sexta-feira, 28 de novembro de 2014

“CARVÃO NEGRO, GELO FINO” (“Bai Ri Yan Huo”) é um policial chinês que tenta ser “noir”. Dirigido por Yi’nan Diao, o filme conquistou o “Urso de Ouro” do Festival de Berlim 2014. A história, ambientada no Norte da China, começa em 1999, com a investigação de um crime sórdido. Partes do corpo de um homem aparecem em vagões de trem carregados de carvão. Os pedaços são encontrados em várias cidades, o que aumenta ainda mais o mistério. Na chefia das investigações, o detetive Zhang Zili (Liao Fan) é baleado durante a detenção de dois suspeitos. O filme dá um pulo de cinco anos. Outros assassinatos semelhantes são cometidos e a polícia passa a desconfiar de Wu Zhizhen (Lun-Mei Gwei), funcionária de uma lavanderia. Afinal, todas as vítimas tinham alguma ligação com a mulher. Zhang está aposentado, mas mesmo assim continua as investigações daquele caso antigo por conta própria e também vai pressionar Zhizhen. Só que se apaixona por ela, o que, obviamente, vai colocá-lo em perigo. O diretor Diao não facilita as coisas para o espectador. O enredo é meio complicado e no começo fica difícil saber até quem é quem, pois os atores são muito parecidos. Mesmo após a elucidação dos crimes, perto do final, há uma série de acontecimentos que complicam o entendimento, tornando o desfecho um tanto esquisito. Vai ver que foi por isso que o júri de Berlim premiou o filme. Afinal, como diz Rubens Ewald Filho, “crítico adora o que não entende”. E olha que REF é um dos nossos críticos mais respeitados. De qualquer forma, o filme tem lá sua dose de criatividade e é muito bem feito.      

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O diretor norte-americano Jim Jarmusch já fez alguns filmes muito bons, como, por exemplo, “Flores Partidas” (2005) ou “Sobre Café e Cigarros” (2003). Não são filmes comuns, alguns chegam perto do esquisito. Mais uma comprovação do estilo único e diferente de Jarmusch é “AMANTES ETERNOS” (“Only Lovers Left Alive”), que ganhou muitos elogios quando estreou no Festival de Cannes 2013. Conta a história do amor entre dois vampiros eruditos, Eve (Tilda Swinton) e Adam (Tom Hiddleston). Com visual (gótico) de astro do rock, ele mora em Detroit (EUA), é músico (compõe temas fúnebres) e vive entediado. Ela mora em Tânges (Marrocos) para ficar perto de seu mentor, Christopher Marlowe (John Hurt). Pelo que o filme dá a entender, Eve e Adam não se vêem, literalmente, há séculos. Ele entra em contato com ela e diz estar sentindo muito a sua falta. Eve resolve viajar para Detroit e lá viver um tempo com o amante. Nesse meio tempo, chega, como visita inesperada e inoportuna, a irmã mais nova de Eve, a também vampira Ava (Mia Wasikowska), que acaba expulsa da casa depois de “drenar” o sangue de um amigo de Adam. Apesar do ritmo lento e do visual soturno, o filme tem muito bom humor, principalmente nos diálogos, e chega a ser divertido em alguns momentos. E, apesar da história envolver vampiros, não tem mordida no pescoço nem estaca no coração. Aliás, a palavra “vampiro” nunca é mencionada no filme. Jarmusch fez mais um filme muito interessante.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Baseado em conto da escritora canadense Alice Munro (Prêmio Nobel de Literatura 2013), “AMORES INVERSOS” (“Hateship Loveship”), com direção de Liza Johnson, marca a estreia da atriz Kristen Wiig em dramas. Ela ficou conhecida como comediante no humorístico Saturday Night Live, onde trabalhou de 2005 a 2012. No cinema, fez algumas comédias como “Missão Madrinha de Casamento” e “Minha Vida dava um Filme”, entre outras. Neste drama de 2013, ela interpreta Johanna, uma mulher solitária, tímida, melancólica e carente que é contratada para trabalhar na casa de um idoso, Mr. McCauley (Nick Nolte). Aqui vive também a jovem Sabitha (Hailee Steinfeld), neta de McCauley. Típica brincadeira de adolescentes, Sabitha e uma amiga bolam um plano dos mais sórdidos, fazendo com que Johanna acabe se apaixonando por Ken (Guy Pierce), pai de Sabitha e um cara totalmente irresponsável, chegado em bebida e drogas, além de amante crônico do ócio. A paixão vai despertar o vulcão que estava adormecido em Johanna. Essa mudança radical de comportamento – e suas consequências - deixa o filme ainda mais interessante. Só como informação: o título do conto no qual o filme foi baseado é "Itateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage".                                                               

