quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um dos cinco finalistas ao Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro representando a Suécia e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017, “THE SQUARE – A ARTE DA DISCÓRDIA” (“The Square”) contém uma crítica mordaz e contundente à arte contemporânea e aos seus adeptos. Explora, por exemplo, essa coisa ridícula que chamam de instalações, cujo conceito ou finalidade ninguém sabe explicar direito, nem mesmo seus autores. Além de satirizar esse modismo que ousam chamar de arte, o filme também critica as classes privilegiadas e seu desprezo pelos mais necessitados – por incrível que pareça, Estocolmo também tem muitos moradores de rua que vivem pedindo esmolas nas ruas e nas estações de metrô. A história começa com o egocêntrico e prepotente Christian (Claes Bang), curador-chefe do Museu de Arte Moderna de Estocolmo dando uma entrevista para a jornalista norte-americana Anne (Elisabeth Moss). Ele quer divulgar a próxima exposição, cuja atração principal é uma instalação chamada “Square” (quadrado, em português). Aliás, a autora desse trabalho existe mesmo na vida real, a artista plástica argentina Lola Arias, que ficou pê da vida por não ter sido convidada para participar das filmagens. Ao mesmo tempo, Christian tem seu celular roubado e, com a ajuda de um colega de trabalho, tenta encontrar os ladrões. No meio de tudo isso que está acontecendo, Christian contrata uma firma de publicidade para divulgar a exposição. Os jovens publicitários apresentam uma alternativa pra lá de inusitada que tem tudo para dar errado... e dá. Entre as cenas de maior impacto engendradas pelo roteirista e diretor sueco Ruben Östlund (do ótimo “Força Maior”) está aquela em que, num jantar super-chique no museu, um “homem-macaco” faz uma performance bastante perturbadora. Outra cena chocante é aquela em que, no meio de uma entrevista coletiva, um homem com Síndrome de Tourette interrompe os trabalhos gritando ofensas e palavrões. Sem falar nas cenas em que aparecem os moradores de rua. O filme, falado em sueco, inglês e dinamarquês, é bastante instigante com sua sátira escancarada e debochada do excêntrico mundo da arte contemporânea. Tem boas chances de conquistar a estatueta, mas não é um filme muito fácil de digerir.      

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

“AMOR E TULIPAS” (“Tulip Fever”), 2017, EUA/Reino Unido, direção de Justin Chadwick, EUA/Reino Unido, é um drama de época adaptado para o cinema do romance “Tulip Fever”, da escritora inglesa Deborah Moggach. A história é ótima e o elenco de primeira qualidade: Alicia Vikander, Christoph Waltz, Judi Dench, Holliday Grainger, Dane DeHaan e Cara Delevingne. O filme também é muito bom, agradável de assistir. Toda a história é ambientada em Amsterdã  em meados do século 17, quando a cidade holandesa vivia a febre especulativa do mercado de tulipas. A jovem Sophia (Vikander) sai do convento para se casar com Cornelis Sandvoort (Waltz), um rico comerciante de especiarias. Cornelis contrata o jovem pintor Jan van Loos (DeHaan) para elaborar um retrato do casal. Se arrependimento matasse... Sophia se apaixona pelo pintor, e vice-versa, e ambos iniciam um tórrido romance. Os amantes, porém, passam a correr um sério risco de serem descobertos a partir do momento em que Maria (Grainger), a empregada dos Sandvoort, fica sabendo dos seus encontros e começa a chantagear a patroa. A repentina gravidez de Maria dá margem a um plano diabólico criado por Sophia. O filme fica ainda melhor depois que o diretor Chadwick (de “Mandela: O Caminho para a Liberdade” e “A Outra”) acrescenta algumas cenas de suspense recheadas de humor, aliviando um pouco a carga dramática da situação. Trata-se, portanto, de um bom entretenimento, mesmo em se tratando de um filme de época, gênero que normalmente carrega no drama e na tragédia. Pode assistir sem medo de não gostar.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Mesmo que tenha sido bastante elogiado pela crítica especializada e de ter sido indicado para representar o Brasil no Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, confesso que relutei em assistir “BINGO, O REI DAS MANHÃS”, primeiro longa-metragem dirigido por Daniel Rezende, com roteiro de Luiz Bolognesi. Afinal, não me interessou muito o fato que o filme retratava a vida de Arlindo Barreto, um dos atores que interpretou o palhaço Bozo com grande sucesso durante a década de 1980 nas manhãs da programação infantil da TVS, depois SBT. Devido a problemas de direitos autorais, no filme Barreto passou a se chamar Augusto Mendes (Vladimir Brichta), Bozo ficou sendo Bingo, Márcia de Windsor virou Martha Mendes (Ana Lúcia Torre) e a TV Globo foi retratada como TV Mundial (até Pedro Bial faz uma ponta). Um dos únicos nomes verdadeiros que permaneceu foi a de Gretchen (Emanuelle Araújo). Arlindo Barreto/Augusto Mendes não se conformava em manter sigilo sobre sua identidade verdadeira, conforme o rígido contrato que assinou ao ser contratado para interpretar Bozo/Bingo. Ele queria ser famoso e reconhecido não como o palhaço, mas sim como o ator que o interpretava. Essa frustração foi um dos motivos que levaram Barreto às drogas e à bebida, inclusive nos bastidores do programa. Para desespero de Lúcia (Leandra Leal), Barreto/Mendes não seguia o roteiro pré-estabelecido, preferindo improvisar. Numa dessas ocasiões, quando Gretchen se apresentava cantando “Conga”, ele começou a se esfregar na cantora, gerando uma cena, convenhamos, nada apropriada para o público infantil. O filme me surpreendeu pela qualidade da direção, do roteiro, da cenografia, da recriação de época e, principalmente, pela interpretação competente de Vladimir Brichta, que, confesso, não sabia que era tão bom ator. A trilha sonora é ótima, levando-nos a uma viagem musical aos anos 80. IMPERDÍVEL!   

