“MANCHESTER À BEIRA-MAR” (“MANCHESTER
BY THE SEA”) teve seis indicações ao
Oscar 2017, inclusive de Melhor Filme (perdeu para “Moonlight”), mas conseguiu
que Casey Affleck (irmão mais moço do Ben) ganhasse o prêmio de Melhor Ator.
Trata-se de um filme altamente depressivo, repleto de tragédias, e quem sofre
mais é justamente Lee Chandler, o personagem interpretado por Affleck. Para explicar
porque ele se transformou num homem triste e melancólico, o roteirista e diretor Kenneth
Lonergan (“Conte Comigo”) recorreu a inúmeros flashbacks que se alternam com a ação do presente até o desfecho. O
filme começa e mostra Lee Chandler morando em Boston, onde trabalha como
zelador de dois edifícios. Vive isolado e deprimido. Para piorar, recebe a
notícia de que seu irmão Joe Chandler (Kyle Chandler) acabara de morrer,
deixando órfão seu filho adolescente Patrick (Lucas Hedges). A situação provoca
o retorno de Lee à sua cidade natal Manchester, onde terá de se confrontar com
a ex-esposa Randi (Michelle Williams) e remoer uma tragédia do passado. Mas é o
relacionamento difícil e conflituoso com o sobrinho Patrick que garante ao
filme as melhores cenas e os diálogos mais afiados. Um bom filme que merece ser
visto, sem dúvida valorizado pelo ótimo desempenho de Casey Affleck.
Quem
conhece um pouco de História deve se lembrar do atentado contra Adolf Hitler ocorrido numa
cervejaria de Munique no dia 8 de novembro de 1939, que matou 8 pessoas, menos
o alvo principal. O líder nazista escapou ileso, pois saiu 13 minutos antes da
bomba explodir. O autor do atentado, o carpinteiro Georg Elser, foi preso logo
depois. Hitler exigia que ele denunciasse os seus supostos parceiros, embora Elser tenha
agido sozinho. Dá-lhe tortura, uma especialidade dos nazistas. Este é o enredo do excelente drama histórico
alemão “13 MINUTOS” (“Elser”), 2014, dirigido por Oliver Hirschbiegel e
com roteiro de Fred e Léonie-Clair, pai e filha. O filme tem como foco central
o período em que Elser (Christian Friedel) passou na prisão, seus interrogatórios
e as sádicas torturas que sofreu. Aliás, as cenas de tortura são bastante
chocantes, podem incomodar os espectadores mais sensíveis. O filme também
destaca, em flashbacks, sua ligação
com a Frente Vermelha de Lutadores, organização associada ao Partido Comunista
Alemão, e os motivos que o levaram a praticar o atentado, além de sua paixão
por Elsa (Katharina Schüttler), esposa de um simpatizante nazista. O diretor
Hirschbiegel carrega no currículo o excelente “A Queda – As Últimas Horas de
Hitler”, indicado ao Oscar 2005 de Melhor Filme Estrangeiro. O diretor alemão também
trabalhou em Hollywood, dirigindo filmes como “Invasores”, “Rastros de Justiça”
e “Diana”. “13 Minutos” é mais um filme alemão de muita qualidade. Obrigatório!
O drama
francês “SKY”, 2015, roteiro e direção de Fabienne Berthaud, é todo
ambientado nos Estados Unidos e conta a história de Romy (Diane Kruger) e
Richard (Gilles Lellouche), que resolvem sair em férias para tentar salvar um
casamento em crise. De Paris, eles vão para os EUA dispostos a percorrer as
paisagens desérticas da Route 66. A escolha não poderia ter sido pior. Em
poucos dias eles se separam depois de uma violenta discussão e ela segue
estrada, chegando a Las Vegas. Sem
dinheiro, ela acaba se vestindo de coelhinha e, ao lado de dois sósias de Elvis
Presley, ganha uma graninha tirando fotos com turistas nas calçadas de Vegas. Na
cidade dos cassinos, ela conhece Diego (Norman Reedus), cujo aspecto repugnante
é incrementado por acessos de tosse. Como se não bastasse, Romy ainda vai a uma
benzedeira índia. Enfim, quem viu alguns filmes de Diane Kruger, como “Adeus,
Minha Rainha” ou “Tudo por Ela”, vai estranhá-la num papel tão constrangedor e num
filme tão fraco, que, aliás, não foi exibido comercialmente por aqui. E duvido que seja, para o bem da reputação de Kruger e para alívio do pessoal que curte cinema de qualidade.
