A
Eutanásia já foi tema de inúmeros filmes, geralmente dramas pesados. “A
FESTA DE DESPEDIDA” (“Mita Tova”), Israel, 2014, foge desse estereótipo, pois
trata o tema com rara sensibilidade e humor. A história é ambientada num asilo
de velhos em Jerusalém. Quando Yana (Aliza Rozen) pede aos amigos que aliviem a
dor do marido Max, que sofre de câncer, o engenheiro aposentado Yehezkel (Ze’ev
Revaca) resolve construir uma pequena máquina de eutanásia, adaptando um dispositivo que deve ser comandado pelo próprio doente. Apesar dos prós e contras, o equipamento é utilizado por Max. A notícia se espalha pelo asilo e outros
velhos com doença terminal resolvem também utilizar a máquina. Em meio a
discussões sobre questões éticas e religiosas, o roteiro e a direção da dupla
Tal Granit e Sharon Maymon encontraram espaço para momentos de muito humor,
como aquele em que Yehezkel telefona para uma velhinha dizendo ser Deus, ou
aquela cena em que os velhinhos resolvem ficar pelados e são repreendidos pela
direção do asilo. Claro, não há como ficar imune à tristeza de determinadas
cenas, principalmente aquelas em que os doentes se despedem dos familiares e
amigos. O elenco, constituído de artistas famosos em Israel e desconhecidos por aqui, é ótimo e valoriza ainda mais esse excelente drama, desenvolvido em enxutos 95 minutos. O filme, exibido por aqui durante o 19º Festival de Cinema Judaico de São Paulo, conquistou vários prêmios em festivais pelo mundo afora, inclusive o de Público no Festival de Veneza 2014.
“O ROSTO DE UM ANJO” (“The Face of an Angel”), 2015,
Reino Unido/Itália, é um drama de suspense baseado no livro “Angel Face”,
escrito pela jornalista norte-americana Barbie Latza Nadeau, que cobriu para a
revista Newsweek todo o caso envolvendo o assassinato da estudante inglesa
Meredith Kercher, em 2007, na cidade italiana de Perúgia, pelo qual foram
presos, julgados e condenados a norte-americana Amanda Knox e o seu namorado
italiano Raffaele Sallecito. O personagem principal do filme é o cineasta
Thomas (o ator alemão Daniel Brühl), que vai para a Itália recolher subsídios
sobre o caso e escrever o roteiro de um filme. Ele recebe a ajuda da jornalista
Simone Ford (Kate Beckinsale), que cobre o caso desde o ínicio. Mesmo com a
ajuda de grandes doses de cocaína, Thomas não consegue inspiração para montar
um script. Então resolve dar uma de
investigador para tentar descobrir a verdade, nem que para isso precise
arriscar sua vida. O roteiro, escrito por Paul Viragh, é um tanto confuso,
principalmente na primeira metade do filme, quando ficção e cenas reais do
julgamento misturam-se num verdadeiro “samba do crioulo doido”. O diretor
Michael Winterbottom tem um currículo invejável (“O Preço da Coragem”,
“Bem-Vindo a Sarajevo”), mas desta vez ficou devendo.
“TODOS OS CAMINHOS LEVAM A ROMA” (“All Roads Lead to
Rome”), 2015, EUA, é uma comédia
romântica que marca a estreia da diretora sueca Ella Lenhagen em Hollywood.
Maggie (a feiosa Sarah Jessica Parker) parte em viagem com a filha adolescente
Summer (Rosie Day) para a Toscana (Itália). Seu objetivo é, em primeiro lugar,
afastar a filha do namorado envolvido com o tráfico de drogas. Em segundo,
tentar melhorar o relacionamento com Summer. Chegando à Toscana, Maggie
reencontra um antigo namorado italiano, Luca (Raoul Bova). Carmen (Claudia
Cardinale), mãe de Luca, convence Summer a roubar o carro do filho e fugir para
Roma, onde um antigo namorado a está esperando para casar. Aí começa a
confusão. Summer e Carmen partem para Roma num verdadeiro passeio turístico pelo
interior da Itália e o espectador embarca junto nessa viagem (os cenários são
muito bonitos). Para complicar ainda mais a situação, a polícia é notificada de
que houve um sequestro e começa a perseguição. Luca e Maggie também embarcam
nessa aventura tentando localizar mãe e filha, respectivamente. Há bons
momentos de humor, mas, no geral, o filme decepciona por insistir nos clichês
do gênero, incluindo o final feliz. Triste mesmo foi ver a diva Claudia
Cardinale tão envelhecida. Para compensar, tem a beleza estonteante da atriz
espanhola Paz Vega, que faz apenas figuração, mas quando aparece ilumina a
telinha.
