domingo, 21 de dezembro de 2014

Embora a protagonista principal seja interpretada pela atriz francesa Marion Cotillard, “DOIS DIAS, UMA NOITE” (“Deux Jours, unie Nuit”), 2014, é um filme belga, dirigido pelos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Aliás, o filme foi candidado da Bélgica ao Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro, mas não ficou entre os 9 selecionados para a disputa. Concorreu ainda à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2014, também sem sucesso. A verdade é que a história não é das mais animadoras. Sandra (Cottilard) retorna ao trabalho depois de um período de afastamento por motivos de saúde (depressão). Só que tem um problema: o chefe da empresa prometeu um bônus de mil euros para os funcionários, mas com o retorno de Sandra, esse bônus não poderia ser pago – menção à crise econômica europeia. Ficou decidido que haveria uma votação numa sexta-feira. Sandra perdeu, mas não desistiu e insistiu numa nova votação. Conseguiu ama nova chance para segunda-feira. Ou seja, os dois dias e uma noite do título. Ela teria, portanto, o final de semana para visitar os seus colegas de trabalho e convencê-los a desistir do bônus em favor de sua readmissão. O filme inteiro mostra os esforços de Sandra para pedir votos para sua causa, em meio a novos surtos de depressão. Muito pouco para um filme que tem dois diretores consagrados e uma atriz que até já ganhou Oscar (por “Piaf – Um Hino ao Amor”, em 2007). Dá até para recomendá-lo, mas sem muito entusiasmo. 
Com o visual de um Kung Fu afrodescentente, Denzel Washington não economiza na porrada no filme de ação “O PROTETOR” (“The Equalizer”), EUA, 2014, dirigido por Antoine Fuqua e inspirado numa série de TV de grande sucesso nos EUA na década de 80, “The Equalizer”. Denzel é o misterioso e pacato cidadão Robert McCall, empregado numa grande loja de ferramentas e que todas as noites vai tomar um chá e ler um livro numa lanchonete perto de sua casa. Na verdade, McCall é um ex-agente especial do governo dos EUA, perito em artes marciais. Quando vê uma injustiça ou alguém em perigo, ele se transforma num misto de David Carradine, Steven Seagal e Van Damme. Ou seja, numa verdadeira máquina mortífera. Ninguém fica de pé - e muito menos vivo - para contar história. Seus métodos para matar são os mais variados e criativos possíveis. Ao se vingar do cafetão que agrediu Teri (Chloë Grace Moretz), uma jovem prostituta, McCall atrai o ódio de uma organização de mafiosos russos, que envia um assassino sanguinário para matá-lo. O assassino, interpretado por Marton Csokas, também dá medo. E daí para a frente, até o final do filme, não vai faltar pancadaria.  Washington, mais uma vez, dá conta do recado como um vingador frio e calculista. Pra quem gosta de filmes de ação, um programão! 

sábado, 20 de dezembro de 2014

“O JUIZ” (“The Judge”), 2014, EUA, é um drama que, na mão de outro diretor, poderia descambar para um dramalhão daqueles. Mas David Dobkin, que já havia dirigido as comédias “Penetras Bons de Bico”, “Uma Noite Fora de Série” e “Eu queria ter a sua vida”, amenizou a história com muito humor. Não deve ter sido fácil. Afinal, o juiz do título, Joseph Palmer (Robert Duvall), fica viúvo, é acusado de assassinato e tem um câncer avançado; seu filho mais novo é deficiente mental e ele não se dá com o filho do meio, Hank Palmer (Robert Downey Jr.), um advogado sem escrúpulos que não recusa defender gente da pior qualidade. Ele se justifica para um colega dizendo que "Os inocentes não podem pagar meus honorários". Para defendê-lo no tribunal, Joseph contrata um advogado incompetente e atrapalhado. A muito custo, Joseph concorda que Hank o defenda. Em sua grande parte, o filme retrata justamente a difícil relação entre Hank e o pai, alguns flashbacks da família em filmes antigos e muitas cenas de tribunal. Mas o grande destaque do filme é, sem dúvida, o ótimo elenco. Além de Downey e Duvall, também trabalham Vera Farmiga, Billy Bob Thornton, Vincente D’Onofrio e Jeremy Strong. Como curiosidade, vale lembrar que Jack Nicholson e Tommy Lee Jones foram cogitados para o papel do Juiz, que ficou em boas mãos com Duvall. Há que se destacar também Vera Farmiga, que, além de excelente atriz, está mais madura e cada vez mais bonita. Trata-se de um ótimo entretenimento.   

