Mais
um novo e obrigatório filme escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore: “A
Melhor Oferta” (“La Migliore Offerta”), 2013. Trata-se de um drama centrado na vida
do leiloeiro e colecionador de arte Virgil Oldman (o fabuloso Geoffrey Rush),
um homem excêntrico e solitário. Só se relaciona com seus
empregados e com o pessoal que comparece aos seus leilões de alta categoria. Em
seu luxuoso apartamento, seu único prazer é ficar admirando as dezenas de quadros
de mulheres que mantém expostos nas paredes de um salão guardado a sete chaves
e em total segredo. Todas as obras são de pintores famosos desde o século XV.
Enfim, uma coleção valiosíssima, conseguida em muitos anos com a ajuda do amigo
Billy (Donald Sutherland) em transações não muito honestas. A vida de Virgil
tomará um rumo diferente a partir do dia em que é contratado para avaliar os objetos
de arte da família Ibbetson, representada pela herdeira Claire (a atriz
holandesa Sylvia Hoeks), uma jovem misteriosa que vive reclusa numa antiga
mansão. Tornatore faz uma bela homenagem ao mundo das artes e, ao mesmo tempo, cria
um retrato cruel da solidão humana na figura do leiloeiro, adicionando ao drama
muito suspense e mistério. Com mais esse ótimo filme, o diretor italiano reforça
um currículo impecável composto também por “Cinema Paradiso”, “Malèna”, “Baaria
– A Porta do Vento” e “A Lenda do Pianista do Mar”, entre outros. sábado, 21 de junho de 2014
Mais
um novo e obrigatório filme escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore: “A
Melhor Oferta” (“La Migliore Offerta”), 2013. Trata-se de um drama centrado na vida
do leiloeiro e colecionador de arte Virgil Oldman (o fabuloso Geoffrey Rush),
um homem excêntrico e solitário. Só se relaciona com seus
empregados e com o pessoal que comparece aos seus leilões de alta categoria. Em
seu luxuoso apartamento, seu único prazer é ficar admirando as dezenas de quadros
de mulheres que mantém expostos nas paredes de um salão guardado a sete chaves
e em total segredo. Todas as obras são de pintores famosos desde o século XV.
Enfim, uma coleção valiosíssima, conseguida em muitos anos com a ajuda do amigo
Billy (Donald Sutherland) em transações não muito honestas. A vida de Virgil
tomará um rumo diferente a partir do dia em que é contratado para avaliar os objetos
de arte da família Ibbetson, representada pela herdeira Claire (a atriz
holandesa Sylvia Hoeks), uma jovem misteriosa que vive reclusa numa antiga
mansão. Tornatore faz uma bela homenagem ao mundo das artes e, ao mesmo tempo, cria
um retrato cruel da solidão humana na figura do leiloeiro, adicionando ao drama
muito suspense e mistério. Com mais esse ótimo filme, o diretor italiano reforça
um currículo impecável composto também por “Cinema Paradiso”, “Malèna”, “Baaria
– A Porta do Vento” e “A Lenda do Pianista do Mar”, entre outros. sexta-feira, 20 de junho de 2014
A história de “A Menina que roubava
Livros” (“The book thief”), co-produção EUA/Alemanha de 2012, é baseada no livro
best-seller do escritor australiano Marcus Zusak. Alemanha, 1936. O enredo
acampanha a trajetória da jovem Liesel Meminger (Sophie Nélisse), levada por
sua mãe – perseguida pelos nazistas por ser comunista – para ser adotada em
Munique pelo casal Rosa (Emily Watson) e Hans Hubermann (Geoffrey Rush), que
receberão, em troca, um benefício em dinheiro do governo alemão. O irmão mais
novo de Liesel, que também seria adotado pelo casal, morre no meio da viagem.
Em seu enterro, o coveiro deixa cair um “Manual do Coveiro”, que Liese pega
mesmo sem saber ler. Seria seu primeiro livro roubado e através do qual Hans a
ensinará a ler. Liesel é encarregada de levar as roupas que Rosa lava para a casa
do prefeito da cidade. Ilsa Hermann (Barbara Auer), a primeira dama, deixa
Liesel frequentar a biblioteca da casa, oportunidade em que a jovem começa a
ler alguns livros - e a surrupiá-los na calada da noite. "Eu os pego emprestados", diz ela ao amigo Rico (Nico Liersch). Nesse meio tempo, Rosa e Hans escondem um rapaz judeu, Max (Ben
Schnetzer), no porão da casa, com o qual Liesel iniciará uma forte amizade. Mesmo
em meio aos trágicos acontecimentos trazidos pela Segunda Guerra Mundial, a
história reserva muitos momentos tocantes e comoventes, o que o diretor Brian
Percival soube explorar com competência, principalmente ao escalar a jovem e
expressiva atriz canadense Sophie Nélisse no papel principal. Lágrimas vão
rolar...
