“MENASHE”, 2017, Estados Unidos,
1h22m, filme de estreia na direção de Joshua Weinstein, mais conhecido como
diretor de fotografia e documentarista. O roteiro também leva a assinatura de
Weinstein, com a colaboração de Alex Lipschultz e Musa Syeedm. A história é ambientada
no bairro Boro Park (Brooklyn), em Nova Iorque, onde está localizada uma das
comunidades mais populosas de judeus ultra-ortodoxos do mundo. Aqui vive e trabalha
o quarentão Menashe (Menashe Lustig), que ficou viúvo e precisa cuidar sozinho do
filho Rieven (Ruben Niborski), o que contraria a lei judaica, pois, segundo o Talmude
(coletânea de livros sagrados dos judeus), “Para criar os filhos, o homem deve
ter em casa uma mulher que limpe tudo, que cozinhe e que cuide da casa”. Menashe
trabalha como empregado num supermercado do bairro, ganha pouco e é obrigado pelo
patrão autoritário a fazer muitas horas extras, o que o impede de dedicar mais
tempo ao filho. Dessa forma, a questão foi decidida pelo rabino da comunidade (Meyer
Schwrtz), que colocou o garoto sob a guarda de Eizik (Yoel Weisshaus), cunhado
de Menashe e irmão da falecida, que tem família e condições financeiras de
sustentar mais uma “boca”. Segundo o rabino, Rieven só voltará para a guarda de
Menashe se ele casar. O filme acompanha o dilema de Menashe e suas tentativas
de recuperar a guarda do filho, o que gera algumas cenas tocantes e sensíveis,
principalmente pelo fato de Menashe ser um sujeito bonachão, inocente e puro, a
ponto de não se incomodar de ser chamado de “Gordito” pelos seus colegas latinos
no supermercado. Esta produção independente apresenta algumas curiosidades
muito interessantes, a começar pelo elenco, todo ele constituído de atores que
nunca participaram de uma filmagem. Por falar nisso, ao tentar mostrar as ruas
do bairro e a movimentação das pessoas, a equipe técnica foi obrigada a filmar
escondida, pois a comunidade judaica, fechada, não permite esse tipo de exposição. Além
disso, o roteiro foi inspirado na própria experiência de vida do "ator" Menashe
Lustig, que também perdeu a guarda do filho. Vale destacar ainda que, na vida
real, Menashe nunca tinha entrado num cinema, o que só aconteceu porque foi
convidado para a exibição de estreia. Segundo seu material de divulgação, “Menashe”
é o primeiro filme norte-americano totalmente falado em Iídiche Todos esses aspectos
somados, mais a competência mostrada pelo diretor Joshua Weinstein, resultaram em
mais uma joia do cinema independente norte-americano, à disposição na plataforma
Netflix. Imperdível!
segunda-feira, 15 de junho de 2020
sábado, 13 de junho de 2020
quinta-feira, 11 de junho de 2020
“JÁ
NÃO ME SINTO EM CASA NESSE MUNDO” (“I DON’T FEEL AT HOME IN THIS WORLD”), 2017,
Estados Unidos, produção Netflix, 1h36m, estreia no roteiro e direção de Macon
Blair. E que ótima estreia. Uma pequena joia do cinema independente
norte-americano, tanto que foi o vencedor do júri do Festival de Cinema de
Sundance 2017. O filme é um misto de drama, policial, suspense e comédia, com
pitadas de humor negro. A trama é toda centrada na trintona Ruth Kimke (Melanie
Lynskey, a Rose de “Two and a Half Men”), uma mulher solitária, amargurada, que
não é dada a socializar por considerar as pessoas mal-educadas e sem noção de cidadania. Ela vive revoltada com as injustiças do cotidiano, principalmente aqueles ligadas à má
educação, como um vizinho que não recolhe as fezes do cachorro, alguém que
deixa cair uma mercadoria no chão e não repõe na prateleira ou então aquele
cara que no balcão de um bar conta o final do livro que ela está lendo. Um dia,
ao voltar do trabalho, ela percebe que sua casa foi assaltada. Roubaram seu
computador e os talheres de prata que ganhou da avó. Mais do que o produto do
roubo, o que mais indigna Ruth é o fato de terem invadido sua casa sem
permissão. De nada adiantou chamar a polícia, pois não deram muita bola para o
caso e nem se esforçaram para investigar. Aí foi a gota d’água. Ao lado de Tony
(Elijah Wood, o Frodo de “O Senhor dos Anéis”), um vizinho esquisito que pensa como ela, Ruth vai tentar achar os ladrões por conta própria, recheando o
filme com muitas situações de perigo a reforçar o suspense, mas sem nunca deixar
de lado o bom humor. Completam o elenco David Yow, Jane Levy, Macon Blair, Devon
Graye, Christine Woods e Gary Anthony Williams. Sem dúvida, um filme
surpreendente e muito criativo, garantindo um ótimo entretenimento. Imperdível!
quarta-feira, 10 de junho de 2020
“A
RAINHA DA ESPANHA” (“LA REINA DE ESPAÑA”), 2016, Espanha,
disponível na plataforma Netflix, 2h08m, roteiro e direção do veterano cineasta
Fernando Trueba. A história é ambientada nos anos 50 e tem como figura central Macarena
Granada (Penélope Cruz), atriz espanhola que faz maior sucesso em Hollywood. Na
época, havia um grande esforço de estreitar o relacionamento diplomático entre
os Estados Unidos e a Espanha franquista. Para colaborar com esse esforço, um
estúdio de Hollywood resolveu investir numa superprodução a ser filmada na
Espanha: “La Reina de España”, sobre a Rainha Isabel I de Castela, a “Católica”.