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

“ISOLADOS”, 2014, direção de Tomas Portella, é mais uma tentativa do cinema brasileiro de emplacar um filme no gênero suspense. Pena que ainda não foi desta vez, embora seja superior a outras produções. Na verdade, trata-se de um suspense com cara de terror psicológico, na linha de “O Sexto Sentido” ou “Os Outros”. O médico psiquiatra Lauro (Bruno Gagliasso) e sua namorada e paciente Renata (Regiane Alves) alugam um casarão na região serrana do Rio de Janeiro para passar alguns dias. Eles não sabem, mas dias antes houve o assassinato de uma menina. E a polícia está por lá investigando. Enquanto isso, Lauro e Renata são atacados durante um passeio na floresta e se trancam no casarão com medo de um novo ataque. Renata sofre de ataques histéricos e Lauro começa a perder o controle. A tensão aumenta cada vez mais e, alguns sustos depois, o mistério é desvendado, numa reviravolta inesperada e surpreendente. O ator José Wilker faz uma aparição rápida no filme como Dr. Fausto, colega de Lauro no hospital psiquiátrico. Foi o último filme de Wilker, que acabou homenageado nos créditos finais.                                         

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

“BETIBÚ”, co-produção Argentina/Espanha de 2013, direção de Miguel Cohan, é um policial ao estilo daquela série sueca Millenium. A morte misteriosa de um poderoso empresário mobiliza dois jornalistas de um mesmo jornal, o experiente Jaime Brena (Daniel Fanego) e o novato Mariano Saravia (Alberto Ammann). Para ajudá-los no trabalho investigativo, o editor Lorenzo Rinaldi (José Coronado) convoca Nurit Iscar (Mercedes Morán), conhecida também pelo apelido de Betibú, uma ex-repórter do jornal que agora é escritora de romances policiais. Outras mortes ocorrem e a polícia, como sempre, está mais perdida do que cego em tiroteio. Os dois jornalistas e a escritora vão seguir algumas pistas relacionadas com o passado dos homens mortos. Tudo leva a crer que a chave do mistério está numa foto antiga em que o empresário assassinado aparece ao lado de alguns amigos, todos jovens – as outras vítimas. A explicação será dada mais tarde pelo irmão mais novo do empresário. O filme, cuja história foi inspirada no livro homônimo da escritora argentina Claudia Piñero, foi uma das atrações da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizado em outubro de 2014.      

