quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

 

“DOIS” (“DOS”), 2020, Espanha, disponível na plataforma Netflix, 1h10m, direção de Mar Targarona, seguindo roteiro assinado por Cuca Canals, Christian Molina e Mike Hostench. Em 2020, quando estreou no Festival Internacional de Cinema de Málaga (Espanha), o filme dividiu as opiniões da crítica especializada. Muitos prós e contras. Realmente, “Dois” não é fácil de digerir. É um filme bizarro, perturbador à beira do grotesco e não deve agradar grande parte do público. Durante 99% da duração, apenas dois personagens ficam na tela: David (Pablo Derqui) e Sara (Marina Gatell). Começa o filme e estão lá os dois, nus na cama, grudados um ao outro cirurgicamente pelo estômago, como irmãos siameses. Ela não conhece ele e vice-versa, e não se lembram do que aconteceu. A primeira conclusão é de que foram drogados. Quem será o responsável por tal atrocidade? Sara acha que foi o marido ciumento que deve ter desconfiado de alguma traição. Por sua vez, David confessa ser um garoto de programa e talvez o que está acontecendo tenha a ver com alguém ciumento também. Os dois estão trancados em um quarto, sem qualquer comunicação com o exterior. E haja papo-furado até a história chegar ao seu desfecho, quando acontece uma terrível revelação. Ao tentar explicar “Dois” para a imprensa, a diretora Mar Tagarona (“O Fotógrafo de Mauthausen”, de 2018) deu uma declaração que combina bem com o excêntrico e polêmico filme que dirigiu: “Trata-se de um coquetel de emoções e sensações, às vezes contraditórias, mas esperançosamente interessantes, uma vez que são estimuladas”. Entendeu? Nem eu. Mas há gosto pra tudo, como prova a grande audiência que o filme tem conseguido na Netflix. De qualquer forma, “Dois” é um filme muito diferente e que, por isso mesmo, vale uma conferida.                                    

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

 

“SOB PRESSÃO” (“ETATS D’URGENCE”), 2019, França, disponível na plataforma Amazon Prime, 1h30m, roteiro e direção de Vincent Lannoo. Não é de hoje que o cinema francês demonstra dominar plenamente a arte do gênero policial de ação. Mais um exemplo dessa competência é este filme produzido para ser exibido pela TV France 2. Os holofotes da história estão focados no cotidiano de um grupo de investigadores que trabalha no limite do estresse, com poucos recursos, equipe limitada, sem o devido apoio das chefias, salário baixo e enfrentando marginais que logo são soltos pela justiça (não lembra um país que conhecemos muito bem?), que tratam a polícia na base do escárnio e agem livres, leves e, principalmente, soltos. E pior: os policiais recebem ordens de efetuar cotas de prisão, ou seja, mostrar serviço à opinião pública. Um dos filmes franceses recentes que também aborda a mesma temática é “Bac Nord”, outro filmaço. Em “Sob Pressão”, a personagem central é a policial Justine (Olivia Ruiz, também cantora pop de sucesso na França), obrigada a conciliar a profissão com o papel de esposa e de mãe de um adolescente. Como se não bastasse, ela é acusada de ter roubado dinheiro durante uma batida policial. Dessa forma, ela se torna alvo de investigação da corregedoria e pode perder o emprego. Além disso, enfrenta problemas com seu filho Tristan (Vassili Schneider), um aluno rebelde e contestador que acaba quase todo dia na diretoria da escola. Seu casamento também não vai bem, pois ela trabalha demais e o marido sente muito a sua falta. Se já enfrentava todos esses problemas, Justine ainda passaria um estresse ainda maior depois que Guillaume (Hubert Delattree), seu parceiro e amigo, se suicida no vestiário da delegacia. As melhores e mais tensas cenas do filme acontecem quando os policiais vão aos prédios populares onde residem imigrantes árabes e africanos com o objetivo de prender traficantes. Nessas comunidades, os policiais são recebidos com protestos violentos e sempre correm o risco de serem linchados. Enfim, é muito estresse todos os dias. Também estão no elenco Ibrahim Koma, Grégoire Leprince, Jodith El Zein, Gil Alma, Thomas Chabrol, Vincent Aguesse e Ramzi Bettahar. Filmaço!                                

domingo, 12 de dezembro de 2021

 

“PASSADO SUSPEITO” (“THE BLACK WIDOW KILLER”), 2020, Canadá, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h30m, roteiro e direção de Adrian Langley. Elenco de ilustres desconhecidos, mas bons atores, história fraquinha e roteiro complicado que não se explica até o desfecho. Foi assim que resolvi resumir o que achei desse suspense canadense produzido para a televisão. A história é ambientada em alguma pequena cidade do Canadá e começa com um grave acidente automobilístico. O carro de um casal de namorados apresenta defeito e o rapaz é obrigado a parar no acostamento. Não demorou muito e apareceu outro veículo com dois casais de jovens e bateu violentamente na traseira do carro parado, provocando uma morte. O filme dá um salto de 25 anos e estamos na companhia da advogada e vice-prefeita Judy Dwyer (Erin Karpluk), que acaba de se divorciar de Steven (Ryan Robbins), o xerife da cidade. O clima na cidade começa a esquentar quando Kendra (Alison Brooks), melhor amiga de Judy, é assassinada. O primeiro suspeito acaba sendo o jovem Daniel (Bradley Hamilton), o filho da vítima e namorado de Abbey (Morgan Kohan), filha de Judy. Ocorre que a própria Judy, por algumas evidências, começa a acreditar que o crime talvez tenha ligação com o acidente de 25 anos atrás, o que será comprovado com outro assassinato, cuja vítima, assim como Kendra, esteve envolvida com aquele trágico acidente. Se há um mérito em “Passado Suspeito”, este se refere à expectativa da revelação do assassino, o que cria um clima de suspense e apreensão até o desfecho, com uma reviravolta surpreendente. Trocando em miúdos, o filme até que chega a ser um bom entretenimento, mas não espere muito.                            

