“SIMONAL”, 2019,
produção da Globo Filmes, 1h45m, filme de estreia na direção do carioca
Leonardo Domingues, com roteiro de Victor Atherino. O elenco: Fabrício
Boliveira (Wilson Simonal), Ísis Valverde (Tereza, a esposa), Leandro Hussum
(Carlos Imperial), Mariana Lima (a socialite Laura Figueiredo), Caco Ciocler
(delegado Santana), João Velho (Miéle), Rafael Sieg (Ronaldo Bôscoli), Lilian
Menezes (Elis Regina) e Bruce Gomlevsky (contador Taviani). O filme aborda o
período de quinze anos na vida do cantor Wilson Simonal, de 1960 a 1975, sua ascenção
ao estrelato e sua queda após o problema que levou seu contador a ser torturado
no DOPS. Simonal começou na vida artística participando de um grupo vocal que
cantava rock. O produtor musical Carlos Imperial incentivou Simonal a seguir
carreira solo. Arrebentou, principalmente depois de levado para algumas
apresentações no Beco das Garrafas por Miele e Ronaldo Bôscoli. Logo estava na
TV com programa próprio, arrasando no seu estilo swingado e malandro-chique. O
filme acompanha sua carreira nos palcos e discos, o casamento com sua grande
musa Tereza, o grande sucesso na TV e sua decadência após o episódio com o
contador. Sem dúvida, Simonal era um grande artista, um cantor fenomenal e um showman
capaz de entreter suas plateias por horas, além de uma voz poderosa. Como
aconteceu uma vez no Maracanãzinho, quando Simonal fez 30 mil pessoas cantarem
juntos seus maiores sucessos. E que trilha sonora: “Lobo Bobo”, Balanço Zona
Sul”, “Meu Limão, meu Limoeiro”, “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Sá Marina”, “País
Tropical” e “Nem Vem que não Tem”. Só quem viveu aquela época sabe o que Simonal,
com seu estilo marcante, significou para a música brasileira. O filme tem o
mérito de acompanhar a carreira do grande cantor e apresentá-lo às novas
gerações. Fabrício Boliveira e Ísis Valverde, o casal principal de
protagonistas, estão muito bem em seus papeis – os dois já atuaram juntos em “Faroeste
Caboclo”, de 2013. Resumo da ópera: um filme obrigatório para quem quer
conhecer ou relembrar a história de vida daquele que foi um de nossos melhores cantores.
Nessa linha de biografias de artistas nacionais consagrados, recomendo também os
filmes sobre Cazuza, Tim Maia, Maysa, Chacrinha, Elis, Erasmo Carlos e Hebe. Quem
será o próximo?
quarta-feira, 18 de março de 2020
terça-feira, 17 de março de 2020
Nem sempre um bom elenco é
capaz de salvar um filme. É o caso do suspense “ARANHA NA TEIA” (“SPIDER IN
THE WEB”), 2019, coprodução Israel/Inglaterra, 1h53m, direção de Eran Riklis,
cineasta israelense dos excelentes “Lemon Tree" (2008) e “A Noiva da Síria” (2004). O roteiro é assinado por Gidon Maron e Emmanuel Naccache. Só para citar dois
nomes do elenco de “Aranha na Teia”: o ator inglês Bem Kingsley e a atriz
italiana Monica Bellucci, minha musa desde sempre e de milhões de outros cinéfilos. Pois bem, nem eles foram capazes de salvar esse abacaxi. Vamos à história – vou
tentar explicar o que eu entendi. Aí eu pergunto: por que quase todo filme de
espionagem é difícil de entender? O Mossad, serviço secreto de Israel, quer
saber quem está fornecendo armas químicas para a Síria. Para essa missão, é
escalado Adereth (Kingsley), um famoso espião em final de carreira. Como o
Mossad deixou de confiar nele há tempos, o agente Daniel (Itay Tiran) ficou
encarregado de vigiá-lo de perto. Aí entra em cena a personagem Angela (Monica
Bellucci), que indica uma empresa localizada na Bélgica como fornecedora das
tais armas químicas. Agentes do serviço secreto da Bélgica entram em ação,
complicando ainda mais a situação. Para piorar, o roteiro ainda
abre espaço para um romance forçado entre Abereth e Angela. Os dois não
combinam nem um pouco, mesmo que tudo não passe de um jogo de interesses. Se
fosse na vida real, Bellucci mataria Kingsley do coração na primeira noite...
Você acompanha todo o enredo sem entender muito bem o que está acontecendo. E
termina de assistir sem continuar entendendo. Fraquinho, fraquinho...
O drama “JUDY – MUITO ALÉM
DO ARCO-ÍRIS” (“Judy”), 2019, Inglaterra, 1h58m, direção de Rupert Goold, enfoca
os dois últimos anos da atriz e cantora Judy Garland (1922-1969), uma grande estrela
de Hollywood desde que atuou, ainda adolescente, no clássico “O Mágico de Oz”,
um dos filmes de maior sucesso do cinema mundial. O roteiro de “Judy” foi
escrito por Tom Edge, que se baseou no drama musical “O Fim do Arco-Íris” (“End
of the Rainbow”), do dramaturgo Peter Quilter, encenada com grande sucesso na Broadway.
