uma avalanche destruidora. Não passou de um susto, mas o fato de Tomas ter fugido correndo sem pensar na mulher e nos filhos desencadeará uma grande crise familiar e conjugal. A partir desse episódio, o filme, através dos diálogos íntimos entre o casal e mais as conversas que terão com amigos discutindo o que ocorreu, transforma-se em algo como uma longa sessão de terapia, o que não deixa de ser interessante. Em seu quarto longa, o diretor sueco Ruben Östlund realizou um filme de grande impacto.        

quarta-feira, 25 de março de 2015

O drama norueguês “UMA NOITE EM OSLO” (“Natt Til 17” no original e “One Night in Oslo” no inglês), 2014, direção de Eirik Svensson, é como se fosse um episódio de longa duração de “Malhação”. Claro que muito mais bem elaborado, mas o enfoque é o mesmo: os problemas, os amores e as inconsequências de jovens na faixa dos 14/17 anos. A história envolve um grupo de jovens amigos de escola, entre os quais os inseparáveis Sam (Samakab Omar) e Amir (Mohammed Alghoul). Em comum, eles têm o fato de pertencerem a famílias de refugiados e de gostarem da mesma garota, Thea (Thea Sofia Loch Naess). É claro que a disputa por Thea afetará a amizade dos dois. O retrato da juventude norueguesa não é muito diferente da do resto do mundo. Eles também são revoltados, curtem festas com muita bebedeira, maconha, “pegação” livre e desenfreada, brigas de gangues, enfim, a irresponsabilidade universal que caracteriza essa faixa etária. Fica difícil para os mais velhos acreditar que esses jovens tomarão um rumo na vida. De qualquer forma, o filme é muito bom e esclarecedor, podendo ser visto por jovens e adultos. Seja num país de primeiro mundo como a Noruega, ou do terceiro como o nosso e outros tantos, a verdade é uma só: a juventude anda mais perdida como nunca foi. Tristes tempos.  

sexta-feira, 20 de março de 2015

A bela e competente atriz francesa Mélanie Laurent prova que é talentosa também atrás das câmeras. Em sua estreia como diretora no drama francês “RESPIRA” (“Respire”), 2014, Mélanie encontrou a receita certa para fazer um suspense psicológico de primeira. A história é baseada no livro “A Minha Melhor Amiga”, de Anne Sophie Brasme. A jovem Charlie (Joséphine Japy), de 17 anos, faz amizade com a recém-chegada colega de colégio Sarah (Lou de Laage). Charlie é retraída, solitária, introvertida e, além de tudo isso, asmática (condição que resultou no título do filme). Sarah, pelo contrário, é expansiva, ousada, faz e diz o que bem entende. Enfim, personalidades totalmente diferentes. A amizade entre as duas redundará num clima de alta tensão a partir do momento em que a relação começa a se tornar obsessiva. A trama se desenrola num suspense que leva o espectador a acreditar que algo de ruim vai acontecer. O suspense também gera a expectativa das duas acabarem entre os lençóis, como aconteceu com as principais personagens do ótimo “La Vie D’Adèle”. Mélanie encontrou as atrizes certas para protagonizar as duas amigas. Joséphine e Lou de Laage estão fenomenais. O filme estreou no Festival de Cannes 2014, com excelentes críticas. Muito merecidas, aliás. Aproveito para indicar - novamente - um filme maravilhoso estrelado por Mélanie Laurent: "Le Concert". Se puder, não perca!  
“TWO MEN IN TOWN" (no original francês, "LA VOTE DE L’ENNEMI” - ainda sem tradução por aqui), 2014, é uma co-produção França/EUA que tem como um de seus destaques o elenco de veteranos: Forest Whitaker, Brenda Blethyn, Harvey Keitel, Ellen Burstyn e Luis Guzman. A história é toda ambientada numa pequena e árida cidade no meio do deserto do Novo México. William Garnet (Whitaker) sai em condicional após cumprir 18 anos de prisão pelo assassinato do auxiliar do xerife Bill Agati (Keitel). A policial Emily Smith (Blethyn) é indicada como agente da condicional de Garnet, ou seja, vai fiscalizar suas andanças. Na prisão, Garnet se converteu ao islamismo e adotou um comportamento exemplar. Quando sai da prisão e tenta se recuperar trabalhando numa fazenda de gado, ele começa a ser pressionado de todos os lados. De um, o xerife Agati, que não se conforma de ver o assassino de seu ajudante em liberdade. De outro, a vigilância implacável da sua agente condicional. Como se não bastasse, ainda surge Terrence (Guzman), um sujeito envolvido com o tráfico de drogas que insiste para que Garnet trabalhe com ele. E ainda aparece sua mãe adotiva, Mère (Burstyn), a qual não perdoa por nunca tê-lo visitado na cadeia. Será que o ex-presidiário aguentará tanta pressão? Para aliviar, ainda bem que aparece Teresa (Dolores Heredia), com a qual Garnet pretende casar e viver feliz para sempre. Além do ótimo elenco, outro trunfo do filme é o diretor francês Rachid Bouchareb, que tem em seu currículo excelentes produções europeias como “London River”, “O Pecado de Hadewijch” e “O Atentado”. Não dá para não mencionar também o desempenho de Whitaker, surpreendentemente mais magro, e da maravilhosa atriz inglesa Brenda Blethyn, num papel que comprova toda a sua versatilidade. Entretenimento com qualidade.                                                                                                                                       

