A Segunda
Grande Guerra já rendeu centenas, talvez milhares, de histórias que se
transformaram em livros ou filmes. Quando a gente pensa que tudo já foi contado
vem mais uma, e assim tem sido há muitos anos. Duas das mais recentes histórias
foram contadas no filme “Até o Último Homem”, dirigido por Mel Gibson, e no
dinamarquês “TERRA DE MINAS”, ambos concorrentes ao Oscar 2017, o
segundo pelo prêmio de Melhor Filme Estrangeiro (vencido pelo iraniano “O
Apartamento”, de Asghar Farhadi). “Terra de Minas” conta uma história incrível,
principalmente por ser baseada em fatos reais. Quando a guerra caminhava para o
seu final, os alemães acreditavam que as forças aliadas invadiriam a Europa pelo
litoral da Dinamarca, há anos ocupada pelos nazistas. Acreditando nessa
possibilidade, os estrategistas alemães deram ordem de instalar mais de um milhão de minas nas praias dinamarquesas. Quem conhece um pouco de História sabe que a
invasão ocorreu na Normandia (França). Quando terminou a guerra, o exército
dinamarquês resolveu utilizar os dois mil soldados alemães feitos prisioneiros
para escavar e desarmar todas essas minas. O filme, escrito e dirigido por Martin
Zandvliet, centraliza toda a ação num grupo de 14 soldados alemães colocados sob
o comando do rigoroso sargento dinamarquês Carl Leopold Rasmussen (o estupendo
Roland Moller). Além de não terem a mínima experiência no desarmamento de
minas, os alemães eram todos muito jovens, alguns deles recém-saídos da
adolescência. O filme reserva momentos de alta tensão, principalmente durante o
trabalho dos garotos, durante o qual uma tremida de mão significava uma
explosão. Mas tem seus momentos comoventes, que servem para amenizar o contexto
dramático e trágico da história. Impossível não se emocionar com a situação dos
garotos alemães, principalmente quando um deles chora e chama pela mãe. Um filmaço,
simplesmente imperdível!
O drama
“MEDITERRANEA”, 2015, Itália, explora um tema dos mais atuais: a fuga de
imigrantes africanos para a Europa. É o primeiro filme de longa-metragem
escrito e dirigido pelo norte-americano radicado na Itália Jonas Carpignano.
Para realizar “Mediterranea”, Jonas entrevistou inúmeros imigrantes que
conseguiram chegar ao litoral italiano, inclusive o ator principal do filme,
Koudous Seihon. Jonas centra a história em dois imigrantes: Ayiva (Sehon) e
Abas (Alassane Sy). A dupla, juntamente com um grupo de imigrantes, sai de
Burkina Faso para tentar melhorar de vida na Itália. A viagem é uma verdadeira
aventura – e muito perigosa. Eles atravessam a Argélia e a Líbia, passam fome,
enfrentam o calor do deserto e ainda são assaltados. Além disso, enfrentam uma
arriscada travessia pelo Mar Mediterrâneo num barco em péssimo estado. No meio
do caminho, são resgatados pela guarda costeira italiana e conseguem chegar e
se estabelecer na cidade de Rosarno, na região da Calábria. O primeiro inimigo
que encontrarão é o rigoroso inverno, além da rejeição violenta dos moradores
locais. Ayiva e Abas acabam trabalhando numa plantação de laranjas, onde o
regime é de semiescravidão. Tudo muito longe do paraíso que esperavam
encontrar. Jonas conduz o filme de forma bastante realista, como se fosse um
documentário, sensação reforçada pelo elenco formado quase que integralmente
por verdadeiros imigrantes africanos e alguns italianos locais. Um filme
bastante esclarecedor, de grande impacto, que merece ser visto por quem aprecia
cinema de qualidade.
“AMOR À PRIMEIRA BRIGA” (“Les
Combattants”), 2014, França, primeiro
filme escrito e dirigido por Thomas Cailley. Aclamado pela crítica
especializada e detentor de três prêmios César (o Oscar francês), o filme conta
a história da relação inicialmente conturbada entre dois jovens, o marceneiro
Arnaud Labrède (Kévin Azaïs) e a bonita, durona e temperamental Madeleine
Beaulieu (Adèle Haenel). Ele é de família pobre e trabalha prestando serviço de
marceneiro e pedreiro juntamente com o irmão. Ela estuda Macroeconomia e
pertence a uma família de classe média alta. Desiludida com a crise financeira
enfrentada pela França e com o desemprego em alta, Madeleine decide cumprir um
estágio no exército. Arnaud segue o mesmo caminho e ambos são submetidos a um
rigoroso treinamento. Os dois acabam abandonando o estágio e partem para a
floresta tentando sobreviver com os ensinamentos do exército. Apesar de ter
apenas 28 anos de idade, a atriz Adèle Haenel já pode ser considerada veterana
no cinema francês, tendo iniciado sua carreira em 2002 em “Les Diables”.