“UM INÍCIO PROMISSOR” (“Um Début
Prometteur”), 2014, França, roteiro e
direção de Emma Luchini. A história, baseada no romance “Au Diable Vauvert”, de
Isabelle Blondie, é centrada em dois irmãos com uma grande diferença de idade.
Martin (Manu Payet) já é quase quarentão, alcoólatra e drogado, não trabalha e
vive passando por clínicas de recuperação. O mais novo, Gabriel (Zacharie
Chasseriaud), de 16 anos, vive no mundo da lua e acaba se apaixonando por uma
mulher com o dobro de sua idade, Mathilde Carmain (Veerle Baetens). Os irmãos
são filhos de um horticultor, o esquisito Francis Vauvel (Fabrice Luchini, pai
da diretora). Parece uma comédia romântica. Como não provoca risos nem
sorrisos, não emplaca como comédia. Como romance, também passa longe. Ou seja,
não há muitos atrativos que possam motivar uma recomendação entusiasmada, a não
ser a presença da atriz belga Veerle Baetens, que arrasou no ótimo “Alabama
Monroe”, filme de 2012, e que aqui está mais sensual do que nunca. O grande ator Fabrice Luchini aparece pouco, provavelmente para
dar uma força para a filha diretora. Em resumo, filme dos mais descartáveis. Ao contrário do que diz o título, nem o início é promissor.
Já vi
muitos filmes bons com elencos formados por ilustres desconhecidos, assim como
assisti a muitos filmes ruins com astros consagrados. Neste segundo caso incluo
“BELEZA OCULTA” (“Collateral Beauty”), EUA, 2016. Olha só o elenco: Will Smith, Kate Winslet,
Helen Mirren, Keira Knightley, Edward Norton, Michael Peña e Naomi Harris. Elenco de primeira para um filme de segunda. A
história: o empresário Howard (Smith) é um dos sócios de uma famosa agência de
propaganda. É considerado um gênio criativo e dos negócios. Depois da morte de sua filha de 6 anos
de idade, ele entra em crise existencial, se transforma num morto-vivo, começa a brincar com peças de dominó e a escrever cartas para a Morte, o Tempo e a Vida. É mole? Tem mais. Seus sócios
na agência resolvem contratar atores para representar os destinatários das
cartas e tentar conversar com Howard. Quer mais? Uma mãe que também perdeu a
filha ouve um conselho de uma misteriosa mulher: “Você precisa ver a beleza oculta”. Vá
dizer isso a alguém que acaba de perder um ente querido. Os responsáveis por
esse besteirol: o roteirista Allan Loeb (“Coincidências do Amor”) e o diretor
David Frankel (“Marley & Eu”). Eles tentaram fazer um filme para o público
chorar, exagerando no tom emotivo e no sentimentalismo barato, utilizando diálogos
artificiais e de uma profundidade milimétrica. Com toda razão, o filme foi
massacrado pela crítica especializada. Não perca seu tempo!
Baseado
em fatos reais, relatados no livro “The Septembers of Shiraz”, da escritora
iraniana Dalia Sofer, e transformado em roteiro por Hanna Weg, o drama “SETEMBRO
EM SHIRAZ” (“Setptembers of Shiraz”), EUA, 2015, conta a história de uma
família judia que sofreu nas mãos dos radicais fieis ao regime do aiatolá
Khomeini logo após a deposição do Xá Reza Pahlevi, em 1979. Isaac (Adrien Brody)
é um joalheiro de sucesso em Teerã, mas depois da revolução é acusado de ser
espião de Israel. Ele é preso e torturado, enquanto sua esposa Garnez (Salma
Hayek) faz de tudo para libertá-lo. A situação de Isaac se complica ainda mais quando
descobrem uma carta onde o deposto Xá Pahlevi agradece e elogia um de seus
trabalhos. Dirigido pelo diretor australiano Wayne Blair (“Música da Alma”), o
filme consegue manter o clima de tensão do começo ao fim. O filme é quase todo
falado em inglês, com Adrien Broden e Salma Hayek tentando caprichar no sotaque.
Vale ser visto por contar uma história que realmente aconteceu. A ideologia implementada naquela época no Irã tem muito a ver com os princípios do atual e sanguinário
Estado Islâmico.
