quinta-feira, 27 de abril de 2017

“TE VEJO AMANHÃ EM HONG KONG” (“Already Tomorrow in Hong Kong”), 2015, EUA/Hong Kong, roteiro e direção de Emily Ting. Quando o filme terminou, fiquei com a nítida impressão de que um dos seus patrocinadores foi a Secretaria de Turismo de Hong Kong. E, para disfarçar, colocou dois atores em cena para perambular pela cidade, tendo como cenário sua iluminação intensamente feérica. Eles vão pra lá, vem pra cá, sobem e descem escadas, percorrem mercados, ruas e alguns pontos turísticos conhecidos, além de passear de barco. Tudo à noite, para valorizar a iluminação. Será que de dia a cidade também é tão bonita? Duvido. Josh Goldenberg (Bryan Greenberg, que lembra o jovem Mel Gibson) está fumando na calçada, dando um tempo na festa da namorada. Nisso surge Ruby (Jamie Chung) e eles acabam conversando. Saem andando pela cidade (e a festa???), num passeio com muito blá-blá-blá, um papo furado vazio e de uma profundidade milimétrica. Um ano depois, eles voltam a se encontrar e começa tudo de novo. Andam pela cidade, conversam o tempo inteiro e nada de chegar aos finalmente. O desfecho é abrupto e sem graça, o que certamente deve desagradar os espectadores mais românticos. A estrutura do filme lembra muito a trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite”, nos quais Ethan Hawke e Julie Delpy desfilam sua chatice verborrágica o tempo inteiro. Como curiosidade, vale dizer que Bryan Greenberg e Jamie Chung são casados na vida real.      ong Kong”)HonHongho              
O pano de fundo é político, envolvendo a repressão violenta da Rússia contra uma república fictícia chamada Karadjistan. Nada muito fora da realidade que a gente conhece muito bem. O filme espanhol “KAMIKAZE”, 2014, aborda essa temática com muito bom humor e sensibilidade, abrindo espaço também para o romance. Slatan (Álex García) é recrutado como homem-bomba por um grupo terrorista do Kardjistan para explodir um avião de passageiros que faria a rota Moscou-Madri. Só que uma violenta tempestade de neve impede o voo. Os passageiros, de várias nacionalidades, são hospedados num hotel até a tempestade passar. O misterioso Slatan acaba fazendo amizade com um grupo de espanhóis e argentinos. Durante os três dias em que os passageiros são obrigados a permanecer no hotel - a temperatura lá fora é de -32º -, muita coisa acontece e Slatan começa a rever os seus conceitos. Será que ele realmente explodirá o avião? Além do humor, o roteirista e diretor Álex Pina adiciona muita ação e suspense, principalmente no desfecho, o que torna essa produção espanhola um ótimo entretenimento. Pena que não tenha sido exibido comercialmente por aqui. Além de Álex García, estão no elenco Verónica Echegui, Carmen Machi, Leticia Dolera, Eduardo Blanco e Héctor Alterio, estes dois últimos argentinos.                 


quarta-feira, 26 de abril de 2017

“BELAS FAMÍLIAS” (“Belles Famílles”), França, 2016, roteiro e direção de Jean-Paul Rappeneau. Trata-se de uma comédia de poucas risadas – alguns sorrisos, talvez. Depois da metade, vira uma comédia romântica, na medida em que os dois personagens principais se apaixonam. O empresário francês Jérôme Varenne (Mathieu Amalric) reside na China, de onde comanda seus negócios e se prepara para casar com a bela Chen-Li (Gemma Chan), seu braço direito na empresa. Ao viajar para Londres com o objetivo de participar de uma importante reunião, Jérôme fica sabendo que seu irmão colocou à venda, sem consultá-lo, o casarão na cidade de Ambray (arredores de Paris), onde a família Varenne morou durante muitos anos. Jérôme vai a Paris e aí começa a confusão, que envolve um corretor imobiliário ganancioso, uma antiga amante do pai de Jérome e as principais autoridades da cidade, incluindo o prefeito Pierre Cotteret (André Dussollier) - eterno apaixonado por Suzanne Varenne (Nicole Garcia), a matriarca da família.  Jérôme fica encantado com a jovem Louise (Marine Vacth), filha de Florence (Karin Viard), que teria sido amante do patriarca da família Varenne. Só para esclarecer: a tradução literal de “Belles Famílles” para “Belas Famílias” não condiz com o significado correto do título francês, que na verdade exprime a ideia de “parentes agregados”. Apesar do ótimo elenco, o filme não convence como comédia, mas tem seus atrativos, como os cenários, a mansão e a beleza das atrizes Marine Vacth e Gemma Chan. Se fosse dar uma nota de 0 a 10, com muito boa vontade cravaria um 5.              

