Dos
filmes que abordaram ou tiveram como pano de fundo o conflito Palestina/Israel,
“MIRAL”, França/Israel, 2010, talvez seja o mais
esclarecedor. A história, inspirada no romance homônimo escrito pela jornalista
Rula Jebreal, começa em 1947, portanto um ano antes da criaç ão do Estado de Israel. O enredo acompanha a
trajetória de três gerações de mulheres, começando com Hind Husseini (Hiam
Abbass), que naquele ano criou em Jerusalém o Instituto Dar Al-Tifel, destinado
a acolher e educar crianças palestinas refugiadas e órfãs, e terminando com
Miral (Freida Pinto). Paralelamente à história dessas mulheres, o filme destaca,
de forma didática, os fatos que contribuíram para a radicalização do conflito.
Embora o diretor norte-americano Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”
e “Basquiat”) tenha descendência judaica, o filme é claramente a favor da causa
dos palestinos – criação de um estado independente -, e não economiza críticas
aos israelenses, considerados os grandes vilões da história. Quando o filme
estreou, em 2010, no Festival de Veneza, provocou enorme polêmica. Logo depois,
foi exibido numa sessão especial na Assembleia Geral das Nações Unidas, sob
protestos de Israel e do Comitê Judaico Americano. Polêmicas à parte, o filme é
muito bom e merece ser visto por quem curte cinema de qualidade e gosta de
estar bem informado sobre os fatos da história contemporânea.
Quando
as luzes se acenderam ao final da exibição do drama alemão “NADA
DE MAL PODE ACONTECER” (“Tore Tanzt”),
direção de Katrin Gesse, durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo, em outubro de 2014, a plateia – os que ficaram, pois muitos foram embora
na metade - estava completamente em silêncio. Na verdade, chocada, pois o filme
é angustiante, desagradável demais. É repleto de cenas envolvendo violência,
tortura física e psicológica, sodomia e maus tratos a animais. A história é
centrada no jovem Tore (Julius Feldmeier), pertencente aos Fanáticos de Jesus
(The Jesus Freaks), um movimento punk cristão que existiu na cidade de
Hamburgo. Tore não tem família e mora num abrigo juntamente com outros
integrantes do grupo. Um dia, no estacionamento de um posto de gasolina, ele vê
um motorista que não consegue fazer pegar o motor do seu carro. Tore vai até o
veículo, fecha o capô e faz uma oração. O carro pega na hora. Tore, em seu fanatistmo
religioso, acredita que é abençoado por Deus, quem sabe até o novo Messias. Benno
(Sascha Alexander Gersak), o motorista do carro, convida Tore para morar com
sua família – mulher, uma filha adolescente e um garoto de uns 5 anos. Benno,
porém, é a maldade em pessoa, violento, um verdadeiro demônio. Ele assedia
sexualmente a jovem enteada e encontra em Tore um bom saco de pancadas. Percebendo
os instintos animalescos de Benno, Tore resolve testar sua fé colocando em
prática dois dos principais ensinamentos de Cristo: oferecer a outra face e perdoar
sempre. Segundo ele crê, com Jesus no coração nada de mal pode acontecer. Saber que
a história é baseada em fatos reais talvez seja mais chocante do que o próprio
filme.
O fantasma do Alzheimer assombra milhões de famílias no munto inteiro. Só
quem teve um parente ou alguém próximo atingido pela doença sabe de suas consequências - dor, sofrimento e desesperança. No
filme “PARA SEMPRE ALICE” (“Still Alice”), EUA, 2014, direção de
Richard Glatzer, o espectador terá a oportunidade de acompanhar o declínio mental
da dra. Alice Howland (Juliane Moore), conceituada professora de Linguística
que passa a sofrer de um tipo raro de Alzheimer. Lidar com a doença e com a
doente não é tarefa das mais fáceis para o marido John (Alec Baldwin) e os três
filhos Ana (Kate Bosworth), Lydia (Kristen Stewart) e Tom (Hunter Parrish). Para
aumentar ainda mais o drama familiar, um teste revela que um dos filhos tem
100% de chance de também ser atingido pela doença no futuro. A história,
baseada no best-seller da neurocientista Lisa Genova, é muito triste,
principalmente quando acompanha os esforços de Alice para não sucumbir às
armadilhas do Alzheimer. Toda hora Alice se pergunta até quando será a mesma. “Será
que amanhã eu acordarei sendo a mesma Alice?”. Um dos momentos mais tocantes do
filme é quando Alice ministra uma palestra sobre a doença, durante a qual
revela como tenta conviver com a crescente perda da memória. Juliane mostra a
competência de sempre, atuando com a carga de emoção que o papel exige. Kristen
Stewart, a mocinha da Saga Crespúsculo, é outro destaque do elenco. Um filme
para refletir e se emocionar.
