“TE VEJO AMANHÃ EM HONG KONG” (“Already Tomorrow in Hong Kong”), 2015,
EUA/Hong Kong, roteiro e direção de Emily Ting. Quando o filme terminou, fiquei
com a nítida impressão de que um dos seus patrocinadores foi a Secretaria de Turismo
de Hong Kong. E, para disfarçar, colocou dois atores em cena para perambular
pela cidade, tendo como cenário sua iluminação intensamente feérica. Eles vão
pra lá, vem pra cá, sobem e descem escadas, percorrem mercados, ruas e alguns
pontos turísticos conhecidos, além de passear de barco. Tudo à noite, para
valorizar a iluminação. Será que de dia a cidade também é tão bonita? Duvido. Josh
Goldenberg (Bryan Greenberg, que lembra o jovem Mel Gibson) está fumando na calçada,
dando um tempo na festa da namorada. Nisso surge Ruby (Jamie Chung) e eles
acabam conversando. Saem andando pela cidade (e a festa???), num passeio com muito blá-blá-blá,
um papo furado vazio e de uma profundidade milimétrica. Um ano depois, eles
voltam a se encontrar e começa tudo de novo. Andam pela cidade, conversam o
tempo inteiro e nada de chegar aos finalmente. O desfecho é abrupto e sem graça,
o que certamente deve desagradar os espectadores mais românticos. A estrutura
do filme lembra muito a trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes
da Meia-Noite”, nos quais Ethan Hawke e Julie Delpy desfilam sua chatice
verborrágica o tempo inteiro. Como curiosidade, vale dizer que Bryan Greenberg e Jamie Chung
são casados na vida real. ong Kong”)HonHongho
O pano
de fundo é político, envolvendo a repressão violenta da Rússia contra uma
república fictícia chamada Karadjistan. Nada muito fora da realidade que a
gente conhece muito bem. O filme espanhol “KAMIKAZE”, 2014,
aborda essa temática com muito bom humor e sensibilidade, abrindo espaço também
para o romance. Slatan (Álex García) é recrutado como homem-bomba por um grupo
terrorista do Kardjistan para explodir um avião de passageiros que faria a rota
Moscou-Madri. Só que uma violenta tempestade de neve impede o voo. Os
passageiros, de várias nacionalidades, são hospedados num hotel até a tempestade
passar. O misterioso Slatan acaba fazendo amizade com um grupo de espanhóis e
argentinos. Durante os três dias em que os passageiros são obrigados a permanecer no hotel - a temperatura lá fora é de -32º -, muita coisa
acontece e Slatan começa a rever os seus conceitos. Será que ele realmente explodirá
o avião? Além do humor, o roteirista e diretor Álex Pina adiciona muita ação e
suspense, principalmente no desfecho, o que torna essa produção espanhola um ótimo entretenimento. Pena que não tenha sido exibido comercialmente por aqui. Além de
Álex García, estão no elenco Verónica Echegui, Carmen Machi, Leticia Dolera,
Eduardo Blanco e Héctor Alterio, estes dois últimos argentinos.
“BELAS FAMÍLIAS” (“Belles
Famílles”), França, 2016, roteiro e
direção de Jean-Paul Rappeneau. Trata-se de uma comédia de poucas risadas – alguns
sorrisos, talvez. Depois da metade, vira uma comédia romântica, na
medida em que os dois personagens principais se apaixonam. O empresário francês
Jérôme Varenne (Mathieu Amalric) reside na China, de onde comanda seus negócios
e se prepara para casar com a bela Chen-Li (Gemma Chan), seu braço direito na empresa. Ao viajar para Londres
com o objetivo de participar de uma importante reunião, Jérôme fica sabendo que
seu irmão colocou à venda, sem consultá-lo, o casarão na cidade de Ambray (arredores de Paris), onde a família Varenne
morou durante muitos anos. Jérôme vai a Paris e aí começa a confusão, que
envolve um corretor imobiliário ganancioso, uma antiga amante do pai de Jérome
e as principais autoridades da cidade, incluindo o prefeito Pierre Cotteret
(André Dussollier) - eterno apaixonado por Suzanne Varenne (Nicole Garcia), a
matriarca da família. Jérôme fica
encantado com a jovem Louise (Marine Vacth), filha de Florence (Karin Viard),
que teria sido amante do patriarca da família Varenne. Só para esclarecer: a
tradução literal de “Belles Famílles” para “Belas Famílias” não condiz com o
significado correto do título francês, que na verdade exprime a ideia de “parentes
agregados”. Apesar do ótimo elenco, o filme não convence como comédia, mas tem
seus atrativos, como os cenários, a mansão e a beleza das atrizes Marine Vacth
e Gemma Chan. Se fosse dar uma nota de 0 a 10, com muito boa vontade cravaria um 5.
