sábado, 21 de junho de 2014

Mais um novo e obrigatório filme escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore: “A Melhor Oferta” (“La Migliore Offerta”), 2013. Trata-se de um drama centrado na vida do leiloeiro e colecionador de arte Virgil Oldman (o fabuloso Geoffrey Rush), um homem excêntrico e solitário. Só se relaciona com seus empregados e com o pessoal que comparece aos seus leilões de alta categoria. Em seu luxuoso apartamento, seu único prazer é ficar admirando as dezenas de quadros de mulheres que mantém expostos nas paredes de um salão guardado a sete chaves e em total segredo. Todas as obras são de pintores famosos desde o século XV. Enfim, uma coleção valiosíssima, conseguida em muitos anos com a ajuda do amigo Billy (Donald Sutherland) em transações não muito honestas. A vida de Virgil tomará um rumo diferente a partir do dia em que é contratado para avaliar os objetos de arte da família Ibbetson, representada pela herdeira Claire (a atriz holandesa Sylvia Hoeks), uma jovem misteriosa que vive reclusa numa antiga mansão. Tornatore faz uma bela homenagem ao mundo das artes e, ao mesmo tempo, cria um retrato cruel da solidão humana na figura do leiloeiro, adicionando ao drama muito suspense e mistério. Com mais esse ótimo filme, o diretor italiano reforça um currículo impecável composto também por “Cinema Paradiso”, “Malèna”, “Baaria – A Porta do Vento” e “A Lenda do Pianista do Mar”, entre outros.   

sexta-feira, 20 de junho de 2014

A história de “A Menina que roubava Livros” (“The book thief”), co-produção EUA/Alemanha de 2012, é baseada no livro best-seller do escritor australiano Marcus Zusak. Alemanha, 1936. O enredo acampanha a trajetória da jovem Liesel Meminger (Sophie Nélisse), levada por sua mãe – perseguida pelos nazistas por ser comunista – para ser adotada em Munique pelo casal Rosa (Emily Watson) e Hans Hubermann (Geoffrey Rush), que receberão, em troca, um benefício em dinheiro do governo alemão. O irmão mais novo de Liesel, que também seria adotado pelo casal, morre no meio da viagem. Em seu enterro, o coveiro deixa cair um “Manual do Coveiro”, que Liese pega mesmo sem saber ler. Seria seu primeiro livro roubado e através do qual Hans a ensinará a ler. Liesel é encarregada de levar as roupas que Rosa lava para a casa do prefeito da cidade. Ilsa Hermann (Barbara Auer), a primeira dama, deixa Liesel frequentar a biblioteca da casa, oportunidade em que a jovem começa a ler alguns livros - e a surrupiá-los na calada da noite. "Eu os pego emprestados", diz ela ao amigo Rico (Nico Liersch). Nesse meio tempo, Rosa e Hans escondem um rapaz judeu, Max (Ben Schnetzer), no porão da casa, com o qual Liesel iniciará uma forte amizade. Mesmo em meio aos trágicos acontecimentos trazidos pela Segunda Guerra Mundial, a história reserva muitos momentos tocantes e comoventes, o que o diretor Brian Percival soube explorar com competência, principalmente ao escalar a jovem e expressiva atriz canadense Sophie Nélisse no papel principal. Lágrimas vão rolar...                            
“O que Fazer” (“The Angriest Man in Brooklyn”), EUA, 2013, é uma comédia que parte de um acontecimento um tanto inverossímil. Henry Altmann (Robin Williams) tem horário marcado com um médico. Ele vai saber o resultado de uma tomografia que fez do cérebro. No meio do caminho, um táxi bate no seu carro. Já irritado, chega ao hospital e demora para ser atendido. Ele entra para a consulta e lá não está seu médico, e sim a Dra. Sharon Gill (Mila Kunis), médica residente. Ele fica ainda mais irritado. Ela também não está nos seus melhores dias. Ao ser informado que tem um aneurisma cerebral, Altmann perde as estribeiras, grita com a médica e exige saber quanto tempo ainda tem de vida. Revoltada com o comportamento agressivo de Altmann, ela responde que ele tem apenas 90 minutos de vida. O inverrossímel está aqui: ele acredita na previsão da médica e sai correndo do hospital para corrigir seus erros com relação à sua esposa Bette (Melissa Leo) e ao seu filho Tommy (Hamish Linklater). Enquanto isso, a Dra. Gill sai desesperada pelas ruas de Nova Iorque atrás de Altmann para desfazer o seu prognóstico absurdo. A comédia até que funciona. Robin Williams está menos chato do que de costume, Mila Kunis e Melissa Leo seguram o humor com seus ataques histéricos e ainda tem uma boa cena de humor com James Earl Jones, que faz o balconista gago de uma loja onde Altmann, cheio de pressa, vai comprar uma filmadora. Dá pra ver numa boa.                                 