Um
filme com emoção, delicadeza e muita sensibilidade. Assim pode ser definido o
drama inglês “NA CADÊNCIA DO AMOR” (“Lilting”), 2013, dirigido pelo cambojano Hong Khaou. O cenário é
Londres. Depois da morte trágica de seu namorado Kai (Andre Leung), o jovem
Richard (o ótimo Ben Whishaw) tenta uma aproximação com a “sogra” Junn (Pei-Pei Cheng),
que vive num asilo e nunca soube da relação homossexual do filho. Ela é uma
senhora tão teimosa a ponto de não falar inglês depois de muitos anos morando na
capital inglesa. No asilo, embora não fale a mesma língua, ela vive um namorico
com Alan (Peter Bowles), um senhor bem-humorado que insiste em levá-la para a
cama. A história do filme é centrada nos diálogos entre Richard e Junn, por
intermédio de uma intérprete, a jovem Vann (Namomi Christie). Richard tem como
objetivo cumprir alguns desejos manifestados por Kai, um deles tirar a mãe do
asilo. Entre as tentativas de Richard de cair nas graças de Junn e as dificuldades dela na convivência com Alan - o que resulta em bons momentos de humor -, o filme destaca algumas cenas em flashbacks mostrando
como era o relacionamento entre o jovem casal gay. O filme estreou no Festival de
Sundance 2014, onde conquistou o Prêmio de Melhor Fotografia. Muito pouco para
um filme tão original e sensível. Pena que o título dado em nossa tradução seja por demais ridículo para um filme tão bom.
Considerado como a grande obra-prima do diretor Aleksandr Sokúrov e do próprio cinema russo e mundial, “ARCA
RUSSA” ("Russkij Kovcheg"), 2002, realmente é de encher os
olhos. O filme é original, criativo e erudito. É todo filmado numa única tomada
(plano-sequência), sem cortes, em seus 97 minutos de duração. Toda a ação se
desenvolvendo no interior do Museu Hermitage, em São Petersburgo, antigo
palácio dos czares e dono de um acervo inestimável de obras de arte. A câmera percorre
os 35 salões do museu na companhia de um aristocrata europeu que funciona como
uma espécie de guia. Ele vai denominando as salas, alguns quadros e esculturas,
identificando seus autores, enquanto a câmera vai captando os detalhes
arquitetônicos dos amplos corredores, peças artísticas e a decoração dos
ambientes. Quando a câmera ingressa em alguns salões, o cenário volta no tempo
e damos de cara com algumas figuras da maior importância da história russa,
como Pedro, o Grande, Catarina, a Grande, Catarina II, a família do Czar
Nicolau e a Czarina Aleksandra. Quem tiver paciência e chegar até ao final terá o
prazer e o privilégio de assistir à reprodução de um baile da corte do Czar Nicolau
II com a participação de 3 mil figurantes, num esmero visual próprio de uma
grande obra de arte. Um dos filmes mais importantes do cinema atual.
Imperdível!