Para o papel principal foi escalada justamente Macarena Granada, assim como o
diretor John Scott (Clive Revill), uma clara referência ao famoso cineasta austríaco
Fritz Lang, que fez grande sucesso em Hollywood com seu famoso tapa-olho. Durante
as filmagens, John Scott dormia o tempo inteiro e só era acordado para gritar “Ação!”
e “Corta!”, em cenas muito divertidas. Para agradar os espanhóis, a produção
resolveu dividir a direção com o cineasta espanhol Blas Fontiveros (Antonio
Resines). A história toda de “A Rainha da Espanha” se desenvolve nos bastidores
das filmagens, mostrando as dificuldades de se adaptar o roteiro ao gosto do governo
franquista. Ainda nos bastidores, o filme destaca o fogo sexual de Macarena,
que logo no início das filmagens começa um caso com o jovem Leo (o ator
argentino Chino Darín, filho do astro Ricardo Darín), um simples assistente de
produção. Em meio às filmagens, o diretor Fontiveros é sequestrado pela polícia
secreta de Franco e vai parar num campo de trabalhos forçados. O elenco resolve resgatá-lo,
utilizando para isso dezenas de figurantes do exército da Rainha. Como se isso
tudo não bastasse, o set de filmagens ainda será visitado pelo próprio
generalíssimo Francisco Franco (Carlos Areces). Haja fôlego para acompanhar isso tudo,
realizado num ritmo alucinante e muito divertido. Completam o elenco Jorge Sanz, Mandy Patinkin e Javier Cámara. Enfim, “A
Rainha da Espanha” é uma ótima comédia, além de fazer uma
singela homenagem ao mundo do Cinema. Imperdível! terça-feira, 9 de junho de 2020
“THI
MAI: RUMO AO VIETNAM” (“THI MAI, RUMBO A VIETNAM”), 2017,
Espanha, distribuição Netflix, 1h39m, direção de Patrícia Ferreira, com roteiro
de Marta Sánchez. Trata-se de uma comédia bastante simpática e divertida para
assistir com toda a família. Depois da morte da filha em um acidente de carro,
Carmen (Carmen Machi) descobre que ela dera entrada numa papelada para a adoção
de uma criança órfã do Vietnã, a Thi Mai do título. Na companhia das amigas Rosa
(Adriana Ozores) e Elvira (Aitana Sánches-Gijón), Carmen viaja para Hanói (capital
do Vietnam), onde fica o orfanato de Thi Mai. Na verdade, as amigas embarcam
numa grande e divertida aventura, repleta de situações hilariantes,
principalmente no que se refere aos costumes dos vietnamitas, muito diferentes do mundo ocidental. Nas suas
peripécias em Hanói, Carmen, Elvira e Rosa conhecerão Andrés (Dani Rovira), um
espanhol que tinha viajado para a capital do Vietnam com o objetivo de encontrar
o ex-namorado. A turma vira um quarteto e, juntos, tentarão convencer as
autoridades vietnamitas a liberar a papelada exigida para concretizar a adoção
de Thi Mai, para a qual contarão com a ajuda de Dan (Eric Nguyen), um simpático guia turístico de Hanói. O grande trunfo do filme é, sem dúvida, o trio principal de protagonistas: Carmen
Machi é mais conhecida por ser uma das atrizes preferidas do diretor Pedro Almodóvar;
Adriana Ozores, uma das mais importantes atrizes de teatro e cinema da Espanha;
e a italiana Aitana Sánches-Gijón, cuja beleza e competência eu já conhecia
desde que a vi pela primeira vez atuando em “Caminhando nas Nuvens”, de 1995,
no qual contracenou com Anthony Quinn e fez par romântico com Keanu Reeves. Aos
51 anos, Aitana continua linda, charmosa e
competente. É a atuação destas três grandes atrizes – e a química entre elas - que
faz com que “Thi Mai” seja uma comédia bastante agradável e divertida. Imperdível!
segunda-feira, 8 de junho de 2020
“ALELÍ”, 2019,
coprodução Uruguai/Argentina, 1h30, segundo longa-metragem escrito e dirigido
pela cineasta uruguaia Letícia Jorge Romero, com a colaboração de Ana Guevara
Pose. Trata-se de uma comédia familiar bastante divertida que comprova um velho
ditado: “Toda família é igual. Só muda o endereço”. Após a morte de Alfredo, o
patriarca da família, a viúva Alba (Cristina Morán) e os três filhos Ernesto
(Nestor Guzzini), Lilián (Mirella Pascual) e Silvana (Romina Peluffo) convocam
uma reunião para decidir o que fazer com a antiga casa de praia, carinhosamente
chamada de “ALELÍ”, cujas iniciais significam os nomes do pessoal: “AL” de Alba
e o falecido Alfredo; “E” de Ernesto e “LÍ” de Lílian (Silvana, a mais nova, ainda
não havia nascido). Uma série de confusões, discussões e lavagem de roupa suja
acontecem durante a reunião, como em qualquer família. Um dos assuntos foi, inclusive, a possibilidade de internar a mãe num asilo. Os diálogos são hilariantes.
Silvana foi um dos alvos das críticas da mãe e dos irmãos, pois vive uma
separação atrás da outra, não consegue segurar um casamento. Ela ficou tão chateada por ser criticada que acabou indo afogar as mágoas na velha casa de praia. Logo depois chega
também seu irmão Ernesto, preocupado com a irmã mais nova. Aqui, na velha casa,
surgem as situações mais engraçadas, principalmente aquelas que envolvem os
velhos vizinhos. Enfim, “Alelí” é aquele tipo de filme feito para garantir um
ótimo entretenimento. Como afirmou a diretora Letícia Jorge Romero, "Alelí é uma comédia farsesca sobre a família". O filme, já disponível na plataforma Netflix, foi exibido por aqui na Mostra Première Latina do Festival Internacional de Cinema do Rio/2019. Diversão garantida!sábado, 6 de junho de 2020
“ASSASSINOS
MÚLTIPLOS” (“ACTS OF VENGEANCE”), 2017, Estados Unidos,
disponível na plataforma Netflix, 1h27m, direção de Isaac Florentine (“Assalto
à Casa Branca”), seguindo roteiro escrito por Matt Venne. A história repete um
dos clichês mais utilizados em dezenas de filmes. Esposa e filha são assassinadas,
a polícia não se esforça e o pai parte para a vingança, fazendo justiça com as
próprias mãos. Ao chegar atrasado para a apresentação teatral da filha na
escola, o advogado criminalista Frank Varela (Antonio Banderas) se desencontra
da esposa Sue (Cristina Serafini) e da filha Olivia (Lilian Blankenship). Ele
vai para casa e fica esperando as duas, mas quem chega é a polícia para avisar
que elas foram assassinadas. Daí para a frente o roteiro viaja na
maionese. Cheio de culpa, Frank ingressa nas lutas de MMA, apanha pra valer e
vê esse sacrifício como forma de punição. Numa briga de rua, ele recebe uma
facada na perna e tenta estancar o sangue com um livro que estava no lixo.
