domingo, 11 de novembro de 2018


“A BELA E OS CÃES” (“AALA KAF IFRIT”), 2016, coprodução Tunísia/França, roteiro e direção da diretora tunisiana Kaouther Bem Hania. Inspirada em fatos reais ocorridos em 2012 em Túnis (capital da Tunísia) e relatados no livro “Culpada de Ser Estuprada”, de Mariem Ben Mohamed, a história é toda centrada na jovem Mariam (Mariam Al Ferjani), que, ao sair de uma balada acompanhada pelo jovem Youssef (Ghanem Zrelli), acaba sendo estuprada por dois policiais. Ela vai ao hospital pedir ajuda e pegar um atestado médico que comprovaria o que aconteceu. Os médicos se recusam a fazer o exame, exigindo um boletim de ocorrência. Só que, para isso, ela teria que ir à delegacia, onde possivelmente estariam seus agressores. O filme acompanha o dilema da jovem, que é tratada como se fosse a culpada de tudo o que aconteceu. Nesse contexto, o filme deve ser visto como uma denúncia contra uma sociedade machista e patriarcal – como acontece em quase todos os países árabes -, onde a mulher não passa de um ser de segunda classe. É terrível e angustiante assistir ao sofrimento da jovem Mariam, imaginando que tudo aconteceu de verdade. O filme tem grande impacto, embora o elenco seja muito fraco. A atriz Mariam Al Ferjani é gorducha demais para ser chamada de “Bela”, pelo menos para os padrões ocidentais. O filme estreou no Festival de Cannes 2017, competindo na mostra “Um Certain Regard”.      

quinta-feira, 8 de novembro de 2018


“HANNAH”, 2016, coprodução Itália/França, é o segundo longa-metragem escrito e dirigido pelo diretor italiano Andrea Pallaoro – o primeiro foi “Medeas”, de 2013. Hannah (Charlotte Rampling) é uma mulher na terceira idade que enfrenta uma fase bastante difícil. Seu marido foi para a prisão, o filho a rejeita e a velhice está chegando para acabar com qualquer sonho futuro. Hannah é o retrato da infelicidade. Parece que nada deu certo em sua vida. Para sobreviver, ela trabalha como faxineira em casas de alto luxo e suas únicas distrações são nadar de vez em quando na piscina de um clube e participar de aulas de interpretação teatral. Em nenhuma dessas atividades ela procura se socializar, fazer amizades. Sua atitude é de uma solitária crônica. O diretor preferiu o silêncio como forma de aumentar a dramaticidade da história. Há poucos diálogos, cenas muito longas e praticamente nenhuma resposta para perguntas evidentes: Por que o marido foi preso? Por que o filho a rejeita? Nada disso, porém, prejudica o desenrolar da trama. O filme é todo da inglesa Charlotte Rampling. Ela aparece praticamente em todas as cenas, comprovando que é uma senhora atriz – agora atriz senhora – na vida real, tem 72 anos. Seu desempenho é espetacular, trabalhando apenas com a expressão facial e entregando-se totalmente ao papel, incluindo algumas cenas de nudez que ela encara sem o menor pudor. Esse trabalho lhe garantiu o Prêmio de Melhor Atriz no 74º Festival Internacional de Veneza, em 2017.  

terça-feira, 6 de novembro de 2018


“ACROSS THE WATERS” (“Fuglene over sundet”), 2016, Dinamarca, roteiro e direção de Nicolo Donato – é o seu segundo longa-metragem. Conservei o título em inglês, pois ainda não há tradução em português, já que o filme não chegou por aqui -  e nem deve chegar. Trata-se de mais uma história terrível e muito triste ambientada durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943, rompendo um acordo que havia feito com o governo dinamarquês, Hitler ordenou que suas tropas de ocupação na Dinamarca prendessem todos os judeus para depois enviá-los para os campos de concentração. Muitos conseguiram fugir para a Suécia, país neutro, mas os que não conseguiram foram assassinados ali mesmo na Dinamarca. O filme é centrado na família do guitarrista de jazz Arne Itkin (David Dencik), que fugiu às pressas de Copenhague para tentar pegar um barco na vila de pescadores Gilleleje. Como milhares de outros dinamarqueses, Arne, a esposa Miriam (Danica Curcic) e o filho Jacob, de 5 anos, foram surpreendidos pelos agentes da Gestapo quando tentavam embarcar. E daí para a frente, só desgraça e tristeza. Para escrever o roteiro, o diretor Nicolo Donato se inspirou nas memórias do seu avô, um dos barqueiros de Gilleleje que ajudaram muitos judeus a fugir para a Suécia. Mais um capítulo lamentável das atrocidades dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O filme é ótimo, tão bom que ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Rügen (Alemanha). Mais um episódio da história mundial que merece ser conhecido.  