quinta-feira, 19 de junho de 2014


“Mel de Laranjas” (“Miel de Naranjas”), 2012, direção de Imanol Uribe, é um drama espanhol ambientado no ínicio dos anos 50, quando a “fúria espanhola” não era a seleção de futebol, e sim a ditadura do Generalíssimo Franco. A barra era bem pesada! Enrique (Iban Garate) namora com Carmen (Blanca Suárez, uma das atrizes mais bonitas do cinema espanhol), sobrinha do major Eládio (Karra Elejalde), comandante do Tribunal Militar de Andaluzia e figura de destaque no governo de Franco. Enrique está prestes a se alistar no Exército para cumprir o Serviço Militar obrigatório, o que naquela época significava ser mandado para alguma colônia. Carmen, então, pede ao tio que assegure a Enrique uma vaga no Tribunal Militar. O major Eládio coloca Enrique como seu assistente direto e motorista, além de encarregado de datilografar os processos instaurados contra os presos políticos. Só que Enrique fica revoltado com as atitudes arbitrárias do Tribunal, que incluem torturas, fuzilamentos e falcatruas nos processos. Então, a contragosto de Carmen e mesmo com o provável fim do seu relacionamento, ele entra para a luta armada contra o governo Franco e vira espião dos rebeldes dentro do Tribunal. O filme é baseado em fatos reais e deu o prêmio de melhor diretor a Uribe no Festival de Málaga. Quem gosta de filmes com pano de fundo político e histórico vai gostar.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

“A Execução” (“Une Exécution Ordinairey”), 2010, é um drama francês baseado no livro de Marc Dugain, que também é diretor do filme. O ano é 1952. Uma médica, a Dra. Anna (Marina Hands), urologista num hospital dos arredores de Moscou, tem a fama de curar doenças com a energia das mãos (Reiki?). Essa fama corre Moscou e chega aos ouvidos dos assessores de Joseph Stalin (Andre Dussolier), na ocasião bastante doente (morreria no ano seguinte). A médica é “convocada” para tirar as dores do ditador russo. No que poderia ser o início de uma fase de privilégios pela aproximação com Stalin, a médica, pelo contrário, vê sua vida se transformar num verdadeiro inferno. Ela e o marido, um físico, correrão risco de vida. Utilizando cenários sombrios, Dugain consegue retratar o clima de terror e medo que imperava na Rússia de Stalin. Algumas revelações do ditador russo, ditas à médica na base da confidência, são bastante interessantes para quem gosta de curtir História, mas, no geral, o filme passa longe de um entretenimento agradável.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Está nos dicionários: Fábula é uma narração alegórica, cujos personagens são animais, que encerra uma lição moral. A definição é perfeita para “A Parede” (“Die Wand”), 2012, uma co-produção Áustria/Alemanha, com direção de Julian Roman Rölsler. A única é diferença é que aqui os animais não falam. Aliás, nem a atriz principal. Com o acréscimo de um pouco de surrealismo, o filme conta a história de uma mulher (a atriz alemã Martina Gedeck) que viaja com um casal de amigos para uma cabana de caça nas montanhas da Áustria. À noite, os amigos saem para ir até a cidade, deixando a visitante sozinha com o cachorro Luchs. O casal não volta e, pela manhã, ela sai para ver o que aconteceu. Quando está a caminho, ela dá de cara com uma parede invisível. Ela vai pra cá e pra lá e chega à conclusão de que está aprisionada numa espécie de redoma intransponível. Daí em diante, ela ficará sozinha com o cachorro. Depois ainda chegam dois gatos e uma vaca. O filme inteiro é narrado in off  pela mulher, que, evidentemente, está escrevendo um diário. Ela não vê saída para sua situação e terá que aprender a viver – e sobreviver – sozinha. O tom da narrativa é monótono e melancólico, talvez para realçar a solidão da personagem. As paisagens dos Alpes austríacos são deslumbrantes e minimizam um pouco toda essa tristeza. O filme, baseado no livro da escritora austríaca Marlen Haushofer, disputou o Oscar 2014 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro representando a Áustria.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