terça-feira, 25 de abril de 2017

Vou logo dizendo: “A ESPERA” (“L’ATTESA”), 2016, Itália/França, direção de Piero Messina, não é um filme para principiantes. Ou seja, o público normal. Destina-se ao espectador acostumado a frequentar sessões do chamado cinema de arte. A história, baseada na peça “La Vita Che Ti Diedi”, de Luigi Pirandello, é toda ambientada num casarão do interior da Sicília, na Itália. O filme começa com o velório de Giusepee, o filho de Anna (Juliette Binoche). Durante a recepção que se segue ao enterro, com convidados espalhados pelo casarão, chega a jovem Jeanne (Lou de Laâge), a namorada francesa do falecido. Anna diz a ela que foi seu irmão que morreu e que Giusepee prometeu chegar para os festejos da Páscoa, dali a uns dias. Jeanne fica hospedada na casa e, por incrível que pareça, acredita na versão da mãe enlutada. Roteiro pra lá de inverossímil. O filme é entediante, sensação ampliada pelo silêncio sepulcral que habita o casarão. A presença de Pietro (Giorgio Colangeli), soturno e misterioso, lembra um filme de terror. Se por um lado o filme é lento, chegando a ser cansativo, por outro lado é plasticamente muito bonito, com imagens do mais puro refinamento e uma belíssima fotografia. Com certeza, esse apuro visual o jovem diretor italiano Messina adquiriu ao trabalhar com o diretor Paolo Sorrentino, do qual foi assistente de direção nos filmes “A Grande Beleza” e "Aqui é o meu Lugar". Para os fãs do cinema de arte pode ser um grande filme, mas para os espectadores comuns pode servir como um eficiente sonífero. De qualquer forma, trata-se de um filme que merece ser conferido.                

domingo, 23 de abril de 2017

“INSEPARÁVEIS” (“Inseparables”), 2016, é a versão argentina da comédia francesa “Intocáveis”, cuja história é bastante conhecida - no caso argentino, os créditos dão conta de que a história é baseada em fatos reais, informação comprovada nos créditos finais. Um milionário tetraplégico procura um assistente terapêutico em tempo integral. Quem acaba contratado é alguém sem nenhuma qualificação para o cargo, mas cai nas graças do deficiente pela maneira de ser, autêntico, alegre e sem medo de dizer as verdades. E, o principal, não trata o patrão com compaixão. Com a convivência, surge uma grande amizade entre os dois. No caso do filme argentino, o tetraplégico é Felipe (Oscar Martinez) e o seu assistente é Tito (Rodrigo de La Serna), até então ajudante do jardineiro da mansão. Como o francês original, o filme argentino prioriza o humor. Os dois filmes são ótimos e muito divertidos. Se na versão francesa, de 2011, o forte é o carisma da dupla principal – Omar Sy e François Cluzet –, na versão argentina o trunfo maior é o veterano ator Oscar Martinez no papel do milionário deficiente. Um show. O ator Rodrigo de La Serna talvez seja histriônico em demasia, embora com isso não prejudique o resultado final. O roteiro e a direção ficaram a cargo de Marcos Carnevale, que já nos presentou com filmes maravilhosos como “Elza & Fred”, “Viúvas” e “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”. Este último, aliás, ganhou recentemente uma versão francesa, “Um Amor à Altura”. Mais um trunfo da versão argentina: a presença da bela e sensual Carla Peterson como Verônica, uma das secretárias de Felipe.             