quinta-feira, 19 de março de 2015

“MARCELLO, UMA VIDA DOCE” (“Marcello, una Vita Dolce”) é um documentário sobre o grande ator italiano Marcello Mastroianni. Ele foi produzido em 2006 e exibido no mesmo ano no Festival de Cannes como uma homenagem aos 10 anos da morte de Mastroianni. O título do documentário, dirigido por Mario Canale e AnnaRosa Morri, está associado, claro, ao grande clássico “La Dolce Vita”, que Federico Fellini dirigiu em 1960 e que catapultou Mastroianni ao estrelato. O documentário tem depoimentos de Barbara e Chiara, filhas do ator, das atrizes Sofia Loren, Anouk Aimee e Claudia Cardinale, dos atores e amigos Jean Sorel e Philippe Noiret e ainda de grandes diretores como Ettore Scola, Pietro Germi e Lina Wertmüller, além de outras personalidades que conviveram e trabalharam com o ator que melhor representou o amante latino. Causa certa estranheza a ausência da atriz francesa Catherine Deneuve, mãe de Chiara. O documentário também reproduz cenas de alguns dos mais importantes filmes de que ator participou. O talento de Mastroianni era indiscutível, realçado ainda mais pela facilidade com que representava em comédias, em dramas ou qualquer outro gênero. Um ator completo, que numa carreira de quase 49 anos participou de 150 filmes, em sua grande maioria como protagonista principal. Para quem nunca ouviu falar no ator, este documentário oferece uma ótima oportunidade para conhecê-lo e, para os fãs como eu, uma chance e tanto para reverenciá-lo. Quem curte cinema não deve perder.                                                                                                                                      

terça-feira, 17 de março de 2015

O drama “AS HORAS MORTAS” (“Las Horas Muertas”), co-produção México/Espanha, 2013, é um filme bastante simples, não apenas pelo seu enredo como também pela sua produção, mas não deixa de ser interessante. A história é quase toda ambientada num motel à beira-mar, no litoral de Veracruz (México). O estabelecimento está sendo administrado, provisoriamente, pelo jovem Sebastián (Kristyan Ferrer), de 17 anos, enquanto o proprietário, seu tio, estiver de licença médica. Miranda logo percebe que a rotina do lugar é tediosa, feita de muitas "horas mortas". Ele recebe os – raros – clientes, encaminha-os para os quartos e depois fica à espera da saída deles para então providenciar a limpeza. Miranda (Adriana Paz), uma corretora de imóveis de 35 anos, é cliente habitual do motel, junto com o amante casado. Miranda muitas vezes fica esperando o amante por horas, até que ele começa a não aparecer mais. No tempo ocioso em que passam conversando, juntando suas solidões, o jovem Sebastián e Miranda acabam ficando amigos. E é justamente essa amizade que o diretor Aarón Fernandez fará com que seja o fio condutor de toda a história. O filme foi selecionado para exibição nos festivais de Locarno, Zurique, Biarritz, San Sebastian e Tóquio, além da 37º Mostra Internacional de São Paulo (2013). Não é pouco para uma produção tão simples.            