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Sempre gostei de filmes sobre jornalismo, principalmente aqueles que envolvem os bastidores da política. Se for dos Estados Unidos, então, melhor ainda. É o caso do ótimo “THE POST – A GUERRA SECRETA” (“THE POST”), dirigido pelo grande Steven Spielberg, com roteiro de Liz Hannah e Josh Singer. O filme aborda um caso ocorrido em 1971, envolvendo a revelação, por parte dos jornais New York Times e The Washington Post, de um estudo sobre a Guerra do Vietnã encomendado por Robert McNamara, ex-Secretário de Defesa dos governos Kennedy e Lyndon Johnson. A revelação é fantástica e bombástica, pois revela que os governos dos EUA, desde Eisenhower, sabiam que a entrada nos EUA na Guerra do Vietnã seria um engano terrível (como realmente foi), colocando em risco a vida de milhares de jovens soldados norte-americanos. O New York Times revelou uma parte da história, sem muitos detalhes. O governo Nixon processou o jornal e proibiu que novas reportagens sobre o assunto fossem publicadas. Logo depois o The Washington Post conseguiria a íntegra desse documento secreto, num trabalho investigativo de um dos seus melhores repórteres. A decisão de publicá-lo ou não é a grande questão levantada pelo filme. A ordem teria que ser dada pelo editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks), com o aval da proprietária do jornal, Kat Ghraham (Meryl Streep). O suspense domina o filme totalmente a partir da sua metade, garantindo um ótimo entretenimento. O filme foi indicado para disputar duas categorias no Oscar 2018: Melhor Filme e Melhor Atriz (Meryl Streep). 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ao receber 13 indicações, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz, além de ter vencido o Festival de Veneza, “A FORMA DA ÁGUA” (“The Shape of Water”), com roteiro e direção de Guillermo Del Toro (Vanessa Taylor ajudou no roteiro), é o grande favorito para vencer nas principais categorias do Oscar 2018. O filme tem tudo para agradar os fãs de cinema: ação, romance, fantasia, mocinho e bandido (no caso mocinha), suspense, humor e algumas pitadas de erotismo (sexo e masturbação), mas sem nenhuma apelação, além de um show de cenografia, fotografia e recriação de época. A história é ambientada no início dos anos 60 do século passado, quando a Guerra Fria estava no seu ponto mais crítico. Foi quando cientistas ligados ao Exército norte-americano capturam na Amazônia uma criatura estranha, um homem anfíbio. Os militares acreditavam que a descoberta poderia ser um trunfo para derrotar a União Soviética numa possível guerra. Dessa forma, o ser estranho é aprisionado para estudos num laboratório experimental secreto do governo dos EUA, onde trabalham como faxineiras Elisa Esposito (Sally Hawkins) e Zelda (Octavia Spencer). Elisa é muda, vive uma vida solitária e infeliz. Ela é quem vai conseguir se comunicar com o homem anfíbio, iniciando um improvável romance. A história também tem um vilão de qualidade, Richard Strickland, interpretado com maestria por Michael Shannon. O destaque principal vai para a atriz inglesa Sally Hawkins, que dá um show de interpretação sem falar uma palavra. “A Forma da Água” é, sem dúvida, um dos melhores filmes feitos nos últimos anos por Hollywood, graças, principalmente, ao diretor mexicano Guillermo Del Toro. Trump deve estar se remoendo... IMPERDÍVEL!

