“MEU REI” (“MON ROI”), 2015, França, escrito e dirigido por
Maïwenn Le Besco. A história é centrada no relacionamento tumultuado da
advogada Marie Antoinette Jézébel (Emmanuelle Bercot), a quem os mais próximos
chamam de “Tony”, e Georgio Milevisk (Vincent Cassel), dono de restaurante e conquistador crônico. O
filme começa com o acidente ocorrido quando Tony esquiava, o que lhe resultou
num grave ferimento no joelho. Enquanto se recuperava numa clínica de reabilitação,
ela relembra os dez anos em que ficou casada com Georgio, um homem sedutor e, ao mesmo tempo, como demonstraria depois,
possessivo, instável, egoísta e, de certa forma, violento. Mesmo casado e pai,
Georgio continuou aprontando e Tony sempre perdoando. Até que um dia... Um
crítico profissional definiu o filme como “Uma bela e dolorosa história de amor”,
no que concordo plenamente. A diretora, e também atriz, Maïwenn, que já havia escrito
e dirigido bons filmes como “Polissia” e “Baile das Atrizes”, acerta a mão mais
uma vez, nos presenteando com um ótimo drama. O grande destaque do filme,
porém, é a atriz Emmanuelle Bercot. Confesso que faz muito tempo que não via
uma atuação tão espetacular. Só ela vale o filme inteiro, embora Vincent Cassel - o ex-marido de Mônica Belucci - também dá show de interpretação. Falar nisso, por esse
filme, Emmanuelle foi eleita a Melhor Atriz no Festival de Cannes 2015. Merecia
muito mais. "Meu Rei" também recebeu 8 indicações ao César (o Oscar francês). Sem dúvida, cinema de alta qualidade. Um ótimo programa.
O tema da eutanásia é o pano de fundo do drama francês “A ÚLTIMA LIÇÃO” (“LE DERNIÈRE LEÇON”), 2016, escrito e dirigido por
Pascale Pouzadoux. Não suportando mais conviver com dores pelo corpo,
incontinência urinária noturna, lapsos de memória e com todas as dificuldades
que caracterizam a velhice, Madeleine (Marthe Villalonga) resolve se suicidar.
Sua intenção é anunciada no almoço em que ela comemorava seus 92 anos com a
família. Disse que estava cansada de viver e que não gostaria de dar trabalho
para os filhos Diane (a simpática e ótima atriz Sandrine Bonnaire) e Pierre (Antoine
Duléry). Dali a dois meses, ela tomaria uns remédios e acabaria com tudo. De
início, os filhos não se conformam com a decisão da mãe e tentam demovê-la da
ideia. Diane, em especial, resolve dedicar uma atenção especial à mãe nos meses
que lhe restam de vida, enquanto seu irmão Pierre está mais preocupado com os
seus negócios. O filme quase inteiro é dedicado à relação entre Diane e a mãe,
o que rende alguns momentos comoventes e bastante sensíveis. Para escrever o
roteiro, em conjunto com Laurent de Bartillat, a diretora Pascale Pouzadoux se
inspirou no livro autobiográfico da filósofa Noëlle Châtelet, que relata os
três últimos meses de vida de sua mãe, Mireille Jospin. Resumo da ópera: um bom
programa para ver na telinha.
Que atriz maravilhosa é a inglesa Judi Dench! Aos 83 anos, ela
continua em grande forma, como pode ser comprovado em “VICTORIA E ABDUL – O CONFIDENTE DA RAINHA” (“Victoria & Abdul”), 2017, Inglaterra. A história
lembra um fato verídico ocorrido durante o reinado da Rainha Victoria e envolve
sua amizade com o indiano Abdul Karin (Ali Fazal). Esse relacionamento chocou a
corte vitoriana e o governo inglês, que durante muitos anos tentaram esconder o
que aconteceu. Tudo começou quando o governo indiano, então uma colônia
inglesa, resolve homenagear a Rainha Victoria com uma valiosa moeda. Abdul e
seu companheiro Mohammed (Adeel Akhtar) ficam encarregados de entregar o
presente durante uma solenidade das mais concorridas da corte inglesa. Abdul
quebra o protocolo ao encarar a rainha, dando-lhe um sorriso. Victoria, famosa
por seu mau humor, não teve nenhum surto psicótico, para surpresa de todos os presentes. Ao contrário, simpatizou de
cara com o indiano, iniciando uma grande amizade, que culminou com a nomeação
de Abdul para conselheiro e professor da rainha. Os membros da corte ficam
revoltados, ainda mais depois que Abdul convence Victoria a estudar o Alcorão.