“FÉRIAS NA GRÉCIA”
(“Sune I Grekland”), Suécia, 2012, é uma comédia ao estilo daquela série de
filmes intitulada “Férias Frustadas”, com Chevy Chase e Beverly D’Angelo,
grande sucesso na década de 80. Neste filme sueco, o chefe de família é o
contador Rudolf (Morgan Alling), que todos os anos, nas férias, embarca num
trailer com a mulher e os filhos para um lugar chamado Ilha Mosquito. A família
não aguenta mais essa rotina. Quando tudo estava pronto para uma nova e
entediante viagem, o chefe de Rudolf pede a ele que vá representar o escritório
num congresso de contadores na Grécia. Com tudo pago. Rudolf chega em casa e
anuncia a novidade, para a alegria da mamãe Karin (Anja Lundkivist) e dos três
filhos, principalmente o adolescente Sune (William Ringström), que já imagina
grandes aventuras amorosas na Grécia. Só que o chefe de Rudolf resolve ir com a
esposa para o tal congresso e cancela a viagem do seu funcionário. Rudolf não quer decepcionar a família e resolve
assumir as despesas da viagem, endividando-se completamente. Como em “Férias
Frustadas”, a família de Rudolf, incluindo o próprio, se envolve em inúmeras
confusões, o que garante situações hilariantes e boas risadas. A história é baseada no livro "Anderssons in Greece", um clássico da literatura infanto-juvenil sueca, escrito por Anders Jacobsson e Sören Olsson. Trata-se de um filme ideal para curtir
numa sessão da tarde com a família, pipoca e guaraná. Um bom programa para quem não exige muito.
A
presença de Juliette Binochet e Clive Owen é um bom motivo para assistir à
comédia romântica “POR FALAR DE AMOR” (“Words and Pictures”), EUA, 2013, direção de Fred Schepisi. Jack Marcus
(Owen) é professor de literatura inglesa numa escola secundária. É um poeta
frustrado, editor de uma revista da escola e beberrão crônico. Uma nova
professora de Artes Plásticas é contratada pela escola. Chama-se Dina Delsanto
(Binochet). No primeiro dia, ela tem seu primeiro contato com Marcus na sala
dos professores. E o encontro não é dos mais simpáticos – clichê dos clichês
dos filmes românticos. Em sua primeira aula, ministrada aos mesmos alunos da turma de
Marcus, Delsanto defende a afirmação de que uma imagem vale por mil palavras.
Ao saber disso, Marcus retruca aos alunos que as palavras são muito mais importantes do que a arte visual. A guerra entre os dois professores está declarada, dividindo os
alunos entre os defensores da tese de Delsanto e aqueles que dão valor às
palavras, em apoio a Marcus. Até que os argumentos de um e de outro são
bastante interessantes, fornecendo um toque de erudição ao filme. O toque
dramático da história fica por conta do personagem de Binochet, que sofre de artrite
reumatoide, doença que prejudica os movimentos e provoca muita dor. No mais,
nada que mereça uma indicação entusiasmada.
“SEM RUMO”
(Rudderless”), 2014, EUA, marca a estreia do ator William H. Macy na direção. E
não fez feio. Trata-se de um drama com pano de fundo musical, estrelado por
Billy Crudup, Anton Yelchin, Felicity Huffman, Selena Gomez, Laurence Fishburne,
Miles Heizer e o próprio Macy. A história começa com o adolescente Josh
(Heizer) matando seis colegas e se suicidando na escola. Antes de cometer a
tragédia, Josh compunha músicas e as gravava em CDs. Ao arrumar o quarto do
garoto, a mãe Emily (Huffman) separa seus pertences e os entrega ao ex-marido Sam
(Crudup), hoje morando num barco e trabalhando como pedreiro – antes da
tragédia, ele era alto executivo de uma empresa. Antigo músico amador, Sam
encontra os CDs e começa a ouví-los. Ele escolhe uma das canções e consegue uma
oportunidade para uma apresentação no bar de Trill (Macy). Quentin (Anton Yelchin),
um jovem guitarrista, ouve a música e se encanta. Ele procura Sam e propõe que
formem uma banda para tocar aquelas músicas – Sam não fala que foram compostas
pelo filho, o que será um grande problema mais tarde. Embora o tom dramático
predomine, Macy consegue um bom resultado ao amenizá-lo, com muita música e
alguns momentos de humor, tornando seu filme um entretenimento bastante agradável.
