sábado, 5 de setembro de 2020

 

“ISTAMBUL VERMELHO” (“ISTANBUL KIRMIZISI”), 2018, co-produção Turquia/Itália, 1h49m, roteiro e direção do cineasta turco Ferzan Özpetek. A história é baseada no romance “Rosso Istambul”, escrito pelo próprio Özpetek. Toda a trama é centrada em Orhan (Halit Ergenç), que trabalha em Londres como editor. Após alguns anos, ele volta a Istambul para visitar o amigo Deniz (Nejat Isler), escritor cujos livros são editados por Orhan. Nas longas conversas que ambos engatam madrugada adentro, Orhan fica sabendo a origem de alguns personagens do último livro escrito por Deniz e fica surpreso em descobrir suas verdadeiras identidades na vida real. No dia seguinte, Deniz desaparece misteriosamente, deixando em pânico toda a sua família e, principalmente, o seu editor. O sumiço do escritor é realmente intrigante. Por outro lado, em sua permanência em Istambul, Orhan será afetado por recordações não muito agradáveis do seu passado, um deles bastante trágico. Ele também vai rever um amor do passado, a bela Neval (Tuba Büyüküstün), e se confrontar com Yusuf (Mehmet Günsür), um drogado que teve uma forte ligação com Deniz e que talvez saiba do paradeiro do escritor. Para filmar “Istambul Vermelho”, Ferzan Özpetec voltou à Turquia depois de 16 anos radicado na Itália, onde fez questão de se naturalizar. Definitivamente, "Istambul Vermelho" não é um filme feito para o público comum, embora possa ser visto sem gastar muito os neurônios. Conheci o roteirista e diretor turco naturalizado italiano quando assisti ao ótimo “Saturno em Oposição”, de 2007, assim como “A Janela da Frente” e “O Primeiro que Disse”, entre outros produzidos na Itália. “Istambul Vermelho” acrescenta mais um gol de placa na carreira de Ferzan Özpetek. Quem curte cinema de qualidade deve visitar a obra do cineasta turco. Ah, “Istambul Vermelho” está disponível na plataforma Netflix.     

 

“FREAKS – VOCÊ É UM DE NÓS” (“FREAKS – DU BIST EINE VON UNS”), 2020, Alemanha, 1h32m, produção e distribuição Netflix, direção de Felix Binder, a partir de roteiro escrito por Marc O. Seng. Vamos à história. Desde criança, Wendy (Cornelia Gröschel) demonstrava ter poderes especiais que costumamos ver somente em super-heróis nos quadrinhos e no cinema. Depois de uma demonstração prática na escola, Wendy foi levada aos cuidados da dra. Stern (Nina Kunzendorf), uma renomada psiquiatra. Para conter os poderes de Wendy, ela receitou uma medicação especial para a vida toda. O filme dá um salto no tempo e agora Wendy aparece casada, com um filho, e trabalhando como cozinheira numa lanchonete. Ao conhecer Marek (Wotan Wilke Möhring), um morador de rua cuja fome é saciada com restos de comida jogados no lixo, ela descobre que ele também tem os mesmos poderes, assim como seu colega de trabalho na lanchonete, o jovem Elmar (Tim Oliver Schultrz). Ao combinarem deixar de tomar os remédios para com seus poderes livrarem o mundo do mal, o trio terá que lidar com muitas situações inusitadas, principalmente por conta de Elmar, que se autodenomina “Electroman” devido ao seu poder de dar choque nas pessoas e sua capacidade de desligar a energia de uma cidade. A polícia é mobilizada para prender o trio e entregá-lo de volta aos cuidados da dra. Stern.  Embora perca seu ritmo de aventura na segunda metade, “Freaks” não deixa de ser uma ótima opção para uma sessão da tarde com a família, pois tem muito humor, efeitos especiais da melhor qualidade – sem os exageros costumeiros - menções a uma série de super-heróis e boas sequências de ação.  Aliás, não deixe de assistir à cena que acontece após os créditos finais, que dá a ideia de que poderá haver um “Freaks 2”.             

terça-feira, 1 de setembro de 2020

“A LOUVA-A-DEUS” (“LA MANTE”) é uma excelente minissérie francesa – uma das melhores do conteúdo Netflix – com seis capítulos, cada um com cerca de 55 minutos. Foi produzida e exibida pela TV francesa TF1 em outubro de 2017, estreando na Netflix no dia 30 de dezembro de 2017. Ao investigar o terceiro assassinato seguido, a polícia descobre que o modus operandi é o mesmo de uma serial killer que aterrorizou a França na década de 90. Responsável por 8 mortes com requintes de crueldade, Jeanne Deber (Carole Bouquet), conhecida também pelo apelido de a “Louva-a-Deus”, estava presa há mais de 20 anos. Diante das evidências de que o novo assassino não passa de um imitador, a polícia resolveu pedir a ajuda justamente de Jeanne Deber. Por uma fantástica coincidência, o detetive Damien Carrot (Fred Testot), encarregado das investigações, é filho da famosa assassina. O serial killer não parou de matar. A polícia terá que se desdobrar para encontrar o assassino, só revelado no desfecho. O roteiro, assinado por Alice Chegaray-Breugnot, Grégoire Demaison, Nicolas Jean e Laurente Vivier, a cada capítulo inventa um possível suspeito, oferecendo ao espectador a chance de adivinhar a verdadeira identidade do assassino. Esse jogo faz com que esta minissérie prenda a atenção do início ao fim, tornando-se um ótimo entretenimento. Destaque para o excelente elenco, comandado por Carole Bouquet, que chegou a ser uma das mais belas atrizes francesas, uma verdadeira diva nos anos 70/80/90. Ao seu lado, atuam, além de Fred Testot, Manon Azem – a atriz francesa mais bonita do atual cinema francês -, Frédérique Bel, Pascal demolon, Élodie Navarre, Robinson Stévenin e Jacques Werber. A direção ficou a cargo de Alexandre Laurent, bastante conhecido na França como roteirista e diretor de séries televisivas. “A Louva-a-Deus” é um suspense psicológico da melhor qualidade. Imperdível!         

