“POR UMA MULHER” (“Pour Une
Femme”), 2013. A história desse drama francês é ótima, inspirada nas memórias
da mãe da diretora Diane Kuris - em alguns filmes anteriores, a mãe da diretora também virou personagem. O filme começa em 1985, quando Anne (Sylvie
Testud), ao remexer as coisas da mãe, falecida há três meses, encontra algumas fotos e um diário. Em flashback, a ação passa para 1945. Três anos antes, os judeus
russos Michel (Benoit Magimel) e Léna (Melanie Thierry) fogem de um campo de
concentração nazista na França. Vão morar em Lyon. Michel já está estabelecido como
alfaiate com loja própria. Léna dá mostras de que está infeliz, pois fica
trancada no apartamento tomando conta da filha pequena – Anne. Ela quer
trabalhar, nem que seja na alfaiataria, mas Michel não permite. Até que um dia
chega Jean (Nicolas Duvauchelle), que Michel apresenta como sendo seu irmão e o
hospeda em sua casa. Na verdade, Jean faz parte de uma organização judaica que
caça criminosos nazistas pela Europa e está em Lyon para realizar uma missão.
Com o tempo e a convivência praticamente diária, Léna vai se aproximar cada vez
mais de Jean. Pouco antes de estrear nos cinemas brasileiros, o filme foi
exibido no Festival do Rio de Janeiro, em setembro de 2014. No elenco, destaque para esse estupendo ator que é o francês Benoit Magimel. O filme é muito bom e merece ser conferido por quem curte cinema de qualidade.
O drama “PIAZZA FONTANA: UMA CONSPIRAÇÃO ITALIANA” (“Romanzo di Una Strage”), 2014, direção de Marco Tullio Giordana, dá sequência à tradição do cinema italiano de realizar ótimos filmes políticos. Já tivemos Elio Petri (“Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita"), Gillo Pontecorvo (“A Batalha de Argel”), Francesco Rosi ("O Caso Mattei") e Marco Bellocchio (“Vincere”), entre tantos outros diretores. O filme de Giordana relata o caso do atentado à bomba ocorrido em 12 de dezembro de 1969 no Banco Nacional da Agricultura, na Praça Fontana, em Milão, que provocou a morte de 17 pessoas e ferimentos em outras 88. O filme centra a história nas investigações realizadas pelo Comissário Luigi Calabresi (Valerio Mastandrea), mostrando a detenção de suspeitos anarquistas e seus posteriores interrogatórios. A morte de um deles, Giuseppe Pinelli (PierFrancesco Favino), que “cometeu suicídio” quando era interrogado, complicará a vida de Calabresi. Durante as investigações, Calabresi passa a desconfiar que fanáticos de direita tenham praticado o atentado para jogar a culpa nos anarquistas. Sofrendo pressões de ambos os lados, Calabresi tentará descobrir a verdade e agir com justiça. O maior mérito do filme é mostrar, quase num tom de reportagem – todo o enredo é baseado em fatos reais-, o contexto político conturbado vivido naqueles anos pela Itália e por outros países no mundo inteiro. Um filme muito bem realizado, ideal para quem gosta da história política mundial contemporânea.
Do
bumbum de um nenê e da cabeça de um diretor de cinema a gente nunca sabe o que
vai sair. Muitas vezes sai a mesma coisa. Principalmente se o diretor for também
o escritor da história. É o caso do dramaturgo norte-americano Neil LaBute, que
escreveu e dirigiu, em 2013, “SOME VELVET MORNING” (ainda sem tradução por aqui). O filme tem
apenas dois personagens e é inteiramente ambientado numa casa. A campainha toca
e Velvet (Alice Eve) atende à porta. De mala e cuia (só dá pra ver a mala)
aparece Fred (Stanley Tucci), seu ex-amante que não via há cerca de quatro
anos. Ele chega e diz que se separou e veio para morar com ela. Aí tem início
um verdadeiro tormento para o espectador. Fred e Velvet vão discutir a antiga
relação, o fato dela ser uma prostituta de luxo e ainda ter como namoradinho o
filho do ex-amante. E assim o filme se arrasta até o final, com diálogos enfadonhos
e medíocres. Pela sua experiência em dramaturgia, LaBute certamente optou por
adaptar para a tela um texto idealizado para os palcos. Mas nem se fosse uma
peça teatral se salvaria da chatice. No desfecho, uma reviravolta tenta poupar
o espectador de uma overdose de tédio. Só para ilustrar, o título original foi
inspirado numa canção gravada em 1967 por um dueto formado por Nancy Sinatra e
Lee Hazlewood.