“O que Fazer” (“The
Angriest Man in Brooklyn”), EUA, 2013, é uma comédia que parte de um
acontecimento um tanto inverossímil. Henry Altmann (Robin Williams) tem horário
marcado com um médico. Ele vai saber o resultado de uma tomografia que fez do
cérebro. No meio do caminho, um táxi bate no seu carro. Já irritado, chega ao hospital
e demora para ser atendido. Ele entra para a consulta e lá não está seu médico,
e sim a Dra. Sharon Gill (Mila Kunis), médica residente. Ele fica ainda mais
irritado. Ela também não está nos seus melhores dias. Ao ser informado que tem
um aneurisma cerebral, Altmann perde as estribeiras, grita com a médica e exige
saber quanto tempo ainda tem de vida. Revoltada com o comportamento agressivo
de Altmann, ela responde que ele tem apenas 90 minutos de vida. O inverrossímel
está aqui: ele acredita na previsão da médica e sai correndo do hospital para corrigir
seus erros com relação à sua esposa Bette (Melissa Leo) e ao seu filho Tommy
(Hamish Linklater). Enquanto isso, a Dra. Gill sai desesperada pelas ruas de
Nova Iorque atrás de Altmann para desfazer o seu prognóstico absurdo. A comédia
até que funciona. Robin Williams está menos chato do que de costume, Mila Kunis
e Melissa Leo seguram o humor com seus ataques histéricos e ainda tem uma boa
cena de humor com James Earl Jones, que faz o balconista gago de uma loja onde
Altmann, cheio de pressa, vai comprar uma filmadora. Dá pra ver numa boa. quinta-feira, 19 de junho de 2014
“Mel de Laranjas” (“Miel
de Naranjas”), 2012, direção de Imanol Uribe, é um drama espanhol ambientado no
ínicio dos anos 50, quando a “fúria espanhola” não era a seleção de futebol, e
sim a ditadura do Generalíssimo Franco. A barra era bem pesada! Enrique (Iban Garate) namora com Carmen
(Blanca Suárez, uma das atrizes mais bonitas do cinema espanhol), sobrinha do major Eládio (Karra Elejalde), comandante do
Tribunal Militar de Andaluzia e figura de destaque no governo de Franco. Enrique
está prestes a se alistar no Exército para cumprir o Serviço Militar
obrigatório, o que naquela época significava ser mandado para alguma colônia.
Carmen, então, pede ao tio que assegure a Enrique uma vaga no Tribunal Militar.
O major Eládio coloca Enrique como seu assistente direto e motorista, além de
encarregado de datilografar os processos instaurados contra os presos
políticos. Só que Enrique fica revoltado com as atitudes arbitrárias do
Tribunal, que incluem torturas, fuzilamentos e falcatruas nos processos. Então,
a contragosto de Carmen e mesmo com o provável fim do seu relacionamento, ele
entra para a luta armada contra o governo Franco e vira espião dos rebeldes
dentro do Tribunal. O filme é baseado em fatos reais e deu o prêmio de melhor
diretor a Uribe no Festival de Málaga. Quem gosta de filmes com pano de fundo
político e histórico vai gostar.quarta-feira, 18 de junho de 2014
“A Execução” (“Une
Exécution Ordinairey”), 2010, é um drama francês baseado no livro de Marc Dugain,
que também é diretor do filme. O ano é 1952. Uma médica, a Dra. Anna (Marina
Hands), urologista num hospital dos arredores de Moscou, tem a fama de curar
doenças com a energia das mãos (Reiki?). Essa fama corre Moscou e chega aos
ouvidos dos assessores de Joseph Stalin (Andre Dussolier), na ocasião bastante
doente (morreria no ano seguinte). A médica é “convocada” para tirar as dores
do ditador russo. No que poderia ser o início de uma fase de privilégios pela
aproximação com Stalin, a médica, pelo contrário, vê sua vida se transformar
num verdadeiro inferno. Ela e o marido, um físico, correrão risco de vida. Utilizando
cenários sombrios, Dugain consegue retratar o clima de terror e medo que
imperava na Rússia de Stalin. Algumas revelações do ditador russo, ditas à
médica na base da confidência, são bastante interessantes para quem gosta de curtir História, mas, no
geral, o filme passa longe de um entretenimento agradável.terça-feira, 17 de junho de 2014
Está
nos dicionários: Fábula é uma narração
alegórica, cujos personagens são animais, que encerra uma lição moral. A definição é perfeita para “A
Parede” (“Die Wand”), 2012, uma co-produção
Áustria/Alemanha, com direção de Julian Roman Rölsler. A única é diferença é
que aqui os animais não falam. Aliás, nem a atriz principal. Com o acréscimo de um pouco de surrealismo, o filme conta a história de uma mulher (a atriz alemã Martina Gedeck) que
viaja com um casal de amigos para uma cabana de caça nas montanhas da Áustria. À
noite, os amigos saem para ir até a cidade, deixando a visitante sozinha com o cachorro
Luchs. O casal não volta e, pela manhã, ela sai para ver o que aconteceu.