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O escritor John Le Carré sempre foi especialista em romances de espionagem, principalmente histórias ambientadas durante a Guerra Fria. Baseado em mais um de seus livros, “O HOMEM MAIS PROCURADO” (“A Most Wanted Man”), 2013, direção de Anton Corbijn, apresenta como novidade a espionagem envolvendo o terrorismo islâmico, mas o estilo de suspense é o mesmo dos filmes já feitos baseados em seus romances. Como sempre, o enredo é complexo e demora um tempo para ser entendido. Enquanto investiga um poderoso empresário árabe presidente de uma ONG, suspeito de financiar grupos terroristas, o serviço alemão consegue a informação de que um misterioso checheno entra ilegalmente na Alemanha. Será que ele vem participar de algum atentato terrorista? Os agentes querem essa resposta, assim como a CIA, que, como sempre, entra na jogada. Num jogo de traições, chantagens, pressão psicológica, escutas ilegais e vigilância eletrônica, os agentes alemães conseguem o que almejavam, mas uma reviravolta inesperada no desfecho mudará toda a história. O filme é muito bom e o elenco melhor ainda, encabeçado por Philip Seymour Hoffman em seu último trabalho, além de Rachel McAdams, Willem Defoe, Robin Wright, Nina Hoss. Grigoriy Dobrygin e Daniel Brühl.

domingo, 23 de novembro de 2014

Se já tinha dois prêmios Oscar de Melhor Atriz em sua prateleira (“Meninos não Choram”, de 1999, e “Menina de Ouro”, de 2004), a atriz norte-americana Hilary Swank deve ser indicada para concorrer a mais uma estatueta pelo seu desempenho no drama “YOU’RE NOT YOU”, 2014, dirigido por George C. Wolfe. A história, baseada no livro homônimo escrito por Michelle Wildgen, é muito triste e certamente levará às lágrimas os espectadores mais sensíveis. Kate (Swank) é feliz no casamento com Evan (Josh Duhamel). A chegada inesperada de uma grave doença – esclerose lateral amiotrófica –, porém, abala e complica totalmente a sua vida. Aos poucos, ela vai perdendo os movimentos e passa a ter dificuldade na fala, exigindo uma pessoa para ficar ao seu lado. É quando surge a espevitada Bec (Emmy Rossum), uma universitária chegada numa bebida e acostumada a ir para a cama com o primeiro que lhe dedicar alguma atenção. Mesmo sem ter experiência como enfermeira ou acompanhante, Bec é contratada para cuidar de Kate, mesmo a contragosto do marido, que a vê como uma jovem irresponsável. O relacionamento de Kate e Bec resultará numa amizade muito bonita, o que no desfecho levará a momentos bastante comoventes entre as duas. Não será nenhuma surpresa se Rossum também for indicada ao Oscar (Atriz Coadjuvante). Embora trate de um tema de alto teor de dramaticidade, o filme foi elaborado com muita sensibilidade. É para curtir e se emocionar. 
“UM PLANO BRILHANTE” (“Love Punch”), co-produção França/Inglaterra, 2013, é uma comédia romântica cujo maior mérito é ser mais comédia do que romântica, além de contar com dois ótimos atores que se dão muito bem no gênero: Pierce Brosnan e Emma Thompson. A história também é boa. Brosnan é o empresário inglês Richard, dono de um escritório de investimentos em Londres cujas ações são adquiridas por Vincent (Laurent Lafitte), um poderoso investidor francês. Seu escritório é fechado e Richard perde todo o dinheiro que havia economizado a vida inteira para quando se aposentar. E, o pior de tudo, ficou sem condições de pagar as indenização de seus funcionários. Ele não sabe o que fazer. Sua agora ex-esposa Kate (Emma) sugere uma solução radical: roubar um valioso diamante presenteado por Vincent à sua noiva Manon (Louise Bourgoin). Richard e Kate envolvem os vizinhos Jerry (Timothy Spall) e Penelope (Celia Imrie) na execução do plano mirabolante, a ser colocado em prática em território francês. É claro que os quatro amigos vão se meter em grandes confusões e situações hilariantes. No fim - clichê dos clichês -, o amor prevalecerá. O filme, escrito e dirigido por Joel Hopkins, é bastante divertido e garante 95 minutos de ótimo entretenimento.                                                        
 

