“QUE VIVA EISENSTEIN!” (“Eisenstein in Guanajuato”), 2014, México, direção de Peter Greenaway. Os
filmes do veterano cineasta britânico não são para iniciantes. Sabe disso quem
já assistiu a alguns deles, como “O Livro de Cabeceira”, “Afogando em Números”
e, principalmente, “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”. Baseado num
fato real, ou seja, a viagem do diretor russo Sergei Eisenstein ao México, em
1931, para filmar “Que Viva México!”, Greenaway inventou uma série de
acontecimentos que provavelmente foram frutos de sua fértil imaginação. E
transformou tudo num filme em que fica difícil distinguir a ficção da
realidade. Uma biografia surreal. Greenaway apresenta um Eisenstein (o ator
finlandês Elmer Bäck) excêntrico, egocêntrico, verborrágico e inconveniente, o que talvez
não tenha sido o diretor de filmes conceituados como “Encouraçado Potemkin”, “Greve”
e “Outubro”. Greenaway utiliza um recurso visual bastante interessante para
ilustrar as conversas de Eisenstein com seu guia mexicano, Palomino Cañedo
(Luis Alberti). Cada vez que o diretor russo cita o nome de uma personalidade,
seja um artista de cinema, escritor, filósofo ou político, imediatamente
aparece na tela a foto de quem é citado. Num desses diálogos, Eisenstein cita
os artistas que teve a oportunidade de conhecer em sua viagem a Hollywood, o
que entendi ser uma homenagem de Greenaway ao cinema do Tio Sam. Achei que o
diretor britânico explorou em demasia a homossexualidade do diretor russo,
inclusive por intermédio de longas cenas de sexo entre ele e o seu guia mexicano.
O filme estreou no 65º Festival de Berlim, em fevereiro de 2015, sem muitos
elogios. Enfim, mais um filme de Greenaway difícil de digerir, mas interessante
de assistir.
Produzido
em 2008 inicialmente para ser exibido na TV francesa, o drama “A
BELA JUNIE” (“La Belle Personne”) ganhou espaço no circuito comercial de
cinemas e fez sucesso junto ao público jovem e também adulto. Trata-se de uma
adaptação do romance “La Princesse de Clèves”, escrito no século 17 por Madame
de La Fayette. O roteiro e a direção ficaram a cargo de Christophe Honoré. A
jovem Junie (Lea Seydoux), de 16 anos, vai morar em Paris na casa dos tios
depois da morte de seus pais. Em seu novo colégio, Junie começa a atrair a
atenção de outros jovens, encantados por sua beleza. Jacques Nemours (Louis
Garrel), professor de italiano, acaba se apaixonando por Junie, mas ela está
namorando Otto (Grégore Leprince-Ringuet), um rapaz tímido e quieto. Em meio a
esse triângulo amoroso, o filme transcorre abordando a insegurança dos jovens a
respeito de suas emoções, paixões, desilusões e ciúmes. O filme não é apenas
interessante pela história em si, mas também pela oportunidade de ver alguns atores
franceses que hoje são sucesso em início de carreira, como Lea Seydoux (morena
e um pouco mais gordinha, mas já uma ótima atriz), Louis Garrel e Anaïs Demoustier. Assim como é interessante a pequena e quase anônima participação da atriz Chiara Mastroianni. Gostei e recomendo.
“PAIXÕES UNIDAS” (“United Passions – La Légende du
Football”), 2014, direção de Frédéric
Auburtin, é um filme dos mais interessantes para quem curte futebol. Em suas
quase duas horas de duração, conta a história dos 111 anos da FIFA (Federação
Internacional de Futebol), desde sua fundação em Paris, em 1904, até a Copa do
Mundo na África do Sul, em 2010. O filme dá destaque especial a três dos
principais personagens que construíram essa história, Jules Rimet (Gérard
Depardieu), João Havelange (Sam Neill) e Joseph Blatter (Tim Roth). A produção
francesa destaca também os bastidores e os intensos preparativos para a
realização da primeira Copa do Mundo de Futebol, no Uruguai, em 1930, e a final
de 1950, no Maracanã, quando o Uruguai calou 200 mil torcedores com sua vitória
sobre a seleção brasileira. Também são destacados os bastidores das negociações
da FIFA com fabricantes de materiais esportivos, a eleição de João Havelange e
depois de Blatter e as crises financeiras da entidade. Pena que essa história
tão bonita tenha sido manchada pela acusação de corrupção que atingiu seus
principais dirigentes em 2015, o que prejudicou, e muito, o lançamento dessa
caprichada produção francesa. De qualquer forma, trata-se de um filme que
merece ser visto.