No filme, Judy é interpretada de forma primorosa pela atriz Renée Zellweger,
que conquistou, merecidamente, os prêmios de “Melhor Atriz” no Globo de Ouro e
no Oscar 2020. Poucas vezes houve uma unanimidade tão grande nas
premiações de Melhor Atriz - "Judy" também teve uma indicação para disputar o Oscar na categoria "Maquiagem e Penteados". O ano é 1968, Judy Garland está em fase decadente,
sem dinheiro, afundada em dívidas e sem ter um lugar para morar com os dois
filhos menores. Devido à sua situação financeira caótica, Judy aceita realizar
uma série de shows na boate “Talk of the Town”, em Londres, onde ainda era adorada
pelo público. Para isso, ela deixa seus dois filhos com Sidney Luft (Angus Sewell),
pai das crianças e seu quarto marido. O
filme trata com maior destaque o tempo em que Judy passou em Londres, cantando
para plateias seletas – a própria Renée Zellweger interpreta, com muita
competência, as canções, o que deve ter sido um motivo a mais para tantas
premiações. Longe dos filhos, porém, ela entra em depressão e se apega cada vez mais aos remédios e ao álcool,
vícios aos quais se submetia há muitos anos e que a matariam pouco depois, com
apenas 47 anos de idade. Nem o quinto casamento com o músico Mickey Deans (Finn
Wittrock) foi capaz de tirar Judy da depressão. Ainda estão no elenco Jessie
Buckley (a assistente de Judy em Londres), Darci Shaw (Judy jovem), Gemma-Leah Devereux (Liza Minelli), Richard
Cordery (Louis B Mayer) e Gus Barry (Mickey Rooney). A opinião da maioria dos
críticos não foi muito favorável ao filme, mas foram unânimes em destacar a atuação
de Zellweger. Por ela, realmente vale a pena assistir. De qualquer forma, eu
gostei muito do filme e não tenho dúvidas em recomendá-lo.
domingo, 15 de março de 2020
“QUEEN MARIE OF ROMANIA” (“MARIA,
REGINA ROMÂNIEI”), 2019, Romênia, 1h50m, primeiro longa-metragem dirigido
pelo cineasta italiano Alexis Cahill, que também assina o roteiro juntamente
com Gabi Antal, Brigitte Prodtloff, Maria-Denise Teodoru e Iona Manea. O filme
é centrado na futura Rainha da Romênia (a bela e excelente atriz Roxana Lupu). Nascida
Maria de Saxe-Coburgo-Gota, na Inglaterra, neta da Rainha Vitória e do czar
Alexandre II, da Rússia, ela casou em 1893 com o príncipe herdeiro da monarquia
romena, Fernando I (Daniel Plier). O filme enfoca os fatos históricos ocorridos
após a Primeira Guerra Mundial, quando a Romênia, depois da invasão do exército
alemão, estava totalmente destruída. A economia entrou em colapso e o povo
passava fome. Lideranças políticas do país, chefiadas pelo primeiro-ministro
Ion C. Bratianu (Adrian Titieni) tentavam, em Paris, durante as reuniões da famosa
Conferência de Versalhes, a aprovação da unificação do país, retomando os territórios perdidos
durante o conflito (Transilvânia, Bucovina e Bessarábia) e reivindicando a criação
de um reino independente e soberano. Os políticos romenos não conseguiram
avanços nas negociações e, como último recurso, apelaram para a dupla dos
futuros monarcas. Fernando I era muito frouxo, incapaz de lidar com a classe
política e com os próprios filhos e súditos. Depois de muita contestação dos
políticos, a então princesa Maria conseguiu viajar para Paris e depois Londres,
negociando com as mais altas autoridades dos aliados (França, Inglaterra e
Estados Unidos). Com sua simpatia, personalidade e poder de persuasão, Maria conseguiu o apoio
daqueles países para a causa romena e virou uma heroína para o povo romeno. Em
1922, Fernando e Maria seriam consagrados rei e rainha da Romênia, reinando até
1927, quando a monarquia foi extinta naquela país. Falado em romeno, inglês,
francês e alemão, “Queen Marie of Romania” foi filmado em locações em Paris,
Bucareste e Londres, apresentando cenários deslumbrantes e uma primorosa
reconstituição de época. Sem falar na maravilhosa atriz Roxana Lupu. Um filmaço histórico imperdível! sábado, 14 de março de 2020
“A HORA DO LOBO” (“THE WOLF
HOUR”), 2019, Estados Unidos, 1h39m, segundo longa-metragem
escrito e dirigido por Alistyair Banks Griffin. Trata-se de um suspense
psicológico ambientado no verão de 1977 em Nova Iorque. A personagem central é a
escritora June Engle (Naomi Watts), expoente da contracultura, que vive
enclausurada num apartamento no Sul do Bronx, em meio a livros, papelada espalhada pelo chão e lixo de todo tipo. Sujeira generalizada. June é uma mulher atormentada,
vivendo um período de depressão e pânico, não conseguindo colocar o pé para
fora do apê. Nessa época, a cidade vive um período de extrema violência, com
saques, atos de vandalismo e assassinatos – naquele ano, ficou famoso um serial
killer denominado “O Filho de Sam”. Como se não bastasse, faz um calor
infernal e a cidade vive sofrendo apagões diários. Seus únicos contatos com o
mundo exterior acontecem quando olha pela janela as pessoas se digladiando ou
quando recebe o entregador do mercado, um garoto de programa e um policial atendendo
a uma queixa de June a respeito de gente que está tocando seu interfone sem
parar. A única visita especial que recebeu por mais tempo foi Margot (Jennifer
Ehle), não sei se irmã, parente ou amiga – o roteiro não esclarece, que tenta tirar June daquela situação. Enfim, “A
Hora do Lobo” é um filme bastante angustiante, claustrofóbico, pesado, mas tem
o trunfo de contar com a primorosa atuação de Naomi Watts. Não há muito mais
motivos para justificar uma recomendação entusiasmada.