VINGANÇA” (“VENDETTA”), 2015, Estados Unidos, 1h46m, direção das gêmeas Sylvia e Jen Soska, com roteiro de Justin Shady. A história: o detetive Mason Danvers (Dean Cain) e sua esposa Jocelyn (Kyra Zagorsky) vivem um momento especial no casamento. Ela está grávida. Mas essa felicidade não dura muito. Jocelyn é brutalmente assassinada por Victor Abbott (Paul Donald Wight II), um marginal que havia sido preso por Danvers anos antes. Detido em flagrante pelo crime, Abbott volta à prisão. O policial resolve retribuir na mesma moeda: mata o irmão de Victor. Mas a vingança não para por aí: ele quer ficar frente à frente com o assassino de sua esposa. Para isso, ela forja sua própria prisão e vai para a penitenciária onde está Victor, que, em conluio com o diretor da unidade, manda e desmanda no pedaço, transformando a vingança de Danvers numa missão quase suicida. O ator Dean Cain é o mais conhecido do elenco, graças ao seu papel de Super-Homem na série “Lois & Clark: The New Adventures of Superman”, que fez grande sucesso na década de 90. Mas o personagem que mais se destaca é o do vilão Victor Abbott, interpretado pelo lutador profissional de luta-livre Paul Donald Wight II, conhecido nos ringues como “Big Show”, um gigante de 2m13, fortão e mal-encarado, uma figura que realmente assusta qualquer um. As gêmeas diretoras Sylvia e Jen Soska, mais conhecidas por dirigir filmes de terror, não economizam nas pancadarias, fazendo sangue jorrar pela telinha o filme inteiro, em quantidade suficiente para abastecer de plasma qualquer hospital. “Vingança”, portanto, deve agradar o público que gosta de ação e violência. Assista com a faca nos dentes.        

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

 

“SECUESTRO”, 2016, Espanha, 1h45m, produção e distribuição Netflix (o título original foi mantido). A direção é de Mar Tagarona e roteiro de Oriol Paulo. Tudo começa quando um garoto é encontrado ferido numa estrada no meio do mato. Levado a um hospital e depois a uma delegacia, ele é identificado como Victor (Marc Domènech), de 10 anos, flho único da renomada advogada Patrícia de Lucas (Blanca Portillo). Victor é deficiente auditivo e, quando interrogado pelo detetive Ernesto (Antonio Dechent), responde por meio de sinais, traduzidos pela mãe. Segundo o menino, um homem o sequestrou na porta da escola e o prendeu num esconderijo distante da cidade. Ele afirma que conseguiu fugir devido a uma distração do sequestrador. A polícia pede a Victor que ajude na elaboração de um retrato falado do homem. Com a descrição, a polícia chega a um tal de Charlie (Andres Herrera), um fracassado que gasta todo dinheiro apostando em rinhas de cachorro. Todos os indícios realmente apontam para Charlie, mas não há provas contundentes de sua participação no sequestro. Dessa forma, a polícia o deixa em liberdade. A advogada não se conforma e pede que o ex-marido Raúl (José Coronado) e pai do menino providencie uma maneira de dar uma lição no suposto sequestrador. A partir daí, uma sequência de fatos inesperados e reviravoltas começam a acontecer, tornando o filme ainda mais envolvente e instigante. Não há dúvidas que o grande trunfo de “Secuestro” é o primoroso roteiro escrito por Oriol Paulo, que tem em seu currículo ótimos thrillers como “Um Contratempo”, “O Corpo” e “Os Olhos de Júlia”, só para citar alguns. Méritos também para a diretora Mar Targarona (“O Fotógrafo de Mauthausen”), que também é atriz, roteirista e produtora. Seu nome verdadeiro é Maria Del Mar Targarona Borrás. Enfim, “Secuestro” é um filme que prende a atenção do começo ao fim. Recomendo.   

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

 


“ALERTA LOBO” (“LE CHANT DU LOUP”), 2019, França, 1h56m, distribuição Netflix, primeiro longa escrito e dirigido por Antonin Baudry. A história começa acompanhando o trabalho da tripulação de um submarino da marinha francesa com o objetivo de resgatar mergulhares no litoral da Síria. A missão é bem sucedida graças à eficiência do jovem Chanteraide (François Civil), o oficial de sonar especialista em identificar sons em grandes profundidades. Tanto é sua competência que todo mundo o chama de “Ouvidos de Ouro”. Nessa mesma missão, Chanteraide detecta a presença, nas proximidades, de um destroyer e de outro submarino que pode ser um antigo submarino russo comprado pelos jihadistas sírios ou mesmo um outro russo nuclear. Alerta máximo. E o filme segue por aí naquela tensão típica que caracteriza a possibilidade do início de uma guerra nuclear. Além de François Civil, o ator francês do momento, estão no elenco Mathieu Kassovitz, Omar Sy (“Intocáveis”), Jean-Yves Bertellot, Reda Kateb e a atriz alemã Paula Beer. Uma informação adicional: o diretor Antonin Baudry é, na verdade, um diplomata francês na vida real, mas gosta de escrever roteiros e desenhar histórias em quadrinhos. Neste seu primeiro filme ele fez um bom trabalho, conseguindo manter o suspense da situação até o desfecho. O resultado final, porém, ficou devendo. “Alerta Lobo” foi exibido por aqui em junho de 2019 durante a programação do Festival Varilux de Cinema Francês.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