 

“FERIDA” (“BRUISED”), 2020, Estados Unidos, 2h9m, disponível na plataforma Netflix, marca a estreia da atriz Halle Berry como diretora (ela também faz o papel principal), seguindo roteiro assinado por Michelle Rosenfarb. A história é centada em Jackie “Justice” (Berry), uma ex-lutadora de MMA que abandonou as lutas e agora trabalha como faxineira em casas de gente rica. Ela afoga as mágoas na bebida e vive um relacionamento tumultuado com seu namorado e ex-empresário Desi (Adan Canto). Um dia ela é chamada pela mãe Angel (Adriane Lenox, ótima) para buscar o filho Manny (Danny Boyd Jr.), de seis anos, que Jackie havia abandonado quando bebê. Enfim, entre idas e vindas, Jackie tentará conciliar seus dramas pessoais com os desafios de voltar às lutas, pois agora, com a guarda do filho, terá que arrumar dinheiro para sobreviver. Você assiste a tudo o que acontece e de imediato começa a lembrar de “Rocky, Um Lutador”, “A Menina de Ouro”, “Clube da Luta” e até de “Karatê Kid”, além daqueles filmes que contam a história de lutadores e seus desafios, pessoais e nos ringues. “Ferida” tem todos os clichês do gênero, brindando o espectador com aquela aguardada luta no desfecho, na qual “Justice” terá de enfrentar a temida “Lady Killer” (Valentina Shevchenko, lutadora profissional) pelo título da categoria Peso Leve. Segundo alguns artigos divulgados na mídia, Halle Barry, além de vários hematomas, quebrou duas costelas durante as filmagens. O desempenho de Halle é sensacional. Nenhuma surpresa levando-se em consideração o fato dela já ter conquistado um Oscar como Melhor Atriz em 2002 pelo filme “A Última Ceia”. Além de estar em ótima forma física aos 55 anos, a atriz também surpreende ao realizar uma cena de sexo lésbico com Sheila Atim, a “Buddhakan”, sua treinadora. Enfim, “Ferida” é uma estreia muito boa de Halle na direção, embora não seja aquele filme que a gente tem vontade de aplaudir de pé. Como entretenimento, funciona muito bem.                            

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

 

“O CONVIDADO” (“THE Wedding Guest”), 2018, Inglaterra, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h36m, roteiro e direção de Michael Winterbotton. Mesmo com a presença do astro inglês Dev Patel, de tantos filmes bons como “Quem Quer ser um Milionário?”, “Lion”, “O Último Mestre do Ar” e “O Exótico Hotel Marigold”, e da atriz indiana Radhika Apte, um grande nome do cinema de Bollywood, “O Convidado” apresenta um resultado final decepcionante. Nenhuma surpresa se levarmos em conta o currículo do diretor inglês Michael Winterbotton, responsável por tantos filmes irregulares e inexpressíveis. "O Convidado”, certamente, é mais um deles. A história é centrada no britânico muçulmano Jay (Patel), que viaja da Inglaterra para o Paquistão como convidado de uma festa de casamento. Só que o seu objetivo não é exatamente beber champanhe e comer bolo, e sim sequestrar a noiva, Samira (Radhika Apte). Jay foi contratado para executar esse serviço por Deepesh (Jim Sarbh), ex-namorado da moça. Jay consegue sequestrar a moça, mas é obrigado a matar um segurança. O caso ganha repercussão na mídia e a polícia sai no encalço do sequestrador e da sequestrada. Aí começa um road movie pelas estradas e cidades do Paquistão e da Índia. O diretor Winterbotton privilegia cenas nos centros urbanos, mostrando o trânsito caótico das cidades, mas nada que acrescente ação e suspense à narrativa. Pelo contrário, o filme se arrasta em 1ª marcha, em ritmo lento, quase sonolento. Com o andar da carruagem, a gente loto percebe que está prestes a assistir a mais uma sequestrada acometida pela tal Síndrome de Estocolmo. Não dá outra. Trocando em miúdos, o filme é muito chato e previsível, e fica pior ainda quando o roteiro inventa a aparição de pedras preciosas. Somando os prós e os contras, só dá os contras.                          

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

 


“SOU SUA MULHER” (“I’M YOUR WOMAN”), 2020, Estados Unidos, produção original Amazon Studios, 120 minutos, direção de Julia Hart, que também assina o roteiro com a colaboração de Jordan Horowitz. É um suspense que se arrasta em ritmo lento até perto do desfecho, quando então acontece alguma ação. A história é centrada em Jean (Rachel Brosnahan), que de repente se vê enfrentando uma grande confusão depois do misterioso desaparecimento do marido Eddie (Bill Heck), um pilantra envolvido com gente da pior qualidade. Para complicar ainda mais a situação, antes de sumir Eddie aparece em casa com um bebê, dizendo que é um presente para Jean – um verdadeiro presente de grego. Completamente desorientada, Jean não tem a mínima ideia do que aconteceu com o marido, até que surge no pedaço um tal de Cal (Arinzé Kene), que se identifica como amigo de Eddie e dizendo que ela precisa fugir com urgência, pois também está, assim como o marido, na mira de uma poderosa gangue. Fugindo de um esconderijo para outro, sempre com a proteção de Cal, Jean tenta aguentar a pressão e ainda cuidar, sem a experiência devida, do bebê adotado, cuja origem também é misteriosa. Em meio a essa confusão, ainda surge em cena a esposa de Cal, Teri (Marsha Stephanie Blake), que também se mantém em silêncio sobre a situação, além de esconder um fato surpreendente de seu passado, só revelado perto do desfecho. Embora o clima de tensão esteja presente em toda a trama, o ritmo lento exige uma certa paciência por parte de quem está assistindo. O maior destaque do filme é, sem dúvida, o excelente trabalho da atriz Rachel Brosnahan, que, além de bonita, é muito competente, tanto que já venceu um Emmy em 2018 e o Globo de Ouro em 2019/2020 por sua atuação na série “Maravilhosa Sra. Maisel”. Enfim, entre altos e baixos, trancos e barrancos, “Sou Sua Mulher” não apresenta um resultado final muito satisfatório. Ou seja, não é nenhuma Brastemp, mas também não chega a ser uma geladeira de isopor.                       