Vou
logo dizendo: “A ESPERA” (“L’ATTESA”), 2016, Itália/França, direção de
Piero Messina, não é um filme para principiantes. Ou seja, o público normal.
Destina-se ao espectador acostumado a frequentar sessões do chamado cinema de
arte. A história, baseada na peça “La Vita Che Ti Diedi”, de Luigi Pirandello,
é toda ambientada num casarão do interior da Sicília, na Itália. O filme começa
com o velório de Giusepee, o filho de Anna (Juliette Binoche). Durante a recepção
que se segue ao enterro, com convidados espalhados pelo casarão, chega a jovem
Jeanne (Lou de Laâge), a namorada francesa do falecido. Anna diz a ela que foi
seu irmão que morreu e que Giusepee prometeu chegar para os festejos da Páscoa,
dali a uns dias. Jeanne fica hospedada na casa e, por incrível que pareça,
acredita na versão da mãe enlutada. Roteiro pra lá de inverossímil. O filme é
entediante, sensação ampliada pelo silêncio sepulcral que habita o casarão. A
presença de Pietro (Giorgio Colangeli), soturno e misterioso, lembra um filme
de terror. Se por um lado o filme é lento, chegando a ser cansativo, por outro
lado é plasticamente muito bonito, com imagens do mais puro refinamento e uma belíssima
fotografia. Com certeza, esse apuro visual o jovem diretor italiano Messina adquiriu ao trabalhar com o diretor Paolo Sorrentino, do qual foi assistente de direção nos filmes “A
Grande Beleza” e "Aqui é o meu Lugar". Para os fãs do cinema de arte pode ser um grande filme, mas para os espectadores comuns pode servir como um eficiente sonífero. De qualquer forma, trata-se
de um filme que merece ser conferido.
“INSEPARÁVEIS” (“Inseparables”), 2016, é a versão argentina da comédia francesa “Intocáveis”,
cuja história é bastante conhecida - no caso argentino, os créditos dão conta de que a história é baseada em fatos reais, informação comprovada nos créditos finais. Um milionário tetraplégico procura um
assistente terapêutico em tempo integral. Quem acaba contratado é alguém sem
nenhuma qualificação para o cargo, mas cai nas graças do deficiente pela maneira
de ser, autêntico, alegre e sem medo de dizer as verdades. E, o principal, não
trata o patrão com compaixão. Com a convivência, surge uma grande amizade entre
os dois. No caso do filme argentino, o tetraplégico é Felipe (Oscar Martinez) e
o seu assistente é Tito (Rodrigo de La Serna), até então ajudante do jardineiro
da mansão. Como o francês original, o filme argentino prioriza o humor. Os dois
filmes são ótimos e muito divertidos. Se na versão francesa, de 2011, o forte é
o carisma da dupla principal – Omar Sy e François Cluzet –, na versão argentina
o trunfo maior é o veterano ator Oscar Martinez no papel do milionário
deficiente. Um show. O ator Rodrigo de La Serna talvez seja histriônico em demasia, embora
com isso não prejudique o resultado final. O roteiro e a direção ficaram a
cargo de Marcos Carnevale, que já nos presentou com filmes maravilhosos como “Elza
& Fred”, “Viúvas” e “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”. Este
último, aliás, ganhou recentemente uma versão francesa, “Um Amor à Altura”. Mais um trunfo da versão argentina: a presença da bela e sensual Carla Peterson como Verônica, uma das secretárias de Felipe.
“A PARTIDA” (“Departure”), Reino Unido, 2015, roteiro e direção de Andrew
Steggall. A história é centrada em Beatrice (Juliet Stevenson, a Madre Teresa
de Calcutá, de “The Letters”), e no seu filho Elliot (Alex Lawther). Os dois
são ingleses e viajam para o sul da França com o objetivo de vender a casa de
campo da família. Durante os dias em que ficam por lá separando os móveis e os
objetos que desejam se livrar, os dois fazem amizade com Clément (Phénix
Brossard), um enigmático jovem francês que vive perambulando pelas redondezas.
