sexta-feira, 11 de março de 2022

 

“O BOMBARDEIO” (“SKYGGEN I MIT ØJE”), 2021, Dinamarca, disponível na plataforma Netflix, 1h47m, roteiro e direção de Ole Bornedal. O filme conta a história de mais um episódio pouco conhecido por aqui ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. No início de 1945, o governo inglês propôs a criação da “Operação Cartago”, cujo objetivo era bombardear o edifício utilizado como QG pela Gestapo em Copenhague, capital da Dinamarca. O ataque ficou marcado para o dia 21 de março de 1945. Deu tudo errado, culminando com uma grande tragédia. Depois que uma das aeronaves inglesas caiu nas proximidades da escola católica Institut Jeanne D’Arc, no centro da cidade, os pilotos dos demais aviões, vendo toda aquela fumaça, pensaram que o alvo do ataque era exatamente ali. A escola foi totalmente destruída pelo bombardeio inglês, causando a morte de 120 pessoas, entre as quais 86 crianças, além de mais de 100 feridos. Essa triste história nunca havia sido revelada e agora cai como uma bomba, denunciando um dos erros militares mais fatídicos daquele conflito. Os ingleses não devem ter gostado muito dessa revelação. Para aumentar ainda mais o contexto trágico, o filme, até chegar ao bombardeio, reúne vários subtramas na Copenhague ocupada pelos nazistas, como, por exemplo, a amizade ingênua entre três crianças, sessões de tortura nos porões do QG da Gestapo, um menino que perde a fala ao presenciar a morte de pessoas em um carro bombardeado e uma freira que se apaixona por um colaborador nazista. Tudo isso junto e misturado com competência pelo diretor Ole Bornedal, resultou em um filme ao mesmo tempo devastador e comovente, revelando uma história que ficou escondida no tempo. Imperdível!                    

quinta-feira, 10 de março de 2022

 

“NAQUELE FIM DE SEMANA” (“THE WEEKEND AWAY”), 2021, Estados Unidos, 1h29m, produção original Netflix (estreou na plataforma dia 3 de março de 2022), direção de cineasta australiana Kim Ferrant (“Terra Estranha”), mais conhecida como diretora de documentários. Quem assina o roteiro é Sara Alderson, autora do livro homônimo que inspirou o filme. A história é centrada na norte-americana Beth (Leighton Meester, de “Gossip Girl”), que mora na Inglaterra com o marido Rob (Luke Norris) e o filho pequeno. Ela recebe o convite da sua melhor amiga, Kate (Christina Wolfe), para passar um fim de semana na Croácia, talvez a capital Zagreb (a cidade não é nomeada, uma das inúmeras falhas do roteiro – no livro, a história é ambientada em Lisboa). Kate recebe Beth em um apartamento maravilhoso alugado para o fim de semana. No primeiro dia, elas saem para se divertir em uma casa noturna, onde conhecem dois bonitões. Depois da balada, Kate convida todos para o seu apartamento e, a partir daí, a noitada irá se transformar numa verdadeira tragédia. A começar pelo fato de que os dois sujeitos drogam as moças e roubam seus pertences. E, para piorar a situação, Kate desaparece misteriosamente. Beth se desespera com sumiço da amiga, vai à polícia e é a partir daí que a situação se complica ainda mais. Até o desfecho, muitas revelações e reviravoltas surpreendentes acontecerão. Mesmo assim, o filme não empolga, principalmente porque a história é realmente mirabolante, beirando o inverossímil. Além disso, mais uma chatice: a boa e bela atriz Leighton Meester passa o filme inteiro chorando. Irritante. Completam o elenco Ziad Bakri, Amar Bukvic, Luke Norris, Parth Thakerar, Adrian Pezdirc e Iva Mihalic. Resumo da ópera: prefira o livro.                   

terça-feira, 8 de março de 2022

 

“O VIOLINO DO MEU PAI” (“BABAMIN KEMANI”), 2021, Turquia, disponível na plataforma Netflix, 1h52m, direção da cineasta Andaç Haznedaroglu (“Você Já viu Vagalumes”), seguindo roteiro assinado por Murat Taskent e Palaspandiras. Acho que alguma fábrica de lenços de papel está financiando o cinema turco. É só lembrar dos recentes “Milagre na Cela 7” e “Filhos de Istambul”. Agora acaba de chegar na Netflix “O Violino do Meu Pai”, mais um melodrama para provocar lágrimas. A história começa apresentando um grupo mambembe de músicos tocando ao ar livre em uma praça de Istambul. Quem dança e diverte o público, além de arrecadar as esmolas, é uma garota de 8 anos, Özlem (a estreante Gülizar Nisa Uray), filha do violinista do grupo, Ali Riza (Selim Erdogam). O drama começa quando Ali fica gravemente doente e acaba morrendo, deixando Özlem órfã – a mãe já tinha morrido. Encaminhada à assistência social, a menina teria apenas dois destinos: ou seria internada em um orfanato ou então entregue a alguém da família, no caso o seu tio Mehmet Mahir (Engin Altan Düzyatan), irmão de Ali e um famoso violinista internacional. Mehmet é arrogante e egocêntrico e logo de início descarta ficar com a menina. Sua esposa Suna (a bela Belçim Gilgin) tenta convencê-lo a adotar a sobrinha, uma árdua tarefa. Para não deixar escapar o que acontece depois, prefiro parar a história por aqui e deixar as surpresas escondidas. O filme tem alguns trunfos que o tornam muito agradável de assistir. Primeiro, a atriz mirim Gülizar, uma ruivinha esperta e fofa. Segundo, a ótima trilha sonora, com muita música clássica (Bach, Vivaldi, Satie, Bizet), músicas folclóricas turcas e até um tango, o maravilhoso “Por Una Cabeza”, de Gardel. Também devo destacar as belas imagens aéreas e paisagens urbanas de Istambul. A história é também muito comovente, garantindo um entretenimento para toda a família. Se você gosta de se emocionar, não deixe de ver.                   