 
FILHOS DA NORUEGA” (“Sonner av Norge”), 2011, direção de Jens Lien, é uma comédia dramática bastante original, surpreendente e criativa. A história, ambientada em 1978, é centrada na família do arquiteto Magnus (Sven Nordin), um homem liberal ao extremo, excêntrico, sem religião e adepto radical da filosofia hippie. Para se ter uma ideia, na ceia de Natal para a qual convida os amigos ele oferece um cardápio à base de bananas, faz discurso negando a existência de Deus e coloca no toca-discos, como fundo musical natalino, o hino da Internacional Socialista. Lone (Sonja Richter), sua mulher, dá todo apoio. O conceito de liberdade adotado por Magnus chega ao ponto de convidar os dois filhos, um deles adolescente e o outro menor, para assistir a uma transa do casal. Tudo caminha nesse tom anárquico até que Lone sofre um acidente fatal. A partir daí, devastado com a tragédia, Magnus estreitará sua relação com o filho mais velho, Nikolai (Asmund Hoeg), a quem buscará apoio psicológico. Mas Magnus não deixará de lado o anarquismo. Nikolai está naquela fase adolescente de contestar tudo e a todos. Quando resolve ser um punk, com direito a alfinetes de fralda fincados na orelha e na bochecha, olhos e cabelos pintados, roupas de couro e a banda “Sex Pistols” no aparelho de som aos altos brados, Nikolai pensa que vai chocar e surpreender o pai. Pelo contrário, Magnus dá todo o apoio. E pior: defende o filho depois dos mais variados aprontos. Num deles, depois de Nikolai atirar uma garrafa de cerveja na cabeça do diretor da escola. Ao contrário do que acontece normalmente nas famílias, é o filho quem vai segurar as loucuras do pai, e não o contrário. Um filme muito interessante que merece ser conferido.  