Trata-se de “Meditações”, escritos pessoais e reflexões do imperador romano Marco
Aurélio (121 d.C./180 d.C.), que ele adota como livro de cabeceira enquanto se
recupera. Ao mesmo tempo, lê também “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu. As duas
leituras o convencem a partir para a vingança, incentivando-o a se preparar física
e mentalmente. Ele ingressa numa academia de artes marciais e resolve também
fazer um voto de silêncio para apurar os outros sentidos. Enquanto isso,
Frank continua a investigar por conta própria até chegar aos criminosos.
Exageros à parte, “Assassinos Múltiplos” funciona bem como filme de ação. Tem
pancadaria, suspense e muito sangue jorrando. Também estão no elenco a atriz
espanhola Paz Veja, grande amiga de Banderas na vida pessoal, Karl Urban,
Lilian Blankenship, Robert Forster e Cristina Serafini. O que me surpreendeu
favoravelmente foi a excelente forma física de Banderas aos 56 anos, idade que
tinha quando atuou no filme. Segundo o material de divulgação, o ator espanhol
treinou artes marciais durante meses para o papel. Antes de encerrar o
comentário, faço meu protesto quando ao título em português, que não condiz
muito com a história. Melhor seria a tradução literal: “Atos de Vingança”. Resumo
da ópera: o filme prende a atenção e não economiza nas cenas de ação, garantindo
um ótimo entretenimento.
quinta-feira, 4 de junho de 2020
“MY
HAPPY FAMILY” (“Chemi Bednieri Ojakhi”), 2017, Geórgia (antiga
república soviética), 120 minutos, produção Netflix, direção e roteiro de Nana
Ekvtimishvili e Simon Gross. Trata-se de um drama familiar centrado em Manana
(a ótima Ia Shugliashvili), uma professora de 52 anos que está em crise
existencial por conta da rotina diária com a família conservadora. Ela, o
marido, os dois filhos e os pais dela moram todos juntos num apartamento simples
e apertado. Logo no café da manhã começam as discussões, que continuam durante
o almoço e o jantar. Ou seja, não existe um momento de sossego, que é o que
Manana sempre desejou. O marido é ausente, não tem opinião sobre nada, o filho
mais velho não trabalha, só fica no computador, e tem ainda o crônico mau humor
da matriarca, dona Lamara (Bertha Khapava) que reclama de tudo e pega no pé de
todo mundo, inclusive de Manana. No dia de seu aniversário, Manana logo avisa: “não
quero festa, não quero bolo, não quero nenhum convidado”, como quem diz “Quero
sossego!”. Para o seu desespero, acontece justamente o contrário. A casa enche
de parentes, tem bolo, velinhas e cantorias – o povo georgiano deve gostar de
música, pois a cada reunião, seja familiar ou com amigos, logo aparece alguém
tocando violão e todo mundo canta junto. Manana fica alheia à comemoração, deixando
os convidados aos cuidados do seu marido. Como era de se esperar, logo depois
Manana avisa que vai sair de casa, alugar um apartamento e morar sozinha. A
notícia se espalha pela família e logo em seguida aparecem seu irmão Rezo
(Dimitri Oraguelidze) e outros parentes, todos tentando fazer Manana mudar de
ideia. A pergunta que todos fazem é por que ela que ir embora, abandonar a
família. Ela nunca responde a verdadeira razão, mas quem entende um pouco de
psicologia vai saber o por quê, principalmente as mulheres que estão na mesma
situação com suas famílias. O filme parece um episódio do seriado da TV Globo “A
Grande Família”, mas foge bastante do seu humor. “My Happy Family”, título que representa
uma grande ironia, é muito interessante não apenas pela história em si, mas por
destacar os costumes, os valores e o comportamento do povo georgiano. É um belo
filme, com uma atriz excepcional (Ia Shugliashvili) e um ótimo elenco, embora
seja formado, em sua maioria, por atores amadores. O filme estreou na Seção
Fórum do 67º Festival Internacional de Cinema de Berlim e depois foi exibido em
vários outros festivais mundo afora, conquistando nada menos do que 12 prêmios
e outras tantas indicações. O filme é realmente muito bom.
terça-feira, 2 de junho de 2020
“A SOMBRA DA LEI” (“LA SOMBRA
DE LA LEY”), 2018, Espanha, produção da Netflix, 2h06m, roteiro
de Patxi Amexcua e direção de Dani de La Torre. A história é ambientada em 1921
numa Barcelona agitada por conflitos entre a polícia e integrantes do movimento
anarco-sindicalista, responsáveis por greves e tumultos nas portas das fábricas.