Quando está a caminho, ela dá de cara com uma parede invisível. Ela vai pra cá
e pra lá e chega à conclusão de que está aprisionada numa espécie de redoma
intransponível. Daí em diante, ela ficará sozinha com o cachorro. Depois ainda
chegam dois gatos e uma vaca. O filme inteiro é narrado in off pela mulher, que, evidentemente,
está escrevendo um diário. Ela não vê saída para sua situação e terá que
aprender a viver – e sobreviver – sozinha. O tom da narrativa é monótono e melancólico,
talvez para realçar a solidão da personagem. As paisagens dos Alpes austríacos
são deslumbrantes e minimizam um pouco toda essa tristeza. O
filme, baseado no livro da escritora austríaca Marlen Haushofer, disputou o
Oscar 2014 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro representando a Áustria.segunda-feira, 16 de junho de 2014
“Apenas Henry – A Verdade de uma Vida” (“Just
Henry”), dirigido por David Moore, é um drama produzido em 2011 para a TV
inglesa baseado no livro "Goodnight Mister Tom", de Michelle Magorian. O ano é 1950 na Inglaterra. O garoto
Henry (Josh Bolt), de 15 anos, vive numa pequena casa na periferia de Londres.
Ele mora com a mãe, o padrasto e a avó. O pai, morto em 1941, era um soldado considerado
herói de guerra. Henry nunca se deu com o padrasto (Dean Andrews), no que é
apoiado pela avó, mãe de seu pai. Em meio a essas rusgas familiares, um dia
Henry vai ao cinema com a namoradinha Grace (Charlie May-Clark) e, ao fim da
sessão, a fotografa na rua. Ao revelar a foto, Henry vê ao fundo um homem que
parece muito ser seu pai. É apenas um vulto, mas o garoto, ao contrário de
todos, acredita piamente que aquele é seu pai que ressurgiu. E não é que ele
está certo? A partir daí, porém, muitas verdades virão à tona e revelarão que o
pai de Henry não é exatamente o homem que Henry idolatrava. Próximo ao seu
final, o filme deixa o clima novelão de
lado (a mãe de Henry vive desmaiando) e parte para um movimentado policial noir, com direito a sequestros e
perseguições.
domingo, 15 de junho de 2014
“O Invasor” (“L’Envahisseur”),
2011, é um vigoroso drama belga. Trata-se do primeiro longa dirigido por
Nicolas Provost. Começa o filme com dois africanos chegando, extenuados - provavelmente
náufragos de alguma embarcação vinda da África – a uma praia de nudismo no
litoral europeu (sul da Espanha?). A primeira visão humana que eles têm é de
uma estonteante loira ao natural. Devem ter pensado: “Será aqui o Paraíso?”.
Entram os créditos e, na cena seguinte, um dos africanos, Amadou (Isaka
Sawadogo), está em Bruxelas (Bélgica) trabalhando duro numa obra juntamente com
outros clandestinos. Um dia, Amadou consegue fugir de uma batida do serviço de
imigração belga e começa a peregrinar pelas ruas de Bruxelas. Com seu jeito
simpático e carismático, Amadou começa a conversar com as pessoas, que o tratam
bem, sem qualquer tipo de rejeição. Um tanto inverossímil essa liberdade de
Amadou pelas ruas sem ser interpelado pela polícia. Afinal, trata-se de um
sujeiro enorme e evidentemente imigrante que pode estar com sua situação irregular,
como de fato está. Em suas andanças, ele vai conhecer Agnès Yael (a atriz
italiana Stefania Rocca), uma bela e rica executiva casada com um grande
empresário. Amadou, que agora se apresenta como Obama, diz que é um homem de
negócios em busca de novas oportunidades. Agnès fica encantada com o charme de Amadou/Obama
e se entrega à sedução do africano, uma atitude da qual se arrependerá mais
tarde. O filme é muito bem feito e tem como trunfo, além da história em si,
dois atores estupendos: Sawadogo e a italiana Stefania.
