“JUNTAS NO CRIME” (“SWEETHEARTS”), 2019
Alemanha, 1h47m. Seja qual for o país, virou moda colocar o título original em
inglês, com vistas, naturalmente, a facilitar a entrada do filme nos países de
língua inglesa. Pesquisei o mesmo título em alemão e tem o mesmo significado do
inglês: “Namoradas”. Estranhei, pois não é o caso de um filme lésbico. A
tradução para o português até que ficou melhor. É o segundo longa-metragem
escrito e dirigido pela atriz Karoline Herfurth, que também atua como um dos
personagens principais. Trata-se de um misto de comédia, policial e filme de
ação. Vamos à história: Mel (Hanna Herzsprung) é mãe solteira e trabalha como
funcionária de um grande hospital em Berlim. Nas horas vagas, costuma assaltar
joalherias e vender o produto do roubo para importantes receptadores. Um dos
assaltos, porém, dá errado, e Mel é obrigada a fazer uma refém, Franny (papel
da diretora Herfurth). Aí começa um tipo de road movie. As duas partem
pelas estradas afora fugindo da polícia, em meio a várias confusões com gente da pesada. Mas, como refém, Franny é um desastre.
Costuma ter ataques violentos de pânico, que só passam quando ela joga um game
no celular chamado “Banana Kong”. Em meio à fuga, Mel faz mais um refém, desta
vez o policial Harry (Frederick Lau). Aí o filme se perde mostrando situações
das mais inverossímeis, terminando num desfecho que beira o ridículo. Como roteirista
e diretora, Karoline Herfurth mostrou que continua uma ótima atriz. É um filme simpático, mas, com exceção de alguns momentos
de bom humor, nada vi que justifique uma recomendação. A não ser que você
queira dar uma folga aos seus neurônios.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
terça-feira, 7 de abril de 2020
“DE QUEM É A CULPA?” (“GUILTY”),
2019,
Índia, 1h59m, direção da cineasta Ruchi Narain, com roteiro de Kanika Dhillon.
O pano de fundo que inspirou a história é o alarmante crescimento, nos últimos
anos, de estupros contra mulheres na Índia, o que justifica o fato da
roteirista e da diretora serem do sexo feminino. No caso de “De Quem é a Culpa?”,
a vítima é uma jovem estudante que acusa o bonitão da escola de tê-la
estuprado. Ele tem uma namorada fixa, é vocalista de uma banda de rock e filho
de gente importante ligada ao governo indiano e que, por isso mesmo, a acusação
ganha enorme repercussão no país. Como as coisas vão se desenrolando, eu
esperava o desfecho num tribunal, mas, para minha decepção, as cenas de
julgamento duram poucos segundos. Com exceção de um ou outro adulto, o elenco é
constituído em sua grande maioria por jovens adolescentes, o que chega a lembrar
de algum episódio de “Malhação”. Posso citar alguns nomes do elenco,
mas certamente ninguém por aqui deve conhecê-los, nem mesmo eu, que já vi um
monte de filmes indianos. Kiara Advani, Ashrut Jaim e Akansha Ranjan Kapoor.
Conhece alguém? Nem eu. Destaco um aspecto muito interessante em relação a “De
Quem é a Culpa?”. Trata-se do fato de ser bastante diferente dos filmes de
Bollywood. A começar pela ausência daqueles irritantes e entediantes números
musicais e de dança, o que achei um ponto bastante positivo. Outro aspecto diz respeito
ao fato de que o filme apresenta cenas que Bollywood não costumava filmar, como
jovens transando, bebendo álcool, fumando um baseado e falando um monte de
palavrões. Aliás, para facilitar seu ingresso no mercado internacional, o filme
é quase todo falado em inglês (como o título original) e um pouco de hindi,
língua falada por 70% dos indianos. Enfim, “De Quem é a Culpa?” pode ser visto
como uma novidade do cinema de Bollywood. Nem bom nem ruim, apenas
interessante.
segunda-feira, 6 de abril de 2020
Representante oficial de Israel
na disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “O CONFEITEIRO” (“The
Cakemaker”), 1h53, foi é o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por
Ofir Raul Graizer, mais conhecido em Israel como diretor de curtas. Sem dúvida,
estreou de forma magistral, realizando um filme bastante sensível e muito
interessante. A história começa em Berlim e envolve o confeiteiro Thomas (Tim
Kalkhof), proprietário de uma confeitaria, e o israelense Oren (Roy Miller), um
importante executivo que costuma viajar à Alemanha para cuidar dos negócios de
sua empresa. Atraído pela qualidade dos bolos feitos por Thomas, Oren vira um
cliente assíduo da confeitaria. Papo vai, papo vem, Oren sente-se atraído não
apenas pelos bolos, mas também pelo confeiteiro. Embora casado em Israel e pai
de um menino, Oren assume o romance com Thomas, resultando num aumento de viagens
a Berlim. O caso fica mais sério, a ponto de Oren pensar em abandonar a família
e ir morar com o amante. Um dia, porém, acontece um trágico imprevisto: Oren
morre num acidente automobilístico. Devastado pela notícia e, ao mesmo tempo,
disposto a conhecer pessoalmente a esposa de Oren, Anat (Sarah Adler), e quem
sabe ajudá-la nesse momento difícil, Thomas resolve ir para Jerusalém. Sem se
identificar, ele procura trabalho na cafeteria de propriedade de Anat. A partir
daí, além de conseguir o trabalho como ajudante de cozinha, Thomas começa a
preparar seus famosos cookies e bolos que farão o maior sucesso, atraindo
muitos clientes para a cafeteria de Anat. De início, o alemão, por razões históricas
óbvias, não foi bem recebido pela família e amigos de Anat. Ainda mais por não
ter qualquer vínculo com a religião judaica. Mas Anat segura a barra, até
que... A partir daqui, deixo as surpresas do roteiro a quem se dispuser a
assistir ao filme, que, como escrevi no início deste comentário, foi escrito e dirigido com muita competência e sensibilidade pelo cineasta israelense. Indicado apenas para o
pessoal que, como eu, exige qualidade e curte o bom cinema. Imperdível!