sexta-feira, 21 de abril de 2017

“A PARTIDA” (“Departure”), Reino Unido, 2015, roteiro e direção de Andrew Steggall. A história é centrada em Beatrice (Juliet Stevenson, a Madre Teresa de Calcutá, de “The Letters”), e no seu filho Elliot (Alex Lawther). Os dois são ingleses e viajam para o sul da França com o objetivo de vender a casa de campo da família. Durante os dias em que ficam por lá separando os móveis e os objetos que desejam se livrar, os dois fazem amizade com Clément (Phénix Brossard), um enigmático jovem francês que vive perambulando pelas redondezas. Beatrice é uma mulher à beira de um ataque de nervos, infeliz, desequilibrada, carente e neurótica. O filho Elliot, que pretende ser poeta, é um homossexual enrustido que não vê a hora de sair do armário. A convivência com Clément desperta os desejos incontidos na mãe e no filho, lembrando o enredo do clássico “Teorema”, de Pasolini, onde um intruso (Terence Stamp) seduz e desintegra uma família burguesa. A chegada de Philip (Finbar Lynch), marido de Beatrice e pai de Elliot, ao invés de colocar ordem no ambiente, acaba tumultuando ainda mais o relacionamento familiar, principalmente depois que um segredo sórdido do seu passado é revelado. O filme é pesado, um tanto arrastado e com poucos atrativos para merecer uma recomendação entusiasmada, a não ser a ótima fotografia. Não confundir com o drama japonês do mesmo nome, este sim um grande filme.        

quinta-feira, 20 de abril de 2017

“UM LUGAR NA TERRA” (“Une Place Sur La Terre”), França, 2013, segundo longa-metragem escrito e dirigido por Fabienne Godet. Antoine Dumas (o ator belga Benoît Poelvoorde) é um fotógrafo freelancer que mora sozinho num apartamento da periferia de uma cidade, provavelmente Paris. Ele é depressivo, fumante inveterado e alcoólatra, só encontrando algum alento na amizade com Mateo (Max Baissette de Malglaive), um garoto de 7 anos que mora no mesmo prédio e que o visita constantemente. Numa noite qualquer, Dumas escuta alguém tocando piano e vê, pela janela, que é uma moça. Ele pega sua máquina fotográfica e passa a retratá-la. Dumas acaba conhecendo a tal moça, Elena (a bela atriz grega Ariane Labed), depois que ela sofre um acidente e ele a socorre. O que parecia apenas uma amizade transforma-se em paixão doentia para Dumas e por fim uma obsessão paranoica, tão forte a ponto de transformar as paredes de seu apartamento numa grande exposição de fotos da moça. O filme inteiro é focado num homem dilacerado pelo amor que nunca se concretiza e que transforma seus sentimentos num verdadeiro inferno. O tratamento dado à história e a maneira de contá-la descartam qualquer apelo comercial, posicionando o filme como do gênero “cinema de arte”, ou seja, não é destinado para todo tipo de público. Aliás, não vi qualquer ligação do título com a história. Em todo caso, vale pelo ótimo desempenho de Poelvoorde e pela competência e beleza de Ariane Labed.    

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O grande trunfo do drama espanhol “TRUMAN”, 2015, roteiro e direção de Cesc Gay (“O que os Homens Falam”), é a presença do ator argentino Ricardo Darín, mais uma vez dando um show de interpretação. Ele é Julián, um ator argentino radicado na Espanha e que está com os dias contados por conta de um câncer em fase de metástase. Ao tomar conhecimento da doença do antigo amigo, Tomás (Javier Cámara), que há muitos anos mora no Canadá, viaja para Madrid para dar uma força a Julián. Durante quatro dias, os amigos terão a oportunidade de conversar, lembrar os velhos tempos e preparar os últimos dias de Julián, o que envolve uma visita a uma funerária, uma última consulta ao médico, um jantar com a amiga Paula (Dolores Fonzi), uma viagem a Amsterdam para o aniversário do filho de Julián e, por fim, encontrar um lar para “Truman”, o velho cachorro prestes a ficar órfão. A situação, embora dramática, é tratada com muito bom humor através de diálogos afiados e do sarcasmo de Julián. Tem também seus momentos de sensibilidade, que farão rolar lágrimas dos espectadores mais emotivos. Por falar em lágrimas, o cão que “interpreta” Truman – que na vida real se chamava “Troilo” - morreu meses depois do término das filmagens. “Truman” é um programa bastante agradável. Recomendo como imperdível, principalmente, repito, pela presença de Ricardo Darín.   