Embora
não seja um grande filme, “GAROTA EXEMPLAR” (“Gone Girl”), 2014, EUA, já desponta como um dos
favoritos a ganhar algumas estatuetas no Oscar 2015. Acho um exagero, em todo
caso... Trata-se de um thriller inspirado no livro “Garota Exemplar”, de
Gillian Flynn, que também é a autora do roteiro. É o tipo de filme que só
permite comentar sua primeira parte para não estragar a surpresa da reviravolta
que mudará o rumo da história. Nick Dunne (Bem Affleck) é casado há cinco anos
com Amy (Rosamund Pike). O casamento vive uma crise quando, de repente, Amy
desaparece de casa. Os indícios apontam, inicialmente, para um provável
sequestro, mas a polícia descobrirá algumas pistas que colocam Nick como
principal suspeito de assassinato. O jogo psicológico, recheado de suspense, é
mantido até o final. Impossível não ficar ansioso para saber o que vai
acontecer. Méritos para o experiente diretor David Fincher (“Clube da Luta”, “Seven
– Os Sete Pecados Capitais”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”). A grande
surpresa do filme, além da inesperada reviravolta na história, é o ótimo desempenho
da atriz inglesa Rosamund Pike, que finalmente ganha um papel à altura do seu
talento.
“UM PEQUENO CASO DE SETEMBRO” (‘Bi Küçük Eylül Meselesi”), 2013, direção de Kerem Deren, é um drama
romântico turco daqueles bem açucarados. A jovem Eylül (a loiraça Farah Zeyner
Abdullah) sofre um acidente de carro com o namorado Atil (Onur Tuna). Quando é
levada para um hospital em estado grave, Eylül tem uma parada cardíaca por
minutos e durante um bom tempo fica desacordada. Quando acorda, não se lembra
do que aconteceu durante o mês anterior, setembro, quando viajou de férias com
a amiga Berrak (Ceren Moray) para a ilha de Bozcaada, no Mar Egeu. O filme
inteiro é dedicado ao esforço de Eylül para relembrar tudo o que aconteceu –
estranho para os nossos padrões que a mocinha do filme (Eylül) fume sem parar. Em
sua estada na ilha ela conheceu Tekin (Engin Akyürek), um tipo simples com cara
e jeito de autista que vive pelas ruas ganhando uns trocados para desenhar
placas e letreiros. Eylül e Tekin viverão um romance de férias. Em vários flashbacks, o filme mostra ao espectador
o que Eylül tenta relembrar. Parece que consegue, mas aí vem o desfecho com uma
reviravolta que tenta arrancar lágrimas, mas que deixa o filme ainda mais piegas, lembrando uma novela das Sete à moda turca.
Quem for diabético que tome cuidado: a dosagem de açúcar é elevadíssima!
“REACH ME” (ainda
sem tradução por aqui, mas algo como “Siga-me”), 2013, EUA, direção de John
Herzfeld, é uma comédia meio non sense
reunindo vários personagens cujos caminhos irão se cruzar um dia. Uma
piromaníaca em liberdade condicional, um policial que cada vez que mata procura
um padre para se confessar, uma atriz frustrada que acaba num filme pornô, um
jornalista que é obrigado por seu editor a descobrir o paradeiro de um
escritor, mafiosos em busca de vingança, capangas com remorso. E por aí vai. Cada
personagem com sua história, todos, de uma forma ou de outra, têm alguma ligação
com o livro de autoajuda intitulado “Reach Me”, escrito por Teddy
Raymonds (Tom Berenger), um ex-treinador de futebol americano que vive recluso.
Sylvester Stallone está no elenco como Gerald, o editor carrasco que ameaça
Roger (Kevin Connolly) de demissão caso ele não consiga uma entrevista com o tal escritor. Embora um tanto irregular, o filme tem algumas boas sacadas, como a
relação do policial Wolfie (Thomas Jane) com o Padre Paul (Danny Aiello). Cada
vez que mata um bandido, Wolfie corre para se confessar com o Padre Paul. Foram
tantas vezes que um dia o Padre Paul recusa-se a ouví-lo, dizendo que já se achava
um cúmplice. De um modo geral, é um filme interessante, com um bom elenco, que serve
como um entretenimento bastante agradável.