Beatrice é uma mulher à beira de um ataque de nervos, infeliz, desequilibrada, carente e neurótica.
O filho Elliot, que pretende ser poeta, é um homossexual enrustido que não vê a
hora de sair do armário. A convivência com Clément desperta os desejos
incontidos na mãe e no filho, lembrando o enredo do clássico “Teorema”, de
Pasolini, onde um intruso (Terence Stamp) seduz e desintegra uma família
burguesa. A chegada de Philip (Finbar Lynch), marido de Beatrice e pai de
Elliot, ao invés de colocar ordem no ambiente, acaba tumultuando ainda mais o
relacionamento familiar, principalmente depois que um segredo sórdido do seu
passado é revelado. O filme é pesado, um tanto arrastado e com poucos atrativos
para merecer uma recomendação entusiasmada, a não ser a ótima fotografia. Não
confundir com o drama japonês do mesmo nome, este sim um grande filme.
“UM LUGAR NA TERRA” (“Une Place Sur
La Terre”), França, 2013, segundo
longa-metragem escrito e dirigido por Fabienne Godet. Antoine Dumas (o ator
belga Benoît Poelvoorde) é um fotógrafo freelancer que mora sozinho num apartamento da periferia de uma cidade, provavelmente
Paris. Ele é depressivo, fumante inveterado e alcoólatra, só encontrando algum
alento na amizade com Mateo (Max Baissette de Malglaive), um garoto de 7 anos
que mora no mesmo prédio e que o visita constantemente. Numa noite qualquer,
Dumas escuta alguém tocando piano e vê, pela janela, que é uma moça. Ele pega
sua máquina fotográfica e passa a retratá-la. Dumas acaba conhecendo a tal
moça, Elena (a bela atriz grega Ariane Labed), depois que ela sofre um acidente
e ele a socorre. O que parecia apenas uma amizade transforma-se em paixão
doentia para Dumas e por fim uma obsessão paranoica, tão forte a ponto de
transformar as paredes de seu apartamento numa grande exposição de fotos da
moça. O filme inteiro é focado num homem dilacerado pelo amor que nunca se
concretiza e que transforma seus sentimentos num verdadeiro inferno. O
tratamento dado à história e a maneira de contá-la descartam qualquer apelo
comercial, posicionando o filme como do gênero “cinema de arte”, ou seja, não é destinado para todo tipo de público. Aliás, não vi
qualquer ligação do título com a história. Em todo caso, vale pelo ótimo
desempenho de Poelvoorde e pela competência e beleza de Ariane Labed.
O grande
trunfo do drama espanhol “TRUMAN”, 2015, roteiro e direção de Cesc Gay (“O
que os Homens Falam”), é a presença do ator argentino Ricardo Darín, mais uma
vez dando um show de interpretação. Ele é Julián, um ator argentino radicado na
Espanha e que está com os dias contados por conta de um câncer em fase de metástase.
Ao tomar conhecimento da doença do antigo amigo, Tomás (Javier Cámara), que há
muitos anos mora no Canadá, viaja para Madrid para dar uma força a Julián.
Durante quatro dias, os amigos terão a oportunidade de conversar, lembrar os
velhos tempos e preparar os últimos dias de Julián, o que envolve uma visita a
uma funerária, uma última consulta ao médico, um jantar com a amiga Paula
(Dolores Fonzi), uma viagem a Amsterdam para o aniversário do filho de Julián e,
por fim, encontrar um lar para “Truman”, o velho cachorro prestes a ficar
órfão. A situação, embora dramática, é tratada com muito bom humor através de diálogos
afiados e do sarcasmo de Julián. Tem também seus momentos de sensibilidade, que
farão rolar lágrimas dos espectadores mais emotivos. Por falar em lágrimas, o
cão que “interpreta” Truman – que na vida real se chamava “Troilo” - morreu
meses depois do término das filmagens. “Truman” é um programa bastante
agradável. Recomendo como imperdível, principalmente, repito, pela presença de
Ricardo Darín.