sábado, 4 de abril de 2020
“O
AUTOR” (“EL AUTOR”), 2017, Espanha, produção Netflix, 1h52m,
direção de Manuel Martín Cuenca (“Canibal”), que também assina o roteiro
juntamente com Alejandro Hernández. Na verdade, é um roteiro adaptado, cuja
inspiração veio do livro “O Motivo”, de 2005, escrito por Javier Cercas. Trata-se
de um misto de drama e suspense psicológico, com pitadas de humor negro. A história
é centrada em Álvaro (Javier Gutiérrez), advogado de um cartório quer pretende
ser escritor. Para isso, frequenta as aulas de redação e literatura do
professor Juan (Antonio de La Torre). De início, ela não demonstra muito
talento e, por isso, Juan pega no seu pé, sendo até ofensivo. Mas Álvaro não
desiste. Nem mesmo quando descobre que sua esposa Amanda (María León) anda
pulando a cerca. Durante uma aula, o professor explica para os alunos que é
importante sair às ruas, conversar e interagir com as pessoas, ouvir o que elas
falam. Só assim serão capazes de criar personagens e escrever um livro. Depois que
se separou da esposa, Álvaro passa a morar num prédio e resolve conversar com
todos os vizinhos - e também ouvir o que eles dizem entre quatro paredes. Dessa forma, faz amizade com um casal de imigrantes
mexicanos, com um senhor que vive enaltecendo os tempos do Generalíssimo Franco
e com a síndica do condomínio (Adelfa Calvo). Durante as conversas, Álvaro
acabará se envolvendo com o dia a dia dos moradores. É dessa interação que ele
consegue inspiração para criar seus personagens e construir uma história para compor
seu primeiro romance. Ele leva tão a sério o seu trabalho que muitas vezes costuma
sentar-se para escrever completamente nu, como soube que fazia Ernest Hemingway,
seu ídolo na literatura. Trata-se de mais um excelente, criativo e original
drama espanhol. E, melhor, com uma reviravolta surpreendente no final, transformando
“O Autor” num ótimo entretenimento. Sua estreia mundial aconteceu no Toronto International
Film Festival, em 2017, e logo em seguida conquistou os prêmios Goya 2018 (o
Oscar espanhol) de Melhor Ator (Gutiérrez) e de Melhor Atriz Coadjuvante
(Adelfa Calvo).
sexta-feira, 3 de abril de 2020
“GRAÇAS
A DEUS” (“GRÂCE À DIEU”), 2018, França/Bélgica, 2h17m, roteiro e
direção de François Ozon. Grande vencedor do Prêmio do Júri (“Urso de Prata”)
do Festival Internacional de Cinema de Berlim/2019, o filme consagra o cineasta
francês François Ozon como um dos melhores diretores do cinema atual (leia
algumas dicas de seus filmes no final deste comentário). Inspirado em fatos
ocorridos na França, especificamente na cidade de Lyon, Ozon vai a fundo no
psicológico devastado das vítimas do padre pedófilo Bernard Preynat (Bernard
Verley), que nas décadas de 1980 e 1990 abusou de vários garotos que integravam
um grupo de escoteiros, fatos que viriam a público
muitos anos mais tarde. Alexandre Guérin (Mevil Poupaud), um respeitado
empresário e chefe de família, vítima do padre quando garoto, ficou revoltado
ao ler uma notícia de que Preynat continuava trabalhando com crianças. Com o apoio
da família, ele resolve denunciar o padre ao cardeal Philippe Barbarin (François
Marthouret). Uma psicóloga da paróquia de Lyon promove uma acareação entre Preynat
e Alexandre. O pedófilo confirma os fatos, mas não pede perdão a Alexandre. Além
disso, o cardeal Barbarin firma posição de que tal crime já está prescrito. É a
gota d’água para que Alexandre resolva denunciar publicamente o que aconteceu.
Daí para a frente, várias outras vítimas de Preynat, cujos abusos não podem ser
prescritos, resolvem se posicionar, o que culmina na criação da associação “Palavra
Liberada”. As vítimas resolvem entregar o padre pedófilo à polícia, além de denunciarem
o cardeal Barbarin por omissão. Nesse ponto, o diretor Ozon faz questão de
destacar a burocracia administrativa da Igreja na tomada de uma posição, uma
atitude que denota um forte corporativismo. Embora um tanto verborrágico, o
filme consegue manter um ritmo quase que frenético do começo ao fim, num clima
de forte tensão psicológica. Também fazem parte do elenco Aurélia Petit, Éric
Caravaca, Denis Ménochet, Sinan Arlaud, Josiane Balasco, Hélène Vincente e
Amélie Daure. Para encerrar o comentário, conforme prometido, indico outros
ótimos de François Ozon: “Frantz”, “O Amante Duplo”, “Jovem e Bela”, “Swimming
Pool”, “Uma Nova Amiga” e “Dentro de Casa”, este último, na minha opinião, o
melhor de Ozon. “Graças a Deus” é mais um filme imperdível do diretor francês.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Não é sempre que a gente
descobre uma joia como o criativo e original “UMA MULHER EM GUERRA” (“KUNA
FER I STRÍD”; nos países de língua inglesa, “Woman at War”), 2018,
Islândia, 1h41m, segundo longa-metragem do ator e cineasta islandês Benedikt
Erlingsson. A história é centrada na cinquentona Halla (Halldora
Geirhardsdottir), uma ativista ambiental que resolve sabotar as linhas de energia
nas montanhas de sua região como forma de protesto contra uma fundição de alumínio,
que estaria poluindo os rios e o meio ambiente de seu país. Sua guerra
particular acaba tomando proporções enormes, mobilizando a imprensa do país e suas
autoridades, que iniciam uma verdadeira caçada contra “os terroristas” que querem
destruir a economia da Islândia. Halla tem uma vida dupla, alternando suas
atividades de ativista com a de professora de música. Ela é a respeitável cidadã
responsável pelo coral da terceira idade de sua vila, um disfarce que não
admite erros. Sua perspectiva tende a mudar quando ela recebe uma carta de uma Ong
responsável pela adoção de crianças órfãs originárias de países em conflito. Era
a resposta que ela aguardava há quatro anos: a Ong tinha descoberto uma menina
na Croácia que estava à sua disposição para adoção. Juntamente com essa
novidade, surge em cena Ása (papel da própria Halldora), irmã gêmea de Halla. As
duas devem resolver a questão estratégica da adoção, pois é exigido que Halla
vá à Croácia buscar a criança. Antes disso, porém, Halla quer fazer mais uma
sabotagem, desta vez mais contundente. Em algumas cenas, aqui beirando o
surreal, músicos e cantoras folclóricas acompanham as ações de Halla, um
recurso que lembra os coros de teatro grego. Além de muito movimentado, o filme
reúne gêneros como drama, comédia, política e consciência ambiental. O filme
estreou no Festival de Cannes 2018, sendo indicado para o grande prêmio “Critics’
Week”. Além disso, foi vencedor do 12º Prêmio Lux de Cinema, premiação promovida
pelo Parlamento Europeu. “Uma Mulher em Guerra” também representou a Islândia
no Oscar 2019 como Melhor Filme Internacional. Por aqui, chegou a ser exibido
durante a programação oficial da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo, em outubro de 2018. A atriz e diretora norte-americana Jodie Foster gostou
tanto do filme islandês que já está filmando um remake nos Estados Unidos. Enfim, “Uma
Mulher em Guerra” é um filme genial, uma verdadeira pérola do cinema mundial.