sexta-feira, 13 de março de 2020
“O GÂNGSTER, O POLICIAL E O
DIABO” (“AKINJEON” no original, e “The Gangster, The Cop and The
Devil” nos países de língua inglesa), 2019, Coreia do Sul, 1h50m, roteiro e
direção de Won-Tae Lee (é o seu segundo longa-metragem). Quem tinha dúvidas
sobre a qualidade do cinema sul-coreano deve tê-las descartado após o grande
sucesso de “Parasita, maior vencedor do Oscar 2020. Eu já conhecia – e elogiava
- o cinema daquele país há muito tempo, tendo visto ótimos filmes dos mais
diferentes gêneros. Só para citar alguns: “OldBoy”, “A Criada”, “Mother – Em Busca
pela Verdade”, “Pânico na Torre” e aquele que considero um dos melhores filmes
de ação já realizados pelo cinema, “Onda de Choque”, de 2017, entre tantos
outros. Agora, com este “O Gângster, o Policial e o Diabo”, o cinema
sul-coreano reafirma sua qualidade também em filmes policiais. Trata-se de uma
história baseada em fatos reais ocorridos em 2005 na capital Seul. Um
misterioso serial-killer está matando pessoas com requintes de
crueldade, sempre a facadas. Até que um dia ele bate na traseira de um veículo
e sai para matar o seu motorista. Só que ele é um poderoso chefão da máfia
local, especialista em artes marciais, e consegue escapar do criminoso. Mas
jura vingança. A polícia de Seul também está atrás do serial killer. Numa
inusitada e inimaginável combinação, a gangue chefiada pelo mafioso une-se à
polícia para encontrar o psicopata. Essa união tem as suas contradições. Por
exemplo, o chefão da máfia quer pegar o assassino para a seguir matá-lo, como
manda a tradição, e a polícia, por seu lado, quer apenas prendê-lo e levá-lo a julgamento. Isso tudo em meio a muita ação e violência, pancadarias
sanguinolentas, perseguições de carros e muito sangue jorrando. O ótimo ator Ma
Dong-Seok está espetacular como o bandidão mafioso Jang Dong-Soo; o policial
Jung Tae-Seok é interpretado por Kim Moo-Yeol; e, por fim, também com uma
atuação destacada, o ator Kim Sung-Kyu, como o sanguinário psicopata Kang Kyungho,
também conhecido como “K”. Resumo da ópera: um filme policial de muita
qualidade.
quarta-feira, 11 de março de 2020
“JOIAS BRUTAS” (“UNCUT GEMS”),
2019,
EUA, produção e distribuição Netflix, 2h15m, roteiro e direção dos irmãos
cineastas Josh e Benny Safdie (“Bom Comportamento”). A história é toda centrada
no comerciante judeu Howard Ratner (Adam Sandler), dono de uma joalheria em
Nova Iorque. Casado e com filhos, Howard mantém um apartamento para a sua amante
Julia (Julia Fox), é viciado em apostas de jogos da NBA, faz trambiques falsificando
joias e relógios de luxo, além de dever muito dinheiro a agiotas da pior
espécie. Sua rotina é de um homem prestes a ter um ataque cardíaco ou um AVC. Numa tentativa de se salvar financeiramente, ele tenta encontrar uma
saída ao importar, da Etiópia, uma pedra não lapidada repleta de minerais
preciosos. Segundo Howard, trata-se de uma raridade ligada aos judeus etíopes.
Verdade ou não, ele encontra um cliente muito interessado na pedra, o jogador
de basquete, astro da NBA, Kevin Garnett (o filme é ambientado em 2012, quando
Kevin ainda era uma estrela nas quadras; ao interpretar ele mesmo no filme, Garnett já
estava aposentado). Ao invés de pagar suas dívidas, Howard aposta todo o
dinheiro que consegue nos negócios, enquanto os agiotas o pressionam para pagar
ou então sofrer as consequências. O filme segue num ritmo frenético e
alucinante, num espiral crescente de tensão, com a câmera sempre em movimento, irrequieta
e nervosa. O elenco conta ainda com Idina Menzel, Lakeith Stanfield, Mike Francesa, Judd Hirsch e Eric Bogosian. "Joias Brutas” recebeu muitos elogios da crítica especializada, que
também consideraram um show a atuação de Adam Sandler. Para falar a verdade, o
filme não me convenceu muito, mas admito que Sandler está ótimo. De
qualquer forma, "Joias Brutas" vale a pena pelo modo com que os irmãos Safdie o realizaram. Sem dúvida, um filme inovador. . segunda-feira, 9 de março de 2020
“MIDWAY – BATALHA EM ALTO-MAR”
(“MIDWAY”), 2019, Estados Unidos, 2h19m, direção do
cineasta alemão Roland Emmerich, seguindo roteiro de Wes Tooke. Quem conhece um
pouco da história da Segunda Guerra Mundial sabe que foi nas Ilhas Midway, no
Pacífico, no dia 4 de julho de 1942, que as forças norte-americanas enfrentaram
a Marinha Imperial Japonesa, revidando com sucesso o ataque a Pearl Harbor,
seis meses antes. O filme destaca o trabalho de bastidores da inteligência
norte-americana, que conseguiu codificar mensagens que forneceram a localização
da frota japonesa. As cenas de batalhas aéreas e navais são de tirar de fôlego,
num ritmo frenético que vai do início ao fim. Ao contrário de “Midway – A Batalha
do Pacífico”, de 1976, o atual “Midway – Batalha em Alto-Mar” utiliza efeitos
especiais espetaculares e, em algumas cenas, parece que você está ali no meio
da batalha. O elenco é de primeira: Ed Skrein, Woody Harrelson, Patrick Wilson,
Luke Evans, Dennis Quaid, Aaron Eckhart, Mandy Moore, Nick Jonas, Alexander Ludwig e Tadanobu
Asano. O diretor alemão Roland Emmerich justificou plenamente a sua fama de
dirigir bons filmes de ação, como “Godzila”, “Independence Day”, “O Dia Depois
de Amanhã” e “O Patriota”. Embora os críticos tenham malhado o seu “Midway”,
elogiando apenas as cenas de batalha, achei o filme muito bem feito, repleto de
ação, um ótimo programa para uma sessão da tarde com pipoca.
domingo, 8 de março de 2020
“UMA VIDA OCULTA” (“A HIDDEN
LIFE”), 2019, coprodução Alemanha/EUA, roteiro e direção de
Terrence Malick, 3 horas de duração. Finalmente o polêmico e excêntrico cineasta
norte-americano oferece talvez sua obra mais acessível. Da mesma forma que
realizou filmes como “A Árvore da Vida”, “De Canção em Canção”, “Cavaleiro de
Copas” e “Amor Pleno”, obras de cunho existencialista com fundo religioso, em “Uma
Vida Oculta” Malick mantém seu estilo inconfundível de filmar paisagens da
natureza como céu com nuvens, correntezas de rios, florestas e planícies
verdejantes, usando e abusando de lente grande angular para ampliar os cenários.