Grande
vencedor da “Palma de Ouro” do Festival de Cannes 2015, “DHEEPAN,
O REFÚGIO“ (“DHEEPAN”) é mais um ótimo filme
do diretor francês Jacques Audiard (de “O Profeta” e “Ferrugem e Osso”), também
autor do roteiro. Audiard aborda o drama dos refugiados, tema tão em evidência
nos últimos tempos. A história é focada em três personagens que fogem do Sri
Lanka: Dheepan (Antonythasan Jesuthasan), um ex-soldado envolvido na guerra
civil, Yalini (Kalieaswari Srinivasan), que perdeu toda a família, e a menina órfã
Illayaal (Claudine Vinasithmby). Eles se conhecem num campo de refugiados e,
fingindo ser uma família, conseguem chegar à França. Só que, ao invés de
encontrar um mar de rosas, encontram um oceano de espinhos. Os três vão morar
num conjunto habitacional barra-pesada na periferia de Paris. Em meio à briga
de gangues e tiroteios quase que diários, Dheepan arruma emprego como zelador
de um prédio e Yalini vai trabalhar como cuidadora de um idoso. Mesmo que o contexto
seja bastante dramático, Audiard adiciona pitadas de humor e momentos de
sensibilidade, tornando esse filme muito agradável de assistir. Destaque para o excelente trabalho do ator que interpreta Dheepan. O filme é quase todo falado em tâmil, um dos idiomas oficiais do Sri Lanka. Quem aprecia
filmes de qualidade não pode perder.
Numa
das cenas iniciais do filme, Isabel (Ana de Armas) está esperando o trem no
metrô quando um homem de repente levita sobre os trilhos. Quando sai à rua, ela
começa a ver fantasmas. Pensei na hora: lá vem bomba! Não deu outra. “FILHA
DE DEUS” (“Exposed”), EUA, 2015, direção de Declan Dale, é um “abacaxi”
dos mais azedos. Nem o astro Keanu
Reeves consegue salvar. Reeves interpreta o detetive Scott Galban, encarregado
de investigar o misterioso assassinato do seu parceiro numa estação do metrô. Durante
as investigações, o policial descobrirá que seu falecido parceiro não era “flor
que se cheire”. Era corrupto e mau-caráter. O detetive Scott vai atrás dos principais
suspeitos, mas o verdadeiro assassino só é apresentado no final, numa revelação
bombástica. O filme é muito fraco, com problemas sérios de roteiro, principalmente
com relação às aparições vistas por Isabel, que não têm nada a ver com a
história. Apesar de bonita, ainda falta muito para a cubana Ana de Armas ser
considerada uma boa atriz. Reeves atua no piloto automático, devagar quase
parando. O último filme bom em que atuou foi “De Volta ao Jogo”, de 2014. A
única que se salva é Mira Sorvino como Janine, viúva do policial morto.
Rodado
em 2012 e lançado no Festival de Berlim/2015, “CAVALEIRO
DE COPAS” (“Knight of Cups”), é mais um filme enigmático, indecifrável e,
acima de tudo, insuportável, escrito e dirigido pelo cineasta/filósofo norte-americano
Terrence Malick. Sofrimento puro aguentar os seus 118 minutos de duração. Malick
repete a mesma estrutura narrativa dos
abomináveis “Árvore da Vida” e “Amor Pleno”, ou seja, um narrador com voz sussurrante
(Ben Kingsley), frases desconexas, reflexões filosóficas e poucos diálogos
entre os personagens. Tudo isso ilustrado por imagens do céu cheio de nuvens,
cidades iluminadas, praias e florestas. Um caos visual, mesmo que algumas
imagens sejam belíssimas. Entre as reflexões filosóficas, que não têm nada a
ver com o filme, estão pérolas como “O único jeito de sair é entrando”, ou “Eu
estou na escuridão, mas acredito na luz”, ou “A realidade não é a realidade”, ou
“Não perca tudo só porque perdeu uma parte”. O personagem principal é Rick
(Christian Bale), um escritor/roteirista de Hollywood que atravessa uma crise
existencial. Estão ainda no elenco Natalie Portman, Cate Blanchett, Imogen
Poots, Freida Pinto, Teresa Palmer, Isabel Lucas, Brian Dennehy e Antonio Bandeiras.