domingo, 11 de fevereiro de 2018

“FUKUSHIMA, MEU AMOR” (“Grüsse Aus Fukushima”), 2016, Alemanha, roteiro e direção de Doris Dörrie (do maravilhoso "Hamami: Cerejeiras em Floor”). A relação do título com o filme “Hiroshima, Mon Amour”, de Alain Resnais, de 1959, não é gratuita. No filme do grande diretor francês, o tema era a cidade devastada de Hiroshima. No caso da diretora alemã, o assunto é a destruição quase que total da cidade de Fukushima, atingida por um terremoto, um tsunami e um acidente nuclear em 2011, transformando-se numa verdadeira “cidade-fantasma”. O filme começa com a desilusão amorosa da jovem alemã Marie (Rosalie Thomass), abandonada pelo noivo às vésperas do casamento. Tomada pelo desespero, ela resolve ingressar na organização “Clowns4 Help” (ONG semelhante aos “Palhaços sem Fronteira”), criada pela prefeitura de Fukushima para entreter os poucos habitantes que restaram na cidade. O filme, inteiramente em preto e branco (uma excelente escolha estética da diretora), dá destaque à amizade da jovem alemã com Satomi (Kaori Momoi), uma mulher de meia idade que perdeu toda a família na tragédia. Apesar do contexto dramático, o filme tem muitos momentos sensíveis e outros bastante bem-humorados, como a dificuldade da alemã em assimilar alguns ensinamentos da filosofia de vida dos japoneses. Entre as cenas de maior sensibilidade, destaco aquelas em que Satomi ensina Marie os rituais para fazer e tomar chá. “Fukushima, Meu Amor” é um belo filme, um ótimo entretenimento e cinema de alta qualidade. Não deixe de ver!       
“DÓLARES DE AREIA” (“DÓLARES DE ARENA”), 2014, República Dominicana/México/Argentina, roteiro e direção do casal Laura Amelia Guzmán e Israel Cárdenas, ela dominicana e ele mexicano. Um dos raros filmes feitos no país caribenho e muito elogiado pela crítica especializada, além de premiado nos festivais do Cairo, Chicago, Havana e Ceará. Vários críticos trataram o filme como “uma preciosidade do Cinema Latino-Americano”. A história é baseada no livro “Les Dollars des Sables”, escrito pelo francês Jean-Noël Pancrazi e lançado em 2006. O roteiro tem como pano de fundo o turismo sexual, prática muito em voga em cidades de praia do Caribe e do Brasil. O título do filme já explica o contexto da história. Na pequena cidade litorânea de Samana (República Dominicana), a jovem Noeli (Yanet Mojica) vive de aplicar golpes em turistas, principalmente italianos, franceses e alemães. O sexo, evidentemente, faz parte da programação. 0 cúmplice de Noeli é seu namorado e cafetão Toríbio (Ricardo Ariel). Uma de suas “vítimas” é a francesa Anne (Geraldine Chaplin, a filha do Charles). Embora de início Noeli tente enganar Anne, aos poucos uma relação muito forte de afetividade cresce entre as duas, apesar da enorme diferença de idade. Anne até promete a Noeli levá-la para viver em Paris, onde teria oportunidade de mudar de vida. Os acontecimentos futuros, porém, dificultarão esse plano. Com uma fotografia deslumbrante, o filme realmente é uma preciosidade que precisa ser conhecida, mesmo que não tenha sido exibido por aqui no circuito  comercial, o que foi uma pena. Somente foi exibido durante a 38ª Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival do Ceará. Imperdível!      