O drama
francês “UM BELO VERÃO” (“La Belle Saison”), 2015, roteiro e direção de
Catherine Corsini (“Partir”, “Três Mundos”), conta a história do amor de duas
mulheres no início dos anos 70. Delphine (Izïa Higelin) trabalha na fazenda dos
pais e é lésbica assumida, embora esconda essa condição. Numa viagem a Paris,
conhece Carole (Cécile de France), uma militante feminista. É bom lembrar que
naqueles anos o movimento feminista e a liberação sexual estavam no auge no
mundo inteiro e, especialmente, na França. Embora casada com Manuel (Benjamin
Bellecour), Carole cede ao assédio de Delphine e as duas acabam se apaixonando.
Para assumir o romance, Delphine e Carole serão obrigadas a lutar contra o preconceito
reinante na época, principalmente na comunidade rural onde vivem os pais de
Delphine. A história lembra o polêmico “Azul é a Cor mais Quente”, de 2013,
inclusive nas cenas de sexo, bastante ousadas, embora não explícitas. Além da
história bem contada, também devo destacar a atuação do elenco, principalmente
as duas atrizes principais, a belga Cécile de France e a francesa Izïa Higelin,
que não negam fogo nas cenas eróticas. Conforme afirmou a diretora Corsini, o
filme foi realizado como homenagem a Delphine Seyrig e Carole Roussopoulus,
cinegrafistas que ficaram famosas ao filmar as lutas das mulheres nos anos 70,
como, por exemplo, a primeira marcha homossexual da França. Sem dúvida, um dos
melhores filmes franceses desta década.
Grande
sensação do cinema independente norte-americano em 2015, o drama “KRISHA” é
um dos filmes mais perturbadores que já vi. Como escreveu um crítico, trata-se
de “um furacão de emoções”. E é verdade, pois o clima tenso impera do começo ao
fim. Com roteiro e direção de Trey Edward Saults – é seu primeiro longa-metragem
-, o filme tem como personagem principal a sessentona Krisha (Krisha Fairchild),
que depois de 10 anos afastada da família, retorna para passar o feriado de
Ação de Graças na casa da irmã. Aliás, toda a trama acontece num único cenário,
justamente a casa onde estão reunidos todos os parentes, incluindo o filho
dela, interpretado pelo próprio diretor. A presença inesperada de Krisha deixa
o clima pesado, pois todos sabem que ela é mentalmente desequilibrada, graças a
um passado dedicado ao alcoolismo e ao vício de drogas. A relação traumática
com a família é exposta durante o almoço. Sobra até para o peru... Claro que não
é um entretenimento dos mais agradáveis, mas vale a pena assistir pelo desempenho
impressionante da atriz Krisha Fairchild, de "The Killing of John Lennon" e "Fuga Desenfreada". O filme venceu o Grande Prêmio do
Público no SXSW Film Festival/2015 e foi exibido por aqui na programação da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2016.
O drama
sueco “MINHA IRMÃ MAGRA” (“Min Lilla Syster”), 2014, tenta responder a
uma pergunta que aflige milhares, ou milhões, de pais no mundo inteiro: O que fazer quando você descobre que
sua filha sofre de anorexia? O tema é abordado com sensibilidade pela diretora estreante em longas Sanna Lenken, mais conhecida por seus trabalhos na TV. Ela também é a autora do
roteiro. É sob o ponto de vista de Stella (a ótima Rebecka Josephson), de 12
anos, que tudo acontece. É como se ela funcionasse como narradora da história. Ela
é gordinha e morre de inveja da sua irmã mais velha, Katja (Amy Deasismont),
que é a estrela da patinação na escola e queridinha dos pais. Stella, colocada
meio de escanteio, observa tudo quieta até descobrir que Katja consegue ser
magra porque é anoréxica. Stella até que se compadece pela situação da irmã e
tenta ajudá-la. Mas a questão é que Katja pede segredo à irmã, prometendo não
contar aos pais que Stella escreve poemas eróticos pensando no treinador Jacob
(Maxim Mehmet). De alguma forma, porém, a situação de Katja chega ao
conhecimento dos pais, que terão de lidar com o problema. O drama é amenizado
por alguns toques de bom humor, principalmente nas cenas envolvendo a gordinha e simpática Stella. Embora o contexto seja dramático, o filme é bastante agradável e merece
ser visto. Como aval da minha opinião, lembro que “Minha Irmã Magra” foi eleito
o Melhor Filme Nórdico no Festival de Cinema de Gotemburgo e recebeu o Urso de
Cristal no Festival de Berlim 2015.