Um ótimo elenco para tanta bobagem. O tal "Cavaleiro de Copas" refere-se a uma carta do Tarô. Se você ainda não assistiu a nenhum filme
de Malick, assista a este por curiosidade e veja se eu não tenho razão.
“HECTOR E A PROCURA DA FELICIDADE” (“Hector and the search for happiness”), 2014,
Canadá/Alemanha, direção de Peter Chelsom. Comédia romântica com pitadas de
aventura. O psiquiatra Hector (Simon Pegg), de tanto as lamúrias dos seus
pacientes, também entra em crise existencial, no que acaba estremecendo sua
relação com a namorada Clara (Rosamund Pike). Para tentar resolver seus
problemas e também os de seus pacientes, Hector resolve sair pelo mundo para
tentar descobrir como ser feliz, ou como encontrar a felicidade. Seu périplo
inclui a China, com uma visita ao Nepal, e o interior da África. Neste último,
aliás, ele passará por grandes perigos, como ser sequestrado e preso por
rebeldes. A história é baseada no romance “Le Voyage D’Hector ou la Recherche
de Bonheur”, de François Lelord. Até que o filme é agradável, leve e com uma
mensagem bastante otimista sobre a felicidade. Além do simpático ator inglês
Simon Pegg e da competente e charmosa Rosamund Pike, o elenco conta ainda com participações
especiais de Christopher Plummer, Toni Collette, Jean Reno e do ator sueco Stellan
Skarsgard. Um bom programa para uma sessão com pipoca.
Em
1987, John Boorman dirigiu “Esperança e Glória” (“Hope and Glory”), um belo
filme (indicado ao Oscar em cinco categorias) que retrata o cotidiano de uma
família inglesa durante a Segunda Grande Guerra sob a ótica do garoto Bill. Em 2014,
o veterano cineasta inglês (“Amargo Pesadelo” e “Excalibur”) resolveu filmar
uma sequência, que chegou até a nós com o nome de “RAINHA
E PAÍS” (“Queen and Country”), trazendo
de volta o personagem principal Bill (Callun Turner). A história deste segundo
filme é ambientada em 1952 e Bill, aos 18 anos, está alistado no exército
inglês em treinamento para a Guerra da Coreia. Desta vez, Boorman acrescentou
um tom de sátira e comédia ao filme, principalmente nas cenas filmadas no
quartel. Os amigos Bill e Percy (Caleb Landry Jones) aprontam o tempo inteiro
e os oficiais são tratados de maneira caricatural. Em suas folgas, Bill conhece a bela e enigmática Ophelia (Tamsin Egerton), por quem se apaixona e que mais tarde descobrirá que é uma outra pessoa. O filme
não é ruim, tem alguns bons momentos e pode ser visto como um agradável entretenimento, mas não oferece muitos motivos para uma recomendação entusiasmada. O título estranho, tanto o original quanto a tradução, está associado à coroação da Rainha Elizabeth II naquele ano, numa cerimônia que mobilizou toda a população da Inglaterra.
“COPENHAGEN”,
2014, Canadá/Dinamarca/EUA, é um filme independente dirigido pelo jovem
cineasta canadense Mark Raso. Trata-se de sua estreia em longas. Antes, era
conhecido como competente diretor de curtas, um deles, “Under”, premiadíssimo
em vários festivais. A “Copenhagen” do título é mesmo a capital da Dinamarca, cenário
em que se desenrolará quase toda a história (o visual é de primeira).