“REAPRENDENDO A AMAR” (“I Will See You in my Dreams”), EUA,
2015, é um drama bastante simpático, dirigido com sensibilidade pelo diretor
Brett Haley. Ainda como destaque, a atriz Blythe Danner (mãe de Gwyneth Paltrow
na vida real), ainda muito competente e charmosa aos 73 anos. No filme, ela
interpreta Carol, uma viúva de 70 anos que vive de remoer o passado ao lado de
seu fiel cão Haezel. Sua única diversão é encontrar as amigas (Mary Kay Place,
Rhea Perlman e June Squibb) uma vez por semana para jogar cartas e fofocar. É
nessas reuniões que acontecem os momentos de humor. Carol, porém, entra em
depressão depois da morte do seu cão e só melhora quando faz amizade com Lloyd
(Martin Starr), o jovem limpador de piscina. Aliás, um dos melhores momentos do
filme é quando Lloyd leva Carol a um karaokê e ela canta “Cry Me a River”. De
arrepiar. Logo depois, Carol conhece Bill (Sam Elliott), um “coroa” charmoso
por quem se apaixona. O tema principal do filme é a velhice e o que fazer para enfrentá-la
da melhor maneira possível. A maioria dos diálogos discute o assunto de forma
realista e, ao mesmo tempo, com muita leveza. Faz a gente refletir. Resumindo, um
filme bastante agradável.
“TRAUMAS DE INFÂNCIA” (“The Adderall Diaries”), 2015, EUA, é uma adaptação cinematográfica
do livro homônimo do escritor, jornalista, roteirista e cineasta Stephen
Elliott. O roteiro e a direção ficaram a cargo de Pamela Romanowsky. Robert Redford
aparece nos créditos como produtor executivo desse ótimo drama estrelado por
James Franco, Amber Heard, Ed Harris, Christian Slater e Cynthia Nixon. Stephen
Elliott (Franco) é um jovem escritor atormentado pelo passado. Não consegue
esquecer o péssimo relacionamento que teve com o pai Neil (Ed Harris), um homem
violento que abandonou Stephen e a esposa por outra mulher. Durante o
lançamento do livro em que escreve suas memórias, Stephen é surpreendido pela
presença do pai, que não via há anos. Os dois terão de se confrontar novamente,
relembrar o passado e discutir quem foi o culpado por tudo o que aconteceu.
Enquanto isso, além de namorar Lana Edmond (Amber Heard), Stephen fica obcecado
por um assassino confesso, Hans Reiser (Slater), que matou a esposa. Stephen
quer escrever a história de Reiser, relembrando “A Sangue Frio”, de Truman
Capote. Romanowsky fez um excelente trabalho de roteiro e direção, provando ser
uma jovem talentosa com um futuro bastante promissor.
Poucos
atores hoje em dia personificam tão bem o tipo machão quanto o ator espanhol
Javier Bardem. Mas ele já teve seu momento “delicado”, interpretando um amante
gay. Foi no dramalhão “A SEGUNDA PELE” (“Segunda Piel”), de 1999, dirigido por Gerardo Vera. Bardem
é Diego, um conceituado médico-cirurgião de Madri que vive um caso de amor com o
engenheiro Alberto (Jordi Mollá), que é casado com Elena (Ariadna Gil) e tem um
filho. Elena acaba descobrindo o caso e ameaça Alberto com a separação. A
partir daí, Alberto entra naquela fase de incerteza, quando não sabe se fica
com a família e se separa de Diego ou vice-versa. Uma tragédia, no desfecho, resolverá
o problema. O diretor Vera exagerou nas cenas de sexo, longas
e beirando o explícito. Incomodam. A trilha sonora, de Roque Baños, tenta
amplificar o drama, mas só consegue ser chata e um tanto deslocada da ação. Os
atores estão muito bem, principalmente Bardem, Jordi Mollá e Ariadna (uma das
atrizes espanholas mais bonitas). Mollá, aliás, ganhou o prêmio Goya de Melhor
Ator em 2000. Completa o elenco Cecilia Roth. Não é daqueles filmes que a gente
possa recomendar com elogios. Prefiro ficar com “arrisque e tire suas
conclusões”. Mas pode ser interessante para ver esses atores, hoje consagrados, então em início de carreira.
