quinta-feira, 10 de novembro de 2016
O grande Jean
Rochefort, meu ator francês preferido, volta às telas no drama “A VIAGEM
DE MEU PAI” (“Floride”), 2015, França, roteiro e direção de Philippe Le Guay
(do ótimo “As Mulheres do 6º Andar”). Ele interpreta Claude Lherminier, um
idoso que começa a sofrer de demência. Ele mora sozinho numa enorme casa
isolada e sempre está aos cuidados de uma governanta. Como Claude é um sujeito
difícil, as cuidadoras não param no emprego, para desespero da filha Carole
(Sandrine Kiberlain). Para piorar a situação, ele não para de falar da filha Alice,
que há muitos anos mora em Miami (Flórida) e que ele insiste em visitar – daí o
título do filme. Só que ele apagou da memória que Alice morreu tragicamente há
9 anos. Em seus delírios, Claude também volta à infância e revê episódios que
viveu durante a Segunda Guerra Mundial, além de recordações de sua mãe. Baseada
na peça de teatro “Le Père”, de Florian Zeller, a história explora as mazelas
da velhice e o fato de ser um fardo para os filhos. O contexto dramático,
porém, é amenizado por muitas pitadas de humor, o que torna o filme um
entretenimento bastante agradável. E tem, claro, a presença de Rochefort, a
quem passei a admirar e curtir desde “O Marido da Cabeleireira” (1990).
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
“DEMOLIÇÃO” (“Demolition”), 2015,
EUA, direção do canadense Jean-Marc Vallée (do ótimo “Clube de Compras Dallas”,
que deu o Oscar de melhor ator a Matthew McConaughey). Depois de perder a jovem
e bela esposa Julia (Heather Lind) num trágico acidente, Davis Mitchell (Jake
Gyllenhaal), um bem sucedido executivo de um grande banco de investimentos, é
acometido de um colapso emocional e fica doidinho. Começa a escrever cartas
compulsivamente, passa a desmontar tudo o que vê pela frente – computadores,
aparelhos domésticos etc. –, e depois ingressa na fase de demolição, o que
justifica o título. A paranoia de Davis, que na fase de luto falava a quem quisesse ouvir que nunca
amou a falecida, tem início quando ele, ainda no hospital onde a esposa acabara de
morrer, não consegue tirar um M&M da máquina de doces instalada no
corredor. Ele entra em contato com o serviço de atendimento ao cliente da
empresa fabricante e acaba conhecendo a atendente Karen Moreno (Naomi Watts),
que também tem um parafuso a menos e é mãe de um adolescente problemático (Judah
Lewis). Phil (o sempre ótimo Chris Cooper), o chefe de Davis no banco e seu sogro, não sabe
mais o que fazer e se desespera ao ver o estado mental do genro. Quando estreou
no Festival de Toronto, em setembro de 2015, o filme foi recebido com frieza, tanto pelo púclico quanto pela crítica. Apesar da comprovada qualidade do diretor e do elenco, o filme realmente não funciona.
“ENFURECIDOS” (“Enragés”), 2015,
França, roteiro e direção de Éric Hannezo. Trata-se de um filme de ação e
suspense, cuja história começa quando quatro marginais assaltam um banco. A
polícia chega e tenta evitar a fuga do quarteto. Depois de um intenso tiroteio,
durante o qual morrem três policiais e um marginal, começa a perseguição aos
três bandidos restantes, que se refugiam num shopping center. Novo cerco e novo
tiroteio, com mais mortes. Os bandidos conseguem fazer uma refém e obrigam um
motorista, que estava levando o filho de 4 anos para o hospital, a ajudá-los na
fuga. Daí para frente, a fuga continua pelas estradas do interior da França e
mais mortes acabam acontecendo, num road movie bastante violento. O filme consegue
manter um bom clima de suspense, embora o ritmo da ação diminua consideravelmente
a partir da metade. No desfecho, uma surpreendente revelação causa uma reviravolta
na história. Estão no elenco Lambert Wilson, Virginie Ledoyen, Guillaume Gouix, Franck Gastambide, François Arnaud e Laurent Lucas. Difícil encontrar méritos suficientes nesta produção francesa para motivar uma recomendação entusiasmada. De qualquer forma, vale a indicação para uma sessão
da tarde.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
“FLORENCE – QUEM É ESSA MULHER?” (“Florence Foster
Jenkins”), 2015, direção do inglês Stephen Frears (“Philomena” e “A Rainha”).