Copenhagen é a última etapa da viagem do jovem canadense William (o ator inglês
Gethin Anthony) depois de passear, em companhia de um casal de amigos, por vários
países da Europa. Seu objetivo é visitar o avô e conhecer a história de sua
família – seu pai nasceu em Copenhagen. Depois de uma discussão com os amigos,
William fica sozinho na capital dinamarquesa. Não por muito tempo, porém, pois
logo conhece uma bela adolescente, Effy (Frederikke Dahl Hansen), que se
oferece para servir de cicerone. É claro que vai pintar um clima entre os dois,
apesar da grande diferença de idade. O filme até que é interessante, mas não
entusiasma muito. Os diálogos são afetados, pretensiosos, e em alguns momentos
chegam a cansar. Outro aspecto negativo é o próprio William, personagem dos
mais desagradáveis, prepotente, se acha o centro do Universo, além de ser dado
a grosserias. De bom mesmo, os cenários
de Copenhagen e a jovem e bela dinamarquesa. Pouco para garantir um bom
programa. Prefira o chocolate. Com K, claro.
“ENSINA-ME O AMOR” (“How to make love like an Englishman” nos EUA e Canadá; “Some Kind of
Beautiful”, na Inglaterra), 2014, EUA/Inglaterra, direção de Tom Vaughan. Apesar
do título novelesco e um tanto cafona dado aqui no Brasil, esta comédia romântica
é muito agradável e divertida, com Pierce Brosnan e Salma Hayek em momentos
inspiradíssimos – os dois já fizeram par romântico em “Ladrão de Diamantes”
(2004). Richard Haig (Brosnan) é professor da literatura inglesa na famosa
universidade de Cambridge e mulherengo crônico. Ele se envolve com a jovem estudante norte-americana Kate (Jessica Alba), uma de suas alunas. Logo aparece no cenário a irmã de Kate,
Olivia (Hayek), recém-saída de um divórcio tumultuado. Como era de se esperar, Richard
vai arrastar suas asas também para Olivia. A situação se complica ainda mais quando
Kate fica grávida do professor. A relação entre os três acaba gerando situações
de grande efeito cômico. A cena em que Olivia imita o orgasmo dos homens é
hilariante, comprovando a aptidão da atriz mexicana para a comédia. Brosnan
também está ótimo como o professor conquistador, charmoso e cínico. No papel de
Gordon, pai de Richard, o ator Malcolm McDowell também arrasa na comédia.
Enfim, um ótimo programa para uma sessão da tarde com pipoca. Diversão
garantida!
“TRUMBO – LISTA NEGRA” (“Trumbo”), 2015, EUA, aborda
um período da vida de Dalton Trumbo, um dos mais competentes roteiristas que já
passaram por Hollywood. Em 1947, acusado de pertencer ao Partido Comunista,
Trumbo foi chamado a depor no Comitê de Atividades Antiamericanas e se recusou
a colaborar, o que resultou em sua prisão por quase um ano. Muitos artistas,
diretores e executivos dos grandes estúdios também foram convocados a depor,
sendo que alguns, para manter o trabalho, acabaram entregando os próprios
companheiros. Mesmo depois de libertado, Trumbo continuou proibido de trabalhar e aparecer nos créditos.
Para sobreviver, escrevia roteiros utilizando nomes de outros roteiristas e
pseudônimos. Foi assim que ganhou dois Oscars de Melhor Roteiro: “A Princesa e
o Plebeu” (1953), roteiro assinado por seu amigo Ian McLellan Hunter, e “Arenas
Sangrentas” (1956), sob o pseudônimo de Robert Rich. Somente em 1959, depois de
ter escrito o roteiro de “Êxodus”, é que Trumbo voltou a aparecer nos créditos. Em
1971, escreveu e dirigiu (primeira experiência como diretor) “Johnny vai à
Guerra”, um dos filmes que mais me tocaram. “Trumbo” é um filmaço, desde a
direção competente de Jay Roach, a recriação de época, o roteiro primoroso e o ótimo elenco, com destaque para Bryan Cranston, que interpreta Trumbo, indicado ao Oscar de Melhor Ator - perdeu, injustamente, para DiCaprio, o atual queridinho da Academia. Também atuam no filme Diane Lane, Helen Mirren, John Goodman e Elle Fanning. Obrigatório para quem gosta de cinema. Imperdível para todo mundo!