segunda-feira, 7 de março de 2022

 

“MINHA VIDA PERFEITA” (“MOJE WSPANIALE ZYCIE”), 2021, Polônia, 1h39m, disponível na Netflix desde o dia 28 de fevereiro de 2022, roteiro e direção de Lukasz Grzegorzek. Esta é, sem dúvida, mais uma pérola do cinema polonês, um drama familiar intenso, ao mesmo tempo bem-humorado e comovente. A história é centrada em Joanna (Agata Buzek), uma mulher de meia-idade que vive numa família bem bagunçada. Tem o marido Witek (Jacek Braciak), dois filhos acomodados, sem falar que o mais velho trouxe a mulher e o filhinho para morar na casa, além da mãe com Alzheimer em estágio avançado, acostumada a palpitar coisas sem nexo e fugir de casa de vez em quando. Quando a família se reúne, seja para o café da manhã, almoço e jantar, o clima sempre fica pesado, com muito bate-boca e algumas ofensas pessoais – já deu pra notar que o título é bastante irônico. Neste cenário, Joanna é obrigada em se desdobrar como esposa, mãe, dona de casa e filha carinhosa, fora o trabalho como professora de inglês em uma escola, do qual seu marido é o diretor. Para compensar o estresse, Joanna mantém um amante, que também é professor na escola. Além disso, gosta de fumar um baseado. Tudo vai bem, mesmo aos trancos e barrancos, até que um dia alguém resolve chantagear Joanna enviando mensagens pelo celular, prometendo contar todos os seus segredos. A coisa fica feia e ela terá que ser muito forte para enfrentar tantos desafios. O filme, que já é excelente, fica melhor ainda com o desempenho primoroso de Agata Buzek, uma das atrizes mais importante do cinema polonês atual. Estranhei e até fiquei surpreso quando li comentários de críticos especializados desfavoráveis ao filme. Pelo contrário, eu achei tão bom que posso recomendá-lo como uma pequena obra-prima do cinema europeu. Imperdível!               

quinta-feira, 3 de março de 2022

 

“MEU FILHO” (“MY SON”), 2021, Inglaterra, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h36m, direção do cineasta francês Christian Carion, que também assina o roteiro com a colaboração de Laure Irrman. É um bom suspense que prende a atenção até o desfecho. Trata-se, na verdade, de um remake do filme francês “Mon Garçon”, de 2017, também dirigido por Carion. A história da versão inglesa é ambientada em alguma cidade na região das Terras Altas da Escócia, o que garante cenários deslumbrantes. Começa com um grande mistério, o desaparecimento de um garoto de sete anos que estava em uma colônia de férias. Sua mãe, Joan (Claire Foy), liga para o ex-marido Edmond Murray (James McAvoy) contando a notícia trágica, e pede que venha ajudá-la. Quando Edmond chega, a polícia já está toda mobilizada nas buscas ao menino. O mistério leva a crer que o garoto possa ter sido sequestrado. Várias pessoas entram na lista dos suspeitos e o inspetor Roy, chefe das investigações, não descarta qualquer possibilidade, até mesmo o envolvimento do próprio pai do menino até o seu padrasto Frank (Tom Cullen). Não mais que de repente, o inspetor Roy é afastado do caso e não resta a Edmond agir por conta própria. Não dá para seguir adiante no comentário para não estragar as reviravoltas e surpresas que acontecerão. Além do roteiro bem elaborado, valorizando a tensão e o suspense, o filme tem ainda como trunfos dois excelentes atores, o escocês McAvoy (“Fragmentado”) e a inglesa Claire Foy, que ficou mais conhecida por interpretar a Rainha Elizabeth II na série “The Crown”. Também estão no elenco Jamie Michie, Paul Rattray, Robert Jack, Owen Whitelaw, Michel Moreland, Mark Barrett e Andrew Joan Tait. Como informação adicional, repito o que li no material de divulgação do filme, que destaca o fato do ator James McAvoy ter atuado quase que inteiramente na base do improviso, sem ter lido o roteiro. Sei não! Resumo da ópera: “Meu Filho” é um bom suspense. Nada mais.              

quarta-feira, 2 de março de 2022

 

“O EXORCISMO DE CARMEN FARÍAS” (“EL EXORCISMO DE CARMEN FARÍAS”), 2021, México, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h33m, direção de Rodrigo Fiallega (é o seu segundo longa-metragem), seguindo roteiro escrito por Molo Alcocer Délano. Este é mais um dos inúmeros filmes produzidos nas últimas décadas explorando o terror na base da possessão demoníaca. Nenhum deles, porém, foi mais assustador e aterrorizante como o clássico “O Exorcista”, de 1973, dirigido por William Friedkin. É o caso também desta produção mexicana, que aposta mais no terror psicológico do que no terror explícito. A história é toda centrada na jovem jornalista Carmen Farías (Camila Sodi), que vive uma fase difícil depois de perder o bebê durante a gravidez e logo depois a mãe. Em busca de outros ares, ela convence o marido Julián (Juan Pablo Castañeda) a se mudar para a casa que sua avó deixou como herança, em um vilarejo do interior. Como descobriria logo depois, a casa servia de sede para trabalhos de exorcismo. Carmen resolveu escrever uma reportagem sobre o assunto e convidou o padre exorcista (Juan Carlos Colombo) para uma entrevista na casa. Pois é nessa hora que o demo dá o ar da graça, dando o maior susto no padre. Sozinha na casa, já que o marido viajou a serviço, Carmen descobrirá muitos segredos sobre a avó e sua participação nas sessões de exorcismo – tudo gravado em fitas de vídeo. Se não é tão assustador e nem garante muitos sustos, o filme garante pelo menos uma tensão permanente e um pouco de terror explícito perto do desfecho. Trocando em miúdos, é um filme que não decepciona, mas que também não merece uma indicação entusiasmada.               

