Mais do que um excelente filme, “O DESTINO DE UMA NAÇÃO” (“Darkest Hour”) é uma verdadeira e
saborosa aula de História, cujo principal personagem é Winston Churchil,
primeiro-ministro inglês que comandou a resistência aliada contra as forças alemãs
de Hitler. O filme, escrito por Anthony McCarten e dirigido por Joe Wright,
aborda os bastidores da política inglesa no início da Segunda Guerra Mundial,
quando o Parlamento e o Rei George VI decidem destituir Neville Chamberlain do
cargo de primeiro-ministro e colocar Winston Churchil em seu lugar. De início,
Churchil é pressionado pelo comitê de guerra para negociar um tratado de paz
com Hitler, pois havia o temor de que as tropas alemãs invadissem a Inglaterra.
Churchil foi contra essa ideia e, com seus discursos de forte cunho patriótico,
motivou o povo inglês a pegar em armas contra os nazistas. O filme dá grande
destaque ao episódio de Dunquerque, quando 300 mil soldados ingleses foram encurralados
no litoral francês pelo forte exército alemão. Churchil, interpretado com
maestria pelo ator Gary Oldman, é humanizado e apresentado como um político surpreendentemente
indeciso, apreciador de uísque e comidas gordurosas no café da manhã, além dos
seus inseparáveis charutos e champanhe no almoço e no jantar. O filme disputará o Oscar 2018 em seis categorias:
Melhor Filme, Ator, Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Maquiagem. Estão
no elenco, além de Oldman, Kristin Scott Thomas, Lily James, Ronald Pickup, Ben Mendelsohn e
Stephen Dillane. O filme é ótimo, simplesmente imperdível!
O drama russo “SEM
AMOR” (“Nelyubov” – em inglês, “Loveless”), escrito e dirigido por Andrey
Zvyagintsev, estreou durante no 70º Festival de Cannes 2017 e conquistou o
Grande Prêmio do Júri. Além disso, está entre os cinco finalistas que
disputarão o Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. A história envolve a
relação desfeita do casal Zhenya (Mariana Spivak) e Boris (Alexey Rozin), que
resolvem se separar de forma traumática, com brigas e acusações das mais
ásperas. Principalmente por parte de Zhenya, que demonstra um ódio amargo pelo marido. As discussões chegam ao ponto de envolver a guarda do filho do
casal, Alyosha (Matvey Novikov), um garoto entrando na adolescência. Zhenya diz
que não quer ficar com o filho e Boris rebate dizendo que o menino precisa da
mãe. Alyosha escuta toda essa conversa, sofre com o desamor dos pais e
simplesmente desaparece do mapa, o que acaba gerando uma busca incessante por
parte da polícia. A ausência de sentimentos em relação ao filho desaparecido
fica mais do que evidente. Como se nada
tivesse acontecido, Boris curte um romance com uma jovem bem mais moça, que
está grávida, e Zhenya inicia uma nova vida amorosa indo morar com um namorado
rico. O roteirista e diretor Andrey Zvyagintsev, que se revelou com o ótimo “Leviatã”,
também indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015, elaborou um filme
contendo uma elevada carga de dramaticidade, sem abrir concessão para qualquer
tipo de sentimento que não seja a raiva e a falta de amor. Trata-se, portanto,
de um drama bastante pesado e nada agradável. Mas, sem dúvida, um filme muito bem
feito e impactante. Destaque para a atuação espetacular da atriz Mariana
Spivak.
Um dos cinco finalistas ao Oscar 2018 de Melhor Filme
Estrangeiro representando a Suécia e vencedor da Palma de Ouro no Festival de
Cannes 2017, “THE SQUARE – A ARTE DA
DISCÓRDIA” (“The Square”) contém uma
crítica mordaz e contundente à arte contemporânea e aos seus adeptos. Explora,
por exemplo, essa coisa ridícula que chamam de instalações, cujo conceito ou
finalidade ninguém sabe explicar direito, nem mesmo seus autores. Além de satirizar
esse modismo que ousam chamar de arte, o filme também critica as classes
privilegiadas e seu desprezo pelos mais necessitados – por incrível que pareça,
Estocolmo também tem muitos moradores de rua que vivem pedindo esmolas nas ruas
e nas estações de metrô. A história começa com o egocêntrico e prepotente
Christian (Claes Bang), curador-chefe do Museu de Arte Moderna de Estocolmo
dando uma entrevista para a jornalista norte-americana Anne (Elisabeth Moss).