Ambientado
num cenário de escombros numa Berlim destruída do pós-guerra, o drama alemão “PHOENIX”, 2014, conta a história de Nelly Lenz (Nina
Hoss), uma ex-cantora judia sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz,
de onde foi resgatada com o rosto totalmente desfigurado. Para reconstruí-lo, ela é levada para uma operação
cirúrgica na Suíça. Sua amiga Lena Winter (Nina Kunzendorf), que trabalha numa
agência recrutadora de judeus, pretende levá-la depois para a Palestina. Nelly,
porém, tem outros planos. Quer voltar a Berlim para se defrontar com o
ex-marido, Johnny (Ronald Zehrfeld), que ela acredita tê-la traído entregando-a
para os nazistas. Nelly retorna a Berlim e vai atrás do paradeiro de Johnny.
Acaba encontrando-o numa boate chamada “Phoenix” (o nome também é associado ao
ressurgimento de Nelly, literalmente, das cinzas). Quando Nelly aparece, Johnny
não a reconhece, mas tem a ideia de colocar em prática um plano para conseguir
a herança da ex-mulher, cuja família é bastante abonada. O roteiro foi adaptado
do romance “Le Retour des Cendres” (“O Retorno das Cinzas”), de Hubert Monteilhet,
e a direção coube a Christian Petzold (“Bárbara”). A produção é simples, elenco
mínimo, poucas locações. Ficou com cara de adaptação de uma peça de teatro ou um filme de segunda linha feito para TV. Se
há algo a destacar, sem dúvida é o desempenho de Nina Hoss, talvez a melhor
atriz alemã da atualidade.
Quando
assinou a direção do longa nacional “Dois Coelhos”, em 2012, o brasileiro
(santista, por sinal) Afonso Poyart
atraiu a atenção do pessoal de Hollywood. Daí surgiu o convite para dirigir o
suspense policial “PRESSÁGIOS DE UM CRIME” (“SOLACE”), com astros do porte de Anthony Hopkins,
Colin Farrell, Jeffrey Dean Morgan e Abbie Cornish, entre outros. A história,
escrita por Ted Griffin, é centrada na caça a um serial killer que está matando um monte de gente. Encarregados da
investigação, os agentes do FBI Joe Merriwether (Dean Morgan) e Khaterine
Cowles (Cornish) não conseguem pistas sobre o criminoso. Joe resolve pedir
ajuda ao Dr. John Clancy (Hopkins), que em outras oportunidades ajudou a
polícia a desvendar vários crimes utilizando seus poderes de vidente. Imagens
fantasmagóricas, aparições repentinas, alucinações. Tudo muito fantasioso para
o meu gosto. Não posso deixar de destacar, porém, o clima de tensão que acompanha
o filme do começo ao fim, além das cenas de ação, muito bem feitas, tudo num ritmo bastante acelerado, uma marca do diretor. Uma boa
estreia de Poyart, mais um brasileiro que desponta no cenário do cinema
mundial.
O
drama grego “MISS VIOLENCE”,
2012, é um dos filmes mais perturbadores dos últimos anos. Não recomendo aos espectadores
mais sensíveis. Escrito e dirigido por Alexandros Avranas, o filme acompanha o
cotidiano de uma família constituída de avô e avó, filhas e netos. A história
já começa de maneira trágica: durante a comemoração do seu aniversário de 11
anos, Aggelikie (Chloe Bolota) se mata pulando do apartamento. A partir daí, o
espectador é levado a querer descobrir os motivos que levaram a menina ao
suicídio. A polícia e assistência social também querem saber o que de fato
aconteceu. Aos poucos, o filme vai relevando o que se passa de sórdido naquela
família. Não faltam cenas de tortura psicológica, agressões verbais, tabefes
familiares, incesto, estupro, situações que tornam o filme ainda mais
desagradável e incômodo. A cada cena, o clima claustrofóbico e de tensão vai aumentando de forma constante, o que
revela o bom trabalho do diretor Avranas. Apesar de todo o contexto
desconfortável para o espectador, o filme é muito bom e o elenco melhor ainda,
com destaque para o trabalho do ator Themis Panou, o avô e vilão da história. No
Festival de Veneza 2013, quando foi exibido pela primeira vez, o filme recebeu os
prêmios de Melhor Diretor (Avranas) e Melhor Ator (Panou). Recomendo, mas
apenas para quem tem estômago forte.