Atualmente, está em cartaz por aqui com “A Garota Desconhecida”. “Amor à
Primeira Briga” ganhou os prêmios César de Melhor Atriz (Haenel), Melhor Ator
Revelação (Azaïs) e Melhor Primeiro Filme. Confesso que o filme não me encantou
o suficiente para recomendá-lo. Em todo caso, veja e tire suas próprias
conclusões.
“FRANK E LOLA – AMOR OBSESSIVO” (“FRANK
& LOLA”), EUA, 2016, roteiro e
direção de Matthew Ross. Mistura de drama e suspense, filmado ao estilo noir, com fotografia em tons escuros e muitas
cenas noturnas. Frank (Michael Shannon) é um chef que começa a fazer sucesso em Las Vegas. Quando conhece a
jovem, bela e misteriosa Lola (a atriz inglesa Imogen Poots), ele se apaixona e começa uma
relação bastante complicada, repleta de desconfiança, principalmente por causa
do seu ciúme doentio. De qualquer forma, ele está certo quando desconfia de certas
atitudes de Lola, cujo passado é cercado de segredos. Um deles é o seu
relacionamento com Alan (Michael Nyqvist), a quem acusa de tê-la estuprado quando
ela era bastante jovem. Contratado por um ricaço francês para elaborar um
jantar especial, Frank viaja para Paris, onde Alan mora, e resolve tirar tudo a
limpo. O elenco conta ainda com Justin Long, Rosanna Arquette e Emmanuelle
Devos. O filme teve sua primeira exibição em janeiro de 2016 durante o Festival
de Sundance e dividiu opiniões. Alguns críticos elogiaram, outros não. Eu achei
um tanto monótono, lento demais e depressivo. De qualquer forma, é estrelado pelo
excelente Michael Shannon, um dos atores mais requisitados atualmente tanto por Hollywood como pelas produtoras independentes.
“ANIMAIS NOTURNOS” (“Nocturnal
Animals”), EUA, 2016, é o segundo filme escrito e
dirigido por Tom Ford. O primeiro foi o ótimo “Direito de Amar”, de 2009, com
Colin Firth e Julianne Moore. Ford é mais conhecido como estilista de moda, bastante conceituado no mundo fashion. Como cineasta, também é muito competente,
destacando-se por uma estética cinematográfica inovadora. Em “Animais Noturnos”,
por exemplo, ele introduz um filme dentro de outro. Explico: Susan Morrow (Amy
Adams), proprietária de uma badalada galeria de arte, recebe os originais de um
romance escrito por seu ex-marido Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Como
Susan vive uma fase solitária com o novo e ausente marido (o bonitão Armie Hammer), ela dedica suas noites à leitura do livro, cujo título é justamente “Animais
Noturnos”. Trata-se de um thriller
envolvendo uma família em viagem de férias e que numa estrada é abordada e
atacada por um grupo de marginais. Aí começa o outro filme, mostrando toda a
situação da família nas mãos dos marginais e as investigações a cargo de um
misterioso detetive (Michael Shannon). Enquanto lê o romance do ex-marido, Susan
faz uma profunda reflexão sobre sua vida e seu casamento fracassado com o
escritor. Ainda estão no elenco Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Ellie Bamber
e Laura Linney, esta última hilariante como a mãe esnobe de Susan. O filme
recebeu muitos elogios da crítica especializada. Realmente, é muito bom, mas merece
um aviso: não é para qualquer público.
“O ESGRIMISTA” (“VEHKLEJA”), 2015, Finlândia/Estônia, roteiro de Anna Heinämaa e
direção de Klaus Härö. Baseado em fatos reais. Durante a Segunda Guerra Mundial,
muitos russos foram recrutados à força pelas tropas alemãs invasoras e
obrigados a lutar pelo exército nazista. Terminada a guerra, muitos deles foram
presos como colaboracionistas e inimigos da Rússia, sendo condenados e enviados
para enxugar gelo na Sibéria. O esgrimista Endel Nelis (1925-1993) foi um dos russos
cooptados pelos alemães, mas conseguiu escapar da prisão ao mudar de
identidade. No início dos anos 50, como Endel Keller, ele conseguiu um emprego
de professor de esportes num colégio da pequena cidade de Haapsalu, na Estônia.