O roteirista Lee Hall (“Billy Elliot”, “Cavalo de Guerra”) e o diretor Stephen
Frears (“Philomena”, “A Rainha”, “Florence: Quem é essa Mulher?”) resolveram adotar
um tom de comédia, sem deixar de lado os momentos dramáticos que caracterizam a
história dessa amizade inusitada e bastante improvável. Trata-se de um programa
bastante agradável, um entretenimento de primeira. E ainda tem Judi Dench em
estado de graça.
“O SUBORNO DO CÉU” (“El
Soborno del Cielo”),
2016, Colômbia, roteiro e direção de Lisandro Duque Naranjo. Trata-se de uma
história baseada em fatos reais ocorridos numa pequena cidade do interior da
Colômbia nos anos 70. Tudo começa quando um rapaz comete suicídio e o novo pároco
local recusa-se a rezar a missa de sétimo dia, seguindo orientação da Igreja
Católica, para a qual o suicida cometeu um pecado grave. A situação complica-se
ainda mais quando o padre exige que o corpo do falecido seja desenterrado e encaminhado
para um cemitério laico. A confusão está formada. O novo pároco, diante da
situação, impõe o interdito da igreja, ou seja, a suspensão de missas, casamentos,
batismos, extremas-unções etc., para desespero da população local, formada por
católicos fervorosos. Tanto a história, as
situações, o humor, os personagens e os cenários lembram novelas globais como “Tieta
do Agreste” e “O Bem-Amado”. Ou seja, o filme oferece entretenimento dos mais
agradáveis e descompromissados.
Selecionado para representar a Índia na disputa do Oscar 2018
de Melhor Filme Estrangeiro (não ficou entre os cinco finalistas), “NEWTON”, escrito e dirigido por Amit Masurkar,
consegue fazer rir tendo como pano de fundo um assunto sério. A história é
centrada no jovem Newton Kumar (Rajkummar Rao), um funcionário público dedicado
e honesto. Ou seja, uma raridade, inclusive na Índia. Às vésperas das eleições
gerais, ele se apresenta como voluntário para presidir a votação numa zona
eleitoral perigosa, constituída por apenas 76 eleitores, um vilarejo longínquo,
no meio da selva, com forte presença de rebeldes comunistas. Newton e sua
equipe de mesários são escoltados e protegidos por forças de segurança locais,
comandadas por Aatma Singh (Pankaj Tripathi). O primeiro desafio de Newton é
convencer a população local a participar da eleição. O pessoal tem medo de
sofrer retaliações por parte dos rebeldes. Newton, mesmo correndo risco de
vida, fará de tudo para conseguir seu objetivo. Como escrevi no início do
comentário, o roteirista e diretor Amit Masurkar transformou uma história que
poderia ser tratada com seriedade, numa quase comédia, com momentos realmente hilariantes. O filme apresenta um trunfo adicional: a ausência daquelas cenas de dança e música insuportáveis que são marca registrada dos filmes de Bollywood. Apesar de ser um bom filme, divertido e agradável de assistir, não tinha chance
mesmo de disputar o Oscar. Aqui no Brasil, ainda não chegou ao circuito
comercial. Apenas foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema de
Curitiba, em junho de 2017.
“MULHERES DIVINAS” (“DIE
GÖTTLICHE ORDNUNG”),
2017, Suíça, escrito e dirigido por Petra Biondina Volpe. A história,
ambientada em 1971, é centrada num grupo de mulheres de um vilarejo no interior
da Suíça que resolve aderir à campanha pelo direito ao voto feminino. Imaginem
só, na Suíça, país desenvolvido, as mulheres ainda não podiam votar até aquele
ano. O filme começa com um clipe bastante elucidativo, mostrando cenas reais de
1968, destacando as manifestações feministas em todo o mundo. Até 1971, os
avanços obtidos três anos antes não haviam chegado à pequena vila da Suíça, radicalmente
conservadora, onde as mulheres continuavam submissas aos maridos, presas aos
afazeres domésticos, proibidas de trabalhar fora e emitir qualquer tipo de
opinião, principalmente de cunho político. Esse contexto começa a mudar a
partir de Nora (Marie Leuenberger), casada e mãe de dois filhos, que resolve se
engajar na campanha pelo direito ao voto feminino. A ela juntam-se outras
mulheres decididas a se libertar do machismo reinante. A coisa pega fogo, pois além
do direito de votar elas resolvem também reivindicar o direito de trabalhar e
de conquistar sua emancipação sexual, o que rende cenas de muito bom humor,
principalmente quando uma sueca resolve fazer uma palestra sobre o prazer
feminino, incluindo temas como o orgasmo e a masturbação. Dessa forma, a
diretora Petra Volpe conseguiu tratar de um tema sério de maneira bem leve e divertida, tornando o filme bastante agradável de assistir. “Mulheres
Divinas” foi o filme selecionado para representar a Suíça no Oscar 2018 de
Melhor Filme Estrangeiro, mas não ficou entre os cinco finalistas. Aqui no
Brasil, foi exibido como uma das atrações da 41ª Mostra Internacional de Cinema
de São Paulo, em outubro/novembro de 2017.