“CANTINFLAS – A Magia da Comédia” (“Cantinflas”), 2014, México, é uma merecida – e até tardia –
cinebiografia do ator Mario Moreno, que nas décadas de 40 e 50 foi o maior
ídolo do cinema mexicano. Seu personagem Cantinflas arrastou multidões para as
salas de cinema do México e também foi um grande sucesso em outros países, o
Brasil incluído. Cantinflas nasceu como personagem cômico na década de 30,
quando fazia shows em teatros de periferia e circos. Nesses palcos, sua maior
virtude como comediante era a improvisação. Depois que começou a fazer filmes,
seu sucesso foi arrasador. Por causa de sua indumentária e maneira de atuar,
com seus trejeitos corporais, Cantinflas tinha um pouco de Carlitos e Mazzaropi.
Em 1955, foi convidado por Hollywood para ser o principal protagonista de “Volta
ao Mundo em 80 Dias”, filme que fez um enorme sucesso e lotou cinemas no mundo
inteiro. Por esse filme, ele conquistou o Globo de Ouro como Melhor Ator de Comédia
ou Musical, vencendo ninguém menos do que Marlon Brando. O filme conta tudo isso e mais alguns detalhes de sua vida pessoal, como seu grande amor pela dançarina russa Valentina Ivanova (Ilse Salas), com a qual viria a se casar. O ator que interpreta
Cantinflas é o ótimo Óscar Jaenada, cuja semelhança com o antigo ídolo mexicano
é impressionante. O fato de Óscar ser espanhol gerou uma onda de protestos no
México. Escolhido para representar o México na disputa do Oscar 2015 de Melhor
Filme Estrangeiro – não ficou entre os 9 pré-finalistas -, o filme teve
críticas injustamente desfavoráveis, pois é bem feito e conta com um ótimo
elenco. Charles
Chaplin disse, lá pelos anos 50, que “Cantinflas é o maior comediante vivo”. Precisa dizer
mais?
Baseada
em fatos reais e situada em 1988, a história contada em “GIBRALTAR” tem como personagem principal Marc Duval
(Gilles Lellouche), um francês expatriado dono de um bar na ilha de Gibraltar,
na Península Ibérica. Ele é casado e pai de um bebê. O bar é frequentado por
todo tipo de gente, incluindo traficantes de drogas, principalmente árabes e espanhóis.
Com a promessa de uma compensação financeira, o agente alfandegário Redjani
Belimane (Tahar Rahim) convence Duval a ser seu informante, denunciando qualquer
situação suspeita. Com muitas dívidas, ainda mais depois de ter comprado um
barco, Duval aceita a condição de dedo-duro. Quem frequenta o bar normalmente
fica em torno de uma mesa de snooker, e é lá que Duval coloca um microfone e um
gravador. O trabalho de informante é um sucesso. Prometendo ainda mais
dinheiro, Belimane arranja outras missões para Duval, inclusive levar drogas em
seu barco para vendê-las. Na hora da entrega, vinha o flagrante. Se esse
trabalho já era muito perigoso, Duval vai torná-lo ainda mais depois que se
envolve com o italiano Claudio Lanfredi (Riccardo Scamarcio), o traficante nº 1
da Europa na época. Para piorar, Cécile (Mélanie Bernier), irmã de Duval, começa
um caso com o traficante italiano. É o tipo de filme que fica fácil prever que não haverá happy-end. Mais uma vez, o cinema francês faz um bom
filme policial, repleto de ação e suspense, e valorizado pelas presenças de
ótimos atores como Lellouche, Rahim e Scamarcio.