Ele quer divulgar a próxima exposição, cuja atração principal é uma instalação
chamada “Square” (quadrado, em português). Aliás, a autora desse trabalho existe
mesmo na vida real, a artista plástica argentina Lola Arias, que ficou pê da
vida por não ter sido convidada para participar das filmagens. Ao mesmo tempo,
Christian tem seu celular roubado e, com a ajuda de um colega de trabalho,
tenta encontrar os ladrões. No meio de tudo isso que está acontecendo, Christian
contrata uma firma de publicidade para divulgar a exposição. Os jovens publicitários
apresentam uma alternativa pra lá de inusitada que tem tudo para dar errado...
e dá. Entre as cenas de maior impacto engendradas pelo roteirista e diretor
sueco Ruben Östlund (do ótimo “Força Maior”) está aquela em que, num jantar super-chique
no museu, um “homem-macaco” faz uma performance bastante perturbadora. Outra cena chocante é aquela em que, no meio de uma entrevista coletiva, um homem com Síndrome de Tourette interrompe os trabalhos gritando ofensas e palavrões. Sem falar nas cenas em que aparecem os moradores de rua. O filme, falado em sueco, inglês e dinamarquês, é
bastante instigante com sua sátira escancarada e debochada do excêntrico mundo da arte contemporânea. Tem boas chances de conquistar a estatueta, mas não é um filme
muito fácil de digerir.
“AMOR E TULIPAS” (“Tulip
Fever”), 2017, EUA/Reino
Unido, direção de Justin Chadwick, EUA/Reino Unido, é um drama de época adaptado
para o cinema do romance “Tulip Fever”, da escritora inglesa Deborah Moggach. A
história é ótima e o elenco de primeira qualidade: Alicia Vikander, Christoph
Waltz, Judi Dench, Holliday Grainger, Dane DeHaan e Cara Delevingne. O filme
também é muito bom, agradável de assistir. Toda a história é ambientada em
Amsterdã em meados do século 17, quando
a cidade holandesa vivia a febre especulativa do mercado de tulipas. A jovem
Sophia (Vikander) sai do convento para se casar com Cornelis Sandvoort (Waltz),
um rico comerciante de especiarias. Cornelis contrata o jovem pintor Jan van
Loos (DeHaan) para elaborar um retrato do casal. Se arrependimento matasse...
Sophia se apaixona pelo pintor, e vice-versa, e ambos iniciam um tórrido
romance. Os amantes, porém, passam a correr um sério risco de serem descobertos a partir
do momento em que Maria (Grainger), a empregada dos Sandvoort, fica sabendo dos
seus encontros e começa a chantagear a patroa. A repentina gravidez de Maria dá
margem a um plano diabólico criado por Sophia. O filme fica
ainda melhor depois que o diretor Chadwick (de “Mandela: O Caminho para a Liberdade”
e “A Outra”) acrescenta algumas cenas de suspense recheadas de humor, aliviando
um pouco a carga dramática da situação. Trata-se, portanto, de um bom
entretenimento, mesmo em se tratando de um filme de época, gênero que
normalmente carrega no drama e na tragédia. Pode assistir sem medo de não
gostar.
Mesmo que tenha sido bastante elogiado pela crítica
especializada e de ter sido indicado para representar o Brasil no Oscar 2018 de
Melhor Filme Estrangeiro, confesso que relutei em assistir “BINGO, O REI DAS MANHÃS”, primeiro longa-metragem dirigido por
Daniel Rezende, com roteiro de Luiz Bolognesi. Afinal, não me interessou muito
o fato que o filme retratava a vida de Arlindo Barreto, um dos atores que
interpretou o palhaço Bozo com grande sucesso durante a década de 1980 nas
manhãs da programação infantil da TVS, depois SBT. Devido a problemas de
direitos autorais, no filme Barreto passou a se chamar Augusto Mendes (Vladimir Brichta),
Bozo ficou sendo Bingo, Márcia de Windsor virou Martha Mendes (Ana Lúcia Torre)
e a TV Globo foi retratada como TV Mundial (até Pedro Bial faz uma ponta). Um
dos únicos nomes verdadeiros que permaneceu foi a de Gretchen (Emanuelle
Araújo). Arlindo Barreto/Augusto Mendes não se conformava em manter sigilo
sobre sua identidade verdadeira, conforme o rígido contrato que assinou ao ser
contratado para interpretar Bozo/Bingo. Ele queria ser famoso e reconhecido não
como o palhaço, mas sim como o ator que o interpretava. Essa frustração foi um
dos motivos que levaram Barreto às drogas e à bebida, inclusive nos bastidores
do programa. Para desespero de Lúcia (Leandra Leal), Barreto/Mendes não seguia
o roteiro pré-estabelecido, preferindo improvisar. Numa dessas ocasiões, quando
Gretchen se apresentava cantando “Conga”, ele começou a se esfregar na cantora,
gerando uma cena, convenhamos, nada apropriada para o público infantil. O filme
me surpreendeu pela qualidade da direção, do roteiro, da cenografia, da
recriação de época e, principalmente, pela interpretação competente de Vladimir
Brichta, que, confesso, não sabia que era tão bom ator. A trilha sonora é
ótima, levando-nos a uma viagem musical aos anos 80. IMPERDÍVEL!