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

 

“AS LEGIÕES EMERGENTES” (“LEGIONY”), 2019, Polônia, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 2h20m, roteiro e direção de Dariusz Gajewski. Estamos em 1914, início da 1ª Guerra Mundial, e a Polônia luta para se livrar do domínio de 123 anos exercido por Rússia, Alemanha e Áustria. As legiões emergentes do título referem-se aos batalhões poloneses que lutaram durante aquele conflito contra as forças dominantes, conseguindo ao final da guerra libertar e unificar o País. Este é o pano de fundo que domina a história desse excelente drama de guerra, baseada em relatos da época. Os principais personagens são três: Jósek Wieza (Sebastian Fabijanski), desertor do exército czxarista que se junta às legiões polonesas; a jovem Aleksandra “Ola” (Wiktoria Wolanska), agente de inteligência da 1ª brigada polonesa e membro da Liga Feminina; e finalmente Tadeusz “Tadek” Zbarski (Bartosz Gelner), soldado da equipe de fuzileiros. A trama se desenrola com foco na situação enfrentada pelas legiões polonesas diante de seus inimigos. As cenas de batalha são sensacionais, talvez as melhores que já vi no cinema, com centenas de figurantes enfrentando-se no corpo-a-corpo com baionetas, trincheiras, tiros de canhão, cavalarias e muito sangue jorrando pelos cenários de guerra. Para amenizar o contexto de violência, o roteiro dedica uma parte da história ao triângulo amoroso entre Jósek, Ola e Tadek. Depois que Tadek, noivo de Ola, parte para o front e não volta, Jósek tenta diminuir o sofrimento da moça, oferecendo o ombro e muito mais. Dois ou três anos depois, Tadek aparece vivo e tenta recuperar a noiva. Trocando em miúdos, “As Legiões Emergentes” é um grande filme, um épico de muita qualidade do cinema polonês, além de uma verdadeira aula de história. Não perca!                   

domingo, 5 de dezembro de 2021

 

“PETERLOO”, 2018, Inglaterra, roteiro e direção de Mike Leigh, 2h34m, disponível na plataforma American Prime Video. Trata-se de uma superprodução que rememora um fato trágico de grande importância na história da Inglaterra, ou seja, o Massacre de Manchester. No dia 6 de agosto de 1819, na cidade de Manchester, norte da Inglaterra, forças do exército britânico mataram 15 pessoas e feriram mais de 700 durante um protesto pacífico em favor do direito a voto. “Peterloo”, clara referência à Batalha de Waterloo, em 1815, quando o exército francês de Napoleão Bonaparte foi derrotado pelos ingleses, explora principalmente os acontecimentos ocorridos antes do fatídico dia. Dessa forma, acompanhamos as discussões das organizações reformistas que planejaram o levante da população pobre, aos moldes da revolução francesa. De maneira alternada, o roteiro destaca o pensamento e a retórica de um lado e do outro, ou seja, do governo real inglês e de seus opositores, ativistas que defendiam a população mais pobre, cuja principal bandeira era “Liberdade ou Morte”. Essas discussões são a cereja do bolo de “Peterloo”, uma verdadeira aula de história, pois apresentam de forma clara o pensamento de cada um dos lados em conflito, inclusive o planejamento dos preparativos para o grande dia, marcado para a Praça St. Peter, a principal de Manchester. Aqui, ocupando toda a área central e ruas adjacentes, a população aguardava com enorme expectativa o discurso do seu líder, o ativista Henri Hunt, mas suas palavras não chegariam ao fim, com a entrada violenta e sem piedade da cavalaria do exército inglês. Este é mais um grande filme do cineasta Mike Leigh, cujos filmes sempre contam histórias sobre as classes trabalhadores, focando-as na política e nas questões sociais. Foi assim em dois de seus filmes mais conhecidos, pelos quais foi indicado como Melhor Diretor do Oscar: “Segredos e Mentiras” e “O Segredo de Vera Drake”. Não há muitos atores conhecidos no elenco de “Peterloo”, a maioria deles oriundo do teatro britânico, do qual Mike Leigh também é um diretor consagrado. Vou citar alguns nomes mais importantes do elenco: Maxine Peake, Rory Kinnear, Neil Bell, Philip Jackson, Karl Johnson, Tim McInnerny, Vincent Franklin, Alastair Mackenzie e David Moorst. O contexto histórico de “Peterloo” deve agradar quem curte, como eu, os fatos da história mundial. E tem ainda como trunfos adicionais o excelente roteiro, a primorosa recriação de época e uma exuberante fotografia. Imperdível!            

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

 