domingo, 14 de dezembro de 2014

Nem Nicole Kidman, nem Colin Firth e muito menos Mark Strong salvam o suspense psicológico inglês “ANTES DE DORMIR” (“Before I Go to Sleep”), 2014, dirigido por Rowan Joffe, que em 2010 já havia sido responsável por outro abacaxi, “Um Homem Misterioso”, com George Clooney. Depois de sofrer um acidente, Christine Lucas (Kidman) tem a memória afetada. Além de não lembrar o que aconteceu no dia fatídico, ela acorda todos os dias sem saber quem é, o que aconteceu no dia anterior e nem reconhece o marido Ben (Firth). Todos os dias ela também conversa com o dr. Nash (Strong), que diz ser seu psiquiatra há anos. O médico trata de Christine e a obriga a não dizer nada ao marido. Se a história já é meio esquisita, fica pior ainda quando surge Claire (Anne-Marie Duff), uma misteriosa mulher que se intitula sua antiga amiga e protetora. Os fatos vão acontecendo sem nenhuma lógica, perturbando ainda mais a cabeça da coitada da Christine – e também do espectador. Se às vezes o desfecho salva um filme, neste só serve para piorá-lo. A história é baseada no livro homônimo escrito por S. J. Watson, sua estreia na literatura. Se houve o interesse em adaptá-lo para o cinema, o livro não deve ser tão ruim. Mas o filme...
“LONDRES PROIBIDA” (“London to Brighton”), 2006, é um bom suspense inglês dirigido por Paul Andrew Williams. A história é meio barra pesada. A prostituta de rua Kelly (Lorraine Stanley) recebe uma ordem de seu cafetão Derek (Johnny Harris): encontrar uma menina bem novinha para satisfazer os desejos de um milionário pedófilo. Ao sair pelas ruas de Londres, Kelly encontra Joanne (Georgia Groome), de 11 anos, que pedia esmola na escadaria de uma estação do metrô. Em troca de 100 libras, a menina topa fazer o programa, desde que Kelly vá junto. O programa toma um rumo diferente e o pedófilo acaba sendo morto pelas duas, que acabam fugindo para Brighton. Só que o filho do milionário assassinado é um bandidão violento que quer vingança. Ele e seus capangas vão atrás de Kelly e Joanne. Esse jogo de gato e rato vai permear praticamente toda a ação, com muitas cenas de violência e um desfecho dos mais imprevisíveis. A história é legal, o filme é bem feito e o elenco é ótimo. Mesmo com toda violência, pode ser um entretetenimento interessante. O filme foi premiado em vários festivais, inclusive o de melhor estreia em direção concedido a Paul Andrew Williams, que depois faria “Cabana Macabra” (2008) e “Canção para Marion” (2010).                                        
Para comemorar de forma inusitada o 60º aniversário do Festival de Cannes, em 2007, Gilles Jacob, o presidente do evento, encomendou a 34 dos principais cineastas do mundo um curta-metragem de 3 minutos cujo tema era “O Amor ao Cinema”. O resultado está no filme "CADA UM COM SEU CINEMA" ("Chacun son Cinéma"), exibido durante o festival daquele ano na sessão de gala. Alguns diretores optaram pelo bom humor, como Roman Polanski e Lars von Trier. Claude Lelouch reproduziu cenas do filme “Top Hat”, de 1935, onde Fred Astaire e Ginger Rogers aparecem dançando “Cheek to Cheek”. No curta, Lelouch lembra que seus pais se conheceram durante uma sessão do filme. O grego Theo Angelopoulos utilizou a atriz Jeanne Moreau para fazer uma bela e tocante homenagem a Marcello Mastroianni. O cineasta malaio Ming Liang Tsai mostra uma família com o retrato da mãe falecida voltado para a tela. A mãe adorava ir ao cinema. Walter Salles, único diretor brasileiro a participar do projeto, optou por utilizar uma dupla de repentistas em frente à fachada de um cinema no Nordeste. Cada qual com seu estilo, os cineastas convidados realizaram um belíssimo trabalho. O conjunto da obra ficou ótimo, mas, como escreveu Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão, “É o filme dos sonhos de qualquer cinéfilo". Realmente, o projeto é direcionado apenas aos aficionados por cinema. Quem quiser curtir duas excelentes homenagens ao cinema deve assistir "Splendor", de Ettore Scola, e "Cinema Paradiso", de Giuseppe Tornatore, este último uma verdadeira obra-prima.  

sábado, 13 de dezembro de 2014

Não será nenhuma surpresa se o cinema italiano conquistar pela segunda vez consecutiva o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/2015 (em 2014, o vencedor foi “A Grande Beleza”). O candidato oficial da Itália, desta vez, é “CAPITAL HUMANO” (“Il Capitale Umano”), direção de Paolo Virzi (”La Prima Cosa Bella”). É um filmaço. O roteiro, escrito por Virzi, é primoroso. Em quatro capítulos, ele descreve a história de vários personagens. Num capítulo, determinado personagem é quase que um figurante. No capítulo seguinte, assume o papel de protagonista. Virzi repete algumas cenas modificando o ângulo da câmera de acordo com o personagem em destaque. Uma aula de criatividade cinematográfica. A história gira em torno de um poderoso empresário à beira da falência e de um acidente que fere gravemente um ciclista. O principal suspeito é o filho do empresário, cujo casamento enfrenta uma fase de grande turbulência. O filho suspeito namora uma moça cujo pai quer ganhar dinheiro fácil e se aproxima do tal empresário. E por aí vão se entrelaçando todos os personagens, num verdadeiro mosaico narrativo, sem jamais entediar ou confundir o espectador. O elenco é da melhor qualidade, tendo à frente a atriz Valeria Bruni Tedeschi (irmã de Carla Bruni, ex-primeira dama da França), que dá um show como a esposa infeliz do empresário. Por esse papel, ela foi merecidamente premiada como Melhor Atriz no Festival de Tribeca. Não perca, pois é cinema de altíssima qualidade.           