Sem falar na trilha sonora clássica e nas locuções em off, com reflexões
filosóficas e religiosas, em sua maioria entediantes e com a profundidade de um
pires. A história de “Uma Vida Oculta”, inspirada em fatos reais, é ambientada na
Áustria bem no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, logo após a invasão
do país pelo exército nazista. Franz Jägerstätter (August Diehl), um fazendeiro
da região de Santa Radegunda, interior austríaco, assim como milhares de
cidadãos do seu país, é convocado para lutar pelo exército alemão. Sua recusa,
por não acreditar nos ideais de Hitler, vira um caso de traição. Ele é preso e
condenado à morte. Até o final ele mantém sua posição, para desespero de seus
amigos. Franziska (Valerie Pachner), sua esposa, mesmo aflita com o desenrolar
dos acontecimentos, aceita a posição do marido e enfrenta a situação com altivez.
O cenário onde fica a fazenda de Franz lembra muito aquele em que Julie Andrews
canta e dança com os filhos do Capitão Von Trapp em “A Noviça Rebelde” (1965). Em
algumas ocasiões achei que a própria Julie Andrews de repente surgiria em cena. Embora o
elenco seja em sua maioria constituído por atores alemães e austríacos, o filme
é quase todo falado em inglês e um pouco de alemão. O elenco é ótimo: além de
Diehl e Pachner, os mais conhecidos são Matthias Schoenaerts, Alexander
Fehling, Michael Nyqvist, Bruno Ganz, Johannes Krisch, Karl Markovics, Tobias
Moretti, Ulrich Matthes e Maria Simon. Uma curiosidade que a maioria dos
críticos deixou passar: “Uma Vida Oculta” foi o último filme de dois grandes
atores, o suíço Bruno Ganz e o sueco Michael Nyqvist, falecidos logo depois do
fim das filmagens. O filme estreou no 72º Festival Internacional de Cinema de
Cannes, em maio de 2019, e também foi exibido por aqui durante a programação do
Festival Internacional de Cinema do Rio, em dezembro de 2019.
quinta-feira, 5 de março de 2020
“UMA MULHER ALTA” (“DYLDA”), 2019, Rússia,
2h19m, terceiro longa-metragem escrito e dirigido pelo jovem cineasta Kantemir
Balagov, de apenas 28 anos. Inspirada no livro “A Guerra não tem Rosto de
Mulher” (1983), escrito por Svetlana Aleksiévitch (Prêmio Nobel de Literatura
em 2015), “Uma Mulher Alta” retrata os acontecimentos pós-Segunda Guerra
Mundial em Leningrado, que se transformou num cenário de miséria, fome e
destruição, onde os moradores sobreviventes andam como zumbis em meio aos
destroços. Nesse contexto de colapso social, a trama é concentrada em duas
amigas ex-combatentes: Íya (Viktoria Miroshnichenko) e Masha (Vasilisa
Perelygina). Também chamada de “Varapau” pela sua altura, Íya voltou antes do front
e assumiu a responsabilidade de cuidar do filho de Masha. Ambas voltariam a se
encontrar trabalhando como enfermeiras num hospital militar repleto de soldados
feridos. Juntas, Íya e Masha tentarão sobreviver aos traumas de guerra, à fome
e à falta de perspectivas, além de um fato trágico envolvendo o filho de Masha. Uma se agarrará à outra para enfrentar as
dificuldades. Interessante que as duas protagonistas principais são atrizes
estreantes, mas nem por isso deixam de ter uma atuação magistral. O diretor
Balagov utiliza tons saturados de vermelho e verde, o que lembra, em menor
proporção, os filmes do diretor espanhol Pedro Almodovar. Selecionado para
representar a Rússia na disputa do Oscar 2020 na categoria “Filme Internacional”
(eu preferia como era, “Filme Estrangeiro”), “Uma Mulher Alta” não ficou entre
os cinco finalistas, o que achei uma grande injustiça. Antes, o filme recebeu o
prêmio de crítica internacional e de direção na mostra “Um Certo Olhar”, no
Festival de Cannes. Por aqui, foi exibido durante a programação oficial do 21º
Festival do Rio, em dezembro de 2019. Sem dúvida, um grande filme. Imperdível!