“S.W.A.T. – OPERAÇÃO ESCORPIÃO” (“S.W.A.T. - UNDER SIEGE”), 2017, Estados Unidos, 1h39m, direção de Tny Giglio e roteiro de Jonas Barnes e Keith Domingue. A história é ambientada na cidade de Seattle. No feriado de 4 de julho, depois de prender os membros de uma gangue ligada a um chefão do trafico internacional, agentes da SWAT descobrem que a quadrilha mantém prisioneiro – e sob tortura - um homem misterioso cujo codinome é “Escorpião” (Michael Jai White, o brucutu do momento dos filmes de ação). Segundo afirmou aos policiais, ele estava sendo torturado para revelar um segredo que pode significar bilhões de dólares. “Escorpião” ainda afirmou que a quadrilha não desistirá de prendê-lo novamente. O oficial Travis Hall (Sam Jaeger) promete protegê-lo, mantendo-o em segurança na sede da SWAT. Ward (Ty Olsson), o chefão da quadrilha, convoca um pequeno exército de mercenários para invadir a unidade da SWAT e resgatar “Escorpião”. O cerco começa de forma violenta, mas os agentes não se entregarão facilmente. Em meio a muita pancadaria, tiros, explosões e muitos mortos pelo caminho, o filme segue até o desfecho mais do que previsível. Não dá para levar a história muito a sério, principalmente pelas muitas falhas do roteiro. É aquele tão de filme B, com produção barata, um ou dois atores conhecidos e fatos que acontecem sem nenhuma explicação. O filme é repleto de clichês e segue a linha de filmes como "Assalto à 13ª DP", de 2005, este sim, muito bom. Para concluir: só mesmo os fanáticos por filmes de ação poderão gostar, ao contrário de quem prefere aqueles que exigem um pouco mais dos neurônios. De qualquer forma, há gosto para tudo.


                     

 

“A TENENTE DE CARGIL” (“GUNJAN SAXENA: THE CARGIL GIRL”), 2020, Índia, 1h52m, roteiro e direção de Shran Sharma (seu longa de estreia). A história é inspirada na vida de Gunjan Saxena, a primeira pilota de combate a ser aceita pela Força Aérea Indiana. Desde criança, Saxena era apaixonada por aviões e sempre falou para os pais e amigos que um dia iria ser pilota de voo. Seu sonho, porém, não era compartilhado pela mãe e pelo irmão mais velho, nem pelos demais familiares. Afinal, numa sociedade machista como a da Índia, mulher era criada para ser mãe e dona de casa. O único que acreditou nela e a incentivou foi o pai – aliás, a relação entre pai e filha é um dos destaques da história, resultando em diálogos e cenas bastante comoventes. Saxena (Janhvi Kapoor) cresceu e finalmente conseguiu ingressar na etapa de treinamento da Força Aérea, enfrentando as reações de rejeição dos machistas colegas de turma. Somente com a ajuda de um oficial mais liberal é que ela começou o treinamento prático como pilota de helicóptero. De maio a junho de 1999, durante a chamada Guerra de Cargil, quando soldados paquistaneses se infiltraram em território indiano, Saxane, que na ocasião tinha apenas 19 anos, foi a responsável por um ato heroico, resgatando oficiais e soldados feridos em meio a um combate. Somente após essa façanha é que ela conseguiu o respeito de toda a comunidade militar, tornando-se uma verdadeira heroína nacional. Sem dúvida, a história é bastante interessante, principalmente do ponto de vista da condição de segunda classe que as mulheres indianas sempre viveram. Saxane venceu esse preconceito, abrindo caminho para que outras resolvessem ingressar na carreira militar em seu país. “A Tenente de Cargil” está disponível na plataforma Netflix desde o dia 12 de agosto de 2020.                     

sábado, 22 de agosto de 2020

 

“CRIMES DE FAMÍLIA” (“CRÍMENES DE FAMILIA”), 2020, Argentina, 1h39m, direção de Sebastián Schindel, seguindo roteiro escrito por Pablo Del Teso. Recentemente lançado na plataforma Netflix, trata-se de um drama que narra os fatos que envolvem uma família estável e de alto poder aquisitivo. Alícia (Cecilia Roth) e Ignácio (Miguel Angel Sola) vivem um casamento estável, tentando conviver com os problemas causados por Daniel (Benjamím Amadeo), de 30 anos, que nunca trabalhou, é viciado em drogas e que agora enfrenta problemas com a justiça, acusado de espancar e estuprar a ex-mulher, da qual era obrigado a manter distância por ordem judicial. Mesmo com todas as evidências que comprovam a culpa de Daniel, Alícia ainda acredita que seu filho está sendo injustiçado. O caso acaba em julgamento. Ao mesmo tempo, Alícia vive um outro dilema envolvendo sua empregada Gladys (Yanina Ávila), também presa acusada de infanticídio. Como se não bastasse, toda essa situação ainda contribuirá para abalar seu casamento de tantos anos. A segunda parte do filme é dedicada ao julgamento de Daniel e, logo em seguida, ao de Gladys. Perto do desfecho, uma surpreendente revelação agravará ainda mais o sofrimento de Alícia. O roteiro não economiza no contexto dramático ao abordar temas áridos e desagradáveis, como aborto, abuso sexual, alcoolismo, drogas, violência doméstica e outros tantos que causam tanto sofrimento às famílias. Mais um filme sério, envolvente e de qualidade do cinema argentino. Imperdível!                   