“VERÃO 1993” (“ESTIU
1993”), selecionado
para representar a Espanha no Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, foi
apontado por alguns críticos especializados como um dos grandes favoritos, mas
ficou de fora dos cinco finalistas, apesar de ter conquistado prêmios em vários
festivais de cinema pelo mundo afora em 2017. Trata-se do filme de estreia da
roteirista e diretora Carla Simón, que escreveu a história baseando-se em suas
memórias de infância. O filme é centrado na menina Frida (Laia Artigas), de
apenas seis anos de idade, que perdeu o pai e logo em seguida a mãe, tendo de sair de
Barcelona para morar com os tios Marga (Bruna Cusí) e Esteve (David Verdaguer)
na zona rural da Catalunha. Revoltada e invejosa, sentindo muito a falta da mãe,
Frida vai tumultuar o ambiente da nova família, o que inclui maltratar a
priminha mais nova. Para domá-la, Marga e Esteve terão que adotar as mais diferentes
formas de psicologia, mas não será nada fácil. Destaque para a ótima atuação da
atriz mirim Laia Artigas. Resumo da ópera: um filme de crianças feito para
adultos. De qualquer forma, um bom filme, mas exageradamente valorizado.
Já foi o tempo em que Bruce Willis era o grande astro dos
filmes de ação – quem não se lembra da série “Duro de Matar”? Mas o tempo
passou e o astro norte-americano envelheceu e já não consegue papeis que
correspondam ao seu carisma e à sua competência como ator. Em seu mais recente filme,
o suspense “CAÇADA BRUTAL” (“FIRST KILL”),
2017, direção de Steven C. Miller com roteiro de Nick Gordon, Willis aparece
somente no começo, apresentado como o chefe de polícia da cidade, e depois no
final, num tiroteio que marca o desfecho da história. Quem trabalha o tempo
inteiro é Hayden Christensen (o ator canadense conhecido como o Anakin Skywalker
de “Star Wars”), que leva o filho de 11 anos para caçar na floresta – mania de
americano achar que um garoto só vira homem depois de dar uns tiros e matar um
animal. Ele presencia a briga de dois homens por causa do dinheiro de um
assalto a banco. Um deles é assassinado e o outro ferido. O que sobreviveu
sequestra o filho de Will (papel de Christensen), o que desencadeia a tal caçada brutal. Haverá algumas reviravoltas, pois quem parecia o
mocinho vira o vilão e vice-versa. Steven Miller já havia dirigido Willis em outros dois filmes: "Assalto ao Poder" e "Operação Resgate", bem melhores do que este. Triste constatar que Willis já não é tão
duro de matar. Filme bem fraquinho, sem chance de ser recomendado.
O drama dinamarquês “UMA
GUERRA” (“KRIGEN”), 2015, escrito e dirigido por Tobias Lindholm, foi um
dos cinco finalistas na disputa do Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro. Era
o grande favorito, mas acabou perdendo para “O Filho de Saul”. Merecia ganhar.
O filme é centrado na rotina de um pelotão do exército dinamarquês no
Afeganistão, responsável por realizar patrulhas, prender guerrilheiros talibãs
e ajudar a população civil no que for necessário. O grupo é comandado pelo oficial
Claus M. Pedersen (Pilou Asbaek). Numa dessas patrulhas, Pedersen e seus homens
são emboscados por atiradores talibãs e pedem ajuda aérea. Ao informar as
coordenadas de uma casa onde estariam os atiradores para que seja atacada pelo
reforço aéreo, Pedersen comete um trágico engano: na casa havia somente civis,
11 dos quais, incluindo várias crianças, morreram no ataque. Pelo erro,
Pedersen é obrigado a voltar para a Dinamarca para ser submetido a julgamento
por uma corte marcial, acusado de crime de guerra. Entre uma cena e outra de
guerra, o diretor Tobias Lindholm dá destaque também à árdua rotina da esposa
de Pedersen, Maria (Tuva Novotny), que se vira como pode para cuidar dos três
filhos pequenos, um deles causando problemas quase que diários na escola. Maria
e os filhos sentem muita falta de Pedersen. Para Maria, sua casa também é uma
espécie de “campo de batalha”, um aspecto pouco explorado nos outros filmes que
têm uma guerra como pano de fundo. Imperdível!