terça-feira, 3 de março de 2020
Desde que a vi em “A
Insustentável Leveza do Ser”, em 1988, e depois, nos anos 90, na famosa trilogia do diretor polonês Krzysztof
Kieslowski (“A Liberdade é Azul”, A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é
Vermelha”, jamais deixei de assistir a um filme com a francesa Juliette Binoche. E foram muitos,
incluindo “O Paciente Inglês” etc. Um de seus filmes mais recentes é “QUEM
VOCÊ PENSA QUE SOU” (“CELLE QUE VOUS CROYEZ”), 2019, França, 1h41m,
roteiro e direção de Safy Nebbou. Binoche é Claire Millaud, uma professora
universitária divorciada, com dois filhos, que procura fugir da solidão com
namorados mais jovens. O último deles é Ludo (Guillaume Gouix), que de repente
resolve terminar a relação humilhando Claire. Ela resolve se vingar entrando
num site de relacionamentos com o nome de Clara, utilizando as fotos de uma
sobrinha linda de 24 anos de idade. A isca foi lançada e Claire pesca justamente quem
queria: Alex (François Civil), o melhor amigo de Ludo. A história vai se desenrolando
paralelamente às sessões de Claire com a psicanalista Catherine Bormans (Nicole
Garcia). O diretor Safy Nebbou insiste em manipular o enredo com algumas
dúvidas para o espectador. Por exemplo, se o que está acontecendo é na vida
real ou virtual. A complexidade da trama também está no fato de que Claire está
escrevendo um livro cujo conteúdo sugere muitas semelhanças com o que está
acontecendo no filme. Enfim, um “filme cabeça” não indicado para quem curte “Capitão
América” e assemelhados. E com uma vantagem especial: a presença de Juliette Binochet
em mais uma atuação impecável. “Quem Você Pensa que Sou” estreou no 69º
Festival Internacional de Berlim em fevereiro de 2019 e foi exibido por aqui,
antes de entrar no circuito comercial, durante a programação do Festival Varilux
de Cinema Francês, em junho de 2019.
segunda-feira, 2 de março de 2020
JOJO RABBIT”, 2019,
Estados Unidos, 1h48m, roteiro e direção do neozelandês Taika Waititi (que
também atua no filme). Indicado para disputar o Oscar 2020 em seis categorias,
inclusive de Melhor Filme, “Jojo Rabbit” ganhou apenas uma estatueta como Melhor
Roteiro Adaptado – do romance “Caging Skies”, da escritora neozelandesa Christina
Leunens, lançado em 2004. Realmente, o roteiro é primoroso, criativo, que soube
criar situações de bom humor num contexto trágico – a Segunda Guerra Mundial. A
história é toda centrada num garoto de 10 anos, Jojo Betzler (o estreante Roman
Griffin Davis), admirador do nazismo e de Adolph Hitler. Seu sonho é ingressar
na Juventude Hitlerista. A situação começa a mudar quando ele descobre que a
mãe Rosie Betzler (Scarlett Johansson) esconde uma garota judia (Thomasin
McKenzie) no armário, uma evidente referência a Anne Frank. Jojo fica sabendo
ainda que a mãe é uma antinazista convicta e que, por isso, sofrerá uma trágica
consequência. A simpatia de Jojo pelo nazismo é incentivada por seu amigo
imaginário, o próprio Adolph Hitler (papel do diretor), em aparições
hilariantes. O filme já começa de modo surpreendente, associando o histerismo dos
alemães diante dos discursos de Hitler com o histerismo das fãs que iam aos
concertos dos The Beatles. Uma sacada genial. Tudo funciona muito bem, mas o
grande trunfo do filme é realmente a atuação do estreante ator britânico Roman
Griffin Davis como Jojo. Ele domina o filme de cabo a rabo. Outro protagonista
que dá um show é o gordinho York (Archie Yates), responsável pelas cenas mais
engraçadas. O elenco conta ainda com Sam Rockweel, Rebel Wilson e Stephen
Merchant. O filme estreou durante o 44º Festival de Cinema de Toronto,
arrancando elogios entusiasmados dos críticos e do público. Eu também gostei,
achei o filme genial, interessante e muito criativo. Imperdível!
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
“PARTIDA FRIA” (“THE COLDEST
GAME”), 2019, Polônia, produção da Netflix (estreou dia 8 de fevereiro
de 2020), 1h40m, roteiro e direção de Lukasz Kosmicki – é o seu primeiro longa-metragem;
eu seu país, Kosmicki é mais conhecido como diretor de séries televisivas. O pano
de fundo da história é a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, no auge da guerra
fria que colocou em cada lado do ringue mundial os EUA e a União Soviética. Nesse
contexto, o professor norte-americano de matemática Joshua Mansky (Bill
Pullman), um gênio no xadrez, é cooptado – “obrigado” seria a palavra mais
correta – pela CIA para disputar uma série de partidas com o campeão russo
Gavrylow em Varsóvia. O objetivo da inteligência norte-americana é utilizar Mansky
para tentar identificar um espião russo de codinome Gift, capaz de confirmar se
os russos têm ogivas nucleares em Cuba. Só que a turma da KGB, chefiada pelo
General Krutov (Aleksey Serebryakov), descobre a intenção dos norte-americanos e
parte para o ataque, implementando ações que podem colocar em perigo a vida de
Mansky. Como quase todo filme de espionagem, o roteiro demora a engrenar, ou
seja, esclarecer o que está acontecendo, dificultando o entendimento por parte
do espectador. O filme é todo falado em inglês, com alguns diálogos em polonês
e russo. Também estão no elenco a atriz holandesa Lotte Verbeek e os atores James
Bloor e Robert Wieckicewicz, este último do polonês “Clero”. Como informação
adicional, este foi o último filme produzido por Piotr Wozniak-Starak, que
morreu antes da exibição de estreia. Resumo da ópera: indicado apenas para aqueles
que curtem filmes de espionagem.
“ELISA
E MARCELA”, 2019, roteiro e direção de Isabel Coixet, 1h58m,
roteiro e direção de Isabel Coixet. Produção espanhola da Netflix, cuja
primeira exibição ocorreu em fevereiro de 2019 no Festival de Cinema de Berlim e
lançada em maio no circuito comercial da Espanha. A história é verídica,
baseada em acontecimentos ocorridos entre o fim do século 19 e começo do 20.