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

 

“A HORA FINAL” (“LA HORA FINAL”), 2018, Peru, 1h57m, distribuição Netflix, roteiro e direção de Eduardo Mendoza de Echave. Baseada em fatos reais, a história conta como os agentes especiais do Grupo Especial de Inteligência (GEIN) conseguiram localizar e prender Abimael Guzmán, fundador e chefe do Sendero Luminoso, organização terrorista responsável por sequestros, atentatos à bomba e execuções que resultaram na morte de mais de 30 mil pessoas no Peru, entre policiais, políticos, empresários e civis. O grupo agia desde o início dos anos 60 e só foi desmantelado a partir da “Operação Vitória”, que resultou na prisão de Guzmán, no dia 12 de setembro de 1992, ou seja, “A Hora Final”. O roteiro do filme é centrado no trabalho dos agentes do GEIN que durante anos trabalharam nas buscas do paradeiro de Guzmán. Em especial, o filme destaca os agentes Carlos Zambrano (Pietro Sibille) e Gabriela Coronado (Nidia Bermejo) e seus problemas pessoais. Zambrano, por exemplo, estava sofrendo um processo de separação da sua mulher, cansada do seu sumiço por dias e, às vezes, por meses, por conta de seu trabalho investigativo. Gabriela enfrentava um problema ainda maior, pois descobriu que seu irmão caçula pertencia ao Sendero Luminoso. Mesmo com uma produção simples e elenco de poucos atores profissionais, “A Hora Final” consegue contar, com competência, os bastidores desse importante episódio da história recente do Peru. Eu gostei e recomendo.            

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

 

“1898 – OS ÚLTIMOS DAS FILIPINAS” (“1898 – LOS ÚLTIMOS DE FILIPINAS”), 2016, Espanha, 2h09m, roteiro de Alejandro Hernández e direção de Salvador Calvo (do ótimo “Adú”). O filme conta um fato histórico ocorrido em 1898 nas Filipinas, até então colônia espanhola. Naquele ano, um pelotão de 50 soldados foi enviado para retomar a aldeia de Beler ocupada pelos rebeldes do grupo Katipunan, que lutavam pela independência das Filipinas e que no ano anterior ocuparam a aldeia assassinando dezenas de soldados espanhóis. Como não havia alojamentos adequados na aldeia, os soldados transformaram a igreja do vilarejo em quartel. Não demorou muito e os rebeldes, em muito maior número, começaram a atacar a igreja. O cerco durou quase um ano, período em que os confrontos, quase que diários, resultaram em muitos mortos, principalmente do lado dos rebeldes. Ao mesmo tempo, alguns soldados espanhóis foram atingidos por doenças como a malária e a beribéri (doença que desidrata e mata em dois ou três dias). Além disso, por causa do cerco dos rebeldes à igreja, começou a faltar água, comida e remédios. A situação ficava cada vez pior e não havia outra alternativa senão a rendição, hipótese imediatamente rejeitada pelo tenente Martín Cerezo (Luis Tosar), que desde a morte do capitão Enrique de Las Morenas (Eduard Fernández) comandava o pelotão. Mesmo depois que um oficial espanhol chegou de Manila informando que a guerra das Filipinas havia acabado, Cerezo não acreditou e permaneceu firme em seu reduto na igreja (ele e os soldados isolados na igreja não sabiam que a Espanha havia perdido não só as Filipinas, como também Porto Rico e Cuba). O filme acompanha o sofrimento dos jovens soldados espanhóis, muitos deles inexperientes em combate, mas que resistiram ao inimigo enquanto puderam, transformando Beler no último bastião do império espanhol nas Filipinas. Resumo da ópera: o filme é muito bom, principalmente por destacar um fato histórico pouco conhecido entre nós.             

terça-feira, 18 de agosto de 2020

 

PINK, 2016, Índia, distribuição Netflix, 2h16m, direção de Aniruddha Roy Chowdhury, com roteiro de Ritesh Shah. O pano de fundo envolve temas muito polêmicos e atuais na Índia: o machismo exacerbado, a condição feminina, relegada à segunda categoria, e a cultura do estupro. Tudo começa com três rapazes e três moças se conhecendo em um show de rock. Eles convidam as moças para tomar umas e outras num resort. Papo vai, papo vem, bebidas no meio, Rajveer Singh (Angad Bedi) parte para cima de Minal (Taapse Pannu) agarrando-a à força. Ela insiste em dizer não, ele em dizer sim, e os dois acabam se desentendendo. Quando não aguenta mais a insistência do rapaz, cada vez mais agressivo, ela o agride com uma garrafa, bem acima do olho esquerdo. A situação leva as moças a fugirem correndo, enquanto os amigos de Rajveer o levam para o hospital. Em seguida, vão à delegacia registrar a ocorrência, fazendo questão de dizer que Minal tinha tentado matar Rajveer e que as moças não passam de prostitutas. Logo depois, elas também registram queixa na delegacia, mas os policiais não dão bola e, pior, aconselham que elas não prossigam com a reclamação, pois a família de Rajveer é bastante influente. Claro que Minal acaba presa por tentativa de homicídio. O julgamento é marcado e um vizinho das moças, o advogado Deepak Sehgal (Amitabh Bachchan), resolve defender Aminal. A segunda parte do filme é dedicada totalmente ao julgamento, o que deixa a história ainda melhor, principalmente quando Deepak, nas alegações finais, faz um discurso brilhante e comovente em defesa não só de Minal, mas de todas as mulheres indianas colocadas numa condição inferior por uma cultura machista e preconceituosa. A atriz Taapse Pannu, que hoje é uma das principais estrelas de Bollywood, e o veterano ator Amitabh Bachchan voltariam a atuar juntos em 2019 no drama “Badla”, onde ele também faz o papel de advogado da personagem vivida por Taapse. Por sua mensagem em defesa das mulheres, “Pink” foi selecionado para uma exibição especial na ONU, em Nova Iorque. Além disso, foi escolhido pelo governo do estado indiano do Rajastão para fazer parte do treinamento dos policiais de como lidar com o público feminino. Portanto, “Pink” se consagrou como mais um grande sucesso de Bollywood, aclamado pela crítica e pelo público mundo afora. Recomendo.         