IMPERDÍVEL com letras maiúsculas!
“A TRINCHEIRA INFINITA” (“La
Trinchera Infinita”), 2019, Espanha, 2h27m, produção e distribuição
Netflix, direção de Jon Garaño e Aitor Arregi, seguindo roteiro assinado por
Luiso Berdejo e Jose Maria Goenaga. A história, baseada em fatos reais, tem
como pano de fundo a situação política da Espanha desde o início da Guerra
Civil Espanhola (1936-1939), passando pela Segunda Guerra Mundial e o período
posterior em que o Generalíssimo Franco governou o país com mãos de ferro. Na
verdade, o enredo vai até 1969. É uma história incrível, toda ambientada num
vilarejo do interior da Espanha. No início da Guerra Civil, houve uma grande
caçada aos comunistas. Um deles era Higinio Blanco (Antonio de la Torre), que
passou a ser procurado como inimigo número 1 pela polícia local. Com o cerco ao
vilarejo, impedindo qualquer fuga, Higinio resolve se esconder num porão da
casa, ajudado pela esposa Rosa (Belén Cuesta). Esse confinamento só terminaria
em 1969, acredite se quiser. Nesse longo período de 33 anos, Higinio também
ficaria escondido na casa de seu pai, num quarto construído especialmente para
se transformar em esconderijo. Enquanto Rosa costurava e consertava roupas para
o pessoal da vila, Higinio só tinha contato com o mundo exterior apenas através
de um buraco na parede, devidamente disfarçado atrás de um espelho. Mesmo em
1963, quando Franco decretou a anista ao pessoal envolvido em questões
políticas, Higinio decidiu não sair da toca. Para destacar ainda mais a sensação
de claustrofobia dos dois personagens, a fotografia foi realizada em tons
escuros até quase o desfecho. Eu já conhecia Antonio de la Torre e Belén Cuesta
de outros carnavais, ou melhor, de outros bons filmes. Dele, eu já tinha
assistido, entre outros filmes, o espetacular “O Candidato” (“El Reino”) e “Que
Dios nos Perdone”. Dela, lembro da recente comédia “O Outro Pai” e “Kiki: Os Segredos
do Desejo”. Juntos agora em “A Trincheira Infinita”, os dois esbanjam
competência. O filme foi lançado na plataforma Netflix no dia 28 de fevereiro
de 2020, mas antes foi exibido no Festival Internacional de San Sebastian 2019,
onde ganhou os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Disputou também o
Goya (o Oscar espanhol), conquistando os prêmios de Melhor Atriz (Cuesta) e de
Melhor Som. Excelente!
terça-feira, 31 de março de 2020
“JUSTIÇA EM CHAMAS” (“TRIAL BY
FIRE”), 2019, Estados Unidos, 2h7m, direção de Edward Zwicz, com
roteiro de Geoffrey Fletcher, adaptado do livro “Trial by Fire”, escrito por
David Grann. O filme relembra um caso de grande repercussão nos Estados Unidos,
que tem como pano de fundo os prós e contras envolvendo a pena de morte. No
caso, os contras. A história, baseada em fatos reais, é toda centrada em
Cameron Todd Willingham (Jack O’Connell), que, em 1991, foi preso acusado de
provocar o incêndio que resultou na morte de suas três filhas, duas das quais
gêmeas. Ele foi julgado e condenado à morte por injeção letal (o fato aconteceu
no Texas). Alguns anos antes da execução, Elizabeth Gilbert (Laura Dern), uma
dona de casa viúva, passou a enviar cartas a Cameron e até agendou uma visita ao
presidiário. Depois de inúmeras cartas trocadas e outras tantas visitas,
Elizabeth ficou obcecada pelo fato de que o inquérito tinha várias falhas e resolveu
contratar um advogado para entrar com recurso para rever os detalhes do
julgamento. Não conseguiu reverter a situação de Cameron, que foi executado em
2004. Poucos anos depois, uma matéria investigativa publicada pela tradicional
revista “The New Yorker” revelava estudos científicos que provaram ser Cameron
inocente da acusação. O filme revela em detalhes os bastidores de toda a história,
com um roteiro bem engendrado por Geoffrey Fletcher, que já havia conquistado
um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por “Preciosa – Uma História de Esperança”
(2010). O currículo invejável do diretor Edward Zwicz também é um bom aval de
qualidade: “Jack Reacher: Sem Retorno”, “O Dono do Jogo”, “Amor e Outras Drogas”,
“Um Ato de Liberdade”, “Diamante de Sangue” e “O Último Samurai”. Resumo da
ópera: “Justiça em Chamas” é um bom entretenimento, valorizado pelas atuações
da sempre ótima Laura Dern e do ator inglês Jack O’Connell.