Para escrever o roteiro, Coixet se baseou no livro biográfico “Elisa e Marcela –
Más Allá de Los Hombres” (“Elisa e Marcela – Além dos Homens”, escrito por
Narciso de Gabriel. Elisa Sanchez Loriga (Natalia de Molina) e Marcela Gracia
Ibeas (Greta Fernández) se conhecem ainda jovens quando cursavam a Escola de
Formação de Professores e o amor foi à primeira vista. Daí para a cama foi um
passo. Em 1901, elas resolveram se casar e, para isso, Elisa se travestiu de homem,
intitulando-se Mario e utilizando os documentos de um tio falecido. Casaram-se
na Igreja de San Jorge, na região de Coruña, na Galícia. Embora o padre tenha
sido enganado, o casamento foi legalmente oficial, tendo sido considerado mais
tarde a primeira união homossexual da Europa. Não demora muito para que a verdadeira
identidade de Mario seja revelada, culminando com a prisão das duas amantes,
que depois são obrigadas a fugir para Portugal e depois para a Argentina.
Rodado em preto e branco, o filme contém cenas ardentes de sexo entre as protagonistas,
mas sem chocar, tudo filmado com bom gosto erótico e nada explícito. Como aval
de qualidade, lembro que a roteirista e diretora espanhola Isabel Coixet tem no
currículo alguns bons filmes, como “Minha Vida Sem Mim”, “Confissões de um
Apaixonado” e “A Vida Secreta das Palavras”. A bela e excelente atriz Natalia
de Molina eu já conhecia de outros filmes. Recomendo!
terça-feira, 25 de fevereiro de 2020
“CLERO” (“KLER”), 2018, Polônia,
2h13m, roteiro e direção de Wojciech Smarzowski (“Wolyn”). Inacreditável
que um filme tão bom não tenha sido exibido por aqui. Trata-se de um drama com
uma contundente, corrosiva e impiedosa crítica à Igreja Católica, em especial
aos padres poloneses. A história é centrada em três padres pilantras ao
extremo. Um é pedófilo, abusa sexualmente de um menino órfão cego. O outro é alcoólatra e tem
amante e filho; o terceiro faz negociatas com licitações de obras das igrejas,
trabalhando em favor de um mafioso. Além dos pecados citados, os três têm em
comum também rotineiras bebedeiras homéricas, nas quais a vodka é ingerida
como água - não a santa. As maracutaias também envolvem o arcebispo da Cracóvia,
cidade ao sul da Polônia. Enfim, mais uma cutucada – eu diria um violento chute
- nas feridas da Igreja Católica, com ênfase na pedofilia – no filme, o diretor
Smarzowski coloca várias pessoas que foram abusadas por padres poloneses dando os
seus dramáticos depoimentos, numa sequência de cenas bastante chocantes. Quando estreou na Polônia, um país onde 85% da
população é católica, o filme causou grande impacto e repercussão, levando às
salas de cinema mais de um milhão de espectadores nas primeiras semanas de
exibição, batendo recordes de bilheteria, assim como aconteceu na Islândia,
Noruega e Irlanda. Infelizmente, não foi exibido por aqui. Alguém sabe por quê? Pela sua
abordagem denunciando os podres da Igreja e dos padres poloneses, o filme chocou
políticos conservadores daquele país e levou o vice-ministro da Cultura a afirmar
que “Kler” utilizou “estereótipos negativos” e tratou a Igreja Católica
injustamente. Do ótimo elenco, conhecia apenas dois atores: Arkadiusz Jakubik (“Noite
Silenciosa”, I’m a Killer” e “A Arte de Amar”) e a bela Joanna Kulig (“Guerra
Fria” e “Agnus Dei”). IMPERDÍVEL com maiúscula!
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
“UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA” (”A
BEAUTIFUL DAY IN THE NEIGHBORHOOD”), 2019, EUA, direção de Marielle
Heller e roteiro escrito por Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster. Sabe aqueles
filmes bonitinhos e inocentes da Disney feitos para exibição numa sessão da tarde com a família
reunida, suco e pipoca? Não achei uma introdução melhor para definir meu sentimento com relação
a “Um Lindo Dia na Vizinhança”. A história relembra um fato acontecido em 1998.
O jornalista investigativo Tom Junod foi encarregado pela Revista Esquire de escrever
um perfil de Fred Rogers, apresentador do programa infanto-juvenil "Mister Rogers' Neighborhood", de grande audiência na TV dos EUA desde a década de 60. Para escrever o roteiro, Micah e Noah se basearam no próprio artigo de Tom Junod e no livro biográfico escrito por Rogers. No filme, o jornalista recebeu o nome de Lloyd
Vogel (Matthew Rhys) e Fred Rogers é interpretado por Tom Hanks. Na verdade, embora
o pano de fundo seja Rogers, o personagem principal é o jornalista, casado com
Andrea Vogel (Susan Kelechi Watson), com quem tem um filho, e seus problemas com
o pai Jerry Vogel (Chris Cooper, ótimo como sempre), a quem acusa de ser,
indiretamente, responsável pela morte da mãe. Enfim, Tom Hanks é o coadjuvante
da história, sendo indicado como tal para disputar o Oscar 2020, tendo perdido
para Brad Pitt. O filme tem um tom pedagógico e educativo, mensagens positivas - "o mundo é colorido" e outras banalidades -, parecendo mais uma
sessão de terapia em grupo para crianças e adolescentes. Um blá-blá-blá
entediante, com lições de moral que mais parecem um programa de autoajuda. Nem
o carisma de Tom Hanks consegue salvar “Um Lindo Dia na Vizinhança”, bobinho
como o próprio título. No Brasil, o filme, já lançado no circuito comercial, foi exibido pela primeira vez durante a programação do 21º Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em dezembro de 2019. Em seus comentários, os críticos profissionais, em geral, tentaram amenizar a chatice do filme, talvez em respeito a Tom Hanks. Mas o filme é chato mesmo.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
“MISSÃO DE HONRA” (“303:
Bitwa Anglie”, título original em polonês; filme ganhou dois nomes nos países
de língua inglesa: “Hurricane: 303 Squadron” e “Mission of Honor”), 2018, coprodução
Polônia/Inglaterra, 2h3m, direção de David Blair e roteiro de Robert Ryan. Mais