As
guerras, em especial a Segunda Mundial, sempre forneceram boas histórias para o
cinema. Quase todas baseadas em fatos reais ou pelo menos inspiradas em
relatórios militares. Mais um bom filme do gênero chega dos EUA, estrelado por
Brad Pitt. Intitulado “CORAÇÕES DE FERRO” (“Fury”), 2014, conta a emocionante aventura de cinco tripulantes de
um tanque de guerra norte-americano no final da Segunda Guerra Mundial, quando
as forças aliadas lutam com os nazistas dentro da própria Alemanha. O durão e violento Sargento Wardaddy
(Pitt) lidera o grupo, que num determinado combate perde um membro da
tripulação, que logo é substituído pelo novato Norman (Logan Lerman). Só que
tem um detalhe: Norman entrou no exército como datilógrafo e, por alguma falha
burocrática, acabou na linha de frente. A tripulação do tanque, apelidado de “Fury”,
é composta ainda por Boyd Swan (Shia Labeouf), Trini Garcia (Michael Peña) e Travis
(Jon Bernthal). O filme é bastante
realista nas cenas de violência e de combates. Tem ação do começo ao fim e
muito suspense. Para os fãs do gênero, um programão!
“ARMÊNIA” (“Le
Voyage en Arménie”), 2006, França, direção de Robert Guédiguian, é uma tocante
e muito interessante homenagem ao pequeno país que até pouco tempo atrás era
uma república soviética. A história é centrada em Anna (a ótima Ariane
Ascaride), uma médica que mora em Marselha com o marido Pierre (Jean-Pierre Darroussin)
e a filha Jeanette (Madeleine Guédiguian). Ela descobre que seu pai Barsam
(Marcel Bluwal) tem um grave problema de coração e precisa ser operado. Só que
Barsam, depois de saber do diagnóstico, resolve viajar para sua Armênia natal - uma viagem de despedida? Anna vai atrás dele, sem saber exatamente onde ele está. Nessa busca, Anna conhecerá
personagens bastante interessantes, como um herói da guerra da independência,
Yervanth (Gérard Meylan), e a jovem Schaké (Chorik Griogorian), além de Manouk
(Romik Avinian), um senhor que se apresenta voluntariamente para levá-la de
carro – caindo aos pedaços – para vários lugares. Ao longo de sua busca pelo
pai, Anna – assim como o espectador - vai conhecer um pouco da história, das tradições e
dos valores culturais da Armênia, como também verificar in loco como os armênios vivem nos dias de hoje. Pouca gente sabe,
mas a Armênia foi a primeira nação do mundo a adotar o cristianismo, no ano de
301 dC. Ou o fato de que o Monte Ararat é o símbolo maior do país, mas que,
para tristeza dos armênios, pertence hoje à Turquia. À parte esse contexto, vamos
dizer, histórico, o filme é bastante leve, agradável, bem humorado e, sem
exagero, irresistível. Não perca!
Apesar
de dramático ao extremo, “ESTRANGEIRA” (“Die Fremde”), 2010, é um ótimo filme alemão. Aliás, foi o candidado
da Alemanha ao Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011. A história mostra
a jovem Umay (Sibel Kebilli), de 25 anos, vivendo em Istambul com o marido
Kemal (Ufuk Bayraktar) e o filho Cem (Nizam Schiller), de 3 anos. Cansada do
marido violento, Umay foge com o filho para a Alemanha, onde vive sua família –
pais e três irmãos. Ela imaginava encontrar conforto e carinho na casa dos pais
e junto aos irmãos. Ledo engano! Por ter abandonado o marido, Umay é tratada
como se fosse uma prostituta. Se era espancada pelo marido em Istambul, agora é
maltratada pelos pais e pelos irmãos, com direito a apanhar também. Ela foge
pela segunda vez e vai parar numa espécie de abrigo para mães solteiras e
vítimas de violência doméstica. Apesar de tudo o que aconteceu, Umay ainda vai
tentar se reaproximar da família, o que será um grande erro com consequências
trágicas. Dirigido pela austríaca Feo Aladag, o filme tem o mérito de denunciar
o absurdo tratamento que é destinado às mulheres no mundo árabe, onde os
valores culturais admitem até o marido bater na mulher. Numa das conversas que
tem com o pai, Umay justifica sua fuga dizendo que não aguentava mais a violência
de Kemal. O pai responde: “E daí, ele é seu marido. Ele tem esse direito. Além
do mais, um tapinha de vez em quando não faz mal”. Haja Lei Maria da Penha... O
desempenho espetacular da atriz alemã de origem turca Sibel Kebilli valoriza
ainda mais esse ótimo drama alemão.