terça-feira, 18 de abril de 2017



O drama francês “UM BELO VERÃO” (“La Belle Saison”), 2015, roteiro e direção de Catherine Corsini (“Partir”, “Três Mundos”), conta a história do amor de duas mulheres no início dos anos 70. Delphine (Izïa Higelin) trabalha na fazenda dos pais e é lésbica assumida, embora esconda essa condição. Numa viagem a Paris, conhece Carole (Cécile de France), uma militante feminista. É bom lembrar que naqueles anos o movimento feminista e a liberação sexual estavam no auge no mundo inteiro e, especialmente, na França. Embora casada com Manuel (Benjamin Bellecour), Carole cede ao assédio de Delphine e as duas acabam se apaixonando. Para assumir o romance, Delphine e Carole serão obrigadas a lutar contra o preconceito reinante na época, principalmente na comunidade rural onde vivem os pais de Delphine. A história lembra o polêmico “Azul é a Cor mais Quente”, de 2013, inclusive nas cenas de sexo, bastante ousadas, embora não explícitas. Além da história bem contada, também devo destacar a atuação do elenco, principalmente as duas atrizes principais, a belga Cécile de France e a francesa Izïa Higelin, que não negam fogo nas cenas eróticas. Conforme afirmou a diretora Corsini, o filme foi realizado como homenagem a Delphine Seyrig e Carole Roussopoulus, cinegrafistas que ficaram famosas ao filmar as lutas das mulheres nos anos 70, como, por exemplo, a primeira marcha homossexual da França. Sem dúvida, um dos melhores filmes franceses desta década.  
Grande sensação do cinema independente norte-americano em 2015, o drama “KRISHA” é um dos filmes mais perturbadores que já vi. Como escreveu um crítico, trata-se de “um furacão de emoções”. E é verdade, pois o clima tenso impera do começo ao fim. Com roteiro e direção de Trey Edward Saults – é seu primeiro longa-metragem -, o filme tem como personagem principal a sessentona Krisha (Krisha Fairchild), que depois de 10 anos afastada da família, retorna para passar o feriado de Ação de Graças na casa da irmã. Aliás, toda a trama acontece num único cenário, justamente a casa onde estão reunidos todos os parentes, incluindo o filho dela, interpretado pelo próprio diretor. A presença inesperada de Krisha deixa o clima pesado, pois todos sabem que ela é mentalmente desequilibrada, graças a um passado dedicado ao alcoolismo e ao vício de drogas. A relação traumática com a família é exposta durante o almoço. Sobra até para o peru... Claro que não é um entretenimento dos mais agradáveis, mas vale a pena assistir pelo desempenho impressionante da atriz Krisha Fairchild, de "The Killing of John Lennon" e "Fuga Desenfreada". O filme venceu o Grande Prêmio do Público no SXSW Film Festival/2015 e foi exibido por aqui na programação da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.     

       

sábado, 15 de abril de 2017

O drama sueco “MINHA IRMÃ MAGRA” (“Min Lilla Syster”), 2014, tenta responder a uma pergunta que aflige milhares, ou milhões, de pais no mundo inteiro: O que fazer quando você descobre que sua filha sofre de anorexia? O tema é abordado com sensibilidade pela diretora estreante em longas Sanna Lenken, mais conhecida por seus trabalhos na TV. Ela também é a autora do roteiro. É sob o ponto de vista de Stella (a ótima Rebecka Josephson), de 12 anos, que tudo acontece. É como se ela funcionasse como narradora da história. Ela é gordinha e morre de inveja da sua irmã mais velha, Katja (Amy Deasismont), que é a estrela da patinação na escola e queridinha dos pais. Stella, colocada meio de escanteio, observa tudo quieta até descobrir que Katja consegue ser magra porque é anoréxica. Stella até que se compadece pela situação da irmã e tenta ajudá-la. Mas a questão é que Katja pede segredo à irmã, prometendo não contar aos pais que Stella escreve poemas eróticos pensando no treinador Jacob (Maxim Mehmet). De alguma forma, porém, a situação de Katja chega ao conhecimento dos pais, que terão de lidar com o problema. O drama é amenizado por alguns toques de bom humor, principalmente nas cenas envolvendo a gordinha e simpática Stella. Embora o contexto seja dramático, o filme é bastante agradável e merece ser visto. Como aval da minha opinião, lembro que “Minha Irmã Magra” foi eleito o Melhor Filme Nórdico no Festival de Cinema de Gotemburgo e recebeu o Urso de Cristal no Festival de Berlim 2015.    