sábado, 22 de novembro de 2014

O drama “HISTÓRIA DE GUERRA” (“War Story”), 2013, dirigido por Mark Jackson, termina como começou: extremamente chato. Pior: depressivo e melancólico. A fotógrafa norte-americana Lee (Catherine Keener) está passando uns dias na Sicília (Itália), antes de voltar para Nova Iorque, recuperando-se de um trauma violento: ela estava a serviço na Líbia quando viu seu companheiro e amigo Mark ser assassinado com um tiro na cabeça. Lee perambula pra cá e pra lá, totalmente catatônica. Em meio à sua depressão, ela conhece Hafsia (Hafsia Herzi), uma imigrante tunisiana que lembra uma jovem que ela fotografou ao lado do irmão morto na Líbia. As duas ficam amigas e passam a se ajudar. É um filme de poucos diálogos, a maioria dos quais sem nexo e fora do contexto da história – se é que há alguma história nesse filme. Anunciado com destaque nos materiais de divulgação, o ator Ben Kingsley faz apenas uma rápida aparição como Albert, antigo amante e mentor de Lee. A trilha sonora, então, é de doer. Na verdade, é apenas um som intermitente que mais parece um teste de audição ou de labirintite. Nem a boa atriz Catherine Keener se salva, fora o fato de estar cada vez mais parecida com a falecida cantora argentina Mercedes Sosa. Enfim, um filme daqueles pra passar bem longe.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Escrito e dirigido por Jon Favreau, que também atua como o protagonista principal, CHEF A DOMICÍLIO” (“Chef”), 2013, é entretenimento da melhor qualidade, uma comédia divertida, leve e alto astral. Favreau é o chef Carl Casper, responsável pelo cardápio e pela cozinha de um dos restaurantes mais badalados de Los Angeles. Mas foi só entrar em atrito com o conceituado crítico culinário Ramsey Michel (Oliver Platt), em cena filmada e divulgada na internet, que sua promissora carreira parece ter chegado ao fim. Ele simplesmente é demitido pelo dono do restaurante, o empresário Riva (Dustin Hoffman). Casper aproveita as férias forçadas para viajar com o filho Percy (Emjay Anthony), um garoto esperto de 10 anos de idade, e com a ex-mulher Inez (Sofia Vergara) para Miami. É na cidade mais latina dos EUA que Casper tem uma ideia luminosa, ou seja, montar um trailer itinerante de comida cubana. Para isso, ele contará com ajuda de Martin (John Leguizamo), seu fiel sub-chef no restaurante de Los Angeles. Juntos, eles vão viajar por várias cidades e fazer do trailer “Cubanos” um grande sucesso. Tudo funciona muito bem nesse filme, a história em si, o elenco, a trilha sonora, mas seu grande trunfo é destacar a gastronomia como tema principal, com muitas cenas mostrando a feitura dos mais variados pratos, descrição das receitas etc., o que resultou num banquete visual dos mais deliciosos, no qual se inclui, é claro, as “cerejas do bolo” Sofia Vergara e Scarlett Johansson. Imperdível!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O drama romântico “UMA NOVA CHANCE PARA AMAR” (“The Face of Love”), 2013, EUA, escrito e dirigido por Arie Posin, tem todos os ingredientes para agradar as plateias mais sensíveis. Começa o filme e vemos Nikki (Annette Bening) e Garret (Ed Harris) felizes da vida numa praia mexicana comemorando os 30 anos de casamento. Pelos momentos mostrados em flashback, eles se amavam muito e tinham uma relação bastante estável. Só que um trágico acidente tira a vida de Garret. O filme dá um pulo de cinco anos e lá está a viúva Nikki trabalhando com muito empenho e sucesso na atividade de designer de interiores. Quando está em casa, porém, vive com tristeza as lembranças do marido que tanto amava. De vez em quando ela recebe a visita do vizinho Roger (Robin Williams, num de seus últimos papeis), um amigo de muitos anos. A vida de Nikki dá uma reviravolta quando ela conhece Tom, um professor de artes que é um sósia perfeito do falecido. Eles começam um relacionamento e se apaixonam. Nikki, temendo uma reação negativa de Tom, mantém o segredo sobre a semelhança dele com Garrett. Até quando ela conseguirá esconder a verdade? E se Tom descobrir, será que continuará com ela? Você terá as respostas depois de assistir ao filme. A presença de Annette Bening e Ed Harris é mais um trunfo desse belo drama que merece ser visto por quem curte cinema de qualidade.  