“ARMADILHA DO CAÇADOR” (“THE BIRD CATCHER”), 2021, coprodução Noruega/Inglaterra/Irlanda do Norte, 1h40m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção de Ross Clarke (é o seu segundo longa-metragem; o primeiro, de 2014, foi “Desiree”), seguindo roteiro assinado por Trond Morten Kristensen, que se baseou em fatos reais. Estamos em 1942, com a Noruega dominada pelos nazistas. Numa pequena cidade do interior, a jovem Esther (Sara-Sofie Boussnina), consegue fugir dos alemães depois que seu pai e sua mãe são mortos, como aconteceu com muitos judeus noruegueses. Em meio a um cenário de gelo e muito frio, com fome e perdida, Esther consegue chegar a uma fazenda, onde é acolhida e escondida no celeiro pelo jovem Aksel (Arthur Hakalahti), filho do casal de fazendeiros, Johann (Jacob Cedergren, de “Culpa”) e Anna (Laura Birn). Esther mal podia adivinhar que Johann é simpatizante dos alemães e odeia judeus, ingleses e russos. Quando o cerco aperta, Esther resolve cortas os cabelos bem curtos e se transforma em um rapaz que se diz à disposição para trabalhar na fazenda. Aos poucos, Ola (o novo nome que inventou) ganha a confiança dos patrões, a ponto deles a considerarem mais filho do que Aksel, que, por sua deficiência física, sempre foi rejeitado pelo pai. Enquanto isso, sem querer, Ola/Esther descobre que sua patroa Anna está de caso com um oficial alemão, Herman (August Diehl). Realmente, as coisas não vão bem para o lado de Johann. Além da traição da mulher, ele terá que enfrentar o embargo de sua fazenda pelos alemães. O telespectador logo percebe que a história caminha para um final trágico. Dito e feito! “Armadilha do Caçador” é um drama bastante pesado, como a maioria dos episódios de uma guerra, mas é um belo filme que merece ser assistido por quem curte cinema de qualidade. Só achei um grande defeito, o fato de ser falado em inglês. Mas nem isso tira os méritos desse excelente drama norueguês.          

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

 

“OBSERVADORES” (“THE VOYEURS”), 2021. Estados Unidos, 1h56m, produção original Amazon Studios, distribuição pela Amazon Prime Video, roteiro e direção de Michael Mohan. Trata-se de um suspense muito interessante, com altas doses de erotismo e um roteiro com muitas reviravoltas. A jovem oftalmologista Pippa (Sydney Sweeney) e seu namorado Thomas (Justice Smith) alugam um apartamento no centro de Montreal (Canadá). No edifício em frente, do outro lado da rua, em um amplo apartamento com grandes janelas sem cortinas, eles começam a acompanhar a rotina de um casal, ele um fotógrafo profissional que mantém um estúdio dentro do próprio apartamento. Pippa e Thomas, com um binóculo, acompanham o casal fazendo sexo várias vezes. Enquanto Thomas não liga muito para o cenário, Pippa começa a ficar obcecada pelo casal, que depois descobriria ser ele Seb (Ben Hardy) e ela Julia (Natasha Liu Bordizzo). Pippa flagra Seb fotografando belas modelos e depois transando com elas. Com pena da mulher traída, e contra os conselhos de Thomas, Pippa resolve interferir, acabando por se envolver com o casal, se metendo numa grande enrascada. A partir daí, o roteiro torna-se mais dinâmico com muitas surpreendentes reviravoltas, valorizando o suspense e o clima de tensão, fazendo a gente lembrar o clássico “Janela Indiscreta” (1954), de Alfred Hitchcock. Não estou querendo comparar a qualidade de um ou de outro, mas pelo tema semelhante. Ao contrário do filme de Hitchcock, aclamado até hoje, a grande maioria dos críticos especializados não gostou de “The Voyeurs”, mas eu, modesto cinéfilo, achei bastante interessante, ousado e criativo.       

terça-feira, 30 de novembro de 2021

 

“DUAS BALAS” (“TUER UM HOMME”), 2017, França, produção Eurochannel, 1h25m, roteiro e direção de Isabelle Czajka. Meio escondido no catálogo da Amazon Prime Video, encontrei este excelente drama familiar, um thriller psicológico da melhor qualidade. O ponto de partida é o assalto à joalheria de Matteo Belmonte (Frédéric Pierrot). Mesmo ameaçada com uma arma apontada para sua cabeça, Christine (Valérie Karsenti), a esposa de Matteo, se recusa a entregar as joias e o bandido diz que vai matá-la. Da oficina da joalheria, Matteo ouve as ameaças do ladrão, pega seu revólver e corre para a joalheria. Quando vê que sua mulher corre perigo, Matteo atinge o bandido com dois tiros (as duas balas do título). O bandido morre e, pasmem, Matteo é acusado de assassinato e pode pegar cadeia. Tudo porque o revólver do ladrão era de brinquedo. Segundo a justiça francesa, o fato de o bandido estar com uma arma de brinquedo não justifica a atitude de Matteo, principalmente pelo fato de ele dar o segundo tiro. Para nós, espectadores, e para os comerciantes da rua, vizinhos e amigos de Matteo, ele simplesmente agiu no instinto de autodefesa. Melhor ainda, em defesa da esposa. Sem falar que a joalheria já tinha sido assaltada três vezes. Com a morte do bandido, um rapaz negro de 22 anos, o caso ganha grande repercussão e acaba afetando o relacionamento de Matteo com a esposa e a filha Romy (Eva Lallier). Se o casamento já não ia muito bem, piorou muito depois do assalto, principalmente depois que Christine começa a ter surtos histéricos. E por aí vai o drama do coitado do Matteo até o seu julgamento no desfecho do filme. E que atores maravilhosos são Frédéric Pierrot e Valérie Karsenti. “Duas Balas” é um drama muito interessante que aborda questões polêmicas da atualidade, como racismo, culpa, controle de armas e leis que favorecem os bandidos (não lembra outro país?). Não perca!

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

 