“Uma Vida Tranquila” (“Uma Vita Tranquilla”), 2010, é uma co-produção
Itália/Alemanha/França dirigida por Claudio Cupellini e traz, encabeçando o
elenco, o ator italiano Toni Servillo (de “A Grande Beleza”). Trata-se de um drama
que, perto de seu desfecho, vira um suspense policial bem ao estilo dos filmes que
envolvem mafiosos – Cupellini, aliás, dirigiu uma série de TV baseada no livro “Gomorra”.
Servillo é Rosario Russo, um homem de passado obscuro na Itália e que há 15
anos mora nos arredores de Frankfurt (Alemanha), onde possui uma pousada. Ele é
casado com a alemã Renate (Juliane Köhler), uma mulher bem mais jovem, e tem um
filho pré-adolescente. O filme começa mostrando Rosário em sua rotina de
trabalho na pousada, o que inclui supervisionar o pessoal da cozinha na
elaboração dos pratos. Não há qualquer indício de seu passado nebuloso na
Itália e essa calma aparente – a vida tranquila do título – só será abalada quando
um dia chega à pousada Diego (Marco D’Amore), o filho italiano que Rosario
abandonara na Itália. Diego chega com um amigo, Edoardo (Francesco di Leva). Quando
Rosario descobre o verdadeiro motivo da visita dos dois, terá que agir rápido não
só para proteger sua vida como também a da sua família. O filme estreou no
Brasil durante a 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2011. sábado, 14 de junho de 2014
“Bola 8” (8-Pallo”),
Finlândia, 2013, dirigido por Aku Louhimies, é um drama barra pesada que não
economiza na violência. Conta a história de Pike (Jessica Grabowsky), uma jovem
que se envolve com um grupo de viciados em drogas e engravida de um deles, o
violento e psicótico Lalli (Eero Aho). Numa noite de embalo regada a muita
cocaína e heroína, Pike é presa e, uns meses depois, sua filha nasce na
penitenciária. Quando é solta em condicional, Pike recebe toda a assistência do
governo finlandês, o que inclui moradia, vale-compras e uma importância em
dinheiro por mês. Ela, porém, terá de seguir as normas da condicional, ou seja,
andar na linha, o que é, aliás, sua intenção. Mas um dia Lalli volta a procurá-la.
O amor bandido, então, vai prevalecer por um tempo e Pike vai fazer de tudo
para não voltar às drogas, o que teria consequências drásticas, como perder os
benefícios do governo e a tutela da filha. Não é um filme muito agradável de
assistir, mas interessante e esclarecedor por apresentar um retrato pouco
conhecido, realista e triste da sociedade finlandesa, com muita gente drogada e
violência doméstica.
O
drama “Uma Noite” (“Una
Noche”), 2011, co-produção EUA/Cuba, dirigido por Lucy Molloy, estreou no
Festival de Berlim em 2012 com muitos elogios de público e crítica. O filme mostra
um retrato da desesperança que tomou conta da juventude cubana com relação ao
seu futuro e o do próprio país. A história, baseada em fatos reais, gira em
torno dos irmãos gêmeos Elio (Javier Nuñez Florian) e Lila (Nailin de La Rúa de
la Torre) e do amigo de ambos Raúl (Dariel Arrenchaga). Confinados na periferia
de Havana e proibidos de chegar perto de locais frequentados por turistas, assim
como os jovens pobres da capital cubana, eles passam o seu dia-a-dia alimentando
o sonho de fugir para Miami, principalmente Elio e Raúl, este último para viver
com o pai, que se exilou nos EUA há anos. Lila ainda não sabe que seu irmão e o
amigo têm planejada uma fuga pelo mar. Quando Raúl se envolve numa agressão a
um turista - o que é um crime gravíssimo em Cuba – e a polícia inicia uma
caçada para prendê-lo, os dois amigos resolvem antecipar a fuga, com um pequeno
barco que ambos estavam construindo às escondidas. Lila, porém, descobre o
plano e, para não abandonar o irmão, também embarca na aventura. Será que eles
vão conseguir? Um fato teve enorme repercussão quando a equipe do filme viajou
para participar do Festival de Tribeca, em 2012. Os atores Javier e Anailin sumiram e
logo depois apareceram pedindo asilo ao governo dos EUA. Como dizia Oscar
Wilde, a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida. “Uma
Noite” é um filme esclarecedor e de
grande impacto.