“PAPÉIS AO VENTO” (“Papeles em el Viento”), 2015.
Mais um gol de placa do cinema argentino. Literalmente, pois a história tem
como pano de fundo o futebol, a começar pelo título do filme, que se refere aos
papéis jogados pelas torcidas nos estádios de futebol da Argentina. O enredo é
saboroso: El Mono (Diego Torres) resolve investir na compra do passe de um
jogador promissor, um tal de Pittilanga, um perna-de-pau cujo único mérito foi ter
sido convocado pela seleção argentina sub-17. Aos 21 anos, joga num timeco da
3ª divisão do campeonato argentino. Com a morte de El Mono, o irmão Fernando
(Diego Peretti) e seus dois melhores amigos, Maurício (Pablo Echarri) e Russo
(Pablo Rago), tentam fazer de tudo para negociar o passe do jogador e recuperar
o dinheiro, que pretendem destinar à ex-esposa e à filha pequena do falecido. O
diretor Juan Taratuto (“A Reconstrução” e “Um Namorado para Minha Esposa”)
soube dosar com maestria momentos dramáticos com outros de muito humor, o que
torna esse filme muito agradável de assistir, mesmo que destinado ao público
masculino. Bom lembrar que a história é baseada no livro homônimo do escritor
Eduardo Sacheri, o mesmo que escreveu o roteiro do ótimo “O Segredo dos seus
Olhos”, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, um aval e tanto para mais este
excelente - e imperdível - filme argentino.
“O DONO DO JOGO” (“Pawn Sacrifice”), 2014, EUA, direção de Edward Zwick (“Diamante
de Sangue” e “O Último Samurai”) e roteiro escrito por Steven Knight (“Senhores
do Crime”). Para quem nunca ouviu falar, o norte-americano Bobby Fischer foi um
dos maiores enxadristas do mundo. Este filme conta sua história, destacando a
conquista do Campeonato Mundial de 1972, em Reykjavik, capital da Islândia, quando
Fischer enfrentou e venceu o até então invencível jogador russo Boris Spassky,
naquela que foi chamada a “Batalha da Guerra Fria”. Ao quebrar a hegemonia dos
russos no Xadrez, Fischer ganhou notoriedade mundial. Ele já era famoso nos
EUA, quando, aos 15 anos, ganhou o título de “Grande Mestre” e o Campeonato
Nacional de Xadrez. O filme mostra Fischer como um gênio mentalmente
perturbado, com mania de perseguição, egocêntrico e irascível. Tinha verdadeiro
horror dos comunistas, embora sua mãe tenha sido filiada ao partidão. Enfim, um
gênio genioso. Na vida real, teve um fim triste, como mostra o filme nos seus
créditos finais. Tobey Maguire (“Homem-Aranha”) é Bobby Fischer, numa excelente
interpretação. Também estão no elenco Liev Schreiber (Boris Spassky), Michael
Stuhlbarg (Paul Marshall) e Peter Sarsgaard (Padre Bill Lombardy). O maior
mérito do diretor Steven Zwick foi criar, de forma irrepreensível, o clima político que predominava naqueles
anos, tendo como pano de fundo a Guerra Fria. A recriação de época, cenários e
figurinos, também é o grande destaque desse ótimo filme, que merece ser visto não
apenas pelos aficionados do Xadrez. Imperdível!