Trata-se do segundo filme a contar a história da norte-americana Florence
Foster Jenkins (1868-1944), herdeira milionária e amante do canto lírico que
ficou famosa por achar que era uma grande cantora de ópera. E, até o final de
sua vida, continuou acreditando nisso. Esta é a versão de Hollywood, lançada
nos cinemas logo depois da produção francesa “Marguerite”, também inspirada em
Florence. A comparação é inevitável. Os dois filmes são muito bons, mas a versão
de Hollywood é bem melhor, principalmente porque privilegia o humor, ao estilo das sensacionais comédias dos anos 40/50. Segundo, porque a ação toda transcorre em Nova
Iorque, cidade onde ocorreram todos os fatos narrados (na versão francesa, o cenário é Paris). Terceiro, porque, além de
Meryl Streep, conta no elenco com o inglês Hugh Grant. Ele interpreta magistralmente St. Clair
Bayfield, o marido protetor de Florence, que está sempre ao seu lado nos
momentos mais importantes, mas que à noite fica entre os lençóis com a bela
Kathleen (Rebecca Ferguson, de “Missão Impossível – Nação Secreta”). Embora
conte com a maravilhosa Meryl Streep, o dono do filme é mesmo Hugh Grant. Outro
trunfo é o ator Simon Belberg na pele do pianista Cosme McMoon, acompanhante de
Florence em seus recitais. A cena em que desce de elevador depois de ouvir
Florence pela primeira vez, é hilariante. É preciso destacar também a primorosa
recriação de época (1944), tanto nos cenários como nos figurinos. IMPERDÍVEL!
domingo, 6 de novembro de 2016
Ambientada
em apenas um dia – véspera de Ano Novo – no início dos anos 90, a comédia
argentina “LAS INSOLADAS”, 2014, apresenta
apenas seis personagens em um único cenário. São mulheres na faixa dos 30/40,
todas bonitonas – umas mais, outras menos –, que num dia de forte calor em
Buenos Aires se reúnem para tomar sol no terraço de um edifício. Amigas de um
curso de salsa, elas pretendem “ficar mulatas” para a apresentação da noite num
concurso de dança. Este será o cenário do filme inteiro, com exceção do
desfecho, onde as moças se apresentam no concurso. A cena inicial é muito
bonita, mostrando o nascer do sol e a capital argentina sendo iluminada aos
poucos, destacando a arquitetura dos prédios do centro da cidade. Tudo isso ao
som de “He Comes the Sun”, dos The Beatles. A fotografia do filme, ao estilo do diretor espanhol Pedro Almodovar, ressalta as cores fortes e amplia a sensação de um calor escaldante.
A verborragia predomina o tempo todo. As seis amigas, cada qual com uma
personalidade diferente, discutem temas como as relações amorosas,
extraterrestres, vidas passadas, tratamento com cromoterapia, a apresentação
que farão à noite e, principalmente, o planejamento de uma viagem para Cuba no
ano seguinte. Uma observação: naquela época, o bronzeado e o celular eram
símbolos de status entre os argentinos. Todas as conversas são levadas no maior
bom-humor, o que minimiza a monotonia de um cenário único e uma trama com pouca,
ou nenhuma, ação. Dessa forma, trata-se de um filme bastante agradável de
assistir. As eficientes atrizes do elenco - Carla Peterson, Luisana Lopilato, Marina Bellati, Elisa Carricajo, Maricel Alvarez e Violeta Urtizberea - são bastante conhecidas na Argentina. Umas do cinema e da TV, outras do teatro. O roteiro e a direção são assinados por Gustavo Taretto, o mesmo do
ótimo “Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual”.
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
O drama
francês “GERONIMO” é
ambientado num bairro carente de uma cidade litorânea no sul da França. Em sua
grande maioria, a comunidade local é constituída de imigrantes árabes,
africanos, turcos e ciganos. Ao escrever o roteiro, o diretor Tony Gatlif – ele
próprio de origem argelina e cigana – certamente foi inspirado a explorar os
problemas sociais franceses gerados pelos imigrantes que não param de chegar ao
país. A história começa com a fuga de uma jovem turca e de seu namorado cigano.
Vestida de noiva, ela acaba de abandonar o noivo à beira do altar. A família
turca dele promete vingança sanguinária, o que inclui matar os jovens amantes.