“UM REINO UNIDO” (“A
United Kingdom”), 2016,
Inglaterra/França, terceiro longa-metragem escrito e dirigido por Amma Asante –
o primeiro foi “A Way of Life”, de 2004, e o segundo, “Belle”, de 2013. A
história de “Um Reino Unido” é baseada em fatos reais relatados no livro “Colour
Bar”, de Susan Williams, lançado em 2006. No final dos anos 40, o príncipe
Seretse Khama (David Oyelowo), herdeiro do trono de Bechuanalândia (mais tarde
Botswana), estudava Direito em Londres quando conhece a britânica Ruth
Williams. Os dois curtiam dançar e ouvir jazz. E, claro, acabam se apaixonando
e casando, provocando uma série de protestos por parte da família real de
Bechuanalândia, na época um protetorado britânico, e das autoridades inglesas, que
apoiavam a política do apartheid
implementada pela vizinha África do Sul. Seretse Khama e Ruth Williams resolveram
enfrentar todas as dificuldades, lutando contra o preconceito e as fortes ingerências
políticas - imagine um casamento inter-racial naquela época. Depois da independência de Bechuanalândia, em 1966, Seretse Khama
seria eleito o primeiro presidente de Botswana. Uma história de amor muito
bonita, tendo como pano de fundo o contexto político da época envolvendo a
Inglaterra e suas colônias na África. Além de um ótimo filme, uma verdadeira aula de História.
“VIOLAÇÃO DE CONFIDENCIALIDADE”
(“La Mecanique de L’Ombre”), 2017, filme de estreia de Thomas Kruithof como roteirista e
diretor. Também vi um DVD com a tradução “A Mecânica das Sombras”. Como não foi
exibido por aqui no circuito comercial, não há uma tradução oficial. A história
é centrada no cinquentão Duval (François Cluzet, de “Intocáveis”), um homem
solitário, com um passado ligado a problemas com bebida, e que de uma hora para
outra perde o emprego e não consegue outro. Fica desempregado durante dois anos
e, depois de inúmeras entrevistas, consegue finalmente um trabalho. Ele é
contratado por um empresário misterioso chamado Clement (Denis Podalydes) para
transcrever gravações de conversas telefônicas. Um trabalho simples, mas muito
bem pago. Num amplo escritório, o único móvel é uma mesa com uma máquina de
escrever – o filme não especifica o ano em que se passa a ação. Duval começa a
trabalhar e acaba percebendo que algumas fitas possuem conteúdo bastante confidencial,
envolvendo políticos importantes e gente ligada ao governo francês, incluindo
agentes do serviço secreto. Enfim, descobre que as gravações estão ligadas a
uma conspiração política. Duval chega à conclusão que entrou numa grande fria e
quer pular fora. Só que é tarde demais, ele está envolvido numa trama sinistra,
é acusado de assassinato e vai ter que fugir para sobreviver. Suspense e tensão
garantidos, num filme cuja ação tem o ritmo frenético, não deixando o
espectador respirar. E, ainda mais com a competência habitual do ator François
Cluzet, torna-se um ótimo entretenimento. Também estão no elenco Sami Bouajila, Simon Abkarian e Alba Rohrwacher.
A primeira exibição do drama húngaro “CORPO E ALMA” (“Teströl És Lélekröl”) aconteceu no 67º Festival de
Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017. O filme, escrito e dirigido pela
diretora húngara Ildikó Enyedi, foi aclamado pela crítica, público e jurados, conquistando
o “Urso de Ouro” como o melhor filme do festival. Além disso, foi selecionado
para representar a Hungria na disputa do Oscar 2018 de Melhor Filme
Estrangeiro. Sem dúvida, um dos filmes mais interessantes dos últimos anos,
criativo e sensível, além de bem-humorado. Tudo para contar uma história inusitada
de amor entre Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi). Os dois são
colegas de trabalho num grande matadouro de gado, ela recém-contratada como
inspetora de qualidade; ele, bem mais velho, é o diretor financeiro da empresa.