O
tema “vingança com as próprias mãos” já ganhou inúmeros e incontáveis filmes. O
melhor deles talvez ainda seja “Desejo de Matar”, com Charles Bronson, na década de 70. Assassinos
matam alguém da família – ou a família inteira – do mocinho, que espera seja
feita justiça pela polícia ou pela própria Justiça. Como isso não acontece, ele
parte para a vingança pessoal. Clichê dos clichês. Agora chega mais um nessa
linha. “EU SOU A FÚRIA” (“I Am Wrath”), 2015, EUA, traz
John Travolta no papel de Stanley Hill, um ex-agente do governo americano cuja esposa
é brutalmente assassinada no estacionamento de um aeroporto. A polícia não faz
nada e o viúvo resolve, então, com a ajuda de um antigo companheiro, sair à
caça dos criminosos. No meio do caminho, porém, descobre que os assassinos não agiram
por conta própria, numa trama envolvendo policiais corruptos, um traficante de drogas psicopata e até uma alta autoridade governamental. Apesar do diretor Chuck
Russell (“O Máskara”, “Queima de Arquivo” e “O Escorpião Rei”) e da presença de
Travolta, além de outros atores bastante conhecidos como Christopher Meloni,
Rebecca de Mornay (ainda em grande forma) e Amanda Schull, “Eu sou a Fúria” não
passa de um filmeco B, que mais merecia Nicolas Cage no papel principal, o que quase
aconteceu, e não Travolta, que aliás, ultimamente, só tem feito filmes
medíocres. Este é mais um da lista.
O drama francês “O VALE DO AMOR” (“La Vallée de L’Amour”
ou “Valley of Love”) teve sua primeira
exibição no Festival de Cannes 2015, onde disputou a Palma de Ouro. A história:
os atores Gérard (Gérard Depardieu) e Isabelle (Isabelle Huppert), há muitos
anos separados, recebem, cada um, uma carta de Michael, o filho que se matara
sete meses antes, pedindo que os dois viajem para o Death Valley (Vale da
Morte), na Califórnia, em determinados dias de novembro. Lá, segundo ele
escreveu nas cartas, Gérard e Isabelle teriam a oportunidade de revê-lo. Um
toque de mediunidade. Durante os dias em que passam juntos, sob um calor
escaldante, Gérard e Isabelle aproveitam para aparar algumas arestas do
passado, entre as quais o arrependimento de ambos por não terem dado a atenção
devida ao filho, com o qual não tinham relação há anos. Isabelle acredita no
que o filho diz nas cartas, mas Gérard não vê com bons olhos qualquer
manifestação espiritual. O diretor Guillaume Nicloux (“A Religiosa”) manteve os
nomes dos atores em seus personagens. Tem até uma passagem engraçada no filme,
quando Gérard é reconhecido por um hóspede do hotel, que lhe pede um autógrafo.
Gérard escreve “Bob De Niro”. Falando no ator francês, ele nunca esteve tão
gordo. Parece um ogro. Mas, de qualquer forma, é um grande ator. E Isabelle
Huppert, a atriz competente de sempre. Os dois, praticamente os únicos
protagonistas, seguram o filme. Só por Depardieu e Huppert, vale uma visita. Ah,
o filme ganhou, merecidamente, o Prêmio César (o Oscar francês) de Melhor
Fotografia.
“QUE VIVA EISENSTEIN!” (“Eisenstein in Guanajuato”), 2014, México, direção de Peter Greenaway. Os
filmes do veterano cineasta britânico não são para iniciantes. Sabe disso quem
já assistiu a alguns deles, como “O Livro de Cabeceira”, “Afogando em Números”
e, principalmente, “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”. Baseado num
fato real, ou seja, a viagem do diretor russo Sergei Eisenstein ao México, em
1931, para filmar “Que Viva México!”, Greenaway inventou uma série de
acontecimentos que provavelmente foram frutos de sua fértil imaginação. E
transformou tudo num filme em que fica difícil distinguir a ficção da
realidade. Uma biografia surreal. Greenaway apresenta um Eisenstein (o ator
finlandês Elmer Bäck) excêntrico, egocêntrico, verborrágico e inconveniente, o que talvez
não tenha sido o diretor de filmes conceituados como “Encouraçado Potemkin”, “Greve”
e “Outubro”. Greenaway utiliza um recurso visual bastante interessante para
ilustrar as conversas de Eisenstein com seu guia mexicano, Palomino Cañedo
(Luis Alberti). Cada vez que o diretor russo cita o nome de uma personalidade,
seja um artista de cinema, escritor, filósofo ou político, imediatamente
aparece na tela a foto de quem é citado. Num desses diálogos, Eisenstein cita
os artistas que teve a oportunidade de conhecer em sua viagem a Hollywood, o
que entendi ser uma homenagem de Greenaway ao cinema do Tio Sam. Achei que o
diretor britânico explorou em demasia a homossexualidade do diretor russo,
inclusive por intermédio de longas cenas de sexo entre ele e o seu guia mexicano.