 
 “Apenas Henry – A Verdade de uma Vida” (“Just Henry”), dirigido por David Moore, é um drama produzido em 2011 para a TV inglesa baseado no livro "Goodnight Mister Tom", de Michelle Magorian. O ano é 1950 na Inglaterra. O garoto Henry (Josh Bolt), de 15 anos, vive numa pequena casa na periferia de Londres. Ele mora com a mãe, o padrasto e a avó. O pai, morto em 1941, era um soldado considerado herói de guerra. Henry nunca se deu com o padrasto (Dean Andrews), no que é apoiado pela avó, mãe de seu pai. Em meio a essas rusgas familiares, um dia Henry vai ao cinema com a namoradinha Grace (Charlie May-Clark) e, ao fim da sessão, a fotografa na rua. Ao revelar a foto, Henry vê ao fundo um homem que parece muito ser seu pai. É apenas um vulto, mas o garoto, ao contrário de todos, acredita piamente que aquele é seu pai que ressurgiu. E não é que ele está certo? A partir daí, porém, muitas verdades virão à tona e revelarão que o pai de Henry não é exatamente o homem que Henry idolatrava. Próximo ao seu final, o filme deixa o clima  novelão de lado (a mãe de Henry vive desmaiando) e parte para um movimentado policial noir, com direito a sequestros e perseguições.                  

     

domingo, 15 de junho de 2014

“O Invasor” (“L’Envahisseur”), 2011, é um vigoroso drama belga. Trata-se do primeiro longa dirigido por Nicolas Provost. Começa o filme com dois africanos chegando, extenuados - provavelmente náufragos de alguma embarcação vinda da África – a uma praia de nudismo no litoral europeu (sul da Espanha?). A primeira visão humana que eles têm é de uma estonteante loira ao natural. Devem ter pensado: “Será aqui o Paraíso?”. Entram os créditos e, na cena seguinte, um dos africanos, Amadou (Isaka Sawadogo), está em Bruxelas (Bélgica) trabalhando duro numa obra juntamente com outros clandestinos. Um dia, Amadou consegue fugir de uma batida do serviço de imigração belga e começa a peregrinar pelas ruas de Bruxelas. Com seu jeito simpático e carismático, Amadou começa a conversar com as pessoas, que o tratam bem, sem qualquer tipo de rejeição. Um tanto inverossímil essa liberdade de Amadou pelas ruas sem ser interpelado pela polícia. Afinal, trata-se de um sujeiro enorme e evidentemente imigrante que pode estar com sua situação irregular, como de fato está. Em suas andanças, ele vai conhecer Agnès Yael (a atriz italiana Stefania Rocca), uma bela e rica executiva casada com um grande empresário. Amadou, que agora se apresenta como Obama, diz que é um homem de negócios em busca de novas oportunidades. Agnès fica encantada com o charme de Amadou/Obama e se entrega à sedução do africano, uma atitude da qual se arrependerá mais tarde. O filme é muito bem feito e tem como trunfo, além da história em si, dois atores estupendos: Sawadogo e a italiana Stefania.             
“Uma Vida Tranquila” (“Uma Vita Tranquilla”), 2010, é uma co-produção Itália/Alemanha/França dirigida por Claudio Cupellini e traz, encabeçando o elenco, o ator italiano Toni Servillo (de “A Grande Beleza”). Trata-se de um drama que, perto de seu desfecho, vira um suspense policial bem ao estilo dos filmes que envolvem mafiosos – Cupellini, aliás, dirigiu uma série de TV baseada no livro “Gomorra”. Servillo é Rosario Russo, um homem de passado obscuro na Itália e que há 15 anos mora nos arredores de Frankfurt (Alemanha), onde possui uma pousada. Ele é casado com a alemã Renate (Juliane Köhler), uma mulher bem mais jovem, e tem um filho pré-adolescente. O filme começa mostrando Rosário em sua rotina de trabalho na pousada, o que inclui supervisionar o pessoal da cozinha na elaboração dos pratos. Não há qualquer indício de seu passado nebuloso na Itália e essa calma aparente – a vida tranquila do título – só será abalada quando um dia chega à pousada Diego (Marco D’Amore), o filho italiano que Rosario abandonara na Itália. Diego chega com um amigo, Edoardo (Francesco di Leva). Quando Rosario descobre o verdadeiro motivo da visita dos dois, terá que agir rápido não só para proteger sua vida como também a da sua família. O filme estreou no Brasil durante a 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2011.  