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

 

“OS 23: PRISIONEIROS NO IRAQUE” (“23 NAFAR”), 2019, Irã, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h41m, roteiro e direção do cineasta iraniano Mahdi Jafari. Que eu saiba, a história incrível desse filme jamais foi contada no cinema ou tenha sido notícia no mundo ocidental. Já é um aval e tanto para nos motivar a assisti-lo. Estamos em 1982 no meio da guerra entre Iraque e Irã (1980-1988). Dezenas de soldados iranianos são feitos prisioneiros durante a batalha pelo território de Khorramshahr, um dos motivos do conflito. Os prisioneiros foram levados a Bagdá e recolhidos à prisão de Estekhbarat. Os mais jovens, na verdade adolescentes entre 13 e 17 anos, foram separados, formando um grupo de 23. O único adulto a ocupar a cela com os jovens é um prisioneiro antigo que atua como tradutor quando os policiais querem dar ordens aos presos. O filme acompanha a rotina dos jovens, incluindo a obrigação de uma visita a Sadam Hussein, quando foram recebidos com flores e filmados bem vestidos junto ao ditador, o que serviria como sua propaganda de guerra (uma filmagem dessa visita é mostrada como realmente aconteceu). Os jovens ficaram revoltados ao saber das intenções de Sadam e protestam com o início de uma greve de fome, exigindo também que fossem liberados da prisão e enviados para o campo de prisioneiros iranianos, onde permaneceriam até o final da guerra. O desfecho reserva uma cena das mais tocantes, quando os jovens prisioneiros, já adultos, visitam o antigo companheiro de cela, o tradutor agora idoso Saleh Ghari. O filme é muito bom, principalmente por contar uma história incrível que poucos conhecem. Não perca!           

domingo, 27 de fevereiro de 2022

 

“ÁGUAS NEGRAS” (“DEAD IN THE WATER”), 2021, Estados Unidos, 1h32m, disponível na Amazon Prime Video, roteiro e direção da cineasta Nanea Miyata. Trata-se de um suspense bem mixuruca, beirando o patético e com grotescas e gritantes falhas e furos profundos no roteiro. Comparando os prós e os contras, os contras vencem de goleada. Tudo começa quando a jovem Tara (Catherine Lidstone) toma um chute no traseiro do namorado Derek (Sam Krumrine). Ela entra em depressão e procura o ombro da sua melhor amiga Amy (Angela Gulner) para chorar suas mágoas. Aqui já desponta o primeiro aspecto inverossímil, pois Tara é uma garçonete de lanchonete e Amy é uma dondoca muito rica e vulgar. Como forma de ajudar a amiga a esquecer o fora do namorado, Amy convida Tara para passar um final de semana em sua casa de campo, na verdade um casarão. Até esse momento, que acredito ser a metade do filme, nada acontece de verdade, a não ser um blá blá blá entediante entre as duas amigas, em diálogos de uma profundidade milimétrica. Se você chegou até aqui e não dormiu, você terá a oportunidade de ver a chegada de um bonitão misterioso que se apresenta às duas como Lucas (Peter Porte). Até o cego do violino enxerga que o sujeito não é nada confiável. Mas as duas amigas, carentes de homem, se encantam e até o convidam para se aconchegar, uma atitude que se arrependerão amargamente. Nesse meio tempo aparece no pedaço o tal do Derek querendo reconciliação com Tara. Entre as inúmeras falhas do filme, aponto duas que achei ridículas. Na primeira, Tara volta ao píer, a uns 50 metros da casa, para pegar uma lente de sua máquina fotográfica. É dia claro, mas quando ela chega ao píer já é noite. Falha grotesca. Outra: em um passeio pelo lago, Tara encontra um cadáver boiando. Ela sai gritando, mas quando chega em casa não fala nada para Amy nem chama a polícia. Afinal, quem era o morto? O filme não explica. E o blá blá blá continua firme. Os atores são péssimos, não passariam nos testes nem para a global “Malhação”, embora Catherine Lidstone seja uma morena bem bonita. Para coroar essa verdadeira blasfêmia cinematográfica, as legendas não estão em sincronia com o áudio. Enfim, “Águas Negras” é um suspense tão medíocre capaz de fazer o grande Alfred Hitchcock se revirar no túmulo. Fuja a galope desse abacaxi!         

sábado, 26 de fevereiro de 2022

 

“TEMPOS DE ESCURIDÃO” (“DE FORBANDEDE ÅR”), 2020, Dinamarca, disponível na plataforma Amazon Prime Video (dublado), 2h32m, direção de Anders Refn, que também assina o roteiro com a colaboração de Flemming Quist Møller. Não gosto de filmes dublados, sem o som original. Mesmo assim, resolvi assistir por se tratar de mais um episódio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial - fatos históricos sempre foram do meu interesse. A dublagem, porém, é muito boa. Estamos em abril de 1940, quando os alemães iniciam a ocupação da Dinamarca. Assim como aconteceu na Noruega, dias antes, os dinamarqueses não opuseram resistência às tropas nazistas. Pelo contrário, até acharam que poderiam lucrar com a invasão. Este também era o pensamento dos empresários locais, prevendo a oportunidade de exportar seus produtos para o mercado alemão. O filme é centrado na família Skov, da capital Copenhague. Karl Skov (Jedsper Christensen), o patriarca, é um rico industrial que comanda uma fábrica de equipamentos. Além de enfrentar problemas econômicos relacionados à sua indústria, Skov, ao lado da esposa Eva (Bodial Jørgensen), era obrigado a administrar a rebeldia dos quatro filhos, nenhum deles disposto a ajudá-lo na empresa. Um era comunista, o outro nazista, um tocava pistão numa banda de jazz (rítmo considerado demoníaco na época) e finalmente Helene (Sara Viktoria Bjerregaard), que, a contragosto de todos, casou com um capitão da marinha alemã. Enquanto isso, mesmo com os protestos da esposa, Karl Skov negociava com os alemães, única forma que encontrou de salvar sua tradicional empresa. Mesmo que o pano de fundo seja a guerra, o filme não mostra batalhas, explosões, tanques etc. Isso tudo ficou em segundo plano, pois o objetivo da história é acompanhar a rotina tumultuada da família Skov. Além do ótimo elenco, o filme acerta na recriação de época, nos caprichados figurinos e nos cenários da antiga Copenhague. Vale uma conferida.         