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Desistir de um trabalho repleto de adrenalina em zonas de guerra ou viver de um emprego seguro, perto da família? Esse dilema deve mexer com a cabeça de nove entre dez fotojornalistas acostumados (ou viciados?) a trabalhar pelo mundo afora fotografando em áreas de conflito. É o que acontece com a fotógrafa Rebecca (Juliette Binoche) em “MIL VEZES BOA NOITE” (“Tusen Ganger God Natt”), 2012, um ótimo drama norueguês dirigido por Erik Poppe - ele próprio um ex-fotógrafo de guerra. Em ação no Afeganistão, Rebecca é ferida numa explosão causada por uma mulher-bomba. Quando volta para casa, na Irlanda, ela recebe um ultimato do marido Marcus (Nikolaj Coster-Waldau). Ou abandona esse tipo de trabalho ou então o casamento já era. As duas filhas adolescentes apoiam o pai e Rebecca concorda em abandonar as zonas de guerra, apesar dos protestos de sua editora, já que ela é uma das cinco melhores fotógrafas de guerra do mundo. Quando tudo parecia correr de acordo com o desejo de Marcus, Rebecca faz uma viagem com a filha mais velha Steph (Lauryn Canny) ao Quênia. Essa viagem resultará numa nova crise familiar, obrigando Rebecca a tomar uma decisão definitiva. Se o filme já é excelente, melhor ainda é o desempenho da fabulosa atriz francesa Juliette Binoche como a mulher dividida entre a profissão e a família. Binoche prova, mais uma vez, que é uma das melhores atrizes em atividade. Um aviso: prepare-se para a cena inicial do filme, onde Rebecca fotografa o ritual de preparação e a posterior ação de uma mulher-bomba. Trata-se de uma das sequências mais tensas, impactantes e bem feitas do cinema nos últimos anos. Enfim, o filme é simplesmente imperdível. 
“UMA FAMÍLIA EM TÓQUIO” (“Tokyo Kazoku”), 2012, direção de Yoji Yamada, é uma refilmagem de “Era uma vez em Tóquio” (1953), de Yasujiro Ozu, considerado um dos grandes clássicos do cinema japonês. O enredo é uma verdadeira crônica dos relacionamentos familiares. O casal de idosos Tomiko (Kasuko Y oshiuki) e Shukichi (Isao Hashizume) viaja para Tóquio com o objetivo de rever, depois de muito tempo, seus três filhos adultos, Shigeko, dona de um salão de beleza, Koichi, médico, e Shoji, o caçula, que vive de bicos e não é tão bem sucedido quanto os irmãos. Na recepção aos pais, dá para perceber uma grande frieza, fruto de uma educação baseada mais no respeito do que no afeto. Não há contato físico, um abraço por exemplo. Fica claro que é uma relação de muito respeito. As atividades profissionais não permitem que os filhos dediquem muita atenção aos velhos. Como em quase todas as famílias do mundo, aquele gesto de carinho ou atenção vem justamente de quem menos se espera: da nora, do filho “ovelha negra” e de sua namorada. Perto do desfecho, um fato trágico finalmente será capaz de reunir a família. Sem dúvida, um filme japonês bastante sensível que merece ser visto por quem aprecia cinema de qualidade.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rotulado como comédia, o filme italiano “VIVA A LIBERDADE” (“Viva la Libertà”) passa longe de ser motivo de risos. Pelo contrário, tem um pano de fundo sério, baseado em questões políticas. O grande ator italiano Toni Servillo (de “A Grande Beleza”) faz dois personagens: Enrico Olivieri, senador e 1º Secretário de um importante partido de esquerda, opositor do governo, e seu irmão gêmeo Giovanni Ernani, um professor filósofo, bipolar, que de vez em quando é internado num hospício. Em depressão por causa de uma agenda de inúmeros compromissos, somada a muitas críticas de seus companheiros de partido e ainda pela péssima situação nas pesquisas (17%) para a próxima eleição, Enrico resolve sumir. Viaja incógnito para Paris. Seu assistente Andrea Bottini (o ótimo Valerio Mastandrea) não sabe o que fazer. De início, é obrigado a cancelar reuniões e discursos de Enrico, alegando que ele se afastou por motivo de doença. Mas a pressão é insuportável, e Andrea tem a ideia de utilizar Giovanni para fazer o papel de Enrico. Com sua grande erudição, o professor dá entrevistas e faz discursos utilizando uma linguagem muito distante daquelas que os políticos costumam usar. Num dos discursos, por exemplo, ele cita frases de Brecht. Sua atuação é responsável por uma grande reviravolta nas pesquisas. Enquanto isso, Enrico revê um grande amor de juventude, Danielle (Valeria Bruni Tedeschini), agora casada com um cineasta. Tudo bem que o diretor Roberto Andó tentou fugir dos clichês próprios desses filmes onde os personagens trocam de identidade, mas o resultado final é decepcionante, ainda mais com um elenco tão bom.    
“O ARTISTA E A MODELO” (“El Artista y La Modelo”) é uma produção espanhola de 2012, com direção de Fernando Trueba (de “Belle Époque”, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1993). Ambientado em 1943 num pequeno vilarejo do interior da França próximo à fronteira da Espanha, o filme conta a história do relacionamento do famoso escultor Marc Cross (Jean Rochefort) com Mercé (Aida Folch), uma jovem espanhola fugitiva do regime de Franco. Léa (Claudia Cardinale), esposa de Cross, acolhe a jovem e a acomoda no ateliê do marido que, aos 80 anos, não trabalhava mais. A chegada da bela Mercé, porém, dá uma renovada em Cross, que começa a esculpir de novo utilizando a jovem como modelo. Em meio ao seu trabalho de escultor, Cross conversa muito com Mercé, em diálogos recheados de humor e erudição, abordando temas como filosofia, política, arte e religião. Num desses diálogos, o escultor confessa a Mercé que existem duas provas da existência de Deus: a criação da mulher e do azeite. Cross não acredita que Deus, responsável pela criação de tantas coisas bonitas, como o mar e as florestas, possa ter criado um ser tão feio quanto o homem. Outro diálogo que merece ser ressaltado é aquele em que Cross discute um famoso desenho de Rembrandt com a modelo, um dos momentos mais tocantes do filme. Mercé aparece nua praticamente o filme inteiro, mas a (ótima) fotografia em preto e branco atenua qualquer eventual apelo sexual. É um filme muito bonito, valorizado por um ótimo elenco. Destaque para Claudia Cardinale, que, aos 70 anos, ainda guarda a beleza que a consagrou como uma das maiores musas do Cinema nas décadas de 60/70. Quanto a Rochefort, ele comprova a condição de melhor ator francês da atualidade.                   