O
drama “O BENFEITOR” (“The Benefactor”), EUA, 2015, direção de Andrew Renzi, traz Richard Gere como Franny, um ricaço
presidente de uma fundação que administra um grande hospital. Cinco anos depois
de provocar um acidente de trânsito que ocasionou na morte de um casal de
amigos, Franny, além de um grave ferimento na perna, que o obriga a andar de bengala
e tomar morfina, ainda carrega o trauma pela perda dos amigos. Ele se transformou
num homem irascível, prepotente e manipulador. Pior: viciado em morfina. Ele se
acha responsável pela vida da filha dos falecidos, Olivia (Dakota Fanning), que
está prestes a se casar com Luke (Theo James). Franny tentará comandar a vida
do jovem casal, interferindo nas suas decisões, o que acabará gerando conflitos e
desavenças. O astro Gere está bastante envelhecido e já provou ser um bom ator,
mas fez mais uma escolha infeliz, assim como aconteceu com seus dois filmes
anteriores, os fracos “O Encontro” (“Time Out of Mind”), onde interpreta um
morador de rua, e “O Exótico Hotel Marigold 2”. Em “O Benfeitor”, Gere tenta alcançar o tom dramático
exigido para o papel, mas sua atuação ficou forçada demais. Claro que a legião
de fãs do astro não deve perder o filme, relevando sua qualidade duvidosa.
“ONDULAÇÃO” (“Curling”), 2010, Canadá, é um drama centralizado
no relacionamento de Jean-François (Emmanuel Bilodeau) com a filha de 12 anos,
Julyvonne (Philomène Bilodeau, filha de Emmanuel na vida real). Eles vivem em
Saint-Hilaire, cidade ao sul de Montreal, cujos cenários são de um frio gélido,
em meio a muita neve. Emmanuel é um homem solitário, tímido, superprotetor com
relação à filha, a ponto de não deixá-la ir para a escola. Sozinha, sem amigos,
a adolescente tem como única distração caminhar pelas redondezas de sua casa,
na frente da qual passa uma estrada. Até que um dia ela encontra alguns
cadáveres num bosque. Será com eles que Julyvonne, finalmente, interagirá
socialmente. Coisa de louco. Coisa do diretor canadense Denis Côté (do
esquisito “Vic + Flo Viram um Urso”), que também escreveu o roteiro. Aliás, Côté
destaca no filme várias cenas mostrando partidas de “Curling” (título original
do filme), aquele esporte praticado numa pista de gelo e que consiste no deslizamento
de uma pedra de granito, cujo trajeto é acompanhado por “varredores”, que tentam
impulsionar ou deter a pedra. No geral, o filme é altamente depressivo e, por
isso mesmo, passa longe de um entretenimento agradável.
Se
você tem a intenção de assistir ao drama húngaro “O
CAVALO DE TURIM” (“A Torinói Ló”), 2011, arme-se primeiro de uma enorme – melhor, de
uma descomunal – dose de paciência. Altamente depressivo e monótono, o filme, rodado em
preto e branco, tem como ponto de partida, segundo a sinopse oficial, um fato
que teria acontecido no dia 3 de janeiro de 1889, em Turim (Itália), quando o
filósofo Friedrich Nietzsche evitou que um cavalo continuasse a ser chicoteado
pelo dono. Nada disso aparece no filme. Ainda segundo a sinopse, a ideia do filme é justamente mostrar o que teria acontecido com o animal depois do seu encontro com Nietzsche. Venhamos e convenhamos, tudo muito esquisito. Na verdade, o filme se concentra no
cotidiano de um velho fazendeiro pobre e sua filha. A rotina dos dois ocupa
praticamente as duas horas e meia da produção. A filha levanta, veste um monte
de roupas. Depois, veste o pai com um monte de roupas, vai até o poço buscar
água, leva feno para o cavalo, cozinha duas batatas para o almoço etc. O diretor Béla Tarr repete todas
essas atividades cotidianas em cada um dos seis dias em que o filme é dividido.