Muita
gente não vê um filme só porque é preto e branco. Quem pensa dessa forma pode estar perdendo filmes
magistrais. Só para citar dois exemplos: o recente “Nebraska” e “Manhattan”, a
obra-prima de Woody Allen. E, se por causa disso, não assistir “Oh Boy”, 2012, vai se arrepender por não ter visto
um dos filmes alemães mais surpreendentes, criativos e inteligentes dos últimos
anos. Já começa pela deliciosa trilha sonora, bem ao estilo de Allen, com um
jazz instrumental das décadas de 30/40. Vamos à história. Chegando aos 30 anos,
Niko Fischer (Tom Schilling) não tem emprego, acabou de largar a faculdade de
Direito, brigou com a namorada, o pai cortou sua mesada, perdeu a carteira de
motorista e ainda foi atestado por um psicólogo como um desequilibrado
emocional. Enfim, um fracassado. Independente de tudo isso, Niko é boa gente. O filme, narrado pelo próprio Niko, dura um dia e uma noite. É durante
esse período que ele vai peregrinar por Berlim com o amigo Matze (Marc
Hosemann), visitar um estúdio onde é produzido um filme sobre o nazismo, conversar com os tipos mais estranhos e ainda reencontrar uma antiga
colega de colégio, a maluquete Julika (Friederike Kempter). Mesmo quando o
assunto exige um pouco mais de seriedade, os diálogos são construídos dentro do
mais fino humor, assim como também são bem-humoradas as situações envolvendo
Niko. Com uma fotografia deslumbrante, que lembra mais uma vez “Manhattan”, de
Allen, o diretor Jan Ole Gerster apresenta cenários pouco conhecidos de uma
Berlim pulsante, moderna, em contínuo movimento. Imperdível!quinta-feira, 12 de junho de 2014
Para
quem ainda não viu, recomendo como imperdível. Quem já viu quando chegou aqui
em 2007, ou depois que foi lançado em DVD no ano seguinte, rever também é uma
delícia. Trata-se de “Conversas com
meu Jardineiro” (“Dialogue avec mon Jardinier”),
dirigido por Jean Becker, um dos filmes franceses mais sensíveis produzidos nos
últimos anos. A história é baseada no livro de Henri Cueco. Daniel Auteuil é um consagrado pintor de Paris que,
recém-separado da mulher, retorna à sua casa na cidadezinha onde nasceu e
passou a infância e juventude, no interior da França. Chegando lá, vê a necessidade
de contratar um jardineiro para cuidar do jardim em péssimo estado. Ele coloca um
anúncio e logo aparece um candidato (Jean-Pierre Darroussin), que nada mais é
do que um de seus amigos de infância e colega de escola. Eles vão rememorar
muitos fatos engraçados e os inúmeros aprontos que faziam no colégio. Vão
conversar também sobre os mais variados assuntos. Enfim, nasce uma forte
amizade entre os dois. O pintor apelida o jardineiro de “Dujardim” e o
jardineiro apelida o pintor de “Dupincel”. Os dois vão se tratar assim o filme
inteiro. Os diálogos são primorosos, inteligentes e bem-humorados. Mas o filme
não é só de conversas entre Dujardim e Dupincel. Aliás, as cenas mais engraçadas
acontecem quando Dupincel vai a uma exposição de arte, quando recebe a visita
da filha com o namorado 30 anos mais velho e quando ele vai com Dujardim ao velório de um ex-colega. A amizade entre os antigos amigos
resultará num desfecho dos mais comoventes. Não dá para perder um filme como
esse!quarta-feira, 11 de junho de 2014
“Alexandra”, 2007,
é mais um filme autoral do aclamado diretor russo Alexandre Sukurov. Deixo
claro que o “aclamado” fica por conta de grande parte dos críticos de cinema. A
história gira em torno da visita que Alexandra Nikolaevna (Galina Vishnevskaya)
faz a seu neto Denis (Vasily Shevtsov), um oficial russo, num acampamento na
Chechênia. A velha senhora, de 80 anos, viúva, não vê o neto há sete anos e
agora, sozinha, resolve revê-lo. Desde o início do filme, quando mostra
Alexandra viajando em veículos militares, Sokurov filma os rostos dos soldados
em close, talvez com a intenção de mostrar como são jovens e, por suas
expressões, muito tristes. Denis leva a avó para conhecer os alojamentos, os
banheiros, a cozinha. Parece uma reportagem mostrando como os soldados russos vivem
em tempos de guerra. As cenas mais interessantes são aquelas que mostram
Alexandra visitando uma vila chechena, onde conversa com alguns civis e faz
amizade com a dona de uma barraca no mercado local. A fotografia do filme é
toda em tom sépia, reforçando a sensação de aridez dos cenários naturais. Sukurov,
aliás, é chamado por muitos de “poeta visual”. Para quem não sabe, como eu não
sabia, Galina Vishnevskaya foi uma famosa soprano russa que fez sua estreia no cinema
neste filme. Ela morreu em 2012. “Alexandra” não é um filme fácil de assistir - muito lento, contemplativo -, mas interessante para aqueles que tiverem curiosidade de conhecer o estilo daquele que é considerado o maior
cineasta russo da atualidade.