segunda-feira, 16 de março de 2015

Se você está entrosado com o mundo da arte e curte a pintura e, principalmente, quadros acadêmicos, o drama inglês “MR. TURNER” pode ser um programão. Literalmente um programão, pois o filme tem duas horas e meia de duração. Trata-se da história biográfica dos últimos 15 anos do pintor inglês impressionista J.M.W. Turner (Timothy Spall), um artista excêntrico que pintava quadros que realçavam os efeitos da luz sobre as paisagens. Em seu leito de morte, olhando para a claridade que vinha da janela, o pintor exclamou: “Deus é luz”. Foram suas últimas palavras. Suas marinhas (cenas marítimas) ficaram famosas e eram objeto de grande admiração pelos membros da Royal Academy of Arts, onde o pintor expunha os seus trabalhos.  O filme, ambientado na primeira metade do Século 19, também coloca em exposição a vida pessoal de Turner, sua forte ligação com o pai, sua estranha relação com a empregada, seu casamento e a doença que o levou à morte. O diretor Mike Leigh (de “Segredos e Mentiras” e “O Segredo de Vera Drake”) caprichou na qualidade estética do filme. Houve uma grande preocupação em destacar as cenas como se cada uma fosse um quadro. O filme é visualmente muito bonito. E até didático, quando cada tela de Turner é mostrada logo depois dele manifestar a ideia para concebê-la. O filme concorreu a quatro categorias no Oscar 2015 (Fotografia, Design, Figurino e Trilha Sonora). Não ganhou nenhuma. Timothy Spall, porém, conquistou o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2014. Não é filme para o grande público. É indicado especialmente para os amantes da pintura, estudantes de arte e fotografia.

domingo, 15 de março de 2015

O argentino “RELATOS SELVAGENS” (“Relatos Salvajes”) era apontado pelos críticos como o maior favorito a conquistar o Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro. O filme é ótimo, mas longe da qualidade do drama polonês “IDA”, vencedor do prêmio com toda justiça. O filme argentino é constituído por seis episódios, cada um independente do outro, mostrando situações estressantes ao limite, perto do trágico, mas com muito bom humor. Entre as histórias, tem aquela que se passa dentro de um avião, onde todo mundo conhece um personagem citado por um dos passageiros; tem o sujeito que tenta chegar em casa com um bolo para o aniversário da filha e tem o carro guinchado; a história de um jovem milionário que atropela e mata uma mulher grávida e seu filho; motoristas que entram em guerra na estrada; a noiva que descobre a infidelidade do noivo durante a festa de casamento. Enfim, pequenas histórias cujos personagens estão sempre à beira de um ataque de nervos. Um retrato cruel e realista dos nossos dias atuais. Dirigido por Damián Szifron, o filme foi exibido e aclamado em vários festivais pelo mundo afora em 2014, sendo aplaudido de pé no Festival de Cannes. No elenco, os nomes mais conhecidos são Ricardo Darín, Oscar Martinez, Érica Rivas e Leonardo Sbaraglia. Imperdível!
No final dos anos 50, até grande parte da década de 60, os quadros da pintora norte-americana Margaret Ulbrich agitaram o mercado de arte nos EUA, fazendo com que ela e o marido, Walter Keane, ficassem milionários. Só que era Walter quem assinava a autoria dos trabalhos e aparecia para o mundo das artes como um grande artista. Até que um dia Margaret resolveu dar um basta e contar toda a verdade, desmascarando o pilantra. Tudo isso está contado no drama “GRANDES OLHOS” (“Big Eyes”), 2014, dirigido por Tim Burton. Margaret retratava crianças com os olhos arregalados, que expressavam tristeza. Esses olhares incomodavam e emocionavam as pessoas que iam às exposições, ainda mais quando Keane dizia, na maior cara de pau, que eram inspiradas em crianças famintas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O estilo e a qualidade artística dos quadros conseguiram grande divulgação na mídia e consagraram Walter Keane. Como o dinheiro entrava em cascatas, Margaret permaneceu quieta e concordou com a trapaça. Quando se separaram e Margaret foi morar com a filha no Havaí, a verdade viria à tona por intermédio de um processo judicial que acabou no Tribunal local. O elenco é ótimo: Amy Adams como a pintora está excelente, assim como o ator austríaco Christoph Waltz interpretando Walter Keane. Também estão no filme Danny Huston (filho de John Huston e, portanto, irmão de Angelica) e Terence Stamp, como sempre dando show. A cena do julgamento talvez tenha ficado cômica demais. Duvido que tenha sido assim na realidade. Em todo caso, o filme é muito bom, valorizado pelo ótimo desempenho de Amy Adams e, principalmente, Christoph Waltz.