domingo, 16 de agosto de 2020

 

Quem não se apaixonou alguma vez por sua professora ou seu professor? Na maioria das vezes, claro, nunca se declarou, ao contrário do que acontece em “O QUE PODERÍAMOS SER” (“LO QUE PODRÍAMOS SER”), 2018, México, 1h34m, direção de Javier Colinas, que também escreveu o roteiro com a colaboração de Luís Ernesto Franco (ator principal do filme). O jovem Santiago (Franco) apaixona-se perdidamente pela professora de cinema Amanda (Sophie Alexander-Katz), pelo menos uns quinze anos mais velha. O assédio de Santiago, dentro e fora da sala de aula, começou a incomodar a professora, que rejeitava todas as tentativas do jovem. Mas como dizia o velho ditado, água mole em pedra dura tanto bate até que fura, Santiago conseguiu furar o gelo de Amanda, que acabou não resistindo. Papo vai papo vem, os dois acabam na cama e passam a não se desgrudar. O romance já se tornara público entre a turma de Santiago, além de toda a escola, incluindo o seu diretor, e o emprego de Amanda fica na corda bamba. Nesse meio tempo, ela recebe o convite para participar de um importante projeto de produção cinematográfica nos Estados Unidos. Será que aceitará e colocará um ponto final no romance com seu aluno? Fico devendo a resposta, já que não pretendo antecipar o que ocorrerá até o desfecho. Isso posto, recomendo assistir “O Que Poderíamos Ser” como um entretenimento leve e romântico. Vale a pena conferir.      

 

GUERRA FRIA (HON ZIN – nos países de língua inglesa, COLD WAR), 2012, Hong Kong (à disposição na plataforma Netflix), 2h06m, roteiro e direção de Lok Man Leung. A história é baseada em fatos reais ocorridos em 1999 na cidade de Hong Kong, até então considerada a cidade mais segura da Ásia. Ao mesmo tempo em que ocorria um atentado à bomba, uma van da unidade de emergência da Força Policial da cidade, com cinco policiais de elite, era sequestrada. Como o comissário geral da polícia estava numa conferência mundial em Copenhagen (Dinamarca), as investigações ficaram sob o comando dos vice-comissários Sean Lou (Aaron Kwok) e Joe Lee (Eddie Peng), que logo se desentenderam, cada um querendo impor o seu estilo de agir. Sean Lou ganhou a parada, mesmo porque o filho de Lee era um dos policiais sequestrados. Durante as investigações, os sequestradores exigiram uma grande soma de dinheiro, no que foram atendidos. Só que, na hora do resgate, os sequestradores diminuíram o valor do resgate, confundindo a polícia. Seria descoberto depois que toda a ação da polícia era antecipada pelos criminosos, o que deixava claro que havia um informante dentro da força policial. Só no desfecho é que tudo será esclarecido. Na última cena do filme, o comissário Sean Lou recebe um misterioso telefonema informando que sua esposa e seu filho haviam sido sequestrados. Logo depois, o final, deixando claro que o filme teria uma sequência, o que realmente aconteceu, mas somente em 2016. A primeira exibição de “Guerra Fria” ocorreu na abertura do 17º Busan International Filme Festival (Coreia do Sul), onde recebeu várias premiações, assim como aconteceu em outros festivais mundo afora. As cenas aéreas mostrando a cidade de Hong Kong de cima são espetaculares, certamente feitas por um drone. Mas, sem dúvida, o grande destaque são as sequências de ação, que estão se tornando uma especialidade do cinema asiático, principalmente o chinês e o sul-coreano.             

 


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

 