“O LIBERTADOR” (“Libertador”)
é uma coprodução Venezuela/Espanha de 2013, direção de Alberto Arvelo. Trata-se
de uma superprodução (orçada em mais de US$ 50 milhões) que conta a história da
trajetória do líder político e militar venezuelano Simón Bolívar (Edgar Ramirez),
que lutou contra o imperialismo espanhol e foi responsável pela independência
de Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Panamá. Simon era um rico
latifundiário que costumava ir para Paris curtir férias e fazer negócios. É na
capital francesa que ele conhece María Teresa (Maria Valverde), que seria sua
primeira mulher. Só que o casamento não dura muito, pois María Teresa contrai
malária e acaba morrendo. Desconsolado, ele retorna a Paris, onde reencontra um
antigo professor venezuelano, que o convence a voltar para a Venezuela e
começar uma revolução. A partir daí, o filme mostra os eventos que
transformaram Bolívar no maior herói americano, o “Libertador da América”. As
cenas das batalhas são muito bem feitas e comprovam que não houve economia com
locações, figurantes ou indumentária da época. E também com o bom elenco, que
ainda conta com Danny Huston, Erick Wildpret, Juana Acosta, Gary Lewis e Iwan
Bheon. Trata-se de um filme bastante interessante que vai agradar,
principalmente, os espectadores que curtem cinebiografias de personagens
históricos.
Dos
filmes que abordaram ou tiveram como pano de fundo o conflito Palestina/Israel,
“MIRAL”, França/Israel, 2010, talvez seja o mais
esclarecedor. A história, inspirada no romance homônimo escrito pela jornalista
Rula Jebreal, começa em 1947, portanto um ano antes da criaç ão do Estado de Israel. O enredo acompanha a
trajetória de três gerações de mulheres, começando com Hind Husseini (Hiam
Abbass), que naquele ano criou em Jerusalém o Instituto Dar Al-Tifel, destinado
a acolher e educar crianças palestinas refugiadas e órfãs, e terminando com
Miral (Freida Pinto). Paralelamente à história dessas mulheres, o filme destaca,
de forma didática, os fatos que contribuíram para a radicalização do conflito.
Embora o diretor norte-americano Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”
e “Basquiat”) tenha descendência judaica, o filme é claramente a favor da causa
dos palestinos – criação de um estado independente -, e não economiza críticas
aos israelenses, considerados os grandes vilões da história. Quando o filme
estreou, em 2010, no Festival de Veneza, provocou enorme polêmica. Logo depois,
foi exibido numa sessão especial na Assembleia Geral das Nações Unidas, sob
protestos de Israel e do Comitê Judaico Americano. Polêmicas à parte, o filme é
muito bom e merece ser visto por quem curte cinema de qualidade e gosta de
estar bem informado sobre os fatos da história contemporânea.
Quando
as luzes se acenderam ao final da exibição do drama alemão “NADA
DE MAL PODE ACONTECER” (“Tore Tanzt”),
direção de Katrin Gesse, durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo, em outubro de 2014, a plateia – os que ficaram, pois muitos foram embora
na metade - estava completamente em silêncio. Na verdade, chocada, pois o filme
é angustiante, desagradável demais. É repleto de cenas envolvendo violência,
tortura física e psicológica, sodomia e maus tratos a animais. A história é
centrada no jovem Tore (Julius Feldmeier), pertencente aos Fanáticos de Jesus
(The Jesus Freaks), um movimento punk cristão que existiu na cidade de
Hamburgo. Tore não tem família e mora num abrigo juntamente com outros
integrantes do grupo. Um dia, no estacionamento de um posto de gasolina, ele vê
um motorista que não consegue fazer pegar o motor do seu carro. Tore vai até o
veículo, fecha o capô e faz uma oração. O carro pega na hora. Tore, em seu fanatistmo
religioso, acredita que é abençoado por Deus, quem sabe até o novo Messias. Benno
(Sascha Alexander Gersak), o motorista do carro, convida Tore para morar com
sua família – mulher, uma filha adolescente e um garoto de uns 5 anos. Benno,
porém, é a maldade em pessoa, violento, um verdadeiro demônio. Ele assedia
sexualmente a jovem enteada e encontra em Tore um bom saco de pancadas. Percebendo
os instintos animalescos de Benno, Tore resolve testar sua fé colocando em
prática dois dos principais ensinamentos de Cristo: oferecer a outra face e perdoar
sempre. Segundo ele crê, com Jesus no coração nada de mal pode acontecer. Saber que
a história é baseada em fatos reais talvez seja mais chocante do que o próprio
filme.