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

 

“LAS MEJORES FAMILIAS”, 2020, coprodução Peru/Colômbia, 1h39m, disponível na plataforma Amazon Prime, terceiro longa-metragem escrito e dirigido por Javier Fuentes-León. Trata-se de uma divertida comédia que poderia ter o título de “Acontece nas Melhores Famílias”. Ou seja, roupa suja lavada, revelações surpreendentes e muita confusão. O filme começa acompanhando as irmãs Luzmila (Tatiana Astengo) e Peta (Gabriela Velásquez), que vivem em um bairro pobre na periferia de Lima, em sua rotina diária de pegar dois ônibus até chegar ao local do trabalho de ambas, ou seja, duas mansões vizinhas localizadas em San Isidro, o bairro dos ricos. Cada uma trabalha em uma mansão. Suas patroas são Carmen (Gracia Olayo) e Alícia (Grapa Paoloa), duas viúvas e amigas de longa data. A amizade entre Carmen e Alícia é tão grande que há muitos anos as casas são interligadas. Os filhos cresceram juntos, também se tornaram amigos e agora todos estão na faixa entre 40 e 50 anos. Até que um dia, como fazem há muitos anos, todos se juntam para comemorar o aniversário de Carmen, assim como festejar a visita de um de seus filhos, Andres (Cesar Ritter), que viria da Espanha acompanhado da noiva espanhola (Jely Reategui). O almoço, porém, só chegaria à etapa dos aperitivos, pois uma revelação surpreendente e bombástica é jogada no ventilador. Confusão formada, o nível do estresse aumenta tanto que outras revelações são feitas, estragando de vez o que seria um encontro familiar agradável. As situações são hilariantes, incluindo uma avó viciada em maconha, além de alguns respeitáveis cinquentões saindo literalmente do armário. Além de homofobia, o filme aborda outros temas importantes da nossa sociedade atual, como a divisão de classes, aspecto que vários críticos levaram em conta para compará-lo ao sul-coreano “Parasita”. Em uma das inúmeras entrevistas que concedeu durante o lançamento do filme, o diretor Fuentes-León afirmou: “A comédia é um gênero que também pode falar de coisas muito sérias e nos permite colocar um espelho no qual a sociedade pode se olhar.” Para explicar a ideia do filme, ele disse: “É o mundo em que cresci, um mundo talvez esticado e exagerado para a sátira, para a comédia”. O filme foi exibido em vários festivais pelo mundo afora, incluindo a 15ª Festa Del Cinema Di Roma, o 25º Busan Film Festival (Coreia do Sul) e o Monte-Carlo Internacional, além do Los Angeles Outfest, do Lima Film Festival, Miami Film Festival e o festival de Málaga, sempre com críticas favoráveis tanto da crítica como do público. Realmente, “Las Mejores Familias” é uma comédia com pano de fundo social muito interessante e divertida.     

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

 

“SEIS MINUTOS PARA A MEIA-NOITE” (“SIX MINUTES TO MIDNIGHT”), 2020, Inglaterra, disponível na plataforma Amazon Prime, 1h39m, direção de Andy Goddard, que também assina o roteiro, com a colaboração de Celyn  Jones e Eddie Izzard. A história até que é muito interessante, baseada em fatos reais. Estamos no verão de 1939 e o mundo está mobilizado com a perspectiva do início de uma guerra, pois existe o perigo iminente da Alemanha invadir a Polônia, o que provocaria uma declaração de guerra por parte da Inglaterra. Em uma pequena cidade costeira ao sul da Inglaterra havia um internato para moças chamado Augusta-Victoria College. A escola realmente existiu, funcionando de 1932 a 1939. Era uma instituição anglo-alemã, especializada no ensino da língua inglesa e suas alunas internas eram, em sua maioria, filhas de altas autoridades do governo alemão e de oficiais nazistas. É neste cenário que surge o professor de inglês e literatura Thomas Miller (Eddie Izzard, também roteirista) em substituição ao antigo professor que desapareceu misteriosamente. Logo depois, em um dos passeios pela praia, as moças descobrem o corpo desse professor e, partir daí, tudo se transforma. Na verdade, o que acontece é uma conspiração que colocará em campos opostos espiões ingleses e alemães. O suspense rola solto até o final. O filme, porém, deixa muito a desejar. O roteiro é repleto de pontas soltas. Você espera que antes dos créditos finais sejam explicados os destinos dos personagens, principalmente no que se refere às alunas do colégio, que seriam embarcadas de volta à Alemanha antes do início da Segunda Grande Guerra. Outros personagens importantes na história também ficam à deriva. Fora que a escalação do elenco comprometeu, e muito, o resultado final, mesmo com a presença da grande Judi Dench, que atua no piloto automático como a diretora da instituição. Ainda estão no elenco a atriz suíça Carla Juri, Jim Broadbent, James D’Arcy, Celyn Jones, Nigel Lindsay, Kevin Eldon, Maria Dragus e Tijan Marei. O que me causou grande surpresa e decepção foi descobrir que o ator Eddie Izzard, que interpreta o professor, é, na verdade, uma atriz transgênero. Se o filme já é bem fraco, fica difícil de engolir esse fato estranho e inusitado. Vale uma conferida apenas pela história interessante, pois o filme é, sem dúvida, um verdadeiro abacaxi.            