O drama
“VIRGEM JURAMENTADA” (“Vergine Giurata”), 2014, Itália, foi exibido pela
primeira vez durante o 65º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2015,
foi sucesso de público e crítica em vários festivais pelo mundo afora e, por
aqui, integrou a programação da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo. Filme de estreia da diretora italiana Laura Bispuri, que escreveu o
roteiro em conjunto com Francesca Manieri. A história: as irmãs Hana e Hila
vivem num vilarejo nas montanhas da Albânia. Elas crescem numa sociedade
radicalmente machista, onde as mulheres são tratadas como escravas e obrigadas
a se submeter à vontade dos homens. As irmãs se rebelam com a situação. Hila (Flonja
Kodheli) escapa de um casamento arranjado e foge com o namorado para a Itália. Hana
(Alba Rohrwacher) decide ficar e resolve adotar o sexo masculino, obedecendo à
Lei do Kanun e jurando eterna virgindade. Ela passa a se chamar Mark Doda e,
apenas com seu rifle, vai morar durante 10 anos em plena solidão nas montanhas.
Quando decide visitar a irmã na Itália, Hana/Mark começa a mudar os seus
conceitos. O filme é bastante interessante na medida em que revela algumas das
principais tradições vigentes naquela região inóspita da Albânia. É um filme de
poucos diálogos. A interpretação da atriz italiana Alba Rohrwacher é
impressionante. Ela fala muito pouco o filme inteiro, utilizando-se apenas de
sua expressão facial e corporal. O filme é muito bom e merece ser visto por quem curte cinema de qualidade.
Quem
tem claustrofobia (fobia a lugares fechados) e sofre de nictofobia (medo do
escuro), jamais assista ao drama mexicano “7:19”, 2016, direção de Jorge
Michel Grau. O pano de fundo é o terremoto que arrasou a Cidade do México no
dia 19 de setembro de 1985, causando milhares de mortos e destruindo dezenas de
edifícios e casas. O título refere-se ao exato momento em que o terremoto começou. O filme quase inteiro é ambientado nos destroços de um
grande edifício, onde cinco pessoas tentam sobreviver em meio aos escombros enquanto o socorro não
chega. Um deles é o dr. Fernando Pellicer (Demian Bichir, do polêmico “Os Oito
Odiados”, de Quentin Tarantino), executivo cujo sogro foi o construtor do
prédio. Outro é Martin Soriano (Hector Bonilla), porteiro do edifício prestes a
se aposentar. O ritmo lento e arrastado, sem qualquer ação, pode causar sonolência.
Ou seja, só vai chegar ao final quem tiver uma dose monumental de paciência ou conseguir ficar acordado.
Menos mal que tudo seja inspirado em fatos reais, mas trata-se, sem dúvida, de
um filme sem muitos atrativos, ou seja, pouco recomendável.
“10.000 Km”, Espanha, 2014, direção de Carlos Marques-Marcet.
Alexandra (Natalia Tena) e Sergi (David Verdaguer) vivem em Barcelona e formam
um casal ainda em fase de lua-de-mel, com muita paixão e sexo. Posso estar enganado, mas a cena de sexo inicial foi mesmo para valer, mesmo não sendo explícito. Ao mesmo tempo, Alex e Sergi querem ter um filho. Um dia ela, fotógrafa e designer gráfica, recebe uma
proposta de trabalho irrecusável para ficar um ano em Los Angeles. Eles
conversam bastante antes de tomar a decisão e, enfim, Alexandra vai para os
EUA. Todos os dias eles conversam pela webcam, trocam juras de amor eterno e contam
os dias que faltam para terminar o trabalho dela. Mesmo à distância, o relacionamento
se desgasta e entra em crise, mais pelo ciúme e as desconfianças de Sergi. E o
filme vai por aí afora com muito papo furado interminável pela internet. O
filme todo é um tédio insuportável, cansativo e enfadonho, a começar pelo fato de
vermos apenas dois personagens em cena falando um com o outro durante os mais
de 100 minutos de duração. Os diálogos são de uma profundidade milimétrica. O
roteiro foi escrito pelo diretor Carlos Marques em conjunto com Clara Roquet e
dele também participaram os dois atores. O diretor faz parte de um grupo de
cineastas espanhóis intitulado “La Panda”, cujo objetivo é realizar filmes
criativos e de baixo orçamento. No caso de “10.000 Km”, eu acrescentaria mais
um objetivo: fazer dormir.