A guerra está declarada. Turcos contra ciganos. A catalã Gemma (Céline
Sallette), conhecida na comunidade como “Geronimo”, entra em ação para tentar
apaziguar os ânimos. Há muitos anos que ela cuida dos adolescentes do bairro,
livrando-os das drogas e da delinquência. Enfim, conselheira e educadora. Dessa
forma, ela tem moral para negociar um acordo de paz entre as famílias em
conflito. Só que agora é uma questão de honra, baseada numa cultura milenar. O diretor escorrega feio ao rechear a
trama de números musicais, deixando o drama com cara de musical, o que quebra o
ritmo da narrativa. Só para citar um exemplo: ciganos e turcos se encontram uma
noite e, quando se espera grossa pancadaria, passam a desafiar uns aos outros
com coreografias de dança de rua. Outro aspecto que não gostei foi a histeria do
casal de fujões, que vive berrando sem parar. Chatice monumental. Com exceção da
bela Céline Sallette e do ator espanhol Sérgi López, o resto do elenco é desconhecido.
Lançado no Festival de Cannes 2014, o filme foi recebido com bastante frieza
pelo público e pelos críticos. Deu saudades do verdadeiro Gerônimo, líder apache, dos faroestes americanos.
terça-feira, 1 de novembro de 2016
“ARRANHA-CÉUS” (“High-Rise”),
Inglaterra, 2015, roteiro e direção de Ben Wheatley. Quando estreou nos cinemas da Inglaterra, no
início de 2016, a reação de grande parte da plateia foi sair no meio da
projeção. Atitude compreensível, já que se trata de um filme totalmente maluco,
onde imperam o humor negro, o surreal, a violência, o sexo e, acima de tudo, a falta de nexo.
Para completar o cenário, não há uma história linear, com começo, meio e fim.
As cenas vão acontecendo num ritmo alucinante, a maioria delas sem qualquer
explicação. A história toda – se há alguma – é ambientada nos anos 70, assim
como o romance escrito por James Graham Ballard, no qual foi baseado o roteiro
escrito por Wheatley, com a ajuda de sua esposa, Amy Jump. Um luxuoso edifício
de 40 andares serve de cenário para toda a ação. Nos andares inferiores moram
os condôminos de classe média baixa, nos andares intermediários os de classe
média alta e, nos andares superiores, os mais ricos. No complexo residencial
ainda funcionam um mercado e uma escola. Quando os serviços param de funcionar,
a começar pelos elevadores, o caos se instala e a violência corre solta. Tem
churrasco de husky siberiano, mulher grávida transando com o vizinho, pancadaria generalizada, briga por
mercadorias no mercado etc. Apesar de tudo, o elenco é de primeira: Jeremy
Irons, Tom Hiddleston, Sienna Miller, Luke Evans e Elisabeth Moss. Alguns críticos profissionais acharam o filme maravilhoso, enquanto o público normal detestou. Tire suas próprias conclusões assistindo, nem que seja só por curiosidade.
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
“UM ESTADO DE LIBERDADE” (“The Free State of Jones”), EUA,
2016, roteiro e direção de Gary Ross (“Jogos Vorazes”), narra um episódio
histórico verídico ocorrido durante a Guerra Civil Americana, na segunda metade
do século XIX. Para escrever o roteiro, Ross se baseou em dois livros, “The
Free State of Jones” e “The State of Jones”.
Toda a
trama é centrada no fazendeiro Newton Knight (Matthew McConaughey), que se
alista no exército Confederado como enfermeiro e depois, insatisfeito com os verdadeiros
objetivos do lado que escolheu, volta para casa e é considerado desertor. Para
não ser preso e enforcado, ele se refugia na região dos pântanos, no
Mississipi, e lá forma um grupo de rebeldes constituído de fazendeiros pobres e
escravos. Depois de vencer várias batalhas contra os confederados, Knight decide
fundar o Estado Livre de Jones, casa-se com uma ex-escrava, Rachel (Gugu
Mbatha-Raw), e luta contra os integrantes do primeiro grupo da Ku Klux Klan. O
filme é muito bem feito e já estão dizendo que deve concorrer a algumas das
principais indicações ao Oscar 2017 (a Academia adora filmes históricos). Acho essa previsão um tanto exagerada. Em
todo caso, acredito que McConaughey deva ser indicado novamente para Melhor
Ator, prêmio que já conquistou em 2014 por sua atuação em “Clube de Compras
Dallas”.