       

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O drama “VIRGEM JURAMENTADA” (“Vergine Giurata”), 2014, Itália, foi exibido pela primeira vez durante o 65º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2015, foi sucesso de público e crítica em vários festivais pelo mundo afora e, por aqui, integrou a programação da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Filme de estreia da diretora italiana Laura Bispuri, que escreveu o roteiro em conjunto com Francesca Manieri. A história: as irmãs Hana e Hila vivem num vilarejo nas montanhas da Albânia. Elas crescem numa sociedade radicalmente machista, onde as mulheres são tratadas como escravas e obrigadas a se submeter à vontade dos homens. As irmãs se rebelam com a situação. Hila (Flonja Kodheli) escapa de um casamento arranjado e foge com o namorado para a Itália. Hana (Alba Rohrwacher) decide ficar e resolve adotar o sexo masculino, obedecendo à Lei do Kanun e jurando eterna virgindade. Ela passa a se chamar Mark Doda e, apenas com seu rifle, vai morar durante 10 anos em plena solidão nas montanhas. Quando decide visitar a irmã na Itália, Hana/Mark começa a mudar os seus conceitos. O filme é bastante interessante na medida em que revela algumas das principais tradições vigentes naquela região inóspita da Albânia. É um filme de poucos diálogos. A interpretação da atriz italiana Alba Rohrwacher é impressionante. Ela fala muito pouco o filme inteiro, utilizando-se apenas de sua expressão facial e corporal. O filme é muito bom e merece ser visto por quem curte cinema de qualidade.          

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quem tem claustrofobia (fobia a lugares fechados) e sofre de nictofobia (medo do escuro), jamais assista ao drama mexicano “7:19”, 2016, direção de Jorge Michel Grau. O pano de fundo é o terremoto que arrasou a Cidade do México no dia 19 de setembro de 1985, causando milhares de mortos e destruindo dezenas de edifícios e casas. O título refere-se ao exato momento em que o terremoto começou. O filme quase inteiro é ambientado nos destroços de um grande edifício, onde cinco pessoas tentam sobreviver em meio aos escombros enquanto o socorro não chega. Um deles é o dr. Fernando Pellicer (Demian Bichir, do polêmico “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino), executivo cujo sogro foi o construtor do prédio. Outro é Martin Soriano (Hector Bonilla), porteiro do edifício prestes a se aposentar. O ritmo lento e arrastado, sem qualquer ação, pode causar sonolência. Ou seja, só vai chegar ao final quem tiver uma dose monumental de paciência ou conseguir ficar acordado. Menos mal que tudo seja inspirado em fatos reais, mas trata-se, sem dúvida, de um filme sem muitos atrativos, ou seja, pouco recomendável.      
“10.000 Km”, Espanha, 2014, direção de Carlos Marques-Marcet. Alexandra (Natalia Tena) e Sergi (David Verdaguer) vivem em Barcelona e formam um casal ainda em fase de lua-de-mel, com muita paixão e sexo. Posso estar enganado, mas a cena de sexo inicial foi mesmo para valer, mesmo não sendo explícito. Ao mesmo tempo, Alex e Sergi querem ter um filho. Um dia ela, fotógrafa e designer gráfica, recebe uma proposta de trabalho irrecusável para ficar um ano em Los Angeles. Eles conversam bastante antes de tomar a decisão e, enfim, Alexandra vai para os EUA. Todos os dias eles conversam pela webcam, trocam juras de amor eterno e contam os dias que faltam para terminar o trabalho dela. Mesmo à distância, o relacionamento se desgasta e entra em crise, mais pelo ciúme e as desconfianças de Sergi. E o filme vai por aí afora com muito papo furado interminável pela internet. O filme todo é um tédio insuportável, cansativo e enfadonho, a começar pelo fato de vermos apenas dois personagens em cena falando um com o outro durante os mais de 100 minutos de duração. Os diálogos são de uma profundidade milimétrica. O roteiro foi escrito pelo diretor Carlos Marques em conjunto com Clara Roquet e dele também participaram os dois atores. O diretor faz parte de um grupo de cineastas espanhóis intitulado “La Panda”, cujo objetivo é realizar filmes criativos e de baixo orçamento. No caso de “10.000 Km”, eu acrescentaria mais um objetivo: fazer dormir.  