Mesmo com a discordância da direção da escola e a muito custo, Endel conseguiu
incluir a prática da esgrima como uma das modalidades a ser ensinada aos
garotos. O diretor da escola achava que a esgrima não era um esporte para o
proletariado e sim para a elite burguesa. Com muito treinamento, Endel
conseguiu levar a escola para disputar um torneio juvenil em Leningrado, mesmo
arriscando-se a ser reconhecido e preso pelo serviço secreto de Stalin. Dirigido
com rara sensibilidade pelo diretor finlandês, o filme concorreu na categoria
Melhor Filme Estrangeiro ao Globo de Ouro 2016. Sua única exibição no Brasil
aconteceu na Seção “Foco Nórdico” da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo/2016. É um filme que emociona. Uma história comovente que precisa ser
conhecida.
Lançado
no Festival Internacional de Berlim, em fevereiro de 2016, o terror psicológico
“CREEPY” (“Kurîpî Itsuwari no Rinjin”)
colocou mais uma vez em evidência o diretor japonês Kiyoshi
Kurosawa (não tem parentesco com o famoso diretor Akira Kurosawa, já
falecido). Kiyoshi é considerado um mestre do terror (“Pulse”, “A Cura”). Em “Creepy”,
ele se inspira na história do livro “Kurîpî”, best-seller do escritor Yukata
Maekawa. O roteiro, também de Kurosawa, é de início um pouco confuso, mas depois
torna-se bem inteligível – e assustador. Koichi Takakura (Hidetoshi Nishijima)
é um ex-detetive que leciona Psicologia Criminal numa universidade. Certo dia, Nogami
(Masahiro Higashide), um antigo companheiro da polícia, pede a Takakura que o
ajude a desvendar um mistério relacionado com o desaparecimento de três pessoas
de uma família há seis anos. Para iniciar a investigação, os dois localizam a
jovem Saki (Haruna Kawaguchi), na época adolescente e única sobrevivente. Ao
mesmo tempo, a esposa de Takakura, sentindo-se solitária no novo bairro, passa
a interagir com a vizinhança e logo faz amizade com o misterioso Nishino
(Teruyuki Kagawa), um homem sem passado e com um comportamento bastante
estranho. Takakura e seu colega policial passam a desconfiar que Nishino pode ter
ligação com o caso da família desaparecida. A tensão aumenta a cada cena, ainda
mais com o auxílio de uma trilha sonora pulsante que lembra os filmes de Alfred
Hitchcock, do qual o diretor japonês é um confesso admirador. Podemos chamar a
primeira fase do filme como teórica: investigação, muito papo e interrogatórios.
Na fase prática, o filme deixa o suspense de lado e passa ao terror explícito,
quando o assassino e seus métodos são revelados. “Creepy” (pode ser traduzido como horripilante, assustador) é um filme bastante interessante que
merece ser visto como uma nova vertente criativa do gênero terror psicológico.
“ELIS”, 2015, roteiro e direção de Hugo Prata (seu longa de
estreia), é uma cinebiografia da cantora Elis Regina. No filme, a trajetória
de Elis começa a ser contada quando ela chega ao Rio, aos 18 anos, em 1964,
como uma ilustre desconhecida para logo depois se transformar numa conhecida
ilustre. Estão lá retratados seu encontro com Ronaldo Bôscoli e Miéle no Beco
das Garrafas, seus shows arrasadores e o início de sua amizade com o
cantor/dançarino Lennie Dale. Elis chega a São Paulo para cantar “Arrastão”, de
Edu Lobo, no I Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965,
e mais uma vez levanta a plateia, conquistando o 1º lugar. Vem o convite da TV
Record para comandar, junto com Jair Rodrigues, o programa “O Fino da Bossa”. E
por aí vai a carreira daquela que é considerada até hoje a maior cantora que o
Brasil já teve - no que concordo plenamente. O filme dá maior ênfase à vida particular conturbada de Elis,
seu casamento com Bôscoli e depois com César Camargo Mariano, seu caso com
Nelson Motta, a perseguição que sofreu dos militares, a desavença com o
cartunista Henfil, seus shows nem sempre aclamados e, por fim, a fase depressiva
que a levaria à morte em 1982, aos 36 anos de idade. A atriz mineira Andréia
Horta representa Elis de forma magistral, incluindo caras e bocas, imitando com
perfeição os gestos que Elis fazia quando falava e cantava. Em algumas cenas, a
semelhança é incrível e emocionante. Entre os fatos importantes da carreira de Elis, porém, senti
falta de uma menção ao disco “Elis & Tom”, que gravou junto com o maestro
carioca, talvez seu trabalho musical mais importante. Não há também qualquer
referência à amizade com Milton Nascimento. Mesmo essas falhas de roteiro não
chegam a prejudicar o resultado final. O elenco é ótimo: Caco Ciocler (César Camargo Mariano), Gustavo Machado (Ronaldo Bôscoli), Lúcio Mauro Filho (Miéle), Júlio Andrade (Lennie Dale), Rodrigo Pandolfo (Nelson Motta) e César Trancoso (Marcos Lázaro). Para quem passou dos 60, viveu aquela época e acompanhou a trajetória de Elis, o filme é pura emoção. Simplesmente imperdível!
