sábado, 31 de janeiro de 2026

“INESTIMÁVEL” (“JEWEL”), 2022, África do Sul, 1h20m, em cartaz na Netflix, direção de Adze Ugah, que também assina o roteiro com Glenrose Ndlovu. Tendo como pano de fundo o tema do Apartheid, como acontece com a maioria dos filmes sul-africanos, a história é centrada na fotógrafa profissional Tyra (Michelle Botes), que se desloca da Cidade do Cabo para Johanesburgo para visitar e fotografar o memorial dedicado às vítimas do massacre de Sharpeville ocorrido em 1960 (leia no final do comentário). Tyra conhece a jovem Siya (Nqobile Khumalo), oferecendo uma quantia em dinheiro para que ela sirva de guia na cidade. Na verdade, Tyra tem outras intenções com a moça. Tyra assedia Siyas, mas esta tem um namorado tipo machão, e, pior, odeia os brancos. Tyra, portanto, não vai ter vida fácil. Siya a aconselha a voltar para a Cidade do Cabo, pois estará correndo perigo, mas Tyra insiste em ficar por amor a ela. O filme, falado em inglês e africâner, dois dos doze idiomas oficiais do país, é muito interessante por destacar alguns importantes cultos religiosos africanos praticados pela população negra, além de ressaltar o trauma das pessoas com relação ao Apartheid e também ao massacre de Sharpeville, um bairro na periferia de Johanesburgo. Aconteceu durante uma manifestação realizada pelo Congresso Pan-Africano (PAC) contra a Lei do Passe, que obrigava os negros sul-africanos a usarem uma caderneta na qual estava escrito onde poderiam ir. A polícia nacional da África do Sul, formada por maioria branca, mandou bala contra os manifestantes, causando a morte de 69 pessoas e ferimentos em outras 180. Um destaque triste foi a morte da atriz sul-africana Michelle Botes, em dezembro de 2024, aos 62 anos. Ela era muito conhecida por participar de muitos filmes e inúmeras séries televisivas. “Inestimável” não é um filme muito fácil de digerir, mas é forte o suficiente para manter a atenção do espectador, que poderá conferir um bom exemplar do cinema sul-africano.       

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

“AMORES À PARTE” (“SPLITSVILLE”), 2025, Estados Unidos, 1h44m, em cartaz na Prime Vídeo, direção de Michael Angelo Covino (“Relatos do Mundo”, “Riff, Raff: Um Crime em Família”), que também assina o roteiro juntamente com Kyle Marvin – os dois também atuam no filme. Aqui no Brasil, há muito tempo que costumamos dizer que o filme ruim é um “abacaxi”. Nos Estados Unidos mudaram a fruta e criaram, em 1981, o “Framboesa de Ouro”, prêmio que elege anualmente os piores filmes, atuações e produções de Hollywood. Tudo isso para chegar a este filme que merecia pelo menos ser indicado em 2025/26 para tal vexatória premiação. Trata-se de uma comédia pastelão reunindo dois casais em crise. No meio de uma viagem, Ashley (Adria Arjona) confessa ao marido, Carey (Marvin), estar tendo um caso e que quer se separar. Ele para o carro no acostamento e sai correndo pelo mato aparentemente sem direção, mas algum tempo depois chega à casa dos amigos Julie (Dakota Johnson) e Paul (Michael Angelo Covino), um casal que confessa ser adepto do relacionamento aberto, onde cada um vai para a cama com qualquer um/uma. A partir dessa situação começa uma confusão danada, repleta de cenas de qualidade duvidosa, entre elas um constrangedor nu frontal masculino. O humor é na base do pastelão, incapaz de provocar gargalhadas, muito menos risadas e sorrisos amarelos. As situações envolvendo troca de casais, amantes à vontade e diálogos sem graça nenhuma fazem de “Amores à Parte” um dos piores lançamentos do ano. Louve-se, porém, é preciso admitir, a beleza das atrizes Dakota Johnson e Adria Arjona, num contraste violento contra a feiura de seus respectivos pares. Resumindo, não passa de um puro besteirol de baixa qualidade.        