Em meio a esse ambiente de alta combustão acontece um assalto a um trem
carregado com armamento militar destinado à polícia de Barcelona e ao exército. Claro que as suspeitas recaíram sobre os anarquistas. Para ajudar a polícia local nas
investigações, o Ministério da Justiça Federal desloca de Madrid o detetive Aníbal
Uriarte (Luis Tosar). Ele é integrado à equipe chefiada pelo inspetor Rediú (Vicente
Romero) e logo cai na graça dos novos companheiros por ser bom de briga. Uriarte
logo percebe que os policiais de Rediú, assim como o próprio, são bastante desonestos
e envolvidos com corrupção, assim como protegem o poderoso chefão mafioso El
Barón (Manolo Solo), dono de uma casa de espetáculos de luxo e de outros
negócios ilícitos. A captura dos assaltantes do trem transformou-se em ponto de
honra para a polícia de Barcelona, que vai atrás dos primeiros suspeitos, justamente
os anarquistas/sindicalistas, que, segundo o serviço de inteligência da
polícia, estariam se preparando para uma luta armada. O filme conta toda a
história dessa investigação, que ocorrerá na base de muita violência, torturas e intimidação psicológica. Merecem
destaque como foram reproduzidos os cenários da cidade de Barcelona daquela
época, naturalmente à base de computação gráfica, mas você assiste e não
percebe, de tão perfeita. Apenas fica deslumbrado pela qualidade da cenografia. Além da história
em si, outro fator que torna “A Sombra da Lei” um grande filme é a presença
sempre marcante de Luis Tosar, ator que passei a admirar depois de suas
memoráveis atuações em filmes como “Cela 211”, “Quem com Ferro Fere”, “Enquanto
Você Dorme”, “El Descoñecido” e “Segunda-Feira ao Sol”, entre tantos outros. Completam o elenco Michelle Jenner, Paco Tous, Adriana Torrebejano e o ator argentino Ernesto Alterio. Resumindo:
“A Sombra da Lei” é um filmaço! segunda-feira, 1 de junho de 2020
“CONTOS DE GUERRA” (“ÁPRÓ
MESÉK”) – “Tall Tales” nos países de língua inglesa –, 2019, Hungria,
1h52m, direção de Attila Szász e roteiro de Norbert Köbli. Um filme bastante
interessante, um misto de drama de guerra e suspense noir, lembrando os
policiais de Hollywood dos anos 40/50. Mas a grande influência parece ter vindo mesmo dos filmes do diretor inglês Alfred Hitchcock, principalmente a utilização da trilha sonora
para acentuar as cenas de maior tensão. A história de “Contos de Guerra” é
ambientada na Hungria logo após o final de Segunda Guerra Mundial. O ex-combatente
Hankó (Tamás Szabó Kimmel), aparentemente um desertor, retorna a Budapeste e,
ao ler um jornal local, vê vários classificados de famílias pedindo informações
sobre o paradeiro de seus entes queridos que foram para o front. Hankó decide
visitar essas pessoas dizendo que foi companheiro de trincheira do tal soldado.
Confesso que não entendi muito bem qual era a sua verdadeira intenção: consolar
as famílias dizendo que o ente querido foi um herói ou se aproveitar da
situação para conseguir alguma vantagem. Quando descobrem sua maracutaia, Hankó
foge e se esconde na zona rural, onde conhece Judit (Vica Kerekes) e seu filho
Virgil (Bercel Tóth). Bérces, marido de Judit, não voltou da guerra e é dado
como desaparecido. Enquanto isso, Hankó e Judit se apaixonam e tudo vai às mil
maravilhas até Bérces (Levente Molnár) surgir inesperadamente. A partir daí é
que o suspense entra em jogo pra valer, pois Bérces, um sujeito violento, não
vai deixar em paz a esposa e o amante, garantindo muita tensão até o desfecho
do filme. “Contos de Guerra”, repito, é um filme bastante interessante e que
merece ser visto.
sábado, 30 de maio de 2020
“RIPHAGEN”, 2016,
Holanda, disponível na plataforma Netflix, 2h11m, direção de Pieter Kuijpers,
com roteiro de Paul Jan Nelissen e Thomas van der Ree. O filme é baseado em
fatos reais ocorridos na Holanda durante a 2ª Guerra Mundial. Bernardus Andries
Riphagen (Jeroen van Konings Brugge) foi um grande colaborador dos nazistas
invasores, denunciando pelo menos 200 judeus , principalmente em Amsterdam. Antes, porém, chantageava as vítimas, sequestrando os seus pertences – dinheiro, joias,
objetos de arte e até imóveis. Ele prometia às famílias judias que assim que a
guerra terminasse devolveria tudo aos proprietários. Em seguida, porém, dava os
endereços de suas vítimas aos nazistas, que as enviavam para os campos de
concentração na Polônia. Quando a guerra acabou, Riphagen foi considerado traidor
e maior criminoso de guerra da Holanda. Para não ser preso, conseguiu fugir para a Espanha e
depois para a Argentina, onde fez amizade com Juan e Evita Peron, que conseguiram
evitar sua extradição para a Holanda. O filme conta toda a essa história e
ainda revela os bastidores da vida de Riphagen, como seu casamento com Greetje
(Lisa Zeerman), sua ligação com os alemães e como chantageava suas vítimas. Enfim,
Riphagen foi um verdadeiro monstro. O filme é excelente e o elenco é ótimo (atuam também Kay Greidanus, Anna Raadsveld e Sigrid Ten Napel), além
de uma primorosa reconstituição de época, destacando-se os cenários e figurinos.
Filmaço!