segunda-feira, 5 de novembro de 2018


“SICARIO 2: DIA DO SOLDADO” (“SICARIO: DAY OF THE SOLDIER”), 2018, EUA, direção do italiano Stefano Sollima (“Suburra”) e roteiro de Taylor Sheridan, o mesmo que escreveu a história do primeiro filme “Sicario: Terra de Ninguém”, de 2015. Nesta segunda sequência, a trama também se desenvolve na fronteira do México com os Estados Unidos, mas o foco não é mais o tráfico de drogas, e sim a entrada de terroristas iemenitas – a cena inicial, quando homens-bomba se matam num supermercado, é bastante impactante. Claro que os traficantes mexicanos estão envolvidos, além de piratas somalianos. Para dar um fim à situação, o agente federal Matt Gravers (Josh Brolin) propõe uma estratégia de jogo sujo, ou seja, provocar uma guerra entre os principais cartéis mexicanos. Para isso, contrata uma equipe de mercenários (sicários) chefiada por Alejandro Gillick (Benício Del Toro), sedento por vingança, pois um dos chefões das drogas, anos antes, assassinou toda a sua família. Para jogar um cartel contra o outro, Gravers e Alejandro sequestram a filha caçula de um dos chefões das drogas, Isabela Reyes (Isabela Moner), fornecendo indícios para que um outro cartel seja acusado. Josh Brolin é um bom ator, mas quem leva o filme nas costas é Benício Del Toro. Quem gosta de filmes do gênero vai curtir bastante, pois tem ação do começo ao fim.     

domingo, 4 de novembro de 2018


O velho ditado já dizia: “Família feliz só no álbum de retratos”. Dentro desse contexto, o cinema produziu inúmeros filmes, alguns excelentes, como “Festa em Família”, de Thomas Vintenberg, “Álbum de Família”, de John Wells, com Meryl Streep e Julia Roberts, e o melhor de todos, “Parente é Serpente”, do grande diretor italiano Mario Monicelli. Descobri agora mais um excelente filme que também explora o tema: o drama polonês “NOITE SILENCIOSA” (“CICHA NOC”), 2017, escrito e dirigido por Piotr Domalewski. Como aqueles citados no começo deste comentário, o filme polonês começa na melhor das intenções: reunir a família para a ceia de Natal. Só que, como previsto, acaba na maior baixaria, lavagem de roupa suja, agressões, revelações bombásticas e desunião generalizada. Um resumo: o filho mais velho, Adam (Dawid Ogrodnik), que reside na Holanda com a esposa, vai passar o Natal com a família, numa zona rural da Polônia. Com o passar do tempo, descobrimos que sua intenção não era rever ou saudar a família, e sim tentar herdar a casa do avô, fazer dinheiro e investir no próprio negócio. Tem o cunhado violento que bate na esposa; o pai alcoólatra que ficou anos fora de casa e praticamente abandonou a família, e por aí vai a cascata de acusações, culminando com uma revelação sórdida que vai abalar ainda mais a relação entre Adam e seu irmão mais novo Pawel (Tomasz Zietek). Ou seja, uma noite em que o espírito de Natal passou bem longe. O filme é ótimo, tanto que conquistou nada menos do que 9 prêmios no Polish Film Awards 2018 (o Oscar polonês), entre os quais o de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro.  

sábado, 3 de novembro de 2018


“POR TRÁS DO SEU OLHAR” (“All I Se eis You”), 2016, EUA, roteiro e direção de Marc Forster. Apesar do título em português lembrar alguma música da bossa nova, não se trata de um filme romântico. É um drama que em seu transcorrer tem pitadas de suspense, dando a entender que vem por aí um desfecho violento e trágico. A história: Gina (Blake Lively) é cega desde criança, quando foi vítima de um acidente de trânsito que matou seus pais. Nos dias atuais, ela é casada com James (Jason Clarke), que cuida dela com o maior carinho. Por causa do emprego dele, eles estão morando em Bangkok, capital da Tailândia. Aliás, uma das muitas falhas desse filme é a confusão de cenários que acaba confundindo o espectador, que fica em dúvida se esta ou aquela cena é nos Estados Unidos ou na Tailândia. Segue a história: um médico, Dr. Hughes (Danny Huston), sugere uma operação que pode recuperar pelo menos um olho de Gina. A cirurgia é um sucesso e ela passa a enxergar. Daí para a frente, o casamento de Gina com James entra em rota de colisão, pois ele não quer que ela se torne independente dele. Por seu lado, Gina, ao não se tornar mais dependente do marido, sente que será mais feliz com a liberdade de ir e vir sozinha, sem os cuidados do marido. Aí o caldo do casamento vai engrossar de vez. Este é, sem dúvida, um dos filmes mais fracos do diretor alemão Marc Forster, que tem em seu currículo, só como exemplo, “007 – Quantum of Solage”, “O Caçador de Pipas” e “Em Busca da Terra do Nunca”. Ou seja, é um bom diretor que desta vez pisou na bola. Com exceção da presença da bela e charmosa Blake Lively, o filme não fornece muitos motivos para ser recomendado.    