segunda-feira, 30 de março de 2020
“O INFORMANTE” (“THE INFORMER”), 2019,
EUA, 1h53m. Todo mundo que trabalhou no filme é de um país diferente,
transformando a produção numa verdadeira ONU. O diretor Andrea Di Stefano é
italiano; os roteiristas Anders Roslund e Borge Hellstrom são suecos; o ator
principal, Joel Kinnaman, é sueco radicado nos Estados Unidos; Rosamund Pike e
Clive Owen são ingleses; e Ana de Armas é uma atriz cubana radicada nos EUA. Claro
que essa diversidade não prejudicou o filme, pois é todo mundo muito competente. Toda a história é centrada em Pete
Koslow (Kinnaman), ex-soldado da equipe de Operações Especiais do exército norte-americano, um
briguento que cumpre pena depois de espancar e matar um sujeito em defesa de
Sofia (Ana de Armas), sua esposa. Em troca da redução da pena, ele é cooptado
pelos agentes do FBI Wilsox (Pike) e Montgomery (Owen) para se infiltrar numa
gangue da máfia polonesa chefiada por um tal de “General”, que estava dominando
o tráfico de drogas em Nova Iorque. A missão de Koslow não é nada fácil: ser
enviado para uma prisão de segurança máxima onde o pessoal do “General” mandava
e desmandava. Para isso, teria proteção total do FBI e do próprio diretor da
prisão. Para encurtar a história e não revelar detalhes, destaco apenas que
Koslow vai comer o pão que o diabo amassou, pois será perseguido não só pelo
pessoal da gangue polonesa, mas também pela polícia novaiorquina e pelo próprio
FBI, que havia lhe prometido proteção. Como filme de ação, funciona
perfeitamente, garantindo momentos de muita tensão, suspense e pancadarias.
sábado, 28 de março de 2020
“LUCE”, 2019,
EUA, 1h49m, roteiro e direção de Julius Onah, cineasta nigeriano radicado nos
Estados Unidos. É o terceiro longa-metragem de sua carreira. Para escrever o
roteiro, Julius teve como inspiração a peça teatral escrita por J.C. Lee, que
também colaborou no filme. Trata-se de um suspense psicológico centrado no
jovem Luce Edgar (Kelvin Harrison Jr.), um ídolo em sua escola, admirado por
alunos e professores, além de orador oficial da turma nos principais eventos do
colégio. Ele havia sido adotado quando tinha 7 anos, trazido da Eritreia – país
da África Oriental - pelo casal Peter (Tim Roth) e Amy Edgar (Naomi Watts). Acontece
que Luce, por suas reações contraditórias, tinha a desconfiança da professora
Harriet Wilson (Octavia Spencer). Como se não bastasse, ela acabaria
encontrando no armário do rapaz um artigo político incitando à violência como
forma de resolver conflitos. Além disso, havia um pacote com fogos de
artifício. As situações levam a crer que Luce não era um jovem perfeito, aquele
anjo que parecia ser, mas que tinha um lado obscuro, aspecto que sua mãe
protetora jamais acreditaria. A situação cria um mal estar entre Luce e a
professora, envolvendo os pais do rapaz e a direção da escola. Nesse sentido, o
trabalho dos atores valoriza o clima tenso que vai do começo ao fim do filme.
Destaque especial para a interpretação magistral do jovem ator Kelvin Harrison
Jr., de apenas 25 anos, e também da sempre espetacular Octavia Spencer, que tem
um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Histórias Cruzadas” (2012). Naomi
Watts também está ótima como a mãe superprotetora que não vê defeitos no filho. E, finalmente, Tim Roth, com uma atuação mais contida, mas
mesmo assim excelente. A estreia mundial de “Luce” aconteceu no Festival de
Cinema Independente de Sundance, onde foi o filme mais comentado, recebendo
elogios entusiasmados. Também ganhou 94% de aprovação no site “Rotten Tomates”, uma porcentagem difícil de alcançar. Enfim, “Luce” é uma verdadeira aula de cinema, ou como fazer com que o espectador não desgrude os olhos da tela. Sensacional! sexta-feira, 27 de março de 2020
“A NATUREZA DO TEMPO” (“EN ATTENDANT
LES HIROLDELLES”), 2018, coprodução França/Argélia, 1h55m, primeiro
longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta argelino Karim Moussaoui. São
três histórias dentro do filme. Na primeira, Mourad (Mohamed Djouhri), um
investidor do ramo imobiliário, enfrenta problemas com o filho, que pretende
abandonar a faculdade de medicina perto da formatura. Na segunda, o jovem Djalil
(Mehdi Ramdani) é contratado como motorista para levar Aicha (Hania Amar) e
seus pais à cidade do noivo para os preparativos do casamento. Na terceira e
última história, um médico neurologista (Hassan Kachach) é procurado por uma
mulher que o acusa de tê-la estuprado. No meio de cada história, o roteiro
inventa várias situações envolvendo os personagens, o que de certa forma
consegue tornar o filme um pouco mais dinâmico. Uma boa sacada do roteiro é
promover o encontro casual de personagens de uma história e das outras perto do
desfecho. Ao fim da terceira história, a do médico acusado de estupro, aparece
um homem misterioso cuja identidade não é revelada. Sua aparição cai no vazio , deixando o espectador com cara de Ué? No geral, o filme é lento demais, entediante, mas interessante sob o
ponto de vista do cotidiano da sociedade argelina. Os cenários são áridos, o
vento levantando areia para todos os lados, e as ruas são mostradas com ruínas
que parecem resultado de alguma guerra. Cenários de total desolação. “A
Natureza do Tempo” concorreu a melhor filme na Mostra “Um Certain Regard” do
Festival de Cannes. Indicado somente para cinéfilos ou espectadores
interessados em conhecer os bastidores da vida na Argélia.
quinta-feira, 26 de março de 2020
“OS AERONAUTAS” (“THE
AERONAUTS”), 2019, Inglaterra, produção Amazon Prime, 1h41m,
direção de Tom Harper, que também assina o roteiro juntamente com Jack Thorne.