“LATIN LOVER”, 2014, Itália, roteiro e direção de Cristina
Comencini. No 10º aniversário da morte do famoso galã Saverio Crispo (Francesco
Scianna), sua cidade natal resolve resgatar sua memória com um dia de
homenagens. Além de grande ator, requisitado inclusive por Hollywood, Saverio
era um mulherengo crônico - impossível não lembrar de Marcelo Mastroianni. As duas viúvas oficiais, mais suas cinco filhas são convidadas para participar desse dia especial. Elas se reencontram um
dia antes, oportunidade em que relembram a convivência que tiveram com Saverio,
trocam confidências e revelam alguns segredos de alcova. Além disso, há o
marido espanhol de uma delas, que assedia a cunhada mais jovem e bonita. No
fundo, Cristina Comencini (“O Mais Belo Dia da Minha Vida”) presta uma
homenagem ao cinema italiano, resgatando o gênero que consagrou, entre outros, os diretores Dino
Risi e Mario Monicelli, dois mestres da comédia. No desfecho, a projeção de um
documentário com Saverio lembra a cena final de uma obra-prima do cinema
italiano: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatori. O principal trunfo de
Comencini foi contar com um excelente elenco feminino: Virna Lisi, Marisa Paredes,
Valeria Bruni Tedeschi, Angela Finocchiaro, Candela Peña, Nadeah Miranda. Este,
aliás, foi o último filme da diva Virna Lisi, a atriz mais bonita do cinema
italiano nos anos 60/70, que morreu logo depois do final das filmagens. O filme
é dedicado a ela. Também atuam com destaque os atores espanhóis Lluís Homar e
Jordi Mollià. Enfim, um programa delicioso.
“CHEVALIER”, 2016, Grécia, direção
de Athina Rachel Tsangari e roteiro de Efthymis Filippou. Seis amigos partem para
um cruzeiro num luxuoso iate com a ideia de pescar e praticar mergulho. Só que
o barco apresenta um problema mecânico e é obrigado a permanecer ancorado por
uns dias no golfo de Daronikos (Mar Egeu). Para passar o tempo, eles inventam
um jogo chamado “Chevalier”, que exige um confronto psicológico entre os
participantes, originando desavenças, intrigas e até agressões físicas. Eu
descreveria como uma terapia de grupo tumultuada. É preciso ter uma enorme
paciência para chegar ao final do filme, monótono ao extremo e repleto de
diálogos sem nexo, bem ao estilo da diretora Athina Tsangari, responsável por
um dos filmes mais esquisitos que já vi: “Attenberg” (2010). “Chevalier” é mais
compreensível e não tão chato. Seria injusto, porém, não destacar
o excelente trabalho dos atores e a ótima fotografia. De qualquer forma, o
filme foi o representante oficial da Grécia na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme
Estrangeiro.
A Segunda
Grande Guerra já rendeu centenas, talvez milhares, de histórias que se
transformaram em livros ou filmes. Quando a gente pensa que tudo já foi contado
vem mais uma, e assim tem sido há muitos anos. Duas das mais recentes histórias
foram contadas no filme “Até o Último Homem”, dirigido por Mel Gibson, e no
dinamarquês “TERRA DE MINAS”, ambos concorrentes ao Oscar 2017, o
segundo pelo prêmio de Melhor Filme Estrangeiro (vencido pelo iraniano “O
Apartamento”, de Asghar Farhadi). “Terra de Minas” conta uma história incrível,
principalmente por ser baseada em fatos reais. Quando a guerra caminhava para o
seu final, os alemães acreditavam que as forças aliadas invadiriam a Europa pelo
litoral da Dinamarca, há anos ocupada pelos nazistas. Acreditando nessa
possibilidade, os estrategistas alemães deram ordem de instalar mais de um milhão de minas nas praias dinamarquesas. Quem conhece um pouco de História sabe que a
invasão ocorreu na Normandia (França). Quando terminou a guerra, o exército
dinamarquês resolveu utilizar os dois mil soldados alemães feitos prisioneiros
para escavar e desarmar todas essas minas. O filme, escrito e dirigido por Martin
Zandvliet, centraliza toda a ação num grupo de 14 soldados alemães colocados sob
o comando do rigoroso sargento dinamarquês Carl Leopold Rasmussen (o estupendo
Roland Moller). Além de não terem a mínima experiência no desarmamento de
minas, os alemães eram todos muito jovens, alguns deles recém-saídos da
adolescência. O filme reserva momentos de alta tensão, principalmente durante o
trabalho dos garotos, durante o qual uma tremida de mão significava uma
explosão. Mas tem seus momentos comoventes, que servem para amenizar o contexto
dramático e trágico da história. Impossível não se emocionar com a situação dos
garotos alemães, principalmente quando um deles chora e chama pela mãe. Um filmaço,
simplesmente imperdível!