sábado, 14 de junho de 2014

“Bola 8” (8-Pallo”), Finlândia, 2013, dirigido por Aku Louhimies, é um drama barra pesada que não economiza na violência. Conta a história de Pike (Jessica Grabowsky), uma jovem que se envolve com um grupo de viciados em drogas e engravida de um deles, o violento e psicótico Lalli (Eero Aho). Numa noite de embalo regada a muita cocaína e heroína, Pike é presa e, uns meses depois, sua filha nasce na penitenciária. Quando é solta em condicional, Pike recebe toda a assistência do governo finlandês, o que inclui moradia, vale-compras e uma importância em dinheiro por mês. Ela, porém, terá de seguir as normas da condicional, ou seja, andar na linha, o que é, aliás, sua intenção. Mas um dia Lalli volta a procurá-la. O amor bandido, então, vai prevalecer por um tempo e Pike vai fazer de tudo para não voltar às drogas, o que teria consequências drásticas, como perder os benefícios do governo e a tutela da filha. Não é um filme muito agradável de assistir, mas interessante e esclarecedor por apresentar um retrato pouco conhecido, realista e triste da sociedade finlandesa, com muita gente drogada e violência doméstica.                  
O drama “Uma Noite” (“Una Noche”), 2011, co-produção EUA/Cuba, dirigido por Lucy Molloy, estreou no Festival de Berlim em 2012 com muitos elogios de público e crítica. O filme mostra um retrato da desesperança que tomou conta da juventude cubana com relação ao seu futuro e o do próprio país. A história, baseada em fatos reais, gira em torno dos irmãos gêmeos Elio (Javier Nuñez Florian) e Lila (Nailin de La Rúa de la Torre) e do amigo de ambos Raúl (Dariel Arrenchaga). Confinados na periferia de Havana e proibidos de chegar perto de locais frequentados por turistas, assim como os jovens pobres da capital cubana, eles passam o seu dia-a-dia alimentando o sonho de fugir para Miami, principalmente Elio e Raúl, este último para viver com o pai, que se exilou nos EUA há anos. Lila ainda não sabe que seu irmão e o amigo têm planejada uma fuga pelo mar. Quando Raúl se envolve numa agressão a um turista - o que é um crime gravíssimo em Cuba – e a polícia inicia uma caçada para prendê-lo, os dois amigos resolvem antecipar a fuga, com um pequeno barco que ambos estavam construindo às escondidas. Lila, porém, descobre o plano e, para não abandonar o irmão, também embarca na aventura. Será que eles vão conseguir? Um fato teve enorme repercussão quando a equipe do filme viajou para participar do Festival de Tribeca, em 2012. Os atores Javier e Anailin sumiram e logo depois apareceram pedindo asilo ao governo dos EUA. Como dizia Oscar Wilde, a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida. “Uma Noite” é um filme esclarecedor e de grande impacto.    
Muita gente não vê um filme só porque é preto e branco. Quem pensa dessa forma pode estar perdendo filmes magistrais. Só para citar dois exemplos: o recente “Nebraska” e “Manhattan”, a obra-prima de Woody Allen. E, se por causa disso, não assistir “Oh Boy”, 2012, vai se arrepender por não ter visto um dos filmes alemães mais surpreendentes, criativos e inteligentes dos últimos anos. Já começa pela deliciosa trilha sonora, bem ao estilo de Allen, com um jazz instrumental das décadas de 30/40. Vamos à história. Chegando aos 30 anos, Niko Fischer (Tom Schilling) não tem emprego, acabou de largar a faculdade de Direito, brigou com a namorada, o pai cortou sua mesada, perdeu a carteira de motorista e ainda foi atestado por um psicólogo como um desequilibrado emocional. Enfim, um fracassado. Independente de tudo isso, Niko é boa gente. O filme, narrado pelo próprio Niko, dura um dia e uma noite. É durante esse período que ele vai peregrinar por Berlim com o amigo Matze (Marc Hosemann), visitar um estúdio onde é produzido um filme sobre o nazismo, conversar com os tipos mais estranhos e ainda reencontrar uma antiga colega de colégio, a maluquete Julika (Friederike Kempter). Mesmo quando o assunto exige um pouco mais de seriedade, os diálogos são construídos dentro do mais fino humor, assim como também são bem-humoradas as situações envolvendo Niko. Com uma fotografia deslumbrante, que lembra mais uma vez “Manhattan”, de Allen, o diretor Jan Ole Gerster apresenta cenários pouco conhecidos de uma Berlim pulsante, moderna, em contínuo movimento. Imperdível!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Para quem ainda não viu, recomendo como imperdível. Quem já viu quando chegou aqui em 2007, ou depois que foi lançado em DVD no ano seguinte, rever também é uma delícia. Trata-se de “Conversas com meu Jardineiro” (“Dialogue avec mon Jardinier”), dirigido por Jean Becker, um dos filmes franceses mais sensíveis produzidos nos últimos anos. A história é baseada no livro de Henri Cueco. Daniel Auteuil é um consagrado pintor de Paris que, recém-separado da mulher, retorna à sua casa na cidadezinha onde nasceu e passou a infância e juventude, no interior da França. Chegando lá, vê a necessidade de contratar um jardineiro para cuidar do jardim em péssimo estado. Ele coloca um anúncio e logo aparece um candidato (Jean-Pierre Darroussin), que nada mais é do que um de seus amigos de infância e colega de escola. Eles vão rememorar muitos fatos engraçados e os inúmeros aprontos que faziam no colégio. Vão conversar também sobre os mais variados assuntos. Enfim, nasce uma forte amizade entre os dois. O pintor apelida o jardineiro de “Dujardim” e o jardineiro apelida o pintor de “Dupincel”. Os dois vão se tratar assim o filme inteiro. Os diálogos são primorosos, inteligentes e bem-humorados. Mas o filme não é só de conversas entre Dujardim e Dupincel. Aliás, as cenas mais engraçadas acontecem quando Dupincel vai a uma exposição de arte, quando recebe a visita da filha com o namorado 30 anos mais velho e quando ele vai com Dujardim ao velório de um ex-colega. A amizade entre os antigos amigos resultará num desfecho dos mais comoventes. Não dá para perder um filme como esse!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