A história, baseada em fatos reais, foi inspirada no livro “Falling Up Wards: How
We Took to the Air”, de Richard Holmes, que relembra a sensacional aventura de
um cientista e uma balonista (personagem fictício, que explico no final deste
comentário). O filme é ambientado no ano de 1862 em Londres. O cientista James Glaisher
associou-se à famosa balonista Amelia Wren (Felicity Jones) para um voo muito
especial: pesquisar formas de se prever a meteorologia. Enfrentando chuva
torrencial, temporais, raios, frio de congelar e muita ventania, a dupla
conseguiu, além da pesquisa em si, bater o recorde de altura da época: 8.700 quilômetros.
No filme, a personagem Amelia Wren foi criada à vontade do roteirista e do
diretor. Na verdade, o verdadeiro companheiro de Glaisher na missão foi o
também cientista Henry Coxell. Amelia Wren surgiu inspirada em uma balonista
muito famosa na época, Sophie Blanchard. Com relação a James
Glaisher, o cientista foi uma figura muito importante no mundo científico,
sendo pesquisador do departamento de Meteorologia do Observatório Real de Grenwich
e fundador da Sociedade Real de Meteorologia e da Sociedade Aeronáutica da Grã-Bretanha.
O filme é espetacular, com cenas de perigo de tirar o fôlego. A gente acompanha
tudo de muito perto, como se estivesse no balão. Méritos para o diretor Tom
Harper, que soube manter um ritmo frenético deste o início até o desfecho,
valorizando aquela que foi uma das aventuras mais espetaculares que o cinema já
produziu. Também estão no elenco Vincent Perez, Tom Courtnay, Himesh Patel,
Rebecca Front e Anne Reid. Relembro que Eddie Redmayne e Felicity Jones
trabalharam juntos em “A Teoria de Tudo” (2014), filme que resultou no Oscar de
Melhor Ator para Redmayne, que viveu o físico inglês Stephen Hawking. No caso
de “Os Aeronautas”, porém, o destaque maior fica para a dentucinha Felicity
Jones, que arrasa principalmente nas cenas de ação. IMPERDÍVEL!
quarta-feira, 25 de março de 2020
“MINHA OBRA-PRIMA” (“MI OBRA
MAESTRA”), 2018, Argentina, 1h45m, roteiro e direção de Gaston
Duprat. Mais um filme argentino para dar inveja a nosotros. Trata-se de
uma divertida e inteligente comédia reunindo dois dos mais consagrados atores
do país de Maradona: Guillermo Francella e Luis Brandoni. Guillermo é Arturo
Silva, um conhecido marchand e galerista de Buenos Aires. Brandoni é
Renzo Nervi, um pintor que fez grande sucesso na década de 80, mas agora não
consegue vender mais nada. E, pior, virou um artista carrancudo, mal-humorado,
insuportável e difícil de se lidar. E, além do mais, falido. Mesmo com a
decadência do pintor, Arturo jamais abandonou o amigo de muitos anos, que o
ajudou a ganhar muito dinheiro. Agora, porém, Arturo está tendo enorme
dificuldade de ajudar Nervi, principalmente devido ao seu comportamento antissocial.
Quando um acidente ocorre com o pintor, obrigando-o a ser internado, Arturo vê
uma ótima possibilidade de reverter o quadro de penúria do amigo e também
ganhar dinheiro com isso. Eles bolam um plano macabro para valorizar os quadros
de Nervi, que assinou um documento doando-os ao marchand. Tudo caminha
bem até que um ex-aluno de Nervi, Alex (Raul Arévalo), meio que sem querer,
descobre um segredo que abalará o mercado das artes na Argentina. Graças ao roteiro
elaborado por Duprat, o filme diverte muito com seu humor corrosivo, que no
fundo é uma sátira ao mundo das artes. Mas seu maior trunfo é, sem dúvida, o
trabalho magistral dos atores Francella e Brandoni, que conseguem transformar
seus personagens em figuras simpáticas e cativantes. Eu já conhecia Francella
dos filmes “Coração de Leão – O Amor não tem Tamanho”, “Um Namorado para Minha
Esposa” e do espetacular “O Segredo dos seus Olhos”. Aos 79 anos, Brandoni é um
dos mais conhecidos atores argentinos, mas confesso que não lembro de tê-lo
visto em algum filme. Com relação ao roteirista e diretor Gastón Duprat, lembro
de dois de seus filmes, “O Homem ao Lado” e “O Cidadão Ilustre", ambos muito
bons. “Minha Obra-Prima” é mais um filmaço argentino. Imperdível!
segunda-feira, 23 de março de 2020
“SALYUT–7: MISSÃO ESPACIAL” (“SALYUT–7”), 2017,
Rússia, 120 minutos, roteiro e direção de Klim Shipenko. A história é centrada
na missão Salyut-7, que em 1985 enviou dois cosmonautas para o espaço na nave
Soyuz com o objetivo de recuperar uma estação orbital morta. O resultado final
foi um gol de placa dos russos, que pela primeira vez na história das missões
espaciais - incluindo os norte-americanos - conseguiram acoplar e trazer a estação de volta ao serviço. Um ato heroico
que exigiu muita coragem por parte da dupla de astronautas. Vicktor (Pavel
Derevyanko) e Vladimir (Vladimir Vdovichenkov) eram os astronautas mais experientes
e bem e preparados para a difícil missão. Da Terra, na sede da Roscosmos
(agência espacial russa equivalente à Nasa), o diretor Valery Ryumin
(Aleksander Samoylenko) e sua equipe monitoravam os trabalhos. O filme tem
momentos de muita tensão, incluindo a agonia das esposas dos cosmonautas, uma
delas grávida, um dos clichês mais utilizados em filmes do gênero, embora “Salyut-7”
seja baseado em fatos reais. A gente acompanha na maior tensão a rotina perigosa
dos astronautas, a cada dia encontrando pela frente situações de alto risco, e
o drama vivido pela equipe de Valery, obrigada a tomar decisões em minutos nos
momentos mais cruciais. Como não poderia deixar de ser, o êxito da missão é
exaltado no filme de forma bem patriótica, coisa que o pessoal de Hollywood
cansa de fazer. “Salyut-7” é um dos melhores filmes que assisti sobre eventos
espaciais. Recomendo sem pestanejar.