O filme estreou no 65º Festival de Berlim, em fevereiro de 2015, sem muitos
elogios. Enfim, mais um filme de Greenaway difícil de digerir, mas interessante
de assistir.
Produzido
em 2008 inicialmente para ser exibido na TV francesa, o drama “A
BELA JUNIE” (“La Belle Personne”) ganhou espaço no circuito comercial de
cinemas e fez sucesso junto ao público jovem e também adulto. Trata-se de uma
adaptação do romance “La Princesse de Clèves”, escrito no século 17 por Madame
de La Fayette. O roteiro e a direção ficaram a cargo de Christophe Honoré. A
jovem Junie (Lea Seydoux), de 16 anos, vai morar em Paris na casa dos tios
depois da morte de seus pais. Em seu novo colégio, Junie começa a atrair a
atenção de outros jovens, encantados por sua beleza. Jacques Nemours (Louis
Garrel), professor de italiano, acaba se apaixonando por Junie, mas ela está
namorando Otto (Grégore Leprince-Ringuet), um rapaz tímido e quieto. Em meio a
esse triângulo amoroso, o filme transcorre abordando a insegurança dos jovens a
respeito de suas emoções, paixões, desilusões e ciúmes. O filme não é apenas
interessante pela história em si, mas também pela oportunidade de ver alguns atores
franceses que hoje são sucesso em início de carreira, como Lea Seydoux (morena
e um pouco mais gordinha, mas já uma ótima atriz), Louis Garrel e Anaïs Demoustier. Assim como é interessante a pequena e quase anônima participação da atriz Chiara Mastroianni. Gostei e recomendo.
“PAIXÕES UNIDAS” (“United Passions – La Légende du
Football”), 2014, direção de Frédéric
Auburtin, é um filme dos mais interessantes para quem curte futebol. Em suas
quase duas horas de duração, conta a história dos 111 anos da FIFA (Federação
Internacional de Futebol), desde sua fundação em Paris, em 1904, até a Copa do
Mundo na África do Sul, em 2010. O filme dá destaque especial a três dos
principais personagens que construíram essa história, Jules Rimet (Gérard
Depardieu), João Havelange (Sam Neill) e Joseph Blatter (Tim Roth). A produção
francesa destaca também os bastidores e os intensos preparativos para a
realização da primeira Copa do Mundo de Futebol, no Uruguai, em 1930, e a final
de 1950, no Maracanã, quando o Uruguai calou 200 mil torcedores com sua vitória
sobre a seleção brasileira. Também são destacados os bastidores das negociações
da FIFA com fabricantes de materiais esportivos, a eleição de João Havelange e
depois de Blatter e as crises financeiras da entidade. Pena que essa história
tão bonita tenha sido manchada pela acusação de corrupção que atingiu seus
principais dirigentes em 2015, o que prejudicou, e muito, o lançamento dessa
caprichada produção francesa. De qualquer forma, trata-se de um filme que
merece ser visto.
Grande
vencedor da “Palma de Ouro” do Festival de Cannes 2015, “DHEEPAN,
O REFÚGIO“ (“DHEEPAN”) é mais um ótimo filme
do diretor francês Jacques Audiard (de “O Profeta” e “Ferrugem e Osso”), também
autor do roteiro. Audiard aborda o drama dos refugiados, tema tão em evidência
nos últimos tempos. A história é focada em três personagens que fogem do Sri
Lanka: Dheepan (Antonythasan Jesuthasan), um ex-soldado envolvido na guerra
civil, Yalini (Kalieaswari Srinivasan), que perdeu toda a família, e a menina órfã
Illayaal (Claudine Vinasithmby). Eles se conhecem num campo de refugiados e,
fingindo ser uma família, conseguem chegar à França. Só que, ao invés de
encontrar um mar de rosas, encontram um oceano de espinhos. Os três vão morar
num conjunto habitacional barra-pesada na periferia de Paris. Em meio à briga
de gangues e tiroteios quase que diários, Dheepan arruma emprego como zelador
de um prédio e Yalini vai trabalhar como cuidadora de um idoso. Mesmo que o contexto
seja bastante dramático, Audiard adiciona pitadas de humor e momentos de
sensibilidade, tornando esse filme muito agradável de assistir. Destaque para o excelente trabalho do ator que interpreta Dheepan. O filme é quase todo falado em tâmil, um dos idiomas oficiais do Sri Lanka. Quem aprecia
filmes de qualidade não pode perder.