“Em Segredo” (“In Secret”),
EUA, 2013, dirigido por Charlie Stratton, é um drama/suspense baseado no
romance “Thérèse Raquin”, escrito por Emile Zola. No elenco, Elizabeth Olsen,
Oscar Isaac (de “Inside Llewyn Davis”), Jessica Lange e Tom Felton. Thérèse,
ainda menina, órfã de mãe e praticamente abandonada pelo pai aventureiro, é levada
para morar com sua tia Madame Raquin (Jessica Lange), no interior da França.
Ela vai crescer ao lado do primo Camille, filho de Madame Raquin, um menino doente
e que, por isso mesmo, supermimado pela mãe. Quando Thérèse (Olsen) e Camille (Felton)
já estão adultos, Madame Raquin resolve que eles devem se casar. Camille fica
animado. Thérèse não gosta da ideia, mas resolve obedecer a tia. Logo em
seguida ao casamento, Madame Raquin decide vender a casa e mudar para Paris,
onde vai montar uma loja de tecidos. A rotina na loja e no casamento vai entediar
Thérèse. Esse quadro só vai mudar quando ela conhece Laurent (Isaac), colega de
trabalho de Camille num escritório. Os dois vão se apaixonar perdidamente. As
consequências dessa paixão, porém, serão trágicas. A partir dos encontros às
escondidas dos dois amantes, o filme parte para o suspense, ficando ainda
melhor. O excelente trabalho dos atores valoriza ainda mais esse bom drama de época.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Bettie
(Catherine Deneuve) atravessa uma fase difícil em sua vida. Viúva, perto dos 70
anos, ela recebe a notícia de que seu amante, um rico industrial, se separou da
esposa para ficar, não com ela, mas com uma jovem de 25 anos. Além disso, seu
restaurante começa a dar prejuízo. Como se não bastasse tudo isso, sua mãe
Annie (Claude Gensac) pega no seu pé o tempo inteiro. Um dia, Bettie, não
aguentando tanta pressão, pega o carro e sai sem destino pela estrada. Você
pode pensar que lá vem mais um drama francês. Pelo contrário. “Ela
Vai” (“Elle s’em Va”), França, 2012, dirigido por Emmanuelle Bercot, é
um filme bem-humorado e alegre. Bettie vai encarar esse road movie particular como uma viagem para refletir sobre sua vida
e como refazê-la depois de tudo. Bettie vai viver uma aventura, o que inclui juntar-se
a um animado grupo de mulheres de terceira idade num bar, ir para a cama com um
rapaz que poderia ser seu filho e ainda participar de um encontro de ex-misses.
Mas os melhores momentos do filme – e os mais engraçados – acontecem a partir
do reencontro de Bettie com seu neto pré-adolescente, o terrível Charly (Nemo Schiffman),
que ela terá que levar, a pedido de sua filha, para passar uns dias na casa do
avô. Ao final dessa viagem, o astral de Bettie é outro, inclusive motivado por
um amor inesperado. Vale a pena ver a diva Deneuve ainda em grande forma, apesar dos inúmeros cigarros consumidos no filme e na vida particular. Aliás, um dos momentos mais tocantes do filme é quando Bettie espera, aflita para fumar, um velhinho preparar um cigarro de palha. Ele enrola a palha sem nenhuma pressa, alheio à aflição de Bettie, como se tivesse uma vida toda pela frente. Faz a gente pensar, não?segunda-feira, 9 de junho de 2014
“Detalhes” (“Details”),
EUA, 2012, é uma comédia dirigida por Jacob Aaron Estes e que tem no elenco
Tobey Maguire (“Homem Aranha”), Elizabeth Banks, Ray Liotta, Laura Linney e
Kerry Washington. A vida não está nada fácil para o médico ginecologista Jeff
Lang (Maguire). Além de enfrentar uma crise no casamento de 10 anos com Nealy
(Banks), ele é obrigado a conviver com um guaximin que cismou em estragar o
jardim de sua casa. A fase, quando é ruim, parece atrair mais problemas. Quando
Jeff procura sua amiga psicoterapeuta Rebecca (Washington), rola um clima e os
dois acabam indo para a cama. Só que o marido de Rebecca, Peter Mazzoni (Ray
Liotta) acaba descobrindo e a coisa fica feia. É claro que o inferno de Jeff não
vai terminar por aqui. Ele ainda vai se envolver com a vizinha louca, Lila (Linney),
cujas consequências serão trágicas. É uma boa comédia, bem bolada e movimentada, além de reservar duas gratas surpresas: as ótimas interpretações de Elizabeth Banks como a esposa
traída e de Laura Linney, bastante à vontade no papel da biruta Lila. Diversão
garantida!