“ALIADOS” (“Allied”), 2016, EUA, roteiro de Steven Knight e direção do
veterano Robert Zemeckis (“O Voo”, “Náufrago”). Ambientado no início dos anos
40 em plena Segunda Guerra Mundial, conta a história do oficial canadense Max
Vatan (Brad Pitt) e da militante da resistência francesa Marianne Beausejour (Marion
Cotillard), recrutados como espiões e com a missão de assassinar um embaixador
alemão em Casablanca, no Marrocos. Eles fingem ser casados, mas, claro, acabam
se apaixonando. Após a missão cumprida, eles se casam de verdade e vão morar na
Inglaterra. Felizes para sempre? Ledo engano! O serviço secreto inglês começa a
desconfiar que Marianne é, na verdade, uma espiã a serviço dos nazistas. Aí o
caldo engrossa e Max é obrigado a vigiar a patroa e, se for o caso,
assassiná-la. Há algumas referências claras ao clássico “Casablanca”: a pianista
que toca “A Marselhesa” num bar repleto de alemães, a cena final em meio aos
aviões e, principalmente, os figurinos usados pelos principais protagonistas. O
filme, aliás, disputou o Oscar 2017 na categoria “Melhor Figurino”, sua única
indicação. A atriz francesa Marion Cotillard, que já havia conquistado um Oscar
de “Melhor Atriz” por “Piaf – Um Hino ao Amor”, dá conta do recado, mas Brad
Pitt atua no piloto automático, comprovando mais uma vez não ser um grande
ator. Segundo os fofoqueiros de plantão, Marion e Pitt tiveram um caso durante
as filmagens, o que resultou na separação entre o ator e Angelina Jolie. Não
acredito, pois a atriz francesa estava grávida e, além disso, é casada. Será
que foi uma jogada de marketing para promover o filme? De qualquer forma,
trata-se de uma história bastante interessante e cheia de suspense.
“MANCHESTER À BEIRA-MAR” (“MANCHESTER
BY THE SEA”) teve seis indicações ao
Oscar 2017, inclusive de Melhor Filme (perdeu para “Moonlight”), mas conseguiu
que Casey Affleck (irmão mais moço do Ben) ganhasse o prêmio de Melhor Ator.
Trata-se de um filme altamente depressivo, repleto de tragédias, e quem sofre
mais é justamente Lee Chandler, o personagem interpretado por Affleck. Para explicar
porque ele se transformou num homem triste e melancólico, o roteirista e diretor Kenneth
Lonergan (“Conte Comigo”) recorreu a inúmeros flashbacks que se alternam com a ação do presente até o desfecho. O
filme começa e mostra Lee Chandler morando em Boston, onde trabalha como
zelador de dois edifícios. Vive isolado e deprimido. Para piorar, recebe a
notícia de que seu irmão Joe Chandler (Kyle Chandler) acabara de morrer,
deixando órfão seu filho adolescente Patrick (Lucas Hedges). A situação provoca
o retorno de Lee à sua cidade natal Manchester, onde terá de se confrontar com
a ex-esposa Randi (Michelle Williams) e remoer uma tragédia do passado. Mas é o
relacionamento difícil e conflituoso com o sobrinho Patrick que garante ao
filme as melhores cenas e os diálogos mais afiados. Um bom filme que merece ser
visto, sem dúvida valorizado pelo ótimo desempenho de Casey Affleck.