uma história da fonte inesgotável de histórias da Segunda Guerra Mundial. A não
ser aqueles que estudaram a fundo aquele conflito, poucos por aqui conheceram a
heroica participação de pilotos de caça poloneses lutando pela Inglaterra
contra os ataques aéreos alemães contra Londres e outras cidades. Depois de
lutarem contra os nazistas durante anos em seu país, eles foram para a
Inglaterra reforçar o contingente da RAF (Royal Air Force). Eles integraram o
famoso Esquadrão 303 da RAF, comandado pelo oficial John Kent “Kentowski” (Milo
Gibson, filho do Mel). Em suas inúmeras missões, os habilidosos e corajosos
aviadores poloneses derrubaram centenas de aviões de combate da Luftwaffe, a
força aérea alemã. Além de enaltecer os seus fatos heroicos, o filme também mostra os poloneses como um grupo irresponsável na rotina do quartel, dado a bebedeiras homéricas e brigas na base de socos. O filme mostra dezenas de cenas de combates aéreos emocionantes e
de muita tensão. Os pilotos poloneses foram considerados pelos ingleses e
países aliados, como verdadeiros heróis de guerra, o que não aconteceu quando
voltaram para a Polônia depois do final do conflito. Além de Milo Gibson, estão
no elenco Iwan Rheon, Marcin Dorocinski e Stefanie Martini. Um filme obrigatório
para quem gosta de relembrar ou ficar por dentro de fatos históricos.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
“CAVALOS
ROUBADOS” (“UT OG STAELE HESTER”), 2019, coprodução Noruega/Dinamarca/Suécia,
2h3m, direção de Hans Petter Moland (“O Cidadão do Ano”), que também escreveu o
roteiro baseado no romance escrito por Per Petterson. A história é ambientada
em 1999 e toda ela centrada em Trond (Stellan Skarsgard), um homem de 67 anos
que vive amargurado desde a morte da esposa num acidente de carro do qual ele
era o motorista. Trond resolve voltar ao vilarejo onde viveu desde que nasceu e
se isolar numa cabana, tendo ao seu lado apenas o cachorro de estimação. Tudo
parecia ir bem até Tronde encontrar com Lars Haug (Bjorn Floberg), antigo
morador do vilarejo que quando era criança participou diretamente de um evento
trágico. As conversas com Lars fizeram com que Trond comece a remoer o passado,
especificamente o verão de 1948, quando tinha 15 anos (papel do jovem Jon
Ranes). As recordações não são muito boas, pois envolvem o período em que Trond
foi abandonado pelo pai (Tobias Santalemann). Trond relembra também sua paixão frustrada
por uma mulher casada e bem mais velha (Danica Cursic). Tudo isso em longos flashbacks e a narração do próprio Trond.
O drama é muito bem feito, cenários deslumbrantes da Natureza, valorizados
pela fotografia de Rasmus Videbaek, premiada na 69ª edição do Festival de
Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019, onde o filme fez sua estreia mundial. “Cavalos Roubados” também foi exibido
por aqui durante a programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo. O filme representou a Noruega na disputa do Oscar 2020 de Melhor Filme
Estrangeiro. Cinema da melhor qualidade!
domingo, 16 de fevereiro de 2020
“O
RELATÓRIO (“THE REPORT”), 2019, Estados Unidos, 1h59m, roteiro e
direção de Scott Z. Burnes – mais conhecidos como diretor de curtas e séries
televisivas, este é o seu segundo lonta-metragem. Muito bom, aliás,
principalmente pela história ser baseada em fatos. Em 2007, o senado
norte-americano criou uma comissão para investigar as denúncias de que o
pessoal da CIA, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, submeteu
prisioneiros suspeitos, principalmente muçulmanos, a violentas torturas,
prática condenada pelo governo norte-americano. A comissão de investigação foi
comandada pela senadora Diane Feinstein (Annette Bening), que nomeou o agente
Daniel Jones (Adam Driver) para chefiar os trabalhos. Durante cinco anos, Daniel e sua reduzida equipe,
mesmo com a falta de colaboração da CIA, conseguiu elaborar um relatório de 700
páginas comprovando que as denúncias estavam corretas. Descobriu também que as
fitas e vídeos dos interrogatórios e relatos de técnicas de tortura foram
destruídos. Para isso, contou com a ajuda de um repórter do Jornal New York
Times e de pessoas que testemunhas que presenciaram ou participaram dos
interrogatórios. Mesmo com os protestos da CIA, o relatório foi divulgado pela
senadora e causou grande repercussão na mídia. Embora verborrágico demais – não
dá para piscar nas legendas -, o filme tem como principal trunfo manter uma
tensão angustiante até o desfecho. O elenco conta ainda com Joh Hamm, Sarah Goldberg
e Maura Tierney. E, mais uma vez, com uma brilhante atuação, Adam Driver prova
por que é hoje um dos atores mais requisitados por Hollywood. Depois de estrear
no Festival de Cinema de Toronto, em setembro de 2019, “O Relatório” foi
exibido por aqui durante a programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de
São Paulo, em outubro.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
“QUEM
COM FERRO FERE” (“QUIEN A HIERRO MATA”), 2019, Espanha, produção
Netflix, 1h42m, direção de Paco Plaza, com roteiro de Juan Galiñanes e Jorge
Guerricaechevarría. Fiquei na dúvida se assistia ou não este suspense espanhol,
principalmente por causa desse título horroroso em português. Pensei: lá vem
mais uma bomba! O que me motivou a assisti-lo ir foi a presença de Luis Tosar, um
ator espanhol que admiro há anos, com atuações em bons filmes como “Cela 211”, “Enquanto
Você Dorme” e “Segunda-Feira ao Sol”, entre tantos outros. Pois “Quem Com Ferro
Fere” é ótimo, com mais uma excelente atuação de Tosar. Ele faz o personagem
principal, Mario, enfermeiro-chefe de uma clínica residencial médica para
idosos. Certo dia, chega para ser internado Antonio Padín (Xan Cejudo), um
veterano e poderoso traficante de drogas que cumpria pena em regime fechado.