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

“RAINHA DO CARVÃO” (“MISS CARBÓN”), 2025, coprodução Argentina/Espanha, 1h34m, em cartaz na Netflix, direção de Agustina Macri e roteiro assinado por Erika Halvorsen e Mara Pescio. A história é baseada em fatos reais ocorridos na primeira década deste século. O/a personagem principal é Carla Antonella Rodríguez, a primeira mulher transgênero a ser admitida como funcionária numa empresa mineradora localizada no vilarejo de Río Turbio, na Patagônia argentina, um frio danado. Rejeitada/o pelos pais, “Carlita” foi colocada/o para fora de casa e vivia perambulando pelas ruas, dormindo em albergues e casas de amigos. Ainda homem (?), ela conseguiu trabalhar como mecânico na empresa mineradora Yacimientos Carboníferros Río Turbio (YCRT). Trabalhava no interior da mina de carvão e pegava no pesado, mas não tinha o respeito dos seus colegas de trabalho, que o tratavam como bichinha e viado. Ela costumava dizer: “O carvão não discrimina, os homens sim”. Mas ele/ela não se importou. Nas horas vagas de trabalho, Carlita frequentava um clube noturno que funcionava também como prostíbulo recheado de travestis. Carlita se enturmou com o grupo e logo decidiu se submeter a uma operação de mudança de sexo. Com isso, a contragosto, foi transferida para o escritório, pois a empresa não admitia mulheres na mina. Quando a identidade de gênero passou a ser reconhecida pelo Estado argentino (Lei de Identidade de Gênero, de 2012), Carlita assumiu de vez o nome de Carla Antonella Rodríguez e batalhou muito para voltar a trabalhar no interior da mina, apoiada (quem diria?), pelos seus próprios antigos colegas homens. Sem dúvida, uma história muito interessante de perseverança e coragem. Carlita é interpretada de maneira magistral pela atriz e ativista  trans Lux Pascal (irmã do ator latino do momento em Hollywood, Pedro Pascal), que ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes 2025. Completam o elenco Laura Grandinetti, Paco León, Simone Mercado, Jorge Román e Romina Escobar. Outro destaque são os cenários gelados da Patagônia, de um branco deslumbrante. Enfim, “Rainha do Carvão” é um filme muito interessante que merece ser assistido.         

domingo, 25 de janeiro de 2026

“O FALSÁRIO” (“IL FALSARIO”), 2025, Itália, 1h50m, em cartaz na Netflix, direção de Stefano Lodovighi, seguindo roteiro assinado por Sandro Petraglia e Lorenzo Bagnotori. A história é baseada em fatos reais ocorridos na década de 70 e primeira metade dos anos 80 do século passado e relatados no livro “Il Falsario Di Stato”, escrito pelos jornalistas Massimo Veneziani e Nicola Biondo. O personagem central é o italiano Antonio “Toni” Chiarelli (Pietro Castellitto), um artista plástico amador que sai de sua cidade natal, Roscíolo Dei Marsi, para Roma, em 1970, com o objetivo de se aperfeiçoar na sua arte e ganhar dinheiro. Ele logo começa a frequentar galerias e, numa delas, conhece Donata (Giulia Michelini), que seria sua empresária, amante e esposa. Toni demonstrou uma facilidade enorme em reproduzir telas de grandes pintores e começou a ganhar dinheiro. Mas logo estaria envolvido em trabalhos ilegais como falsificação de documentos para a Banda Della Magliana, organização criminosa ligada à Máfia. Desde o início, a história tem como pano de fundo a tumultuada situação política da Itália e os atentados do grupo terrorista Brigadas Vermelhas, responsável pelo sequestro e assassinato do ex-primeiro ministro Aldo Moro, em 1978. Completam o elenco Andrea Arcangeli, Edoardo Pesce, Perluigi Gigante e Claudio Santamaria. O roteiro complica um pouco o entendimento de algumas situações. A história é incrível e poderia, na minha opinião, ser melhor aproveitada. Faltou esmiuçar um pouco mais os acontecimentos e identificar melhor alguns personagens que circulam em volta de Toni. Um aspecto é preciso destacar: a primorosa recriação de época e os belos cenários da capital italiana. Resumo da ópera, achei o filme bastante interessante e movimentado, mas não me convenceu a fazer uma indicação entusiasmada.