Ao realizar o programa de entrevistas com os funcionários, a psicóloga do
matadouro faz uma descoberta incrível: Mária e Endre têm os mesmos sonhos todos
os dias. Endre sonha que é veado (o bicho, não a bicha!) e está sempre em companhia de uma cerva numa floresta. Ela,
por seu lado, sonha que tem como companheiro um veado. Os sonhos sempre combinam. A psicóloga fica brava e acha que os
dois estão brincando com ela, o que resulta em algumas cenas bastante
engraçadas. Mária e Endre tentarão viver o mesmo romance dos sonhos, mas a
realidade não é tão fácil quanto possa parecer. Enfim, um filme muito
inteligente e agradável. Simplesmente imperdível!
Selecionado para representar a Romênia na disputa do Oscar
2017 de Melhor Filme Estrangeiro, “SIERANEVADA” é uma comédia dramática escrita
e dirigida por Cristi Puiu (“A Morte do Sr. Lazarescu” e “Aurora”). O filme,
quase inteiramente ambientado dentro de um apartamento, acompanha a reunião da
família do médico Lary (Mimi Branescu), que se encontra num sábado para
homenagear o 1º aniversário da morte do patriarca Emil. Enquanto aguardam a
chegada de um padre da Igreja Ortodoxa para realizar o serviço religioso e
benzer o apartamento, os familiares de Lary passam por situações inusitadas que
transformarão o encontro familiar numa grande bagunça. Uma jovem croata, totalmente
drogada, é levada por uma jovem da família para se recuperar no apartamento;
uma tia revela as traições do marido com detalhes escabrosos; a avó defende o tempo
da ditadura comunista, o que faz surtar a dona da casa, e por aí vai. Nesse
meio tempo, as discussões familiares abordam temas como os atentados de 11 de
setembro nos EUA e o cometido contra a redação do semanário parisiense Charlie
Hebdo – o encontro familiar acontece alguns dias após o atentado de Paris. A
câmera de Puiu acompanha tudo bem de perto, como se fosse um convidado
invadindo a intimidade da família. O filme é bastante longo (2h53m) e
verborrágico demais, embora contenha diálogos muito interessantes e bem-humorados. Busquei informações sobre o título escolhido e descobri que o diretor queria referir-se a um antigo faroeste. "Sieranevada" foi exibido por aqui durante a Mostra “Panorama do Cinema Mundial”, no
Festival Internacional do Rio de Janeiro, e concorreu à Palma de Ouro no Festival
de Cannes 2016.
“EM BUSCA DE VINGANÇA”
(“Aftermath”), EUA,
2016, direção de Elliott Lester (“Blitz” e “Nightingale”), com roteiro de
Javier Gullón (“O Homem Duplicado”). O título nacional dá a entender que vem
pancadaria grossa, ainda mais que o ator principal é Arnold Schwarzenegger. Ledo
engano. Já foi o tempo em que o brucutu austríaco encantava plateias no mundo
inteiro distribuindo socos e tiros em bons filmes de ação. Hoje, aos 70 anos,
não tem mais a mobilidade para encarar uma briga. Nesse drama, ele vive Roman
Melnik, um imigrante russo que trabalha na construção civil. Às vésperas do
Natal, ele espera a volta de sua esposa e de sua filha grávida que retornavam
de Kiev. Ao buscá-las no aeroporto, ele recebe a trágica notícia: o avião onde
elas estavam colidiu com outro, matando dezenas de pessoas, incluindo sua
esposa e a filha. Enquanto Melnik tenta se recompor do choque, o filme passa a
acompanhar o drama do controlador de tráfego aéreo Jake Bonaos (Scoot McNairy),
responsabilizado pelo acidente e obrigado a mudar de cidade e até mesmo de
identidade. Roman vai fazer de tudo para encontrá-lo e parte em busca de
vingança. A história toda é baseada em fatos reais, ou seja, o acidente
ocorrido no dia 1 de julho de 2002 no espaço aéreo da Alemanha, onde se
chocaram um Boeing 757 cargueiro e um Tupolev com dezenas de crianças russas. O
inquérito concluiu que houve erro dos controladores de voo. Talvez Schwarzenegger não tenha sido a melhor escolha
para o papel, mas o carisma do ator acaba compensando.