“UMA VIAGEM INFERNAL” (“HEATSTROKE”), “2013, EUA, roteiro e direção de Evelyn Purcell. A
história: Paul (Stephen Dorff), um biólogo, zoólogo e professor
norte-americano, planeja uma viagem à África do Sul para estudar o
comportamento das hienas. Ele pretende levar apenas sua namorada Tally
(Svetlana Metkina), mas acaba sendo obrigado a carregar na bagagem a “mala” Josie
(Maisie Williams, de “Game of Thrones”), sua filha adolescente. Eles chegam a
um acampamento instalado no deserto e, sem querer, descobrem a existência de um
grupo de mercenários envolvido com o tráfico de armas. Paul é assassinado pelos
bandidos, que agora vão atrás de Tally e de Josie. Até o desfecho, esta
perseguição preencherá toda a ação. O filme é muito fraco, o suspense é mínimo e a atuação do elenco é, no mínimo, constrangedora. O roteiro tem tantos furos que mais parece um queijo suíço. O
ator Stephen Dorff, que já fez bons filmes como, por exemplo, “Um Lugar
Qualquer” (2010), dirigido por Sofia Coppola, há tempos atua no elenco Série B
de Hollywood e não duvido que já esteja na Série C depois de “Uma Viagem
Infernal”. Posso estar enganado, mas o filme foi feito para alavancar a
carreira cinematográfica da atriz russa Svetlana Metkina. Se esta era realmente
a intenção, tudo foi por água abaixo, pois ela nunca mais fez nenhum filme. O papel de vilão sobrou para o ator Peter Stormare. Enfim,
mais uma bobagem descartável.
O
veterano diretor norte-americano Martin Scorsese (de “Os Bons Companheiros”, “O
Lobo de Wall Street” e tantos outros filmes importantes) alimentou durante mais
de 20 anos o desejo de realizar “SILÊNCIO” (“Silence”), um drama épico
ambientado no Século 17, cuja história é inspirada no romance escrito pelo
japonês Shusaku Endo em 1966. O filme, que tem quase três horas de duração,
começa quando a Companhia de Jesus, em Portugal, recebe a notícia de que o
padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), que estava no Japão em missão
catequista, havia renunciado publicamente à Fé Cristã. Para confirmar a
notícia, dois jesuítas são enviados ao país do sol nascente: Sebastião
Rodrigues (Andrew Garfield, de “Até o Último Homem”) e Francisco Garupe (Adam
Driver). Eles chegam clandestinamente, já que o Regime Tokugawa, que dominava o
Japão, havia proibido a prática de qualquer outra religião no país – só era
permitido o Budismo. A perseguição aos cristãos era violenta: tortura e morte
por decapitação ou crucificação. Até chegar a Ferreira, os dois padres
enfrentarão inúmeros perigos e correrão risco de vida. Estranho que o filme não
tenha conseguido uma divulgação mais efetiva, ainda mais em se tratando do
consagrado diretor, além da presença de astros como Liam Neeson e Andrew
Garfield. Aliás, embora os cartazes do filme tenham destacado Liam Neeson como
astro principal, na verdade é Andrew Garfield quem leva o filme nas costas.
Neeson aparece pouco, apenas no início e no final. Mesmo com Scorsese na
direção, o filme não teve indicações importantes ao Oscar 2017. Apenas uma: a de
Melhor Fotografia.
Ambientado
entre os anos 50 e 60, quando a questão racial estava em plena efervescência nos
EUA, “LOVING” conta a história verdadeira do casal Richard e Mildred
Loving (interpretados por Joel Edgerton e Ruth Negga), ele branco e ela negra. Como
residem no Estado da Virginia, onde o casamento inter-racial é proibido, eles
se casam secretamente em Washington, mas quando voltam são imediatamente presos.
Decisão do juiz: se permanecerem na Virginia cumprirão pena; para escapar da cadeia, terão que viver em
outro estado por nada menos do que 25 anos. É claro que eles optam pela segunda
opção. Anos depois, porém, já com três filhos, eles resolvem voltar e arriscar
a sorte. O embate jurídico tem seu desenrolar quando um advogado de uma
associação ligada aos direitos civis decide levar o caso à Suprema Corte. Escrito
e dirigido por Jeff Nichols (“Amor Bandido” e “O Abrigo”), o filme disputou a
Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 e teve Ruth Negga indicada para Melhor
Atriz no Oscar 2017 – a atuação de Edgerton também é magistral. Ao contrário de
filmes como “Selma – Uma Luta pela Igualdade” e “Malcom X”, por exemplo, “Loving”
é bastante contido ao explorar o tema do racismo, focando a questão apenas no
relacionamento entre o casal e nas suas dificuldades em concretizar um amor proibido. Cinema da melhor qualidade.