sexta-feira, 29 de maio de 2020
“NA PRÓPRIA PELE: O CASO
STEFANO CUCCHI” (“SULLA MIA PELLE”), 2018, Itália, disponível na plataforma
Netflix, 1h40m, direção de Alessio Cremonini, que também assina o roteiro com a
colaboração de Lisa Nur Sultan. O filme é baseado num fato verídico ocorrido na
Itália em 2009 e que chocou a opinião pública do país e de toda a Europa. Por
aqui, foi pouco divulgado. Desde jovem, Stefano Cucchi (Alessandro Borghi), sempre
esteve envolvido em problemas, principalmente por causa do consumo e tráfico de
drogas. Ele morava em Roma com uma família bem estruturada, o pai Giovanni (Giovanni
Gucci), engenheiro e construtor, a mãe Rita (Milvia Marigliano) e a irmã Ilaria
(Jasmine Trinca), com a qual sempre foi ligado. Enquanto estagiava numa das
obras do pai, Stefano saiu à noite com um amigo e foi detido pela polícia, que
descobriu em sua posse 20 gramas de haxixe e duas gramas de cocaína. Estava
começando um de seus priores pesadelos. Ele passou a madrugada sendo espancado
por dois violentos policiais que queriam obrigá-lo a confessar o nome do
traficante que lhe vende as drogas. Gravemente ferido, foi colocado numa cela
gelada e depois medicado, sempre dizendo que havia caído da escada, com medo de
uma retaliação dos policiais. Sua condição médica piorava cada vez mais e,
enquanto a família buscava informações, Stefano acabaria morrendo no sétimo dia
de detenção. Ninguém investigou o que aconteceu, revoltando ainda mais a
família de Stefano. Nos meses seguintes, sua irmã Ilaria exigiria uma resposta
da justiça italiana. Só assim o processo teve andamento até a identificação e
prisão dos policiais envolvidos. Por focalizar o tempo inteiro o sofrimento
físico do rapaz com bastante realismo, o filme incomoda e chega a ser bastante
desconfortável. Mas é muito bom como denúncia de um crime que abalou o sistema
judicial e carcerário da Itália. Destaque especial para o desempenho do ator Alessandro
Borghi na pele de Stefano Cucchi. Um show! “Na Própria Pele” estreou simultaneamente
na plataforma Netflix e no Festival de Cinema de Veneza 2018, arrancando elogios
tanto dos críticos quanto do público. Tal qual a história, trata-se de um filme bastante impactante. Vale a pena assistir! quinta-feira, 28 de maio de 2020
“A MULHER MAIS ODIADA DOS ESTADOS
UNIDOS” (“THE MOST HATED WOMAN IN AMERICA”), 2017, Estados Unidos,
1h31m – está no catálogo da Netflix. O roteiro e a direção são assinados por
Tommy O’Haver. Trata-se do filme biográfico de Madalyn Murray O’Hair, uma dona
de casa que nos anos 60 do século passado conseguiu que a Suprema Corte dos EUA
derrubasse a obrigatoriedade da leitura da Bíblia nas escolas públicas. Madalyn
defendia sua causa afirmando que “A religião é uma questão privada e só deveria
ser celebrada dentro de casa ou das igrejas”. Madalyn também questionou a
realização de cerimônias religiosas semanais na Casa Branca e contestou a
inclusão da frase “In God We Trust” (“Em Deus Nós Confiamos”) nas moedas e notas
de dólar. Não bastasse tudo isso, ainda conseguiu que a Constituição do Estado
do Texas eliminasse a exigência de acreditar em Deus para os candidatos a
cargos públicos. Além disso, ainda participava de debates com padres e pastores,
transmitidos pela TV, durante os quais falava um monte de palavrões, ofendia
Deus, o Papa e os santos, como também rasgava as Bíblias que estivessem ao seu
alcance. Imaginem a repercussão negativa que isso causou num país onde 70% da
população segue a religião cristã. Tanto é que, em 1964, ganhou capa na famosa
revista Life com o título “The Most Hated Woman in America” ao lado de sua
foto. Ao mesmo tempo, fundou a associação “Ateístas da América”, que durante
muitos anos arrecadou tantas doações que Madalyn ficou milionária, o que seria
motivo para o seu fim trágico, em 1995, quando foi sequestrada, juntamente com
seu filho e neta. O filme conta isso e mais um pouco, como as maracutaias
de Madalyn (Melissa Leo) para ganhar dinheiro e enganar o fisco. Ela chegou até
mesmo a encenar uma farsa com um pastor da igreja cristã – papel vivido por
Peter Fonda num de seus últimos filmes antes de morrer, em 2019 – para lucrar
ainda mais. Além de Melissa Leo e Peter Fonda, estão no elenco Juno Temple,
Adam Scott, Josh Lucas e Machel Chernus. Mas quem carrega o filme nas costas é
mesmo Melissa Leo, atriz norte-americana de 59 anos que já tem um Oscar de
Melhor Atriz Coadjuvante por “The Fighter” (2011). “A Mulher mais Odiada dos
Estados Unidos” é muito bom, tem um roteiro bem elaborado e atuações bastante
competentes.
quarta-feira, 27 de maio de 2020
“CONSPIRAÇÃO TERRORISTA” (“UNLOCKED”), 2017,
Inglaterra, produção Netflix, 1h43m, direção de Michael Apted (“Tudo por um
Sonho”), seguindo roteiro assinado por Peter O’Brien. O elenco é de primeira: Noomi
Rapace, John Malkovich, Michael Douglas, Toni Collette e Orlando Bloom. Mas o
filme nem tanto. Não que seja ruim. Como filme de ação até que funciona.
Trata-se de um thriller de espionagem centrado na ex-agente da CIA Alice
Racine (Rapace), especialista em interrogar suspeitos de terrorismo, mas que
agora trabalha numa Ong dedicada a atender refugiados que chegam à Europa. Quando
ela recebe o convite de seu antigo chefe na CIA, requisitando-a para ajudá-lo a
interrogar um árabe suspeito de planejar um futuro atentado com armas químicas em Londres, Alice acabará se
envolvendo num emaranhado de situações de perigo, envolvendo agentes de organizações governamentais como a
CIA, M15 e M16, estes dois últimos pertencentes ao serviço secreto da
Inglaterra. E dá-lhe tiros, pancadarias, perseguições e muita ação. A atriz
sueca Noomi Rapace, revelada nos filmes da Série Millennium (o primeiro foi “Os
Homens que não Gostavam de Mulheres"), dá conta do recado com muita competência. Ela é boa de briga e
não usa dublê para as cenas mais perigosas, tanto que quebrou o nariz durante
as filmagens. Rapace também é boa de língua: fala nada menos do que seis,
contando o sueco nativo - islandês, norueguês, dinamarquês, inglês e francês. Além
de boa atriz, Rapace também é bonita e muito simpática, conforme pude constatar
numa de suas entrevistas à televisão inglesa. Resumo da ópera: apesar de alguns
defeitos de roteiro e situações inverossímeis, “Conspiração Terrorista” é um
ótimo entretenimento.