quinta-feira, 1 de novembro de 2018


“DAMASCUS COVER” (como ainda não chegou por aqui – e talvez nem chegue -, não tem tradução), Inglaterra, 2018, primeiro longa-metragem dirigido por Daniel Zelik Berk. O roteiro foi assinado por Samantha Newton, que se baseou nos fatos reais reportados no romance “The Damascus Cover”, escrito pelo norte-americano Howard Kaplan e lançado em 1977. Como quase todo filme de espionagem, você demora pelo menos meia-hora para saber quem é quem e entender o que está acontecendo. Neste “Damascus Cover”, o agente secreto israelense Ari Ben-Sion (o ator irlandês Jonathan Rhys-Meyers), do Mossad, é designado para uma missão em Damasco, capital da Síria. Disfarçado de empresário e com o nome de Hans Hoffmann, Ari tentará fazer alguns contatos para ajudá-lo a tirar da Síria um cientista e sua família. Em Damasco, Ari acaba conhecendo Kim (Olivia Thirlby), uma fotógrafa a serviço de um jornal inglês, pela qual se apaixonará. O vilão da história é Sarraj (Navid Negahban), o chefão do serviço secreto da Síria, que perseguirá e tentará prender Ari até o final do filme. Em sua missão, Ari ainda se infiltrará num grupo secreto de simpatizantes nazistas. Enfim, “Damascus Cover” tem suspense, romance e ação, o que garante um entretenimento descompromissado. Vale pelo fato de ser baseado em acontecimentos reais.  

quarta-feira, 31 de outubro de 2018


“CUSTÓDIA” (“JUSQU’À LA GARDE”), 2017, França, primeiro filme escrito e dirigido pelo ator e agora diretor Xavier Legrand. Uma ótima estreia, aliás, que mereceu o Prêmio de “Melhor Diretor” no Festival de Veneza. A trama é centrada no casal Miriam e Antoine Besson (Léa Drucker e Denis Ménochet), que acaba de se divorciar e agora estão brigando pela guarda do filho Julien (Thomas Gioria). Em audiência no tribunal, Miriam pede a guarda exclusiva do menino, alegando que Antoine é muito violento e pode machucá-lo. A juíza do caso, porém, concede ao pai o direito de visita semanal. A partir dessa decisão, mãe e filho viverão momentos de tensão a cada visita do pai (o semblante do ator Antoine Besson é realmente assustador), que continua insistindo com Miriam para retomar o casamento. Nos minutos que antecedem o desfecho, o diretor cria um clima de tensão sufocante e angustiante capaz de gelar o sangue e eriçar os pelos da nuca do espectador. Uma aula de cinema de suspense, que faria inveja até ao mestre Hitchcock. Por aqui, além do circuito comercial, o filme foi exibido como uma das atrações do Festival Varilux de Cinema Francês, em 2018, e durante a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017. Um filmaço imperdível!   


segunda-feira, 29 de outubro de 2018


“TRISTEZA E ALEGRIA” (“Sorg og Glaede”), Dinamarca, 2013, roteiro e direção de Nils Malmros. Esqueça a “Alegria” do título. O filme é só “Tristeza”. Já começa de forma trágica. O cineasta Johannes (Jakob Cedergren) chega em casa e é surpreendido pela notícia de que sua esposa Signe (Helle Fagralid) acabara de assassinar a filha de 9 meses de idade. Cabe aqui uma explicação: Signe há muito tempo é maníaco-depressiva, deixou de tomar os remédios com a concordância do marido e, num surto psicótico, acabou matando a filha cortando-lhe a garganta. Para tentar entender o que aconteceu, Johannes procura o dr. Birkemose (Nicolas Bro), psiquiatra que cuidava de Signe. Durante a conversa entre os dois, o filme volta no tempo e conta como o romance entre Johannes e Signe começou. Signe tinha um ciúme doentio do marido, principalmente com relação às atrizes que ele dirigia. Ela não parava de chorar, um sinal evidente da doença. Quando a filhinha nasceu, imaginava-se que Signe poderia melhorar, mas não foi o que aconteceu. Os dois principais protagonistas são interpretados por ótimos atores, principalmente Helle Fagralid. Não custa nada repetir: é um filme pesado, muito triste, mas excelente sob o ponto de vista cinematográfico. Na verdade, foi um ato de grande coragem do diretor Nils Malmros, que escreveu a história baseado no que aconteceu em sua vida particular no início dos anos 80.  