O fantasma do Alzheimer assombra milhões de famílias no munto inteiro. Só
quem teve um parente ou alguém próximo atingido pela doença sabe de suas consequências - dor, sofrimento e desesperança. No
filme “PARA SEMPRE ALICE” (“Still Alice”), EUA, 2014, direção de
Richard Glatzer, o espectador terá a oportunidade de acompanhar o declínio mental
da dra. Alice Howland (Juliane Moore), conceituada professora de Linguística
que passa a sofrer de um tipo raro de Alzheimer. Lidar com a doença e com a
doente não é tarefa das mais fáceis para o marido John (Alec Baldwin) e os três
filhos Ana (Kate Bosworth), Lydia (Kristen Stewart) e Tom (Hunter Parrish). Para
aumentar ainda mais o drama familiar, um teste revela que um dos filhos tem
100% de chance de também ser atingido pela doença no futuro. A história,
baseada no best-seller da neurocientista Lisa Genova, é muito triste,
principalmente quando acompanha os esforços de Alice para não sucumbir às
armadilhas do Alzheimer. Toda hora Alice se pergunta até quando será a mesma. “Será
que amanhã eu acordarei sendo a mesma Alice?”. Um dos momentos mais tocantes do
filme é quando Alice ministra uma palestra sobre a doença, durante a qual
revela como tenta conviver com a crescente perda da memória. Juliane mostra a
competência de sempre, atuando com a carga de emoção que o papel exige. Kristen
Stewart, a mocinha da Saga Crespúsculo, é outro destaque do elenco. Um filme
para refletir e se emocionar.
Um
filme com emoção, delicadeza e muita sensibilidade. Assim pode ser definido o
drama inglês “NA CADÊNCIA DO AMOR” (“Lilting”), 2013, dirigido pelo cambojano Hong Khaou. O cenário é
Londres. Depois da morte trágica de seu namorado Kai (Andre Leung), o jovem
Richard (o ótimo Ben Whishaw) tenta uma aproximação com a “sogra” Junn (Pei-Pei Cheng),
que vive num asilo e nunca soube da relação homossexual do filho. Ela é uma
senhora tão teimosa a ponto de não falar inglês depois de muitos anos morando na
capital inglesa. No asilo, embora não fale a mesma língua, ela vive um namorico
com Alan (Peter Bowles), um senhor bem-humorado que insiste em levá-la para a
cama. A história do filme é centrada nos diálogos entre Richard e Junn, por
intermédio de uma intérprete, a jovem Vann (Namomi Christie). Richard tem como
objetivo cumprir alguns desejos manifestados por Kai, um deles tirar a mãe do
asilo. Entre as tentativas de Richard de cair nas graças de Junn e as dificuldades dela na convivência com Alan - o que resulta em bons momentos de humor -, o filme destaca algumas cenas em flashbacks mostrando
como era o relacionamento entre o jovem casal gay. O filme estreou no Festival de
Sundance 2014, onde conquistou o Prêmio de Melhor Fotografia. Muito pouco para
um filme tão original e sensível. Pena que o título dado em nossa tradução seja por demais ridículo para um filme tão bom.