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O drama turco “ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA” (“Bir Zamanlar Anadolu’da”), 2011, leva a assinatura do premiado diretor Nuri Bilge Ceylan. Quem viu alguns de seus filmes, como “Climas”, de 2006, ou “3 Macacos”, de 2008, já sabe que ele tem uma maneira diferente de filmar e de contar uma história, o que encanta os críticos. Em Cannes, por exemplo, já foi premiado várias vezes. Este último também, recebendo o Prêmio de Júri do tradicional festival de cinema francês. A história começa com três carros saindo da cidade de Kelskin, na região da Anatólia. Neles estão policiais, um promotor, um médico-legista, um soldado do exército e dois coveiros, além de dois prisioneiros acusados de um assassinato. O motivo da caravana é encontrar o local onde a vítima foi enterrada, mas os prisioneiros alegam que estavam bêbados e não se lembram. É noite fechada e esse verdadeiro road movie  entra madrugada adentro, acompanhado de uma série de diálogos dentro e fora dos carros, muita divagação e praticamente nada acontece durante um bom tempo. O filme é arrastado, contemplativo, com muitas cenas longas, muitas delas silenciosas. O desfecho dá uma pista, mas não explica com clareza tudo o que aconteceu. Cabe ao espectador tirar suas próprias deduções. Definitivamente, não é um filme fácil de digerir e entender. Uma coisa é líquida e certa: não dá para ficar indiferente diante da telinha. Assista e comprove.   
Esqueça aquela Shailene Woodley que estreou no cinema como uma adolescente rebelde no filme “Os Descendentes” (2010), onde fez o papel de filha de George Clooney. Esqueça também a jovem romântica de “A Culpa é das Estrelas”, no qual representa uma doente terminal apaixonada. Em “PÁSSARO BRANCO NA NEVASCA” (“White Bird in a Blizzard”), 2014, direção de Gregg Araki, ela vive Katrina, uma jovem sensual, fogosa e doida por sexo. Como o nome da personagem dá a entender, um verdadeiro furacão. E não economiza nas cenas de nudez, sem qualquer constrangimento. O filme, baseado no livro da escritora norte-americana Laura Kasischke, é ambientado nos anos 80. Aos 17 anos (na vida real, Shailene tem 23), Katrina vive o drama do desaparecimento da mãe Eve (a atriz francesa Eva Green). A polícia investiga o caso e a suspeita recai sobre uma possível fuga de Eve com um amante, já que o casamento com o pai de Katrina, Brock Connors (Christopher Meloni), vivia uma crise crônica. O filme é uma mistura de drama com suspense policial, com direito a uma reviravolta surpreendente e chocante no final. Participam ainda do elenco Ângela Bassett, Shiloh Fernandez e Thomas Jane. Trata-se de entretenimento garantido, não só pela história em si, mas também pela presença de duas ótimas atrizes como Shailene e Eva Green.               

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O estranhamento quanto ao drama canadense “MIRACULUM” (ainda sem tradução por aqui, mas significa “milagre” em latim), 2014, já começa nos créditos. Está lá: filme dirigido por Podz. Quem??? Pois é, trata-se do pseudônimo do diretor Daniel Grou (“O Caso Dumont”). Na literatura, é normal um escritor escrever um livro sob pseudônimo, mas num filme? Não lembro de caso semelhante. Vi a foto do cara: tem pinta de excêntrico. Mas vamos ao filme (falado em francês). Trata-se de várias histórias correndo em paralelo: uma enfermeira adepta da seita Testemunhas de Jeová, cujo marido tem leucemia e precisa de uma transfusão de sangue; um homem e uma mulher da terceira idade que são amantes (as cenas de sexo entre os dois são bastante fortes); um homem que transporta drogas no próprio corpo e precisa se acertar com a filha; e, por último, um casal em crise no casamento, ela se entregando ao álcool e ele à jogatina. Todas essas histórias entremeiam um acidente de avião em que haverá apenas um sobrevivente. O filme adota um tom bastante depressivo e praticamente não cria nenhum momento tocante ou sensível. Ou seja, o filme está bem longe de oferecer um entretenimento leve. Também não dá para dizer que é ruim. Apenas interessante. O elenco: Xavier Dolan (também cineasta, talvez o nome mais conhecido), Julien Poulin, Anne Dorval, Marilyn Castonguay, Xavier Dolan e Robin Aubert.    

domingo, 16 de novembro de 2014

“CODE BLUE”, de 2011, direção de Urszula Antoniak, é um drama psicológico holandês pra lá de pesado. O filme, com poucos diálogos e povoado de muitos silêncios, acompanha o dia-a-dia da enfermeira Marian (Bien de Moor), que trabalha na ala dos pacientes terminais de um hospital. Ela é eficiente, atenciosa e carinhosa com a maioria dos doentes, em geral idosos, embora extrapole em casos mais extremos, agindo como um “anjo da morte”. Em sua vida particular, Marian - uma mulher de meia idade - é solitária, reclusa e triste. Suas únicas diversões é olhar um vizinho por um buraco na cortina – o que se tornará uma prática obsessiva – e assistir a programas de TV (numa ocasião, o filme mostra Marian assistindo a novela “A Escrava Isaura”, aquela mesma, com Lucélia Santos). Quando vai a uma festa, convidada por uma colega de trabalho, Marian é apresentada justamente para o vizinho que ela vigia da janela, Konrad (Lars Eidinger), e pelo qual está obcecada. Pelo tom depressivo do filme, você até adivinha que a relação dos dois não deve acabar bem. O desfecho é violento, trágico, e deve incomodar o espectador mais sensível. Não poderia ser diferente para um filme que é todo desagradável. Louve-se apenas o trabalho corajoso da atriz belga Bien de Moor. Só para ilustrar: a tradução literal do título é "Código Azul", o que, na linguagem dos hospitais, significa uma emergência de parada cardiorrespiratória.  