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O tema Gastronomia sempre resultou em ótimos filmes, o melhor deles, sem dúvida, “A Festa de Babette”, de 1987. Dos mais recentes, o melhor talvez seja mesmo “A 100 PASSOS DE UM SONHO” (“The Hundred-Foot Journey”), EUA, dirigido pelo sueco Lasse Hallström e com Steven Spielberg Oprah Winfrey como produtores. A história começa na Índia, onde Papa Kadam (Om Puri) possui um restaurante de comida tradicional indiana. Por motivos políticos, seu estabelecimento é incendiado criminosamente e a família decide fugir para a Europa. Depois de algumas andanças por aqui e ali, Papa Kadam chega ao aprazível vilarejo de Saint-Antonin-Noble-Val, sul da França, onde resolve abrir um restaurante. Só que bem em frente está o “Saule Pleureur”, um restaurante chique famoso por ter obtido uma estrela do Guia Michelin, o maior reconhecimento europeu da qualidade em gastronomia. No comando do “Saule Pleureur” está Madame Mallory (Helen Mirren), uma mulher arrogante que vive com o nariz empinado e um crônico mau humor. O barulho da música alta, os cheiros e o medo da concorrência fazem com que Mallory declare guerra ao restaurante indiano. Só que ela não contava com a astúcia gastronômica do jovem Hassan Kadam (Manish Dayal), que logo se revela um chef dos mais competentes. E por aí vai a história, entre receitas, romances e declaração de paz entre Mallory e os indianos, com muitos momentos sensíveis e tocantes. Um filme para curtir e, principalmente, saborear.