terça-feira, 26 de maio de 2020

Atenção, colegas e amigos cinéfilos, críticos e estudantes de cinema e amantes da Sétima Arte em geral. Não dá para perder “FILMANDO CASABLANCA” (“CURTIZ”), 2018, Hungria, 1h38m, produção Netflix (estreou dia 20 de março de 2020), direção de Tamás Yvan Topolánszky, que também assina o roteiro juntamente com Zsuzsanna Bak e Ward Parry. O filme é todo centrado no consagrado diretor húngaro Michael Curtiz (1886-1962), responsável por “Casablanca”, talvez o filme mais elogiado e badalado do século 20. Falado em inglês e húngaro e ambientado nos primeiros meses de 1942, “Filmando Casablanca” acompanha os bastidores das filmagens do clássico norte-americano, mas o foco central é sempre Curtiz, apresentado como um homem arrogante, autoritário (humilhava aos berros o pessoal da sua equipe, atores e figurantes) e mulherengo ao extremo, mas um gênio da Sétima Arte. Todo em preto e branco, com uma fotografia exuberante de Zoltán Dévényi, o set das filmagens de “Filmando Casablanca” foi construído como uma verdadeira réplica do cenário original, criado nos estúdios da Warner Bros. O filme mostra o alto nível de estresse que tomou conta das filmagens, a começar pelas reuniões entre Jack L. Warner (Andrew Hefler), o produtor Hal B. Wallis (Scott Alexander Young)o chefão do estúdio, e Michael Curtiz, que contavam ainda com a presença do representante (censor) do governo norte-americano, Johnson (Declan Hannigan), que insistia toda hora em interferir no roteiro – as filmagens começaram logo após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor, o que resultou na entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Johnson insistia para que o filme servisse como propaganda patriótica em tempos de guerra. Não bastasse isso, Curtiz teria de lidar com a visita inesperada de sua filha Kitty (Evelin Dobos), que não via há muitos anos. Outro fator que atormentava Curtiz eram os pedidos desesperados de sua irmã que tentava fugir da Hungria para não ser mandada para algum campo de concentração (a família de Curtiz era judia). Para aumentar ainda mais a alegria dos cinéfilos, o filme mostra ainda como as gravações foram feitas, as inesperadas mudanças no roteiro e o surpreendente detalhe sobre o avião ao fundo na cena final, construído de papelão sobre uma armação de madeira. Os atores que representam Humphrey Bogard e Ingrid Bergman aparecem sempre de relance, desfocados, uma maneira que o jovem diretor Topolánszky, de apenas 33 anos, encontrou para enfatizar que o astro do seu filme é o diretor Michael Curtiz. Enfim, um filme delicioso que os amantes de cinema terão - como eu tive - o privilégio de saborear. IMPERDÍVEL com letra maiúscula!
domingo, 24 de maio de 2020
“A PRIMEIRA LINHA” (“PROMAKHOS”,
título original em grego, ou “The First Line” nos países de língua inglesa – a tradução
para o português é minha, baseado no título em inglês), 2014, coprodução
Estados Unidos/Grécia/Inglaterra, 1h43m, disponível na plataforma Netflix. Roteiro
e direção são assinados pelos irmãos John e Coertes Voorhees. Para entrar no
comentário do filme propriamente dito, vamos aos fatos históricos que serviram de
base ao roteiro. No início do século XIX, Lord Elgin, embaixador inglês junto
ao império otomano (na época, a Grécia era dominada pelo império otomano), surrupiou
do Parthenon, em Atenas, várias esculturas de mármore e levou tudo para a
Inglaterra (ficariam conhecidas como “Os Mármores do Parthenon"). Alguns anos
depois, Lord Elgin ficou sem dinheiro e vendeu as peças para o British Museum,
em Londres. Muitos anos depois, em 2009, a direção do recém-inaugurado Museu da Acrópole de Atenas
resolveu contratar dois advogados atenienses para entrar com um processo contra
o Britsh Museum com o objetivo de resgatar as peças e devolvê-las à Grécia. Vamos
agora ao filme. Os advogados Andreas (Pantelis Kodogiannis) e Eleni (Kassandra Voyagis),
representando o Museu de Acrópole, preparam a acusação baseados,
principalmente, no valor inestimável que as peças representam para a própria
história do povo grego. Já em Londres, numa das primeiras reuniões entre os representantes
do British Museum e os advogados do Museu de Acrópole, há uma cena espetacular
durante a qual o gerente da Acrópole utiliza hologramas para explicar o dano
irreparável que o roubo das peças significou, inclusive colocando em risco a
própria estrutura do monumento grego. Os efeitos visuais são incríveis, uma verdadeira
aula para historiadores, arqueólogos e arquitetos. As discussões preliminares
entre as partes e durante o julgamento são de altíssimo nível, envolvendo
questões históricas, filosóficas e jurídicas, tornando-se o grande trunfo deste
ótimo filme. Também há que se destacar os cenários da Acrópole, onde as estão o
Parthenon e outros monumentos históricos da Grécia. A crise econômica da
Grécia, iniciada em 2008, também ganhou espaço no filme, principalmente os protestos
violentos ocorridos em Atenas no início da segunda década deste século. As
caminhadas dos advogados pelas ruas da capital grega durante as manifestações
também merecem destaque. Como última nota, gostaria de salientar a presença, no elenco, dos veteranos atores Giancarlo Giannini, Paul Freeman e Michael Byrne. Enfim, “Promakhos” é cinema da melhor qualidade. Não percam!