O maior mérito do drama finlandês “SILÊNCIO” (“Hiljaisuus”), 2011, direção de Sakari Kirjavainen, consiste em contar uma história pouco conhecida. Durante a Segunda Grande Guerra, a Finlândia foi um dos únicos países envolvidos no conflito que criou batalhões especiais em seu exército para resgatar os corpos de soldados mortos em combate, preservá-los e arrumá-los para serem velados pelas respectivas famílias. O filme conta a história justamente de um desses batalhões, constituído por três soldados e três mulheres voluntárias, sob as ordens de um capelão do exército. O enredo do filme é todo ambientado durante o rigoroso inverno de 1944. Os soldados e as voluntárias ficavam alojados num acampamento próximo à frente de batalha. De vez em quando, um desses soldados era incumbido de resgatar um corpo próximo às trincheiras do inimigo, numa missão quase suicida. Na maioria das vezes, porém, os cadáveres eram enviados ao acampamento, onde eram descongelados, tratados, limpos e maquiados, sendo depois enviados às suas famílias para serem velados e enterrados como heróis de guerra. O filme mostra os bastidores desse trabalho, em meio a romances fugazes, conversas com fantasmas, insubordinações, roubo de dentes de ouro e, de vez em quando, uma "ressuscitação" inesperada. Apesar do contexto dramático, melancólico e até lúgubre, o filme é muito bom, valorizado por um elenco de ótima qualidade. Um filme interessante que merece ser visto.

sábado, 15 de novembro de 2014

“BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE” (“Boyhood”), EUA, dirigido por Richard Linklater, é aquele filme lançado recentemente (2014) e que alcançou grande repercussão por ter sido feito em 12 anos. Explico: a cada ano, o elenco principal se reunia durante alguns dias e filmava. Isso foi feito de 2002 a 2014. Nesse período, o filme acompanhou o crescimento do menino Mason (Ellar Coltrane) e de sua irmã Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor). Ellar, por exemplo, tinha 6 anos quando as filmagens começaram e 18 quando terminaram. Na história, eles são filhos de um casal recém-separado, Olivia (Patricia Arquette) e Mason Sr. (Ethan Hawke). O filme vai mostrar, durante longos 165 minutos, o relacionamento familiar dos personagens, aqui incluídos os três novos maridos de Olivia, os problemas que caracterizam a fase adolescente, os primeiros namoros, os primeiros pileques, o amadurecimento etc. O filme lembra muito aquela série de TV “Anos Incríveis”, com muito blá blá blá e pouca ação. Na verdade, parece mesmo uma interminável sessão de terapia infanto-juvenil, apesar de alguns diálogos interessantes, principalmente entre o pai Mason e os filhos. Dizem que o filme está bem cotado para o Oscar 2015, o que é um exagero. Em todo o caso, o diretor Linklater tem em seu currículo bons filmes como “Escola do Rock” e “Antes da Meia-Noite”.                    