domingo, 7 de dezembro de 2014

“UM DIA MEU PAI VIRÁ” (“Un Jour Mon Pere Viendra”), 2011, direção de Martin Valente, é mais uma agradável comédia francesa, com dois atores que valem o ingresso: Gerard Jugnot e François Berléand. A história é centrada em Chloé (a cantora francesa Olivia Ruiz), que vai casar com o famoso campeão de tênis Stephen (o ator inglês Jamie Bamber) e precisa de um pai para conduzí-la ao altar. O rico Bernard (Berléand) é o pai biológico que não sabia da existência da filha. Gus (Junot) foi o pai que a criou, mas que foi rejeitado por Chloé por causa de suas bebedeiras. Para conseguir um pai “postiço”, Chloé entrevista vários atores amadores. Por causa de um acidente ocorrido com o ator escolhido (provocado por Bernard e Gus), Bernard entra no jogo, fazendo-se passar pelo pai de Chloé e também por um embaixador da Mongólia, uma mentira que irá colocá-lo em várias situações embaraçosas e engraçadas. Até o dia do casamento, muita água vai rolar, muita confusão vai acontecer. É o primeiro papel de protagonista da cantora pop Olivia Ruiz, uma aposta do diretor Martin Valente. Sem ser muito bonita, ela dá conta do papel e até consegue ser charmosa em algumas cenas. Enfim, trata-se de uma comédia apenas agradável, capaz de proporcionar boas risadas.          
Com o mesmo estilo “machão charmoso” que o consagrou em quatro filmes da série James Bond, o ator irlandês Pierce Brosnan é o principal protagonista do filme “O HOMEM NOVEMBRO – Um Espião nunca Morre” (“The November Man”), 214, dirigido por Roger Donaldson. Brosnan é Peter Devereaux, um ex-espião da CIA que se afastou há cinco anos depois de uma missão que deu errado. Ele é procurado por um dos seus antigos chefes e convencido a voltar à ativa, depois que soube que Lucy (Tara Jevrosimovic) corria perigo em Moscou. Além disso, Peter também é encarregado de proteger Alice Fournier (Olga Kurylenko), a única testemunha que pode comprovar que o general Arkady Federov (Lazar Ristovski), provável futuro presidente da Rússia, é na verdade um sádico criminoso de guerra. Interessa à CIA provar essa culpa, pois prevê o general como um futuro inimigo dos EUA. Peter vai se enredar numa complicada trama de espionagem, recheada de muita ação e suspense. A história é baseada no livro “There are no Spies”, de Bill Granger. Uma ótima oportunidade para lembrar de Brosnan num papel parecido com o de Bond (na minha opinião, o segundo melhor Bond, só perdendo para Sean Connery) e curtir a estonteante Olga Kurylenko, que foi girl bond  em “Quantum of Solace”, com Daniel Craig. Entretenimento garantido!