domingo, 30 de outubro de 2016
“DESERTO”
(“DESIERTO”), México, 2016, roteiro e direção de Jonás Cuarón, filho do diretor
Alfonso Cuarón, de “Gravidade” (o roteiro também foi escrito por Jonás). O drama
aborda a questão dos mexicanos que atravessam a fronteira de forma ilegal para
melhorar de vida nos EUA, assunto do momento entre os candidatos à presidência
do Tio Sam. A história começa com um grupo de mexicanos tentando atravessar a
fronteira pelo deserto de Sonora. Ao mesmo tempo, um caçador sádico e racista
prepara-se para o seu plantão habitual, ou seja, praticar tiro ao alvo nos
mexicanos. Em suas caçadas, ele leva o cão policial Tracker (“Rastreador”), que
também possui o mesmo instinto assassino. Na primeira meia-hora do filme, para
delírio de Donald Trump, o caçador sai matando um por um. Mesmo debaixo de um
sol escaldante e temperatura beirando os 50 graus, o caçador continua em
perseguição ao pequeno grupo que sobrou. O suspense aumenta na medida em que o
caçador vai chegando perto dos dois últimos sobreviventes (Gael García Bernal e
Alondra Hidalgo). Apesar de ser totalmente ambientado no deserto e com poucos
personagens, o filme mantém a ação e o suspense até o final, proporcionando um
ótimo entretenimento. O filme foi escolhido para representar o México no Oscar
2017 de Melhor Filme Estrangeiro e, antes disso, concorreu ao prêmio de Melhor
Filme no London Film Festival 2015.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
“A BUSCA” (“The Search”), 2014, França,
foi escrito e dirigido por Michel Hazanavicius, o mesmo diretor de “O Artista”
(Oscar de Melhor Filme em 2011). Neste drama de guerra ambientado em 1999 na
Chechênia, Hazanavicius conta duas histórias no filme, ambas alternando-se
durante a projeção sem nunca se interligarem. A primeira é centrada em Hadji
(Abdul Khalim Mamutsiev), de 9 anos, cujos pais foram executados friamente pelos
soldados russos. O menino foge com o irmão, bebê de colo, até ser acolhido por Carole
(Bérénice Bejo, esposa do diretor), inspetora da União Europeia que trabalha no
escritório chefiado por Helen (Annette Bening), responsável pelo acolhimento de
jovens refugiados de guerra. Enquanto o menino é procurado pela irmã mais
velha, Raïssa (Zushra Duishvili), Carole se afeiçoa por Hadji e resolve
adotá-lo. A outra história envolve o jovem Kolia (Maksim Emelyanov), que
ingressa no exército russo e irá conhecer bem de perto os horrores de uma
guerra. Kolia começa seu sofrimento já na fase de treinamento, que lembra “Nascido
para Matar”, de Kubrick. Tanto numa história como na outra, Hazanavicius não
economiza na violência e no terror psicológico. Haja estômago para suportar
tanta tragédia. Os soldados russos são mostrados como assassinos frios e psicopatas
sanguinários, sem pudor para matar, torturar e estuprar. O diretor também acrescentou alguns depoimentos de vítimas reais da repressão russa ocorrida na época. Ao estrear no Festival
de Cannes em 2014, o filme foi considerado fraco e até chegou a ser vaiado. Não
achei o filme tão ruim assim. Só não entendi até agora porque o nome original é
em inglês, já que é uma produção francesa. O maior mérito do filme, na minha
opinião, é a denúncia que faz dos métodos empregados pelas autoridades russas
para “apaziguar” os ânimos nas repúblicas que almejavamm sua independência. Nesse
contexto, o filme merece ser visto.