Numa
das cenas iniciais do filme, Isabel (Ana de Armas) está esperando o trem no
metrô quando um homem de repente levita sobre os trilhos. Quando sai à rua, ela
começa a ver fantasmas. Pensei na hora: lá vem bomba! Não deu outra. “FILHA
DE DEUS” (“Exposed”), EUA, 2015, direção de Declan Dale, é um “abacaxi”
dos mais azedos. Nem o astro Keanu
Reeves consegue salvar. Reeves interpreta o detetive Scott Galban, encarregado
de investigar o misterioso assassinato do seu parceiro numa estação do metrô. Durante
as investigações, o policial descobrirá que seu falecido parceiro não era “flor
que se cheire”. Era corrupto e mau-caráter. O detetive Scott vai atrás dos principais
suspeitos, mas o verdadeiro assassino só é apresentado no final, numa revelação
bombástica. O filme é muito fraco, com problemas sérios de roteiro, principalmente
com relação às aparições vistas por Isabel, que não têm nada a ver com a
história. Apesar de bonita, ainda falta muito para a cubana Ana de Armas ser
considerada uma boa atriz. Reeves atua no piloto automático, devagar quase
parando. O último filme bom em que atuou foi “De Volta ao Jogo”, de 2014. A
única que se salva é Mira Sorvino como Janine, viúva do policial morto.
Rodado
em 2012 e lançado no Festival de Berlim/2015, “CAVALEIRO
DE COPAS” (“Knight of Cups”), é mais um filme enigmático, indecifrável e,
acima de tudo, insuportável, escrito e dirigido pelo cineasta/filósofo norte-americano
Terrence Malick. Sofrimento puro aguentar os seus 118 minutos de duração. Malick
repete a mesma estrutura narrativa dos
abomináveis “Árvore da Vida” e “Amor Pleno”, ou seja, um narrador com voz sussurrante
(Ben Kingsley), frases desconexas, reflexões filosóficas e poucos diálogos
entre os personagens. Tudo isso ilustrado por imagens do céu cheio de nuvens,
cidades iluminadas, praias e florestas. Um caos visual, mesmo que algumas
imagens sejam belíssimas. Entre as reflexões filosóficas, que não têm nada a
ver com o filme, estão pérolas como “O único jeito de sair é entrando”, ou “Eu
estou na escuridão, mas acredito na luz”, ou “A realidade não é a realidade”, ou
“Não perca tudo só porque perdeu uma parte”. O personagem principal é Rick
(Christian Bale), um escritor/roteirista de Hollywood que atravessa uma crise
existencial. Estão ainda no elenco Natalie Portman, Cate Blanchett, Imogen
Poots, Freida Pinto, Teresa Palmer, Isabel Lucas, Brian Dennehy e Antonio Bandeiras.
Um ótimo elenco para tanta bobagem. O tal "Cavaleiro de Copas" refere-se a uma carta do Tarô. Se você ainda não assistiu a nenhum filme
de Malick, assista a este por curiosidade e veja se eu não tenho razão.
“HECTOR E A PROCURA DA FELICIDADE” (“Hector and the search for happiness”), 2014,
Canadá/Alemanha, direção de Peter Chelsom. Comédia romântica com pitadas de
aventura. O psiquiatra Hector (Simon Pegg), de tanto as lamúrias dos seus
pacientes, também entra em crise existencial, no que acaba estremecendo sua
relação com a namorada Clara (Rosamund Pike). Para tentar resolver seus
problemas e também os de seus pacientes, Hector resolve sair pelo mundo para
tentar descobrir como ser feliz, ou como encontrar a felicidade. Seu périplo
inclui a China, com uma visita ao Nepal, e o interior da África. Neste último,
aliás, ele passará por grandes perigos, como ser sequestrado e preso por
rebeldes. A história é baseada no romance “Le Voyage D’Hector ou la Recherche
de Bonheur”, de François Lelord. Até que o filme é agradável, leve e com uma
mensagem bastante otimista sobre a felicidade. Além do simpático ator inglês
Simon Pegg e da competente e charmosa Rosamund Pike, o elenco conta ainda com participações
especiais de Christopher Plummer, Toni Collette, Jean Reno e do ator sueco Stellan
Skarsgard. Um bom programa para uma sessão com pipoca.