Considerado como a grande obra-prima do diretor Aleksandr Sokúrov e do próprio cinema russo e mundial, “ARCA
RUSSA” ("Russkij Kovcheg"), 2002, realmente é de encher os
olhos. O filme é original, criativo e erudito. É todo filmado numa única tomada
(plano-sequência), sem cortes, em seus 97 minutos de duração. Toda a ação se
desenvolvendo no interior do Museu Hermitage, em São Petersburgo, antigo
palácio dos czares e dono de um acervo inestimável de obras de arte. A câmera percorre
os 35 salões do museu na companhia de um aristocrata europeu que funciona como
uma espécie de guia. Ele vai denominando as salas, alguns quadros e esculturas,
identificando seus autores, enquanto a câmera vai captando os detalhes
arquitetônicos dos amplos corredores, peças artísticas e a decoração dos
ambientes. Quando a câmera ingressa em alguns salões, o cenário volta no tempo
e damos de cara com algumas figuras da maior importância da história russa,
como Pedro, o Grande, Catarina, a Grande, Catarina II, a família do Czar
Nicolau e a Czarina Aleksandra. Quem tiver paciência e chegar até ao final terá o
prazer e o privilégio de assistir à reprodução de um baile da corte do Czar Nicolau
II com a participação de 3 mil figurantes, num esmero visual próprio de uma
grande obra de arte. Um dos filmes mais importantes do cinema atual.
Imperdível!
“FÉRIAS NA GRÉCIA”
(“Sune I Grekland”), Suécia, 2012, é uma comédia ao estilo daquela série de
filmes intitulada “Férias Frustadas”, com Chevy Chase e Beverly D’Angelo,
grande sucesso na década de 80. Neste filme sueco, o chefe de família é o
contador Rudolf (Morgan Alling), que todos os anos, nas férias, embarca num
trailer com a mulher e os filhos para um lugar chamado Ilha Mosquito. A família
não aguenta mais essa rotina. Quando tudo estava pronto para uma nova e
entediante viagem, o chefe de Rudolf pede a ele que vá representar o escritório
num congresso de contadores na Grécia. Com tudo pago. Rudolf chega em casa e
anuncia a novidade, para a alegria da mamãe Karin (Anja Lundkivist) e dos três
filhos, principalmente o adolescente Sune (William Ringström), que já imagina
grandes aventuras amorosas na Grécia. Só que o chefe de Rudolf resolve ir com a
esposa para o tal congresso e cancela a viagem do seu funcionário. Rudolf não quer decepcionar a família e resolve
assumir as despesas da viagem, endividando-se completamente. Como em “Férias
Frustadas”, a família de Rudolf, incluindo o próprio, se envolve em inúmeras
confusões, o que garante situações hilariantes e boas risadas. A história é baseada no livro "Anderssons in Greece", um clássico da literatura infanto-juvenil sueca, escrito por Anders Jacobsson e Sören Olsson. Trata-se de um filme ideal para curtir
numa sessão da tarde com a família, pipoca e guaraná. Um bom programa para quem não exige muito.
A
presença de Juliette Binochet e Clive Owen é um bom motivo para assistir à
comédia romântica “POR FALAR DE AMOR” (“Words and Pictures”), EUA, 2013, direção de Fred Schepisi. Jack Marcus
(Owen) é professor de literatura inglesa numa escola secundária. É um poeta
frustrado, editor de uma revista da escola e beberrão crônico. Uma nova
professora de Artes Plásticas é contratada pela escola. Chama-se Dina Delsanto
(Binochet). No primeiro dia, ela tem seu primeiro contato com Marcus na sala
dos professores. E o encontro não é dos mais simpáticos – clichê dos clichês
dos filmes românticos. Em sua primeira aula, ministrada aos mesmos alunos da turma de
Marcus, Delsanto defende a afirmação de que uma imagem vale por mil palavras.
Ao saber disso, Marcus retruca aos alunos que as palavras são muito mais importantes do que a arte visual. A guerra entre os dois professores está declarada, dividindo os
alunos entre os defensores da tese de Delsanto e aqueles que dão valor às
palavras, em apoio a Marcus. Até que os argumentos de um e de outro são
bastante interessantes, fornecendo um toque de erudição ao filme. O toque
dramático da história fica por conta do personagem de Binochet, que sofre de artrite
reumatoide, doença que prejudica os movimentos e provoca muita dor. No mais,
nada que mereça uma indicação entusiasmada.