“INEXPLICÁVEL” (“Unspeakable”) foi produzido pelo Channel 4 da Inglaterra
e exibido no dia 5 de novembro de 2017. Trata-se de um drama que contém um conselho bastante importante – mais do que um conselho, um alerta: não acredite
em toda mensagem enviada para o seu celular, principalmente as anônimas. A história é
centrada em Jo (Indira Varma), que passa a viver um dilema terrível depois de
receber uma mensagem anônima pelo celular. Segundo o ou a remetente, seu
namorado Danny (Luke Treadaway), alguns anos mais moço, estaria tendo um caso
com Katie (Nina Sorrentino), sua filha de 11 anos. Mesmo não querendo
acreditar, Jo fica desesperada com a mensagem e não sossega enquanto não
descobrir toda a verdade, nem que para isso tenha de confrontar seu namorado,
seu ex-marido Des (Neil Maskeil) e a própria filha. Todo o suspense engendrado
pelo roteirista e diretor David Nath culmina num desfecho bastante previsível,
o que torna essa produção televisiva pouco recomendável.
“FLORES” (“Loreak”), 2015, Espanha, direção de Jon Garaño
e José Mari Goenaga. Trata-se do primeiro filme espanhol inteiramente falado em
basco. Além disso, foi selecionado para representar a Espanha na disputa do
Oscar 2016 de Melhor Filme Estrangeiro. Merecia melhor sorte, pelo menos estar
entre os cinco finalistas, pois o filme é muito bom. Talvez o seu maior trunfo
seja o primoroso roteiro, elaborado pelos diretores – com a colaboração de Aitor
Arregi – para contar uma história extremamente sensível. Ane (Nagore Aranburu),
uma mulher de meia idade, está fragilizada pela indiferença do marido e, para
piorar, recebe a notícia do seu médico informando que acabara de entrar numa menopausa
precoce. Ao mesmo tempo, passa a receber flores de algum admirador anônimo, o
que de certa forma faz com que recupere o ânimo e passe a se sentir melhor.
Numa cena tocante dentro de um ônibus lotado, ela fica olhando os homens
imaginando qual deles ela gostaria que fosse o seu admirador. Numa segunda
vertente da história, Lourdes (Itizar Ituño) vive uma crise no casamento com
Beñat (Josean Bengoetxea) por conta da intromissão constante da sogra Tere (Itziar
Aizpurn) em sua rotina doméstica. Tere fica xeretando a vida íntima do casal e
ainda interfere na decoração da casa, o que deixa Lourdes furiosa. Beñat assiste
a tudo sem tomar partido. Ele é colega de trabalho de Ane num canteiro de obras,
responsável pela operação de um guindaste e passa o dia nas alturas. Com um
binóculo, ele costuma bisbilhotar tudo o que se passa na área, inclusive os
passos de Ane. Um dia, para consternação geral, Beñat morre num acidente de
carro. Semanas depois, ao depositarem flores no local do fatídico acidente, a
mãe e a esposa de Beñat percebem que mais alguém faz o mesmo. Tere logo
descobre quem deposita as flores. Lourdes demora a descobrir. A reação de ambas
em relação à pessoa é completamente diferente. As três mulheres comandam o
filme inteiro, ressaltando o maravilhoso desempenho das atrizes que as
interpretam, motivando o crítico Luiz Zanin, do Estadão, a afirmar que “Loreak
revela-se uma obra de alma feminina”. Não dá para acreditar que um filme tão
bom não tenha sido exibido por aqui no circuito comercial. Só o viu quem esteve
no 25º Cine Ceará – Festival Íbero-Americano de Cinema, realizado em junho de
2015. Imperdível!
Para quem gosta de filmes de ação, “O ASSASSINO: O PRIMEIRO ALVO” (“American Assassin”), 2017, EUA,
não nega fogo. Tem pancadaria à vontade, tiros, perseguições e
muita ação. A história é baseada no livro “American Assassin”, escrito por
Vince Flynn, especialista em romances políticos e de espionagem. A direção é de
Michael Cuesta (“O Mensageiro” e o roteiro assinado pelo quarteto Edward Zwick,
Marshall Herskovitz, Michael Finch e Stephen Schiff. Depois de presenciar a
morte de sua noiva Katrina (Charlotte Vega) num atentato terrorista, o jovem
Mitch Rapp (Dylan O’Brien, de “Maze Runner: Prova de Fogo”) jura vingança,
passa a praticar artes marciais e consegue infiltrar-se no grupo responsável pelo
atentado. Quando parte para a ação, sozinho, ele elimina os assassinos. Sem
saber, Mitch está sendo monitorado pela CIA, que resolve recrutá-lo e
treiná-lo. Mitch é encaminhado para um centro de treinamento comandado pelo
ex-militar e ex-agente da CIA Stan Hurley (Michael Keaton). Os métodos são
violentos e desencorajadores, mas Mitch é durão e passa no teste. Nesse meio
tempo, a CIA consegue informações a respeito de um grupo terrorista iraniano que
tem em seu poder uma bomba atômica cujo destino é Israel. A CIA entra
imediatamente em ação e escala a turma de Hurley, incluindo Mitch, para a
difícil missão de descobrir o paradeiro do grupo terrorista e desarmar a bomba.