“PESADELO NAS ALTURAS” (“HORIZON LINE”), 2020, coprodução EUA/Suécia, 1h31m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção do cineasta sueco Mikael Marcimain (“Rua Cloverfield,10”), seguindo roteiro de Josh Campbell e Matthew Stuecken. Um drama com toques de suspense e aventura, com 90% de duração ambientados dentro de um pequeno avião e com muita turbulência, o que talvez exija que os espectadores mais sensíveis tomem um Dramin antes de ligar o play. Bem, vamos à história. Acostumada a passar períodos de férias nas Ilhas Maurício (apesar do nome, é apenas uma ilha e, mais, um país), Sara (Allison Williams, de “Corra”) tem um caso rápido com o mergulhador profissional Jackson (Alexander Dreymon) e, sem se despedir do namorado, volta para Londres. Um ano depois, ela retorna às Ilhas Maurício para prestigiar o casamento de uma amiga, que será realizado numa tal de ilha Rodrigues, a cerca de 100 quilômetros (só em filme!). Uma balsa está programada para levar os convidados e Sara não consegue embarcar. A solução foi recorrer ao aluguel de um pequeno e velho avião que, olhando, não inspira muita confiança (lembra aqueles velhos Teco-Tecos de antanho). O piloto é um antigo amigo de Sara, Freddy Wyman (Keith David). Quando Sara está prestes a embarcar, eis que surge justamente Jackson, que pelo jeito também perdeu a balsa, e também embarca. No começo da viagem, porém, lá nas alturas, acontece o pior: Freddy sofre um enfarto e morre. Ou seja, “Apertem os Cintos que o Piloto Enfartou”. Daí para a frente Sara e Jackson passarão por terríveis situações de perigo que, não fosse o cinema, acabaria com todo mundo morto. Mas os roteiristas apelaram para o absurdo, incluindo abastecer o tanque do avião com rum. E, pior, o bocal do tanque fica numa das asas. Dá para imaginar o que vai acontecer? Tanta baboseira, sem falar no fraco desempenho dos atores, levou os críticos especializados a decretar que este é um dos piores lançamentos da Amazon Prime, no que concordo em gênero, número e grau. Isso não quer dizer que você não possa assistir, mas quem avisa amigo é.    

sábado, 27 de novembro de 2021

 

“SOLDADO ANÔNIMO - A LEI DO RETORNO” (“JARHEAD – LAW OF RETURN”), 2019, coprodução EUA/Israel, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h41m, roteiro e direção de Don Michael Paul. É um filme de ação ambientado no Oriente Médio, mais uma vez reunindo como oponentes israelenses e árabes. A história começa com o major Ronan Jackson (Devon Sawa), piloto de caça norte-americano servindo a força aérea israelense (a tal Lei do Retorno, que explico no fim do comentário) sendo abatido durante uma missão na Síria. Ele consegue se ejetar, mas é capturado em solo por membros de uma organização terrorista síria. Ronan é filho de um senador norte-americano (Robert Patrick) e, por isso, mesmo, seu sequestro mobiliza não só o exército de Israel, como também uma força especial dos Estados Unidos. Juntos, sob a coordenação do Mossad (serviço secreto israelense), os soldados ingressarão no território sírio para resgatar Ronan. O filme inteiro envolve essa tentativa de localizar o paradeiro do piloto, missão que resultará em muitos tiroteios, mortes e explosões. As cenas de ação são bem feitas e a tensão predomina do começo ao fim. A tal Lei do Retorno do título refere-se à lei que confere a todos os judeus, originários de qualquer nação, direito a residência e cidadania em Israel. Ainda estão no elenco Shanti Ashanti, Amaury Nolasco, Yael Eitan, Tsahi Halev e Ben Cross. Um detalhe triste é o registro da morte do ator inglês Ben Cross alguns meses após o final das filmagens. Cross ficou conhecido por interpretar o campeão olímpico Harold Abrahams no filme “Carruagens de Fogo”, de 1981, e também como o pai de Spock em “Star trek, de 2009. Para concluir, recomendo “Soldado Anônimo: A Lei do Retorno” como um filme de ação que merece ser visto.          

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

 

“AS LEIS DA FRONTEIRA” (“LAS LEYES DE LA FRONTERA”), 2021, Espanha, 2h10m, direção de Daniel Monzón (“Cela 211”, “Yucatán”), seguindo roteiro de Jorge Guerricaechevarría. Trata-se de uma adaptação do romance homônimo escrito por Javier Cercas em 2012, lançado no Brasil pela Editora Biblioteca Azul em 2013. Definir o filme como um gênero único é difícil, pois a história mistura drama, filme de ação, romance, sexo, drogas, suspense e policial, tudo junto e misturado, mas elaborado de forma competente no roteiro. O cenário é a cidade de Girona, na região da Catalunha, e o ano é 1978. A história é centrada no jovem Nacho (Marcos Ruiz), um estudante tímido que é azucrinado (o termo bullying ainda não era utilizado) pelos colegas pelo fato de usar óculos. Seu apelido era “Oclitos”. Até que um dia, em um salão de jogos, ele conhece Zarco (Chechu Salgado) e sua namorada Tere (Begoña Vargas). Zarco chefia uma gangue de delinquentes que costuma praticar assaltos em pequenos comércios da cidade. Nacho participa de um deles e acaba gostando da aventura, além do fato de estar apaixonado por Tere. Zarco, porém, começa a planejar assaltos mais ousados, principalmente a farmácias e bancos. Diante de tal quadro, a polícia aperta o cerco, o que garante boas cenas de perseguição e tiroteios. Vamos ficar por aqui para não estragar as surpresas do final. O filme estreou  durante a programação oficial do 69º Festival Internacional de Cinema de San Sebastíán, em setembro de 2021 e acaba de chegar à Netflix, podendo ser considerado, sem dúvida, como um dos melhores lançamentos da plataforma este ano.     

terça-feira, 23 de novembro de 2021

 

“SANGUE DE PELICANO” (“PELIKANBLUT”), 2019, Alemanha, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 120 minutos, roteiro e direção de Katrin Gebbe – é o seu segundo longa-metragem (o primeiro foi “Nada de Mau Pode Acontecer”, de 2013). Trata-se de um ótimo suspense valorizado pela presença de uma das melhores atrizes alemãs do momento, Nina Hoss. A história é centrada na treinadora de cavalos da polícia Wiebke Landal (Hoss), mãe adotiva de Nicolina (Adelia Ocleppo), de 10 anos de idade. Ela mora em um pequeno haras na zona rural, onde mantém um estábulo e um galpão para o treinamento dos animais. Ela resolve adotar outra criança e consegue, pela internet, uma menina de 5 anos chamada Raya (Katerina Lipvska). Mal sabe ela em que fria está se metendo. Sua vida se transforma num verdadeiro inferno. A menina logo se revela violenta e incapaz de estabelecer conexões emocionais ou sentir empatia. E, pior ainda, ela pode estar possuída por um ser demoníaco. As atitudes intempestivas de Raya amedrontam não só Wiebke como sua outra filha, Nicolina. Sem falar na escola infantil, que, por pressão das mães, expulsa a menina. Wiebke tenta de tudo para conseguir “domar” a criança, desde um psiquiatra infantil e até mesmo uma curandeira. O sacrifício que Wiebke faz para curar a menina é o que justifica o título. Existe uma lenda que diz que os pelicanos machucam o próprio peito para alimentar os filhotes com o seu sangue. “Sangue de Pelicano” estreou, com ótimas críticas, durante a programação oficial do Festival de Cinema de Veneza/2020. Realmente, o filme é muito bom. Vale a pena!          