Todo
mundo deve ter ouvido falar de Madre Teresa de Calcutá – hoje Santa –, mas
poucos conhecem os principais detalhes da trajetória dessa religiosa albanesa que
dedicou toda a sua vida a ajudar os pobres. “AS CARTAS DE MADRE TERESA” (“The
Letters”), EUA, 2014, roteiro e direção de William Riead, conta essa
história, desde seu período de enclausuramento no Convento Irmãs de Loreto, a
fundação da Congregação Missionárias da Caridade até o Prêmio Nobel da Paz, em
1979. O roteiro é inspirado nas inúmeras cartas que Teresa (interpretada de
forma magistral pela atriz inglesa Juliet Stevenson) escreveu, durante 50 anos,
ao seu amigo e conselheiro espiritual, padre Celeste van Exem (Max Von Sydow). Além
dos trechos mais importantes dessas cartas, num das quais revela que muitas
vezes sentia uma escuridão dentro de si, ou seja, a ausência de Deus, o filme
explora o trabalho de Teresa junto à população carente das favelas de Calcutá,
graças ao qual se tornou famosa no mundo inteiro. Além de prestar atendimento
médico aos doentes, muitos largados para morrer no meio da rua, Teresa percorria as favelas da cidade ensinando as crianças
a ler e escrever. O filme também mostra alguns detalhes de bastidores do processo
que resultou em sua beatificação pela Igreja Católica em 2003 e sua canonização
em 2016. Além de Juliet e Von Sydow, o elenco conta ainda com a participação
especial de Rutger Hauer como o padre Benjamin Praagh. Enfim, uma história
maravilhosa que precisa ser conhecida. Imperdível!
Mais
uma ótima comédia francesa com o ator Cristian Clavier. “O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO?” (“Une heure de
Tranquillité”), 2014, roteiro e direção do veterano Patrice Leconte (“O
Marido da Cabeleireira”). A história é baseada na peça teatral homônima de
grande sucesso na França, escrita por Florian Zeller. Como diz o título
original, uma hora de tranquilidade é o que deseja o cirurgião-dentista Michel
Leproux (Clavier) para ouvir um LP raro de jazz que acabara de comprar
num sebo de discos de vinil. Quando chega em casa, porém, uma série de
acontecimentos acaba estragando seu dia. A revelação bombástica da esposa, Nathalie
(Carole Bouquet), a festa barulhenta dos vizinhos, o filho que aparece trazendo
um grupo de imigrantes filipinos e a inesperada visita de Elsa (Valérie
Bonneton), amante de Michel. Além disso, Michel tem que suportar as trapalhadas de
dois pedreiros encarregados da reforma de um dos quartos do apartamento. Uma
confusão dos diabos. Diversão garantida! Cristian Clavier é um ótimo
comediante. Entre seus filmes mais engraçados, recomendo também “Que Mal Eu fiz
a Deus?”, de 2014, “Asterix e Obelix – Missão Cleópatra”, de 2002, e “Os
Visitantes”, de 1998. Em tempos tenebrosos como os que estamos vivendo, nada melhor do que uma boa comédia.
“MA MA”, 2014, Espanha, roteiro e direção de Julio Medem,
com Penélope Cruz, Luis Tosar, Alex Brendemühl, Asier Etxeandia e Teo Planell. Filme foi lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto/2015. Um drama e tanto. A
história é centrada em Magda (Cruz), recentemente abandonada pelo marido,
desempregada e mãe de um menino de 10 anos. Como desgraça não vem sozinha,
ainda descobre que está com câncer e será obrigada a fazer uma mastectomia. Em
meio a este cenário trágico, ela conhece Arturo (Tosar), que acaba de perder a
mulher e a filha num acidente de trânsito. Os dois começam um romance e ela engravida.
Quando tudo levava a crer que Magda começaria uma vida nova, eis que surge mais
uma péssima notícia. O drama de Magda não tem fim, mas, para atenuar a situação, ela conta com o apoio de Arturo e também de Julián (Asier Etxeandia), seu
médico e grande amigo. Penélope Cruz, aos 42 anos, está cada vez mais bonita e
competente, apesar de representar uma personagem tão sofrida. Uma curiosidade:
antes de ingressar no cinema, o diretor Julio Medem era médico. Ele tem em seu
currículo filmes como “Os Amantes do Círculo Polar”, o erótico “Um Quarto em
Roma” e “Lúcia e o Sexo” (que revelou a atriz Paz Vega). Embora tenha exagerado
na dose dramática, Medem não conseguiu fazer de “Ma Ma” um filme daqueles de
arrancar lágrimas, o que talvez tenha sido sua intenção. Enfim, dá para ver numa boa!