O drama
“MEDITERRANEA”, 2015, Itália, explora um tema dos mais atuais: a fuga de
imigrantes africanos para a Europa. É o primeiro filme de longa-metragem
escrito e dirigido pelo norte-americano radicado na Itália Jonas Carpignano.
Para realizar “Mediterranea”, Jonas entrevistou inúmeros imigrantes que
conseguiram chegar ao litoral italiano, inclusive o ator principal do filme,
Koudous Seihon. Jonas centra a história em dois imigrantes: Ayiva (Sehon) e
Abas (Alassane Sy). A dupla, juntamente com um grupo de imigrantes, sai de
Burkina Faso para tentar melhorar de vida na Itália. A viagem é uma verdadeira
aventura – e muito perigosa. Eles atravessam a Argélia e a Líbia, passam fome,
enfrentam o calor do deserto e ainda são assaltados. Além disso, enfrentam uma
arriscada travessia pelo Mar Mediterrâneo num barco em péssimo estado. No meio
do caminho, são resgatados pela guarda costeira italiana e conseguem chegar e
se estabelecer na cidade de Rosarno, na região da Calábria. O primeiro inimigo
que encontrarão é o rigoroso inverno, além da rejeição violenta dos moradores
locais. Ayiva e Abas acabam trabalhando numa plantação de laranjas, onde o
regime é de semiescravidão. Tudo muito longe do paraíso que esperavam
encontrar. Jonas conduz o filme de forma bastante realista, como se fosse um
documentário, sensação reforçada pelo elenco formado quase que integralmente
por verdadeiros imigrantes africanos e alguns italianos locais. Um filme
bastante esclarecedor, de grande impacto, que merece ser visto por quem aprecia
cinema de qualidade.
“AMOR À PRIMEIRA BRIGA” (“Les
Combattants”), 2014, França, primeiro
filme escrito e dirigido por Thomas Cailley. Aclamado pela crítica
especializada e detentor de três prêmios César (o Oscar francês), o filme conta
a história da relação inicialmente conturbada entre dois jovens, o marceneiro
Arnaud Labrède (Kévin Azaïs) e a bonita, durona e temperamental Madeleine
Beaulieu (Adèle Haenel). Ele é de família pobre e trabalha prestando serviço de
marceneiro e pedreiro juntamente com o irmão. Ela estuda Macroeconomia e
pertence a uma família de classe média alta. Desiludida com a crise financeira
enfrentada pela França e com o desemprego em alta, Madeleine decide cumprir um
estágio no exército. Arnaud segue o mesmo caminho e ambos são submetidos a um
rigoroso treinamento. Os dois acabam abandonando o estágio e partem para a
floresta tentando sobreviver com os ensinamentos do exército. Apesar de ter
apenas 28 anos de idade, a atriz Adèle Haenel já pode ser considerada veterana
no cinema francês, tendo iniciado sua carreira em 2002 em “Les Diables”.
Atualmente, está em cartaz por aqui com “A Garota Desconhecida”. “Amor à
Primeira Briga” ganhou os prêmios César de Melhor Atriz (Haenel), Melhor Ator
Revelação (Azaïs) e Melhor Primeiro Filme. Confesso que o filme não me encantou
o suficiente para recomendá-lo. Em todo caso, veja e tire suas próprias
conclusões.
“FRANK E LOLA – AMOR OBSESSIVO” (“FRANK
& LOLA”), EUA, 2016, roteiro e
direção de Matthew Ross. Mistura de drama e suspense, filmado ao estilo noir, com fotografia em tons escuros e muitas
cenas noturnas. Frank (Michael Shannon) é um chef que começa a fazer sucesso em Las Vegas. Quando conhece a
jovem, bela e misteriosa Lola (a atriz inglesa Imogen Poots), ele se apaixona e começa uma
relação bastante complicada, repleta de desconfiança, principalmente por causa
do seu ciúme doentio. De qualquer forma, ele está certo quando desconfia de certas
atitudes de Lola, cujo passado é cercado de segredos. Um deles é o seu
relacionamento com Alan (Michael Nyqvist), a quem acusa de tê-la estuprado quando
ela era bastante jovem. Contratado por um ricaço francês para elaborar um
jantar especial, Frank viaja para Paris, onde Alan mora, e resolve tirar tudo a
limpo. O elenco conta ainda com Justin Long, Rosanna Arquette e Emmanuelle
Devos. O filme teve sua primeira exibição em janeiro de 2016 durante o Festival
de Sundance e dividiu opiniões. Alguns críticos elogiaram, outros não. Eu achei
um tanto monótono, lento demais e depressivo. De qualquer forma, é estrelado pelo
excelente Michael Shannon, um dos atores mais requisitados atualmente tanto por Hollywood como pelas produtoras independentes.