“UM ROMANCE NAS ENTRELINHAS” (“VITA
& VIRGINIA”), 2018, Irlanda, 1h50m, segundo longa-metragem
dirigido pela jovem cineasta inglesa Chanya Button, de 33 anos. O roteiro foi
escrito pela atriz, romancista e dramaturga Eileen Atkins, autora do livro “Vita
& Virginia” e da peça teatral do mesmo nome. A história é inspirada num
acontecimento ocorrido no início dos anos 20 do século passado, ou seja, o
escandaloso romance entre a já consagrada escritora inglesa Virginia Woolf (Elizabeth
Debicki) e a aristocrata Vita Sackville (Gemma Arterton), também escritora e
grande admiradora de Virginia. Ambas eram casadas, Virginia com Leonard Woolf,
editor e dono de uma gráfica. Vita era casada com sir Harold Nicolson (Rupert
Penay-Jones), um dos diplomatas mais importantes do governo inglês. Na verdade,
Vita tinha um casamento de fachada, já que Nicolson era homossexual. O romance
entre as duas mulheres começa com o assédio de Vita. Virginia, de início, acha
que Vita é apenas uma fã ardorosa, mas logo percebe que se trata de uma paixão de verdade.
O roteiro do filme destaca a troca de cartas e poemas entre as amantes, lidas
pelas próprias protagonistas em frente da câmera. São momentos de tédio para o
espectador. Além disso, os diálogos são de um inglês empolado, extremamente pomposo,
que chega a incomodar. Não que prejudiquem o filme, mas que são entediantes,
são sim. Vale lembrar que Vita serviu de inspiração para Virginia criar o personagem
principal do livro “Orlando: Uma Biografia”, considerado o maior clássico da
literatura feminista do Século XX. Devo destacar como trunfos do filme a
primorosa ambientação de época, principalmente com relação aos figurinos e
cenários, e a fotografia, além da competente atuação de Gemma Arterton e Elizabeth Debicki,
duas ótimas atrizes. Outro destaque do elenco é a participação de Isabella
Rossellini como a baronesa Sackville, mãe de Vita. Enfim, não é um filme para o
público em geral, só para aqueles que curtem literatura e são fãs de Virginia
Woolf.
sábado, 21 de março de 2020
“O LIMITE DA TRAIÇÃO” (“A FALL
FROM GRACE”), 2019, produção Netflix – estreou na plataforma
dia 17 de janeiro de 2020 -, 1h55m, roteiro e direção de Tyler Perry. A
cinquentona Grace Waters (Bresha Webb), uma divorciada e solitária funcionária de um banco que tem como melhor e única amiga Sarah (Phylicia Rashad). Ao
visitar a exposição de um fotógrafo especialista em fotos no continente
africano, Sarah conhece um rapaz bem mais novo que tenta flertar com ela. É o
próprio fotógrafo, Shannon (Mehcad Brooks), que aos poucos vai ganhando a
confiança de Grace, culminando num casamento. Ao longo de poucos meses, porém,
ela descobre que o cara é um pilantra de marca maior. Humilhada, Grace
assassina o marido a golpes de taco de beisebol. Ela acaba presa por homicídio,
confessa o crime e passa a ser grande candidata à prisão perpétua. Aí é que entra
em cena a inexperiente advogada Jasmine Bryan (Bresha Webb), cujo trabalho em
seu escritório está restrito a costurar acordos com a Promotoria Pública, sem jamais ter participado de um julgamento. Após
várias reuniões com a ré, Jasmine decide reverter a situação, desistindo do
acordo e disposta a defender Grace num julgamento com júri e tudo. E por aí segue a trama. O filme seguia fraco,
lento e entediante, mas eu continuava acreditando que quando o julgamento chegasse tudo
melhoraria. Que nada. Continuou chocho. Pelo menos há, no desfecho, uma surpreendente reviravolta, que também não consegue salvar o filme. Pior mesmo é a atuação de Bresha Webb
como a jovem e persistente advogada. Está sempre com cara de choro e sua única
expressão visível são os olhos esbugalhados. Péssima atriz. Aliás, o filme todo
não funciona, a não ser como um ótimo sonífero.
“TROCO EM DOBRO” (“SPENSER
CONFIDENTIAL”), 2019, EUA, produção e distribuição Netflix,
1h50m, direção de Peter Berg. O roteiro é assinado por Sean O’Keefe e Brian Helgeland,
que se inspiraram no romance policial “Robert B. Parker’s Wonderland”, escrito
por Ace Atkins em 2013. Vamos à história. Depois de agredir
violentamente seu oficial superior, o detetive Spenser (Mark Wahlberg), da
polícia de Boston, é condenado a 5 anos de prisão. Quando sai, sua ideia é
arrumar emprego como motorista de caminhão e viajar por aí. Só que seu plano é
adiado depois que, na mesma semana, dois ex-colegas da polícia são encontrados
mortos. Um deles, porém, é dado como suicídio, o que deixa Spenser desconfiado
de que tudo não passa de uma trama orquestrada por policiais corruptos ou pelo
crime organizado. Mesmo sem ter sido reintegrado à polícia, Spenser resolve
investigar os crimes por conta própria. Para isso, conta com o auxílio do grandalhão
Hawk “Falcão” (Winston Duke), que é lutador de MMA. A dupla, com a ajuda
intelectual de Henry Cimoli (Alan Arkin), um veterano técnico de boxe e MMA, elabora
um plano para elucidar os casos. No meio disso, entra em cena a escandalosa maluquete
Cissy (Iliza Shlesinger), ex-namorada de Spenser. Mark Wahlberg comprova mais
uma vez que é um ótimo ator de filmes de ação. Como referência, lembro de “22
Milhas”, “Horizonte Profundo: Desastre no Golfo”, “O Dia do Atentado” e “O
Grande Herói”, este último um filmaço de guerra. Todos esses filmes foram
dirigidos também pelo ator e diretor Peter Berg. “Troco em Dobro” é um ótimo
filme policial, com muita ação, pancadarias, tiros e humor na dose certa. É tão
bom que, ao estrear na Netflix no dia 6 de março de 2020, já é um grande
sucesso entre os assinantes, garantindo o Top 10 da plataforma. Entretenimento
garantido!