Enquanto isso, fora da casa uma tempestade de vento não para nunca. Quase não
há diálogos e as cenas são longas demais, deixando o filme ainda mais modorrento. Pai e filha esbanjam infelicidade e é impossível não se contaminar pelo clima
depressivo. Apesar de tudo isso, foi o vencedor do Urso de Prata – Grande Prêmio
do Festival de Berlim 2011 e ainda foi indicado para representar a Hungria na
disputa do Oscar 2012 de Melhor Filme Estrangeiro. Assista e tire suas próprias conclusões.
Cercado
de enorme polêmica, chega até nós, finalmente, “CHATÔ,
O REI DO BRASIL”, a tão aguardada cinebiografia de Assis
Chateaubriand - fundador dos Diários Associados, Rádio e TV Tupi - baseada no
livro de Fernando Morais. As filmagens começaram em 1995 e só foram concluídas
em 2015. Nesse período, o diretor Guilherme Fontes foi julgado e acusado numa
ação judicial de má utilização de verbas públicas, processo ainda em andamento
na Justiça. As filmagens foram tão complicadas que várias cenas tiveram que ser
refeitas anos depois. No filme, você poderá notar a atriz Leandra Leal novinha,
ainda em início de carreira, e a aparição de atores que já morreram, como José
Lewgoy e Walmor Chagas. Fontes realizou uma adaptação livre da obra de Fernando
Morais. Como um músico de jazz, improvisou, fez quase uma versão onírica, com visual tropicalista. Exagerou na dose. O roteiro é um tanto confuso, com idas e vindas em flashbacks, além de muitas cenas contendo
alucinações do personagem principal, confundindo o espectador com relação à
compreensão do que é real ou imaginário. O elenco é ótimo, assim como a
recriação de época, os cenários, a fotografia. Mas o resultado final não foi
aquele que se esperava depois de tanta polêmica. O livro retrata melhor quem foi realmente Assis Chateaubriand. Ou seja, o livro é bem melhor...
No
começo de 2005, a jovem holandesa Sophie Van Der Stap descobriu que tinha um tumor
na pleura, inoperável e agressivo. A partir daí, ao invés de entrar em
depressão ou se entregar, ela resolveu enfrentar a doença começando por
escrever um diário. Essas memórias, inicialmente divulgadas através de um blog,
se transformaram num livro de grande sucesso e foram adaptadas para o cinema em
2013, resultando no drama “A GAROTA DAS NOVE PERUCAS” (“Hente Bin ich
Blond”), Alemanha/Bélgica, direção de
Marc Rothemund (“Uma Mulher contra Hitler”). A história mostra a trajetória de
Sophie (Lisa Tomaschewsky) desde ochoque da descoberta da doença, o desespero da família
e as diversas fases do tratamento, incluindo as sessões de quimioterapia e
radioterapia. Tudo de forma quase didática. Também como forma de amenizar o seu
sofrimento, Sophie compra nove perucas (daí o título), cada uma diferente da
outra. Ela chega a dar nome às perucas (Daisy, Platina, Stela, Blondie etc.) e
quando as usa assume uma personalidade diferente. E, nesse contexto, impossível
não destacar o excelente desempenho da atriz alemã Lisa Tomaschewsky, num
primor de interpretação. Apesar do pano de fundo trágico, o roteiro abre espaço
para o humor e o romance, além de momentos comoventes. Sem dúvida, um filme
muito interessante que vale ser conferido.