Sempre gostei de filmes sobre jornalismo, principalmente
aqueles que envolvem os bastidores da política. Se for dos Estados Unidos,
então, melhor ainda. É o caso do ótimo “THE
POST – A GUERRA SECRETA” (“THE POST”),
dirigido pelo grande Steven Spielberg, com roteiro de Liz Hannah e Josh Singer.
O filme aborda um caso ocorrido em 1971, envolvendo a revelação, por parte dos
jornais New York Times e The Washington Post, de um estudo sobre a Guerra do
Vietnã encomendado por Robert McNamara, ex-Secretário de Defesa dos governos
Kennedy e Lyndon Johnson. A revelação é fantástica e bombástica, pois revela que
os governos dos EUA, desde Eisenhower, sabiam que a entrada nos EUA na Guerra
do Vietnã seria um engano terrível (como realmente foi), colocando em risco a
vida de milhares de jovens soldados norte-americanos. O New York Times revelou uma
parte da história, sem muitos detalhes. O governo Nixon processou o jornal e
proibiu que novas reportagens sobre o assunto fossem publicadas. Logo depois o The
Washington Post conseguiria a íntegra desse documento secreto, num trabalho
investigativo de um dos seus melhores repórteres. A decisão de publicá-lo ou
não é a grande questão levantada pelo filme. A ordem teria que ser dada pelo
editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks), com o aval da proprietária do jornal, Kat Ghraham
(Meryl Streep). O suspense domina o filme totalmente a partir da sua metade,
garantindo um ótimo entretenimento. O filme foi indicado para disputar duas
categorias no Oscar 2018: Melhor Filme e Melhor Atriz (Meryl Streep).
Ao receber 13 indicações, incluindo Melhor
Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz, além de ter vencido o Festival de Veneza, “A
FORMA DA ÁGUA” (“The Shape of Water”), com roteiro e direção de Guillermo
Del Toro (Vanessa Taylor ajudou no roteiro), é o grande favorito para vencer
nas principais categorias do Oscar 2018. O filme tem tudo para agradar os fãs de cinema:
ação, romance, fantasia, mocinho e bandido (no caso mocinha), suspense, humor e
algumas pitadas de erotismo (sexo e masturbação), mas sem nenhuma apelação,
além de um show de cenografia, fotografia e recriação de época. A história é
ambientada no início dos anos 60 do século passado, quando a Guerra Fria estava
no seu ponto mais crítico. Foi quando cientistas ligados ao Exército
norte-americano capturam na Amazônia uma criatura estranha, um homem anfíbio. Os
militares acreditavam que a descoberta poderia ser um trunfo para derrotar a União
Soviética numa possível guerra. Dessa forma, o ser estranho é aprisionado para
estudos num laboratório experimental secreto do governo dos EUA, onde trabalham
como faxineiras Elisa Esposito (Sally Hawkins) e Zelda (Octavia Spencer). Elisa
é muda, vive uma vida solitária e infeliz. Ela é quem vai conseguir se comunicar
com o homem anfíbio, iniciando um improvável romance. A história também tem um
vilão de qualidade, Richard Strickland, interpretado com maestria por Michael Shannon.
O destaque principal vai para a atriz inglesa Sally Hawkins, que dá um show de
interpretação sem falar uma palavra. “A Forma da Água” é, sem dúvida, um dos
melhores filmes feitos nos últimos anos por Hollywood, graças, principalmente,
ao diretor mexicano Guillermo Del Toro. Trump deve estar se remoendo... IMPERDÍVEL!
“FUKUSHIMA, MEU AMOR” (“Grüsse
Aus Fukushima”),
2016, Alemanha, roteiro e direção de Doris Dörrie (do maravilhoso "Hamami:
Cerejeiras em Floor”). A relação do título com o filme “Hiroshima, Mon Amour”,
de Alain Resnais, de 1959, não é gratuita. No filme do grande diretor francês,
o tema era a cidade devastada de Hiroshima. No caso da diretora alemã, o
assunto é a destruição quase que total da cidade de Fukushima, atingida por um
terremoto, um tsunami e um acidente nuclear em 2011, transformando-se numa
verdadeira “cidade-fantasma”. O filme começa com a desilusão amorosa da jovem
alemã Marie (Rosalie Thomass), abandonada pelo noivo às vésperas do casamento.