“O MAR DAS ÁRVORES” (“The Sea of
Trees”), 2015, EUA, direção de Gus Van Sant. O
jornalista norte-para o
Japão com o objetivo de cometer suicídio. Como cenário do ato final, escolhe a
floresta Aokigahara, aos pés do Monte Fuji, também conhecida como “Purgatório” (ele achou o lugar no Google ao digitar "O melhor lugar para morrer"). Quando está prestes a ingerir os comprimidos fatais, ele se depara com um japonês
que está lá com a intenção de também tirar a própria vida. Conversa vai
conversa vem, o japonês se apresenta como Tajumi Nakamura (Ken Watanabe), um
executivo que acaba de ser demitido de sua empresa e, como tal, se sente
envergonhado perante a família, o que justifica um “haraquiri”. No caso de Brennam,
o filme relembra, em flashbakcs, o seu
casamento em crise com Joan (Naomi Watts) e depois uma tragédia que o levará à
floresta do Japão. Numa inexplicável mudança de planos, os dois tentarão sobreviver
na floresta e encontrar uma saída que os leve de volta à vida e à civilização.
O filme tem um pano de fundo espiritual envolvendo a Natureza, o que o torna
ainda mais chato e enfadonho, principalmente por causa da profundidade milimétrica dos diálogos. Culpa do criador da história, o roteirista Chris
Sparling (”Enterrado Vivo”), e do próprio diretor Gus Van Sant, cujo currículo
é bastante irregular, apesar de ter dirigido o sucesso “Gênio Indomável” e o aclamado
“Milk: A Voz da Igualdade”. Apesar disso, não descarte “O Mar de Árvores”,
principalmente se você sofrer de insônia. É um ótimo sonífero. Inacreditável que três astros tão
competentes tenham participado de tamanha bomba. Não foi à toa que o filme, ao
final de sua exibição na mostra competitiva do 68º Festival de Cannes, em 2015, foi vaiado intensamente pelo público, críticos e jornalistas. Minha reação foi a mesma: Uuuuuuuuuuu!
“COLLIDE” (ainda não chegou por aqui, mas a tradução é
“colidir”, “chocar”), Inglaterra, 2016, roteiro e direção de Eran Creevy
(“Inimigos de Sangue”). O elenco é dos melhores: o ator e modelo inglês
Nicholas Hoult, Felicity Jones, Anthony Hopkins e Ben Kingsley. Trata-se de um
filme de ação com todos os clichês do gênero: pancadaria, tiros, perseguições,
suspense e, claro, muita ação. Depois de enfrentar problemas com a polícia nos
EUA, o jovem norte-americano Casey Stein (Hoult) resolve passar uns tempos na
Alemanha, onde toda a história é ambientada. Por falta de opção, ele passa a
trabalhar para o traficante de origem turca Geran (Kingsley), que por sua vez é
sócio na organização criminosa comandada pelo poderoso Hagen (Anthony Hopkins).
A coisa complica quando Geran propõe a Hagen que aumente sua participação na
sociedade. Hagen rejeita a proposta e Geran resolve se vingar, recrutando Stein
para roubar um caminhão cheio de cocaína. Em meio ao planejamento do roubo,
Stein conhece Juliette (Felicity Jones, loira), por quem acaba se apaixonando. Ela
quer que Stein desista da missão. Só que Juliette descobre que está muito
doente e precisa de um transplante – e muito dinheiro para realizá-lo. A
situação coloca Stein de volta à missão quase suicida de roubar o caminhão de
Hagen. Daí para frente é ação o tempo inteiro. Stein vai sofrer o que sofreu
Bruce Willis nos filmes “Duro de Matar”. A trama é bem elaborada e as perseguições pelas ruas de cidades e
estradas do interior da Alemanha são muito bem feitas. Quem gosta de filmes de ação vai adorar.
“JACKIE”, 2016, EUA, direção do chileno Pablo Larrain e
roteiro do jornalista Noah Oppenheim (da série “Divergente”). Não se trata de
uma cinebiografia de Jacqueline Kennedy, a viúva do presidente John F. Kennedy.