O cinema brasileiro tem tradição de fazer boas cinebiografias: “Gonzaga – De Pai
para Filho”, “Getúlio”, “Heleno” e "Cazuza - o Tempo não Para" são algumas delas. Agora, lança “TIM MAIA”, direção de Mauro Lima, que conta
a história da vida turbulenta do magistral cantor e compositor carioca. O
roteiro foi baseado no livro “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, escrito
por Nelson Motta. Dos primórdios no bairro da Tijuca, tocando bateria no conjunto
“The Sputniks”, ao lado de Roberto e Erasmo Carlos, passando pela temporada em
Nova Iorque, até o seu final trágico, aos 55 anos, afogado na bebida e nas
drogas, o filme não esconde quem foi Sebastião Rodrigues Maia, o Tim Maia, um
ser humano dos mais execráveis, malcriado, prepotente, ególatra, irresponsável e
mais todos os adjetivos que formam um mau caráter. O que não se pode negar,
porém, e o filme deixa bem claro isso, é que Tim era um raro talento musical,
não apenas como cantor, mas também como compositor. A trilha sonora, deliciosa,
é recheada de seus maiores sucessos. O filme destaca também a grande amizade de
Tim com o cantor e compositor Fábio (lembram-se de “Stella”?), interpretado por
Cayã Reymond, o romance com Janaína (Alinne Moraes) e a sua indisfarçável mágoa
de Roberto Carlos. Não deixa de ser um filme bastante interessante. Destaques também para os atores Babu Santana (Tim adulto) e Robson Nunes (Tim jovem), ambos ótimos. Você vai,
com certeza, balançar muito na poltrona.
Se em
“Capitão Phillips”, de 2013, os piratas somalianos sequestram a tripulação e o
navio comandados por Tom Hanks, em “O SEQUESTRO” (“Default”),
EUA, 2014, os terroristas – também somalianos - fazem refém uma equipe de TV
norte-americana. Só que, ao invés de navio, desta fez é um avião prestes a
decolar do aeroporto das Ilhas Seychelles, no Oceano Índico. Se no filme com
Tom Hanks a tensão é de arrasar, neste é duas vezes de arrasar. Tanto a
tripulação do avião quanto a equipe de TV vão passar o maior sufoco. É o mesmo
suspense “mata-não-mata”, gritos e tortura psicológica. O objetivo dos
somalianos é que o jornalista Frank Saltzman (Greg Callahan), membro da equipe sequestrada,
faça uma entrevista com o líder do grupo, Atlas (David Oyelowo). Só que a
situação acaba saindo de controle e, ao contrário de “Capitão Phillips”, a
história não vai acabar bem. O filme é claustrofóbico demais - toda a ação se
passa dentro da aeronave. O espectador também vai sentir desconforto com a
câmera agitada, nervosa, como se tudo fosse filmado por um cinegrafista amador
tremendo de medo. Parece que a história é verídica, pois aparece muito
noticiário televisivo aparentemente verdadeiro sobre o sequestro. Deveria haver
alguma indicação nos créditos. De qualquer forma, é daqueles filmes com tanto
suspense e tensão que você nem percebe quando o saco de pipoca acabou nem que entortou o braço da poltrona.
O
drama “IDA” é a
grande aposta do cinema polonês na disputa do Oscar 2015 de Melhor Filme
Estrangeiro. O filme, dirigido por Pawel Pawlikowski, está entre os 9 finalistas
selecionados para concorrer ao prêmio. E não será nenhuma surpresa se vencer,
pois trata-se de um belíssimo filme. A história, ambientada em 1962, está
centrada na noviça Anna (a estreante Agata
Trzebuchowska), de 18 anos, que vive desde pequena num convento. Prestes a ser
ordenada, ela é liberada para visitar seu único parente vivo, a tia Wanda Cruz
(Agata Kulesza), que é juíza num tribunal comunista. O encontro entre as duas fará
ressurgir alguns segredos de família tendo como pano de fundo acontecimentos trágicos ocorridos durante a
Segunda Guerra Mundial. Anna descobrirá, por exemplo, que nasceu de uma família
judia e que seu verdadeiro nome é Ida. A noviça quer resgatar toda essa
história, descobrir como seus pais morreram e onde estão enterrados. Em nenhum momento, porém, sua fé católica correrá risco. Tia e
sobrinha iniciam então um road movie
para encontrar pessoas que tenham algo para contar sobre tudo o que aconteceu. Se
para Ida a viagem foi esclarecedora e, de certa forma, redentora, para Wanda
foi um martírio que afetará ainda mais a sua já abalada condição psicológica. A
fotografia em preto e branco é um dos destaques do filme, além dos
enquadramentos originais e do trabalho excepcional das atrizes, principalmente
Agata Kulesza. Sem exagero, um dos momentos mais sublimes do cinema nos últimos anos.