domingo, 28 de outubro de 2018


“TULLY”, EUA, 2018, chega para comprovar, de forma definitiva, o imenso talento da bela atriz sul-africana Charlize Theron. Ela interpreta Marlo, mãe de duas crianças e prestes a ter o seu terceiro filho. Grávida e com um baita barrigão, Marlo sofre o diabo para cumprir os afazeres domésticos, como servir o café da manhã e levar os filhos para o colégio. O mais difícil é lidar com o filho do meio, um garoto do tipo autista, que só dá trabalho no colégio. O marido, Drew (Ron Livingston), não ajuda muito, pois trabalha o dia inteiro e à noite prefere se isolar no quarto para jogar videogame. Ou seja, não dá para contar com ele. Quando a rotina fica pesada demais, principalmente logo depois do nascimento do bebê, o irmão de Marlo resolve ajudá-la, contratando uma babá noturna, a Tully do título, interpretada por Mackenzie Davis. A chegada de Tully fará com que Marlo consiga relaxar e descansar. As duas começam a se dar tão bem que acabam ficando amigas, a ponto de trocar confidências e intimidades. Segundo o material de divulgação, Charlize engordou 23 quilos para representar Marlo. Sei não. Acredito mesmo é que houve alguma trucagem ou então uma eficiente maquiagem corporal. De qualquer forma, Charlize, mesmo gorda, continuou linda. O filme foi dirigido pelo ator e diretor Jason Reitman (“Amor sem Escalas”, “Jovens Adultos” – também com Charlize – e “Juno”. Além da presença da bela atriz, outro trunfo do filme é o roteiro criativo, inteligente e bem-humorado escrito por Diablo Cody, a mesma roteirista de “Juno”, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Roteiro. “Tully” é um bom filme, mas acredito que vá agradar apenas o público feminino.


MULHER QUE SEGUE À FRENTE (“WOMAN WALKS AHEAD”), EUA, 2018, direção de Susanna White (“Nosso Fiel Traidor”) e roteiro de Steven Knight. Trata-se de uma história baseada em fatos reais. Em 1890, a viúva aristocrata Catherine Weldon (Jessica Chastain), pintora nas horas vagas, resolve sair de Nova Iorque e se aventurar numa perigosa viagem até Dakota do Norte. Seu objetivo era pintar um retrato do lendário Touro Sentado (Michael Greyeyes), chefe dos índios Sioux, que, depois de vencer inúmeras batalhas contra o exército norte-americano e matar muitos homens brancos, vivia pacificamente como plantador de batatas numa reserva indígena controlada pelos federais. Temerosa em lidar com um grande guerreiro, Catherine foi aos poucos se aproximando de Touro Sentado, com o qual começa uma forte amizade (o filme dá a entender que os dois tiveram um caso). Catherine se engajou na briga entre índios e brancos pela disputa de terras e enviou várias cartas a senadores norte-americanos e ao próprio governo pedindo uma intermediação em favor dos indígenas. Esta sua atitude revoltou o pessoal do exército e ela passou a ser perseguida e até espancada. O vilão da história é o coronel Groves (Sam Rockwell), que sempre tentou dissuadir Catherine a volta para Nova Iorque e ficar quietinha no seu canto. Pelo fato de relembrar um fato histórico pouco conhecido por aqui, o filme vale a pena ser visto. E ainda mais pela presença da excelente atriz Jessica Chastain, da qual sou fã incondicional.     