quinta-feira, 19 de março de 2020
“AS
FILHAS DO SOL” (“LES FILLES DU SOLEIL”), 2018, França, 2 horas,
roteiro e direção de Eva Husson. A história é baseada em fatos reais ocorridos
em 2014. Um grupo de guerrilheiras curdas lutam contra as forças opressoras do
Iraque e do Irã. O filme é centrado numa missão em que o pequeno batalhão de mulheres
é escalado para tomar a cidade de Gordyene, na fronteira entre Síria, Iraque e
Turquia. Enquanto os guerrilheiros curdos, homens, ficavam nas trincheiras
aguardando possíveis reforços e praticamente se escondendo, as mulheres foram à luta. O batalhão feminino,
comandado por Bahar (a bela atriz iraniana Golshifteh Farahani), foi
acompanhado em sua missão pela jornalista francesa Mathilde (Emmanuelle Bercot),
que registrou os acontecimentos para depois divulgá-los ao mundo. Nos momentos
em que é possível descansar, Bahar conta sua história para Mathilde, seu sequestro
e de seu filho pelos violentos iranianos, o assassinato do marido e os
terríveis momentos em que viveu no cativeiro juntamente com outras mulheres - os
iranianos chegaram a sequestrar mais de 7 mil mulheres curdas para depois vendê-las.
A roteirista e diretora Eva Husson conta todo esse sofrimento em flashbacks,
justificando plenamente a adesão de Bahar aos grupos guerrilheiros, buscando vingança e também encontrar seu filho. Na
maioria dos filmes em que o tema é algum conflito, é mais comum mostrar heróis
masculinos e as mulheres apenas como espectadoras ou vítimas. Em “As Filhas do Sol”, as
mulheres é que assumem o espetáculo, provando que também têm coragem para lutar sem medo de morrer. O
filme estreou e disputou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, em
maio de 2018, sendo exibido por aqui durante a programação oficial do Festival
Varilux de Cinema Francês em 2019. Recomendo!
quarta-feira, 18 de março de 2020
“SIMONAL”, 2019,
produção da Globo Filmes, 1h45m, filme de estreia na direção do carioca
Leonardo Domingues, com roteiro de Victor Atherino. O elenco: Fabrício
Boliveira (Wilson Simonal), Ísis Valverde (Tereza, a esposa), Leandro Hussum
(Carlos Imperial), Mariana Lima (a socialite Laura Figueiredo), Caco Ciocler
(delegado Santana), João Velho (Miéle), Rafael Sieg (Ronaldo Bôscoli), Lilian
Menezes (Elis Regina) e Bruce Gomlevsky (contador Taviani). O filme aborda o
período de quinze anos na vida do cantor Wilson Simonal, de 1960 a 1975, sua ascenção
ao estrelato e sua queda após o problema que levou seu contador a ser torturado
no DOPS. Simonal começou na vida artística participando de um grupo vocal que
cantava rock. O produtor musical Carlos Imperial incentivou Simonal a seguir
carreira solo. Arrebentou, principalmente depois de levado para algumas
apresentações no Beco das Garrafas por Miele e Ronaldo Bôscoli. Logo estava na
TV com programa próprio, arrasando no seu estilo swingado e malandro-chique. O
filme acompanha sua carreira nos palcos e discos, o casamento com sua grande
musa Tereza, o grande sucesso na TV e sua decadência após o episódio com o
contador. Sem dúvida, Simonal era um grande artista, um cantor fenomenal e um showman
capaz de entreter suas plateias por horas, além de uma voz poderosa. Como
aconteceu uma vez no Maracanãzinho, quando Simonal fez 30 mil pessoas cantarem
juntos seus maiores sucessos. E que trilha sonora: “Lobo Bobo”, Balanço Zona
Sul”, “Meu Limão, meu Limoeiro”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Sá Marina”, “País
Tropical” e “Nem Vem que não Tem”. Só quem viveu aquela época sabe o que Simonal,
com seu estilo marcante, significou para a música brasileira. O filme tem o
mérito de acompanhar a carreira do grande cantor e apresentá-lo às novas
gerações. Fabrício Boliveira e Ísis Valverde, o casal principal de
protagonistas, estão muito bem em seus papeis – os dois já atuaram juntos em “Faroeste
Caboclo”, de 2013. Resumo da ópera: um filme obrigatório para quem quer
conhecer ou relembrar a história de vida daquele que foi um de nossos melhores cantores.
Nessa linha de biografias de artistas nacionais consagrados, recomendo também os
filmes sobre Cazuza, Tim Maia, Maysa, Chacrinha, Elis, Erasmo Carlos e Hebe. Quem
será o próximo?