“ANIMAIS NOTURNOS” (“Nocturnal
Animals”), EUA, 2016, é o segundo filme escrito e
dirigido por Tom Ford. O primeiro foi o ótimo “Direito de Amar”, de 2009, com
Colin Firth e Julianne Moore. Ford é mais conhecido como estilista de moda, bastante conceituado no mundo fashion. Como cineasta, também é muito competente,
destacando-se por uma estética cinematográfica inovadora. Em “Animais Noturnos”,
por exemplo, ele introduz um filme dentro de outro. Explico: Susan Morrow (Amy
Adams), proprietária de uma badalada galeria de arte, recebe os originais de um
romance escrito por seu ex-marido Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Como
Susan vive uma fase solitária com o novo e ausente marido (o bonitão Armie Hammer), ela dedica suas noites à leitura do livro, cujo título é justamente “Animais
Noturnos”. Trata-se de um thriller
envolvendo uma família em viagem de férias e que numa estrada é abordada e
atacada por um grupo de marginais. Aí começa o outro filme, mostrando toda a
situação da família nas mãos dos marginais e as investigações a cargo de um
misterioso detetive (Michael Shannon). Enquanto lê o romance do ex-marido, Susan
faz uma profunda reflexão sobre sua vida e seu casamento fracassado com o
escritor. Ainda estão no elenco Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Ellie Bamber
e Laura Linney, esta última hilariante como a mãe esnobe de Susan. O filme
recebeu muitos elogios da crítica especializada. Realmente, é muito bom, mas merece
um aviso: não é para qualquer público.
“O ESGRIMISTA” (“VEHKLEJA”), 2015, Finlândia/Estônia, roteiro de Anna Heinämaa e
direção de Klaus Härö. Baseado em fatos reais. Durante a Segunda Guerra Mundial,
muitos russos foram recrutados à força pelas tropas alemãs invasoras e
obrigados a lutar pelo exército nazista. Terminada a guerra, muitos deles foram
presos como colaboracionistas e inimigos da Rússia, sendo condenados e enviados
para enxugar gelo na Sibéria. O esgrimista Endel Nelis (1925-1993) foi um dos russos
cooptados pelos alemães, mas conseguiu escapar da prisão ao mudar de
identidade. No início dos anos 50, como Endel Keller, ele conseguiu um emprego
de professor de esportes num colégio da pequena cidade de Haapsalu, na Estônia.
Mesmo com a discordância da direção da escola e a muito custo, Endel conseguiu
incluir a prática da esgrima como uma das modalidades a ser ensinada aos
garotos. O diretor da escola achava que a esgrima não era um esporte para o
proletariado e sim para a elite burguesa. Com muito treinamento, Endel
conseguiu levar a escola para disputar um torneio juvenil em Leningrado, mesmo
arriscando-se a ser reconhecido e preso pelo serviço secreto de Stalin. Dirigido
com rara sensibilidade pelo diretor finlandês, o filme concorreu na categoria
Melhor Filme Estrangeiro ao Globo de Ouro 2016. Sua única exibição no Brasil
aconteceu na Seção “Foco Nórdico” da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo/2016. É um filme que emociona. Uma história comovente que precisa ser
conhecida.