 

“O MISTÉRIO DE HAILEY DEAN – PRESCRIÇÃO PARA MATAR” (“HAILEY DEAN MYSTERIES – A PRESCRIPTION FOR MORDER”), 2019, Canadá/Estados Unidos, disponível na plataforma Amazon Prime Video, 1h23m, direção de Allan Harmon e roteiro de Michelle Ricci. Este é um dos filmes da série “Hailey Dean Mysteries”, exibida pelo canal de TV Hamark Movies & Mysteries. No total, foram produzidos 9 episódios, de 2016 a 2019, cada um com uma história, sempre com personagem da psicóloga Hailey Dean (Kellie Martin), uma ex-promotora de justiça que ajuda a polícia de Atlanta (Geórgia) a resolver crimes misteriosos. Em “Prescrição para Matar”, penúltimo episódio da série, o mistério gira em torno de três assassinatos ocorridos no Hospital Atlanta Memorial. As vítimas eram pacientes cuja morte, segundo a autópsia, foi ocasionada por overdose de um medicamento. Os detetives Charlene (Lucia Walters) e Fincher (Viv Leacock), com o auxílio de Hailey Dean, iniciam as investigações. O espectador é levado a conhecer vários suspeitos, entre eles dois enfermeiros, uma farmacêutica, um médico e o próprio diretor do hospital, já que uma das vítimas é uma médica que tinha sido cotada para o cargo. Enfim, até o desfecho, a gente fica na expectativa da revelação do assassino, tendo que aguentar uma enrolação danada, incluindo a relação amorosa da psicóloga com um médico-legista e seu sogro, além de uma série de interrogatórios com os suspeitos. Também estão no elenco Cameron Bancroft, Matthew MacCaull, Emily Holmes, Lauren Holly, Kellie Martin, Bradley Striker e Barbara Patrick. Não assisti aos demais filmes da série, mas se pegarmos este como exemplo, não dá para fazer uma recomendação entusiasmada, mas pelo menos não ofende nossa inteligência.               

domingo, 21 de novembro de 2021

“ALERTA VERMELHO” (“RED NOTICE”), 2021, Estados Unidos, produção original Netflix, 1h55m, roteiro e direção de Rawson Marshall Thurber. Este é o filme mais caro já produzido pela Netflix (200 milhões de dólares). Trata-se de um filme com muita ação, humor, cenários exuberantes e uma história no mínimo mirabolante e radicalmente fantasiosa. Mas que diverte muito. O elenco é comandado por três dos melhores atores da atualidade no gênero, o brucutu simpático Dwayne Johnson, Gal Gadot e Ryan Reynolds. A Interpol e o FBI estão atrás de Nolan Booth (Reynolds), um famoso ladrão de joias e obras de arte. O agente John Hartley (Dwayne), do FBI, e a inspetora Urvashi Das (Ritu Arya), estão em Roma (Itália) para iniciar a caçada a Booth, que estaria por lá para roubar um dos três ovos de ouro que teriam sido presentados à rainha egípcia Cleópatra pelo imperador romano Marco Antônio (a História não registra o fato, ou seja, é tudo ficção). O tal ovo também é cobiçado por outra ladra famosa, Sarah Black (Gadot), conhecida no mundo do crime como o “Bispo” – no masculino, para disfarçar a identidade. Os três, uns contra os outros e às vezes juntos, enfrentarão muitas aventuras e perigos, numa sucessão de viagens que farão por cenários espetaculares na Itália, República Tcheca, Espanha, França, Rússia e até na Argentina. Sempre atrás dos ovos de ouro. Aliás, a maior gafe do filme acontece justamente quando a América do Sul surge na história. No mapa em que os ladrões descobrem as coordenadas de onde estaria estaria o tal ovo de ouro, o local é exatamente na fronteira de São Paulo com o Paraná, ou seja, no Brasil. O filme define o local como a Argentina. Um erro geográfico lamentável, mas, convenhamos, quem liga? “Alerta Vermelho” não economiza na ação nem nas inúmeras sacadas de humor, nas situações e também nos diálogos repletos de piadas. Ou seja, é um filme que diverte o tempo inteiro. Do trio principal de atores, a atriz israelense Gal Gadot, a atual “Mulher-Maravilha”, merece um destaque muito especial. Ela rouba todas as cenas em que aparece, e são muitas, e parece estar se divertindo muito. Aqui, ela é mais do que a “Mulher-Maravillha”, mas sim uma maravilha de mulher, sensual, linda e perigosa. Só ela vale o ingresso. Para se ter ideia do humor que permeia o tempo inteiro, numa cena dentro de uma caverna aparece o personagem de Ryan Reynolds assobiando o tema da trilha sonora de “Indiana Jones”. Hilariante. A cena final dá a entender que vem uma continuação por aí. Tomara que sim, mas que mantenham o trio central de atores. “Alerta Vermelho” não tem a pretensão de ser um ativador de neurônios, mas garante um divertimento de primeira. E viva Gal Gadot!         

sábado, 20 de novembro de 2021

 