sábado, 6 de dezembro de 2014

Alguns cineastas asiáticos descobriram a fórmula certa para conquistar prêmios em festivais de cinema: fazer filmes totalmente incompreensíveis, sem nexo e sem história. Verdadeiros quebra-cabeças cinematográficos. Foi assim que o tailandês Apichatpong Weerasethakul ganhou a Palma de Ouro em Cannes com o abominável e ridículo “Tio Boonmee, que pode recordar vidas passadas”. O mais novo absurdo vem da China e se chama “CÃES ERRANTES” (“Xi You”), dirigido por Tsai Ming-Liang. Ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza 2013. Durante intermináveis e entediantes 2 horas e 18 minutos, o espectador terá à sua frente cenas imóveis, algumas delas durando mais de 10 minutos sem nada acontecer e sem ninguém falar. A primeira cena já fornece a pista do que vem a seguir: durante muitos minutos câmera estática filma uma mulher utilizando secador de cabelo e, ao seu lado, duas crianças dormindo. Depois, mais uma cena interminável, dois homens segurando placas de propaganda numa avenida movimentada. E ainda: homem comendo e cuspindo um repolho cru. Um filme sem pé nem cabeça, tronco e membros. Enfim, o espectador é submetido a um verdadeiro teste de resistência. Vai praticar um ato heroico se conseguir assistir até o final. Incrível que alguns críticos profissionais tenham elogiado o filme, destacando, principalmente, a sua "qualidade estética". Se isso for cinema, rasgo minha carteirinha de cinéfilo. Depois da sessão em que o filme foi exibido em Veneza, o diretor Ming-Liang afirmou que este seria seu último filme. Tomara!    

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

“MAGIA AO LUAR” (“Magic in the Moonlight”), 2014, é mais uma comédia romântica de Woody Allen. O filme foi todo rodado na França, como Allen já havia feito há cerca de três anos com “Meia-Noite em Paris”. Desta vez, ele ambienta a história em 1928 na Cote d’Azur, em meio a famílias abonadas, mansões luxuosas e cenários deslumbrantes. Stanley Crawford (Colin Firth) é um famoso mágico que atua em espetáculos pela Europa como o chinês Wei Ling Soon. Ele também é conhecido por denunciar, com provas, charlatões que anunciam possuir poderes mediúnicos. A pedido de um antigo amigo, Stanley segue para a mansão da milionária viúva Grace (Jacki Weaver) com o objetivo de desmascarar Sophie (Emma Stone), uma jovem que se diz médium. Ela garante que entrará em contato com o espírito do falecido marido de Grace. Sophie é alvo da paixão de Brice (Hamish Linklater), filho de Grace, que a pede em casamento. Só que Stanley também se apaixona, e os dois disputarão o coração de Sophie, até que uma inesperada revelação acontece e muda o rumo da história. Em suas últimas comédias românticas, Woody Allen tem privilegiado mais o romance do que a comédia, restrita exclusivamente a um ou outro diálogo. Dessa forma, as antigas gargalhadas se transformam em poucos sorrisos. De qualquer forma, o texto continua inteligente e, mesmo sendo um Allen inferior, é bem superior a muito filme que anda por aí fazendo sucesso.               

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

“UM CASTELO NA ITÁLIA” (“Um Château en Italie”), 2012, França, é mais um filme escrito, dirigido e protagonizado pela atriz Valeria Bruni Tedeschi (irmã de Carla Bruni, ex-primeira dama da França). Baseado na peça teatral “O Jardim das Cerejeiras”, do escritor russo Anton Tchekhov, o enredo tenta misturar comédia com drama ao contar a história de uma tradicional família francesa falida que precisa vender um casarão – quase um castelo, daí o título - na Itália. Só que no casarão mora Ludovic (Filippo Timi), recluso desde que começou o tratamento contra a AIDS. Sua irmã Louise (Valerie Bruni Tedeschi), uma quarentona frustrada por não ter filhos, quer engravidar de qualquer maneira. Atriz mal sucedida, ela descarrega todas as suas frustações bancando a abobalhada e espalhafatosa, tendo constantes ataques histéricos, o que transformou a personagem, embora a principal do filme, numa figura das mais desagradáveis e enervantes.  Se a intenção era fazer uma comédia, saiu tudo errado, pois não há graça nenhuma. Se a ideia era acrescentar algum drama ou romance, também fracassou. Na verdade, tudo resultou num filme pretensioso demais, querendo ser "Cinema de Arte". O filme disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2013. Não ganhou, claro. Não é filme para palmas...      