terça-feira, 25 de outubro de 2016
“ROMANCE À FRANCESA” (“Caprice”), 2015,
França, é mais uma comédia romântica bobinha e sem graça. Nenhuma surpresa em
se tratando de um gênero onde filmes de qualidade são bastante escassos. O que
surpreende é o fato de ser um representante do cinema francês, que normalmente
produz boas comédias românticas. O responsável por essa pisada na bola é
Emmanuel Mouret, o famoso “três em um” – ele escreveu o roteiro, dirigiu e
ainda atuou como o protagonista principal. “Romance à Francesa” conta a
história do professor Clément (Mouret), um trintão tímido, meio abobalhado e
totalmente inseguro, além de feio. Ele é fã de teatro, especialmente da atriz
Alícia Bardery (Virginie Efira), cujo filho estuda na escola onde Clément leciona. Um dia, os dois se encontram e começam um improvável romance, sendo ele feio e sem nenhum charme e ela um mulherão de alta classe. Eis que surge no meio
da história - e dos dois - a jovem Caprice (Anaïs Demoustier), uma atriz de teatro iniciante,
carente e problemática. Ela parte para o ataque a toda hora tentando seduzir o
professor, num grude enervante. Enquanto isso, Alícia também é cortejada pelo diretor da escola,
Thomas (Laurent Stocker). Duvido que alguém consiga reunir personagens tão
chatos como Clément, Caprice e Thomas. Quem se salva é a bela e classuda atriz
belga Virginie Efira, única razão para se assistir a este verdadeiro abacaxi. Aliás, o título original do filme deveria ser "Alícia".
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
“PALMEIRAS NA NEVE” (“Palmeras en La Nieve”), Espanha,
2015. A história é baseada no best-seller
da escritora Luz Gabás, lançado em 2012 e adaptado para o cinema pelo diretor
Fernando González Molina (“Paixão sem Limites”). A autora espanhola revelou que, para escrever o romance, se inspirou na história do próprio pai, que emigrou para a Guiné Equatorial –
então colônia espanhola – em 1953 para trabalhar numa plantação de cacau. O filme começa em 2003, quando a jovem
Clarence (Adriana Ugarte) encontra uma carta esquecida entre os pertences do
seu pai, Jacobo, que acabara de falecer. O teor misterioso da missiva – um amor secreto
– a incentiva a ir até a Guiné. O roteiro retrocede para 1953, quando os irmãos
Kilian (Mario Casas) e Jacobo (Alain Hernández) vão para a ilha de Fernando Poo
(hoje Bioko), na Guiné Equatorial - perto da costa de Camarões -, trabalhar na
plantação de cacau de propriedade do pai. Kilian se apaixona pela nativa Bisila
(Berta Vásquez), amor que é plenamente correspondido, porém proibido para os
padrões da época. Além do romance entre os dois, o pano de fundo para toda a
história também contempla o contexto político da época, destacando a situação
de uma colônia prestes a proclamar sua independência.
O filme é longo (2h43), levado no estilo novelão, mas em nenhum momento chega a
ser monótono, o que é um mérito. De qualquer forma, um bom programa para os românticos de plantão.
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
“ELVIS & NIXON”, EUA, 2015. No dia 21 de
dezembro de 1970, o cantor Elvis Presley esteve na Casa Branca em visita ao então
presidente Richard Nixon. O encontro, a pedido do ídolo do rock, só foi aceito por
insistência da filha mais velha de Nixon, fã de Elvis. O que de fato se sabe é
que Elvis estava muito preocupado com os rumos da nação norte-americana e de
sua juventude, principalmente com relação às drogas, e por isso pediu uma
audiência especial na Casa Branca. Elvis também queria um distintivo de agente policial a
paisana para ajudar o governo no que fosse necessário. Não há documentos nem
gravações do que foi conversado entre os dois. Mesmo assim, num exercício de
criatividade e baseados nas personalidades de Elvis e Nixon, os roteiristas Suzan
Stadner, Cary Elwes e Joe Sagal imaginaram e escreveram como teria sido a
conversa do Rei do Rock com o presidente da nação mais poderosa do mundo. O
filme explora em grande parte os fatos que antecederam a visita. O encontro em
si é de pouca duração. A diretora Liza Johnson (“Amores Inversos”) manteve o
bom humor do roteiro e fez um filme delicioso de assistir, escalando dois dos
melhores atores da atualidade: Michael Shannon (Elvis) e Kevin Spacey (Nixon). O
fato de não terem qualquer semelhança com os personagens valoriza o tom irônico
e cômico empregado no filme. Algumas cenas são hilariantes, como aquelas em que
o verdadeiro Elvis é confundido com um de seus inúmeros sósias e imitadores. Curiosidade:
a foto oficial do encontro, que realmente aconteceu, é, até hoje, a mais
requisitada aos Arquivos Nacionais do Governo dos EUA. Imperdível!