sábado, 23 de maio de 2020
“LOST GIRLS – OS CRIMES DE
LONG ISLAND” (“LOST GIRLS”), 2020, Estados Unidos, produção
Netflix, 1h35m, primeiro longa-metragem dirigido por Liz Garbus, conhecida e
premiada documentarista. O roteiro foi escrito por Michael Werwie, que adaptou
as informações fornecidas pelo livro “Lost Girls: An Unsolved American Mistery”,
escrito pelo jornalista Robert Kolker. A história é baseada num caso real ocorrido
em 2011 que chocou os Estados Unidos. Cerca de 16 mulheres foram encontradas
mortas na região de Long Island (ilha ao sudeste de Nova Iorque). A maioria
garotas de programa. As características dos homicídios faziam supor de que se
tratava de um serial killer. Desde o início, a polícia não deu muita
importância ao caso, ficando evidente que as vítimas, por serem prostitutas,
não mereciam um esforço maior. Resumindo, o assassino não foi preso até hoje. O
foco principal de “Lost Girls” está todo direcionado para Mari Gilbert (a
excelente Amy Ryan), a primeira mãe a exigir da polícia um empenho maior para
encontrar sua filha mais velha desaparecida, Shannan (Sarah Wisser). Quando a
polícia resolveu se mexer, quatro corpos de mulheres foram encontrados – mais
tarde, outros tantos. Sob a pressão da imprensa e da opinião pública, as investigações
foram finalmente reforçadas. Sempre ao lado das filhas menores Sherre (Thomasin
McKenzie) e Sarra (Oona Lawrence), Mari Gilbert não deu sossego ao detetive
Richard Dormer (papel do ator irlandês Gabriel Byrne), além de denunciar o
descaso policial para a mídia. Maria chegou até a participar de um grupo de
mães e familiares de jovens desaparecidas, o que virou pauta nos principais
meios de comunicação dos EUA, transformando o caso numa grande comoção
nacional. O filme é muito bom, repleto de suspense e muita tensão. Para reforçar
o enfoque realista do caso, a diretora Liz Garbus acrescentou inúmeras cenas dos
noticiários dos telejornais da época. Antes dos créditos finais, a verdadeira
Mari Gilbert aparece dando uma entrevista – em 2016, ela seria assassinada pela
própria filha Sarra. Como dizia minha vó, “desgraça pouca é bobagem”. Resumo da
ópera, aliás da tragédia grega: vale a pena assistir “Lost Girls”. Está lá à
disposição na plataforma Netflix.
Passei a admirar o trabalho do
cineasta dinamarquês Bille August quando assisti “Pelle, O Conquistador”
(1991), filme que conquistou, entre outros prêmios importantes, a Palma de Ouro
do Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Uma obra-prima. Depois vieram “A Casa dos Espíritos” (1993), “Mandela” (2007), “Marie
Kroyer” (2012), “Trem Noturno para Lisboa” (2013) e “55 Passos (2017), entre
tantos outros. Aos 71 anos, August continua em plena forma, como demonstra em
seu filme mais recente, “UM HOMEM DE SORTE” (“LYKKE-PER”), 2018,
produção Netflix, 2h47m. A história é baseada no livro autobiográfico do
escritor dinamarquês Henrik Pontoppidan (Prêmio Nobel de Literatura em 1917),
que leva o mesmo nome original do filme, o qual August transformou num
verdadeiro épico. Vamos acompanhar a trajetória do jovem Peter Andreas Sidenius
(Esben Smed), que um dia resolve sair de casa, em Jutland, para tentar a sorte
na capital Copenhague. Além de uma pequena mala de roupas, Sidenius também carregou
o trauma de uma infância pobre e uma educação religiosa cristã rígida à base de
tabefes. Peter sempre foi considerado um jovem sem futuro, principalmente por
não obedecer a religião da família. Peter chega a Copenhague e inicia seus
estudos de engenharia. Na cabeça, um projeto revolucionário na área de produção
de energia, o que o levaria a conhecer Ivan Salomon (Benjamin Kister), o
herdeiro de uma família judia muito rica. Peter é introduzido na família
Salomon e, a partir daí, inicia sua ascensão como figura proeminente na
sociedade de Copenhague. Casará com a filha mais velha da família Solomon, Jakobe
(Katrine Greis-Rosenthal), fará um período de estudos na Áustria com um
renomado professor de engenharia e voltará para Copenhague disposto a
implementar o seu projeto. Sua arrogância e um orgulho exagerado, porém, serão obstáculos
para os seus objetivos e determinarão sua posterior decadência. Enfim, uma história muito
interessante que August desenvolveu com maestria, principalmente com relação à primorosa
reconstituição de época, destacando-se os cenários e os figurinos. Enfim, mais
um belíssimo trabalho do cineasta dinamarquês. IMPERDÍVEL!
quinta-feira, 21 de maio de 2020
“OUÇA O SILÊNCIO” (“HÖRE DIE
STILLE”) – a tradução do título em português é minha, já que o
filme não chegou por aqui (nos países de língua inglesa, ficou “Hear the Silence”),
2016, Alemanha, 1h34m, direção de Ed Ehrenberg, seguindo roteiro de Axel
Melzener. É um drama ambientado em outubro de 1941, em plena Segunda Guerra
Mundial, contando a história trágica de um episódio que, aparentemente, foi
inspirado em um caso real, já que o filme começa e termina com um áudio em off
do que parece ser um interrogatório dentro de uma corte marcial. Vamos à
história: um grupo de soldados alemães fica perdido de seu batalhão após uma
escaramuça com o exército russo e vai parar numa pequena vila no interior da
Croácia, onde só há idosos, mulheres e crianças. Todos os moradores têm
descendência alemã e recebem os soldados alemães como seus libertadores, já que
temem a chegada dos russos e suas consequências. O fato de falarem a mesma
língua facilita o entrosamento entre soldados e moradores. Com a convivência
diária, o relacionamento melhora bastante, eliminando aquela desconfiança mútua
do início. Surgem até alguns romances. O mar de rosas, porém, acaba quando o tenente
Markus Wenzel (Lars Doppler) assassina uma moça e depois é morto num ato de
vingança. A partir daí, o clima fica péssimo e, claro, acaba em tragédia.