Lançado
no Festival Internacional de Berlim, em fevereiro de 2016, o terror psicológico
“CREEPY” (“Kurîpî Itsuwari no Rinjin”)
colocou mais uma vez em evidência o diretor japonês Kiyoshi
Kurosawa (não tem parentesco com o famoso diretor Akira Kurosawa, já
falecido). Kiyoshi é considerado um mestre do terror (“Pulse”, “A Cura”). Em “Creepy”,
ele se inspira na história do livro “Kurîpî”, best-seller do escritor Yukata
Maekawa. O roteiro, também de Kurosawa, é de início um pouco confuso, mas depois
torna-se bem inteligível – e assustador. Koichi Takakura (Hidetoshi Nishijima)
é um ex-detetive que leciona Psicologia Criminal numa universidade. Certo dia, Nogami
(Masahiro Higashide), um antigo companheiro da polícia, pede a Takakura que o
ajude a desvendar um mistério relacionado com o desaparecimento de três pessoas
de uma família há seis anos. Para iniciar a investigação, os dois localizam a
jovem Saki (Haruna Kawaguchi), na época adolescente e única sobrevivente. Ao
mesmo tempo, a esposa de Takakura, sentindo-se solitária no novo bairro, passa
a interagir com a vizinhança e logo faz amizade com o misterioso Nishino
(Teruyuki Kagawa), um homem sem passado e com um comportamento bastante
estranho. Takakura e seu colega policial passam a desconfiar que Nishino pode ter
ligação com o caso da família desaparecida. A tensão aumenta a cada cena, ainda
mais com o auxílio de uma trilha sonora pulsante que lembra os filmes de Alfred
Hitchcock, do qual o diretor japonês é um confesso admirador. Podemos chamar a
primeira fase do filme como teórica: investigação, muito papo e interrogatórios.
Na fase prática, o filme deixa o suspense de lado e passa ao terror explícito,
quando o assassino e seus métodos são revelados. “Creepy” (pode ser traduzido como horripilante, assustador) é um filme bastante interessante que
merece ser visto como uma nova vertente criativa do gênero terror psicológico.
“ELIS”, 2015, roteiro e direção de Hugo Prata (seu longa de
estreia), é uma cinebiografia da cantora Elis Regina. No filme, a trajetória
de Elis começa a ser contada quando ela chega ao Rio, aos 18 anos, em 1964,
como uma ilustre desconhecida para logo depois se transformar numa conhecida
ilustre. Estão lá retratados seu encontro com Ronaldo Bôscoli e Miéle no Beco
das Garrafas, seus shows arrasadores e o início de sua amizade com o
cantor/dançarino Lennie Dale. Elis chega a São Paulo para cantar “Arrastão”, de
Edu Lobo, no I Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965,
e mais uma vez levanta a plateia, conquistando o 1º lugar. Vem o convite da TV
Record para comandar, junto com Jair Rodrigues, o programa “O Fino da Bossa”. E
por aí vai a carreira daquela que é considerada até hoje a maior cantora que o
Brasil já teve - no que concordo plenamente. O filme dá maior ênfase à vida particular conturbada de Elis,
seu casamento com Bôscoli e depois com César Camargo Mariano, seu caso com
Nelson Motta, a perseguição que sofreu dos militares, a desavença com o
cartunista Henfil, seus shows nem sempre aclamados e, por fim, a fase depressiva
que a levaria à morte em 1982, aos 36 anos de idade. A atriz mineira Andréia
Horta representa Elis de forma magistral, incluindo caras e bocas, imitando com
perfeição os gestos que Elis fazia quando falava e cantava. Em algumas cenas, a
semelhança é incrível e emocionante. Entre os fatos importantes da carreira de Elis, porém, senti
falta de uma menção ao disco “Elis & Tom”, que gravou junto com o maestro
carioca, talvez seu trabalho musical mais importante. Não há também qualquer
referência à amizade com Milton Nascimento. Mesmo essas falhas de roteiro não
chegam a prejudicar o resultado final. O elenco é ótimo: Caco Ciocler (César Camargo Mariano), Gustavo Machado (Ronaldo Bôscoli), Lúcio Mauro Filho (Miéle), Júlio Andrade (Lennie Dale), Rodrigo Pandolfo (Nelson Motta) e César Trancoso (Marcos Lázaro). Para quem passou dos 60, viveu aquela época e acompanhou a trajetória de Elis, o filme é pura emoção. Simplesmente imperdível!