As cenas de ação são muito bem elaboradas e o filme teve locações em cidades
como Istambul, Varsóvia e Roma, entre outras. “American Assassin” é um dos
maiores sucessos em vendas (só nos EUA foram 12 milhões de exemplares) do
escritor Vince Flynn, falecido precocemente, aos 47 anos, em 2013. Mitch Rapp é
personagem de vários livros escritos por Flynn.
Premiadíssimo filme iraniano, o drama “NAHID – AMOR E LIBERDADE” (“NAHID”), 2015, marca a estreia na
direção da jovem diretora Ida Panahandeh, também autora do roteiro. A história
é centrada em Nahid (Sareh Bayat), que conseguiu obter o divórcio de Ahmad
(Navid Mohammadzadeh), um viciado que não consegue largar as drogas, principalmente
a heroína. Eles têm um filho de 10 anos, Amir Reza (Milad Hossein Pour), que
ficou com a guarda da mãe depois de um acordo acertado com o pai – segundo as
leis religiosas iranianas de divórcio, o pai obtém automaticamente a guarda do
filho. No Irã, os divórcios só podem ser concretizados mediante a autorização
do marido. Nahid obteve a guarda do filho, mas jamais poderá casar novamente.
Só que ela acaba se apaixonando por Masoud (Rejman Bazeghi), um viúvo
proprietário de um pequeno hotel no litoral. Nahid enfrentará um grande dilema,
ou seja, assumir o romance com Masoud, que quer casar com ela, e perder a
guarda do filho para o ex-marido drogado ou então ficar com o filho e renunciar
ao amor de Masoud. Complicado, principalmente depois que a família de Ahmad
fica sabendo da relação de Nahid com Masoud. O filme é todo de Sareh Bayat, a ótima
atriz que estreou no cinema em “A Separação”, de 2011, Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro. “Nahid” foi premiado no Festival de Cannes 2015 com o “Prix Avenir
Prometteur”, destinado a diretores estreantes.
O drama francês “UMA
HISTÓRIA BANAL” (“Une Histoire Banale”), 2014, escrito e dirigido por
Audrey Estrougo, conta a história de Nathalie (Marie Denarnaud), uma mulher bonita
e charmosa que, aos 30 anos, vive uma fase bastante feliz. Está prestes a morar
com o namorado Wilson (Oumar Diawr), por quem está apaixonada, vive cercada de
amigos e curte seu ambiente de trabalho como enfermeira num hospital. Toda essa
felicidade vai durar pouco. Depois de sair com os amigos para dançar, Nathalie aceita
a carona de um deles, Damien (Renaud Astegiani), que demonstrava há tempos uma
evidente obsessão por ela, assediando-a com telefonemas e convites para sair. Ao
chegar à casa de Nathalie, Damien parte para o ataque, mas é rejeitado. Ele se
vinga estuprando a moça. Depois do que aconteceu, a vida de Nathalie vira um
tormento. Traumatizada e com sérios problemas psicológicos em razão do que
aconteceu, Nathalie passa a se comportar de maneira estranha. Para quem não
passou pela mesma experiência traumática, talvez seja difícil entender a
Nathalie pós-estupro. O desfecho dá margem às mais variadas interpretações e motiva
as espectadoras a fazer uma difícil reflexão: o que eu faria no lugar de
Nathalie? O desempenho da atriz Marie Denarnaud é excelente. Mais um bom filme francês que merece ser visto.