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
“DOCE VENENO” (“Un Moment D’Égarement”), 2015, França,
direção de Jean-François Richet, que também escreveu o roteiro em parceria com
Lisa Azuelos. Trata-se de uma comédia, refilmagem de outro filme francês com o
mesmo título, de 1977, dirigido por Claude Berri. Dois amigos de longa data,
Antoine (François Cluzet) e Laurent (Vincent Cassel), resolvem sair de Paris e
passar uns dias na paradisíaca ilha de Córsega, levando suas respectivas
filhas, Louana (Lola Le Lann) e Marie (Alice Isaaz), ambas na faixa dos 17 anos. Eles se hospedam
na antiga casa de Antoine, na qual ele passou sua infância. Antoine, recém-separado,
é durão com a filha Louana, enquanto Laurent é mais liberal com Marie. Aliás, a maneira
como um e outro educa a filha é motivo de muita discussão. Mas o que ninguém
esperava acaba acontecendo: Louana se apaixona por Laurent e tenta seduzí-lo de
tudo o que é jeito. Esse assédio – e a fuga dele por Laurent – rende os
melhores momentos de humor do filme. Esconder o fato do seu melhor amigo e da
própria filha atormentará Laurent até o final. O enredo me fez lembrar uma
comédia norte-americana, de 2011, “A Filha do Meu Melhor Amigo”, onde uma
ninfeta (Leighton Meester) também se envolve com um quarentão. A versão
norte-americana é muito mais recatada. O filme francês tem até nu frontal e
cenas quentes de sexo – sem ser explícito. Portanto, tirem as crianças da sala e aproveitem para se divertir com essa boa comédia francesa.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
“RESSURREIÇÃO” (“Risen”), EUA,
2015, direção de Kevin Reynolds, conta um episódio bíblico pouco explorado pelo
cinema. A mando do governador romano Pôncio Pilatos (Peter Firth), o comandante
militar Clavius (Joseph Fiennes) recebe a missão de evitar uma revolta em
Jerusalém após a crucificação do Messias. Pouco depois, Pilatos convoca
novamente Clavius para investigar o desaparecimento do corpo de Yeshua (Jesus),
que havia sido confinado em uma gruta. Os rumores davam conta de que Jesus
havia ressuscitado, algo inconcebível para os incrédulos romanos e, politicamente, um desastre. Clavius
infiltra-se entre os apóstolos e discípulos, acompanhando sua peregrinação e
presenciando as três aparições de Jesus depois de ressuscitado. Clavius também
terá a oportunidade de testemunhar alguns milagres. Pela primeira vez no
cinema, que eu me lembre, Jesus não é interpretado por um ator branco, cabelos
longos e olhos claros. Aqui, ele é interpretado pelo ator neozelandês Cliff
Curtis, moreno de pele escura, quase um mulato, tipo indiano. O roteirista Paul
Aiello e o diretor Kevin Reynolds (“Robin Hood: O Princípe dos Ladrões” e “Tristão
& Isolda”), criaram um filme bastante interessante e esclarecedor. Para quem curte filmes bíblicos, trata-se de um ótimo programa.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
“ÁGUAS RASAS” (“The Shallows”), 2016,
EUA, direção do espanhol Jaume Collet-Serra, é um suspense de arrepiar. Para
colocar a cabeça em ordem depois da morte recente da mãe, o que a fez abandonar
a faculdade de medicina, a jovem Nancy (Blake Lively) resolve passar uns dias
surfando numa praia isolada do litoral mexicano. Tudo vai bem até um enorme
tubarão branco aparecer e atacar a moça, quase arrancando a sua perna esquerda.
Nancy passa o filme inteiro fugindo do feroz agressor, primeiro subindo numa
baleia morta, depois num recife de corais ― até a maré subir ― e por fim numa
boia de sinalização. Se a briga entre a bela surfista e o tubarão já vale o filme,
o espectador ainda vai aproveitar para curtir um cenário paradisíaco e deslumbrante,
onde se destaca um mar de azul transparente, valorizado por espetaculares
imagens aéreas e subaquáticas, acrescidas de ótimas sequências de surfe. O
clima de suspense predomina do começo ao fim, num ritmo bastante ágil, apesar
de ter apenas uma personagem em cena durante a maior parte dos 90 minutos de
filme, como já aconteceu em filmes como "127 Horas", com James Franco, "Até o Fim", com Robert Redford, e "Náufrago", com Tom Hanks. O diretor espanhol acerta mais uma vez, como já tinha conseguido em ótimos
filmes como “A Órfã”, “Sem Escalas” e “A Casa de Cera”. E a loiraça Blake
Lively, que ganhou destaque após ser a principal protagonista de “A Incrível
História de Adaline”, também dá conta do recado, comprovando ser uma ótima
atriz. Programão perfeito para uma sessão da tarde com pipoca.