O filme enfoca apenas os sete dias posteriores ao assassinato do presidente e
as situações de bastidores que envolveram a primeira-dama viúva, incluindo os
momentos do crime, a organização do velório e enterro, como deu a notícia aos
filhos, as conversas particulares com Bobby Kennedy (Peter Sarsgaard), a mudança repentina da Casa Branca, as conversas com um padre (John Hurt) e a
polêmica entrevista que concedeu ao jornalista Theodore H. White (Billy Crudup),
da Revista Life, uma semana depois do assassinato. Todos esses eventos acabam
por revelar a personalidade de Jackie, interpretada de forma magistral por
Natalie Portman. Trata-se do primeiro filme em Hollywood de Larrain, que ficou
conhecido depois de ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013 com o
excelente “No” e depois de dirigir o perturbador “O Clube” (2015) e o polêmico “Neruda”
(2016). Larrain não é um diretor convencional. Seus movimentos de câmera, seus
enquadramentos, o estilo de contar uma história e a fotografia lembram Terrence
Malick, embora não seja tão hermético – e chato. “Jackie” concorre a três
categorias no Oscar 2017: Atriz, Figurino e Trilha Sonora.
No dia
20 de abril de 2010, a plataforma de perfuração marítima Deepwater Horizon, no
Golfo do México, arrendada à British Petroleum, sofreu uma grande explosão,
causando a morte de 11 trabalhadores, ferimentos em inúmeros outros e, pior, derramou
no mar o equivalente a 4 milhões de barris de petróleo, ocasionando um dos
maiores desastres ecológicos de todos os tempos. O que aconteceu naquele dia é
contado no drama “HORIZONTE PROFUNDO: DESASTRE NO GOLFO” (“Deepwater Horizon”),
2016, com Mark Wahlberg, Kurt Russel, John Malkovich, Kate Hudson e Gina
Rodriguez. O diretor é Peter Berg, do ótimo “O Grande Herói” (2013), também com
Wahlberg no papel principal. Antes da explosão e do incêndio que se seguiu
ainda por dias, o filme faz uma reconstituição dos fatos que culminaram no
trágico acidente. Há muitos diálogos com a utilização de termos técnicos incompreensíveis para quem não conhece o funcionamento de uma plataforma
perfuradora de petróleo. Jimmy Harrell (Russel) é o chefe da operação e Mike
Williams (Wahlberg) seu assistente e braço direito. Sobrou o papel de vilão para John
Malkovich, que faz o executivo Donald Vidrine, representante da British Petroleum. Apesar dos clichês típicos dos disasters movies, o filme é muito bem feito, segura um clima de grande tensão até o desfecho,
culminando com cenas bastante realistas e fortes da explosão, além de acompanhar
os momentos de desespero dos trabalhadores tentando se salvar. Momentos de muito suspense e altas doses de adrenalina.
“ATÉ O ÚLTIMO HOMEM” (“Hacksaw
Ridge”), 2016, Austrália/EUA, roteiro da dupla Andrew
Knight e Robert Schenkkan e a direção de Mel Gibson, é um épico de guerra que
resgata um dos mais extraordinários episódios de heroísmo ocorrido durante a II
Grande Guerra (1939/1945). A história é centrada em Desmond Doss (Andrew
Garfield), um jovem norte-americano que se alistou voluntariamente, mas que,
por questões religiosas (ele era adventista do Sétimo Dia), se recusou a pegar em armas. Sua intenção era ajudar
as equipes médicas do exército a salvar vidas. A primeira metade do filme é dedicada ao
treinamento de Doss e seus esforços para convencer os comandantes a deixá-lo ir
para o campo de batalha sem empunhar uma arma, baseado no conceito constitucional
norte-americano do “Opositor Consciente”. Chegou a ser preso e julgado por uma
Corte Marcial, mas ganhou o direito de continuar servindo. Seu batalhão foi enviado
para Okinawa para combater os japoneses. Resumindo: Doss virou herói ao salvar,
sozinho, nada menos do que 75 soldados feridos em combate. Uma façanha que o
tornou o primeiro “Opositor Consciente” a ser condecorado com a Medalha de
Honra do Congresso. Indicado ao Oscar 2017 em seis categorias, incluindo Direção,
Melhor Ator e Melhor Filme, “Até o Último Homem” realmente é um filme
espetacular. As cenas de batalha são sensacionais, talvez as melhores que já vi
no cinema, e a história de heroísmo é incrível, mostrando a coragem de um homem
cuja força era mais baseada na fé do que na força física (Mel
Gibson é um católico fervoroso). O elenco conta ainda com Teresa Palmer, Vince
Vaughn, Hugo Weaving, Sam Worthington e Rachel Griffiths. Não deixe de ver os
créditos finais, quando o verdadeiro Desmond Doss e outros personagens aparecem
dando depoimentos sobre o que aconteceu. Cinema da melhor qualidade. Imperdível!