“UMA VIAGEM INFERNAL” (“HEATSTROKE”), “2013, EUA, roteiro e direção de Evelyn Purcell. A
história: Paul (Stephen Dorff), um biólogo, zoólogo e professor
norte-americano, planeja uma viagem à África do Sul para estudar o
comportamento das hienas. Ele pretende levar apenas sua namorada Tally
(Svetlana Metkina), mas acaba sendo obrigado a carregar na bagagem a “mala” Josie
(Maisie Williams, de “Game of Thrones”), sua filha adolescente. Eles chegam a
um acampamento instalado no deserto e, sem querer, descobrem a existência de um
grupo de mercenários envolvido com o tráfico de armas. Paul é assassinado pelos
bandidos, que agora vão atrás de Tally e de Josie. Até o desfecho, esta
perseguição preencherá toda a ação. O filme é muito fraco, o suspense é mínimo e a atuação do elenco é, no mínimo, constrangedora. O roteiro tem tantos furos que mais parece um queijo suíço. O
ator Stephen Dorff, que já fez bons filmes como, por exemplo, “Um Lugar
Qualquer” (2010), dirigido por Sofia Coppola, há tempos atua no elenco Série B
de Hollywood e não duvido que já esteja na Série C depois de “Uma Viagem
Infernal”. Posso estar enganado, mas o filme foi feito para alavancar a
carreira cinematográfica da atriz russa Svetlana Metkina. Se esta era realmente
a intenção, tudo foi por água abaixo, pois ela nunca mais fez nenhum filme. O papel de vilão sobrou para o ator Peter Stormare. Enfim,
mais uma bobagem descartável.
O
veterano diretor norte-americano Martin Scorsese (de “Os Bons Companheiros”, “O
Lobo de Wall Street” e tantos outros filmes importantes) alimentou durante mais
de 20 anos o desejo de realizar “SILÊNCIO” (“Silence”), um drama épico
ambientado no Século 17, cuja história é inspirada no romance escrito pelo
japonês Shusaku Endo em 1966. O filme, que tem quase três horas de duração,
começa quando a Companhia de Jesus, em Portugal, recebe a notícia de que o
padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), que estava no Japão em missão
catequista, havia renunciado publicamente à Fé Cristã. Para confirmar a
notícia, dois jesuítas são enviados ao país do sol nascente: Sebastião
Rodrigues (Andrew Garfield, de “Até o Último Homem”) e Francisco Garupe (Adam
Driver). Eles chegam clandestinamente, já que o Regime Tokugawa, que dominava o
Japão, havia proibido a prática de qualquer outra religião no país – só era
permitido o Budismo. A perseguição aos cristãos era violenta: tortura e morte
por decapitação ou crucificação. Até chegar a Ferreira, os dois padres
enfrentarão inúmeros perigos e correrão risco de vida. Estranho que o filme não
tenha conseguido uma divulgação mais efetiva, ainda mais em se tratando do
consagrado diretor, além da presença de astros como Liam Neeson e Andrew
Garfield. Aliás, embora os cartazes do filme tenham destacado Liam Neeson como
astro principal, na verdade é Andrew Garfield quem leva o filme nas costas.
Neeson aparece pouco, apenas no início e no final. Mesmo com Scorsese na
direção, o filme não teve indicações importantes ao Oscar 2017. Apenas uma: a de
Melhor Fotografia.
Ambientado
entre os anos 50 e 60, quando a questão racial estava em plena efervescência nos
EUA, “LOVING” conta a história verdadeira do casal Richard e Mildred
Loving (interpretados por Joel Edgerton e Ruth Negga), ele branco e ela negra. Como
residem no Estado da Virginia, onde o casamento inter-racial é proibido, eles
se casam secretamente em Washington, mas quando voltam são imediatamente presos.
Decisão do juiz: se permanecerem na Virginia cumprirão pena; para escapar da cadeia, terão que viver em
outro estado por nada menos do que 25 anos. É claro que eles optam pela segunda
opção. Anos depois, porém, já com três filhos, eles resolvem voltar e arriscar
a sorte. O embate jurídico tem seu desenrolar quando um advogado de uma
associação ligada aos direitos civis decide levar o caso à Suprema Corte. Escrito
e dirigido por Jeff Nichols (“Amor Bandido” e “O Abrigo”), o filme disputou a
Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 e teve Ruth Negga indicada para Melhor
Atriz no Oscar 2017 – a atuação de Edgerton também é magistral. Ao contrário de
filmes como “Selma – Uma Luta pela Igualdade” e “Malcom X”, por exemplo, “Loving”
é bastante contido ao explorar o tema do racismo, focando a questão apenas no
relacionamento entre o casal e nas suas dificuldades em concretizar um amor proibido. Cinema da melhor qualidade.