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

“MEU REI” (“MON ROI”), 2015, França, escrito e dirigido por Maïwenn Le Besco. A história é centrada no relacionamento tumultuado da advogada Marie Antoinette Jézébel (Emmanuelle Bercot), a quem os mais próximos chamam de “Tony”, e Georgio Milevisk (Vincent Cassel), dono de restaurante e conquistador crônico. O filme começa com o acidente ocorrido quando Tony esquiava, o que lhe resultou num grave ferimento no joelho. Enquanto se recuperava numa clínica de reabilitação, ela relembra os dez anos em que ficou casada com Georgio, um homem sedutor e,  ao mesmo tempo, como demonstraria depois, possessivo, instável, egoísta e, de certa forma, violento. Mesmo casado e pai, Georgio continuou aprontando e Tony sempre perdoando. Até que um dia... Um crítico profissional definiu o filme como “Uma bela e dolorosa história de amor”, no que concordo plenamente. A diretora, e também atriz, Maïwenn, que já havia escrito e dirigido bons filmes como “Polissia” e “Baile das Atrizes”, acerta a mão mais uma vez, nos presenteando com um ótimo drama. O grande destaque do filme, porém, é a atriz Emmanuelle Bercot. Confesso que faz muito tempo que não via uma atuação tão espetacular. Só ela vale o filme inteiro, embora Vincent Cassel - o ex-marido de Mônica Belucci - também dá show de interpretação. Falar nisso, por esse filme, Emmanuelle foi eleita a Melhor Atriz no Festival de Cannes 2015. Merecia muito mais. "Meu Rei" também recebeu 8 indicações ao César (o Oscar francês). Sem dúvida, cinema de alta qualidade. Um ótimo programa.   

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O tema da eutanásia é o pano de fundo do drama francês “A ÚLTIMA LIÇÃO” (“LE DERNIÈRE LEÇON”), 2016, escrito e dirigido por Pascale Pouzadoux. Não suportando mais conviver com dores pelo corpo, incontinência urinária noturna, lapsos de memória e com todas as dificuldades que caracterizam a velhice, Madeleine (Marthe Villalonga) resolve se suicidar. Sua intenção é anunciada no almoço em que ela comemorava seus 92 anos com a família. Disse que estava cansada de viver e que não gostaria de dar trabalho para os filhos Diane (a simpática e ótima atriz Sandrine Bonnaire) e Pierre (Antoine Duléry). Dali a dois meses, ela tomaria uns remédios e acabaria com tudo. De início, os filhos não se conformam com a decisão da mãe e tentam demovê-la da ideia. Diane, em especial, resolve dedicar uma atenção especial à mãe nos meses que lhe restam de vida, enquanto seu irmão Pierre está mais preocupado com os seus negócios. O filme quase inteiro é dedicado à relação entre Diane e a mãe, o que rende alguns momentos comoventes e bastante sensíveis. Para escrever o roteiro, em conjunto com Laurent de Bartillat, a diretora Pascale Pouzadoux se inspirou no livro autobiográfico da filósofa Noëlle Châtelet, que relata os três últimos meses de vida de sua mãe, Mireille Jospin. Resumo da ópera: um bom programa para ver na telinha.       

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Que atriz maravilhosa é a inglesa Judi Dench! Aos 83 anos, ela continua em grande forma, como pode ser comprovado em “VICTORIA E ABDUL – O CONFIDENTE DA RAINHA” (“Victoria & Abdul”), 2017, Inglaterra. A história lembra um fato verídico ocorrido durante o reinado da Rainha Victoria e envolve sua amizade com o indiano Abdul Karin (Ali Fazal). Esse relacionamento chocou a corte vitoriana e o governo inglês, que durante muitos anos tentaram esconder o que aconteceu. Tudo começou quando o governo indiano, então uma colônia inglesa, resolve homenagear a Rainha Victoria com uma valiosa moeda. Abdul e seu companheiro Mohammed (Adeel Akhtar) ficam encarregados de entregar o presente durante uma solenidade das mais concorridas da corte inglesa. Abdul quebra o protocolo ao encarar a rainha, dando-lhe um sorriso. Victoria, famosa por seu mau humor, não teve nenhum surto psicótico, para surpresa de todos os presentes. Ao contrário, simpatizou de cara com o indiano, iniciando uma grande amizade, que culminou com a nomeação de Abdul para conselheiro e professor da rainha. Os membros da corte ficam revoltados, ainda mais depois que Abdul convence Victoria a estudar o Alcorão. O roteirista Lee Hall (“Billy Elliot”, “Cavalo de Guerra”) e o diretor Stephen Frears (“Philomena”, “A Rainha”, “Florence: Quem é essa Mulher?”) resolveram adotar um tom de comédia, sem deixar de lado os momentos dramáticos que caracterizam a história dessa amizade inusitada e bastante improvável. Trata-se de um programa bastante agradável, um entretenimento de primeira. E ainda tem Judi Dench em estado de graça.       