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
“JANE GOT A GUN” (deve chegar por aqui com o
título “JANE TEM UMA ARMA”), 2015, EUA, direção de Gavin O’Connor, com roteiro
de Brian Duffield – dizem que inspirado no filme “Hannie Caulder”, de 1971, com
Rachel Welch. Jane Hammond (Natalie Portman) é casada com o pistoleiro Bill
(Noah Emmerich), um dos integrantes da gangue chefiada por John Bishop (Ewan
McGregor, irreconhecível). Um dia, Bill volta para casa gravemente ferido,
depois de ter sido baleado pelos próprios companheiros de gangue. Enquanto é
medicado por Jane, ele avisa: eles vêm se vingar. Para se proteger, Jane pede a
ajuda de Dan Frost (o ator australiano Joel Edgerton), um ex-soldado beberrão
que foi seu noivo. Até o confronto final, muita água vai rolar, ou seja, muito
blá-blá-blá, recordações românticas e flashbacks
que contarão a história da ligação de Jane e Bill com a quadrilha de Bishop. Sim, Jane foi uma pistoleira (no bom sentido). E dá-lhe clichês dos velhos filmes de faroeste. Nada de inovador. O diretor
exagera em explorar a beleza de Portman (realmente muito bonita na medida em
que amadurece). A cada cena, Portman parece que vai ser fotografada para um
editorial de moda country. A tensão aumentando, os pistoleiros chegando e o
marido morrendo e lá está ela, toda bonitona, sem um grão de areia no rosto ou nas roupas. O
ator brasileiro Rodrigo Santoro aparece numa ponta, aliás, uma pontinha. Que
saudades dos filmes de John Ford, de Randolph Scott, John Wayne, Gary Cooper,
Clint Eastwood, Giuliano Gemma e até de Rachel Welch.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
“OS COWBOYS” (“Les Cowboys”), 2015,
França, roteiro e direção de Thomas Bidegain. Parece esquisito um filme francês
com esse título. A referência aparece logo
no começo, quando os principais protagonistas participam de um festival country
em alguma cidade do interior da França. Tipo Festa do Peão de Boiadeiro de
Barretos, todo mundo vestido de cowboy e muita música country. Alain Balland
(François Damiens) está lá com a família – a esposa Nicole (Agathe Dronne), a
filha Kelly (Iliana Zabeth), de 16 anos, e o filho Kid (Maxim Driesen).
Percebe-se logo que Alain é muito querido e influente na comunidade. No meio da
festa, como num passe de mágica, Kelly desaparece. Sequestrada, assassinada?
Demora para Alain, em sua busca alucinada pela filha, descobrir que ela, na
verdade, fugiu com um rapaz muçulmano e foi viver em lugar incerto e não sabido.
Quem sabe tenha sido cooptada por alguma facção islamita radical. Tudo isso
passou pela cabeça de Alain. Depois de muitos anos, já separado da esposa,
Alain continua em busca da filha. Obcecado, percorre outros países, visitando,
principalmente, as comunidades islâmicas. Essa peregrinação incessante terá
continuidade com o filho Kid, já adulto, interpretado pelo ator inglês Finnegan
Oldfield. O desfecho revela o misterioso destino de Kelly. Ótima estreia de
Thomas Bidegain como diretor. Ele era mais conhecido como roteirista de filmes
excelentes, entre os quais “O Profeta” e “Ferrugem e Osso”. “Os Cowboys” teve
sua primeira exibição na Mostra “Quinzena dos Realizadores” do Festival de
Cannes 2015 e foi uma das atrações principais do Festival Varilux do Cinema
Francês/2016, em São Paulo. Tensão do começo ao fim. Filmaço!