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Para quem curte o gênero policial, o francês “MEA CULPA”, 2014, oferece o cardápio completo: muita ação, tiros, perseguições, pancadarias e mulher bonita (e põe bonita nisso, pois ela é a atriz e diretora libanesa Nadine Labaki, mulher de fechar o comércio do Oriente Médio). O filme é todo ambientado em Toulon e a ação desenfreada começa quando o garoto Theo (Max Baissette de Malglaive), de 9 anos, testemunha um ajuste de contas entre duas gangues que acaba em assassinato. Daí pra frente, os bandidos irão atrás do menino e de sua mãe (Labaki). Só que eles não sabem que Theo é filho de Simon (Vincent Lindon), um ex-policial durão que agora trabalha numa firma transportadora de valores. Com a ajuda de Franck (Gilles Lellouche), seu antigo parceiro na polícia, Simon vai tentar proteger seu filho e sua ex-mulher. Muito sangue vai rolar até o final, que ainda terá a revelação surpreendente de um segredo envolvendo o relacionamento de Franck e Simon. O filme é dirigido por Fred Cavayé, um especialista em filmes policiais e de suspense (“À Queima-Roupa”, “Tudo por Ela” e “Os Infiéis”). Entretenimento garantido!
“A MONTANHA MATTERHORN” (Matterhorn”), 2013, Holanda, é uma comédia dramática muito interessante e criativa. Conta a história de Fred (Tom Kas), um viúvo de 54 anos que vive numa pequena vila no interior da Holanda. Fred é recluso, solitário e extremamente metódico. Sua esposa morreu num acidente e ele expulsou o filho Johan – em homenagem a Bach, do qual é fã ardoroso - de casa. Um dia, aparece em sua rua um homem com problemas mentais, a quem Fred dá acolhida. Mais tarde, saberá que o homem, que só emite sons de animais, se chama Theo (René Van’t Hof). Tanto Fred como os moradores da vila são bastante religiosos, frequentam a igreja calvinista e todos são bastante rígidos em seus costumes. Dessa forma, a comunidade não vê com bons olhos o gesto humanitário de Fred, principalmente depois que o pastor e um vizinho flagram Theo vestindo as roupas da falecida. Até a metade do filme, as situações parecem se repetir e nada acontece ou é explicado. Na segunda metade, porém, a história engrena e o filme dá uma reviravolta, tornando-se bastante agradável e até comovente. Não é um filme que se possa recomendar como se fosse comum, igual a tantos outros. Merece ser visto justamente por isso e pelo inusitado enredo.                  

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Não é tarefa das mais fáceis assistir ao drama filipino “NORTE, O FIM DA HISTÓRIA” (“Norte, Hangganan ng Kasaysayan”), 2013, direção de Lav Diaz. A começar por sua duração, nada menos do que 250 minutos, ou seja, quatro horas e 10 minutos. Um verdadeiro exercício de paciência e persistência. O ritmo é lento, quase arrastado, e as cenas longas demais. O filme destaca dois núcleos na história. Um deles é uma família muito pobre com imensas dificuldades para sobreviver. Para piorar, o chefe da família, Joaquim (Archie Alemania) é preso, julgado e condenado à prisão perpétua por um crime que não cometeu.  De outro lado está Fabian (Sid Lucero), um brilhante estudante de Direito que, faltando um ano para se formar, abandonou a faculdade devido às suas radicais convicções políticas e existenciais, transformando-se num jovem arredio e psicótico. Os dois núcleos só terão alguma ligação por intermédio de uma agiota gananciosa. Na primeira hora de filme ainda acontecem alguns diálogos interessantes, com a turma de estudantes de Direito discutindo política. Numa dessas conversas, é colocada em questão se as revoluções como a cubana e a filipina, por exemplo, foram bem sucedidas. Um dos estudantes responde: “A única revolução que deu certo foi a revolução dos Beatles”. O filme, na verdade, é depressivo, triste, de um baixo astral generalizado – trata-se, na verdade de uma livre adaptação do clássico “Crime e Castigo” (Dostoiévsky). Mesmo com todos esses problemas, é o candidato oficial das Filipinas ao Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro, além de ter sido selecionado para a mostra “Um Certain Regard” do Festival de Cannes.                