Em
1987, John Boorman dirigiu “Esperança e Glória” (“Hope and Glory”), um belo
filme (indicado ao Oscar em cinco categorias) que retrata o cotidiano de uma
família inglesa durante a Segunda Grande Guerra sob a ótica do garoto Bill. Em 2014,
o veterano cineasta inglês (“Amargo Pesadelo” e “Excalibur”) resolveu filmar
uma sequência, que chegou até a nós com o nome de “RAINHA
E PAÍS” (“Queen and Country”), trazendo
de volta o personagem principal Bill (Callun Turner). A história deste segundo
filme é ambientada em 1952 e Bill, aos 18 anos, está alistado no exército
inglês em treinamento para a Guerra da Coreia. Desta vez, Boorman acrescentou
um tom de sátira e comédia ao filme, principalmente nas cenas filmadas no
quartel. Os amigos Bill e Percy (Caleb Landry Jones) aprontam o tempo inteiro
e os oficiais são tratados de maneira caricatural. Em suas folgas, Bill conhece a bela e enigmática Ophelia (Tamsin Egerton), por quem se apaixona e que mais tarde descobrirá que é uma outra pessoa. O filme
não é ruim, tem alguns bons momentos e pode ser visto como um agradável entretenimento, mas não oferece muitos motivos para uma recomendação entusiasmada. O título estranho, tanto o original quanto a tradução, está associado à coroação da Rainha Elizabeth II naquele ano, numa cerimônia que mobilizou toda a população da Inglaterra.
“COPENHAGEN”,
2014, Canadá/Dinamarca/EUA, é um filme independente dirigido pelo jovem
cineasta canadense Mark Raso. Trata-se de sua estreia em longas. Antes, era
conhecido como competente diretor de curtas, um deles, “Under”, premiadíssimo
em vários festivais. A “Copenhagen” do título é mesmo a capital da Dinamarca, cenário
em que se desenrolará quase toda a história (o visual é de primeira).
Copenhagen é a última etapa da viagem do jovem canadense William (o ator inglês
Gethin Anthony) depois de passear, em companhia de um casal de amigos, por vários
países da Europa. Seu objetivo é visitar o avô e conhecer a história de sua
família – seu pai nasceu em Copenhagen. Depois de uma discussão com os amigos,
William fica sozinho na capital dinamarquesa. Não por muito tempo, porém, pois
logo conhece uma bela adolescente, Effy (Frederikke Dahl Hansen), que se
oferece para servir de cicerone. É claro que vai pintar um clima entre os dois,
apesar da grande diferença de idade. O filme até que é interessante, mas não
entusiasma muito. Os diálogos são afetados, pretensiosos, e em alguns momentos
chegam a cansar. Outro aspecto negativo é o próprio William, personagem dos
mais desagradáveis, prepotente, se acha o centro do Universo, além de ser dado
a grosserias. De bom mesmo, os cenários
de Copenhagen e a jovem e bela dinamarquesa. Pouco para garantir um bom
programa. Prefira o chocolate. Com K, claro.