Representante
oficial da Islândia na disputa de “Melhor Filme Estrangeiro” no Oscar 2016, “A
OVELHA NEGRA” (“Hrútar”), direção de
Grímur Hákonarson, reúne momentos de puro drama, outros de humor e ainda outros
bastante comoventes. Ambientada numa região do interior
da Islândia habitada por fazendeiros criadores de ovelhas (na Islândia, existem
800 mil ovelhas, enquanto a população não passa de 320 mil habitantes), a história
é centrada em dois irmãos vizinhos que não se falam há 40 anos, Gummi (Sigurour
Sigurjónsson) e Loddi (Theodór Júlíusson). Depois de perder o concurso anual de
ovelhas justamente para o irmão Loddi, Gummi fica inconformado e vai,
secretamente, avaliar a ovelha vencedora, quando desconfia que o animal está
com “scrapie”, uma doença contagiosa. As autoridades de saúde da região
confirmam a doença e exigem que todos os animais sejam sacrificados. Diante da
trágica situação, Gummi ainda tentará manter o seu rebanho. Apesar do contexto
dramático, há espaço para o humor, principalmente no que se refere às atitudes
dos irmãos rabugentos, que só se comunicam por bilhetes, levados pelo cachorro
de Gummi. A cena final é das mais tocantes e comoventes, de arrancar lágrimas. A
simplicidade da história talvez seja o maior trunfo do filme, vencedor da
Mostra “Um Certo Olhar” do Festival de Cannes e exibido por aqui durante a
programação da 39ª edição do Festival Internacional de Cinema de São Paulo.
O
drama histórico finlandês “LÁGRIMAS DE ABRIL” (“Käsky”), 2008, direção de Aku Louhimies, utiliza
como pano de fundo a guerra civil de 1918 na Finlândia, que matou 37 mil civis
e combatentes. O conflito colocou frente à frente os Vermelhos
(social-democratas apoiados pela Rússia) e os Brancos (de direita, apoiados pelo Império
Alemão). O filme conta a história de um episódio relatado no livro da escritora
Leena Lander. Os Brancos prendem um pelotão constituído por 2.000 mulheres que
lutavam pelos Vermelhos. Todas foram fuziladas e apenas uma sobreviveu, Miina
Malin (a bela Pihla Viitala). Aaro Harjula (Samuel Vauramo), soldado dos
Brancos, se sensibiliza com a situação da prisioneira e resolve assumir a
responsabilidade de levá-la para julgamento na Corte Marcial. A história, a
partir daí, destaca o relacionamento de Miina e Aaro durante a viagem,
culminando com a fase de julgamento, a cargo do juiz Emil Allenberg (Eero Aho,
em brilhante atuação). Exibido em duas ocasiões na Mostra Internacional de
Cinema de São Paulo (2009 e 2015), o filme finlandês é muito bom, alternando ação, suspense e romance, além de uma fotografia esplendorosa. Mais do que isso, relembra um fato histórico pouco conhecido por aqui.
“DIPLOMACIA” (“Diplomatie”), 2015, co-produção França/Alemanha, com direção do alemão Volker
Schlöndorff (“O Tambor”). Quando as forças aliadas estavam às portas de Paris,
em agosto de 1944, Hitler deu ordem ao General Dietrich Von Cholitz de destruir
a cidade, dinamitando o Louvre, as pontes do Rio Sena, a Torre Eiffel, a Igreja
de Notre Dame e outros monumentos históricos. Aí entra em cena Raoul Nordling,
Cônsul Geral da Suécia, para tentar convencer Cholitz a não obedecer à ordem do
líder nazista. Esta é uma história de ficção, criada pelo dramaturgo e roteirista
Cyril Geily para ser encenada como uma peça de teatro, o que de fato ocorreu em
2011, com a mesma dupla de atores do filme, Andre Dussollier (Nordling) e Niels
Arestrup (Von Cholitz). Embora a ação se desenvolva praticamente dentro de uma
sala de hotel (Meurice), com os protagonistas dialogando o tempo inteiro, o
filme em nenhum momento fica monótono ou cansativo. Os argumentos utilizados
pelo cônsul sueco para convencer o oficial alemão representam uma verdadeira
declaração de amor a Paris. Por seu lado, Cholitz defende sua posição de subserviente,
pois um soldado deve sempre obedecer às ordens dos seus superiores. Os diálogos
são muito interessantes, de muita erudição. Mas o destaque mesmo é o desempenho da dupla de atores, Dussollier (dos filmes de Alain Resnais) e Arestrup ("O Profeta"), dois monstros sagrados da arte cênica francesa. O filme ganhou o César (Oscar
francês) de Melhor Roteiro Adaptado. Imperdível!