Para atuar em “Clube de Compras Dallas”, o ator Matthew
McConaughey teve de emagrecer 22 quilos, o que contribuiu, além da sua ótima
atuação, para conquistar o Oscar 2014 de Melhor Ator. Em “OURO E COBIÇA” (“GOLD”), 2017, para interpretar o personagem do
empresário Kenny Wells, McConaughey precisou engordar 19 quilos. No filme, além
de gordo, o ator aparece bastante calvo e usando uma dentadura falsa, adotando
um visual bem diferente do galã que estamos acostumados a ver na tela. E seu desempenho
é também muito bom, o que pode garantir uma nova indicação ao Oscar 2018. Vamos
aguardar. “Ouro e Cobiça” é baseado em fatos reais que resultaram num grande
escândalo financeiro no início dos anos 90 envolvendo a empresa canadense BRE-X
Mineral Corporation. No filme, McConaughey vive o empresário e aventureiro Kenny
Wells, que em meados dos anos 80 se associa ao geólogo Michael Acosta (o ator
venezuelano Edgar Ramirez) para explorar uma possível mina de ouro na
Indonésia. A notícia do resultado positivo dessa exploração chega a Wall Street
e a empresa de Wells passa a ser um grande sucesso na Bolsa, atraindo milhares
de investidores. Logo depois, porém, a verdade virá à tona e não será nada
agradável, nem para Wells e muito menos para os investidores. O filme vale pela
história em si, desconhecida por aqui, como pelo desempenho magistral de McConaughey,
que na vida real é casado, desde 2012, com a modelo brasileira Camila Alves.
“DUNKIRK”, 120 minutos, EUA, retrata um dos
episódios mais impressionantes e incríveis da Segunda Guerra Mundial. Em maio
de 1940, mais de 300 mil soldados ingleses e aliados foram encurralados pelas
tropas alemãs nas praias de Dunkirk, em território francês (nos livros de
história que li, o nome que aparecia era sempre Dunquerque). Se não houvesse a evacuação imediata,
os soldados certamente teriam sido mortos pelo exército nazista, maior em
número e bem mais armado. A estratégia emergencial colocada em prática – que recebeu
o nome de Operação Dínamo – foi a utilização de embarcações civis e militares para buscar
os soldados do outro lado do Canal da Mancha e levá-los para a Inglaterra. No
total, foram utilizados 665 barcos civis e 222 embarcações militares. O
primeiro-ministro Winston Churchill queria os soldados de volta para reforçar a
defesa da Inglaterra contra uma possível invasão alemã. No filme, escrito e
dirigido pelo inglês Christopher Nolan (conhecido pela trilogia Batman, “Intersestelar”,
“Amnésia” e “A Origem”), a ação predomina em ritmo frenético, numa proposta visual
bastante ousada, com algumas cenas realmente sensacionais e poucos diálogos. O
filme foi realizado sob três perspectivas diferentes: terra, mar e ar. Na
terra, o enfoque envolveu as tentativas do soldado Tommy (Fionn Whitehead) e de
seus companheiros de fugir da praia e entrar numa das embarcações. No mar, a
ação privilegiou os esforços das embarcações civis em chegar a Dunkirk e
resgatar os soldados, em especial o barco de Dawson (Mark Rylance). No ar, o
filme destacou os esforços do piloto Ferrier (Tom Hardy) em afastar os aviões
alemães de Dunkirk, em ótimas cenas de batalha aérea. O filme de Nolan é muito
bom e tem tudo para conquistar algumas indicações ao Oscar 2018, incluindo até
mesmo a trilha sonora criada por Hans Zimmer. Sem dúvida, um dos melhores filmes de guerra feitos nos últimos anos.
O que você faria se sua filha de 17 anos resolvesse, de uma
hora para outra, ingressar no Estado Islâmico e virar uma terrorista? O drama
francês “NÃO ME ABANDONE” (“Ne M’Abandonne
Pas”), 2015, direção de Xavier
Durringer, pode ajudar você a dar essa resposta. A jovem Chama (Lina El Arabi), de
17 anos, sofre a tradicional lavagem cerebral e acaba se casando pela Internet
com um antigo namorado francês, que foi cooptado pelo EI e que agora mora na
Síria. Está tudo preparado para que Chama vá para a Síria fazer parte do grupo
terrorista. A médica Inès (Samia Sassi), mãe de Chama, descobre o plano e fará tudo
para que a filha não entre nessa “furada”. Para isso, conta com a ajuda do ex-marido
Sami (Sami Bouajila) e de Adrien (Marc Lavoine), pai de Louis, o jovem francês recrutado
pelo EI e marido “virtual” de Chama. Pela Internet, Inès fica sabendo como o EI
faz a cabeça dos jovens – o filme, de forma didática, mostra alguns vídeos do
EI com mensagens motivacionais e os métodos empregados para atrair candidatos
para a causa. O filme também acompanha o sofrimento de Inès e sua luta para
resgatar a filha das garras dos terroristas. “Não me Abandone” foi produzido
originalmente para ser uma minissérie para a TV francesa, exibida em 2016, e que
agora virou filme. O tema é bastante atual e merece ser motivo de reflexão.
Ninguém está livre dessa situação.