“Alexandra”, 2007, é mais um filme autoral do aclamado diretor russo Alexandre Sukurov. Deixo claro que o “aclamado” fica por conta de grande parte dos críticos de cinema. A história gira em torno da visita que Alexandra Nikolaevna (Galina Vishnevskaya) faz a seu neto Denis (Vasily Shevtsov), um oficial russo, num acampamento na Chechênia. A velha senhora, de 80 anos, viúva, não vê o neto há sete anos e agora, sozinha, resolve revê-lo. Desde o início do filme, quando mostra Alexandra viajando em veículos militares, Sokurov filma os rostos dos soldados em close, talvez com a intenção de mostrar como são jovens e, por suas expressões, muito tristes. Denis leva a avó para conhecer os alojamentos, os banheiros, a cozinha. Parece uma reportagem mostrando como os soldados russos vivem em tempos de guerra. As cenas mais interessantes são aquelas que mostram Alexandra visitando uma vila chechena, onde conversa com alguns civis e faz amizade com a dona de uma barraca no mercado local. A fotografia do filme é toda em tom sépia, reforçando a sensação de aridez dos cenários naturais. Sukurov, aliás, é chamado por muitos de “poeta visual”. Para quem não sabe, como eu não sabia, Galina Vishnevskaya foi uma famosa soprano russa que fez sua estreia no cinema neste filme. Ela morreu em 2012. “Alexandra” não é um filme fácil de assistir - muito lento, contemplativo -, mas interessante para aqueles que tiverem curiosidade de conhecer o estilo daquele que é considerado o maior cineasta russo da atualidade. 
“Em Segredo” (“In Secret”), EUA, 2013, dirigido por Charlie Stratton, é um drama/suspense baseado no romance “Thérèse Raquin”, escrito por Emile Zola. No elenco, Elizabeth Olsen, Oscar Isaac (de “Inside Llewyn Davis”), Jessica Lange e Tom Felton. Thérèse, ainda menina, órfã de mãe e praticamente abandonada pelo pai aventureiro, é levada para morar com sua tia Madame Raquin (Jessica Lange), no interior da França. Ela vai crescer ao lado do primo Camille, filho de Madame Raquin, um menino doente e que, por isso mesmo, supermimado pela mãe. Quando Thérèse (Olsen) e Camille (Felton) já estão adultos, Madame Raquin resolve que eles devem se casar. Camille fica animado. Thérèse não gosta da ideia, mas resolve obedecer a tia. Logo em seguida ao casamento, Madame Raquin decide vender a casa e mudar para Paris, onde vai montar uma loja de tecidos. A rotina na loja e no casamento vai entediar Thérèse. Esse quadro só vai mudar quando ela conhece Laurent (Isaac), colega de trabalho de Camille num escritório. Os dois vão se apaixonar perdidamente. As consequências dessa paixão, porém, serão trágicas. A partir dos encontros às escondidas dos dois amantes, o filme parte para o suspense, ficando ainda melhor. O excelente trabalho dos atores valoriza ainda mais esse bom drama de época.  