 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

 

“O CHARLATÃO” (“SARLATÁN”), 2020, disponível na plataforma Amazon Prime Video, coprodução República Tcheca/Irlanda/Polônia, 1h58m, direção da veterana cineasta polonesa Agnieszka Holland (“Filhos da Guerra”, “Na Escuridão”), seguindo roteiro escrito por Marek Epstein. Trata-se da cinebiografia do herbalista tcheco Jan Mikolásek (1889-1973), famoso por ter curado milhões de pessoas através da utilização de plantas e ervas medicinais. Além de gente pobre, ele tratou de celebridades do mundo artístico e figuras importantes do governo da então Tchecoslováquia, o que incluiu o próprio presidente Antonin Zápatocky, que esteve no comando da nação entre 1953 e 1957. A fama de Jan incomodou tanto os nazistas que ocuparam o país durante a Segunda Grande Guerra como depois os comunistas russos. Ele provou que não era charlatão e tinha orgulho de ser chamado de curandeiro. Ainda jovem, Jan aprendeu a diagnosticar os pacientes com uma velha curandeira, que o ensinou a constatar qualquer tipo de doença apenas olhando a urina coletada em frascos de vidro. Além disso, aprendeu também a receitar chás de ervas e plantas. O filme dá destaque também ao relacionamento homossexual do curandeiro com seu assistente, Frantisek Palko, que era casado. O elenco é ótimo: Ivan Trojan como Jan, Josef Trojan como o jovem Jan (Josef é filho do ator Ivan na vida real), Juaraj Loj como Palko e Jaroslavá Pokorná como Mülbacherová, a curandeira que ensinou Jan. Assim como o excelente elenco, tudo funciona muito bem no filme: roteiro, cenografia, fotografia, reconstituição de época e figurinos. “O Charlatão” estreou no Festival de Berlim 2020 e foi exibido por aqui durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Também foi o representante oficial da República Tcheca na disputa do Oscar 2021 de Melhor Filme Internacional. Enfim, trata-se de um belíssimo filme biográfico que merece ser visto. Não perca!            

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

“TRAÍDOS PELA GUERRA” (“DEN STØRST FORBRYTELSEN”), 2020, Noruega, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 2h06m, direção de Eirik Svensson, seguindo roteiro assinado por Lars Gudmestad e Harald Rosenløw-Eeg. Baseado em fatos reais ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, o filme conta a história trágica da família Braude, constituída de judeus originários da Lituânia e que se fixaram na capital norueguesa Oslo nas primeiras décadas do século passado. A trajetória dessa família foi retratada no livro “Den Størst Forbrytelsen”, escrito pela jornalista norueguesa Marte Brekke Michelet e lançado em 2014. No livro, que serviu como base ao roteiro do filme, Marte detalha também o que foi o holocausto na Noruega. No total, os nazistas invasores deportaram 773 judeus para campos de concentração, sendo que apenas 38 sobreviveram. Antes da invasão dos alemães, em 1942, os judeus noruegueses acreditaram estarem seguros, conforme garantias do governo do país. Mas o que se viu foi o colaboracionismo das autoridades do governo norueguês, que até formaram uma polícia especial de estado para colaborar com os nazistas na captura dos judeus – em 2012, o governo da Noruega anunciou um pedido oficial de desculpas. O roteiro é todo centrado na família Braude, pai, mãe e quatro filhos. Somente a filha conseguiu escapar, refugiando-se na Suécia. Nos principais papéis estão os atores Jakob Oftebro, Carl Martin Eggesbø, Pia Halvorsen e Michalis Koutsogiannakis. Fora a conjuntura histórica, que sem dúvida é o conteúdo principal, “Traídos pela Guerra” retrata de forma bastante realista o sofrimento dos noruegueses sob o jugo dos nazistas. Trata-se, portanto, de um filme muito triste e, ao mesmo tempo, impactante, mas muito bem realizado. Recomendo.         

 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

 

“UMA NOITE EM MIAMI” (“ONE NIGHT IN MIAMI”), 2020, Estados Unidos, disponível na plataforma American Prime Video, 1h54m, filme de estreia na direção da atriz Regina King. E que estreia! Antes, porém, de iniciar meu comentário, aviso que o filme não é recomendado para o grande público, mas sim para o público grande, ou seja, o público adulto. Na verdade, o filme é uma adaptação da peça teatral homônima, escrita em 2013 pelo dramaturgo Kemp Powers, também autor do roteiro. Em sua peça, Powers teve a ideia de criar um encontro fictício em fevereiro de 1964 em um hotel de Miami, reunindo quatro dos principais ícones negros da época: o lutador de boxe Cassius Clay, o ativista Malcom X, o cantor e compositor Sam Cooke e o astro do futebol americano Jim Brown. As quatro celebridades se reuniram depois de assistirem Clay ganhar o título de campeão dos pesos pesados ao vencer Sonny Liston. É um filme de diálogos, aliás muito bem escritos, relevantes e atuais, colocando em discussão temas como o racismo, os direitos civis dos negros e ainda a conversão de Malcom X e Cassius Clay para a Nação do Islã. Naquele mesmo ano, Cassius Clay mudaria seu nome para Muhammad Ali. Para interpretar os personagens principais, Regina King convocou Eli Goree (Cassius Clay), Kingsley Ben-Adir (Malcolm X), Aldis Hodge (Jim Brown) e Leslie Odom Jr. (Sam Cooke), todos ótimos e muito bem caracterizados. Também estão no elenco Lance Reddick, Michael Imperioli, Law Rence Gilliard Jr., Derek Roberts, Beau Bridges, Matt Fowker, Jeremy Pope e Christopher Gorgham. O surpreendente filme de Regina King estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2020, foi exibido em inúmeros outros festivais – sempre com muitos elogios da crítica -, e culminou com três indicações ao Oscar 2021: Melhor Ator Coadjuvante (Leslie Odom Jr.), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original (“Speak Now”). Não levou nenhuma estatueta. Acho que foi injusto também não ter sido indicado a Melhor Filme. Trocando em miúdos, “Uma Noite em Miami” parte de uma ideia genial, transforma-se em uma peça teatral e, finalmente, em um grande filme. Aliás, um FILMAÇO!, assim mesmo, com letras maiúsculas.              