Embora
a protagonista principal seja interpretada pela atriz francesa Marion
Cotillard, “DOIS DIAS, UMA NOITE” (“Deux Jours, unie Nuit”), 2014, é um filme belga, dirigido pelos irmãos
Jean-Pierre e Luc Dardenne. Aliás, o filme foi candidado da Bélgica ao Oscar
2015 de Melhor Filme Estrangeiro, mas não ficou entre os 9 selecionados para a
disputa. Concorreu ainda à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2014, também sem
sucesso. A verdade é que a história não é das mais animadoras. Sandra (Cottilard)
retorna ao trabalho depois de um período de afastamento por motivos de saúde
(depressão). Só que tem um problema: o chefe da empresa prometeu um bônus de
mil euros para os funcionários, mas com o retorno de Sandra, esse bônus não
poderia ser pago – menção à crise econômica europeia. Ficou decidido que
haveria uma votação numa sexta-feira. Sandra perdeu, mas não desistiu e insistiu
numa nova votação. Conseguiu ama nova chance para segunda-feira. Ou seja, os
dois dias e uma noite do título. Ela teria, portanto, o final de semana para
visitar os seus colegas de trabalho e convencê-los a desistir do bônus em favor
de sua readmissão. O filme inteiro mostra os esforços de Sandra para pedir
votos para sua causa, em meio a novos surtos de depressão. Muito pouco para um filme que tem dois diretores
consagrados e uma atriz que até já ganhou Oscar (por “Piaf – Um Hino ao Amor”,
em 2007). Dá até para recomendá-lo, mas sem muito entusiasmo.
Com
o visual de um Kung Fu afrodescentente, Denzel Washington não economiza na
porrada no filme de ação “O PROTETOR” (“The Equalizer”), EUA, 2014, dirigido
por Antoine Fuqua e inspirado numa série de TV de grande sucesso nos EUA na
década de 80, “The Equalizer”. Denzel é o misterioso e pacato cidadão Robert
McCall, empregado numa grande loja de ferramentas e que todas as noites vai
tomar um chá e ler um livro numa lanchonete perto de sua casa. Na verdade,
McCall é um ex-agente especial do governo dos EUA, perito em artes marciais.
Quando vê uma injustiça ou alguém em perigo, ele se transforma num misto de
David Carradine, Steven Seagal e Van Damme. Ou seja, numa verdadeira máquina
mortífera. Ninguém fica de pé - e muito menos vivo - para contar história. Seus
métodos para matar são os mais variados e criativos possíveis. Ao se vingar do
cafetão que agrediu Teri (Chloë Grace Moretz), uma jovem prostituta, McCall
atrai o ódio de uma organização de mafiosos russos, que envia um assassino
sanguinário para matá-lo. O assassino, interpretado por Marton Csokas, também
dá medo. E daí para a frente, até o final do filme, não vai faltar pancadaria. Washington, mais uma vez, dá conta do recado
como um vingador frio e calculista. Pra quem gosta de filmes de ação, um
programão!