Tomada pelo desespero, ela resolve ingressar na organização “Clowns4 Help” (ONG
semelhante aos “Palhaços sem Fronteira”), criada pela prefeitura de Fukushima
para entreter os poucos habitantes que restaram na cidade. O filme, inteiramente
em preto e branco (uma excelente escolha estética da diretora), dá destaque à
amizade da jovem alemã com Satomi (Kaori Momoi), uma mulher de meia idade que perdeu toda a
família na tragédia. Apesar do contexto dramático, o filme tem muitos momentos
sensíveis e outros bastante bem-humorados, como a dificuldade da alemã em assimilar alguns ensinamentos da filosofia de vida dos japoneses. Entre as cenas de maior sensibilidade, destaco aquelas em que Satomi ensina Marie os rituais para fazer e tomar chá. “Fukushima, Meu Amor” é um belo filme, um ótimo entretenimento e cinema de alta qualidade. Não deixe de ver!
“DÓLARES DE AREIA” (“DÓLARES
DE ARENA”), 2014,
República Dominicana/México/Argentina, roteiro e direção do casal Laura Amelia
Guzmán e Israel Cárdenas, ela dominicana e ele mexicano. Um dos raros filmes
feitos no país caribenho e muito elogiado pela crítica especializada, além de
premiado nos festivais do Cairo, Chicago, Havana e Ceará. Vários críticos trataram
o filme como “uma preciosidade do Cinema Latino-Americano”. A história é
baseada no livro “Les Dollars des Sables”, escrito pelo francês Jean-Noël
Pancrazi e lançado em 2006. O roteiro tem como pano de fundo o turismo sexual,
prática muito em voga em cidades de praia do Caribe e do Brasil. O título do
filme já explica o contexto da história. Na pequena cidade litorânea de Samana
(República Dominicana), a jovem Noeli (Yanet Mojica) vive de aplicar golpes em
turistas, principalmente italianos, franceses e alemães. O sexo, evidentemente,
faz parte da programação. 0 cúmplice de Noeli é seu namorado e cafetão Toríbio (Ricardo
Ariel). Uma de suas “vítimas” é a francesa Anne (Geraldine Chaplin, a filha do
Charles). Embora de início Noeli tente enganar Anne, aos poucos uma relação
muito forte de afetividade cresce entre as duas, apesar da enorme diferença de
idade. Anne até promete a Noeli levá-la para viver em Paris, onde teria
oportunidade de mudar de vida. Os acontecimentos futuros, porém, dificultarão
esse plano. Com uma fotografia deslumbrante, o filme realmente é uma preciosidade
que precisa ser conhecida, mesmo que não tenha sido exibido por aqui no
circuito comercial, o que foi uma pena. Somente foi exibido durante a 38ª Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival do Ceará. Imperdível!
“MEU REI” (“MON ROI”), 2015, França, escrito e dirigido por
Maïwenn Le Besco. A história é centrada no relacionamento tumultuado da
advogada Marie Antoinette Jézébel (Emmanuelle Bercot), a quem os mais próximos
chamam de “Tony”, e Georgio Milevisk (Vincent Cassel), dono de restaurante e conquistador crônico. O
filme começa com o acidente ocorrido quando Tony esquiava, o que lhe resultou
num grave ferimento no joelho. Enquanto se recuperava numa clínica de reabilitação,
ela relembra os dez anos em que ficou casada com Georgio, um homem sedutor e, ao mesmo tempo, como demonstraria depois,
possessivo, instável, egoísta e, de certa forma, violento. Mesmo casado e pai,
Georgio continuou aprontando e Tony sempre perdoando. Até que um dia... Um
crítico profissional definiu o filme como “Uma bela e dolorosa história de amor”,
no que concordo plenamente. A diretora, e também atriz, Maïwenn, que já havia escrito
e dirigido bons filmes como “Polissia” e “Baile das Atrizes”, acerta a mão mais
uma vez, nos presenteando com um ótimo drama. O grande destaque do filme,
porém, é a atriz Emmanuelle Bercot. Confesso que faz muito tempo que não via
uma atuação tão espetacular. Só ela vale o filme inteiro, embora Vincent Cassel - o ex-marido de Mônica Belucci - também dá show de interpretação. Falar nisso, por esse
filme, Emmanuelle foi eleita a Melhor Atriz no Festival de Cannes 2015. Merecia
muito mais. "Meu Rei" também recebeu 8 indicações ao César (o Oscar francês). Sem dúvida, cinema de alta qualidade. Um ótimo programa.