domingo, 28 de janeiro de 2018

“O SUBORNO DO CÉU” (“El Soborno del Cielo”), 2016, Colômbia, roteiro e direção de Lisandro Duque Naranjo. Trata-se de uma história baseada em fatos reais ocorridos numa pequena cidade do interior da Colômbia nos anos 70. Tudo começa quando um rapaz comete suicídio e o novo pároco local recusa-se a rezar a missa de sétimo dia, seguindo orientação da Igreja Católica, para a qual o suicida cometeu um pecado grave. A situação complica-se ainda mais quando o padre exige que o corpo do falecido seja desenterrado e encaminhado para um cemitério laico. A confusão está formada. O novo pároco, diante da situação, impõe o interdito da igreja, ou seja, a suspensão de missas, casamentos, batismos, extremas-unções etc., para desespero da população local, formada por católicos fervorosos.  Tanto a história, as situações, o humor, os personagens e os cenários lembram novelas globais como “Tieta do Agreste” e “O Bem-Amado”. Ou seja, o filme oferece entretenimento dos mais agradáveis e descompromissados.      
Selecionado para representar a Índia na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro (não ficou entre os cinco finalistas), “NEWTON”, escrito e dirigido por Amit Masurkar, consegue fazer rir tendo como pano de fundo um assunto sério. A história é centrada no jovem Newton Kumar (Rajkummar Rao), um funcionário público dedicado e honesto. Ou seja, uma raridade, inclusive na Índia. Às vésperas das eleições gerais, ele se apresenta como voluntário para presidir a votação numa zona eleitoral perigosa, constituída por apenas 76 eleitores, um vilarejo longínquo, no meio da selva, com forte presença de rebeldes comunistas. Newton e sua equipe de mesários são escoltados e protegidos por forças de segurança locais, comandadas por Aatma Singh (Pankaj Tripathi). O primeiro desafio de Newton é convencer a população local a participar da eleição. O pessoal tem medo de sofrer retaliações por parte dos rebeldes. Newton, mesmo correndo risco de vida, fará de tudo para conseguir seu objetivo. Como escrevi no início do comentário, o roteirista e diretor Amit Masurkar transformou uma história que poderia ser tratada com seriedade, numa quase comédia, com momentos realmente hilariantes. O filme apresenta um trunfo adicional: a ausência daquelas cenas de dança e música insuportáveis que são marca registrada dos filmes de Bollywood. Apesar de ser um bom filme, divertido e agradável de assistir, não tinha chance mesmo de disputar o Oscar. Aqui no Brasil, ainda não chegou ao circuito comercial. Apenas foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema de Curitiba, em junho de 2017.      

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018



“MULHERES DIVINAS” (“DIE GÖTTLICHE ORDNUNG”), 2017, Suíça, escrito e dirigido por Petra Biondina Volpe. A história, ambientada em 1971, é centrada num grupo de mulheres de um vilarejo no interior da Suíça que resolve aderir à campanha pelo direito ao voto feminino. Imaginem só, na Suíça, país desenvolvido, as mulheres ainda não podiam votar até aquele ano. O filme começa com um clipe bastante elucidativo, mostrando cenas reais de 1968, destacando as manifestações feministas em todo o mundo. Até 1971, os avanços obtidos três anos antes não haviam chegado à pequena vila da Suíça, radicalmente conservadora, onde as mulheres continuavam submissas aos maridos, presas aos afazeres domésticos, proibidas de trabalhar fora e emitir qualquer tipo de opinião, principalmente de cunho político. Esse contexto começa a mudar a partir de Nora (Marie Leuenberger), casada e mãe de dois filhos, que resolve se engajar na campanha pelo direito ao voto feminino. A ela juntam-se outras mulheres decididas a se libertar do machismo reinante. A coisa pega fogo, pois além do direito de votar elas resolvem também reivindicar o direito de trabalhar e de conquistar sua emancipação sexual, o que rende cenas de muito bom humor, principalmente quando uma sueca resolve fazer uma palestra sobre o prazer feminino, incluindo temas como o orgasmo e a masturbação. Dessa forma, a diretora Petra Volpe conseguiu tratar de um tema sério de maneira bem leve e divertida, tornando o filme bastante agradável de assistir. “Mulheres Divinas” foi o filme selecionado para representar a Suíça no Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, mas não ficou entre os cinco finalistas. Aqui no Brasil, foi exibido como uma das atrações da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro/novembro de 2017.         