Quando fui verificar se o filme foi ou não baseado em fatos reais, descobri apenas
que foi planejado para ser um filme de graduação de estudantes da Academia de
Cinema de Munique, mais tarde roteirizado por Axel Melzener, transformando-se,
por fim, em “Höre Die Stille”. O contexto é trágico demais, triste e violento,
mas não há dúvida que é mais um excelente filme da fonte interminável de episódios
da Segunda Guerra Mundial, tanto é que foi premiado em vários festivais mundo
afora. Mas passa longe de ser um entretenimento agradável de assistir.
quarta-feira, 20 de maio de 2020
“O SILÊNCIO DO PÂNTANO” (“EL
SILENCIO DEL PANTANO”), 2020, Espanha, produção Netflix (estreou
dia 22 de abril), 1h32m, direção de Marc Vigil, seguindo roteiro
assinado por Carlos de Pando e Sara Antuña. Trata-se de um suspense psicológico
centrado numa figura meio sinistra e misteriosa, tão indecifrável que é
conhecido apenas como “Q” (Pedro Alonso, de “La Casa de Papel”), um
ex-jornalista que se tornou um escritor de sucesso, especializado em livros
policiais. Quando reunia subsídios para o seu próximo romance, que abordará
casos de corrupção, “Q” começa a desenvolver um lado psicótico, o mesmo que caracteriza
seu personagem principal no livro. Uma de suas primeiras vítimas (do autor ou do
personagem?) é um importante ex-ministro espanhol da área econômica, o hoje
professor universitário Ferrán Carretero (José Angel Egito). Depois de
descobrir que Carretero está envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro em
sociedade com uma quadrilha de traficantes, “Q” o sequestra e o mantém
preso numa casa isolada à beira do pântano. O sumiço do ex-ministro faz acender
o alerta vermelho para a gangue de traficantes comandada pela repugnante Puri
(Carmina Barrios), que coloca em campo o seu braço direito, o sanguinário Falconetti
(Nacho Fresneda), para tentar descobrir o que aconteceu com Carretero. O filme também retrata a corrupção reinante na polícia de Valência, na figura da delegada Isabel (Maite Sandoval). O resultado
final, assim como o filme inteiro, não convence, talvez pela falta de
experiência tanto dos roteiristas como do diretor, todos estreantes em
longa-metragem, que não souberam explorar uma história que poderia se transformar numa produção interessante. O bom elenco se esforçou e ainda tentou dar alguma dignidade ao filme, mas
mesmo assim não foi suficiente. Enfim, não me convenceu.
segunda-feira, 18 de maio de 2020
“MORTE ÀS SEIS DA TARDE” (“PLAGI
BRESLAU”), 2018, Polônia, 1h50m, roteiro e direção de Patryka Vegi,
que se inspirou em romance do escritor Marek Krajewski. Filme policial centrado
na investigação de crimes cometidos por um serial killer em Breslávia
(Wroclaw, em polaco), cidade polonesa na região da Baixa Silésia. Os corpos são
encontrados com requintes de crueldade, decapitados e queimados, com sinais evidentes
de torturas sádicas e violentas - os crimes aconteciam sempre às 18 horas. Aviso: as cenas são chocantes, talvez
realistas demais, mas muito bem realizadas. A primeira vítima, por exemplo, é
encontrada dentro da carcaça de um boi. A segunda, arrastada aos pedaços por
dois cavalos de corrida, e daí por diante. A depressiva e mal-humorada detetive
Helena Rus (Malgorzata Kozuchowska) é encarregada de investigar os
assassinatos. Para auxiliá-la na missão, Varsóvia envia uma policial
especializada em homicídios, Iwona (Daria Widawska), um tipo machão que não
leva desaforo para casa. É justamente Iwona que encontrará uma pista mais
concreta sobre os assassinatos. Ela descobriu que os crimes podem estar ligados
a fatos ocorridos na cidade no Século 18, quando criminosos eram mortos numa
tal “Semana das Pragas”. A cada dia, eram executados os condenados por roubo,
corrupção, degeneração, calúnia, mentira e opressão. Tudo bem que a história é
um tanto mirabolante, mas, de
qualquer forma, trata-se de um filme que caminha num bom ritmo, com muita ação
e algumas reviravoltas interessantes e surpreendentes. Se há alguns bons
motivos para assisti-lo, um deles é a arquitetura em estilo gótico da cidade de
Breslávia, garantindo um visual bastante agradável. Uma cidade muito bonita. Para quem gosta de filmes
policiais, este é um tiro certo. domingo, 17 de maio de 2020
“O DESPERTAR DE MOTTI” (“WOLKENBRUCH”), 2019, Suíça,
1h33m, direção de Michael Steiner, com roteiro de Thomas Mey, representou a
Suíça na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme Estrangeiro. Trata-se de uma
comédia cuja história é baseada num livro do próprio roteirista Meyer, ou seja,
“A Maravilhosa Jornada Wonkenbruch nos Braços de um Shiksa”. O personagem
principal é o jovem Mordechai “Motti” Wolkenbruch (Joel Basman), que vive com os
pais judeus ortodoxos na comunidade judaica de Zurique. Com vinte e poucos
anos, Motti ainda é completamente dominado pela mãe Judith (Inge Maux Murer),
que insiste em incentivá-lo a seguir a tradição judaica, ou seja, casar com uma
jovem judia. Ela chega a promover nada menos do que 10 “shidduchs” (encontros
forçados entre jovens judeus para gerar casamentos) num único dia, para Motti
finalmente encontrar uma esposa, o que resulta em cenas hilariantes. A intenção
de Judith vai por água abaixo quando Motti conhece Laura (Noémie Schmidt) na faculdade
e se apaixona perdidamente. Só que Laura é uma jovem “shiksa” (não
judia) e, ainda mais, alemã. As crises histéricas de Judith ao ver o filho se
desvincular das tradições judaicas geram situações bastante engraçadas. Quando Motti
resolve raspar a barba e troca a armação dos óculos, ele chega a ser comparado
ao diretor Woody Allen, que costuma satirizar os judeus ortodoxos em seus
filmes, principalmente nas suas falas em off – Motti faz a mesma coisa,
mas dialogando com o espectador. Falado em iídiche, alemão e hebraico, “O
Despertar de Motti” é uma comédia muito divertida. Imperdível!
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