O tema da eutanásia é o pano de fundo do drama francês “A ÚLTIMA LIÇÃO” (“LE DERNIÈRE LEÇON”), 2016, escrito e dirigido por
Pascale Pouzadoux. Não suportando mais conviver com dores pelo corpo,
incontinência urinária noturna, lapsos de memória e com todas as dificuldades
que caracterizam a velhice, Madeleine (Marthe Villalonga) resolve se suicidar.
Sua intenção é anunciada no almoço em que ela comemorava seus 92 anos com a
família. Disse que estava cansada de viver e que não gostaria de dar trabalho
para os filhos Diane (a simpática e ótima atriz Sandrine Bonnaire) e Pierre (Antoine
Duléry). Dali a dois meses, ela tomaria uns remédios e acabaria com tudo. De
início, os filhos não se conformam com a decisão da mãe e tentam demovê-la da
ideia. Diane, em especial, resolve dedicar uma atenção especial à mãe nos meses
que lhe restam de vida, enquanto seu irmão Pierre está mais preocupado com os
seus negócios. O filme quase inteiro é dedicado à relação entre Diane e a mãe,
o que rende alguns momentos comoventes e bastante sensíveis. Para escrever o
roteiro, em conjunto com Laurent de Bartillat, a diretora Pascale Pouzadoux se
inspirou no livro autobiográfico da filósofa Noëlle Châtelet, que relata os
três últimos meses de vida de sua mãe, Mireille Jospin. Resumo da ópera: um bom
programa para ver na telinha.
Que atriz maravilhosa é a inglesa Judi Dench! Aos 83 anos, ela
continua em grande forma, como pode ser comprovado em “VICTORIA E ABDUL – O CONFIDENTE DA RAINHA” (“Victoria & Abdul”), 2017, Inglaterra. A história
lembra um fato verídico ocorrido durante o reinado da Rainha Victoria e envolve
sua amizade com o indiano Abdul Karin (Ali Fazal). Esse relacionamento chocou a
corte vitoriana e o governo inglês, que durante muitos anos tentaram esconder o
que aconteceu. Tudo começou quando o governo indiano, então uma colônia
inglesa, resolve homenagear a Rainha Victoria com uma valiosa moeda. Abdul e
seu companheiro Mohammed (Adeel Akhtar) ficam encarregados de entregar o
presente durante uma solenidade das mais concorridas da corte inglesa. Abdul
quebra o protocolo ao encarar a rainha, dando-lhe um sorriso. Victoria, famosa
por seu mau humor, não teve nenhum surto psicótico, para surpresa de todos os presentes. Ao contrário, simpatizou de
cara com o indiano, iniciando uma grande amizade, que culminou com a nomeação
de Abdul para conselheiro e professor da rainha. Os membros da corte ficam
revoltados, ainda mais depois que Abdul convence Victoria a estudar o Alcorão.
O roteirista Lee Hall (“Billy Elliot”, “Cavalo de Guerra”) e o diretor Stephen
Frears (“Philomena”, “A Rainha”, “Florence: Quem é essa Mulher?”) resolveram adotar
um tom de comédia, sem deixar de lado os momentos dramáticos que caracterizam a
história dessa amizade inusitada e bastante improvável. Trata-se de um programa
bastante agradável, um entretenimento de primeira. E ainda tem Judi Dench em
estado de graça.
“O SUBORNO DO CÉU” (“El
Soborno del Cielo”),
2016, Colômbia, roteiro e direção de Lisandro Duque Naranjo. Trata-se de uma
história baseada em fatos reais ocorridos numa pequena cidade do interior da
Colômbia nos anos 70. Tudo começa quando um rapaz comete suicídio e o novo pároco
local recusa-se a rezar a missa de sétimo dia, seguindo orientação da Igreja
Católica, para a qual o suicida cometeu um pecado grave. A situação complica-se
ainda mais quando o padre exige que o corpo do falecido seja desenterrado e encaminhado
para um cemitério laico. A confusão está formada. O novo pároco, diante da
situação, impõe o interdito da igreja, ou seja, a suspensão de missas, casamentos,
batismos, extremas-unções etc., para desespero da população local, formada por
católicos fervorosos. Tanto a história, as
situações, o humor, os personagens e os cenários lembram novelas globais como “Tieta
do Agreste” e “O Bem-Amado”. Ou seja, o filme oferece entretenimento dos mais
agradáveis e descompromissados.