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

“VERÃO 1993” (“ESTIU 1993”), selecionado para representar a Espanha no Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, foi apontado por alguns críticos especializados como um dos grandes favoritos, mas ficou de fora dos cinco finalistas, apesar de ter conquistado prêmios em vários festivais de cinema pelo mundo afora em 2017. Trata-se do filme de estreia da roteirista e diretora Carla Simón, que escreveu a história baseando-se em suas memórias de infância. O filme é centrado na menina Frida (Laia Artigas), de apenas seis anos de idade, que perdeu o pai e logo em seguida a mãe, tendo de sair de Barcelona para morar com os tios Marga (Bruna Cusí) e Esteve (David Verdaguer) na zona rural da Catalunha. Revoltada e invejosa, sentindo muito a falta da mãe, Frida vai tumultuar o ambiente da nova família, o que inclui maltratar a priminha mais nova. Para domá-la, Marga e Esteve terão que adotar as mais diferentes formas de psicologia, mas não será nada fácil. Destaque para a ótima atuação da atriz mirim Laia Artigas. Resumo da ópera: um filme de crianças feito para adultos. De qualquer forma, um bom filme, mas exageradamente valorizado.          

sábado, 20 de janeiro de 2018

Já foi o tempo em que Bruce Willis era o grande astro dos filmes de ação – quem não se lembra da série “Duro de Matar”? Mas o tempo passou e o astro norte-americano envelheceu e já não consegue papeis que correspondam ao seu carisma e à sua competência como ator. Em seu mais recente filme, o suspense “CAÇADA BRUTAL” (“FIRST KILL”), 2017, direção de Steven C. Miller com roteiro de Nick Gordon, Willis aparece somente no começo, apresentado como o chefe de polícia da cidade, e depois no final, num tiroteio que marca o desfecho da história. Quem trabalha o tempo inteiro é Hayden Christensen (o ator canadense conhecido como o Anakin Skywalker de “Star Wars”), que leva o filho de 11 anos para caçar na floresta – mania de americano achar que um garoto só vira homem depois de dar uns tiros e matar um animal. Ele presencia a briga de dois homens por causa do dinheiro de um assalto a banco. Um deles é assassinado e o outro ferido. O que sobreviveu sequestra o filho de Will (papel de Christensen), o que desencadeia a tal caçada brutal. Haverá algumas reviravoltas, pois quem parecia o mocinho vira o vilão e vice-versa. Steven Miller já havia dirigido Willis em outros dois filmes: "Assalto ao Poder" e "Operação Resgate", bem melhores do que este. Triste constatar que Willis já não é tão duro de matar. Filme bem fraquinho, sem chance de ser recomendado.         

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O drama dinamarquês “UMA GUERRA” (“KRIGEN”), 2015, escrito e dirigido por Tobias Lindholm, foi um dos cinco finalistas na disputa do Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro. Era o grande favorito, mas acabou perdendo para “O Filho de Saul”. Merecia ganhar. O filme é centrado na rotina de um pelotão do exército dinamarquês no Afeganistão, responsável por realizar patrulhas, prender guerrilheiros talibãs e ajudar a população civil no que for necessário. O grupo é comandado pelo oficial Claus M. Pedersen (Pilou Asbaek). Numa dessas patrulhas, Pedersen e seus homens são emboscados por atiradores talibãs e pedem ajuda aérea. Ao informar as coordenadas de uma casa onde estariam os atiradores para que seja atacada pelo reforço aéreo, Pedersen comete um trágico engano: na casa havia somente civis, 11 dos quais, incluindo várias crianças, morreram no ataque. Pelo erro, Pedersen é obrigado a voltar para a Dinamarca para ser submetido a julgamento por uma corte marcial, acusado de crime de guerra. Entre uma cena e outra de guerra, o diretor Tobias Lindholm dá destaque também à árdua rotina da esposa de Pedersen, Maria (Tuva Novotny), que se vira como pode para cuidar dos três filhos pequenos, um deles causando problemas quase que diários na escola. Maria e os filhos sentem muita falta de Pedersen. Para Maria, sua casa também é uma espécie de “campo de batalha”, um aspecto pouco explorado nos outros filmes que têm uma guerra como pano de fundo. Imperdível!          