“SUSPEITA” (“KLEC”), 2019, República Tcheca, 1h26m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção de Jirí Strach, com roteiro de Marek Epstein. Trata-se de um drama psicológico com altas doses de suspense. A sra. Kveta Galová (Jirina Bohdalova) é uma idosa solitária cuja única atividade se resume em realizar trabalho voluntário na igreja da comunidade. Durante 15 anos ela ajudou o padre Jan (Viktor Preiss) nos afazeres da igreja, fazendo faxina, lavando roupas, arrumando as flores e levando, duas vezes por semana, o almoço do pároco. Uma verdadeira e fiel sacristã. Um dia, porém, quando Jan é transferido para outra paróquia, o novo padre dispensa Galová. Quando parecia que a idosa teria um futuro ainda mais solitário, eis que surge em sua vida Daniel Baxa (Kristof Hádek), um jovem e simpático rapaz que se identifica como um membro distante de sua família. Animada com a nova amizade, Galová abre as portas de sua casa para o rapaz, sem saber que ele tem outras intenções. Com um roteiro enxuto, impecável, Jiríu Strach conduz o filme com enorme competência, ressaltando o suspense até o fim. Embora mais de 90% do filme envolva apenas dois personagens, a idosa e o jovem, presos em um apartamento, não há espaço para o tédio, restando um jogo psicológico entre vítima e agressor que permanecerá até o desfecho. “Suspeita” é aquele tipo de filme que leva você a querer saber o que acontecerá no final, ou seja, um suspense de qualidade. Vale a pena conferir.               

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

“TENHO MEDO TOUREIRO” (“TENGO MIEDO TORERO”), 2020, coprodução Chile/Argentina, 1h33m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção de Rodrigo Sepúlveda, que também assina o roteiro com a colaboração de Juan Elias Tovar. Trata-se de uma adaptação para o cinema do livro homônimo escrito em 2001 por Pedro Lemebel (1952-2015). Lemebel foi um polêmico militante do partido comunista chileno, além de artista assumidamente gay. A história do filme é centrada no velho e solitário travesti conhecido como “La Loca Del Frente” (Alfredo Castro), que mora numa casa localizada na periferia pobre de Santiago. Estamos em 1986, com o Chile vivendo em plena ditadura do General Augusto Pinochet. A fonte de renda do travesti vem de programas amorosos à noite e de bordar toalhas de mesa. Algumas de suas clientes são esposas de militares. “La Loca” faz amizade com o jovem Carlos (Leonardo Ortizgris), que no começo esconde o fato de ser militante e guerrilheiro da Frente Patriótica Manoel Rodríguez, organização que luta contra o governo Pinochet. Ao ganhar a confiança do travesti, Carlos pede a ele que guarde algumas caixas de livros em sua casa – no fundo delas estão escondidas armas que serão utilizadas pelos membros da organização. Além disso, a casa de “La Loca” serve como local de reuniões clandestinas de Carlos e seus companheiros. Mesmo sabendo que corre perigo ao ceder sua casa para os guerrilheiros, o travesti assume o risco em nome do amor. Sim, ele está apaixonado por Carlos. No decorrer da história, esse amor é correspondido, mas não espere por um happy end. A estreia do filme ocorreu durante o Festival de Cinema de Veneza/2020 e arrancou muitos elogios da crítica e do público, assim como aconteceu em inúmeros festivais pelo mundo afora. Realmente, o filme é muito bom, destacando-se, em primeiro lugar, a impressionante atuação do veterano ator chileno Alfredo Castro (“Post Mortem”, “Neruda” e “El Club”). Outro destaque fica por conta da deliciosa trilha sonora, com ótimos boleros (“Tengo Miedo Torero” é um deles) e a presença da nossa Elis Regina cantando “Na Batucada da Vida” em espanhol. O elenco também é destaque. Além de Castro e Ortizgris, participam Julieta Zylberberg, Amparo Noguera, Sergio Hernandez, Luis Gnecco e Paulina Urrutia. Trocando em miúdos, “Tengo Miedo Torero” é imperdível, mais um gol de placa do  cinema chileno.              

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

 

“VINGANÇA A SANGUE-FRIO” (“COLD PURSUIT”), 2019, coprodução Estados Unidos/Inglaterra, 1h59m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção de Hans Petter Moland, com roteiro de Frank Baldwin. É o remake do norueguês “Cidadão do Ano”, de 2014, cuja história foi escrita pelo romancista e roteirista dinamarquês Kim Fupz Aakeson – o diretor é o mesmo Hans Petter Moland. Na adaptação hollywoodiana, o filme é ambientado na pequena cidade de Kehoe (Estado do Colorado), situada nas Montanhas Rochosas. O personagem principal é Nels Coxman (Liam Neeson), motorista de um caminhão limpa-neves (snowplow). Logo no começo do filme, Nels é homenageado com o título de “Cidadão do Ano” da cidade em reconhecimento ao seu importante trabalho. Mas sua alegria dura pouco, pois em seguida fica sabendo que seu filho Kyle (Micheál Neeson, filho de Liam na vida real), foi encontrado morto por causa de uma overdose de cocaína. Logo depois, ele é abandonado pela mulher, Grace (Laura Dern). Como Nels sabia que o filho não era viciado, passou a investigar por conta própria e conseguiu descobrir que Kyle, na verdade, foi assassinado pela gangue do poderoso traficante Trevor Calcote, o “Viking” (Tom Bateman, ótimo). Nels vai atrás de cada um dos responsáveis e elimina todos, um por um, só faltando o mandante, o “Viking”. No meio de toda essa matança, a história acaba envolvendo uma tribo de índios traficantes de cocaína, chefiados pelo chefe “Búfalo Branco” (Tom Jackson), além de um assassino profissional arrogante, Leighton “O Esquimó” (Arnold Pinnock). Muita gente vai morrer na história, jorra sangue o tempo inteiro, mas o bom humor permeia todo o filme. Humor negro, mas muito engraçado, de gargalhar. São ótimas sacadas do roteiro, como “homenagear” cada morto com um obituário especial na cena seguinte à sua morte. Os diálogos e as situações são hilariantes. Para você ter uma ideia, dois capangas do temível traficante “Viking” são homossexuais e amantes. O espaço é pequeno para enumerar tantas cenas engraçadas. A grande sacada é justamente essa, começar o filme com jeito de sério e de repente descambar para a comédia, mas tentando ainda manter uma aparente seriedade. “Vingança a Sangue-Frio” também marca a estreia do diretor norueguês Hans Petter Moland em território hollywoodiano. E que estreia. Não perca!          