Quem
conhece um pouco de História deve se lembrar do atentado contra Adolf Hitler ocorrido numa
cervejaria de Munique no dia 8 de novembro de 1939, que matou 8 pessoas, menos
o alvo principal. O líder nazista escapou ileso, pois saiu 13 minutos antes da
bomba explodir. O autor do atentado, o carpinteiro Georg Elser, foi preso logo
depois. Hitler exigia que ele denunciasse os seus supostos parceiros, embora Elser tenha
agido sozinho. Dá-lhe tortura, uma especialidade dos nazistas. Este é o enredo do excelente drama histórico
alemão “13 MINUTOS” (“Elser”), 2014, dirigido por Oliver Hirschbiegel e
com roteiro de Fred e Léonie-Clair, pai e filha. O filme tem como foco central
o período em que Elser (Christian Friedel) passou na prisão, seus interrogatórios
e as sádicas torturas que sofreu. Aliás, as cenas de tortura são bastante
chocantes, podem incomodar os espectadores mais sensíveis. O filme também
destaca, em flashbacks, sua ligação
com a Frente Vermelha de Lutadores, organização associada ao Partido Comunista
Alemão, e os motivos que o levaram a praticar o atentado, além de sua paixão
por Elsa (Katharina Schüttler), esposa de um simpatizante nazista. O diretor
Hirschbiegel carrega no currículo o excelente “A Queda – As Últimas Horas de
Hitler”, indicado ao Oscar 2005 de Melhor Filme Estrangeiro. O diretor alemão também
trabalhou em Hollywood, dirigindo filmes como “Invasores”, “Rastros de Justiça”
e “Diana”. “13 Minutos” é mais um filme alemão de muita qualidade. Obrigatório!
O drama
francês “SKY”, 2015, roteiro e direção de Fabienne Berthaud, é todo
ambientado nos Estados Unidos e conta a história de Romy (Diane Kruger) e
Richard (Gilles Lellouche), que resolvem sair em férias para tentar salvar um
casamento em crise. De Paris, eles vão para os EUA dispostos a percorrer as
paisagens desérticas da Route 66. A escolha não poderia ter sido pior. Em
poucos dias eles se separam depois de uma violenta discussão e ela segue
estrada, chegando a Las Vegas. Sem
dinheiro, ela acaba se vestindo de coelhinha e, ao lado de dois sósias de Elvis
Presley, ganha uma graninha tirando fotos com turistas nas calçadas de Vegas. Na
cidade dos cassinos, ela conhece Diego (Norman Reedus), cujo aspecto repugnante
é incrementado por acessos de tosse. Como se não bastasse, Romy ainda vai a uma
benzedeira índia. Enfim, quem viu alguns filmes de Diane Kruger, como “Adeus,
Minha Rainha” ou “Tudo por Ela”, vai estranhá-la num papel tão constrangedor e num
filme tão fraco, que, aliás, não foi exibido comercialmente por aqui. E duvido que seja, para o bem da reputação de Kruger e para alívio do pessoal que curte cinema de qualidade.
“UM INÍCIO PROMISSOR” (“Um Début
Prometteur”), 2014, França, roteiro e
direção de Emma Luchini. A história, baseada no romance “Au Diable Vauvert”, de
Isabelle Blondie, é centrada em dois irmãos com uma grande diferença de idade.
Martin (Manu Payet) já é quase quarentão, alcoólatra e drogado, não trabalha e
vive passando por clínicas de recuperação. O mais novo, Gabriel (Zacharie
Chasseriaud), de 16 anos, vive no mundo da lua e acaba se apaixonando por uma
mulher com o dobro de sua idade, Mathilde Carmain (Veerle Baetens). Os irmãos
são filhos de um horticultor, o esquisito Francis Vauvel (Fabrice Luchini, pai
da diretora). Parece uma comédia romântica. Como não provoca risos nem
sorrisos, não emplaca como comédia. Como romance, também passa longe. Ou seja,
não há muitos atrativos que possam motivar uma recomendação entusiasmada, a não
ser a presença da atriz belga Veerle Baetens, que arrasou no ótimo “Alabama
Monroe”, filme de 2012, e que aqui está mais sensual do que nunca. O grande ator Fabrice Luchini aparece pouco, provavelmente para
dar uma força para a filha diretora. Em resumo, filme dos mais descartáveis. Ao contrário do que diz o título, nem o início é promissor.