sábado, 8 de abril de 2017

                                               

“ALIADOS” (“Allied”), 2016, EUA, roteiro de Steven Knight e direção do veterano Robert Zemeckis (“O Voo”, “Náufrago”). Ambientado no início dos anos 40 em plena Segunda Guerra Mundial, conta a história do oficial canadense Max Vatan (Brad Pitt) e da militante da resistência francesa Marianne Beausejour (Marion Cotillard), recrutados como espiões e com a missão de assassinar um embaixador alemão em Casablanca, no Marrocos. Eles fingem ser casados, mas, claro, acabam se apaixonando. Após a missão cumprida, eles se casam de verdade e vão morar na Inglaterra. Felizes para sempre? Ledo engano! O serviço secreto inglês começa a desconfiar que Marianne é, na verdade, uma espiã a serviço dos nazistas. Aí o caldo engrossa e Max é obrigado a vigiar a patroa e, se for o caso, assassiná-la. Há algumas referências claras ao clássico “Casablanca”: a pianista que toca “A Marselhesa” num bar repleto de alemães, a cena final em meio aos aviões e, principalmente, os figurinos usados pelos principais protagonistas. O filme, aliás, disputou o Oscar 2017 na categoria “Melhor Figurino”, sua única indicação. A atriz francesa Marion Cotillard, que já havia conquistado um Oscar de “Melhor Atriz” por “Piaf – Um Hino ao Amor”, dá conta do recado, mas Brad Pitt atua no piloto automático, comprovando mais uma vez não ser um grande ator. Segundo os fofoqueiros de plantão, Marion e Pitt tiveram um caso durante as filmagens, o que resultou na separação entre o ator e Angelina Jolie. Não acredito, pois a atriz francesa estava grávida e, além disso, é casada. Será que foi uma jogada de marketing para promover o filme? De qualquer forma, trata-se de uma história bastante interessante e cheia de suspense.    

segunda-feira, 3 de abril de 2017

“MANCHESTER À BEIRA-MAR” (“MANCHESTER BY THE SEA”) teve seis indicações ao Oscar 2017, inclusive de Melhor Filme (perdeu para “Moonlight”), mas conseguiu que Casey Affleck (irmão mais moço do Ben) ganhasse o prêmio de Melhor Ator. Trata-se de um filme altamente depressivo, repleto de tragédias, e quem sofre mais é justamente Lee Chandler, o personagem interpretado por Affleck. Para explicar porque ele se transformou num homem  triste e melancólico, o roteirista e diretor Kenneth Lonergan (“Conte Comigo”) recorreu a inúmeros flashbacks que se alternam com a ação do presente até o desfecho. O filme começa e mostra Lee Chandler morando em Boston, onde trabalha como zelador de dois edifícios. Vive isolado e deprimido. Para piorar, recebe a notícia de que seu irmão Joe Chandler (Kyle Chandler) acabara de morrer, deixando órfão seu filho adolescente Patrick (Lucas Hedges). A situação provoca o retorno de Lee à sua cidade natal Manchester, onde terá de se confrontar com a ex-esposa Randi (Michelle Williams) e remoer uma tragédia do passado. Mas é o relacionamento difícil e conflituoso com o sobrinho Patrick que garante ao filme as melhores cenas e os diálogos mais afiados. Um bom filme que merece ser visto, sem dúvida valorizado pelo ótimo desempenho de Casey Affleck.      