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Em 1983/1984, uma série de TV no Japão, com cerca de 300 capítulos, emocionou milhões de espectadores ao contar a saga de uma menina de 7 anos obrigada a trabalhar para ajudar a família pobre. A história, ambientada no início do século XX, foi filmada em 2013 com o mesmo nome da série, “OSHIN”. Trata-se de um drama muito triste e, ao mesmo tempo, tocante, graças principalmente à interpretação bastante convincente da atriz mirim Kokone Hamada. Naquela época, no Japão, bem antes do milagre econômico, as mulheres japonesas eram tratadas como escravas. Como diz a mãe de Oshin: “Nós, mulheres, não temos vida própria. Vivemos para servir os maridos, os filhos e os pais”. Nascida numa família extremamente pobre numa vila da província de Yamagatae, Oshin é enviada para uma longínqua vila para trabalhar como serviçal de uma família rica em troca de arroz.  Isso aos 7 anos de idade. Lá, ela é maltratada pela patroa e ainda acusada de roubar dinheiro. Ela foge e, sozinha, em pleno inverno, enfrentará muitas adversidades. Embora realizado em clima de novela, o filme é bem feito, destacando-se pelas belas imagens que formam os cenários de inverno e pelo trabalho da atriz mirim. Quem for muito sensível pode preparar um bom estoque de lenços de papel. Chororô garantido, né!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Ao final de sua exibição na sessão inaugural do Festival de Cannes/2014, “GRACE – A PRINCESA DE MÔNACO” (“Grace of Monaco”) levou algumas vaias da plateia e foi massacrado pela crítica. Realmente, não é um grande filme,   mas não deixa de ser muito interessante, pois ressalta a influência positiva de Grace junto ao Príncipe Rainier na gestão da administração política do Principado. Foi Grace, por exemplo, a responsável pela não intervenção de De Gaulle na crise de 1962. A França exigia o pagamento de impostos e ameaçava, caso contrário, anexar Mônaco ao seu território. Também foi por intermédio de Grace que Rainier descobriu uma sórdida manobra de sua irmã, a Princesa Antoinette, para destituí-lo do cargo e ela mesma ocupar o seu lugar. Embora predominem, como pano de fundo, as questões políticas, o filme tem bastante glamour, principalmente no que se refere aos figurinos de época, joias e celebridades. Há que se destacar a beleza de Nicole Kidman como Grace, além de Paz Vega como Maria Callas. As únicas menções relativas à sua carreira de atriz acontecem no começo do filme, quando Grace aparece ao final de uma cena de “Alta Sociedade”, e quando Alfred Hitchcock a convida para atuar em “Marnie – Confissões de uma Ladra”, quando ela já era princesa. O diretor Olivier Dahan é o mesmo de “Piaf – Um Hino ao Amor, de 2007, que deu o Oscar de Melhor Atriz a Marion Cotillard.   

domingo, 9 de novembro de 2014

“MONTEVIDÉU” (“Montevideo, Vidimo Se”), 2014, é o segundo filme do projeto do diretor sérvio Dragana Bjelogrlic que visa contar a história, baseada em fatos reais, da participação da seleção de futebol da Iugoslávia na Copa do Mundo de 1930, no Uruguai. O primeiro, “Montevideo – O Sonho da Copa”, de 2011, mostra a escolha dos jogadores entre os jovens atletas dos subúrbios de Belgrado, suas famílias, seus romances, os treinamentos e alguns amistosos. O segundo conta a história da participação da seleção na disputa daquela que foi a primeira copa do mundo de futebol. A viagem de navio, a recepção no porto da capital uruguaia, a espelunca em que foram hospedados, o romance do atacante Tirke (Milos Bikovic) com a bela uruguaia Dolores (Elena Martinez), tudo contado na base do bom humor, o que torna o filme, além de muito interessante pela história em si, bastante agradável de assistir. É preciso destacar, porém, o total desconhecimento de Dragana sobre os brasileiros, primeiros adversários da Iugoslávia. Para se ter uma ideia, na apresentação oficial das delegações, nossos jogadores aparecem vestidos com trajes típicos de tribos africanas. Uma mancada terrível! As cenas dos jogos são todas muito fracas, diria até mal feitas. Ainda no elenco, o veterano ator norte-americano Armand Assante aparece no papel de um empresário ganancioso em busca de novos talentos. Assim como o primeiro filme concorreu ao Oscar 2012 de Melhor Filme Estrangeiro, este segundo é pré-candidato na mesma categoria ao Oscar 2015, também pela Sérvia.