Selecionado para representar a Índia na disputa do Oscar 2018
de Melhor Filme Estrangeiro (não ficou entre os cinco finalistas), “NEWTON”, escrito e dirigido por Amit Masurkar,
consegue fazer rir tendo como pano de fundo um assunto sério. A história é
centrada no jovem Newton Kumar (Rajkummar Rao), um funcionário público dedicado
e honesto. Ou seja, uma raridade, inclusive na Índia. Às vésperas das eleições
gerais, ele se apresenta como voluntário para presidir a votação numa zona
eleitoral perigosa, constituída por apenas 76 eleitores, um vilarejo longínquo,
no meio da selva, com forte presença de rebeldes comunistas. Newton e sua
equipe de mesários são escoltados e protegidos por forças de segurança locais,
comandadas por Aatma Singh (Pankaj Tripathi). O primeiro desafio de Newton é
convencer a população local a participar da eleição. O pessoal tem medo de
sofrer retaliações por parte dos rebeldes. Newton, mesmo correndo risco de
vida, fará de tudo para conseguir seu objetivo. Como escrevi no início do
comentário, o roteirista e diretor Amit Masurkar transformou uma história que
poderia ser tratada com seriedade, numa quase comédia, com momentos realmente hilariantes. O filme apresenta um trunfo adicional: a ausência daquelas cenas de dança e música insuportáveis que são marca registrada dos filmes de Bollywood. Apesar de ser um bom filme, divertido e agradável de assistir, não tinha chance
mesmo de disputar o Oscar. Aqui no Brasil, ainda não chegou ao circuito
comercial. Apenas foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema de
Curitiba, em junho de 2017.
“MULHERES DIVINAS” (“DIE
GÖTTLICHE ORDNUNG”),
2017, Suíça, escrito e dirigido por Petra Biondina Volpe. A história,
ambientada em 1971, é centrada num grupo de mulheres de um vilarejo no interior
da Suíça que resolve aderir à campanha pelo direito ao voto feminino. Imaginem
só, na Suíça, país desenvolvido, as mulheres ainda não podiam votar até aquele
ano. O filme começa com um clipe bastante elucidativo, mostrando cenas reais de
1968, destacando as manifestações feministas em todo o mundo. Até 1971, os
avanços obtidos três anos antes não haviam chegado à pequena vila da Suíça, radicalmente
conservadora, onde as mulheres continuavam submissas aos maridos, presas aos
afazeres domésticos, proibidas de trabalhar fora e emitir qualquer tipo de
opinião, principalmente de cunho político. Esse contexto começa a mudar a
partir de Nora (Marie Leuenberger), casada e mãe de dois filhos, que resolve se
engajar na campanha pelo direito ao voto feminino. A ela juntam-se outras
mulheres decididas a se libertar do machismo reinante. A coisa pega fogo, pois além
do direito de votar elas resolvem também reivindicar o direito de trabalhar e
de conquistar sua emancipação sexual, o que rende cenas de muito bom humor,
principalmente quando uma sueca resolve fazer uma palestra sobre o prazer
feminino, incluindo temas como o orgasmo e a masturbação. Dessa forma, a
diretora Petra Volpe conseguiu tratar de um tema sério de maneira bem leve e divertida, tornando o filme bastante agradável de assistir. “Mulheres
Divinas” foi o filme selecionado para representar a Suíça no Oscar 2018 de
Melhor Filme Estrangeiro, mas não ficou entre os cinco finalistas. Aqui no
Brasil, foi exibido como uma das atrações da 41ª Mostra Internacional de Cinema
de São Paulo, em outubro/novembro de 2017.
“VERÃO 1993” (“ESTIU
1993”), selecionado
para representar a Espanha no Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, foi
apontado por alguns críticos especializados como um dos grandes favoritos, mas
ficou de fora dos cinco finalistas, apesar de ter conquistado prêmios em vários
festivais de cinema pelo mundo afora em 2017. Trata-se do filme de estreia da
roteirista e diretora Carla Simón, que escreveu a história baseando-se em suas
memórias de infância. O filme é centrado na menina Frida (Laia Artigas), de
apenas seis anos de idade, que perdeu o pai e logo em seguida a mãe, tendo de sair de
Barcelona para morar com os tios Marga (Bruna Cusí) e Esteve (David Verdaguer)
na zona rural da Catalunha. Revoltada e invejosa, sentindo muito a falta da mãe,
Frida vai tumultuar o ambiente da nova família, o que inclui maltratar a
priminha mais nova. Para domá-la, Marga e Esteve terão que adotar as mais diferentes
formas de psicologia, mas não será nada fácil. Destaque para a ótima atuação da
atriz mirim Laia Artigas. Resumo da ópera: um filme de crianças feito para
adultos. De qualquer forma, um bom filme, mas exageradamente valorizado.