terça-feira, 10 de junho de 2014

Bettie (Catherine Deneuve) atravessa uma fase difícil em sua vida. Viúva, perto dos 70 anos, ela recebe a notícia de que seu amante, um rico industrial, se separou da esposa para ficar, não com ela, mas com uma jovem de 25 anos. Além disso, seu restaurante começa a dar prejuízo. Como se não bastasse tudo isso, sua mãe Annie (Claude Gensac) pega no seu pé o tempo inteiro. Um dia, Bettie, não aguentando tanta pressão, pega o carro e sai sem destino pela estrada. Você pode pensar que lá vem mais um drama francês. Pelo contrário. “Ela Vai” (“Elle s’em Va”), França, 2012, dirigido por Emmanuelle Bercot, é um filme bem-humorado e alegre. Bettie vai encarar esse road movie particular como uma viagem para refletir sobre sua vida e como refazê-la depois de tudo. Bettie vai viver uma aventura, o que inclui juntar-se a um animado grupo de mulheres de terceira idade num bar, ir para a cama com um rapaz que poderia ser seu filho e ainda participar de um encontro de ex-misses. Mas os melhores momentos do filme – e os mais engraçados – acontecem a partir do reencontro de Bettie com seu neto pré-adolescente, o terrível Charly (Nemo Schiffman), que ela terá que levar, a pedido de sua filha, para passar uns dias na casa do avô. Ao final dessa viagem, o astral de Bettie é outro, inclusive motivado por um amor inesperado. Vale a pena ver a diva Deneuve ainda em grande forma, apesar dos inúmeros cigarros consumidos no filme e na vida particular. Aliás, um dos momentos mais tocantes do filme é quando Bettie espera, aflita para fumar, um velhinho preparar um cigarro de palha. Ele enrola a palha sem nenhuma pressa, alheio à aflição de Bettie, como se tivesse uma vida toda pela frente. Faz a gente pensar, não?