domingo, 14 de janeiro de 2018

“UM REINO UNIDO” (“A United Kingdom”), 2016, Inglaterra/França, terceiro longa-metragem escrito e dirigido por Amma Asante – o primeiro foi “A Way of Life”, de 2004, e o segundo, “Belle”, de 2013. A história de “Um Reino Unido” é baseada em fatos reais relatados no livro “Colour Bar”, de Susan Williams, lançado em 2006. No final dos anos 40, o príncipe Seretse Khama (David Oyelowo), herdeiro do trono de Bechuanalândia (mais tarde Botswana), estudava Direito em Londres quando conhece a britânica Ruth Williams. Os dois curtiam dançar e ouvir jazz. E, claro, acabam se apaixonando e casando, provocando uma série de protestos por parte da família real de Bechuanalândia, na época um protetorado britânico, e das autoridades inglesas, que apoiavam a política do apartheid implementada pela vizinha África do Sul. Seretse Khama e Ruth Williams resolveram enfrentar todas as dificuldades, lutando contra o preconceito e as fortes ingerências políticas - imagine um casamento inter-racial naquela época. Depois da independência de Bechuanalândia, em 1966, Seretse Khama seria eleito o primeiro presidente de Botswana. Uma história de amor muito bonita, tendo como pano de fundo o contexto político da época envolvendo a Inglaterra e suas colônias na África. Além de um ótimo filme, uma verdadeira aula de História.     

sábado, 13 de janeiro de 2018

“VIOLAÇÃO DE CONFIDENCIALIDADE” (“La Mecanique de L’Ombre”), 2017, filme de estreia de Thomas Kruithof como roteirista e diretor. Também vi um DVD com a tradução “A Mecânica das Sombras”. Como não foi exibido por aqui no circuito comercial, não há uma tradução oficial. A história é centrada no cinquentão Duval (François Cluzet, de “Intocáveis”), um homem solitário, com um passado ligado a problemas com bebida, e que de uma hora para outra perde o emprego e não consegue outro. Fica desempregado durante dois anos e, depois de inúmeras entrevistas, consegue finalmente um trabalho. Ele é contratado por um empresário misterioso chamado Clement (Denis Podalydes) para transcrever gravações de conversas telefônicas. Um trabalho simples, mas muito bem pago. Num amplo escritório, o único móvel é uma mesa com uma máquina de escrever – o filme não especifica o ano em que se passa a ação. Duval começa a trabalhar e acaba percebendo que algumas fitas possuem conteúdo bastante confidencial, envolvendo políticos importantes e gente ligada ao governo francês, incluindo agentes do serviço secreto. Enfim, descobre que as gravações estão ligadas a uma conspiração política. Duval chega à conclusão que entrou numa grande fria e quer pular fora. Só que é tarde demais, ele está envolvido numa trama sinistra, é acusado de assassinato e vai ter que fugir para sobreviver. Suspense e tensão garantidos, num filme cuja ação tem o ritmo frenético, não deixando o espectador respirar. E, ainda mais com a competência habitual do ator François Cluzet, torna-se um ótimo entretenimento. Também estão no elenco Sami Bouajila, Simon  Abkarian e Alba Rohrwacher.
    

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A primeira exibição do drama húngaro “CORPO E ALMA” (“Teströl És Lélekröl”) aconteceu no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017. O filme, escrito e dirigido pela diretora húngara Ildikó Enyedi, foi aclamado pela crítica, público e jurados, conquistando o “Urso de Ouro” como o melhor filme do festival. Além disso, foi selecionado para representar a Hungria na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. Sem dúvida, um dos filmes mais interessantes dos últimos anos, criativo e sensível, além de bem-humorado. Tudo para contar uma história inusitada de amor entre Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi). Os dois são colegas de trabalho num grande matadouro de gado, ela recém-contratada como inspetora de qualidade; ele, bem mais velho, é o diretor financeiro da empresa. Ao realizar o programa de entrevistas com os funcionários, a psicóloga do matadouro faz uma descoberta incrível: Mária e Endre têm os mesmos sonhos todos os dias. Endre sonha que é veado (o bicho, não a bicha!) e está sempre em companhia de uma cerva numa floresta. Ela, por seu lado, sonha que tem como companheiro um veado. Os sonhos sempre combinam. A psicóloga fica brava e acha que os dois estão brincando com ela, o que resulta em algumas cenas bastante engraçadas. Mária e Endre tentarão viver o mesmo romance dos sonhos, mas a realidade não é tão fácil quanto possa parecer. Enfim, um filme muito inteligente e agradável. Simplesmente imperdível!      