quinta-feira, 25 de outubro de 2018


“A GAROTA OCIDENTAL – ENTRE O CORAÇÃO E A TRADIÇÃO” (“Nuces” no original, que na tradução literal para o português significa “Núpcias”, o que seria um título mais coerente com a história), 2017, Bélgica, roteiro e direção de Stephan Streker (é o seu terceiro longa-metragem). Para escrever o roteiro, Streker se inspirou num caso verídico ocorrido em 2007 no interior da Bélgica envolvendo uma jovem chamada Sadia Sheikh. Na época, o caso gerou grande comoção no país. No filme, a jovem chama-se Zahira Kazim (Lina El Arabi), de 18 anos de idade, uma das filhas de    Mansoor Kazim (Babak Karimi), um comerciante paquistanês estabelecido em Bruxelas há muitos anos. O patriarca da família exige que os filhos sigam as regras da religião muçulmana, assim como as tradições milenares do Paquistão. Para agradar aos seus pais, Zahira, mais ocidentalizada, usa o lenço sobre a cabeça e costuma disfarçar em casa fazendo-se passar por uma muçulmana legítima. Numa de suas escapadas, Zahira acaba ficando grávida do namorado, que foge da paternidade. Sem saber da situação de Zahira, seus pais a obrigam a casar com um paquistanês, como manda a tradição, e escolhem três pretendentes através da internet. Só que ela se apaixona por um francês. Aí a coisa vai pegar para o seu lado, pois a família não deixará a ovelha desgarrar-se do rebanho. Entre trágico e comovente, o desfecho coroa um drama muito bem elaborado, com atores muito bons, principalmente a jovem atriz francesa de origem marroquina Lina El Arabi, e uma história que privilegia um passeio cultural pela intimidade de uma família muçulmana tradicional. O filme é ótimo, tendo participado da seleção oficial de vários festivais de cinema mundo afora, como Toronto, Edimburgo, Istambul, Roma e Roterdãm, recebendo muitos elogios da crítica e do público. Imperdível!      

quarta-feira, 24 de outubro de 2018



“RASTROS” (“POKOT”), 2016, Polônia, marca a volta da veterana e consagrada diretora polonesa Agnieszka Holland à telona, depois de anos dedicados à direção de séries televisivas. A história de "Rastros" é centrada em Janina Duszejko (Agnieszka Mandat-Grabka), uma engenheira aposentada que trabalha como astróloga e professora de inglês num vilarejo localizado no Vale de Klodzko, cercado por florestas. Chamada pelo pessoal de “velha excêntrica”, Janina é uma ferrenha defensora dos animais e inimiga mortal dos caçadores, que formam a maioria da população do vilarejo. É contra eles que Janina dedica seu maior tempo, principalmente depois que suas cadelas desapareceram misteriosamente. Ao mesmo tempo, vários caçadores aparecem mortos, sem pistas aparentes para a polícia. No depoimento de Janina aos policiais, ela aponta os animais como os maiores suspeitos, afirmando que se trata de uma espécie de vingança contra aqueles que os perseguem e os matam. A dedicação de Janina em favor dos animais chega ao ponto de afrontar o padre do vilarejo no meio da sua homilia numa missa, quando ele defendia o direito dos caçadores de exterminar os bichinhos. Até perto do desfecho fica a pergunta: quem anda matando os caçadores? Veja o filme e saiba a resposta. Faço questão de destacar o espetacular desempenho dessa atriz polonesa maravilhosa, Agnieszka Mandat-Grabka. Só a atuação dela vale o ingresso. Mas não é só de drama que o filme é feito. Também tem muito humor. “Pokot” estreou no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017, sendo selecionado posteriormente para representar a Polônia na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. A crítica especializada não gostou. Eu gostei muito e recomendo. Só para lembrar, a diretora polonesa é responsável por filmes excelentes, como "O Segredo de Beethoven", "Filhos da Guerra" e "Na Escuridão", entre outros.      

segunda-feira, 22 de outubro de 2018


“LBJ – A ESPERANÇA DE UMA NAÇÃO” (“LBJ”), 2017, EUA, roteiro e direção de Rob Reiner. Trata-se de um drama histórico biográfico centrado na figura de Lyndon Baines Johnson, que assumiu a presidência dos Estados Unidos depois do assassinato do presidente John Kennedy, em novembro de 1963 – LBJ era o vice-presidente. O filme explora o período de 1959 a 1964, destacando os bastidores da política norte-americana. Lyndon Johnson assumiu a presidência cercado de opositores, inclusive no próprio partido, o principal deles Bobby Kennedy, justamente o irmão do presidente assassinado. Mesmo contrariando os desejos dos políticos do sul, seu conclave eleitoral, Johnson teve a coragem de lutar em favor da aprovação do Ato dos Direitos Civis, uma bandeira de John Kennedy, que dava aos negros direitos iguais aos brancos. O filme é uma aula de História daquele período tão tumultuado nos EUA - crise com Cuba, Guerra do Vietnã, manifestações antirracistas etc. O elenco é dos melhores: Woody Harrelson (espetacular como LBJ), Bill Pullman, Jennifer Jason Leigh, Jeffrey Donovan, Richard Jenkins e Michael Stahl. Filmaço! Ah, só para lembrar, o veterano diretor Rob Reiner, de 71 anos, tem em seu currículo dois grandes clássicos do cinema: “Conta Comigo”, de 1986, e “Questão de Honra”, de 1992.