terça-feira, 16 de novembro de 2021


“O PLANO PERFEITO 2” (“INSIDE MAN: MOST WANTED”), 2019, Estados Unidos, produção Universal Studios, distribuição Amazon Prime Video, 1h45m, direção de Michael J. Bassett, seguindo roteiro de Brian Brightly. Mais do que uma sequência do primeiro “O Plano Perfeito", de 2006, este nº2 é praticamente uma refilmagem, só que uma diferença importante: o primeiro foi dirigido por Spike Lee e tinha no elenco Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Christopher Plummer e Willem Dafoe. Só tinha fera e acabou sendo um enorme sucesso de bilheteria. Este nº2 tem como principais protagonistas Roxanne McKee, Rhea Seehorn e Aml Ameen. Convenhamos, é impossível qualquer comparação. Não que a sequência seja ruim. Enquanto no primeiro o objetivo dos assaltantes eram os diamantes nazistas, neste segundo o alvo é o ouro confiscado dos alemães em 1945, no final da Segunda Grande Guerra e que desde então estava guardado no Banco Central dos EUA (Federal Reserv), em Nova Iorque. A quadrilha age em nome de uma organização neonazista alemã. Os assaltantes ocupam o banco, fazendo dezenas de reféns. É aí que entram em ação dois negociadores, um da polícia de Nova Iorque, o policial Remy Darbonne (Aml Ameen), e a dra. Brynn Stewart (Rhea Seehorn), do FBI. Da parte dos bandidos, quem assume a negociação é Ariella Barashe (Roxanne McKee). Enquanto isso, os assaltantes tentam cavar um túnel para fugir pelo outro lado do banco, beirando o rio Hudson, e assim burlar o grande cerco policial. Para enganar, eles pedem dois carros-forte e um avião. Enfim, não há muita ação durante o roubo, a não ser no desfecho, que é quando tudo acontece de verdade. Trocando em miúdos, esta segunda versão não chega a decepcionar, mas passa muito longe da qualidade do original de Spike Lee. Para encerrar meu comentário, um aviso: não desligue antes dos créditos finais, quando há uma cena que explica o destino de um dos personagens principais.         

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

 

“O CÂNTICO DOS NOMES” (“THE SONG OF NAMES”), 2019, Canadá/Estados Unidos, 1h53m, disponível na plataforma Amazon Prime Video, direção de François Girard, com roteiro de Jeffrey Caine. Trata-se de um belíssimo drama ficcional inspirado no livro homônimo escrito em 2001 pelo jornalista inglês e crítico musical Norman Lebrecht. Às vésperas da invasão alemã à Polônia, em 1939, o menino Dovidl Rappaport é levado pelo pai judeu para a Inglaterra para se aperfeiçoar nos estudos de violino e, ao mesmo tempo, escapar da invasão nazista. Aos 9 anos, um gênio do violino, Dovidl é acolhido pela família de Gilbert Simmonds (Stanley Townsend), um aficionado pela música clássica. Dovidl logo faz amizade com o filho de Gilbert, Martin (Misha Handley), e ambos são criados como irmãos. A partir daí, o filme acompanha a trajetória e Dovidl e Martin durante os próximos 45 anos. A amizade entre os dois seria abalada por um fato ocorrido em 1951. Martin promoveu um importante concerto em Londres durante o qual Dovidl seria o violinista principal. Resumo da ópera, Dovidl não apareceu. Simplesmente sumiu. E assim ficou sumido por mais de 40 anos. Martin jamais desistiu de achar o amigo, viajando pela Europa toda e depois para os Estados Unidos, onde finalmente o reencontraria. No filme, Dovidl é vivido, aos 9 anos, por Luke Doyle (ator que também é um excelente violinista), na juventude, por Jonah Hauer-King, e como adulto por Clive Owen. Martin menino é interpretado por Misha Handley, na juventude por Gerran Howell e adulto por Tim Roth. Também estão no elenco Stanley Townsend, Catherine McCormack, Jeffrey Caine, Saul Rubinek, Amy Sloan, Magdalena Cielecka e Marina Hambro. Além de ter como pano de fundo a questão do holocausto judeu durante a Segunda Grande Guerra, a história possui um forte conteúdo musical. Não poderia ser de outra forma, pois o diretor canadense François Girard é especialista no gênero musical, como já provou dirigindo filmes como, por exemplo, “O Coro (2014), “O Violino Vermelho” (1998) e ”Bach Cello Suite #2: The Sound Of Carceri” (1997). O ator Tim Roth também tem seu currículo ligado à música, pois atuou como personagem principal também no filme "A Lenda do Pianista do Mar", de 1998, mais uma pequena obra-prima do diretor italiano Giuseppe Tornatore. Outros destaques que merecem ser citados dizem respeito à excelente fotografia, ao competente roteiro e à primorosa recriação de época. Sem falar na exuberante trilha sonora – na verdade, os solos são executados pelo violinista Ray Chen, nascido em Taiwan e radicado atualmente na Austrália. Aspectos da tradição judaica também merecem destaque na história, como aquele que dá nome ao filme, que é o ato de cantar e citar em voz alta, na sinagoga, os nomes dos judeus que perderem a vida nos campos de concentração - no caso do filme, o campo de Treblinka. Momentos comoventes como esse permeiam por todo o filme, valorizando ainda mais a história que, por si só, já coloca “O Cântico dos Nomes” como um dos melhores lançamentos da Amazon Prime Video neste ano. Imperdível!