 

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

 

“A OUTRA FACE DA GUERRA” (“DVSELU PUTENIS” – em inglês, “Blizzard of Souls”), 2020, Letônia, disponível na plataforma Amazon Prime, 2h3m, primeiro longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta letão Dzintars Dreibergs, mais conhecido como diretor de documentários. Trata-se de um excelente drama de guerra ambientado durante a Primeira Guerra Mundial. A história, baseada no livro de Aleksandrs Grins, escrito em 1934, é centrada no jovem Arturs Vanags (Oto Brantevics), de 16 anos, que vê a mãe ser assassinada pelos invasores alemães e resolve se alistar no exército imperial russo. Por causa da pouca idade, seu pai, que também é do exército, é obrigado a autorizar o seu alistamento. Dessa forma, Arturs e seu pai se alistam juntos, assim como o irmão mais velho de Arturs. O filme acompanha de perto a atuação de Arturs na frente de batalha. Só para lembrar, os combates naquele conflito eram corpo a corpo, onde as trincheiras eram a única proteção dos soldados. Além da falta de experiência como soldado, Arturs terá de enfrentar situações de alto risco, sem contar com invernos muito abaixo de zero, racionamento de alimentos e presenciar muitas mortes pelo caminho. Quando a guerra está praticamente no fim, Arturs terá que se alistar no exército da Letônia e lutar contra os próprios russos para defender a independência de seu país, já que a Rússia, agora sob o comando de Lênin e dos comunistas, pretende anexar vários países na base da violência. Dessa forma, “A Outra Face da Guerra”, além de ótimo filme, também é uma verdadeira aula de história. Como informação adicional, lembro que o filme foi o representante da Letônia na disputa do Oscar 2021 de Melhor Filme Internacional. Filmaço!           

 

“FILHOS DO ÓDIO” (“SON OF THE SOUTH”), 2020, Estados Unidos, 1h46m, disponível na plataforma Netflix. Sem dúvida, um dos melhores filmes já realizados sobre a questão racial nos Estados Unidos. Méritos para o roteirista e diretor Barry Alexander Brown, cuja parceria com o cineasta Spike Lee (produtor executivo deste) vem de longa data. Brown foi editor de vários filmes de Lee, como “Faça a Coisa Certa”, "Malcom X” e “Infiltrado na Klan”, todos abordando a temática racial. No caso de “Filhos do Ódio”, trata-se da adaptação do livro “The Wrong Side of Murder Creek”, de Constance Curry, que conta a história do jovem branco Bob Zellner (Lucas Till), que no início dos anos 60 do século passado se aliou à luta anti-segracionista dos negros. Embora pertencente à uma família de membros da temida Ku Klux Klan – seu avô era um dos líderes -, Zellner se juntou aos principais ativistas negros da época, como Rosa Parks e John Lewis, tornando-se porta-voz contra a segregação racial no sul dos Estados Unidos. Por causa de sua militância, Zellner foi preso 17 vezes em apenas três anos. Sua trajetória é contada no filme desde que ingressou como voluntário no SNCC (Comitê Coordenador Estudantil Não Violento), em Atlanta (Geórgia) – ele morava em Montgomery (Alabama). Zellner abandonou a família, a noiva e os amigos para lutar pela causa dos negros. De forma bastante realista e explícita, o filme apresenta cenas de extrema violência, misturadas a imagens da época, quando a violência é real. Além de Lucas Till, estão no elenco Lucy Hale, Lex Scott Davis, Julia Ormond, Brian Dennehy, Jake Abel, Ludi Lin, Chaka Forman, Dexter Garden, Mike Manning, Shamier Anderson, Sienna Guillory e Sharonne Lanier. Duas notas sobre o elenco: este foi o último filme do veterano ator Brian Dennehy (o avô de Zellner no filme), que faleceu logo após o fim das filmagens; outro destaque é a presença da atriz Julia Ormond, envelhecida demais, quase irreconhecível. “Filhos do Ódio” é dedicado ao ativista John Lewis, morto em 2021. Um grande filme que merece ser visto.      