domingo, 21 de outubro de 2018


“UM GAROTO COMO JAKE” (“A KID LIKE JAKE”), EUA, 2018, direção de Silas Howard. A história foi adaptada da peça escrita pelo autor norte-americano Daniel Pearle, que também assina o roteiro. Jake, o garoto do título, tem 4 anos e já nessa idade saiu do armarinho. Adora contos de fadas e de se vestir de princesa, sendo fã incondicional de Cinderela e Rapunzel. Seus pais, Alex (Claire Danes) e Greg Wheeler (Jim Parsons), até que lidam bem com a situação, agindo com naturalidade – Greg é psicólogo. Longe da presença do garoto, eles conversam sobre o que está acontecendo. Num desses diálogos, o pai afirma que seu irmão também gostava de brincar de bonecas, mas depois cresceu, se transformou num homão de 1m90 e muito macho. Ou seja, vamos dar tempo ao tempo. Até que um dia eles têm de preencher um formulário descrevendo a personalidade do menino, suas preferências e atitudes, para tentar uma bolsa de estudos. Para isso, eles pedem ajuda a Judy (a sempre ótima Octavia Spencer), a diretora da pré-escola de Jake. Essa parte é bastante engraçada, os pais tentando disfarçar a opção do garoto, dando a entender que ele é bastante inteligente, pois é capaz de citar de cor vários contos de fadas. No começo do filme, achei que ia ficar no meio do caminho, mas continuei a assistir e gostei muito. Um filme bastante interessante e agradável que merece ser visto por toda a família.      

sábado, 20 de outubro de 2018


“ESCOBAR – A TRAIÇÃO” (“LOVING ESCOBAR”), 2018, Espanha, roteiro e direção de Fernando León de Aranoa (“Segunda-Feira ao Sol”). Baseado no livro “Amando a Pablo, Odiando a Escobar”, da jornalista colombiana Virginia Vallejo, este talvez seja o melhor filme sobre a trajetória e personalidade, ascensão e queda de Pablo Escobar, que durante a década de 80, como líder do Cartel de Medellín, foi o traficante de drogas mais importante da Colômbia, responsável por alimentar de cocaína, durante quase uma década, o mercado dos Estados Unidos. Em 1981, a jornalista Virginia Vallejo (Penélope Cruz), apresentadora de grande popularidade da TV colombiana, teve um caso com o famoso traficante (Javier Bardem), que na época era casado com Maria Victoria (Julieth Restrepo). Humilhada pelo amante e correndo risco de vida por causa dessa relação, Virgínia decide colaborar com a DEA (agência anti-drogas do governo norte-americano), entregando os segredos mais escabrosos do traficante. Em 1982, quando o governo dos EUA (Ronald Reagan) decidiu fazer um acordo com o governo colombiano para a prisão e extradição de Escobar, o traficante resolveu se candidatar a deputado federal para barrar o projeto norte-americano. Venceu as eleições e continuou a traficar, até ser morto em 1993, aos 44 anos. O filme é bastante esclarecedor quanto a personalidade de Escobar, que um dia diz ao filho: “Se não te respeitam, façam com que o temam”. A frase representa exatamente a filosofia do traficante colombiano, para quem a lealdade era ponto de honra. Um ótimo desempenho de Javier Bardem no papel de Escobar, mas achei que Penélope Cruz, mulher de Bardem na vida real, exagerou na sua interpretação da apresentadora colombiana. De qualquer forma, na minha opinião é um ótimo e definitivo filme sobre o famoso traficante colombiano.      

sexta-feira, 19 de outubro de 2018


“VIVA A FRANÇA!” (“EN MAI FAIS CE QU’IL TE PLAÎT”), 2015, França, roteiro e direção de Christian Carion. Trata-se de mais um drama histórico da Segunda Guerra Mundial baseado em fatos reais. Em maio de 1940, quando era iminente a invasão da França pelas tropas do exército alemão, os franceses residentes no norte do país resolveram fugir para o sul, contrariando ordens do governo central. Deixando tudo para trás, mais de 8 milhões de franceses marcharam para o sul, transformando essa fuga no maior movimento migratório de toda a História. “Viva a França!” aborda o tema centrando a trama na população de um pequeno vilarejo, cujo prefeito Paul (Oliver Gourmet) convence todos a fugir da aproximação das tropas nazistas. O filme acompanha a saga de velhos, mulheres e crianças estrada afora, numa marcha triste, desesperançada, quase fúnebre. As cenas mais fortes e chocantes são aquelas em que os comboios de civis são metralhados por aviões alemães, caracterizando um dos mais hediondos e abomináveis crimes de guerra. Além de Gourmet, estão no elenco August Diehl, Mathilde Seigner, Alice Iaaz, Matew Rhys e Laurent Guerra. Ah, a trilha sonora é assinada pelo grande Enio Morricone. O filme foi exibido no Brasil durante a programação do Festival Varilux de Cinema Francês/2016.    