“SEM RUMO”
(Rudderless”), 2014, EUA, marca a estreia do ator William H. Macy na direção. E
não fez feio. Trata-se de um drama com pano de fundo musical, estrelado por
Billy Crudup, Anton Yelchin, Felicity Huffman, Selena Gomez, Laurence Fishburne,
Miles Heizer e o próprio Macy. A história começa com o adolescente Josh
(Heizer) matando seis colegas e se suicidando na escola. Antes de cometer a
tragédia, Josh compunha músicas e as gravava em CDs. Ao arrumar o quarto do
garoto, a mãe Emily (Huffman) separa seus pertences e os entrega ao ex-marido Sam
(Crudup), hoje morando num barco e trabalhando como pedreiro – antes da
tragédia, ele era alto executivo de uma empresa. Antigo músico amador, Sam
encontra os CDs e começa a ouví-los. Ele escolhe uma das canções e consegue uma
oportunidade para uma apresentação no bar de Trill (Macy). Quentin (Anton Yelchin),
um jovem guitarrista, ouve a música e se encanta. Ele procura Sam e propõe que
formem uma banda para tocar aquelas músicas – Sam não fala que foram compostas
pelo filho, o que será um grande problema mais tarde. Embora o tom dramático
predomine, Macy consegue um bom resultado ao amenizá-lo, com muita música e
alguns momentos de humor, tornando seu filme um entretenimento bastante agradável.
Embora
não seja um grande filme, “GAROTA EXEMPLAR” (“Gone Girl”), 2014, EUA, já desponta como um dos
favoritos a ganhar algumas estatuetas no Oscar 2015. Acho um exagero, em todo
caso... Trata-se de um thriller inspirado no livro “Garota Exemplar”, de
Gillian Flynn, que também é a autora do roteiro. É o tipo de filme que só
permite comentar sua primeira parte para não estragar a surpresa da reviravolta
que mudará o rumo da história. Nick Dunne (Bem Affleck) é casado há cinco anos
com Amy (Rosamund Pike). O casamento vive uma crise quando, de repente, Amy
desaparece de casa. Os indícios apontam, inicialmente, para um provável
sequestro, mas a polícia descobrirá algumas pistas que colocam Nick como
principal suspeito de assassinato. O jogo psicológico, recheado de suspense, é
mantido até o final. Impossível não ficar ansioso para saber o que vai
acontecer. Méritos para o experiente diretor David Fincher (“Clube da Luta”, “Seven
– Os Sete Pecados Capitais”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”). A grande
surpresa do filme, além da inesperada reviravolta na história, é o ótimo desempenho
da atriz inglesa Rosamund Pike, que finalmente ganha um papel à altura do seu
talento.
“UM PEQUENO CASO DE SETEMBRO” (‘Bi Küçük Eylül Meselesi”), 2013, direção de Kerem Deren, é um drama
romântico turco daqueles bem açucarados. A jovem Eylül (a loiraça Farah Zeyner
Abdullah) sofre um acidente de carro com o namorado Atil (Onur Tuna). Quando é
levada para um hospital em estado grave, Eylül tem uma parada cardíaca por
minutos e durante um bom tempo fica desacordada. Quando acorda, não se lembra
do que aconteceu durante o mês anterior, setembro, quando viajou de férias com
a amiga Berrak (Ceren Moray) para a ilha de Bozcaada, no Mar Egeu. O filme
inteiro é dedicado ao esforço de Eylül para relembrar tudo o que aconteceu –
estranho para os nossos padrões que a mocinha do filme (Eylül) fume sem parar. Em
sua estada na ilha ela conheceu Tekin (Engin Akyürek), um tipo simples com cara
e jeito de autista que vive pelas ruas ganhando uns trocados para desenhar
placas e letreiros. Eylül e Tekin viverão um romance de férias. Em vários flashbacks, o filme mostra ao espectador
o que Eylül tenta relembrar. Parece que consegue, mas aí vem o desfecho com uma
reviravolta que tenta arrancar lágrimas, mas que deixa o filme ainda mais piegas, lembrando uma novela das Sete à moda turca.
Quem for diabético que tome cuidado: a dosagem de açúcar é elevadíssima!