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

“INSEPARÁVEIS” (“Da Geht Noch Was”), 2013, é um filme alemão que mistura comédia, drama e romance, cada um na dose certa. A história começa quando Conrad (Florian David Fitz) recebe a notícia de que sua mãe Helene (a ainda bela e charmosa Leslie Malton) deixou seu pai Carl (Henry Hübchen) por outro homem, depois de 40 anos de casamento. Em alguns flashbacks, Conrad relembra o horror que tinha do pai, um homem ranzinza e extremamente mal-humorado, que gostava de tratá-lo da pior forma possível. Quando a mãe pede a Conrad que vá à antiga casa para pegar um quadro, ele leva Jonas (Marius Haas), seu filho adolescente. Durante a visita, Carl sofre um acidente e precisa ficar em repouso e aos cuidados de alguém. Muito a contragosto, Conrad resolve cuidar do pai por um tempo. Com isso, Conrad vai colocar em risco seu casamento com Tamara (Thekla Reuten, hilariante), com quem iria viajar de férias. Em sua primeira metade, o filme é uma comédia das mais divertidas. Na segunda metade, descamba para o drama romântico, com direito a tentativas de reaproximação dos casais e até a uma doença grave, o que não impede que o filme permaneça em clima de alto astral e termine, para a alegria geral, no maior happy-end. Resumindo: trata-se de um filme bastante agradável, sem nenhuma contraindicação, ideal para uma sessão família com pipoca e guaraná.   

domingo, 30 de novembro de 2014

Nos últimos anos, seja como roteirista, diretor ou ator – em alguns casos, os três juntos -, o humorista francês Dany Boon fez muitas ótimas comédias como, por exemplo, “Um Plano Perfeito”, “Bem-Vindo ao Norte” e “Nada a Declarar”, entre outras. A mais recente que escreveu, dirigiu e atuou é “SUPERCONDRÍACO” (“Supercondriaque”), 2014. Ele está na pele de Romain Faubert, um hipocondríaco crônico que há 18 anos se trata com o dr. Dimitri (Kad Merad). A obsessão de Faubert por doenças é tão forte que ele sai das festas de réveillon minutos antes da meia-noite para não receber abraços e beijos – tem medo de contaminação. Pelo mesmo motivo, quando está num vagão do metrô, ele se recusa a segurar as barras de ferro para se equilibrar, situação que resultou numa das cenas mais hilariantes do filme. Para incrementar ainda mais a história, Faubert se envolve numa briga durante a chegada de refugiados num navio e acaba trocando de identidade com Anton Miroslav (Jean-Yves Bertellot), líder revolucionário de um país que luta por sua independência da Rússia. Como a nova identidade proporciona a admiração de Anna (Alice Pol), a irmã de Dimitri, Faubert resolve manter a farsa, metendo-se em inúmeras confusões. Para se ter a ideia do prestígio de Dany Boon, este seu filme foi o mais visto na França em 2014, registrando 5,1 milhões de espectadores.   
“O VALE SOMBRIO” (“Das Finstere Tal”), 2014, direção de Andreas Prochaska, tem todas as características dos filmes do Velho Oeste que Hollywood sempre soube fazer melhor do que ninguém. A própria história já é um clichê dos faroestes: cavaleiro desconhecido chega a uma vila cuja população é dominada por uma família de malfeitores. O resto todo mundo que curte cinema é capaz de adivinhar. Só que tem apenas um detalhe muito importante: o filme é austríaco e o Velho Oeste aqui nada mais é do que os Alpes da Áustria. Quem já assistiu a um faroeste austríaco que levante a mão. A história é ambientada em 1875. O cavaleiro misterioso que chega à vila é Greider (o ator inglês Sam Riley), que se diz fotógrafo norte-americano e que acabou de chegar da América com o objetivo de fotografar as montanhas e vales que circundam aquela região. Só que, na verdade, a intenção dele é outra. Ele tem sede de vingança por causa de fatos que aconteceram há mais de 20 anos. O filme é muito bem feito, os cenários são deslumbrantes e tudo funciona realmente como um bom e tradicional western, com direito a um desfecho sangrento e violento ao estilo do diretor norte-americano Sam Peckinpah. O filme é o pré-candidato oficial da Áustria ao Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2015. Um faroeste austríaco concorrendo ao Oscar? Viva o Cinema!