Todo
mundo deve ter ouvido falar de Madre Teresa de Calcutá – hoje Santa –, mas
poucos conhecem os principais detalhes da trajetória dessa religiosa albanesa que
dedicou toda a sua vida a ajudar os pobres. “AS CARTAS DE MADRE TERESA” (“The
Letters”), EUA, 2014, roteiro e direção de William Riead, conta essa
história, desde seu período de enclausuramento no Convento Irmãs de Loreto, a
fundação da Congregação Missionárias da Caridade até o Prêmio Nobel da Paz, em
1979. O roteiro é inspirado nas inúmeras cartas que Teresa (interpretada de
forma magistral pela atriz inglesa Juliet Stevenson) escreveu, durante 50 anos,
ao seu amigo e conselheiro espiritual, padre Celeste van Exem (Max Von Sydow). Além
dos trechos mais importantes dessas cartas, num das quais revela que muitas
vezes sentia uma escuridão dentro de si, ou seja, a ausência de Deus, o filme
explora o trabalho de Teresa junto à população carente das favelas de Calcutá,
graças ao qual se tornou famosa no mundo inteiro. Além de prestar atendimento
médico aos doentes, muitos largados para morrer no meio da rua, Teresa percorria as favelas da cidade ensinando as crianças
a ler e escrever. O filme também mostra alguns detalhes de bastidores do processo
que resultou em sua beatificação pela Igreja Católica em 2003 e sua canonização
em 2016. Além de Juliet e Von Sydow, o elenco conta ainda com a participação
especial de Rutger Hauer como o padre Benjamin Praagh. Enfim, uma história
maravilhosa que precisa ser conhecida. Imperdível!
Mais
uma ótima comédia francesa com o ator Cristian Clavier. “O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO?” (“Une heure de
Tranquillité”), 2014, roteiro e direção do veterano Patrice Leconte (“O
Marido da Cabeleireira”). A história é baseada na peça teatral homônima de
grande sucesso na França, escrita por Florian Zeller. Como diz o título
original, uma hora de tranquilidade é o que deseja o cirurgião-dentista Michel
Leproux (Clavier) para ouvir um LP raro de jazz que acabara de comprar
num sebo de discos de vinil. Quando chega em casa, porém, uma série de
acontecimentos acaba estragando seu dia. A revelação bombástica da esposa, Nathalie
(Carole Bouquet), a festa barulhenta dos vizinhos, o filho que aparece trazendo
um grupo de imigrantes filipinos e a inesperada visita de Elsa (Valérie
Bonneton), amante de Michel. Além disso, Michel tem que suportar as trapalhadas de
dois pedreiros encarregados da reforma de um dos quartos do apartamento. Uma
confusão dos diabos. Diversão garantida! Cristian Clavier é um ótimo
comediante. Entre seus filmes mais engraçados, recomendo também “Que Mal Eu fiz
a Deus?”, de 2014, “Asterix e Obelix – Missão Cleópatra”, de 2002, e “Os
Visitantes”, de 1998. Em tempos tenebrosos como os que estamos vivendo, nada melhor do que uma boa comédia.
“MA MA”, 2014, Espanha, roteiro e direção de Julio Medem,
com Penélope Cruz, Luis Tosar, Alex Brendemühl, Asier Etxeandia e Teo Planell. Filme foi lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto/2015. Um drama e tanto. A
história é centrada em Magda (Cruz), recentemente abandonada pelo marido,
desempregada e mãe de um menino de 10 anos. Como desgraça não vem sozinha,
ainda descobre que está com câncer e será obrigada a fazer uma mastectomia. Em
meio a este cenário trágico, ela conhece Arturo (Tosar), que acaba de perder a
mulher e a filha num acidente de trânsito. Os dois começam um romance e ela engravida.
Quando tudo levava a crer que Magda começaria uma vida nova, eis que surge mais
uma péssima notícia. O drama de Magda não tem fim, mas, para atenuar a situação, ela conta com o apoio de Arturo e também de Julián (Asier Etxeandia), seu
médico e grande amigo. Penélope Cruz, aos 42 anos, está cada vez mais bonita e
competente, apesar de representar uma personagem tão sofrida. Uma curiosidade:
antes de ingressar no cinema, o diretor Julio Medem era médico. Ele tem em seu
currículo filmes como “Os Amantes do Círculo Polar”, o erótico “Um Quarto em
Roma” e “Lúcia e o Sexo” (que revelou a atriz Paz Vega). Embora tenha exagerado
na dose dramática, Medem não conseguiu fazer de “Ma Ma” um filme daqueles de
arrancar lágrimas, o que talvez tenha sido sua intenção. Enfim, dá para ver numa boa!