“O JUIZ” (“The
Judge”), 2014, EUA, é um drama que, na mão de outro diretor, poderia descambar
para um dramalhão daqueles. Mas David Dobkin, que já havia dirigido as comédias
“Penetras Bons de Bico”, “Uma Noite Fora de Série” e “Eu queria ter a sua vida”,
amenizou a história com muito humor. Não deve ter sido fácil. Afinal, o juiz do
título, Joseph Palmer (Robert Duvall), fica viúvo, é acusado de assassinato e
tem um câncer avançado; seu filho mais novo é deficiente mental e ele não se dá
com o filho do meio, Hank Palmer (Robert Downey Jr.), um advogado sem escrúpulos que não recusa defender gente da pior qualidade. Ele se justifica para um colega dizendo que "Os inocentes não podem pagar meus honorários". Para defendê-lo no tribunal, Joseph contrata um advogado incompetente e atrapalhado. A muito custo,
Joseph concorda que Hank o defenda. Em sua grande parte, o filme retrata
justamente a difícil relação entre Hank e o pai, alguns flashbacks da família em filmes antigos e muitas cenas de tribunal. Mas o grande
destaque do filme é, sem dúvida, o ótimo elenco. Além de Downey e Duvall,
também trabalham Vera Farmiga, Billy Bob Thornton, Vincente D’Onofrio e Jeremy
Strong. Como curiosidade, vale lembrar que Jack Nicholson e Tommy Lee Jones
foram cogitados para o papel do Juiz, que ficou em boas mãos com Duvall. Há que
se destacar também Vera Farmiga, que, além de excelente atriz, está mais madura
e cada vez mais bonita. Trata-se de um ótimo entretenimento.
“ISOLADOS”, 2014,
direção de Tomas Portella, é mais uma tentativa do cinema brasileiro de
emplacar um filme no gênero suspense. Pena que ainda não foi desta vez, embora
seja superior a outras produções. Na verdade, trata-se de um suspense com cara
de terror psicológico, na linha de “O Sexto Sentido” ou “Os Outros”. O médico psiquiatra Lauro (Bruno Gagliasso) e sua namorada e paciente Renata (Regiane Alves)
alugam um casarão na região serrana do Rio de Janeiro para passar alguns dias. Eles
não sabem, mas dias antes houve o assassinato de uma menina. E a polícia está
por lá investigando. Enquanto isso, Lauro e Renata são atacados durante um
passeio na floresta e se trancam no casarão com medo de um novo ataque. Renata sofre
de ataques histéricos e Lauro começa a perder o controle. A tensão aumenta cada
vez mais e, alguns sustos depois, o mistério é desvendado, numa reviravolta inesperada
e surpreendente. O ator José Wilker faz uma aparição rápida no filme como Dr.
Fausto, colega de Lauro no hospital psiquiátrico. Foi o último filme de Wilker,
que acabou homenageado nos créditos finais.
“BETIBÚ”, co-produção
Argentina/Espanha de 2013, direção de Miguel Cohan, é um policial ao estilo daquela
série sueca Millenium. A morte misteriosa de um poderoso empresário mobiliza
dois jornalistas de um mesmo jornal, o experiente Jaime Brena (Daniel Fanego) e
o novato Mariano Saravia (Alberto Ammann). Para ajudá-los no trabalho
investigativo, o editor Lorenzo Rinaldi (José Coronado) convoca Nurit Iscar
(Mercedes Morán), conhecida também pelo apelido de Betibú, uma ex-repórter do
jornal que agora é escritora de romances policiais. Outras mortes ocorrem e a
polícia, como sempre, está mais perdida do que cego em tiroteio. Os dois
jornalistas e a escritora vão seguir algumas pistas relacionadas com o passado
dos homens mortos. Tudo leva a crer que a chave do mistério está numa foto antiga
em que o empresário assassinado aparece ao lado de alguns amigos, todos jovens –
as outras vítimas. A explicação será dada mais tarde pelo irmão mais novo do
empresário. O filme, cuja história foi inspirada no livro homônimo da escritora
argentina Claudia Piñero, foi uma das atrações da 38ª Mostra Internacional de
Cinema de São Paulo, realizado em outubro de 2014.
Nem
Nicole Kidman, nem Colin Firth e muito menos Mark Strong salvam o suspense
psicológico inglês “ANTES DE
DORMIR” (“Before I Go to Sleep”), 2014,
dirigido por Rowan Joffe, que em 2010 já havia sido responsável por outro
abacaxi, “Um Homem Misterioso”, com George Clooney. Depois de sofrer um
acidente, Christine Lucas (Kidman) tem a memória afetada. Além de não lembrar o
que aconteceu no dia fatídico, ela acorda todos os dias sem saber quem é, o que
aconteceu no dia anterior e nem reconhece o marido Ben (Firth). Todos os dias ela também conversa com o dr. Nash (Strong), que diz ser seu psiquiatra há anos.