quinta-feira, 18 de outubro de 2018


“OPERAÇÃO FINAL” (“OPERATION FINALE”), 2018, EUA, direção de Chris Witz, com roteiro de Matthew Orton, produção da Netflix (o que significa que provavelmente não chegará a ser exibido nos circuitos comerciais). A história é toda baseada em fatos reais, bastante conhecidos. Em 1960, portanto quinze anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, agentes do Mossad (serviço secreto de Israel) localizaram o nazista Adolf Eichmann na Argentina, conseguindo sequestrá-lo e enviá-lo para ser julgado em Israel. Como todo mundo sabe, Eichmann foi o grande idealizador dos campos de concentração e da “Solução Final”, o holocausto de 10 milhões de pessoas, a maioria judeus. Os bastidores de toda essa história estão neste ótimo drama histórico, talvez o melhor já feito sobre a prisão de Eichmann. O filme também dá destaque a um fato bastante tenebroso: a presença maciça de nazistas na Argentina. O ator inglês Ben Kingsley rouba a cena como o assassino nazista, numa interpretação digna de Oscar (ele já é dono da estatueta de Melhor Ator por "Gandhi", em 1983). Outra boa presença é a do ator guatemalteco Oscar Isaac como Peter Malkin, chefe da equipe do Mossad. Aliás, a cena em que o israelense barbeia Eichmann com uma navalha é uma das mais angustiantes que já vi no cinema. Também estão no elenco Joe Alwyn, Mélanie Laurent e Greta Scacchi. Fiquei triste ao constatar que a atriz italiana Greta Scacchi, que faz o papel de Vera Eichmann, esposa do nazista, está envelhecida e bastante inchada, embora ainda moça (58 anos). Era uma atriz lindíssima, uma das minhas musas do cinema. O diretor Chris Weitz tem uma boa carreira em Hollywood, com filmes como "A Bússola de Ouro", "Um Grande Garoto" e "A Saga Crepúsculo: Lua Nova". Este "Operação Final" talvez seja o seu melhor filme.      

quarta-feira, 17 de outubro de 2018


“O PROFESSOR DO CAMPO” (“VENKOVSKÝ UCITEL”) – A tradução do título em português é minha, baseada no título original vertido para o inglês “The Country Teacher”. Tive a sorte de desencavar esse excelente drama de 2008 produzido na República Checa, escrito e dirigido por Bohdan Sláma. A história é centrada no jovem Petr Dolezal (Pavel Liska), um professor de Ciências Naturais que sai da Praga para lecionar numa escola pública da zona rural. Seu jeito não engana: ele é homossexual. Mas segura a barra, ou seja, fica dentro do armário para não prejudicar sua reputação. Só que ele acaba conhecendo a viúva Marie (Zuzana Bydzovská), com quem faz uma forte amizade. A porta do armário começa a se abrir quando Petr se apaixona pelo filho de Marie, o adolescente Chlapec (Ladslav Sedivy). O pano de fundo homossexual é tratado com muita sensibilidade pelo diretor Sláma, que soube dosar o drama vivido pelo professor com momentos bastante comoventes. O ator Pavel Liska e a atriz Zuzana Bydzovská – principalmente ele – dão um show de interpretação. Enfim, o filme é ótimo, cinema da melhor qualidade.  