ASFALTO DE SANGUE (BURN OUT), 2017, coprodução França/Bélgica, com distribuição Netflix, 1h47m, direção de Yann Gozlan. A história foi inspirada no livro “Balancé Dans Les Cordes”, de Jerémie Guez, que também ajudou a escrever o roteiro. O pano de fundo é o tráfico de drogas nas periferias das grandes cidades francesas, geralmente dominado por imigrantes. Tony (François Civil) é um promissor piloto de moto que trabalha como estoquista num centro de distribuição. Como vem se destacando nas competições amadoras, ele é convidado para disputar uma vaga em uma equipe profissional para disputar o circuito francês de motociclismo. Em meio a essa rotina de trabalho e treinos, Tony é surpreendido com a notícia de que Leyla (Manon Azem) e seu filho estão sendo ameaçados por Miguel (Olivier Rabourdin), um poderoso chefe de uma quadrilha de traficantes. Aconteceu o seguinte: para ganhar um dinheiro extra, Leyla concordou em esconder uma certa quantidade de drogas em seu apartamento para Miguel. Só que o namorado dela foge com a carga. Para pagar a dívida da ex-mulher, Tony topa  trabalhar para o traficante transportando drogas em sua moto de uma cidade para outra, cumprindo distâncias que às vezes ultrapassam os 200 km. Haja saúde. De manhã, o trabalho no armazém, à tarde os treinos na pista e de madrugada o serviço de “mula”. Para aguentar o tranco e se manter acordado, Tony passa a consumir remédios “tarja preta”. Adrenalina pura. Não dá para contar muito mais para não estragar as surpresas destinadas ao espectador. O que posso destacar é que as sequências de ação são ótimas, não apenas nas competições de moto, como também nas estradas a velocidades que chegam a superar os 300 km/hora, principalmente quando a polícia está atrás. “Asfalto de Sangue” tem lá seus defeitos, mas garante um bom entretenimento.        

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

 


  

BADLA (“Vingança”, na tradução literal da língua hindi para o português), 2019, Índia, 2h01m, disponível na plataforma Netflix, roteiro e direção de Sujoy Ghosh. Trata-se de uma adaptação (remake) do filme espanhol “Contratiempo”, de 2012, escrito e dirigido por Oriol Paulo, elogiadíssimo pela crítica. Eu também elogiei o filme espanhol, conforme comentário em meu blog. A versão indiana é tão boa quanto. O roteiro é praticamente igual, só alterado no que se refere ao personagem principal, que no filme espanhol é um homem, e na nova versão é uma mulher. Vamos à história de “Badla”. O conceituado advogado Badal Gupta (Amitagh Bachchan, um dos atores mais conhecidos de Bollywood) é contratado para defender a empresária Naina (Taapsee Pannu), acusada de ter assassinado o amante Arjun Joseph (Tony Luke). Ela foi flagrada no quarto de um hotel ao lado do corpo de Arjun com as mãos cheias de sangue. Ela jura que não sabe o que aconteceu, mas foi presa e em seguida solta sob o pagamento de fiança enquanto aguarda o julgamento. Enquanto Naina e Badal discutem as estratégias de defesa, os fatos são relembrados em flashback, inclusive um acidente de carro que será fundamental para o desenvolvimento da história. O advogado não fica convencido das versões fornecidas por Naina, acredita que ela está mentindo e ocultando a verdade. Cliente e advogado então começam um jogo de verdades e mentiras. Cada versão, de um lado ou de outro, dá margem a várias sequências no filme, instigando o espectador a julgar quem está com a razão. Essa confrontação prosseguirá, em meio a uma série de reviravoltas, até o surpreendente e sensacional desfecho de uma história que prende a atenção do começo ao fim, fruto de um primoroso e criativo roteiro, no caso, do diretor espanhol. Resumo da ópera: “Badla” é muito bom e, se comparado com o original do qual foi adaptado, não fica muito atrás em termos de qualidade. Programão!    

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

 

O ATIRADOR: EXTERMÍNIO FINAL (SNIPER: ULTIMATE KILL), 2017, Estados Unidos, 1h34m, direção de Claudio Fäh e roteiro de Chris Hauty. O atirador de elite (sniper) Brandon Beckyt (Chad Michael Collins) é recrutado pelo DEA (Drug Enforcement Administration), órgão subordinado ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, para uma perigosa missão em Bogotá (Colômbia). Ele terá que localizar e eliminar um outro atirador de elite a serviço de um chefão do tráfico para assassinar seus concorrentes. Chamado de “El Diablo”, o sniper do tráfico já tem em seu currículo uma lista enorme de mortos. A polícia colombiana não consegue - ou não se esforça para – localizar e prender o predador. Aí que entra a ajuda dos agentes norte-americanos, incluindo seu atirador de elite, comandados pela oficial Kate Estrada (Danay Garcia). Nos bastidores da operação, orientando os agentes, estão o major Richard Miller (Billy Zane), Thomas (Tom Berenger) e John Samson (Joe Lando). Nas primeiras investigações, eles descobrem que “El Diablo” trabalha para Jesús Morales (Juan Sebastián Chero). A tarefa dos norte-americanos não será nada fácil, já que o chefão domina grande parte da cidade, ou seja, tem olheiros por toda parte. Tão logo Kate Estrada e Brandon são identificados, o chefão manda seu sniper matá-los. Daqui para a frente, a trama se transforma numa caçada impiedosa, tanto de um lado como de outro. E muito sangue vai espirrar pela telinha. Como filme de ação, “O Atirador: Extermínio Final” deve agradar os fãs do gênero, mas não espere um filmaço. Em todo caso, funciona como entretenimento.  