terça-feira, 17 de março de 2020
Nem sempre um bom elenco é
capaz de salvar um filme. É o caso do suspense “ARANHA NA TEIA” (“SPIDER IN
THE WEB”), 2019, coprodução Israel/Inglaterra, 1h53m, direção de Eran Riklis,
cineasta israelense dos excelentes “Lemon Tree" (2008) e “A Noiva da Síria” (2004). O roteiro é assinado por Gidon Maron e Emmanuel Naccache. Só para citar dois
nomes do elenco de “Aranha na Teia”: o ator inglês Bem Kingsley e a atriz
italiana Monica Bellucci, minha musa desde sempre e de milhões de outros cinéfilos. Pois bem, nem eles foram capazes de salvar esse abacaxi. Vamos à história – vou
tentar explicar o que eu entendi. Aí eu pergunto: por que quase todo filme de
espionagem é difícil de entender? O Mossad, serviço secreto de Israel, quer
saber quem está fornecendo armas químicas para a Síria. Para essa missão, é
escalado Adereth (Kingsley), um famoso espião em final de carreira. Como o
Mossad deixou de confiar nele há tempos, o agente Daniel (Itay Tiran) ficou
encarregado de vigiá-lo de perto. Aí entra em cena a personagem Angela (Monica
Bellucci), que indica uma empresa localizada na Bélgica como fornecedora das
tais armas químicas. Agentes do serviço secreto da Bélgica entram em ação,
complicando ainda mais a situação. Para piorar, o roteiro ainda
abre espaço para um romance forçado entre Abereth e Angela. Os dois não
combinam nem um pouco, mesmo que tudo não passe de um jogo de interesses. Se
fosse na vida real, Bellucci mataria Kingsley do coração na primeira noite...
Você acompanha todo o enredo sem entender muito bem o que está acontecendo. E
termina de assistir sem continuar entendendo. Fraquinho, fraquinho...
O drama “JUDY – MUITO ALÉM
DO ARCO-ÍRIS” (“Judy”), 2019, Inglaterra, 1h58m, direção de Rupert Goold, enfoca
os dois últimos anos da atriz e cantora Judy Garland (1922-1969), uma grande estrela
de Hollywood desde que atuou, ainda adolescente, no clássico “O Mágico de Oz”,
um dos filmes de maior sucesso do cinema mundial. O roteiro de “Judy” foi
escrito por Tom Edge, que se baseou no drama musical “O Fim do Arco-Íris” (“End
of the Rainbow”), do dramaturgo Peter Quilter, encenada com grande sucesso na Broadway.
No filme, Judy é interpretada de forma primorosa pela atriz Renée Zellweger,
que conquistou, merecidamente, os prêmios de “Melhor Atriz” no Globo de Ouro e
no Oscar 2020. Poucas vezes houve uma unanimidade tão grande nas
premiações de Melhor Atriz - "Judy" também teve uma indicação para disputar o Oscar na categoria "Maquiagem e Penteados". O ano é 1968, Judy Garland está em fase decadente,
sem dinheiro, afundada em dívidas e sem ter um lugar para morar com os dois
filhos menores. Devido à sua situação financeira caótica, Judy aceita realizar
uma série de shows na boate “Talk of the Town”, em Londres, onde ainda era adorada
pelo público. Para isso, ela deixa seus dois filhos com Sidney Luft (Angus Sewell),
pai das crianças e seu quarto marido. O
filme trata com maior destaque o tempo em que Judy passou em Londres, cantando
para plateias seletas – a própria Renée Zellweger interpreta, com muita
competência, as canções, o que deve ter sido um motivo a mais para tantas
premiações. Longe dos filhos, porém, ela entra em depressão e se apega cada vez mais aos remédios e ao álcool,
vícios aos quais se submetia há muitos anos e que a matariam pouco depois, com
apenas 47 anos de idade. Nem o quinto casamento com o músico Mickey Deans (Finn
Wittrock) foi capaz de tirar Judy da depressão. Ainda estão no elenco Jessie
Buckley (a assistente de Judy em Londres), Darci Shaw (Judy jovem), Gemma-Leah Devereux (Liza Minelli), Richard
Cordery (Louis B Mayer) e Gus Barry (Mickey Rooney). A opinião da maioria dos
críticos não foi muito favorável ao filme, mas foram unânimes em destacar a atuação
de Zellweger. Por ela, realmente vale a pena assistir. De qualquer forma, eu
gostei muito do filme e não tenho dúvidas em recomendá-lo.
domingo, 15 de março de 2020
“QUEEN MARIE OF ROMANIA” (“MARIA,
REGINA ROMÂNIEI”), 2019, Romênia, 1h50m, primeiro longa-metragem dirigido
pelo cineasta italiano Alexis Cahill, que também assina o roteiro juntamente
com Gabi Antal, Brigitte Prodtloff, Maria-Denise Teodoru e Iona Manea. O filme
é centrado na futura Rainha da Romênia (a bela e excelente atriz Roxana Lupu). Nascida
Maria de Saxe-Coburgo-Gota, na Inglaterra, neta da Rainha Vitória e do czar
Alexandre II, da Rússia, ela casou em 1893 com o príncipe herdeiro da monarquia
romena, Fernando I (Daniel Plier). O filme enfoca os fatos históricos ocorridos
após a Primeira Guerra Mundial, quando a Romênia, depois da invasão do exército
alemão, estava totalmente destruída. A economia entrou em colapso e o povo
passava fome. Lideranças políticas do país, chefiadas pelo primeiro-ministro
Ion C. Bratianu (Adrian Titieni) tentavam, em Paris, durante as reuniões da famosa
Conferência de Versalhes, a aprovação da unificação do país, retomando os territórios perdidos
durante o conflito (Transilvânia, Bucovina e Bessarábia) e reivindicando a criação
de um reino independente e soberano. Os políticos romenos não conseguiram
avanços nas negociações e, como último recurso, apelaram para a dupla dos
futuros monarcas. Fernando I era muito frouxo, incapaz de lidar com a classe
política e com os próprios filhos e súditos. Depois de muita contestação dos
políticos, a então princesa Maria conseguiu viajar para Paris e depois Londres,
negociando com as mais altas autoridades dos aliados (França, Inglaterra e
Estados Unidos). Com sua simpatia, personalidade e poder de persuasão, Maria conseguiu o apoio
daqueles países para a causa romena e virou uma heroína para o povo romeno. Em
1922, Fernando e Maria seriam consagrados rei e rainha da Romênia, reinando até
1927, quando a monarquia foi extinta naquela país. Falado em romeno, inglês,
francês e alemão, “Queen Marie of Romania” foi filmado em locações em Paris,
Bucareste e Londres, apresentando cenários deslumbrantes e uma primorosa
reconstituição de época. Sem falar na maravilhosa atriz Roxana Lupu. Um filmaço histórico imperdível!
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