segunda-feira, 9 de junho de 2014

“Detalhes” (“Details”), EUA, 2012, é uma comédia dirigida por Jacob Aaron Estes e que tem no elenco Tobey Maguire (“Homem Aranha”), Elizabeth Banks, Ray Liotta, Laura Linney e Kerry Washington. A vida não está nada fácil para o médico ginecologista Jeff Lang (Maguire). Além de enfrentar uma crise no casamento de 10 anos com Nealy (Banks), ele é obrigado a conviver com um guaximin que cismou em estragar o jardim de sua casa. A fase, quando é ruim, parece atrair mais problemas. Quando Jeff procura sua amiga psicoterapeuta Rebecca (Washington), rola um clima e os dois acabam indo para a cama. Só que o marido de Rebecca, Peter Mazzoni (Ray Liotta) acaba descobrindo e a coisa fica feia. É claro que o inferno de Jeff não vai terminar por aqui. Ele ainda vai se envolver com a vizinha louca, Lila (Linney), cujas consequências serão trágicas. É uma boa comédia, bem bolada e movimentada, além de reservar duas gratas surpresas: as ótimas interpretações de Elizabeth Banks como a esposa traída e de Laura Linney, bastante à vontade no papel da biruta Lila. Diversão garantida!
“Antes do Inverno” (“Avant L’Hiver”), 2012, é um drama francês escrito e dirigido por Philippe Claudel. O enredo gira em torno do relacionamento do médico neurocirurgião Paul (Daniel Auteuil) com sua esposa Lucie (Kristin Scott-Thomas), casados há 30 anos. Num determinado dia, chega à luxuosa casa em que eles moram um buquê de rosas vermelhas sem nenhuma identificação, nem de quem mandou nem para quem se destina. O mesmo acontece no consultório que Paulo mantém em sociedade com o amigo e psiquiatra Gérard (Richard Berry). Em meio às desconfianças tanto de Paul com relação a Lucie, e desta com relação ao marido, aparece no caminho do médico a jovem Lou Vallé (Leila Bekhti), que se diz estudante de arte e afirma ter sido operada de apendicite por Paul quando era criança. O mistério está criado e dá margem a algumas perguntas: quem é o remetente ou a remetente das rosas? Para quem elas se destinam? E quem é essa jovem que começa a virar a cabeça de Paul? Essas dúvidas e as desavenças com a esposa vão tirar o cirurgião do sério, a ponto de ter que se afastar do trabalho por estresse. O casamento com Lucie entra em crise e Paul decide dedicar seu tempo a conversas “paternais” com a jovem Lou. No final do filme, porém, uma reviravolta inesperada, causada por uma tragédia, esclarecerá todo o mistério. Daniel Auteuil comprova mais uma vez porque ainda é o principal ator francês e Kristin Scott-Thomas continua sendo a atriz mais charmosa e classuda do cinema atual. O filme foi exibido por aqui em abril de 2014 no Festival Varilux do Cinema Francês, em São Paulo. Um bom drama que merece ser conferido.    

domingo, 8 de junho de 2014

“Mistérios da Carne” (“Mysterious Skin”), EUA, 2004, dirigido por Gregg Araki, é um drama bastante perturbador, pois aborda com um realismo pra lá de chocante temas pesados como pedofilia e prostituição juvenil. Incomoda e muito as cenas com crianças, assim como os diálogos cheios de palavrões e linguagem pornográfica. O sexo chega a ser quase explícito. A história começa em 1981 e gira em torno de dois meninos que são molestados sexualmente pelo técnico do time de baseball. Os garotos crescem e levam consigo os traumas dessa experiência tão sórdida. Um deles, Neil McCormick (Joseph Gordon-Levitt), vira garoto de programa dos mais vulgares. O outro, Brien (Brady Corbet), tenta lembrar o que aconteceu, mas não consegue. Seu nariz continua sangrando quando em situações de estresse, como quando chegou em casa, dez anos antes. Ele acredita que foi sequestrado por um OVNI. Neil e Brien voltam a se encontrar e, juntos, tentarão descobrir o que realmente aconteceu e se livrar dessas recordações tão traumáticas. O elenco conta ainda com Elizabeth Shue, Michelle Trachtenberg e Bill Sage. O filme foi exibido no Brasil, pela primeira vez, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro e na 29ª Mostra BR de Cinema de São Paulo.  Só pra quem tem estômago forte.     
Nos países europeus que invadiram durante a 2ª Guerra Mundial, os alemães saquearam museus, galerias, igrejas, casas e castelos, roubando milhões de objetos de arte, inclusive quadros famosos. Quase ao final do conflito, quando os alemães voltavam derrotados para o seu país, um grupo de sete especialistas em artes, comandado pelo oficial norte-americano George Stout (George Clooney), foi formado para resgatar todo esse material, escondido em várias partes da Alemanha. Eles teriam que cumprir essa missão antes da chegada dos russos. Portanto, corriam contra o tempo. No final, o grupo conseguiu recuperar mais de 5 milhões de peças, entre quadros, esculturas e outros objetos de arte. Essa fascinante história, baseada em fatos reais, é contada no filme “Caçadores de Obras-Pimas” (“The Monuments Man”), dirigido e interpretado por George Clooney, que também escreveu o roteiro adaptado do  livro homônimo escrito por Robert M. Edsel. Apesar da seriedade do tema e de mostrar a Europa como uma zona de guerra arrasada ao final do conflito, Clooney aliviou o clima pesado acrescentando humor à história, o que, ajudado por uma trilha sonora bem ao estilo dos filmes de aventura, tornou o filme leve e agradável de assistir. Além de Clooney, estão no elenco Kate Blanchett, Matt Damon, John Goodman, Jean Dujardin e Bill Murray.   