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

 

“ACREDITE EM MIM: O RAPTO DE LISA MCVEY” (“BELIEVE ME: THE ABDUCTION OF LISA MCVEY”), 2018, Canadá, disponível na plataforma Netflix, 1h27m, direção de Jim Donovan, seguindo roteiro assinado por Christina Welsh. É a história de um famoso caso policial ocorrido em 1984. Lisa McVey (Katie Douglas) é uma adolescente de 17 anos que trabalha como garçonete em uma lanchonete em Tampa (Flórida). Uma noite, quando voltava para casa depois do trabalho, ela é sequestrada por um homem que a manterá em cárcere privado durante 26 horas, período em que ela foi torturada e estuprada. Leitora de livros policiais e fã de filmes do gênero, Lisa tenta usar a psicologia para tentar sobreviver. Conta histórias tristes ao sequestrador, inclusive que cuida do pai doente e que precisa de seus cuidados. Mentira. Ela vive com a avó. Aos poucos, Lisa começa a sensibilizar o sequestrador, a ponto de ser libertada. Quando volta para casa e conta para a avó, esta não acredita nela, dizendo que tudo é invenção. Lisa então resolve ir à polícia e é também desacreditada. Somente o detetive Larry Pinkerton (David James Elliott) acredita em sua história e começa a desconfiar que o sequestrador de Lisa pode ser o mesmo serial killer procurado por pelo menos 11 mortes e mais de 50 estupros. Os detalhes descritos por Lisa ajudam os policiais nas investigações, culminando com a prisão de Bobby Joe Long (Rossif Sutherland), julgado, condenado e executado em maio de 2019, pouco depois da estreia do filme. A história é envolvente e chocante, muito bem adaptada para o cinema, com um excelente elenco. No desfecho, pouco antes dos créditos finais, a verdadeira Lisa McVey, agora aos 54 anos, aparece como a vice-xerife do Condado de Hillsborough, especializada no combate a crimes sexuais. Um filme muito interessante que merece ser conferido.                                                                                   

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

 

“A PEDREIRA” (“THE QUARRY”), 2020, Estados Unidos, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h38m, direção de Scott Teems, que também assina o roteiro com a colaboração de Andrew Brotzman. Trata-se de um suspense policial com uma história bastante interessante, inspirada no livro homônimo de 1995 do escritor sul-africano Damon Galgut. Mas o filme tem o inconveniente de ser arrastado demais, perto da sonolência. Começa o filme e o pastor David Martin (Bruno Bichir) está na estrada a caminho de uma pequena cidade do Texas para assumir a igreja local. Ele vê um homem caído no acostamento e lhe presta socorro. Mal sabe ele que o homem que está socorrendo é um fugitivo da justiça, acusado de matar a esposa em um incêndio. Você logo imagina: o fugitivo (Shea Whigham) vai aprontar. E não dá outra. Ele mata o pastor, esconde o corpo em uma pedreira e assume a identidade da vítima, tornando-se reverendo, o que nos faz lembrar aquele dito popular “O hábito não faz o monge”. Logo que chega ao pequeno vilarejo, cuja população é de imigrantes mexicanos, ele é recebido por Cecília (Catalina Santino Moreno), responsável por cuidar da igreja e da casa do padre. Alguns dias depois, porém, dois irmãos ladrões acham o corpo na pedreira e roubam suas roupas, mas são detidos como suspeitos de terem cometido o assassinato. Enquanto isso, o falso reverendo até que consegue convencer os fiéis com seus sermões baseados na Bíblia - traduzidos por uma paroquiana. Mas o chefe de polícia local, xerife Moore (Michael Shannon), amante de Cecília, não confia muito no religioso recém-chegado e é essa desconfiança que assumirá a tônica da história até o seu desfecho. Desfecho, aliás, dos mais fracos, prejudicando o resultado final, que já não é dos melhores, mesmo com a presença do bom ator Michael Shannon.  


                                                      

 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

 

“TE AMO ATÉ A MORTE” (“LOVE YOU TO DEATH”), 2019, Estados Unidos, filme feito para a TV, produção da Sony Pictures Television, 1h27m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção da cineasta inglesa Alex Kalymnios, seguindo roteiro de Anthony Jaswinski. Drama pesado, de embrulhar o estômago, baseado em uma história real chocante e macabra ocorrida em 2015 na cidade de Springfield (Missouri), envolvendo um crime que chocou os Estados Unidos. As personagens reais são Dee Dee Blanchard e sua filha Gypsy Rose. Dee Dee foi assassinada pelo namorado da filha. O assassinato abriu as portas para uma verdade tétrica: Dee Dee praticava abuso infantil na filha. Para ganhar ajuda financeira do governo e viver da caridade da vizinhança, Dee Dee obrigava Gypsy a passar por uma doente terminal, paraplégica e com câncer, além de outras doenças. Gypsy, na verdade, era sadia. Na verdade, a doente era Dee Dee, que sofria de uma tal de "Síndrome de Münchhausen por Procuração". No filme, os principais personagens ganharam outros nomes: Dee Dee é Camile Stoller (Marcia Gay Harden) e Gypsy Rose passou a ser chamada de Esme Stoller (Emily Skeggs). De uma forma realista, o filme acompanha a rotina sufocante de mãe e filha, esta última obrigada a participar das mentiras da mãe e agir como se não tivesse muito tempo de vida. A situação começa a mudar depois que Esme conhece Scott (Brennan Keel Cook), que logo vira seu namorado. Também estão no elenco Tate Donovan, Alison Araya e Garfield Wilson. A atuação impressionante da veterana atriz Marcia Gay Harden, quase irreconhecível como a mãe gorda e dominadora, é um dos trunfos do filme, assim como o desempenho da jovem atriz Emily Skeggs. “Te Amo Até a Morte” é muito bom, merece ser conferido.                                                                              

 