Porém, com sua saúde bastante debilitada, a justiça resolveu liberá-lo para ser
internado na tal clínica. A chegada de Padín traz uma recordação dolorosa para
Mario. Há muitos anos, Mario perdeu seu irmão mais moço em consequência de uma overdose,
justamente com a droga fornecida pelo cartel de Padín. Enquanto planeja uma
vingança sem deixar rastros, Mario tem de conviver com as ameaças dos dois
filhos malucos do velho, Kike (Enric Auquer) e Toño (Ismael Martínez), que
poderão atingir sua esposa Ana (María Luisa Mayol, mulher de Tosar na vida
real), que está prestes a ter nenê. O suspense vai aumentando cada vez mais, culminando com um desfecho
trágico e surpreendente. O filme é muito bom e merece ser conferido. Por suas atuações neste filme, o Festival Goya 2020 (o Oscar espanhol) premiou Luis Tosar como Melhor Ator e Enric Auquer como Melhor Ator Revelação. quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
“DOIS
PAPAS” (“The Two Popes”), 2019, produção Netflix, 2h06m, direção do
brasileiro Fernando Meirelles e roteiro de Anthony McCarten. O filme é ficcional e centrado
na relação entre o então cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) e o
Papa Bento XVI (Anthony Hopkins), cujas divergências dão margem a primorosos
diálogos, misturando seriedade, erudição e um fino bom humor. Bergoglio era favorável
às reformas na Igreja, enquanto o Papa Bento XIV, desde quando era o cardeal
alemão Joseph Ratzinger, era contra qualquer mudança. Durante a gestão de Bento
XVI, Bergoglio, por não concordar com a forma com que o papa alemão conduzia a
Igreja, resolveu pedir aposentadoria. Foi o que levou o cardeal argentino para
Roma conversar com Bento XVI. Daí as conversas que dão um toque especial ao
filme. Um verdadeiro e saboroso duelo verbal. Ao mesmo tempo, em flashbacks, o filme
relembra a trajetória de Bergoglio desde sua juventude até a decisão de se
tornar padre, atuando nos bairros pobres da periferia de Buenos Aires, que nunca
abandonou mesmo depois de se tornar cardeal. O roteiro escrito pelo neozelandês
Anthony McCarten, é um primor. Para escrevê-lo, ele se baseou em reportagens,
entrevistas e depoimentos de gente ligada ao Vaticano. Como roteirista,
McCarten já era respeitado pelos filmes “O destino de Uma Nação”, “A Teoria de
Tudo” e “Bohemian Rhapsody”. “Dois Papas” voltou a reunir Fernando Meirelles e
o ator Anthony Hopkins. Meirelles dirigiu Hopkins em “360”, de 2011. Depois de
se consagrar com o nacional “Cidade de Deus”, de 2002, Meirelles dirigiu, em 2005,
o elogiado “O Jardineiro Fiel”, seu primeiro filme em língua inglesa. Ou seja, com
a dupla Meirelles/McCarten, “Dois Papas” só poderia dar certo. Como realmente
deu. “Dois Papas” foi indicado ao Oscar 2020 em três categorias: Melhor Ator
(Jonathan Pryce), Melhor Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins) e Melhor Roteiro
Adaptado. Saiu de mãos abanando, mas é um ótimo filme. Imperdível!
domingo, 9 de fevereiro de 2020
Indicado para disputar o Oscar 2020 em três categorias (Melhor Filme, Melhor Edição de Som e Mixagem de Som), “FORD VS. FERRARI” corre por fora para Melhor Filme, ou seja, um azarão para concorrer com filmaços como “O Irlandês”, “Coringa”, “1917” e “Era Uma Vez... em Hollywood”. Em todo caso, vamos aguardar o veredito da Academia – estou escrevendo este comentário poucas horas antes da cerimônia do Oscar. “Ford vs. Ferrari”, 2019, Estados Unidos, 2h33m, foi dirigido por James Mangold, com roteiro de Jez Butterworth, John-Henry e Jason Keller. A história é real e relembra os acontecimentos da década de 60 envolvendo a Ford Motor Company e a italiana Ferrari. Em 1963, numa reunião dos mais altos executivos da Ford com o chefão Henry Ford II (Tracy Letts), chegou-se à conclusão de que a empresa deveria se modernizar, ganhar visibilidade, por exemplo, disputando as corridas de automobilismo. Foi citado o caso da Ferrari, marca que ficou famosa a partir das vitórias nas pistas. Para entrar no jogo, Henry Ford II tentou até comprar a Ferrari, enviando para a Itália o seu diretor Lee Iacocca (Jon Bernthal) para negociar com o próprio comendador Enzo Ferrari. Não deu certo, e Ford acabou liberando a contratação de uma equipe para projetar um carro de corrida próprio. A equipe era comandada pelo ex-piloto e projetista Carroll Shelby), que escolheu como piloto oficial Ken Miles (Christian Bale), também um conhecedor profundo da mecânica dos carros de corrida. O principal objetivo de Henry Ford II seria desbancar a supremacia da Ferrari na famosa “24 Horas de Le Mans”, na França, competição vencida pela marca italiana há vários anos. Depois de vencer o Grande Prêmio de Daytona (EUA) e provar que poderia enfrentar a Ferrari, o pessoal da Ford decidiu disputar Le Mans em 1966. Shelby também ficou famoso por ter projetado para a Ford os modelos Shelby Cobra, Shelby Daytona e Mustang Shelby, que fizeram grande sucesso nas pistas. O filme tem cenas de corrida bastante empolgantes, que garantem muita emoção até o final. Para os fãs do automobilismo, “Ford vs. Ferrari” é um programão. Mesmo quem não curte também vai gostar.
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