“Antes do Inverno”
(“Avant L’Hiver”), 2012, é um drama francês escrito e dirigido por Philippe
Claudel. O enredo gira em torno do relacionamento do médico neurocirurgião Paul
(Daniel Auteuil) com sua esposa Lucie (Kristin Scott-Thomas), casados há 30
anos. Num determinado dia, chega à luxuosa casa em que eles moram um buquê de
rosas vermelhas sem nenhuma identificação, nem de quem mandou nem para quem se
destina. O mesmo acontece no consultório que Paulo mantém em sociedade com o
amigo e psiquiatra Gérard (Richard Berry). Em meio às desconfianças tanto de
Paul com relação a Lucie, e desta com relação ao marido, aparece no caminho do
médico a jovem Lou Vallé (Leila Bekhti), que se diz estudante de arte e afirma
ter sido operada de apendicite por Paul quando era criança. O mistério está criado
e dá margem a algumas perguntas: quem é o remetente ou a remetente das rosas?
Para quem elas se destinam? E quem é essa jovem que começa a virar a cabeça de
Paul? Essas dúvidas e as desavenças com a esposa vão tirar o cirurgião do
sério, a ponto de ter que se afastar do trabalho por estresse. O casamento com
Lucie entra em crise e Paul decide dedicar seu tempo a conversas “paternais”
com a jovem Lou. No final do filme, porém, uma reviravolta inesperada, causada
por uma tragédia, esclarecerá todo o mistério. Daniel Auteuil comprova mais uma
vez porque ainda é o principal ator francês e Kristin Scott-Thomas continua
sendo a atriz mais charmosa e classuda do cinema atual. O filme foi exibido por
aqui em abril de 2014 no Festival Varilux do Cinema Francês, em São Paulo. Um
bom drama que merece ser conferido. domingo, 8 de junho de 2014
“Mistérios da Carne” (“Mysterious Skin”), EUA, 2004, dirigido por
Gregg Araki, é um drama bastante perturbador, pois aborda com um realismo pra lá de chocante temas pesados como pedofilia e prostituição juvenil. Incomoda e muito as cenas com crianças, assim como os diálogos cheios de palavrões e linguagem
pornográfica. O sexo chega a ser quase explícito. A história começa em 1981 e gira
em torno de dois meninos que são molestados sexualmente pelo técnico do time de
baseball. Os garotos crescem e levam consigo os traumas dessa experiência tão sórdida.
Um deles, Neil McCormick (Joseph Gordon-Levitt), vira garoto de programa dos
mais vulgares. O outro, Brien (Brady Corbet), tenta lembrar o que aconteceu,
mas não consegue. Seu nariz continua sangrando quando em situações de estresse,
como quando chegou em casa, dez anos antes. Ele acredita que foi sequestrado
por um OVNI. Neil e Brien voltam a se encontrar e, juntos, tentarão descobrir o
que realmente aconteceu e se livrar dessas recordações tão traumáticas. O elenco
conta ainda com Elizabeth Shue, Michelle Trachtenberg e Bill Sage. O filme foi
exibido no Brasil, pela primeira vez, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro e
na 29ª Mostra BR de Cinema de São Paulo. Só pra quem tem estômago forte.