“RÉDEAS DA REDENÇÃO” (“THE MUSTANG”), 2020, disponível na plataforma Netflix, coprodução França/Estados Unidos/Bélgica, 1h36m, direção da cineasta francesa Laure De Clermont-Tonerre, que também assina o roteiro com a colaboração de Mona Fastvold e Brock Norman Brock. Premiado no Festival de Sundance, trata-se de um dos filmes mais interessantes da Netflix. Mais pela história, baseada em fatos reais. Importante contextualizar. Pouca gente sabe – eu não sabia – que nos Estados Unidos existe um programa de reabilitação social de presos chamado “Cavalo Selvagem Recluso”, que ainda existe atualmente no Arizona, Califórnia, Colorado, Kansas, Nevada e Wyoming. Funciona da seguinte forma: cavalos selvagens (os Mustangs) que habitam as planícies inóspitas dos Estados Unidos são capturados e levados para “fazendas” ao lado das penitenciárias. Cada preso é responsável por adestrar um cavalo, que depois é levado a leilão. A maioria deles é utilizada pelas forças policiais de fronteiras. Em “Rédeas de Redenção”, a história é centrada no prisioneiro Roman Coleman (Matthias Schoenaerts), um homicida violento que cumpre pena em uma penitenciária rural do norte de Nevada. Por recomendação de uma psicóloga da penitenciária (Connie Britton), Coleman é inscrito no programa e torna-se responsável pelo cavalo mais selvagem do haras, ao qual ele chama de “Marquis”. Ao mesmo tempo em que encara o desafio de domar “Marquis”, Coleman tem de enfrentar a raiva de sua filha Martha (Gideon Adlon), que não o perdoa por tê-la abandonado. É com “Marquis”, porém, que Coleman testará os limites de sua incontrolável raiva, até fazer amizade com o animal. O elenco conta ainda com Jason Mitchell, Bruce Dern, Angel Alvarado, Glen Spillman, Jack Waggon, John Logsdon, Josh Stewart, Kelly Richardson e Santina Muha. Mas é realmente o ator belga Matthias Schoenaerts quem brilha. Um dos principais nomes do cinema europeu da atualidade, Schoenaerts já tem um currículo respeitável, que inclui excelentes filmes como “Inimigos Íntimos”, “Ferrugem e Osso” e “Operação Red Sparrow”, entre tantos outros. Palmas também para a atriz e agora diretora Laure de Clermont-Tonerre em sua estreia atrás das câmeras, realizando um filme poderoso e, ao mesmo tempo, bastante sensível. Não perca!

                                                                       

 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

“ILHA DE SEGREDOS” (“SCHWARZE INSEL”), 2021, Alemanha, 1h44m, disponível na plataforma Netflix, direção de Miguel Alexandre, cineasta nascido em Portugal e naturalizado alemão, que também assina o roteiro com a colaboração de Lisa Carline Hofer. Trata-se de um bom suspense capaz de prender a atenção do começo ao fim, com muita tensão e mistério. A história, ambientada numa das Ilhas Frísias, no Mar do Norte, tem início com a morte de uma senhora na praia, atacada por um cão violento. Logo após o velório e enterro da mulher, seu filho e a esposa sofrem um acidente na estrada e ambos também morrem. Todas as vítimas são da família Hansen e você logo percebe que não foram mortes casuais ou acidentais. Tem gente que está por trás dessas tragédias. Mas quem? Será algum tipo de vingança? O filme segue acompanhando a rotina do jovem Jonas Hansen (o estreante Philip Froissant), filho do casal morto no acidente e neto da idosa assassinada na praia. Ele mora com o avô, Friedrich Hansen (Hans Zischler), antigo diretor da principal escola da ilha e agora aposentado. A rotina dos estudantes do colégio é quebrada com a chegada de uma nova professora de alemão, Helena Jung (Alice Dwyer), que logo chama a atenção por sua beleza madura. Ela logo se mostra uma mulher misteriosa, dona de algum segredo. Enquanto isso, Jonas segue namorando uma colega de classe, Nina Cohrs (Mercedes Müller), até que ele e a professora acabam se aproximando perigosamente. Até que Nina aparece morta na praia. Enquanto isso, continua aquela velha dúvida: quem será o responsável pelas mortes? Aos poucos, o roteiro começa a dar dicas do que aconteceu e de quem pode estar por trás dos assassinatos. Todas as suspeitas levam à professora. Embora o roteiro tenha sido bem elaborado, achei que faltou colocar a polícia para investigar os fatos. De qualquer forma, vale a pena assistir, pois é um suspense de primeira.                                                                       

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

 

“JUSTIÇA EM FAMÍLIA” (“SWEET GIRL”), 2021, Estados Unidos, 1h36m, disponível na plataforma Netflix, filme de estreia na direção de Brian Mendoza, seguindo roteiro assinado por Gregg Hurwitz e Philip Eisner. A história é centrada em Ray Cooper (Jason Momoa), um pacato pai de família que, ao lado da filha adolescente Rachel (Isabela Merced), acompanha o sofrimento da esposa Amanda (Adria Arjona), acometida de um câncer terminal. A esperança é renovada quando uma empresa farmacêutica anuncia um novo remédio para a doença. Essa esperança dura pouco, pois a tal empresa resolve retirar o remédio do mercado. Depois que Amanda morre, Ray Cooper e a filha Rachel prometem se vingar, principalmente depois que descobrem que a retirada do remédio foi causada por uma questão burocrática e corrupção envolvendo uma senadora e os sócios da empresa farmacêutica. O caso complica ainda mais quando um jornalista procura Cooper para denunciar toda a maracutaia e é assassinado. O roteiro é tão mal elaborado, cheio de pontas soltas e situações inverossímeis, que fica difícil acompanhar o que está acontecendo. Quando a matança começa, o FBI entra em ação e fica também desnorteado, pois não sabe quem é o bandido e o mocinho. O ator Jason Momoa, por exemplo, com seu jeito troglodita de ser, não tem nada a ver com o viúvo sofrido e que vive atrás de vingança, mesmo porque apanha muito durante a história. O grandalhão combina mais com os filmes de super-heróis que costuma fazer, como “Liga da Justiça” e “Aquaman”. Quem vai se vingar mesmo é a sua filha, Rachel, mais um absurdo da história. Nem a reviravolta perto do desfecho salva esse verdadeiro abacaxi. Também são cúmplices Amy Brenneman, Justin Bartha, Manuel Garcia-Rulfo e Lex Scott Davis. Não dá para ver nem em uma sessão da tarde.