O médico trata de Christine e a obriga a não dizer nada ao marido. Se a
história já é meio esquisita, fica pior ainda quando surge Claire (Anne-Marie
Duff), uma misteriosa mulher que se intitula sua antiga amiga e protetora. Os
fatos vão acontecendo sem nenhuma lógica, perturbando ainda mais a cabeça da
coitada da Christine – e também do espectador. Se às vezes o desfecho salva um
filme, neste só serve para piorá-lo. A história é baseada no livro
homônimo escrito por S. J. Watson, sua estreia na literatura. Se houve o interesse
em adaptá-lo para o cinema, o livro não deve ser tão ruim. Mas o filme...
“LONDRES PROIBIDA”
(“London to Brighton”), 2006, é um bom suspense inglês dirigido por Paul Andrew
Williams. A história é meio barra pesada. A prostituta de rua Kelly (Lorraine
Stanley) recebe uma ordem de seu cafetão Derek (Johnny Harris): encontrar uma
menina bem novinha para satisfazer os desejos de um milionário pedófilo. Ao
sair pelas ruas de Londres, Kelly encontra Joanne (Georgia Groome), de 11 anos,
que pedia esmola na escadaria de uma estação do metrô. Em troca de 100 libras,
a menina topa fazer o programa, desde que Kelly vá junto. O programa toma um
rumo diferente e o pedófilo acaba sendo morto pelas duas, que acabam fugindo
para Brighton. Só que o filho do milionário assassinado é um bandidão violento que
quer vingança. Ele e seus capangas vão atrás de Kelly e Joanne. Esse jogo de
gato e rato vai permear praticamente toda a ação, com muitas cenas de violência
e um desfecho dos mais imprevisíveis. A história é legal, o filme é bem feito e
o elenco é ótimo. Mesmo com toda violência, pode ser um entretetenimento
interessante. O filme foi premiado em vários festivais, inclusive o de melhor
estreia em direção concedido a Paul Andrew Williams, que depois faria “Cabana
Macabra” (2008) e “Canção para Marion” (2010).
Para
comemorar de forma inusitada o 60º aniversário do Festival de Cannes, em 2007,
Gilles Jacob, o presidente do evento, encomendou a 34 dos principais cineastas
do mundo um curta-metragem de 3 minutos cujo tema era “O Amor ao Cinema”. O resultado está no filme "CADA UM COM SEU CINEMA" ("Chacun son Cinéma"), exibido durante o festival daquele ano na sessão de gala. Alguns diretores optaram pelo bom humor, como Roman Polanski e Lars von Trier. Claude Lelouch reproduziu
cenas do filme “Top Hat”, de 1935, onde Fred Astaire e Ginger Rogers aparecem
dançando “Cheek to Cheek”. No curta, Lelouch lembra que seus pais se conheceram
durante uma sessão do filme. O grego Theo Angelopoulos utilizou a atriz Jeanne
Moreau para fazer uma bela e tocante homenagem a Marcello Mastroianni. O cineasta malaio Ming Liang Tsai mostra uma família com o retrato da mãe falecida voltado para a tela. A mãe adorava ir ao cinema. Walter Salles, único
diretor brasileiro a participar do projeto, optou por utilizar uma dupla de repentistas
em frente à fachada de um cinema no Nordeste. Cada qual com seu estilo, os
cineastas convidados realizaram um belíssimo trabalho. O conjunto da obra ficou
ótimo, mas, como escreveu Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão, “É o filme
dos sonhos de qualquer cinéfilo". Realmente, o projeto é direcionado
apenas aos aficionados por cinema. Quem quiser curtir duas excelentes homenagens ao cinema deve assistir "Splendor", de Ettore Scola, e "Cinema Paradiso", de Giuseppe Tornatore, este último uma verdadeira obra-prima.