terça-feira, 16 de outubro de 2018


“A FUGA” (“THE ESCAPE”), 2017, Inglaterra, roteiro e direção de Dominic Savage (mais conhecido como roteirista e diretor de séries da TV inglesa). A história: Tara (Gemma Arterton) é uma mulher que entrou na casa dos trinta e começa a rever os seus valores. Ela é casada com Mark (Dominic Cooper), tem dois filhos pequenos e mora numa bela casa num bairro de classe média alta. Ou seja, leva uma vida confortável. Mas sua rotina como dona de casa não é fácil: acordar e vestir as crianças, preparar o café da manhã, levar os filhos para o colégio e ainda escolher e fazer o nó na gravata do marido. É dose, sem contar o fato de que Mark acorda sempre disposto a fazer sexo, mesmo que ela não esteja a fim. Essa árdua rotina acaba provocando um surto depressivo em Tara, que expõe sua insegurança, infelicidade e total incapacidade de ser um exemplo de dona de casa. Ela não aguenta mais e um dia resolve “explodir”. Ou seja, pega um trem para Paris, passagem só de ida, e fica perambulando pela capital parisiense para meditar. O que fazer com sua vida dali em diante? Quando retorna a Londres, faz uma visita à sua mãe Anna (Marthe Keller) em busca de um conselho. Tara quer liberdade. Sua mãe define bem a situação: “Casamento e liberdade não combinam”. Simples assim. Será que Tará voltará para a sua família? Assista ao filme para saber a resposta. É um drama pesado, bem ao gosto do talento dramático da atriz inglesa Gemma Arterton, que está ótima no papel. Seu coadjuvante, Dominic Cooper, é um excelente ator, como já comprovou principalmente no excelente e pouco divulgado “O Dublê do Diabo”, de 2011, quando faz o papel de sósia do sádico Uday Hussein, filho de Saddam. O talento desses dois atores vale o ingresso. O filme estreou no Toronto International Film 2017, recebendo rasgados elogios. Prefiro indicá-lo como uma opção alternativa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018


“ESTADOS UNIDOS PELO AMOR” (“ZJEDNOCZONE STANY MILOSCI”), 2016, Polônia, roteiro e direção do jovem diretor Tomasz Wasilewski – o filme ganhou o Urso de Prata como “Melhor Roteiro” no 66º Festival Internacional de Cinema de Berlim. A história é ambientada no início dos anos 90 em Varsóvia, quando as mudanças políticas – queda do Muro de Berlim e o fim do Comunismo – apontavam para a recuperação da liberdade e da economia do país. Os poloneses, porém, tinham suas dúvidas quanto ao futuro e viviam, digamos assim, uma crise de valores. O filme acompanha a trajetória de quatro mulheres frustradas, infelizes e neuróticas. Uma jovem mãe com o casamento em crise que se envolve com um homem casado; uma diretora de escola apaixonada pelo pai de um de seus alunos, que recentemente ficou viúvo; uma velha professora obcecada por sua jovem vizinha; e uma mulher que vive uma crise no casamento e tem fixação por um padre. A carência de cada uma delas também envolve a falta de sexo – todas elas, em algum momento, aparecem nuas, assim como alguns de seus parceiros. Os nús, principalmente, masculinos, beiram o grotesco. O quarteto de mulheres é formado por excelentes atrizes: Julia Kijowska (Agata), Dorota Kolac (Renata), Marta Nieradkiewicz (Marzena) e Magdalena Cielecka (Iza). A câmera do diretor está sempre em movimento, o que dá uma dinâmica especial a cada cena. A câmera também capta a intimidade dos personagens, parecendo transformar o espectador numa espécie de voyeur. Resumo da ópera: é um filme bastante interessante, com grande força dramática, retratando uma sociedade à beira de mudanças radicais. O pano de fundo é justamente a situação vivida pela Polônia naquela época. Quem quiser conferir in loco, o filme fará parte da programação especial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, prevista para ao final de outubro/2018.  

domingo, 14 de outubro de 2018


“O DIA TROUXE A ESCURIDÃO” (“El Día Trajo la Oscuridad”), 2013, Argentina, direção de Martín De Salvo, com roteiro de Josefina Trotta. Trata-se de um terror psicológico ambientado numa região rural da Argentina, que de repente é atingida por uma doença misteriosa, um tipo de vírus da raiva. Virgínia (Mora Recalde) mora com seu pai, que é médico e atende às famílias da comunidade. Virgínia vive solitária na casa de fazenda, pois o pai sai toda hora para consultas. Um certo dia ela recebe uma inesperada visita, de sua prima Anabel (Romina Paula, de “Medianeras”), uma jovem misteriosa que parece não estar nada bem de saúde. Anabel sai noite afora e volta de manhã toda suja. Claro que tem coisa ruim por aí. O filme tenta segurar a tensão até o desfecho, quando a terrível verdade é revelada. Mas o ritmo é lento demais, não acontece nada durante um tempão e a única novidade é o lance lésbico entre as primas. Segundo o diretor De Salvo, a história foi inspirada no conto “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu, escritor irlandês de histórias de terror do Século 19, além de receber forte influência dos contos de terror de Edgar Allan Poe, principalmente no que ser refere aos nomes das personagens. O material de divulgação afirma que o filme foi aclamado nos festivais de Berlim e Roterdã. Sei não!