“ENSINA-ME O AMOR” (“How to make love like an Englishman” nos EUA e Canadá; “Some Kind of
Beautiful”, na Inglaterra), 2014, EUA/Inglaterra, direção de Tom Vaughan. Apesar
do título novelesco e um tanto cafona dado aqui no Brasil, esta comédia romântica
é muito agradável e divertida, com Pierce Brosnan e Salma Hayek em momentos
inspiradíssimos – os dois já fizeram par romântico em “Ladrão de Diamantes”
(2004). Richard Haig (Brosnan) é professor da literatura inglesa na famosa
universidade de Cambridge e mulherengo crônico. Ele se envolve com a jovem estudante norte-americana Kate (Jessica Alba), uma de suas alunas. Logo aparece no cenário a irmã de Kate,
Olivia (Hayek), recém-saída de um divórcio tumultuado. Como era de se esperar, Richard
vai arrastar suas asas também para Olivia. A situação se complica ainda mais quando
Kate fica grávida do professor. A relação entre os três acaba gerando situações
de grande efeito cômico. A cena em que Olivia imita o orgasmo dos homens é
hilariante, comprovando a aptidão da atriz mexicana para a comédia. Brosnan
também está ótimo como o professor conquistador, charmoso e cínico. No papel de
Gordon, pai de Richard, o ator Malcolm McDowell também arrasa na comédia.
Enfim, um ótimo programa para uma sessão da tarde com pipoca. Diversão
garantida!
“TRUMBO – LISTA NEGRA” (“Trumbo”), 2015, EUA, aborda
um período da vida de Dalton Trumbo, um dos mais competentes roteiristas que já
passaram por Hollywood. Em 1947, acusado de pertencer ao Partido Comunista,
Trumbo foi chamado a depor no Comitê de Atividades Antiamericanas e se recusou
a colaborar, o que resultou em sua prisão por quase um ano. Muitos artistas,
diretores e executivos dos grandes estúdios também foram convocados a depor,
sendo que alguns, para manter o trabalho, acabaram entregando os próprios
companheiros. Mesmo depois de libertado, Trumbo continuou proibido de trabalhar e aparecer nos créditos.
Para sobreviver, escrevia roteiros utilizando nomes de outros roteiristas e
pseudônimos. Foi assim que ganhou dois Oscars de Melhor Roteiro: “A Princesa e
o Plebeu” (1953), roteiro assinado por seu amigo Ian McLellan Hunter, e “Arenas
Sangrentas” (1956), sob o pseudônimo de Robert Rich. Somente em 1959, depois de
ter escrito o roteiro de “Êxodus”, é que Trumbo voltou a aparecer nos créditos. Em
1971, escreveu e dirigiu (primeira experiência como diretor) “Johnny vai à
Guerra”, um dos filmes que mais me tocaram. “Trumbo” é um filmaço, desde a
direção competente de Jay Roach, a recriação de época, o roteiro primoroso e o ótimo elenco, com destaque para Bryan Cranston, que interpreta Trumbo, indicado ao Oscar de Melhor Ator - perdeu, injustamente, para DiCaprio, o atual queridinho da Academia. Também atuam no filme Diane Lane, Helen Mirren, John Goodman e Elle Fanning. Obrigatório para quem gosta de cinema. Imperdível para todo mundo!
Ambientado
num cenário de escombros numa Berlim destruída do pós-guerra, o drama alemão “PHOENIX”, 2014, conta a história de Nelly Lenz (Nina
Hoss), uma ex-cantora judia sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz,
de onde foi resgatada com o rosto totalmente desfigurado. Para reconstruí-lo, ela é levada para uma operação
cirúrgica na Suíça. Sua amiga Lena Winter (Nina Kunzendorf), que trabalha numa
agência recrutadora de judeus, pretende levá-la depois para a Palestina. Nelly,
porém, tem outros planos. Quer voltar a Berlim para se defrontar com o
ex-marido, Johnny (Ronald Zehrfeld), que ela acredita tê-la traído entregando-a
para os nazistas. Nelly retorna a Berlim e vai atrás do paradeiro de Johnny.
Acaba encontrando-o numa boate chamada “Phoenix” (o nome também é associado ao
ressurgimento de Nelly, literalmente, das cinzas). Quando Nelly aparece, Johnny
não a reconhece, mas tem a ideia de colocar em prática um plano para conseguir
a herança da ex-mulher, cuja família é bastante abonada. O roteiro foi adaptado
do romance “Le Retour des Cendres” (“O Retorno das Cinzas”), de Hubert Monteilhet,
e a direção coube a Christian Petzold (“Bárbara”). A produção é simples, elenco
mínimo, poucas locações. Ficou com cara de adaptação de uma peça de teatro ou um filme de segunda linha feito para TV. Se
há algo a destacar, sem dúvida é o desempenho de Nina Hoss, talvez a melhor
atriz alemã da atualidade.