“REACH ME” (ainda
sem tradução por aqui, mas algo como “Siga-me”), 2013, EUA, direção de John
Herzfeld, é uma comédia meio non sense
reunindo vários personagens cujos caminhos irão se cruzar um dia. Uma
piromaníaca em liberdade condicional, um policial que cada vez que mata procura
um padre para se confessar, uma atriz frustrada que acaba num filme pornô, um
jornalista que é obrigado por seu editor a descobrir o paradeiro de um
escritor, mafiosos em busca de vingança, capangas com remorso. E por aí vai. Cada
personagem com sua história, todos, de uma forma ou de outra, têm alguma ligação
com o livro de autoajuda intitulado “Reach Me”, escrito por Teddy
Raymonds (Tom Berenger), um ex-treinador de futebol americano que vive recluso.
Sylvester Stallone está no elenco como Gerald, o editor carrasco que ameaça
Roger (Kevin Connolly) de demissão caso ele não consiga uma entrevista com o tal escritor. Embora um tanto irregular, o filme tem algumas boas sacadas, como a
relação do policial Wolfie (Thomas Jane) com o Padre Paul (Danny Aiello). Cada
vez que mata um bandido, Wolfie corre para se confessar com o Padre Paul. Foram
tantas vezes que um dia o Padre Paul recusa-se a ouví-lo, dizendo que já se achava
um cúmplice. De um modo geral, é um filme interessante, com um bom elenco, que serve
como um entretenimento bastante agradável.
O cinema brasileiro tem tradição de fazer boas cinebiografias: “Gonzaga – De Pai
para Filho”, “Getúlio”, “Heleno” e "Cazuza - o Tempo não Para" são algumas delas. Agora, lança “TIM MAIA”, direção de Mauro Lima, que conta
a história da vida turbulenta do magistral cantor e compositor carioca. O
roteiro foi baseado no livro “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, escrito
por Nelson Motta. Dos primórdios no bairro da Tijuca, tocando bateria no conjunto
“The Sputniks”, ao lado de Roberto e Erasmo Carlos, passando pela temporada em
Nova Iorque, até o seu final trágico, aos 55 anos, afogado na bebida e nas
drogas, o filme não esconde quem foi Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia, um
ser humano dos mais execráveis, malcriado, prepotente, ególatra, irresponsável e
mais todos os adjetivos que formam um mau caráter. O que não se pode negar,
porém, e o filme deixa bem claro isso, é que Tim era um raro talento musical,
não apenas como cantor, mas também como compositor. A trilha sonora, deliciosa,
é recheada de seus maiores sucessos. O filme destaca também a grande amizade de
Tim com o cantor e compositor Fábio (lembram-se de “Stella”?), interpretado por
Cayã Reymond, o romance com Janaína (Alinne Moraes) e a sua indisfarçável mágoa
de Roberto Carlos. Não deixa de ser um filme bastante interessante. Destaques também para os atores Babu Santana (Tim adulto) e Robson Nunes (Tim jovem), ambos ótimos. Você vai,
com certeza, balançar muito na poltrona.
Se em
“Capitão Phillips”, de 2013, os piratas somalianos sequestram a tripulação e o
navio comandados por Tom Hanks, em “O SEQUESTRO” (“Default”),
EUA, 2014, os terroristas – também somalianos - fazem refém uma equipe de TV
norte-americana. Só que, ao invés de navio, desta fez é um avião prestes a
decolar do aeroporto das Ilhas Seychelles, no Oceano Índico. Se no filme com
Tom Hanks a tensão é de arrasar, neste é duas vezes de arrasar. Tanto a
tripulação do avião quanto a equipe de TV vão passar o maior sufoco. É o mesmo
suspense “mata-não-mata”, gritos e tortura psicológica. O objetivo dos
somalianos é que o jornalista Frank Saltzman (Greg Callahan), membro da equipe sequestrada,
faça uma entrevista com o líder do grupo, Atlas (David Oyelowo). Só que a
situação acaba saindo de controle e, ao contrário de “Capitão Phillips”, a
história não vai acabar bem. O filme é claustrofóbico demais - toda a ação se
passa dentro da aeronave. O espectador também vai sentir desconforto com a
câmera agitada, nervosa, como se tudo fosse filmado por um cinegrafista amador
tremendo de medo. Parece que a história é verídica, pois aparece muito
noticiário televisivo aparentemente verdadeiro sobre o sequestro. Deveria haver
alguma indicação nos créditos. De qualquer forma, é daqueles filmes com tanto
suspense e tensão que você nem percebe quando o saco de pipoca acabou nem que entortou o braço da poltrona.