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Sempre
gostei de assistir a filmes que têm como pano de fundo histórias ambientadas em
períodos de ditadura militar, seja aqui no Brasil, na Argentina, Chile, Grécia,
Espanha ou qualquer outro país. Por isso, quando li a sinopse do nacional “O OUTRO LADO DO PARAÍSO”, 2014, direção de André Ristum, fiz questão de
assistí-lo. A história é baseada no livro autobiográfico do jornalista e
escritor Luiz Fernando Imediato. O filme é ambientado nos primeiros anos da
década de 60 e acompanha a saga de Antônio (Eduardo Moscovis) e de sua família,
que saem do interior de Minas Gerais e vão para Brasília, onde havia maior
oferta de empregos – era época da construção da Capital. Só que os sonhos de
Antônio viram pesadelo quando acontece o golpe militar de 1964. Envolvido na
militância sindical, Antônio é preso e vai deixar a família na penúria. A
história é narrada in off por Nando
(Davi Galdeano), filho do meio e obcecado por livros políticos. Os destaques do
elenco, porém, ficam para as mulheres: Simone Iliescu, que interpreta a esposa
de Antônio, e Camila Márdila, a filha do meio. As duas dão show. Para
representar Taguatinga, cidade-satélite onde moravam os operários que
trabalharam na construção de Brasília, a produção do filme providenciou a montagem
de uma cidade cenográfica de 20 mil m². O filme é bastante interessante por
abordar um período importante de nossa história e ainda mais por exibir imagens
de arquivo feitas pelo lendário Jean Manzon. Na trilha sonora, Milton Nascimento dá um toque todo especial.
“TRÊS LEMBRANÇAS DA MINHA JUVENTUDE” (“TROIS SOUVENIRS
DE MA JEUNESSE”), 2014, França, roteiro e direção de Arnaud
Desplechin. O filme começa ao estilo dos contos infantis: “Era uma vez...”. O
antropólogo Paul Dédalus (Mathieu Amalric) está deitado na cama com sua namorada
russa e no meio do papo decide recordar alguns fatos que marcaram sua vida: “Eu
me lembro...”. Dédalus relembra três episódios, começando com sua infância ao lado
dos dois irmãos e o horror que tinha pela mãe problemática, que se suicidou quando
ele tinha 11 anos. O segundo episódio conta sua passagem pela Rússia, quando
emprestava sua identidade para seus amigos judeus fugirem do regime comunista.
O terceiro episódio – o mais longo – é dedicado a um grande amor da juventude,
Esther (Lou Roy Lecollinet). O relacionamento é bastante conturbado, com muitos
encontros e desencontros, muito sexo em meio a brigas, traições e separações.
Quando jovem, Dédalus é interpretado pelo ator estreante Quentin Dolmaire (o
filme também marca a estreia da bela Lou Lecollinet). O filme tem um roteiro meio complicado, que dificulta a compreensão da história em certos momentos. É
verborrágico demais, além de apresentar algumas situações forçadas e cenas que
se arrastam sem uma conclusão convincente. Gostei apenas da recriação de época
e do recurso utilizado pelo diretor para situar a ação em determinadas épocas,
como a queda do Muro de Berlim, em 1989. De qualquer forma, é importante
ressaltar que o filme recebeu o prêmio de Melhor Direção de Arte do Festival Internacional
de Cinema de Chicago e o prêmio SACD da Quinzena dos Diretores do Festival de
Cannes 2015.
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
A comédia
dramática “MINHA MÃE” (“Mia Madre”), 2015,
Itália, consagra Nanni Moretti como um dos mais importantes diretores do cinema
europeu e mundial. A história do filme é centrada na quarentona Margherita
(Margherita Buy), famosa diretora de cinema que passa por uma fase bastante
estressante, literalmente à beira de um ataque de nervos. Além de estar às
voltas com a produção do seu novo filme e amargurada por uma recente separação,
ela ainda enfrenta problemas com a filha adolescente e as intermináveis rusgas
com o astro norte-americano Barry Hughins (John Turturro), que ela contratou
para ser o ator principal do filme. O problema maior, porém, é com a mãe Ada
(Giulia Lazzarini), internada num hospital e gravemente doente, o que justifica
o título. O único apoio psicológico ela encontra no irmão Giovanni (Nanni
Moretti), que está sempre ao seu lado para o que der e vier. Como já havia
feito em “O Quarto do Filho”, Moretti volta o luto como um dos temas principais
do filme. Assim como sua mãe, falecida em 2010, a personagem Ada também é uma
professora de latim aposentada. Apesar desse contexto dramático, Moretti cria
situações bastante bem-humoradas, principalmente quando Turturro está em cena
como o ator canastrão, irascível e egocêntrico. Enfim, um filme de altíssima
qualidade, com uma atriz espetacular (Margherita Buy) e uma história bastante
interessante. O filme estreou no 68º Festival de Cannes (maio/2015),
emocionando público e críticos. Ainda de Moretti, recomendo “Habemus Papam”.
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