 

COLLATERAL, 2018, Inglaterra, produção BBC, minissérie em 4 capítulos de cerca de 1 hora cada (à disposição na Netflix), direção de S.J. Clardson, seguindo roteiro de David Hare. A história começa com o assassinato, a tiros, do jovem sírio Abdullah Asif (Sam Otto), um motoboy entregador de pizza. A detetive Kip Glaspie (Carey Mulligan), junto com o parceiro Nathan Bilk (Nathaniel Martelo-White), inicia as investigações e descobre fatos que irão tornar o caso ainda mais misterioso. Karen (Billie Piper), a cliente que o jovem acabou de atender, é uma mãe solteira viciada em drogas, as quais costuma receber dentro da pizza. Descobriu-se ainda que a munição utilizada para assassinar o motoboy é exclusiva do exército. Além disso, a única testemunha do crime é Linh Suan Huy (Kae Alexander), uma jovem vietnamita também viciada em drogas e, pior, imigrante ilegal. Outros personagens que serão importantes no desenvolvimento da história: Sandrine Shaw (Jeany Spark), uma capitã do exército inglês; Jane Oliver (Nicola Walker), a vigária homossexual namorada de Linh, e o deputado David Mars (John Simms), ex-marido de Karen, a mãe viciada. Estes e mais alguns outros personagens aparecerão em subtramas que correrão à margem da história principal, mesmo que não tenham nada a ver com o assassinato do jovem entregador de pizza. O roteiro também aborda questões atuais como a xenofobia, imigração ilegal, intolerância, crime organizado, homossexualidade etc., além de uma conspiração política envolvendo autoridades governamentais, religiosas, policiais e até o M15 (serviço secreto inglês). Enfim, uma miscelânea de situações que pode não só confundir o espectador como também desviar sua atenção do foco principal, que é a investigação do crime do motoboy. Mesmo que apresentada em apenas quatro capítulos, a minissérie chega a entediar em alguns momentos. Não arrisco recomendar.    

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

 

O CERCO DE JADOTVILLE (The Siege of Jadotville), 2016, Irlanda, 1h46m, longa de estreia na direção de Richie Smyth, mais conhecido como diretor de curtas. O roteiro é de Kevin Brodbin, que se inpirou no livro “Siege at Jadotville: The Irish Army’s Forgotten Battle”, escrito por Declan Power. Trata-se de uma adaptação para o cinema de um fato histórico ocorrido em 1961, quando a ONU resolver intervir na guerra civil da República do Congo. Os golpistas, depois de assassinarem o então primeiro-ministro Patrice Lumumba, assumiram o poder no país e introduziram no cargo Moise Tshombe, líder da Frende Nacional de Libertação. A força de paz da ONU enviada ao Congo era formada por 150 soldados irlandeses, comandados pelo oficial Pat Quinlan. Detalhe: nenhum desses soldados, em sua maioria jovens, tinha experiência de combate. A base da ONU que ocupavam, na cidade de Jadotville, sofreu um cerco de seis dias pelas tropas da província de Katanga, leais ao governo golpista, treinadas e comandadas por mercenários franceses. É bom lembrar que a França, além de outros países, estava de olho nas riquezas naturais do Congo, entre os quais cobre, urânio, estanho, rádio, diamantes e petróleo. Os valentes soldados irlandeses defenderam heroicamente a sua base e, ao final de seis dias, se renderam por causa da falta de suprimentos e munições, além de alguns feridos em estado grave. Enquanto nos combates morreram cerca de 300 soldados katangeses, os irlandeses não tiveram baixas fatais. Considerando-se a inexperiência do batalhão, foi um feito realmente heroico. O filme mostra toda essa história, preservando o clima tenso e muita ação do começo ao fim, mantendo a atenção do espectador até o desfecho, com sequências de batalha muito bem feitas. O elenco reúne Jamie Dornan (capitão Pat Quinlan), Danny Sapani (Moise Tshombe), Mark Strong (Conor Cruise O’Brien), Mikhel Persbrandt (Dag Hammarskjöld), Guillaume Canet (Rene Faulques), Jason O’Mara (sargento Jack Prendergast), Emmanuelle Seigner (madame La Fontagne) e Fiona Glascott (Carmela Quinlan). Disponível na plataforma Netflix, “O Cerco de Jadotville” é um filme obrigatório para quem curte fatos históricos.     

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

   

“CLAIR OBSCUR” (“TEREDDÜT”), 2016, Turquia, 1h45m, roteiro e direção de Yesim Ustaoglu. Excelente drama cujo pano de fundo é a condição da mulher num país onde o machismo impera dentro e fora das quatro paredes. A história é centrada em duas mulheres que vivem situações diferentes, mas que, no fundo, sofrem o mesmo tipo de dilema em seus relacionamentos. A jovem Elmas (Ecem Uzun) é infeliz no casamento. Mora com o marido e a sogra, vivendo praticamente como a empregada da casa. À noite, mesmo sem vontade, é obrigada a se submeter aos desejos sexuais do marido de uma maneira que beira o estupro. Por outro lado, o filme acompanha a rotina diária da psiquiatra Sehnaz (Funda Eryigit), especialista em jovens problemáticos. Ela mora com seu namorado Cem (Mehmet Kurtulus), viciado em vídeos de pornografia na Internet. Quando fica excitado, ele procura Sehnaz. Não é difícil perceber que o relacionamento do casal gira em torno exclusivamente do sexo. Como já era previsível, o roteiro logo unirá as duas mulheres. Elmas acaba de ser presa pelo assassinato do marido e da sogra, mas está em estado de choque e não lembra o que aconteceu. Ela então é encaminhada para os cuidados de Sehnaz, que tentará descobrir o que se passa na mente da moça, assim como desvendar o que a levou a cometer os assassinatos. O roteiro dedica um grande espaço às sessões de Sehnaz com sua nova paciente. Nesse ponto, há que se destacar a excelente atuação das duas atrizes turcas, especialmente a estreante Ecem Uzun. “Clair Obscur” foi lançado no dia 7 de novembro de 2016 durante o Festival Internacional de Cinema de Toronto (Canadá), conquistando público e críticos. O filme recebeu inúmeras premiações mundo afora, como no 32º Festival de Cinema de Varsóvia (Polônia), no Festival de Antálya (Turquia) e no Festival de Haifa (Israel). O filme é excelente, intenso, com um primoroso roteiro que valoriza e esmiúça os relacionamentos sob o ponto de vista da psicologia. Mais um poderoso filme do cinema turco. IMPERDÍVEL!         