quinta-feira, 30 de março de 2017

Quem conhece um pouco de História deve se lembrar do atentado contra Adolf Hitler ocorrido numa cervejaria de Munique no dia 8 de novembro de 1939, que matou 8 pessoas, menos o alvo principal. O líder nazista escapou ileso, pois saiu 13 minutos antes da bomba explodir. O autor do atentado, o carpinteiro Georg Elser, foi preso logo depois. Hitler exigia que ele denunciasse os seus supostos parceiros, embora Elser tenha agido sozinho. Dá-lhe tortura, uma especialidade dos nazistas. Este é o enredo do excelente drama histórico alemão “13 MINUTOS” (“Elser”), 2014, dirigido por Oliver Hirschbiegel e com roteiro de Fred e Léonie-Clair, pai e filha. O filme tem como foco central o período em que Elser (Christian Friedel) passou na prisão, seus interrogatórios e as sádicas torturas que sofreu. Aliás, as cenas de tortura são bastante chocantes, podem incomodar os espectadores mais sensíveis. O filme também destaca, em flashbacks, sua ligação com a Frente Vermelha de Lutadores, organização associada ao Partido Comunista Alemão, e os motivos que o levaram a praticar o atentado, além de sua paixão por Elsa (Katharina Schüttler), esposa de um simpatizante nazista. O diretor Hirschbiegel carrega no currículo o excelente “A Queda – As Últimas Horas de Hitler”, indicado ao Oscar 2005 de Melhor Filme Estrangeiro. O diretor alemão também trabalhou em Hollywood, dirigindo filmes como “Invasores”, “Rastros de Justiça” e “Diana”. “13 Minutos” é mais um filme alemão de muita qualidade. Obrigatório!


segunda-feira, 27 de março de 2017

O drama francês “SKY”, 2015, roteiro e direção de Fabienne Berthaud, é todo ambientado nos Estados Unidos e conta a história de Romy (Diane Kruger) e Richard (Gilles Lellouche), que resolvem sair em férias para tentar salvar um casamento em crise. De Paris, eles vão para os EUA dispostos a percorrer as paisagens desérticas da Route 66. A escolha não poderia ter sido pior. Em poucos dias eles se separam depois de uma violenta discussão e ela segue estrada, chegando a Las Vegas. Sem dinheiro, ela acaba se vestindo de coelhinha e, ao lado de dois sósias de Elvis Presley, ganha uma graninha tirando fotos com turistas nas calçadas de Vegas. Na cidade dos cassinos, ela conhece Diego (Norman Reedus), cujo aspecto repugnante é incrementado por acessos de tosse. Como se não bastasse, Romy ainda vai a uma benzedeira índia. Enfim, quem viu alguns filmes de Diane Kruger, como “Adeus, Minha Rainha” ou “Tudo por Ela”, vai estranhá-la num papel tão constrangedor e num filme tão fraco, que, aliás, não foi exibido comercialmente por aqui. E duvido que seja, para o bem da reputação de Kruger e para alívio do pessoal que curte cinema de qualidade.   
“UM INÍCIO PROMISSOR” (“Um Début Prometteur”), 2014, França, roteiro e direção de Emma Luchini. A história, baseada no romance “Au Diable Vauvert”, de Isabelle Blondie, é centrada em dois irmãos com uma grande diferença de idade. Martin (Manu Payet) já é quase quarentão, alcoólatra e drogado, não trabalha e vive passando por clínicas de recuperação. O mais novo, Gabriel (Zacharie Chasseriaud), de 16 anos, vive no mundo da lua e acaba se apaixonando por uma mulher com o dobro de sua idade, Mathilde Carmain (Veerle Baetens). Os irmãos são filhos de um horticultor, o esquisito Francis Vauvel (Fabrice Luchini, pai da diretora). Parece uma comédia romântica. Como não provoca risos nem sorrisos, não emplaca como comédia. Como romance, também passa longe. Ou seja, não há muitos atrativos que possam motivar uma recomendação entusiasmada, a não ser a presença da atriz belga Veerle Baetens, que arrasou no ótimo “Alabama Monroe”, filme de 2012, e que aqui está mais sensual do que nunca. O grande ator Fabrice Luchini aparece pouco, provavelmente para dar uma força para a filha diretora. Em resumo, filme dos mais descartáveis. Ao contrário do que diz o título, nem o início é promissor.                                                                                                      