Nos
países europeus que invadiram durante a 2ª Guerra Mundial, os alemães saquearam
museus, galerias, igrejas, casas e castelos, roubando milhões de objetos de
arte, inclusive quadros famosos. Quase ao final do conflito, quando os alemães
voltavam derrotados para o seu país, um grupo de sete especialistas em artes,
comandado pelo oficial norte-americano George Stout (George Clooney), foi
formado para resgatar todo esse material, escondido em várias partes da
Alemanha. Eles teriam que cumprir essa missão antes da chegada dos russos. Portanto,
corriam contra o tempo. No final, o grupo conseguiu recuperar mais de 5 milhões
de peças, entre quadros, esculturas e outros objetos de arte. Essa fascinante
história, baseada em fatos reais, é contada no filme “Caçadores
de Obras-Pimas” (“The Monuments Man”),
dirigido e interpretado por George Clooney, que também escreveu o roteiro
adaptado do livro homônimo escrito por Robert M. Edsel. Apesar da seriedade do tema e de mostrar a Europa como uma
zona de guerra arrasada ao final do conflito, Clooney aliviou o clima pesado
acrescentando humor à história, o que, ajudado por uma trilha sonora bem ao
estilo dos filmes de aventura, tornou o filme leve e agradável de assistir. Além de Clooney, estão no elenco
Kate Blanchett, Matt Damon, John Goodman, Jean Dujardin e Bill Murray. sábado, 7 de junho de 2014
Baseado
em fatos reais, o drama húngaro/romeno “Aglaja”, 2012, direção de Kristina Deák, faz uma bela homenagem ao mundo do circo,
de tanta tradição nos países do Leste Europeu, principalmente na Romênia – o famoso
circo Stankowich, por exemplo, foi fundado por romenos. A homenagem fica mais
evidente quando o filme mostra os artistas nos bastidores do circo, uma vida nada fácil, cheia
de sacrifícios, muito treinamento duro e acidentes - muitas vezes trágicos - de percurso. A história,
situada nos anos 70, é narrada in off
por Aglaja, filha de dois artistas de
circo, a trapezista Sabine (Eszter Onodi) e o palhaço Tandarica (Zsolt Bogdán).
O filme acompanha a trajetória do casal
e da filha desde a fuga da Romênia, para escapar da polícia do ditador Nicolae
Ceausescu, até seu périplo por circos em várias capitais europeias. Numa delas,
onde é proibido o trabalho infantil, Aglaja é separada dos pais e encaminhada a
um internato. O filme avança 10 anos e mostra Aglaja, que se tornou uma bela
jovem aos 15 anos de idade, saindo do internato para se encontrar com a mãe, na
época conhecida em toda a Europa pelo número acrobático em que fazia
malabarismos nas alturas içada pelos cabelos. Por causa dessa atração, Sabine ficou
famosa como “A Mulher dos Cabelos de Aço”. Um acidente com Sabine, porém, vai
colocar Aglaja de volta ao picadeiro. As duas atrizes que interpretam Aglaja - Babette
Javor aos 5 anos, e Piroska Moga aos 15 - são excelentes. Mas o maior destaque
é mesmo Eszter Onodi, que faz Sabine. O filme foi exibido aqui no Brasil pela
primeira vez na Mostra “Geração Praça Moscou: O Cinema Húngaro”, em São Paulo,
em junho de 2013. Um filme que merece ser descoberto por quem gosta de cinema
de qualidade.sexta-feira, 6 de junho de 2014
“Elena” é um
drama russo produzido em 2010 e dirigido por Andrey Zvyagintsev (de “O Retorno”).
O enredo gira em torno de Elena (Nadezhda Markina), uma enfermeira aposentada que
vive, há 10 anos – seu segundo casamento - com Vladimir (Andrey Smirnov), um
rico homem de negócios de Moscou. Sergei (Aleksey Rozin) é o filho de Elena, um
preguiçoso que passa o dia sentado no sofá tomando cerveja e vendo TV. Não quer
nada com o trabalho, embora tenha que sustentar mulher e um filho adolescente.
Sergei vive às custas da mãe, que todo mês vai até a periferia de Moscou
entregar o dinheiro de sua aposentadoria ao filho malandro. Por causa dessa
rotina de anos, Elena vive às turras com o marido, que critica a atitude da
mulher dizendo que ela transformou o filho num acomodado e vagabundo. Ela
defende o filho com unhas e dentes, dizendo que ele é vítima da crise econômica.
Vladimir sofre um infarto e, enquanto se recupera, decide escrever seu
testamento. Ele comunica suas intenções a Elena. A filha de Vladimir, Katerina
(Elena Lyadova), será a grande beneficiada. Elena acha que seu filho também
deve ser incluído no testamento. A partir daí, o filme passa a ter um clima de
suspense policial e fica melhor ainda. É impossível não enxergar nas atitudes da
superprotetora Elena uma evidente analogia com a “Mãe Rússia” e seu caráter
assistencialista. “Elena” foi o
grande destaque da 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, além de ter
conquistado o Prêmio Especial do Júri na Mostra “Um Certain Regard” no Festival
de Cannes 2011.
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