Já foi o tempo em que Bruce Willis era o grande astro dos
filmes de ação – quem não se lembra da série “Duro de Matar”? Mas o tempo
passou e o astro norte-americano envelheceu e já não consegue papeis que
correspondam ao seu carisma e à sua competência como ator. Em seu mais recente filme,
o suspense “CAÇADA BRUTAL” (“FIRST KILL”),
2017, direção de Steven C. Miller com roteiro de Nick Gordon, Willis aparece
somente no começo, apresentado como o chefe de polícia da cidade, e depois no
final, num tiroteio que marca o desfecho da história. Quem trabalha o tempo
inteiro é Hayden Christensen (o ator canadense conhecido como o Anakin Skywalker
de “Star Wars”), que leva o filho de 11 anos para caçar na floresta – mania de
americano achar que um garoto só vira homem depois de dar uns tiros e matar um
animal. Ele presencia a briga de dois homens por causa do dinheiro de um
assalto a banco. Um deles é assassinado e o outro ferido. O que sobreviveu
sequestra o filho de Will (papel de Christensen), o que desencadeia a tal caçada brutal. Haverá algumas reviravoltas, pois quem parecia o
mocinho vira o vilão e vice-versa. Steven Miller já havia dirigido Willis em outros dois filmes: "Assalto ao Poder" e "Operação Resgate", bem melhores do que este. Triste constatar que Willis já não é tão
duro de matar. Filme bem fraquinho, sem chance de ser recomendado.
O drama dinamarquês “UMA
GUERRA” (“KRIGEN”), 2015, escrito e dirigido por Tobias Lindholm, foi um
dos cinco finalistas na disputa do Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro. Era
o grande favorito, mas acabou perdendo para “O Filho de Saul”. Merecia ganhar.
O filme é centrado na rotina de um pelotão do exército dinamarquês no
Afeganistão, responsável por realizar patrulhas, prender guerrilheiros talibãs
e ajudar a população civil no que for necessário. O grupo é comandado pelo oficial
Claus M. Pedersen (Pilou Asbaek). Numa dessas patrulhas, Pedersen e seus homens
são emboscados por atiradores talibãs e pedem ajuda aérea. Ao informar as
coordenadas de uma casa onde estariam os atiradores para que seja atacada pelo
reforço aéreo, Pedersen comete um trágico engano: na casa havia somente civis,
11 dos quais, incluindo várias crianças, morreram no ataque. Pelo erro,
Pedersen é obrigado a voltar para a Dinamarca para ser submetido a julgamento
por uma corte marcial, acusado de crime de guerra. Entre uma cena e outra de
guerra, o diretor Tobias Lindholm dá destaque também à árdua rotina da esposa
de Pedersen, Maria (Tuva Novotny), que se vira como pode para cuidar dos três
filhos pequenos, um deles causando problemas quase que diários na escola. Maria
e os filhos sentem muita falta de Pedersen. Para Maria, sua casa também é uma
espécie de “campo de batalha”, um aspecto pouco explorado nos outros filmes que
têm uma guerra como pano de fundo. Imperdível!
“UM REINO UNIDO” (“A
United Kingdom”), 2016,
Inglaterra/França, terceiro longa-metragem escrito e dirigido por Amma Asante –
o primeiro foi “A Way of Life”, de 2004, e o segundo, “Belle”, de 2013. A
história de “Um Reino Unido” é baseada em fatos reais relatados no livro “Colour
Bar”, de Susan Williams, lançado em 2006. No final dos anos 40, o príncipe
Seretse Khama (David Oyelowo), herdeiro do trono de Bechuanalândia (mais tarde
Botswana), estudava Direito em Londres quando conhece a britânica Ruth
Williams. Os dois curtiam dançar e ouvir jazz. E, claro, acabam se apaixonando
e casando, provocando uma série de protestos por parte da família real de
Bechuanalândia, na época um protetorado britânico, e das autoridades inglesas, que
apoiavam a política do apartheid
implementada pela vizinha África do Sul. Seretse Khama e Ruth Williams resolveram
enfrentar todas as dificuldades, lutando contra o preconceito e as fortes ingerências
políticas - imagine um casamento inter-racial naquela época. Depois da independência de Bechuanalândia, em 1966, Seretse Khama
seria eleito o primeiro presidente de Botswana. Uma história de amor muito
bonita, tendo como pano de fundo o contexto político da época envolvendo a
Inglaterra e suas colônias na África. Além de um ótimo filme, uma verdadeira aula de História.