quinta-feira, 23 de março de 2017

Já vi muitos filmes bons com elencos formados por ilustres desconhecidos, assim como assisti a muitos filmes ruins com astros consagrados. Neste segundo caso incluo “BELEZA OCULTA” (“Collateral Beauty”), EUA, 2016. Olha só o elenco: Will Smith, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Edward Norton, Michael Peña e Naomi Harris. Elenco de primeira para um filme de segunda. A história: o empresário Howard (Smith) é um dos sócios de uma famosa agência de propaganda. É considerado um gênio criativo e dos negócios. Depois da morte de sua filha de 6 anos de idade, ele entra em crise existencial, se transforma num morto-vivo, começa a brincar com peças de dominó e a escrever cartas para a Morte, o Tempo e a Vida. É mole? Tem mais. Seus sócios na agência resolvem contratar atores para representar os destinatários das cartas e tentar conversar com Howard. Quer mais? Uma mãe que também perdeu a filha ouve um conselho de uma misteriosa mulher: “Você precisa ver a beleza oculta”. Vá dizer isso a alguém que acaba de perder um ente querido. Os responsáveis por esse besteirol: o roteirista Allan Loeb (“Coincidências do Amor”) e o diretor David Frankel (“Marley & Eu”). Eles tentaram fazer um filme para o público chorar, exagerando no tom emotivo e no sentimentalismo barato, utilizando diálogos artificiais e de uma profundidade milimétrica. Com toda razão, o filme foi massacrado pela crítica especializada. Não perca seu tempo!       

quarta-feira, 22 de março de 2017

Baseado em fatos reais, relatados no livro “The Septembers of Shiraz”, da escritora iraniana Dalia Sofer, e transformado em roteiro por Hanna Weg, o drama “SETEMBRO EM SHIRAZ” (“Setptembers of Shiraz”), EUA, 2015, conta a história de uma família judia que sofreu nas mãos dos radicais fieis ao regime do aiatolá Khomeini logo após a deposição do Xá Reza Pahlevi, em 1979. Isaac (Adrien Brody) é um joalheiro de sucesso em Teerã, mas depois da revolução é acusado de ser espião de Israel. Ele é preso e torturado, enquanto sua esposa Garnez (Salma Hayek) faz de tudo para libertá-lo. A situação de Isaac se complica ainda mais quando descobrem uma carta onde o deposto Xá Pahlevi agradece e elogia um de seus trabalhos. Dirigido pelo diretor australiano Wayne Blair (“Música da Alma”), o filme consegue manter o clima de tensão do começo ao fim. O filme é quase todo falado em inglês, com Adrien Broden e Salma Hayek tentando caprichar no sotaque. Vale ser visto por contar uma história que realmente aconteceu. A ideologia implementada naquela época no Irã tem muito a ver com os princípios do atual e sanguinário Estado Islâmico.                                            

segunda-feira, 20 de março de 2017

“LATIN LOVER”, 2014, Itália, roteiro e direção de Cristina Comencini. No 10º aniversário da morte do famoso galã Saverio Crispo (Francesco Scianna), sua cidade natal resolve resgatar sua memória com um dia de homenagens. Além de grande ator, requisitado inclusive por Hollywood, Saverio era um mulherengo crônico - impossível não lembrar de Marcelo Mastroianni. As duas viúvas oficiais, mais suas cinco filhas são convidadas para participar desse dia especial. Elas se reencontram um dia antes, oportunidade em que relembram a convivência que tiveram com Saverio, trocam confidências e revelam alguns segredos de alcova. Além disso, há o marido espanhol de uma delas, que assedia a cunhada mais jovem e bonita. No fundo, Cristina Comencini (“O Mais Belo Dia da Minha Vida”) presta uma homenagem ao cinema italiano, resgatando o gênero que consagrou, entre outros, os diretores Dino Risi e Mario Monicelli, dois mestres da comédia. No desfecho, a projeção de um documentário com Saverio lembra a cena final de uma obra-prima do cinema italiano: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatori. O principal trunfo de Comencini foi contar com um excelente elenco feminino: Virna Lisi, Marisa Paredes, Valeria Bruni Tedeschi, Angela Finocchiaro, Candela Peña, Nadeah Miranda. Este, aliás, foi o último filme da diva Virna Lisi, a atriz mais bonita do cinema italiano nos anos 60/70, que morreu logo depois do final das filmagens. O filme é dedicado a ela. Também atuam com destaque os atores espanhóis Lluís Homar e Jordi Mollià. Enfim, um programa delicioso.