domingo, 7 de janeiro de 2018

Selecionado para representar a Romênia na disputa do Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro, “SIERANEVADA” é uma comédia dramática escrita e dirigida por Cristi Puiu (“A Morte do Sr. Lazarescu” e “Aurora”). O filme, quase inteiramente ambientado dentro de um apartamento, acompanha a reunião da família do médico Lary (Mimi Branescu), que se encontra num sábado para homenagear o 1º aniversário da morte do patriarca Emil. Enquanto aguardam a chegada de um padre da Igreja Ortodoxa para realizar o serviço religioso e benzer o apartamento, os familiares de Lary passam por situações inusitadas que transformarão o encontro familiar numa grande bagunça. Uma jovem croata, totalmente drogada, é levada por uma jovem da família para se recuperar no apartamento; uma tia revela as traições do marido com detalhes escabrosos; a avó defende o tempo da ditadura comunista, o que faz surtar a dona da casa, e por aí vai. Nesse meio tempo, as discussões familiares abordam temas como os atentados de 11 de setembro nos EUA e o cometido contra a redação do semanário parisiense Charlie Hebdo – o encontro familiar acontece alguns dias após o atentado de Paris. A câmera de Puiu acompanha tudo bem de perto, como se fosse um convidado invadindo a intimidade da família. O filme é bastante longo (2h53m) e verborrágico demais, embora contenha diálogos muito interessantes e bem-humorados. Busquei informações sobre o título escolhido e descobri que o diretor queria referir-se a um antigo faroeste. "Sieranevada" foi exibido por aqui durante a Mostra “Panorama do Cinema Mundial”, no Festival Internacional do Rio de Janeiro, e concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016.    

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

“EM BUSCA DE VINGANÇA” (“Aftermath”), EUA, 2016, direção de Elliott Lester (“Blitz” e “Nightingale”), com roteiro de Javier Gullón (“O Homem Duplicado”). O título nacional dá a entender que vem pancadaria grossa, ainda mais que o ator principal é Arnold Schwarzenegger. Ledo engano. Já foi o tempo em que o brucutu austríaco encantava plateias no mundo inteiro distribuindo socos e tiros em bons filmes de ação. Hoje, aos 70 anos, não tem mais a mobilidade para encarar uma briga. Nesse drama, ele vive Roman Melnik, um imigrante russo que trabalha na construção civil. Às vésperas do Natal, ele espera a volta de sua esposa e de sua filha grávida que retornavam de Kiev. Ao buscá-las no aeroporto, ele recebe a trágica notícia: o avião onde elas estavam colidiu com outro, matando dezenas de pessoas, incluindo sua esposa e a filha. Enquanto Melnik tenta se recompor do choque, o filme passa a acompanhar o drama do controlador de tráfego aéreo Jake Bonaos (Scoot McNairy), responsabilizado pelo acidente e obrigado a mudar de cidade e até mesmo de identidade. Roman vai fazer de tudo para encontrá-lo e parte em busca de vingança. A história toda é baseada em fatos reais, ou seja, o acidente ocorrido no dia 1 de julho de 2002 no espaço aéreo da Alemanha, onde se chocaram um Boeing 757 cargueiro e um Tupolev com dezenas de crianças russas. O inquérito concluiu que houve erro dos controladores de voo. Talvez  Schwarzenegger não tenha sido a melhor escolha para o papel, mas o carisma do ator acaba compensando.             

terça-feira, 2 de janeiro de 2018



“INEXPLICÁVEL” (“Unspeakable”) foi produzido pelo Channel 4 da Inglaterra e exibido no dia 5 de novembro de 2017. Trata-se de um drama que contém um conselho bastante importante – mais do que um conselho, um alerta: não acredite em toda mensagem enviada para o seu celular, principalmente as anônimas. A história é centrada em Jo (Indira Varma), que passa a viver um dilema terrível depois de receber uma mensagem anônima pelo celular. Segundo o ou a  remetente, seu namorado Danny (Luke Treadaway), alguns anos mais moço, estaria tendo um caso com Katie (Nina Sorrentino), sua filha de 11 anos. Mesmo não querendo acreditar, Jo fica desesperada com a mensagem e não sossega enquanto não descobrir toda a verdade, nem que para isso tenha de confrontar seu namorado, seu ex-marido Des (Neil Maskeil) e a própria filha. Todo o suspense engendrado pelo roteirista e diretor David Nath culmina num desfecho bastante previsível, o que torna essa produção televisiva pouco recomendável.