segunda-feira, 3 de agosto de 2020


“DEEP WATER” é uma minissérie policial australiana de 2016 com 4 capítulos (cada um com a duração de 50 minutos), direção de Kris Wyld, que assina o roteiro juntamente com Kym Golsworthy. A história foi inspirada nos assassinatos ocorridos em Sidney no final da década de 80 do século passado. As vítimas eram todas homossexuais e os assassinos integrantes de um grupo de jovens violentos e homofóbicos. Em “Deep Water” (a Netflix manteve o título original), os crimes acontecem na praia de Bondy, também em Sidney, um local tradicionalmente frequentado por surfistas. Quando um jovem gay é brutalmente assassinado, a detetive Tori Lustigman (Yael Stone) e seu parceiro Nick Manning (Noah Taylor - tem cara de tudo, menos de policial) iniciam as investigações, no decorrer das quais chegam à conclusão de que o crime pode estar relacionado com os fatos ocorridos em 1989, quando vários homossexuais foram assassinados com o mesmo modus operandi e os mesmos motivos. Diante disso, eles vasculham o passado, interrogando várias pessoas que tiveram alguma relação com aqueles fatos trágicos, entre as quais parentes das vítimas, homossexuais amigos daqueles que morreram e policiais aposentados que investigaram os crimes. Durante essa fase do trabalho, a detetive Tori descobre que seu próprio irmão  surfista e gay também havia sido assassinado naquela época (situação um tanto forçada). O filme acompanha Tori e Nick trabalhando no caso e buscando pistas até chegar ao assassino, cuja identidade só é revelada no desfecho. No gênero policial, a minissérie até que funciona, prendendo a atenção do espectador até o final, mas deixa a desejar no quesito ação. Ou seja, o ritmo é um pouco lento e algumas sequências entediantes. Nada que mereça uma indicação entusiasmada.            

domingo, 2 de agosto de 2020


Se tiver oportunidade, não perca “REDE DE ÓDIO” (“HEJTER”), 2020, Polônia, 2h16m, roteiro de Mateusz Pacewicz e direção de Jan Komasa (“Corpus Christi”, indicado ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2020). Trata-se de um dos filmes mais interessantes e criativos feitos nos últimos anos, além de polêmico e impactante. E, acima de tudo, bastante atual, pois trata dessa praga das fake news, um fenômeno que tem prejudicado muita gente pelo mundo afora. A história é toda centrada no jovem Tomek (Maciej Musialowski), um estudante de Direito que acaba de ser expulso da Universidade de Varsóvia por plágio, ou seja, apresentou um trabalho utilizando um texto que não era seu. Sua trajetória de mentiroso não terminará por aqui. Nas entrevistas de emprego, ele continua mantendo o status de estudante de Direito. Ele consegue finalmente um trabalho numa conceituada empresa de relações-públicas de Varsóvia, na verdade uma empresa de fachada que atua, contratada por clientes importantes, disseminando notícias falsas (fake news) e manchando a reputação de muita gente, principalmente do mundo político, artístico e empresarial. Uma verdadeira praga do mundo moderno. Um dos primeiros trabalhos de Tomek foi inventar maneiras de denegrir a imagem do político Pawel Rodnick (Maciej Stuhr) às vésperas de uma importante eleição. Para conseguir subsídios para montar sua estratégia demolidora contra o político, Tomek se aproxima de uma família importante da sociedade de Varsóvia, grande apoiadora da candidatura de Pawel. É nesse contexto que Pawel mostrará seu lado perverso de manipulador e psicopata digital, colocando em prática toda a sua crueldade virtual em prol do ódio. E não é apenas no mundo virtual que ele destila toda a sua maldade, mas também no mundo real, envolvendo-se emocionalmente com as pessoas e enganando-as com suas performances teatrais. Um perfeito artista do mal, um propagador de ódio.  Sua crueldade chega ao auge quando conhece um fanático extremista nacionalista contrário às ideias do político Pawel, levando o espectador a acreditar que um desfecho trágico está prestes a acontecer. Também fazem parte do ótimo elenco Vanessa Aleksander, Danuta Stenka, Agata Kulesza e Jacek Koman, entre outros atores poloneses da mais alta qualidade. Mas a estrela máxima é realmente Maciej Musialowski no papel de Tomek, um monstro na interpretação de outro monstro. “Rede de Ódio” estreou no Festival Internacional de Cinema de Treblinka (Polônia”), conquistando o prêmio de “Melhor Filme Narrativo Internacional”. O reconhecimento à sua qualidade não parou por aí. Após ser lançado na plataforma Netflix, em 29 de junho de 2020, o filme logo passou a figurar na lista Top 10. A polêmica maior, porém, aconteceria três semanas depois do final das filmagens, quando Pawel Adamowicz, prefeito de Gdansk, seria assassinado em pleno evento público. Por causa disso, o lançamento do filme teve de ser adiado e quase ficou de fora do circuito comercial na Polônia. Resumo da ópera: “Rede de Ódio” é um filme obrigatório, poderoso e impactante. Não duvido que seja indicado para representar a Polônia no Oscar 2021 para disputar o prêmio de “Melhor Filme Estrangeiro”. E com grandes chances de vencer.