sábado, 7 de junho de 2014

Baseado em fatos reais, o drama húngaro/romeno “Aglaja”, 2012, direção de Kristina Deák, faz uma bela homenagem ao mundo do circo, de tanta tradição nos países do Leste Europeu, principalmente na Romênia – o famoso circo Stankowich, por exemplo, foi fundado por romenos. A homenagem fica mais evidente quando o filme mostra os artistas nos bastidores do circo, uma vida nada fácil, cheia de sacrifícios, muito treinamento duro e acidentes - muitas vezes trágicos - de percurso. A história, situada nos anos 70, é narrada in off  por Aglaja, filha de dois artistas de circo, a trapezista Sabine (Eszter Onodi) e o palhaço Tandarica (Zsolt Bogdán).  O filme acompanha a trajetória do casal e da filha desde a fuga da Romênia, para escapar da polícia do ditador Nicolae Ceausescu, até seu périplo por circos em várias capitais europeias. Numa delas, onde é proibido o trabalho infantil, Aglaja é separada dos pais e encaminhada a um internato. O filme avança 10 anos e mostra Aglaja, que se tornou uma bela jovem aos 15 anos de idade, saindo do internato para se encontrar com a mãe, na época conhecida em toda a Europa pelo número acrobático em que fazia malabarismos nas alturas içada pelos cabelos. Por causa dessa atração, Sabine ficou famosa como “A Mulher dos Cabelos de Aço”. Um acidente com Sabine, porém, vai colocar Aglaja de volta ao picadeiro. As duas atrizes que interpretam Aglaja - Babette Javor aos 5 anos, e Piroska Moga aos 15 - são excelentes. Mas o maior destaque é mesmo Eszter Onodi, que faz Sabine. O filme foi exibido aqui no Brasil pela primeira vez na Mostra “Geração Praça Moscou: O Cinema Húngaro”, em São Paulo, em junho de 2013. Um filme que merece ser descoberto por quem gosta de cinema de qualidade.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

“Elena” é um drama russo produzido em 2010 e dirigido por Andrey Zvyagintsev (de “O Retorno”). O enredo gira em torno de Elena (Nadezhda Markina), uma enfermeira aposentada que vive, há 10 anos – seu segundo casamento - com Vladimir (Andrey Smirnov), um rico homem de negócios de Moscou. Sergei (Aleksey Rozin) é o filho de Elena, um preguiçoso que passa o dia sentado no sofá tomando cerveja e vendo TV. Não quer nada com o trabalho, embora tenha que sustentar mulher e um filho adolescente. Sergei vive às custas da mãe, que todo mês vai até a periferia de Moscou entregar o dinheiro de sua aposentadoria ao filho malandro. Por causa dessa rotina de anos, Elena vive às turras com o marido, que critica a atitude da mulher dizendo que ela transformou o filho num acomodado e vagabundo. Ela defende o filho com unhas e dentes, dizendo que ele é vítima da crise econômica. Vladimir sofre um infarto e, enquanto se recupera, decide escrever seu testamento. Ele comunica suas intenções a Elena. A filha de Vladimir, Katerina (Elena Lyadova), será a grande beneficiada. Elena acha que seu filho também deve ser incluído no testamento. A partir daí, o filme passa a ter um clima de suspense policial e fica melhor ainda. É impossível não enxergar nas atitudes da superprotetora Elena uma evidente analogia com a “Mãe Rússia” e seu caráter assistencialista. “Elena” foi o grande destaque da 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, além de ter conquistado o Prêmio Especial do Júri na Mostra “Um Certain Regard” no Festival de Cannes 2011.