“JACK REACHER: SEM RETORNO” (“Jack
Reacher: Never Go Back”), EUA, 2016, roteiro e
direção de Edward Zwick (“O Último Samurai” e “Diamante de Sangue”), traz de
volta o astro Tom Cruise no segundo filme protagonizado pelo personagem dos
livros do escritor britânico Lee Child – o primeiro filme, “Jack Reacher: O Último
Tiro”, foi produzido em 2012. Embora não tenha o tamanho “armário” dos brucutus
Jason Statham ou Steven Seagal, Cruise não nega fogo em filmes de ação e
pancadaria, como já demonstrou nos filmes da série “Missão Impossível” e agora
com Jack Reacher. Aos 54 anos, Cruise ainda está em grande forma física e enfrenta
sem problemas as mais arriscadas e movimentadas cenas de ação. Neste segundo
filme em que interpreta Jack Reacher, ele sai em defesa da major Susan Turner (a
bela e competente atriz canadense Cobie Smulders), acusada e presa por um crime
que não cometeu. Reacher vai tentar resgatar Turner da prisão e provar sua
inocência. Os vilões tentarão impedir a ação de Reacher, o que inclui sequestrar
sua filha. É ação do começo ao fim, para alegria dos fãs do gênero. O mocinho
(Cruise) apanha bastante, mas não o suficiente para desfigurar o seu rosto recheado
de botox. Enfim, como o primeiro filme da série, um ótimo programa para uma
sessão da tarde com pipoca.
Com 8
indicações ao Oscar 2017, entre as quais Melhor Filme, Diretor e Atriz
Coadjuvante (Naomie Harris), além de ter vencido o Globo de Ouro como Melhor
Filme de Drama, “MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR” (Moonlight”) é um filme
de grande impacto. A história é baseada na peça “In Moonlight Black Boys look
Blue”, do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, adaptada pelo roteirista e diretor
Barryt Jenkins. O filme acompanha a trajetória de Chiro (interpretado por Alex
Hibbert na infância, Ashton Sanders na adolescência e por Trevante Rhodes na
fase adulta), um menino criado na perigosa periferia de Miami, convivendo com
traficantes e viciados. Sua mãe Paula (Naomie Harris) se prostitui para comprar
drogas. Por seu jeito tímido, Chiro é chamado de bicha pelos colegas no
colégio. Seu único amigo e protetor é Juan (Mahershala Ali), justamente o
traficante que fornece drogas para sua mãe. Ao chegar à adolescência, Chiro
passa a enfrentar os desafios de raça e sexualidade. Quando chega à fase
adulta, torna-se um importante traficante chamado Black. A trajetória de Chiro
e sua jornada de autoconhecimento são os fios condutores da história. O elenco,
só de negros – nem os figurantes são brancos -, é excelente, especialmente
Naomie Harris como a mãe drogada. Aposto nela como ganhadora de Melhor Atriz
Coadjuvante na premiação do Oscar. O filme é muito bom e não será nenhuma
surpresa se vencer outros prêmios da Academia.
“ÚLTIMO TÁXI PARA DARWIN” (“Last
Cab to Darwin”), Austrália, 2015, direção
de Jeremy Sims. Trata-se de um drama baseado na peça de teatro homônima escrita em 2003
por Reg Cribb. O próprio Cribb, juntamente com Sims, escreveu o roteiro. A
história é centrada em Rex (Michael Caton), de 70 anos, motorista de táxi em
Broken Hill (Nova Gales do Sul), bem no interior do continente australiano. Há
muitos anos que sua rotina inclui, além de dirigir o táxi, passar algumas
noites entre os lençóis com sua vizinha aborígene Polly (a ótima Ningali
Lawford) e se embebedar e jogar conversa fora com os amigos num bar da cidade. Diagnosticado
com um câncer de estômago em estágio terminal, Rex resolve viajar até a cidade
de Darwin, onde a dra. Nicole Farmer (Jacki Weaver) está recrutando voluntários
para um projeto pioneiro e ainda não aprovado de Eutanásia. A distância até
Darwin é enorme: 3.000 km. Mesmo bastante enfraquecido por causa da doença, Rex
resolve encarar o desafio e pega a estrada com seu táxi. Aí o filme entra na
fase road-movie pelas estradas poeirentas do extenso deserto australiano. Durante o trajeto,
Rex faz amizade com Tilly (Mark Coles Smith), um jovem aborígene irresponsável,
e com a doce Julie (Emma Hamilton), uma enfermeira que o acompanhará até o
destino final. Embora baseado numa peça de teatro, o filme é bastante
movimentado e tem seus momentos sensíveis, embora no geral seja um tanto triste
e melancólico. O filme não chegou ao nosso circuito comercial. Somente foi
exibido na Mostra de Filmes da Austrália/2016, em São Paulo.