“VIOLAÇÃO DE CONFIDENCIALIDADE”
(“La Mecanique de L’Ombre”), 2017, filme de estreia de Thomas Kruithof como roteirista e
diretor. Também vi um DVD com a tradução “A Mecânica das Sombras”. Como não foi
exibido por aqui no circuito comercial, não há uma tradução oficial. A história
é centrada no cinquentão Duval (François Cluzet, de “Intocáveis”), um homem
solitário, com um passado ligado a problemas com bebida, e que de uma hora para
outra perde o emprego e não consegue outro. Fica desempregado durante dois anos
e, depois de inúmeras entrevistas, consegue finalmente um trabalho. Ele é
contratado por um empresário misterioso chamado Clement (Denis Podalydes) para
transcrever gravações de conversas telefônicas. Um trabalho simples, mas muito
bem pago. Num amplo escritório, o único móvel é uma mesa com uma máquina de
escrever – o filme não especifica o ano em que se passa a ação. Duval começa a
trabalhar e acaba percebendo que algumas fitas possuem conteúdo bastante confidencial,
envolvendo políticos importantes e gente ligada ao governo francês, incluindo
agentes do serviço secreto. Enfim, descobre que as gravações estão ligadas a
uma conspiração política. Duval chega à conclusão que entrou numa grande fria e
quer pular fora. Só que é tarde demais, ele está envolvido numa trama sinistra,
é acusado de assassinato e vai ter que fugir para sobreviver. Suspense e tensão
garantidos, num filme cuja ação tem o ritmo frenético, não deixando o
espectador respirar. E, ainda mais com a competência habitual do ator François
Cluzet, torna-se um ótimo entretenimento. Também estão no elenco Sami Bouajila, Simon Abkarian e Alba Rohrwacher.
A primeira exibição do drama húngaro “CORPO E ALMA” (“Teströl És Lélekröl”) aconteceu no 67º Festival de
Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017. O filme, escrito e dirigido pela
diretora húngara Ildikó Enyedi, foi aclamado pela crítica, público e jurados, conquistando
o “Urso de Ouro” como o melhor filme do festival. Além disso, foi selecionado
para representar a Hungria na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme
Estrangeiro. Sem dúvida, um dos filmes mais interessantes dos últimos anos,
criativo e sensível, além de bem-humorado. Tudo para contar uma história inusitada
de amor entre Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi). Os dois são
colegas de trabalho num grande matadouro de gado, ela recém-contratada como
inspetora de qualidade; ele, bem mais velho, é o diretor financeiro da empresa.
Ao realizar o programa de entrevistas com os funcionários, a psicóloga do
matadouro faz uma descoberta incrível: Mária e Endre têm os mesmos sonhos todos
os dias. Endre sonha que é veado (o bicho, não a bicha!) e está sempre em companhia de uma cerva numa floresta. Ela,
por seu lado, sonha que tem como companheiro um veado. Os sonhos sempre combinam. A psicóloga fica brava e acha que os
dois estão brincando com ela, o que resulta em algumas cenas bastante
engraçadas. Mária e Endre tentarão viver o mesmo romance dos sonhos, mas a
realidade não é tão fácil quanto possa parecer. Enfim, um filme muito
inteligente e agradável. Simplesmente imperdível!
Selecionado para representar a Romênia na disputa do Oscar
2017 de Melhor Filme Estrangeiro, “SIERANEVADA” é uma comédia dramática escrita
e dirigida por Cristi Puiu (“A Morte do Sr. Lazarescu” e “Aurora”). O filme,
quase inteiramente ambientado dentro de um apartamento, acompanha a reunião da
família do médico Lary (Mimi Branescu), que se encontra num sábado para
homenagear o 1º aniversário da morte do patriarca Emil. Enquanto aguardam a
chegada de um padre da Igreja Ortodoxa para realizar o serviço religioso e
benzer o apartamento, os familiares de Lary passam por situações inusitadas que
transformarão o encontro familiar numa grande bagunça. Uma jovem croata, totalmente
drogada, é levada por uma jovem da família para se recuperar no apartamento;
uma tia revela as traições do marido com detalhes escabrosos; a avó defende o tempo
da ditadura comunista, o que faz surtar a dona da casa, e por aí vai. Nesse
meio tempo, as discussões familiares abordam temas como os atentados de 11 de
setembro nos EUA e o cometido contra a redação do semanário parisiense Charlie
Hebdo – o encontro familiar acontece alguns dias após o atentado de Paris. A
câmera de Puiu acompanha tudo bem de perto, como se fosse um convidado
invadindo a intimidade da família. O filme é bastante longo (2h53m) e
verborrágico demais, embora contenha diálogos muito interessantes e bem-humorados. Busquei informações sobre o título escolhido e descobri que o diretor queria referir-se a um antigo faroeste. "Sieranevada" foi exibido por aqui durante a Mostra “Panorama do Cinema Mundial”, no
Festival Internacional do Rio de Janeiro, e concorreu à Palma de Ouro no Festival
de Cannes 2016.