Já vi
muitos filmes bons com elencos formados por ilustres desconhecidos, assim como
assisti a muitos filmes ruins com astros consagrados. Neste segundo caso incluo
“BELEZA OCULTA” (“Collateral Beauty”), EUA, 2016. Olha só o elenco: Will Smith, Kate Winslet,
Helen Mirren, Keira Knightley, Edward Norton, Michael Peña e Naomi Harris. Elenco de primeira para um filme de segunda. A
história: o empresário Howard (Smith) é um dos sócios de uma famosa agência de
propaganda. É considerado um gênio criativo e dos negócios. Depois da morte de sua filha de 6 anos
de idade, ele entra em crise existencial, se transforma num morto-vivo, começa a brincar com peças de dominó e a escrever cartas para a Morte, o Tempo e a Vida. É mole? Tem mais. Seus sócios
na agência resolvem contratar atores para representar os destinatários das
cartas e tentar conversar com Howard. Quer mais? Uma mãe que também perdeu a
filha ouve um conselho de uma misteriosa mulher: “Você precisa ver a beleza oculta”. Vá
dizer isso a alguém que acaba de perder um ente querido. Os responsáveis por
esse besteirol: o roteirista Allan Loeb (“Coincidências do Amor”) e o diretor
David Frankel (“Marley & Eu”). Eles tentaram fazer um filme para o público
chorar, exagerando no tom emotivo e no sentimentalismo barato, utilizando diálogos
artificiais e de uma profundidade milimétrica. Com toda razão, o filme foi
massacrado pela crítica especializada. Não perca seu tempo!
Baseado
em fatos reais, relatados no livro “The Septembers of Shiraz”, da escritora
iraniana Dalia Sofer, e transformado em roteiro por Hanna Weg, o drama “SETEMBRO
EM SHIRAZ” (“Setptembers of Shiraz”), EUA, 2015, conta a história de uma
família judia que sofreu nas mãos dos radicais fieis ao regime do aiatolá
Khomeini logo após a deposição do Xá Reza Pahlevi, em 1979. Isaac (Adrien Brody)
é um joalheiro de sucesso em Teerã, mas depois da revolução é acusado de ser
espião de Israel. Ele é preso e torturado, enquanto sua esposa Garnez (Salma
Hayek) faz de tudo para libertá-lo. A situação de Isaac se complica ainda mais quando
descobrem uma carta onde o deposto Xá Pahlevi agradece e elogia um de seus
trabalhos. Dirigido pelo diretor australiano Wayne Blair (“Música da Alma”), o
filme consegue manter o clima de tensão do começo ao fim. O filme é quase todo
falado em inglês, com Adrien Broden e Salma Hayek tentando caprichar no sotaque.
Vale ser visto por contar uma história que realmente aconteceu. A ideologia implementada naquela época no Irã tem muito a ver com os princípios do atual e sanguinário
Estado Islâmico.
“LATIN LOVER”, 2014, Itália, roteiro e direção de Cristina
Comencini. No 10º aniversário da morte do famoso galã Saverio Crispo (Francesco
Scianna), sua cidade natal resolve resgatar sua memória com um dia de
homenagens. Além de grande ator, requisitado inclusive por Hollywood, Saverio
era um mulherengo crônico - impossível não lembrar de Marcelo Mastroianni. As duas viúvas oficiais, mais suas cinco filhas são convidadas para participar desse dia especial. Elas se reencontram um
dia antes, oportunidade em que relembram a convivência que tiveram com Saverio,
trocam confidências e revelam alguns segredos de alcova. Além disso, há o
marido espanhol de uma delas, que assedia a cunhada mais jovem e bonita. No
fundo, Cristina Comencini (“O Mais Belo Dia da Minha Vida”) presta uma
homenagem ao cinema italiano, resgatando o gênero que consagrou, entre outros, os diretores Dino
Risi e Mario Monicelli, dois mestres da comédia. No desfecho, a projeção de um
documentário com Saverio lembra a cena final de uma obra-prima do cinema
italiano: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatori. O principal trunfo de
Comencini foi contar com um excelente elenco feminino: Virna Lisi, Marisa Paredes,
Valeria Bruni Tedeschi, Angela Finocchiaro, Candela Peña, Nadeah Miranda. Este,
aliás, foi o último filme da diva Virna Lisi, a atriz mais bonita do cinema
italiano nos anos 60/70, que morreu logo depois do final das filmagens. O filme
é dedicado a ela. Também atuam com destaque os atores espanhóis Lluís Homar e
Jordi Mollià. Enfim, um programa delicioso.